Thursday, December 31, 2009

Um ano dourado 2010! Janela aberta para a felicidade 2010!


Minha amiga Fafá (que não é de Belém) acaba de me mandar esta mensagem, dizendo que este é o mantra para o novo ano. Compartilho com vocês, pois quero mais é estar "feliz entre os felizes". Vamos abrir nossas janelas e deixar a felicidade entrar, combinado? Na verdade, vou é abrir as portas para a felicidade, pois não quero que ela entre na minha vida pela janela, tadinha, com risco de se machucar, ou perigando ser confundida com um assaltante. Abro a porta e a janela, ela que entre, e traga sua comitiva. A gente sempre encontra lugar para mais um, quando as visitas são queridas.
Guido me mandou a foto acima. Só consegui postá-la neste tamanho, e a cor da letra mudou sozinha, ou por causa dela, sei lá. Esses mistérios cibernéticos são variados, e eu sou muito preguiçosa para decifrá-los. Sem falar que gostei da cor. Gosto de azul. Mas queria ampliar um pouco a foto que ele, amigo virtual, mas nem por isso menos atento, me mandou com a certeza de que eu gostaria. Gostei mesmo, é mais um "auto-retrato" para minha galeria! Obrigada, Guido. Seus comentários são sempre benvindos, fico feliz por merecer sua amizade.

Dizem que a cor do ano é verde, cor de Vênus, que vai reger o novo ano. O horóscopo do Globo manda-me vestir "verde elétrico", mas não tenho noção de que cor seja essa. O horóscopo chinês diz que o ano será do Tigre, mas que só vai começar no dia 14 de fevereiro. A tradição manda comer lentilhas. Outros mandam comer uvas. Uns mandam pular sete ondas. Outras dizem que é essencial comer 12 uvas, em cima de uma cadeira, num pé só, fazendo seus pedidos para o Ano Novo – Gente, se eu for fazer isso só poderei pedir para não quebrar uma perna! Não devemos comer aves na ceia, pois as ditas "ciscam para trás", o melhor é comer porco, que "fuça para frente". Em Portugal, ninguém passa bem o ano se não comer bacalhau. Devemos usar amarelo para que o dinheiro não falte no novo ano. Faz bem comer romã. Outros dizem que faz bem comer tâmaras.  Junte a isso a repetição do mantra e já começamos o ano exaustos, de tanto cumprir obrigações!

Lembrei de como trocar a cor da letra, mas me entusiasmei e resolvi colocar cada parágrafo numa. Este aqui é para lembrar os reveillons do passado, quando a praia era um enorme terreiro de macumba, e os batuques começavam cedo. Um monte de ônibus  chegava com dias de antecedência, e as pessoas ficavam ali, dormindo e comendo  à volta do veículo estacionado na praia. De onde viriam? Acho que de Minas, de cidades do interior, todos querendo prestar suas homenagens religiosas. Talvez por isso mesmo São Pedro fosse mais camarada, e não mandasse chuva na noite de 31. A gente se admirava com o "loteamento da praia", toda dividida em terreiros, a areia aplainada, folhas de palmeiras e coqueiros delimitando áreas, e uma profusão de velas, todas enfiadas em buraquinhos na areia que impediam que a brisa do mar apagasse as chamas alegrinhas e dançantes. E todo o mundo dançava. Dançavam os "santos" dançavam as pessoas que perambulavam entre os terreiros, dançavam os devotos que levavam barcos cheios de oferendas, dançavam as mulheres que jogavam flores no mar, e paravam um instante para ver se as ondas levavam suas ofertas ou se as traziam de volta. Se íamos passear na praia, levávamos "passes", quiséssemos ou não. Eu não gostava nada daquilo, aquelas pessoas estranhas cheirando a cachaça e me baforando com a fumaça de charutos, mas não tinha como escapar: era uma menina lourinha e bem educada, funcionava como uma espécie de ímã. E meu avô achava que aquilo era de muito bom augúrio. 

(Este parágrafo era para ser amarelo, mas ia ficar ilegível, mas pensem nele como amarelo, por favor)As simpatias para ganhar dinheiro só me foram ensinadas muito mais tarde. Minha avó, o que queria, era que a casa e a mesa fossem sempre fartas, por isso devíamos passar a meia-noite com comida sobre a mesa.  Até hoje deixo uma garrafa de vinho e alguma coisa comestível sobre a minha, por causa disso. Depois aprendi que devíamos enfeitar a casa com trigo. Tudo bem, os arranjos ficam bonitos mesmo. E me ensinaram a simpatia dos Reis Magos, para guardar na carteira. À medida que vamos ficando mais velhos, vamos ficando mais e mais "soterrados" de tradições e crenças. Chega num ponto que, ou abandonamos tudo, ou precisamos de duas noites para celebrar o reveillon, pois numa só não conseguimos terminar.

Já usei o vermelho, então fico com essa cor de rosa puxadinha para o lilás, a fim de falar sobre as coisas do coração. Houve uma época em que isso me interessava muito. Queria o vermelho da paixão, e o rosa do amor. Era uma dificuldade me vestir para a ocasião. Branco, pois era (ainda é) o costume. Uma peça de roupa precisava ser amarela ($$$$) outra vermelha (paixão), outra rosa (amor verdadeiro)… No ano em que me vesti de azul e branco, no entanto, foi o que me achei mais feliz. Estava de bem comigo, passei o reveillon de bikini e kanga, à beira da piscina, em Angra. Não me preocupei com as cores, e foi o ano em que tudo deu certo, vejam só. Em 05/06 passei a noite de preto. Achei que ia deixar todo mundo chocado, mas, como estava num hotel cheio de estrangeiros, havia incontáveis outras pessoas também de preto. Foi bom ter ido viajar, não ofendi ninguém com meus trajes.

Volto ao pretinho de sempre, a melhor cor para a escrita. Desejo a todos muitas felicidades, em tecnicolor. Escolham vocês a cor que quiserem, repitam os mantras que julgarem melhor, festejem, recolham-se, escolham a praia ou a montanha, fiquem com a família ou saiam com os amigos. Que o ano nos traga a todos bons livros. Que os dias de 2010 nos encontrem cheios de entusiasmo. Que as noites de 2010 sejam em boa companhia. Que as razões para comemorar sejam muitas. Que a grana seja abundante e que as dívidas sejam poucas. E que ninguém tenha indigestão.

Monday, December 28, 2009

E os livros?

Gente, volto a escrever porque parece que tudo o que faço é ir ao cinema! Mas não é assim, não. Leio, leio e tresleio. Além do As seis mulheres de Henrique VIII, que estou lendo com meu grupinho amado, li bastante esta semana: Histórias apócrifas, daquele Karel Capek; Caim, do Saramago; Milamor e Solo feminino da Lívia Garcia Rosa; A contorcionista mongol, de Roberto Muggiati; O livro de Hai-Cais, Mário Quintana; A vida íntima de Pippa Lee, da filha do Arthur Miller. Mais um da Heloísa Seixas, cujo título esqueci. E tem mais, mas esqueci até do nome do autor. Dá uma média de 1 a cada dois dias, isso se a gente não contar os livros para as resenhas, pois esses são "trabalho". Eu gosto muito de ler, mas estou exagerando. Lendo tanto, não consigo tempo para escrever. Desses que li, coloco meu selo de "altamente recomendável" em Capek e em Saramago. Meu selo de "muito bom" na Lívia, na Heloísa e no Quintana – que peca por ter sido uma "escolha", uma montagem de um terceiro –. Meu selo de "pode esquecer" no Pippa Lee. Meu selo de "divertido" naquele cujo nome esqueci e na contorcionista. Vou me dar mais uma semana de leitura intensiva, pois tenho muitos livros aguardando na fila. Depois, vou escrever. Começarei o ano escrevendo! Este é meu propósito para 2010: terminar todos os projetos em andamento e começar outros dois – um acadêmico e outro de ficção! Me aguardem!

Filme triste

Não vou ficar aqui falando de tristezas. No entanto, preciso comentar a programação do Estação Ipanema: alguém deve estar à beira da depressão. Os dois filmes são tristíssimos: Um segredo em família e Cerejeiras em flor. Tinha assistido o primeiro há algum tempo atrás, acho que na semana passada. O filme me impressionou como uma espécie de escolha de Sofia, a escolha entre a fé e a sobrevivência  – embora alguns amigos tenham interpretado a ação da mulher traída como uma vingança contra o marido. Eu, com minha interpretação, sendo uma mulher de pouca fé, acho que, no lugar dela, no entanto, por uma questão de lealdade, teria feito o mesmo. Achei interessante a discussão de minhas amigas, que afirmavam que ela sabia que estava condenando o filho à morte. Será que sabia? Será que as pessoas estavam cientes do que se passava? Será que tinham informação dos horrores? Será que conseguiam acreditar nestes horrores? Pois há um limite para o que se consegue acreditar. Nós mesmos, aqui no Rio de Janeiro, será que temos ciência do que verdadeiramente acontece nos morros e nos locais mais pobres da cidade? Será que não somos tão cegos como a população daquela época, que, quando escutava relatos, colocava os fatos mais escabrosos na conta de "propaganda de guerra"? De qualquer forma, não é um filme depressivo. O filho resgata a humanidade da família, redime o pecado original. Mas é um filme triste.
As cerejeiras, com seu título tão poético, é tristíssimo. Passei o filme todo chorando, mas levem em conta minha empatia com o personagem. Ele perde a companheira de toda uma vida e se desorienta. Mas como não se desorientar? Ele, no entanto, teve a sorte de morrer 6 meses depois. Como retratar a tristeza de quem continua vivo e sofrendo por muito tempo depois? O bonito do filme são os personagens absolutamente medianos: ao contrário do Segredo, em Cerejeiras não existe um fator "heróico". Trata-se da vida de qualquer um, da insensibilidade que nos permite viver anos ao lado de alguém sem que nos detenhamos para conhecer um pouco melhor essa pessoa, e, no entanto, amando esse alguém desconhecido com devoção. Trata-se da impossível relação com os filhos, que precisam de nós, mas que nos repudiam para poderem ser indivíduos. Trata-se das surpresas que a vida nos traz, dos segredos que guardamos, das pequenas violências que cometemos e que nos fazem tanto mal, a nós e aos outros. Em resumo, um filme tristíssimo.
Mas a vida nos oferece amigos, sem que a gente nem coloque uma estrela de Belém para atraí-los. Eles chegam com ouro, incenso e mirra, em suas palavras e em seus gestos inesperados. Obrigada, Márcio, pelo comentário. Obrigada, Aninha, pelo apreço. Vocês alegram meus dias. São os meus Reis Magos (visitem o blog do Marcio e da Brenda, Imagem Semanal ), virtuais. Juntamente com os reis e rainhas que me procuram com palavras e presentes, vocês são aqueles que reparam o dique que mantem represadas as minhas lágrimas. Meus sorrisos são dedicados a todos vocês, que nunca me esquecem. 

Saturday, December 26, 2009

Finalmente montei uma árvore de Natal este ano! É bem verdade que é só aqui no blog, e que ela é descaradamente roubada da New Yorker. Mas é a única árvore de Natal que eu poderia montar, e, assim mesmo, só depois de passado o pesadelo. Pois o Natal, para mim, se transformou numa grande provação. Preciso dar um jeito nisso, mas ainda não consegui. Me esforço, faço cara de alegre, cozinho delícias, estreio roupa nova, mas, por dentro, estou raivosa. Minha tristeza transformou-se numa raiva surda contra a vida, uma irritação ranzinza, de quem procura motivos para se sentir infeliz. Espertinha como sou, reconheço os sintomas e reajo, mas isso não me impede de terminar os rituais sempre em lágrimas de frustração. Bem, os amigos que desculpem a sessão de psicanálise.  Concentrem-se apenas na árvore de Natal, toda feita de livros. Quais os livros que vocês colocariam nela? Obviamente que, por razão da época natalina, a minha estaria com algumas histórias de Natal: a Menina dos Fósforos (acho que não existe história mais triste!); Scrooge, do Dickens; The Polar Express; a Bíblia; Morte e Vida Severina; livros que ensinam a fazer arranjos de Natal, livros de culinária e de arrumação de mesa. Estes livros temáticos serviriam como os "enfeites". Para a árvore "enquanto árvore", procuraria lembrar de meus favoritos. Claro que, como mexi  em Dickens, aproveitaria para pegar um David Copperfield, um Tale of Two Cities e The Prince and The Pauper. Chega. Não preciso da obra completa do autor. Obra quase completa seria a de Machado de Assis: todos os contos, quase todos os romances, todas as crônicas. Os contos de Grimm, minha coleção de "Os mais belos contos …", desaparecida, mas que compunha-se de contos de fada russos, contos do Roman de Renard, contos das Mil e Uma Noites e tantos outros. Eça de Queirós, tudo. Camilo: Amor de Perdição, Amor de Salvação, A queda de um anjo. E a Dama Pé de Cabra, de quem era mesmo? Herculano? Sim, colocaria os contos dele. E muita coisa de Victor Hugo, os romances. Lembrando dele, iria pegar meus queridos capa e espada: Os Três Mosqueteiros, O homem da máscara de ferro, O homem que ri, e, porque não, O Conde de Monte Cristo, os romances de Dumas Pai e Filho que nunca soube quem escreveu o quê. Nestas leituras de juventude, colocaria as deliciosas aventuras de Arsène Lupin, e as de Sherlock Holmes, e as histórias de Agatha Christie, tanto as da Miss Marple como as do seboso Poiret. E o Magazine de Mistério do Ellery Queen. Colocaria toda minha seção de teatro, as peças gregas e romanas, as francesas, as de Martins Pena, as do Ariano. Chekov entraria, assim como Dostoievski e Tolstoi. Proust, é claro. Tudo, tudinho. Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. M. Ségur. Callado. Mario e Oswald. Vargas Llosa. Hemingway. Borges. Cortazar. Maupassant e Monteiro Lobato. Já estou cansada de carregar livros, e, se continuar neste ritmo, ao invés de árvore construirei uma torre de Babel ( o que me faz lembrar de incluir Saramago e Mia Couto). Paro por aqui, mas ainda resolvo colocar umas guirlandas poéticas. Manuel Bandeira, João Cabral, Silvia Plath, Adrienne Rich, Paul Celan, Drummond, Menotti, Jorge de Lima, Victor Hugo, Baudelaire ( Ih, tenho que colocar na árvore o Flaubert!) Rimbaud,Pessoa,  Cecília ( Ih, deixei a Clarice fora da árvore, será que dá para encaixar?) Olhando os outros livros que deixei de fora, vejo que preciso construir, ao invés de uma árvore de Natal, uma Floresta de Natal. Tantos livros de autores recentes: Roth e Oz, para não mencionar os brasileiros contemporâneos que nem começo a citar para não encompridar mais o post. E vocês? Como ficaria a árvore de cada um de vocês? Não esqueçam dos meus livrinhos, hein?!

Monday, December 21, 2009

Avatar

Ontem à noite, um programa inesperado: fui assistir Avatar, e gostei. Uma boa diversão, um filme bonito e bem feito que, por mim, poderia ter sido realizado com muitos minutos a menos, bastava cortar todas aquelas cenas de batalha, para mim intermináveis. O que mais me chamou a atenção foi o fato de que a imaginação do lado do "mal" ficou pesada e pouco futurística. Os artefatos eram grandes demais, pesados demais. As pessoas não evoluíram: o sargentão do futuro pode ser encontrado desde os tempos do Vietnam, eu acho. (Ou até mesmo antes – de quando era datada a história de Biloxy Blues?) As armaduras são conceitos ainda medievais e o malvadão lá estava dentro dela, se achando todopoderoso! E os bicicópteros? Aquela cruza de bicicleta com helicópteros me pareceu a coisa mais atrasada, juntamente com a imensidão da máquina desmatadora.
Mas a imaginação que deu vida a Pandora também buscou inspiração no passado: dinossauros, pterodáctilos, dentes de sabre… Mas tudo lindo, colorido, e os humanóides elegantes, sem maiores exageros. 
O que mais gostei foi da "trança tecnológica". Finalmente descobrimos para que servem os cabelos! Já as cerimônias em frente à Árvore da Vida, me pareceram muito primitivas. 
Volto à vida real, com minhas limitações. Antes de partir, porém, registro mais uma vez a cena futurística que mais me emocionou em filmes de ficção científica: os homens-livro, ao final de Farenheit. E, por mais que me emocione, também é a que mais me angustia. Além das razões óbvias, sempre que me lembro dela, embarco no dilema: que livro eu escolheria ser? Eu, desmemoriada, a que livro devotaria minha infidelidade?
Já ia me esquecendo: O livro que li ontem é mesmo ótimo, inteligente, mas não é apaixonante. Por isso, não leiam de uma assentada, como eu o fiz. Degustem devagarzinho, saboreiem os raciocínios, pois assim ele será mais bem aproveitado. Das histórias que li, uma me fascinou: a carta de Alexandre a Aristóteles, ou como racionalizar a ambição da loucura…

Sunday, December 20, 2009

Artes culinárias

Ontem fui ao cinema e depois jantar com umas amigas. Estou tomando antibióticos e não bebi, e ainda me gabei de nunca ter ficado de ressaca na vida. Paguei pela língua. Mesmo sem beber nada, acordei de ressaca. Só pode ser isso, um castigo. Tontinha, e com vontade de cozinhar. Estou aguardando os próximos dias para ver se essa loucura continua, e aí me interno num asilo, completamente pirada. Mas, enquanto estava com a bendita ressaca culinária, resolvi fazer um almoço gostosinho: Lombinho recheado com purê de castanhas, ao molho de vinho tinto. Purê de maçã, com canela e gengibre. Salada de rúcola, lascas de parmesão e figos. Só que não encontrei os figos para vender, fiz com lichia, e ficou ainda mais gostoso, embora não tão bonito. De sobremesa, cerejas. Um cafezinho. C'est tout.  Ainda bem que minha queridíssima Flora se habilitou, pois, de outra forma, teria que comer sozinha, e ia ficar muito triste. Mas assim foi legal. Comemos, assistimos o ma-ra-vi-lho-so ballet do Proust e ela se foi, para o concerto da Petrobrás. Eu vou ler. Comprei um livro ontem (acho que todos os dias eu compro livro) pela indicação da resenha do editor do caderno Ideias, do JB. Histórias apócrifas, acho que é o nome. Comecei ontem, mas saí e tive que parar de ler, mas não vejo a hora de recomeçar a leitura. Karel Çapek, é o nome do autor ( na verdade, sem cedilha, mas com um chapeuzinho invertido no C, que não sei como fazer neste computador), foi o inventor da palavra Robot, mas este livro não tem nada a ver com isso, e sim com a "rabugice" da humanidade. Desde o tempo dos mitos, passando pelas cavernas, escolhendo na história algumas situações hilárias, mas de um grave teor filosófico… Bem, só li as três primeiras, volto ao livro e conto mais depois.
Bom domingo. Incrível que já estamos nos dez últimos dias do ano, e eu continuo com a sensação de que ainda não fiz nada que valesse a pena este ano. Será que ainda vou fazer?

Saturday, December 19, 2009

Lista de Natal

Natal já foi um tempo feliz, mas depois passou a ser meio angustiante. As perdas começaram e as ausências foram ficando mais numerosas que as presenças. Isso me complica as datas festivas, me faz ficar sempre dividida entre o compromisso com os vivos e o desinteresse pela vida. Daí que resolvi fazer uma lista de coisas que são boas no Natal:
Em primeiro lugar, fazer listas. É um exercício de organização, e ajuda a estruturar o pensamento. Só que eu sou uma desorganizada, e nunca as faço. E, quando faço, esqueço-as em casa… Mas, se eu cumprisse o meu dever, isso me facilitaria muito a vida.
Em segundo lugar, o prazer de comprar presentes. Não todos, não aqueles que a gente compra por dever, aqueles que só fazem provocar rombos no orçamento. Só aqueles que a gente deseja mesmo dar a pessoas especiais que iluminam nossas vidas, esses nos causam um grande prazer. Comprar aquele livro que vai fazer os olhos de uma amiga brilhar. Comprar o tom certo de baton para outra. A blusa que uma precisava, aquele presentinho absolutamente inútil mas que é lindo, e é a cara do presenteado. Aquele que é muito desejado por alguém … Essas compras me dão muita alegria.
Bolar cartões de Natal para amigos, é outra coisa que também me encanta. Faço uns cartõezinhos muito mal acabados ( meus dedos até que são hábeis, mas não tenho as ferramentas adequadas e não acho que precise comprá-las para trabalhar só no Natal), mas que, modéstia à parte, até são criativos.
Nos dois últimos anos, graças ao Histórias possíveis, outra coisa que me agrada é escrever contos de Natal. No ano passado foi uma historinha de amor, bem alegrinha "Natal no Leblon". Este ano, mais intimista, uma história da passagem do tempo em família "História do Natal".
Outra coisa que me dá muito prazer, são as reuniões de amigos. Amigo oculto, grupo de Proust, grupo novo, grupo velho, tradicional feijoada, mesmo sem tempo, às vezes até sem assunto, adoro ir a todas as reuniões que consigo. E fico morrendo de pena quando coincidem, pois aí tenho que abdicar de alguma delas.
Outra coisa que acontece comigo nesta época é ficar sonhando em lugares onde gostaria de passar o Natal e o Reveillon. Este ano fiquei desejando Egito e Jordânia. Engraçado, nunca tenho vontade de passar essa época em NY e Paris. Mas gosto muito quando vou a uma dessas cidades um pouco antes do Natal, para ver a decoração. Tudo tão lindo!
Para terminar, a árvore de Natal da Lagoa, e seus fogos de artifício. Ela é mesmo linda!
Desejar Feliz Natal às pessoas, sorrir a esmo, cheirinho de árvore de Natal, a sacola da Granado, com o Papai Noel botando polvilho nas botinas, para tirar o chulé, um monte de bobagens que vão enchendo meus olhos ora de lágrimas comovidas ora de estrelas de alegria.
E a correria. É por conta dela que paro por aqui. Acabei de lembrar que preciso sair!
Feliz Natal!

Sunday, December 13, 2009

Indizível

Há coisas que não devem ser ditas. Palavras que, uma vez que são proferidas, estragam o ambiente, afugentam, corrompem e destroem.  Tenho muito medo dessas palavras, porque sou uma pessoa sensível e custo mais a apagá-las do que deveria.  As vezes as palavras proferidas são até inocentes. Mas a brincadeira fica sem graça, ou o momento é inoportuno, e para sempre as lembranças ficarão enodoadas, recordando a gafe. E aí as conversas morrem de inanição, pois parece que não há mais o que dizer depois do que foi dito e que ficou, indelevelmente, registrado.
Senhoras e senhores, fujam das palavras dúbias, das brincadeiras grosseiras, dos ditos que podem parecer inocentes numa mesa de bar entre amigos mas que se transformam em icebergs perigosos em outras ocasiões.
Mudando de assunto, fui assistir o filme do Woody Allen, mas, para vê-lo, precisei primeiro assistir ao New York I love you, que já tinha visto no festival. Gostei, na ocasião, e ainda acho que o filme é bom, mas não é daqueles que me fariam voltar ao cinema mais uma vez, nem sequer alugar o DVD… Mas levei a coisa como um rito de passagem, e fiquei (desta vez) analisando os defeitos do filme. Acho que ele peca quando quer ser "artsy" – elevar os episódios a histórias exemplares, quando o charme do filme é a crônica, o instantâneo.  Por isso, embora as pinturas sejam belas, o episódio do artista obcecado pelo rosto da vendedora em Chinatown não me agradou.  Gostei mais do paquerador (um escritor, tomem nota) que gasta sua lábia em vão… mas não digo o porque, para não ser desmancha prazeres. O casal de velhinhos é simpático, e os atores são ótimos, mas as tintas são muito carregadas, está muito próximo à caricatura. Os amantes fortuitos… sei lá, são uma boa fantasia, tanto um casal como o outro. Os caras do taxi são ótimos, o "manny" (male nanny) também é muito revelador. Só que ver de novo todo o filme, cansa. Mas aí veio o Tudo pode dar certo, e a segurança do Allen me encantou. Esse dá vontade de ver de novo, para observar os detalhes. Detalhes que tornam o filme uma lição de narração (e cinema, é óbvio). As conversas com os espectadores, por exemplo, uma delícia, num jogo de vai e vem absolutamente perfeito. A revelação das razões da atração do homem mais velho pela jovem, e vice-versa, sem apelações, ocorrendo tão naturalmente que se torna literalmente irresistível. E as mudanças que esta relação ocasiona, sem que, na verdade, nenhuma essência seja modificada, já que apenas os traços existentes se acentuam ou se esfumam, de acordo com as novas proximidades. Os pais dela caem nos clichês, mas sem exageros, e os atores são tão bons que a gente acredita neles e nas situações que vivem.
Mas a pérola, na minha opinião, é a cena de amor entre a moça e o rapaz , quando estar "preparado" ou "prevenido" revela toda sua relatividade.
Assistam. É um filme divertido e que de bônus oferece uma boa ginástica para os neurônios preguiçosos.
E mais não digo.

Friday, December 11, 2009

Luís XIV

Nada sei de Luís XIV, nem tenho nada a dizer sobre ele. No entanto, parece que o dilúvio que ele invocou a segui-lo andou se desviando mas chegou ao Rio de Janeiro. Será que vamos ter 40 dias de chuva? Será que preciso arrumar um bote que me permita sair daqui de minha alta torre para buscar um monte Ararat onde encalhe? Ontem à noite, depois de cruzar a cidade chuvosa duas vezes, vim me refugiar em casa, com vontade de nunca mais sair. Olhei satisfeita para meus livros, meus DVD's, e vi que tinha alimento para o resto da vida. Minha cozinha, no entanto, é desprovida de sustento. Pacotes de sopa instantânea, algumas folhas amarelando na geladeira, pouco mais. Algum café, temperos sem nome… Definitivamente, precisarei de um bote se a chuva continuar. Mas ontem podia me dar ao luxo de ficar em casa, no seco, mergulhada na beleza do ballet que graças a minha amiga Marie Louise podia ficar assistindo. Como agradecer a esta linda e delicada criatura, que me trouxe de presente o ballet de Proust, pelo qual já cometi loucuras como embarcar, de uma hora para outra, para Paris, a fim de assisti-lo?  Agora, quando soube que o ballet tinha saído em DVD, fiquei louca de vontade de voltar a assisti-lo. Que lindo! Proust ou les intermittences du coeur, ballet en deux actes et treize tableaux. Coreografia de Roland Petit, música de Beethoven, Debussy, Fauré, Franck, Reynaldo Hahn, Saint-Saëns e Wagner. E todo o corpo de baile da Opéra de Paris.  Ah, que maravilha! Acho que nem Louis, Le Roi Soleil, teve mais satisfação do que eu. Na verdade, tive muitos momentos de princesa em minha vida: Estive no Louvre, sozinha (literalmente) numa sala com a Gioconda, antes de sua proteção de vidro, numa saleta onde ela era apenas mais um dos quadros. Pequeno, nada de grandioso, como eu esperava. E cheia de craquelé, o que muito me admirou. No mesmo Louvre, eu e uma amiga, na ala grega, brincamos de telefone sem fio com as urnas de mármore, postadas nas extremidades de um amplo salão. Isso depois de meus olhos avaliarem, negativamente, a beleza da Vênus de Milo. Não que eu tivesse achado a deusa feia, mas me admirava de que ela fosse tão "massiva". Em inglês há um adjetivo para mulheres como ela que é, exatamente, "statuesque". Que é bem diferente do nosso "escultural", que se prende mais ao torneamento do que à sensação de grandiosidade, de concretude, da beleza de algumas mulheres. Mas, aqui mesmo no Rio, tive de sobra momentos de princesa. Um dia, por exemplo, ao voltar de uma viagem, atravessei o túnel Rebouças deixando para trás uma Tijuca chuviscante e, ao sair na Lagoa, o que me esperava era um dia radioso, com o sol ofuscando as águas da Lagoa, e a saudade fazendo meu coração explodir e provocando lágrimas de puro êxtase. Por falar em êxtase, os momentos sem fim em frente à imagem do êxtase de Santa Teresa, onde, na igreja quieta e quase sempre deserta, me esqueço do tempo e dos pés cansados de turista… Nem sei expressar o quanto gosto de arte, nem o prazer que ela provoca em mim. Um bom livro também é capaz de me dar a mesma sensação. E creio que alguma "memória corporal" desses momentos fica em mim, pois, ao falar sobre esses livros, minhas amigas dizem que minha expressão se modifica.
Agora, ao escrever estas palavras, vejo que o sol volta a aparecer. Bom isso. Principalmente porque hoje tenho um programa ao ar livre: assistir ao filme do Woody Allen no Vale Open Air. Terei mais um momento de princesa? Talvez, embora poucos sejam os filmes que me tenham impressionado assim. Um foi, sem dúvida O Leopardo. Outro foi 2001. Mas não posso esquecer de maravilhas como O incrível exército de Brancaleone, O mensageiro, A filha de Ryan, Amarcord, Barbarella… Pretty inconsistent, uh? Mas eu sou assim, como o Mário de Andrade descreveu: múltipla, arlequinal, 350. 
Para terminar, mais um viva a minha amiga, imperatriz no nome e nas graças! A minha duquesa de Guermantes, com seu perfil de pássaro, sua elegância natural, e seu eterno ar de menina em flor!

Monday, December 07, 2009

Entre Dante e Henrique VIII

Mergulhada em trabalho, indo de Dante a Henry VIII. Pode parecer que os dois têm pouco em comum, mas vejo algumas semelhanças: ambos são polígamos. Todos falam de Dante e Beatriz, mas ele era casado com Gemma , desde os 12 anos de idade. Sim. Naquela época os pais não perdiam tempo. Antes que os filhos criassem asinhas e saíssem se engraçando com as meninas erradas, eles já iam logo casando e garantindo os acordos comerciais. Pois casamento não tinha nada a ver com amor. Só que o poeta também era precoce, e aos 9 já se engraçou pela vizinha, a Bice, Beata, Beatrice que nunca falou com ele (é o que dizem) e que se casou com outro, e depois morreu. Naquela época as pessoas tinham o mau hábito de morrerem cedo. O próprio Dante morreu aos cinquenta e pouco. Henrique VIII, que, ao subir ao trono pouco antes de completar 18 anos, foi considerado o mais belo rei da cristandade, também era precoce. Foi ele, aos 11 anos, que levou a noiva do irmão ao altar, e, dizem foi neste dia que ele se apaixonou por Catarina de Aragão. Catarina, que era filha dos reis católicos, Fernão de Aragão e Isabel de Castela, era uma menina bonitinha. Tinha 16 anos quando casou com esse Arthur, irmão do Henrique, baixinho e franzino, setemesino, como dizem os espanhóis, que morreu alguns meses depois, sem ter consumado o casamento.  A imagem do cunhado, o príncipe louro, de 1,90, atlético e sonhador, deve de ter povoado os sonhos da princesa. Principalmente porque ele foi o único que a tratou com carinho, e quis se casar com ela desde a morte de seu irmão. O pai não deixou, mas ele, mal subiu ao trono, decidiu. Casou-se com a cunhada e com ela ficou por 20 anos. Aí as coisas começaram a complicar. Ele com quase 40, Catarina com 43, e nada de vir um herdeiro. Entre as damas da rainha estava a sedutora Anna Bolena. Harry já não era mais o formoso jovem rei. Provavelmente diabético, engordara muito. Suas pernas, antes longas e atléticas, estavam inchadas e ulceradas. Ele decidiu casar-se com ela. Quis o divórcio, Catarina não deu. Quis anular o casamento, o Papa não deixou. Henry mandou Papa e mulher às favas, fundou a Igreja anglicana e se casou com Anna dos 1000 dias.  Disseram que ela o traía. Ele a mandou matar e arranjou outra, que lhe deu o desejado filho homem, mas morreu em seguida. Ele mandou vir outra princesa, para garantir mais um herdeiro. Mandaram-lhe uma feiosa. Ele não quis. Já estava mais velho, com problemas causados pela diabetes, não existia Viagra e eles se separaram amigavelmente. Tão amigavelmente que ela ficou morando na Inglaterra, com o título de "irmã" do rei. Nisso surgiu uma moçoila, desmiolada e muito namoradeira, pela qual o rei se engraçou. Só que ela se engraçou por outro e acabou no cadafalso. Mas o rei gostava da vida conjugal, e arranjou uma mulher sensata, com jeito para enfermeira, com quem ficou até a sua morte. 
Bem, enquanto eu tentava destrinçar toda essa confusão inglesa, procurando, antes mesmo de chegar ao King Harry , descobrir as razões das Guerras das Duas Rosas, também ia tentando enredar a vida de Dante num conto que preciso entregar em breve. Coloquei Dante no meio da selva escura, e reformei seu paraíso usando as tintas infernais. Espero que gostem, quando lerem o conto. Tomara!
Desculpem o silêncio. Não foi de esquecimento, nem de viagem. Vou ficar por aqui. Natal e Reveillon bem sossegada no Rio. Em janeiro talvez eu vá, mas ainda não sei para onde. Por aí. Ou por aqui, em Itaipava. Mas janeiro é só ano que vem, ainda falta…

Wednesday, December 02, 2009

alfabetos

Assino geralmente com um L maiúsculo, acho que por preguiça. Esta é minha assinatura de imeios e de dedicatórias e cartões. A assinatura "oficial" é mais completa. Mas para os amigos, vou colocando só a inicial, onde antes colocava Lucinha, ou Lu, ou Lúcia. Passei a me esconder atrás de uma letra, mas nunca tinha pensado em como os outros, recebendo o imeio ou o cartão, leriam essa assinatura. Um novo amigo retrucou: –L (Elle?)– e eu fiquei meio perplexa. Como me dizer, se não me digo, apenas me escrevo? L sem som, só um arabesco desenhado na página, um voo de quem já se quer em outro lugar, alguém que até eu mesma desconheço. Já não sou mais a Lucinha (nem lucinha, como uns tempos assinei). Sou Lúcia Bettencourt, que assino contos e textos diversos, mas já não sou mais a Lúcia B. Sou L, não sou nada. Sou.
Por uns tempos, no colégio, faziam a chamada usando números e eu era 93. Passei a gostar de números ímpares nesta época. Me dei conta de que tinha nascido num dia ímpar, 19 (embora mês e ano fossem pares).  Mas gosto de todos os números, cada qual com seu desenho funcional e inequívoco 1-2-3… Até mesmo o misterioso zero me agrada, mas já me disseram que zero não é número e eu aprendi, embora não acredite.
As letras me fascinam, com sua multiplicidade. Podem ser de imprensa ou manuscritas, podem ser maiúsculas ou minúsculas, podem ser até números (algarismos romanos, símbolos algébricos). As letras podem ser o que quiserem. Podem ser Deus. Combinam-se de outras maneiras e formam idiomas diferentes: Se escrevo bom, estou em português. Se mudo a ordem das letras, mob, passei para inglês. Num alfabeto conheço os prazeres do demiurgo. Das letras tiro o mundo, ou, com elas, o obscureço. Os alfabetos são minhas estrelas. Contemplo-os e completo-os com a imaginação.

Sunday, November 29, 2009

Vento forte

Li, há muitos anos, um romance que me apaixonou, Vento forte, acho que do Astúrias. Fiquei tão encantada, com um sentimento de embriaguês, de intoxicação, contaminação, não sei bem explicar. Só sei que alguns livros que lia me provocavam essa sensação, e a certeza de que eu queria escrever e provocar esse sentimento nos outros. Há pouco tempo tentei reler esse livro. Não consegui sair das primeiras páginas. O que se passou com o livro, ou comigo?  
Quando tinha uns 15 anos, adorava sair nas horas que o vento estava soprando forte. Ia caminhando a favor do vento, meio que carregada por ele, quase que voando, ou caminhava contra o vento, num esforço do mármore que deseja ser esculpido, e pouco a pouco sentia que aquilo que me sobrava, que não me era essencial, ia se separando de mim, e me deixava precisa, como um verso. Hoje me escondo. O que me separa daquela jovem? Daquele livro? De mim mesma?
Esta madrugada ventou muito. Eu estava acordada, olhos abertos na escuridão, escutando os uivos do vento e pressentindo os tumultos que ele provocava. O vento bateu em minha janela, assobiou, cantou me chamando, mas não atendi. Fiquei covardemente enrolada nos lençóis vermelhos de minha cama, sangue derramado inutilmente.  De manhã, os sinais da batalha perdida: vasos derrubados, a cortina da sala pendurada do lado de fora da janela, papéis esparsos. No seu despeito de amante desprezado, o vento só partiu depois de mostrar um pouco de sua fúria. Como todo amante, a ternura que outrora nos uniu impediu que ele provocasse danos mais extensos. Mas me sinto ferida e frágil. Minha alma, tal como o mar, está cinzenta, turvada. Confusa, mal consigo funcionar. Trato de colocar a casa em ordem, lentamente. Os planos que tinha para esta manhã ficaram relegados para outra ocasião. Nada de Primavera dos Livros, recolho-me, encolho-me. Em meus olhos, uma ameaça de chuva. Sim, tenho vontade de chorar, mas não choro. Me nego à vida.

Mudando, como o vento, uma pequenina observação. Meu blog é feioso, eu sei, mas o da Julie Powell também é. Isso me anima.

Saturday, November 28, 2009

Agora, Brasil.

Estávamos no quase. Uma palavra que pode ser altamente decepcionante, ou extremamente instigante. Este quase da história do Mia é comparável ao "entrelugar", ao gatilho da ficção.  Mas imaginem a cena entre dois namorados:
 –Gostou, amor?
–Quase…
Não sejam maldosos, o cenário que imaginei é a saída do cinema. Os dois pombinhos tinham ido assistir o filme que mais se discute atualmente: Lula, o filho do Brasil. 
Não vi o filme, por isso não posso dar minha opinião. Mas posso deixar aqui a opinião de leitora das críticas –abundantes– do filme. Quem se destaca ali é dona Lindu, aquela que nasceu analfabeta, lembram? Interpretada pela Glória Pires, virou unanimidade. Todos gostam dela. Daí que lembrei de uma campanha eleitoral dos nossos manos portugueses, e faço uma paródia: "Dona Lindu ao poder, já que o filho dela já lá está!"… É isso aí: é quase engraçado.

Antes de colocar o ponto final, agradeço ao encorajamento do Ernane e do Márcio. Obrigada a vocês dois, obrigada a todos vocês que me lêem, aos que me deixam mensagens. As suas palavras me dão forças e alimento.

África e Brasil

Ontem fui à Travessa (quando é que não vou à Travessa, ou à Argumento? – fica meio estranha essa crase na frente de palavra feminina, mas subentendam "livraria") Bem, mas fui lá para escutar dois escritores a quem muito aprecio: Mia Couto e Agualusa. Antes de falar qualquer coisa, divago sobre os nomes portugueses: como são especiais! Morei em Portugal por alguns anos e lá aprendi, com meu marido, a gostar de hockey. Pois o goleiro do time chamava-se Ramalhete. Não é o máximo? Tenho um amigo cujo nome de família é Telhado. Há um jogador de futebol chamado Pato. Dentre os escritores os nomes também continuam esta tradição: Mesmo aqueles que nos parecem comuns devido ao costume, como Eça e Pessoa, não têm nada de comuns. Alguém conhece outro Eça? E algum Pessoa mais ironicamente multidão que o poeta? E o que dizer do Saramago? Do Luandino? E dos ditos Mia e Agualusa? Impressionante, não? 
Voltando a meu ponto de partida, fiquei encantada com o bate-papo dos dois. Desta vez a estrela era Agualusa, que lançava um livro: Barroco tropical. Eu não ia comprar, pois pensei que era um estudo sobre o barroco e não quero estudar mais nada, mas aí descobri que era um romance. Acabei comprando, claro. Gosto do Agualusa desde muito tempo, quando li O vendedor de passados. Depois tive uma crise de ciúmes, quando li um conto dele chamado "O inferno de Borges". É que na época  eu ainda não tinha publicado minha secretária, e ficava com medo de "gastarem" meu Borges. Ontem achei graca na veemência com que ele defendeu sua Osga, contra as comuns Lagartixas. Talvez por estar ao lado de um biólogo, ele fizesse tanta questão das singularidades de sua criatura. Agora vou ter que descobrir quais as diferenças entre osga e lagartixa, que ele afirma serem tão diferentes quanto ele e Mia Couto, embora todos os confundam. 
Mas, é claro, aquilo que eu queria ouvir, não me faltou: histórias. Mia conta histórias como ninguém, ele quase que fala em parábolas, e suas histórias são absolutamente encantadoras. Dou um exemplo: a história da cobra que invadiu uma repartição pública e que, além de matar algumas pessoas, ainda cantava o hino nacional durante a noite. Numa terra em que ninguém sabe a letra completa do hino, a cobra não errava nem sequer uma concordância… Pois acaba que um biólogo, chamado para resolver a situação, vê a cobra ser morta e atesta que era uma cobra comum e que não tinha nada de especial. E mostra o cadáver da cobra para os populares, com a pergunta: E então, é esta a cobra? Ao que a resposta do povo foi: Quase…
Há sempre um quase que liga nossa realidade a um mundo muito mais interessante que o nosso. Este quase, esta pitada que nos falta no real, é o que se pode encontrar nos livros do Mia. 
Deixo para falar do Brasil no próximo post, pois agora tenho que atender à porta.
Até breve.

Friday, November 27, 2009

I could've blogged all night…

Fui no Vale Open Air, assistir Julie/Julia, ou o contrário, sei lá. Gracinha de história (e eu sou fã da Nora Ephrom e seus filmes mulherzinha) e uma ótima atriz (Meryl Streep) me fizeram ficar sonhando em ser descoberta através do meu bloguinho… Bah! Até parece que os filmes mostram o caminho das pedras. Mas uma sensação é verdadeira: a de que a gente escreve para um vazio, que não existem leitores do outro lado. A gente sabe que alguns amigos nos lêem, mas é só. Imaginar que outros leitores desconhecidos venham a descobrir o nosso blog – é muito pensamento positivo. Mas, o que aconteceu depois, foi o show de frevo que foi sen-sa-ci-o-nal!
Pena que não houvesse muito público, mas foi difícil deixar de ensaiar uns passinhos de frevo  e impossível não lembrar de meus amigos do Recife. Meu coração vai pairar por sobre a cidade esta noite, subir e descer as ladeiras de Olinda, sem acelerar seu ritmo para não descompassar as cirandas e as outras danças arretadas. Saudades de meus queridos amigos de lá. Fico aqui mandando cheiros, profundos, para todo o povo do Recife. Cantarolando as modinhas alegres, ecoando as risadas gostosas, e lembrando de "Grace Kelly", ou seria outro o nome do carrinho branquinho que me levava para cima e para baixo, em labirintos que não consegui desvendar?
Para quem ainda não foi visitar a edição comemorativa dos dois anos de Histórias Possíveis, aqui vai o endereço, para facilitar. Está parecendo "almanaque do Mickey", cheio de histórias, muito legal. Dê uma passadinha em: historias possíveis

Tuesday, November 24, 2009

Um aviário…

Bem, hoje estive com o grupo da UFF, o Nação/Narração. Na volta, viemos falando abobrinhas, mas abobrinhas sérias, muito literárias. Comecei contando a dita história da galinha, que muito me impressionou e comentamos como galinha é coisa literária: Clarice e João Cabral, Guimarães Rosa, mais barroco, optando pelo peru, garanto que se pesquisarmos encontraremos um galinheiro completo cacarejando nas estantes. É que, se pensarmos bem, galinha é mesmo um bicho que parece feito para servir de assunto – uma ave que não voa, cujo canto não passa de um cacarejo, que passa a vida ciscando o chão, que divide um galo com não sei quantas outras galinhas, e que ainda põe ovo e dá canja… E são feiosas, pouco inteligentes, mas têm os filhotes mais lindinhos. Quem é que não se encanta com os pintinhos amarelinhos, aqueles que eram vendidos na feira e que, nos tempos de Clarice, eram levados para casa para servir de brinquedo a criancinhas que se transformavam, graças às avezinhas, em aprendizes de sádicos? As galinhas emprestam seu nome para mulheres assanhadas, embora, em sua aparência, lembrem senhoras mães de família, gorduchas e protetoras.  Hoje povoam os sonhos de qualquer pepsi, peladas, untuosas, fazendo pole dancing nas grelhas de padaria. 
Há uns 15 anos atrás, encontrei uma mulher que tinha, em seu apartamento, um galo de estimação. Encontrei-a na sala de espera de um veterinário, levando seu galo numa coleira. Tratava-se de um galo garnizé, ela me explicou, por isso ele era pequenininho. Perguntei-lhe se o galo não cantava, e ela me garantiu que cantava, que todas as manhãs ele saudava o nascer do sol em alto e bom som. Perguntei-lhe o que é que os vizinhos achavam dessa cantoria, e ela ofendeu-se, mas respondeu a verdade, que eles não gostavam, mas ela não estava nem aí para o que os vizinhos pensavam. Nessa época eu nunca tinha sido acordada pelo cantar dos galos, mas já conhecia o poema de João Cabral, que adoro. Fiquei solidária com a mulher e com seu galo puxado pela coleira, imaginando os esforços dele para tecer uma manhã em meio aos ruídos da cidade.
O tempo passou e fui para Tiradentes, fora de estação. No hotel, só eu e Guilherme, num quarto gelado e escuro como breu. E, no meio daquela escuridão, os galos começaram a cantar. O sol estava longe de nascer, mas os galos começaram com sua melodia rouca, soltando seu grito enferrujado. Nós dois acordamos, friorentos, sem entender o que era aquilo. Os galos insistiam. Primeiro era só um, que repetia seu refrão. Pouco a pouco ele foi persuadindo outros a soltarem seus cantos. Cada qual tinha sua voz, mas todas eram roucas. Uns soavam bem ao longe, outros pareciam próximos, vizinhos de porta. Tampávamos os ouvidos, cobríamos a cabeça com nossos travesseiros, mas os galos e seus cantos penetravam todas as barreiras, nos tiravam o sono. Comecei a recitar os versos de Cabral, os poucos pedaços que sei do poema Tecendo a manhã. Um galo sozinho não tece uma manhã, ele precisará de outros galos que cruzem os fios de sol de seus cantos… até que a manhã, teia, tecido, se eleve, luz balão. Tudo truncado, eu sei, nunca decoro nada certo. Por fim, estávamos apaziguados, sorrindo no escuro e vendo nossa manhã se entretecendo em nossos risos, uma manhã que se iluminava dentro de nós, como um sonho, trazida pela voz rouca do tear dos galos. E, para que todos possam conhecer ou lembrar do poema de João Cabral, copio ele abaixo, em sua beleza. Muito mais do que uma manhã, trata-se de uma utopia. 

Um galo sozinho não tece uma manhã: 

ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele 
e o lance a outro; de um outro galo 
que apanhe o grito de um galo antes 
e o lance a outro; e de outros galos 
que com muitos outros galos se cruzem 
os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, 
se vá tecendo, entre todos os galos.


2


E se encorpando em tela, entre todos, 
se erguendo tenda, onde entrem todos, 
se entretendendo para todos, no toldo 
(a manhã) que plana livre de armação. 
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo 
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 


Antes de me despedir, me deslumbro pensando na incrível paciência do Guilherme. Ele adorava dormir, mas casou-se com uma maluca que sempre achou que dormir é perder tempo. Para mim, esse acordar no meio da madrugada para ficar recitando poesia era (e ainda é) um verdadeiro deleite. Para ele, só pode ter sido sinal de muito amor. Então fico aqui, repetindo os versos e repassando lembranças que, entretecidas, se elevam e me levam de volta aos fios de sol de seus braços: meu casulo, meu ninho.

Galinha abnegada

É impressionante como o jornal alimenta minha mente com bobagens importantíssimas! Acabo de ler a notícia (de 50 anos atrás, é bem verdade) de uma galinha de Catanduva que pôs um ovo de 250 gramas. Eles não mencionam tamanho, mas suponho que um ovo de 250 gr. seja alentado. Principalmente porque o recorde mundial anterior estava em 150 gramas. Pobre galinha! Ninguém comenta se a pobre ave sobreviveu a esse esforço que lhe garantiu pelo menos duas manchetes em 5o anos. O que será que aconteceu a essa galinha? Será que, seguindo o destino inexorável das galinhas, acabou num suculento prato de canja? Imagino seu dono, sorvendo o líquido com lágrimas nos olhos, pensando na omelete de um só ovo que ela lhe proporcionava todas as manhãs… 
O que desejo mesmo é inspiração para um conto de Natal, que preciso escrever. Na verdade, já escrevi dois, mas ambos tão tristes que nem tenho coragem de mandar para o editor. Procuro inspirações para um terceiro, alguma coisa alegre e brejeira como o do ano passado. Só que este ano, com os apagões, minha escrita está sombria, tenebrosa. 
À parte esta inspiração, ainda preciso terminar meu conto sobre Dante. Que Inferno! Comecei um que estava saindo tão lindinho, tipo uma carta de amor. Só que fui ler algumas coisas sobre a vida do poeta e descobri que provavelmente sua mulher não o acompanhou no exílio. Droga! Comecei outro, também lindinho, um delírio oscilando entre Gema e Bice, mas precisei parar e agora não encontro mais aquela voz… E, no meio do caminho, uma idéia aqui, outra ali, uma resenha feita, outra por começar, uma proposição de palestra, sonhos de viagem…
Volto à galinha: creio que deveria ficar no choco, esperando esse ovo de Colombo, mas a possibilidade me amedronta e fujo dos deveres. Assim sendo, programo coisas imediatas para fazer, como ir assistir aos filmes e shows do Valeopenair, escutar Mia Couto, ir a espetáculos de ballet e a sessões de vídeo com amigos.  Abnegação comigo não! E penso no dia de Ação de Graças (Thanksgiving) que cai depois de amanhã, penso em dezembro que já começa na semana que vem… Outro ano termina. Menos um.

Sunday, November 22, 2009

Palavras horribilis

Existem algumas palavras verdadeiramente horríveis em português. Vejam, por exemplo, a palavra "meditabunda"; ou, outro exemplo, a palavra "putativa". Numa frase, digamos:
A mãe putativa estava meditabunda, a gente nem consegue entender o que está dito, tanto que as palavras nos provocam o riso ou a repugnância. Há coisas que não consigo pedir num restaurante por considerar altamente impróprias.  Um espaguete a putanesca, não é estranho? Ou aquele outro prato ainda mais inapropriado: punheta de bacalhau… Tenho vergonha até de dizer em voz alta o nome dos pratos. E, não sei se por sugestão ou por verdadeira ojeriza, não gosto nem de um nem de outro. Também não gosto de penne alla arrabiata. Nem mesmo na versão nacional, goela de pato. Penne ou goela de pato, não sou eu que vou pedir uma coisa dessas para mim. Mudando de idioma, há, em Paris e na Bélgica, um prato muito apreciado e, portanto, sempre apregoado nas tabuletas de restaurantes "Mules frites". Abrasileirando (eu sei que são mexilhões com fritas) mas sempre me dá a impressão de que iria pedir mula frita, se acaso eu optasse pelo prato. O que me faz lembrar um almoço para o qual me convidaram, numa praia nos EUA, num restaurante especializado em mariscos. Eu sou meio esquisita com comida, mas sou bem educada e tento disfarçar meu desprazer com esses tais de frutos do mar. Os anfitriões, orgulhosíssimos, nos oferecendo a especialidade do lugar, uma espécie de clam (vieiras?) absolutamente indecorosas, pareciam vulvas (e é daí mesmo que vem o nome). Não sei se a gente merece o céu por esse tipo de sacrifício, mas tive presença de espírito e pretextei uma alergia. Escapei. Mas até hoje me lembro da insólita situação de ver aquela profusão de vulvas sendo sorvidas à mesa, por pessoas seriíssimas, educadíssimas, e muito formais. Pior que isso, só um outro marisco, português, chamado Percebes. Parece um dedo negro, como se fosse de uma pata de réptil, com uma unha também negra na ponta. Me arrepio só de pensar nesta degustação insólita. Outra comida das mais estranhas é a tal de lichia. Parece um globo ocular, uma coisa aflitiva. Porém, se me servem a lichia já cortadinha e sem os caroços, adoro! E se for em forma de caipisakê de lichia, tal como é feito no Sawasdee, restaurante que adoro, entro em êxtase! 
Cada idéia, que me vem à cabeça!… Isso tudo é por preguiça de ir à praia: calor demais, companhia de menos, fico aqui no ar condicionado, escrevendo bobagens, lembrando de besteiras. E imaginando viagens. Estou quase me convencendo a ir para o Egito e a Jordânia. Uma vontade louca! Quem sabe não embarco nessa?

Tuesday, November 17, 2009

Bitches and diamonds are forever!

Tenho andado preguiçosa, escrevendo pouco, e os amigos começam a reclamar (bom sinal!) Hoje aproveito a dica do Guido, com sua historinha da Madona (vejam o comentário ao post anterior) para dar dois dedinhos de prosa. 
Começo por uma auto-gozação: uma amiga, que me conhece, superficialmente, há muitos anos, me disse que sempre fui "construtora de sentido". Fiquei saboreando a frase, até descobrir o famoso sentido. Acho que ela quis dizer que eu sempre fui dada a invencionices. Pois quem conhece meu cotidiano parco deve estranhar tanto assunto como eu arranjo. Minha vida é pequena, já disse que vivo pequenininho, mas penso grande. As coisas que eu faço podem parecer desinteressantíssimas para os outros: Um cineminha, uma palestra, idas sem conta a livrarias (um verdadeiro vício), uma caminhada na praia. Viagens, todas as que posso. Muitas horas na frente de um computador, que, na maioria das vezes se escoam em partidas intermináveis de paciência. Pouca TV, leitura, sempre. Não saio muito, mas gosto de sair. Não convivo muito, mas gosto de conviver. Não falo muito, pois gosto de escutar. E, no entanto, estou sempre com algum pensamento pronto para compartilhar. Quando é que penso assim? Não sei. Talvez enquanto jogo paciência. E, então, começo a contar meu fim de semana, por exemplo, e me empolgo. Falo de um livro que li e meus olhos brilham (é o que me dizem), comento uma notícia de jornal com muita paixão. Dou aulas com entusiasmo, tenho coisas pessoais para dizer, ao invés de repetir opiniões, pura e simplesmente. Isso é o que me dizem. Pois eu até me surpreendo por fazer tanto esforço para pensar o que outros andam pensando também. E estou convencida de que, se me entusiasmo, é graças às sementes que os livros plantam em minha sensibilidade: quem pode ler Ana Karenina sem se entusiasmar com a força descritiva de Tolstói? Meu grupinho de leitura está terminando o romance. Mais umas duas aulas, no máximo três, e teremos terminado de ler o livro, que vai nos deixar saudades. Minha proposta de continuação foi um livro de história "As seis mulheres de Henrique VIII" da Antonia Fraser. Bem, dei muitas opções, e elas votaram neste livro. Vai ser minha primeira leitura "não-literária" com elas, e acho que vou gostar da experiência. Pois agora, ao invés de comentar o texto, vamos comentar o contexto. Mas, talvez seja a grande oportunidade de mostrar para elas (e para mim mesma) as diferenças de estratégia de "construção de sentido". Voltamos, então, ao título do post – bitches and diamonds are forever. Enquanto alguns privilegiam os fatos concretos (os diamantes) outros realçam os modos de ser (as pestes). Na união destas duas percepções é que se consegue ter uma idéia de como era uma época anterior à nossa (ou como será uma época vindoura, no caso, por exemplo, de um romance como 1984, que hoje nos parece quase que profético.) Tomara que a leitura deste novo livro seja tão proveitosa quanto as outras já foram.

Tuesday, November 10, 2009

Deveres cumpridos

Aos poucos vou-me organizando, desbastando o mar de tarefas que me ameaça (ainda, ainda!) impiedoso. Tenho sido heróica, acordando cedo, me disciplinando, e até me divertindo um pouco no meio de tudo isso. Pós-moderna, me sinto multifuncional, fragmentada: vou à praia com texto acadêmico, enfrento a "canícula", como diz o Alvaro Costa e Silva, escutando palestras verdadeiramente deliciosas numa biblioteca tranquilinha em Botafogo. Caminho pela areia, molhando os pés nas águas tépidas e razoavelmente limpas do Leblon. Fujo para tomar um sorvete, com uma xerox de artigo para ler. Invento histórias (possíveis ou não), começo os contos e os abandono, dizendo –Depois! E nem me assusto com a possibilidade de o depois nunca chegar. Se acaso não chegar, não será problema meu, convenço-me. Amanhã tenho SESC. Depois de amanhã também. Vou fazer uma coisa que me agrada: ler um de meus contos em voz alta. Acho isso muito gratificante. No princípio não gostava, ficava meio envergonhada, achava que estava sendo "exibida", como diria minha avó, tão furiosamente mineira e vitoriana, desconfiada de todo tipo de "se mostração", coisa que menina bem educada não fazia. Finalmente me dou conta de que não preciso ser tão rígida comigo mesma. Assim sendo, vou feliz falar com o pessoal do SESC, a quem tanto respeito em seu trabalho pelo Brasil afora, quase que um sacerdócio. E me comovo nos eventos que ficam pequenininhos em dias de sol como os do fim de semana passado, quando o Paixão de Ler, tão legal, estava acontecendo. Pequenininhos mas verdadeiros, intensos, belos. Adorei os dois dias que pude assistir. Vibrei, ri muito (escritor quase sempre sabe ser engraçado), descobri coisas. De quebra, ainda assisti a um lindo Ballet: Dom Quixote. Um encanto a transposição do texto para o movimento. E que movimentos! Uma companhia de ballet para ninguém botar defeito. Viva o corpo brasileiro, que sabe os segredos do ritmo e a beleza dos gestos! E palmas também para os figurinos, tão bonitos. O único senão é o local onde o ballet estava sendo encenado – Como aquele Vivo Rio é feioso e desorganizado! Na saída, sempre um tumulto. Faltam táxis, falta praticidade no vallet, falta paciência. 
Para terminar, só para deixar vocês impressionados, ontem a Madona veio me visitar. Com seus batedores, trazendo Jesus a tiracolo (ela é muito chic, tem um personnal god), ela veio para minha esquininha, alimentar seu corpo sarado e dar de comer aos olhos esfomeados dos curiosos. Mas, Leblon é Leblon. Nem com todos os batedores ela conseguiu atrair mais gente do que a que costuma se aglomerar na frente do restaurante à espera de lugar. Alguns fotógrafos, alguns cachorros curiosos, que contemplavam o movimento com atenção, e um trânsito um pouco mais lento que o costume. Nada que fosse fora do comum. Fechar o trânsito mesmo só no dia do incêndio, bem aqui em frente, que exigiu exibição de perícia por parte do operador da escada magirus. Isso foi na semana passada, ainda na época das chuvas, e numa era pré Madona.
E agora, que jea coloquei o papo em dia, volto ao trabalho, encompridando os olhos para o mar, e avaliando a possibilidade de adiantar as leituras da tese na praia. Será que dá?

Thursday, November 05, 2009

Da necessidade de boa redação

Tentaram me aplicar um golpe, ontem. Bem aqui, na Rainha Guilhermina, um homem e uma mulher acharam que podiam, com sua história mal-redigida, me levar no bico. A atuação estava bem feita, o casting era estupendo, mas o texto deixou a desejar. Muito. Overdose de clichês. Por isso dizem que menos é mais. Eu conto. Não sei se está escrito no meu rosto que sou louca por histórias, talvez esteja. E, como eu vivo repetindo, tenho o coração mole, escuto as aflições dos pobres de rua, mesmo quando finjo que não vejo. Ontem um carinha me abordou, perguntando um endereço de uma loja de roupas. Eu não sabia, e já ia continuando a andar quando a outra artista se aproximou. Uma mulher falante, de roupa de ginástica, toda decidida, parecendo tentar ajudar ao cara, ao mesmo tempo conversando comigo todo o tempo. Ele se fazia de ignorante, perdido na cidade grande, ingênuo. Ela era toda urbana, bem de vida, generosa e de boa educação. Resumindo o longo golpe, que só foi esboçado, mas não foi concretizado, o suposto comerciante queria ficar com o prêmio da Mega Sena que o tal caseiro de "políticos lá de Brasília", tinha recebido, no valor de mais de 4 milhões de reais. Ele queria me dar cem mil reais se eu o ajudasse, mas eu disse que não cobro por ajuda, mas que queria escrever a história dele… Aí eles perceberam que eu não estava acreditando, e ele disse que queria desistir de ir até a Caixa e que ia voltar para sua Teresópolis e buscar sua mãe, tão analfabeta quanto ele. A mulher tentou continuar comigo, e eu, muito educada, falei para ela que infelizmente não podia ficar e que tinha compromisso, percebendo que ela estava dando cobertura para que o homem sumisse de vista. Ela tinha carro, e ficaria mais fácil desaparecer. Esse golpe é velho, mas eles nunca chegaram a me propor nada (além de o homem querer me dar cem mil e querer beijar minhas mãos, imagine!) e eu vou ter que imaginar um pouco mais a história que vou contar, claro. Como não sou "con-artist" – é assim que chamam os golpistas em inglês, e com razão, pois são verdadeiros atores  – não imagino bem o objetivo deles. Me sequestrar? Me propor comprar o bilhete premiado pelo valor que eu tivesse no banco?  Descobrir meus dados para depois virem me assaltar? Depois escolho. Acho que, para fins de conto, dá mais caldo um sequestro, claro.  Mas depois isso me entristeceu demais! Pois o que eu gostaria mesmo é que a história fosse outra. Que alguém tivesse parado para ajudar uma pessoa que parecia necessitada e descobrisse que o outro era, na verdade, um afortunado. O que eu gostaria era de ter participado de um milagre de alegria, e não de mais uma dessas pequenas misérias humanas. 
Para terminar, revelo como descobri, logo de cara, que se tratava de um golpe: o uso dos clichês. Tudo o que o homem falava estava sobrecarregado de vícios de má-redação, mas não havia erros gramaticais. Um analfabeto que não errava o português mas que não sabia o nome de "táxi", falando nos "carrinhos amarelinhos que podem me levar de volta para minha mãezinha", e em guardar seu dinheiro "debaixo do colchão", e ser capaz de dizer 35 mil "reais", com plural corretíssimo e usando reais, ao invés de "conto" (ou mesmo contos, seria mais fácil de engolir), são pequenas incoerências que sinalizaram, para mim, que aquilo se tratava de um texto de um mau escritor. Nunca se deve explicitar muito as marcas, isso é dramaturgia exagerada de comédia, de caricatura. Para dramas realistas, aconselho menos exageros. Tentem assistir um pouco menos de Fallabela, pois ele pode ser bom, mas morreria de fome como golpista. Dou os conselhos, mas espero que os dois não estejam me lendo!

Tuesday, November 03, 2009

O fantasma do Chacrinha


Não sou grande fã de TV, e não assistia o Chacrinha. Só que fui ver o filme e me lembrei por que não via o programa: era cruel. Se hoje me emociono com aqueles aspirantes a cantores, imagine quando era pequenina, com o coração ainda mais mole do que é agora… 
O que me impressionou é que o Chacrinha tinha um bordão: o programa que acaba quando termina. E fico pensando na verdade que isso é. Ninguém parece ter melhorado de vida graças ao programa. Os desdentados continuam desdentados, os desafinados continuam desafinados, as chacretes viraram cozinheiras ou faxineiras já que perderam o rebolado. Os gagos continuam gagos. E os bobos estão cada vez mais bobos. O programa terminou e os participantes estão todos acabados. Triste isso.  
Para levantar o astral, uma foto (troféu abacaxi?) que tirei no lançamento do livro do Edney Silvestre.  Grande sucesso. Mil amigos, dois dedinhos de papo, depois a ansiedade de defender o projeto amanhã me atacou e tive de vir para casa. Melhor assim: vou aproveitar para ler o livro, cuja leitura do trecho feita pelo Tiago (Thiago?) Lacerda não assisti. Aproveitei para me despedir da Tatiana, que parte para a Fliporto e em seguida para o Porto, ou seria Lisboa? Ou para a Gafeira? Para algum lugar na Corte, como disse a Luciana. Bons ventos a levem e depois a tragam de volta, sã e salva. 

Saturday, October 31, 2009

Blog de amigo

Vez por outra coloco aqui no texto o nome de um blog que acompanho, mas que não consigo acrescentar na listinha do lado porque esqueci como é que se faz isso. Hoje falo do blog do Marcio e da Brenda
A-DO-RO!
Márcio há tempos que mandava as imagens para os amigos, e agora, mais recentemente, junto com a Brenda, formaram um blog sempre interessante, sempre de bom gosto. A Brenda tem uma galeria ali no Horto, que ainda não visitei (Que vergonha!) mas que muito recomendo, pois sei que só pode ser legal. Há coisas assim, você não precisa ver para crer, nem para amar, pois já sabe, de antemão, que foi criada na mesma sintonia em que você funciona. 
Escritores, por exemplo, alguns posso comprar mesmo sem folhear o livro, pois sei que vou gostar. Posso até estar cansada de seu estilo mais particular, ou mais difícil, mas. ao começar a ler, o texto estabelece uma ligação comigo em profundidade, em simpatia, em humanidade.
Agora peço um socorro ao meu amigo Guido: você por acaso se lembra de um artigo interessantíssimo que você me mandou, sobre leitura? Aquele que falava dos novos modos de leitura e como hoje nosso cérebro está desenvolvendo novas sinapses que mudaram nosso relacionamento com o texto? O artigo era longo, e em inglês, e eu adorei e não paro de falar nele com todos os meus amigos, mas quero mandar para eles e não sei onde foi que o guardei. Será que você podia me mandar de novo? E, caso você me mande aqui pelo blog, já vou avisando a todos os leitores que saibam inglês que vocês pre-ci-sam lê-lo. É excelente, e muito esclarecedor, importante para quem escreve e para quem publica, pois descreve um passo da evolução humana. Há gente que discute o termo evolução,  e eu aceito esse questionamento. Muitas vezes não progredimos, mas mudamos, pura e simplesmente. E até pioramos, eu acho.
Essa nova maneira de ler acontece, e não sei aonde vai nos levar, e é bom chamar a atenção sobre isso e compreender nossas novas aptidões e possibilidades.
Hoje vou gazetear e fugir para ir ao cinema. Preciso ler, preciso trabalhar, mas estou morrendo de dor de garganta, então vou ser boazinha comigo mesma e me dar um prazerzinho. Os pequenos prazeres possíveis, como disse num cartãozinho para minha queridíssima aniversariante de outubro, Stella.  Como já disse aqui antes, sou muito feliz por ter os amigos que tenho, tão especiais!

Friday, October 30, 2009

Detesto imeio edificante!

Não sei quem acha que gosto de receber daqueles imeios que supostamente nos "inspiram" e nos dão motivação. Na verdade, aquelas imagens de pobres sorridentes e abnegados, ou aquelas frases mal escritas me deixam irritada. Será que meus amigos me conhecem tão pouco? Vivo dizendo que não gosto de livro de auto-ajuda, que não leio Paulo Coelho e que não gostei de Perdas e ganhos, ou seja lá qual é o nome daquele livro chato da Lia Luft. Gosto, com muita moderação, de imagens belas, ou de arte, ou de gente. Rio com piadas, mesmo aquelas requentadas, que já recebi muitas vezes. Acho graça em coisas mordazes, um pouco ácidas, pois, como sou de temperamento mansinho e doce, necessito de uma dose de crueldade para me equilibrar. E, graças a essa necessidade é que achei muita graça no filme do Tarantino. Incensado como uma obra prima, ele aguçou minha curiosidade e, como a ocasião faz – não o ladrão– mas a espectadora, outro dia passei na porta do cinema e entrei, e assisti e, sim, gostei. Na verdade, adorei o vilão do Tarantino, um alemão poliglota, educado, refinado. Aliás, todos os alemães eram assim, civilizados. Só o Hitler dele é que continuou estereotipado. Em compensação, os americanos, chefiados pelo Brad Pitt, eram o cúmulo da rusticidade, da barbaridade, em todos os sentidos, até no sentido original do termo: "barbarophonoi". Era assim que os gregos classificavam os Outros, gente que usava uma linguagem que doía em seus ouvidos habituados à musicalidade do seu idioma. E era assim que o Brad Pitt soava, com um sotaque atroz, mesmo para ouvidos americanos. Com eles não havia retórica, não havia sutileza. Eram iguais a robots, programados para uma ação, uma única ação que desempenhavam com eficiência mecânica. E, sintomaticamente, o que o chefe desses autômatos não podia suportar era a falta de rótulo nos outros. Daí a marca. Só assim ele saberia quem era o inimigo, e poderia continuar atacando. Gente, será que o Tarantino é mesmo assim tão esperto? Mas, e isso é certo, ele entende de narrativa, e de cinema. Conta bem suas histórias, mesmo aquelas que não me agradam. Viva o filme, que devia ter sido traduzido com o erro , pois o erro é fundamental. Sei lá, Bastardos Ingrórios, teria sido mais fiel que a pomposidade sem comentário de Bastardos Inglórios. Mas, de tudo, o que mais me fez sentir aquela fagulhinha de felicidade que a gente tem face a algumas coisas que se sobressaem e nos surpreendem, foi a tranquilidade dele em mudar a História em história, assinando o texto. Isso era uma coisa que Hollywood sempre fez, mas dentro de um limite para não acordar a descrença no espectador.  Mudavam tudo, de acordo com a interpretação de quem estava narrando, mas mantinham a moldura que sustentava a verossimilhança. Mas, no filme tarantinesco, Hitler morre no atentado, e com esse detalhe tudo se subverte. Temos que reavaliar a guerra, a bomba, todo o resto. Ou apenas rompemos nosso vínculo com a história, e vemos a narrativa como texto a ser analisado, a ser entendido com a inteligência e não com a crença. Valeu, cara! Me edifiquei muito mais com essa tarde no cinema do que lendo a comovente mensagem de que, enquanto eu me queixo de dor na perna, tem gente sem perna que está jogando futebol… Minha única queixa é quanto à qualidade do meu cérebro, mas, segundo esses imeios, eu devia me dar por satisfeita, pois tem muita gente sem cérebro convencida de que pode ajudar os outros a pensar…
 Vixe! Tou braba, hoje. Deve ser coisa do signo de Escorpião, que está nos regendo.

Tuesday, October 27, 2009

Vampiros

Passei a noite assistindo a um programa sobre vampiros. Claro que hoje, por falta de uma boa noite de sono, me sinto sem energia, uma legítima vítima dos vampiros noturnos… O que mais me impressionou (tirando os detalhes nojentos de larvas e líquidos) foi o bispo inglês que hoje ainda acredita em vampiros. Lá estava ele, dando entrevistas, com suas suíças enormes, lembrando da vítima que havia salvo nos anos 60 ou 70, sei lá. Ela aparece, ainda novinha, ao lado do namorado, um cabeludo charmoso. Não mostram a moça hoje em dia, mas fiquei com a certeza de que a verdadeira vítima do vampiro não foi ela, e sim o namorado. O rapaz virou um velho mirrado, de cara chupada. A cabeleira continuou comprida, mas ficou ralinha e grisalha, começando no meio do cocoruto, fazendo seu rosto ainda mais comprido, mais desolado. Enquanto isso, o bispo ficou com cara de personagem de Dickens. Mais encorpado, demodé, bizarro. E a moça? Não apareceu. Mas eles garantem que ela foi salva. Ninguém mais apareceu para morder seu pescoço durante a noite, nem para deixá-la amanhecer exausta, com olheiras e corpo lânguido. Coitada. Será que ela foi mesmo salva ou apenas se transformou numa inglesa de meia idade, perdeu sua flexibilidade, os seus olhos escuros e líquidos, e agora ostenta um respeitável e horroroso chapéu, esconde o olhar atrás das grossas lentes dos óculos, e firma seu corpo sólido sobre sapatos abotinados, sensatos? Tenho pena dela e da saudade que deve sentir de suas noites de violentos combates contra o "mal"…
Depois fico pensando em Bram Stocker e em Mary Shelley. Suas criaturas tão poderosas ignoram seus criadores e vivem por aí, em filmes e historinhas bobocas, em documentários, em reinterpretações. Ninguém fala sobre os dois autores. Muita gente nem sabe que foram invenções. Já outros personagens criaram seus autores. Ulisses engendrou Homero, o Quixote presenteou Cervantes com uma provável biografia… 
Enquanto isso, bocejo, me espreguiço, e lembro do conselho que a especialista em concursos públicos nos deu esta manhã: caminhe para oxigenar o cérebro. Será que vou? Nada! Vou ler os artigos que selecionei para me preparar para a defesa de meu projeto. Duby, ou Norberto Elias, ou Labriola, ou … 
Fui!

Monday, October 26, 2009

Tempos escolares

Às voltas com comemorações escolares, lá fui eu ao YouTube, mais uma vez. Adoro esse tal de YouTube. Como não uso mais a aparelhagem de som desde a morte do Gui, é assim que escuto alguma música, e que consigo enlouquecer os vizinhos, repetindo-as mais de dez vezes, quando estou "in the mood".
Desta vez fui procurar as letras das canções que ouvi: Father and Son, do ex-Cat Stevens, que virou muçulmano e mudou de nome para Yussuf alguma coisa. Eu não sabia disso, ou, se sabia, já tinha esquecido. Aliás, eu nem sabia direito quem era o Cat Stevens, eu com minha mania de não prestar atenção na autoria, só na obra. A música eu já tinha ouvido, depois parei de ouvir, e, agora, escutei uma semana seguida, em ensaios e performances. A velha discussão entre experiência e acomodação, e juventude e aventura. O pai quer que o filho fique na mediocridade, não quer dar a ele a permissão para se aventurar e mudar. O que o Cat Yussuf não entende é que mudança com permissão não é nada. Não implica em desafio, portanto, não confere vitória. Ou talvez entenda, mas não muito bem, daí a canção se arrastar nesta baladinha repetitiva tararã, tararã, tararã. Nada muda. Mas, ao fim e ao cabo, nada muda mesmo. A gente pensa que sim, mas as mudanças são apenas aparentes, só revelam os mecanismos por baixo dos vernizes idealizadores. De um modo ou de outro a gente acaba settling down, e, no dia seguinte, os sonhos mudaram mas o sujeito permaneceu no mesmo lugar, só alguns quilos mais gordo ou mais magro. Mas, num determinado momento, é bom mesmo avisar aos pais, que podem ter se esquecido, que os filhos precisam partir. They have to go away.
Outra musiquinha foi "Se a gente grande soubesse", do Billy Blanco, e talvez do Jobim, não entendi direito os créditos. Uma palavra mansa faz milagres, diz a canção. E as crianças aprendem a dizer não com os pais, avisa. Num dia em que as manchetes tristes dos jornais falam da luta de um pai contra o vício do crack de seu filho, que, drogado, matou a namorada, me questiono se a educação pode ser uma coisa suave e permissiva. Acho bom o NÃO. Acho boa a frustração, pois a vida também tem dessas coisas e a gente não pode ficar achando que protege o filho de tudo com carinho. Eu cresci assim, no meio da delicadeza, e fiquei sem carapaça que me protejesse. São Piaget e Santa Montessori que me perdoem, mas é muito mais difícil construir essas carapaças mais tarde na vida. Toda hora desanimo. Mas o SIM também é uma maravilha. Ter alguém que sirva de wind beneath your wings, que lhe permita alçar voo e alcançar o céu. Só que, sem o NÃO, ficamos sem consciência crítica, e achamos que sempre merecemos o paraíso, daí que as pessoas vão baixando os padrões, até chegar nessa nossa falta de tudo, com todos se achando no direito de tomar o que é dos outros…
Para terminar, lembrei de uma que não escutei, mas que amei quando era garota: To Sir with love. Tá nesse endereço aqui
Se eu fosse mais espertinha, ao invés do link colocaria aqui o vídeo, mas … Vou me dar um tapinha nas costas e dizer a mim mesma que sou um prodígio, autodidata em gracinhas cibernéticas, usuária de i-phone, YouTube, GPS e que isso tudo está muito bom e que eu não preciso aprender a baixar os sons para o ipod que nunca consegui usar, com a desculpa de que odeio os tais de head phones. Mas odeio mesmo, e se quisesse muito escutar música já teria aprendido, pelo menos aquele básico que me permite ser funcional e medíocre nas gracinhas que uso.

Sunday, October 25, 2009

Literatura e internet

Ontem fui a uma palestra no EDEM, colégio em Laranjeiras, organizada pelo Miguel Conde e da qual participaram o Cesar, o Henrique e o Marcelo. Todos são meus amigos e me sinto orgulhosa disso. O César é dos tempos da UFRJ, Henrique, Marcelo e Miguel são mais recentes, mas nem por isso menos queridos. 
Esse tema tem andado presente nos corações e mentes das pessoas que conheço: Na universidade, viraram tema de aula, assunto de pesquisa. Nas conversas de bar, são referências. Na minha vida, percebo aos poucos, são uma presença, cada vez mais constante. Uso a internet há muito tempo, pois entrei em contato com ela lá em Yale. Não era essa coisa assim tão fácil, mas já facilitava a vida e a pesquisa. Agora, vejo nos jornais e escuto nas reclamações de amigos, ficou tão fácil que se tornou uma ameaça, pois o plágio se difunde. Essa noção de plágio surge tardiamente. Só quando a arte passa a ser mercadoria é que se defende a propriedade. E, mesmo com a valorização da "assinatura", no princípio a cópia –plágio sem intenção de lucro – era um instrumento de ensino. As crianças copiavam. Os artistas copiavam. Os músicos copiavam. Era uma maneira de aprender e também de disseminar e de homenagear os autores.
Mas saio de meu assunto.  A relação Literatura e internet tem sido, basicamente, interpretada como literatura feita em blogs ou copiada em blogs. Já reparei que escritores mais famosos e mais estabelecidos usam essa publicação virtual como uma maneira de se safarem da penosa súplica por ajuda para publicação. Os conferencistas X, Y, Z ao receberem as avalanches de poemas e textos que ainda não encontraram editor, se saem com essa: "Hoje em dia o melhor meio para se começar a publicar é postando as obras na internet." Mas, e isso parece ser uma regra, mal o autor iniciante consegue ser publicado, ele para de publicar seus textos na rede, cioso de sua obra. Eu sou uma autora meio híbrida. Tenho livros-objetos e livros-virtuais. E ainda tenho livros na gaveta (metáfora para arquivos de computador, pois já não escrevo mais em papel há muitos anos). Os livros na gaveta são de poemas. Os livros objetos são de contos. Os virtuais também, mas, de um modo geral, são mais humorísticos, ou, pelo menos, acho que trabalho com mais humor quando escrevo para Histórias Possíveis. Mesmo que seja humor negro e cruel. No meio de tudo isso ainda tenho "livros em andamento", contos e romance, ensaios acadêmicos, tudo isso que consome meus dias e meus pensamentos.
No blog, converso. E converso, quase sempre, sobre literatura, arte, e minhas reflexões. No Facebook e no Twitter, tento me manter ligada aos amigos que se espalham pelo mundo. Confesso, no entanto, que estes dois são mais negligenciados, ficando sempre em último lugar na minha lista de prioridades. 
Esse post já está muito longo. Volto ao assunto outra hora. Agora vou "viver de verdade", ver gente de carne e osso, conviver.

Monday, October 19, 2009

Despedidas

Meu fim de semana foi de frio e chuva. Tanto frio que mal nos animamos a sair do hotel (horrorozinho) em que ficamos. A cidade me chamava, com seus encantos. A dois passos do Central Park, nao consegui ir ate la passear, pois minha amiga nao resistiria. Tambem nao fui mais a nenhum museu, acabei indo para o indefectivel Macy's, onde comprei um casaco que agasalhasse, pois os meus so tapeavam. Para escapar do frio, cinema, a dois quarteiroes do hotel (Coco antes de Chanel). E, para merecer o paraiso, o purgatorio da espera na loja da Apple, que nao consertou meu computador. Para desenfastiar, Rockfeller Center e todos os turistas do mundo. Ficar olhando os patinadores no gelo e sempre divertido. Agora, aqui do aeroporto, contemplo um lindo amanhecer. Hoje a chuva parou e as temperaturas devem subir. Deixamos NY em toda sua beleza e seducao. Desculpem a falta de acentos e etc. Obrigada pelos comentarios, que sempre me estimulam. No Rio escrevo mais.

Friday, October 16, 2009

Cecília e Nova Iorque

Cecília Meireles era linda. As suas fotos, os desenhos de sua face longa e aristocrática, seus olhos verdes de gata, tudo me encanta. Seus poemas também. Gosto deles, da sonoridade de seus versos, dos temas abordados. Me orgulho de seu trabalho onde posso detectar tenacidade, perseverança, dedicação. Mas, neste Congresso, descobri um lado seu que não gosto: seu lado de educadora. Não me levem a mal: acho muita dedicação de sua parte a criação de bibliotecas infantis, e também gosto de seus livros para criança. O que não aguento são as idéias "quadradinhas", formais, "bem comportadas". Imaginem que ela não gostava dos personagens de Lobato, achava-os crianças malcriadas. Fiquei ofendida, quando descobri isto. Acho que cresci influenciada pela irreverência libertária da Emília. Não me identificava com a Narizinho, que, no entanto, era minha xará. Achava que ela era meio boboca. Mas a Emília! A senhora Marquesa de Rabicó, que nunca deu bola para aquele marido que lhe arranjaram, e cujo affair com o Visconde de Sabugosa sempre me impressionou, era meu ídolo. Um de meus primeiros sonhos impossíveis foi esse de ser boneca.
O dia de ontem foi chuvoso e frio. Muito chuvoso e muito frio. Não deu para passear, embora eu tivesse que voltar para o hotel a pé desde lá da BEA, pois não consegui táxi. De noite, fomos a um musical: South Pacific. Antigo, sim, mas seu principal personagem masculino era interpretado por um brasileiro, Paulo Szot, um barítono maravilhoso, que também tem uma bela figura. Gostei. Sobretudo, gostei do teatro, que faz parte do Lincoln Center (Vivian something, esqueci o nome), e que é tão bem construído que a gente quase que se sente dentro do palco. Moderno e bem confortável, dá gosto ir lá.
Hoje foi o último dia do Congresso, que, aliás, pode ser assistido no YouTube. Eu ainda não vi, mas é porque meu computador está no conserto, e estou usando um emprestado, só quando dá… Por isso mesmo termino por aqui, pois tenho que devolver este computador a seu dono. E deixo para falar outra hora na Neue Galeria, onde fui hoje pela manhã, ver os expressionistas, na exposição de Klimt a Klee. Adoro esse pequenino museu, uma casa na esquina da 86 com Quinta Avenida, e sua coleção deslumbrante de Schiele, de Klimt, de Kokotscha. O dia esteve frio, mas quase não choveu. E eu passeei, depois do fim da conferência, em Times Square, para saudar as luzes de NY. Depois conto mais.

Thursday, October 15, 2009

Isamu Nogushi- Water Stone

Volto à pedra. Essa escultura realmente me fascina, e não sei porque não aprendi de cor o nome de seu criador. Mas me lembro que esta sua escultura foi uma de suas últimas obras, talvez tenha sido a derradeira, mesmo. Ele já estava velhinho quando fez essa maravilha. Ontem falei da pedra principal, mas deixei de lado os seixos rolados onde ela repousa. E disse que ela feita de granito, em minha ignorância geológica. Na verdade, ela é feita de basalto, aquela pedrinha preta das calçadas do Rio. Um de seus lados conserva a aparência exterior, aquela carinha de pedra comum, dessas que a gente encontra pela natureza.
Mas quero falar de gente e de suas falas. Uma das coisas que mais me surpreende no meio acadêmico americano é a sua capacidade de pesquisa. Sendo assim, não é de estranhar que muitas vezes algumas escritoras brasileiras sejam mais populares aqui que no Brasil. Creio que seja o caso de Nísia Floresta, uma escritora feminista do século XIX. Nunca tinha ouvido falar de Nísia no Brasil, embora pelo menos uma professora brasileira, de Minas Gerais tenha uma extensa obra sobre ela. Aqui descubro que ela fascina, e com muita razão, as imaginações de muita gente, e que é estudada seriamente até na Inglaterra. Seus livros foram sucesso na França, onde ela morou, e mereceram várias edições. Ela é natural do Rio Grande do Norte, fundou um colégio no Rio de Janeiro, escreveu em jornais, fez comícios pró-abolição, mas seu trabalho de educadora foi duramente criticado no Brasil. Que se há de fazer?
Ontem o dia do Congresso foi dedicado a ela, mas antes de começarem as palestras, a convidada de honra, Ana Maria Machado, fez uma magnífica conferência. Ela é brilhante, firme, segura de si, mas muito simpática, extraordinariamente afável e acolhedora.
No meio do dia, uma sessão com tradutores. O legendário Gregory Rabassa lá estava, falou sobre suas traduções, contou algumas piadas e emocionou a platéia.
Agora preciso terminar a conversa. Vou me preparar para o dia de hoje, dedicado à Cecília Meireles. Quando puder, conto mais.

Manhattan

Cheguei a Manhattan bem no dia de Colombo, e fui recebida com uma parada muito chocha na Quinta Avenida. Não sei se estava desanimada porque já era o final da programação, ou se era mesmo assim sem graça e solene como o desfile dos floats que assisti em Nova Orleans. Esse tal desfile de Carnaval era uma chatura. Não sei como as pessoas ficam aguardando pela chegada dos carros alegóricos sem samba, nem mesmo um bom grupo de jazz. Alguns homens de blazer e colares, algumas louras disfarçadas de sereias, algumas flores douradas enfeitando tudo, carros exageradamente grandes e pesados, desfilando lentamente, sonolentamente, esta é a lembrança que guardei. De noite, as ruas apinhadas de bêbados e bêbadas, os mesmos homens de blazer, que haviam desfilado de manhã nos carros alegóricos, apenas com seus narizes mais vermelhos por causa da bebida, aparecendo nas sacadas e jogando colares para as louras de peitos descobertos, molhados de cerveja, balouçantes... Isso lá em Nova Orleans. Aqui em Nova Iorque, senhores solenes em pé nos carros, com estadartes das sociedades "colombianas", acenando para famílias desatentas e para turistas desinteressados. Mas o desfile não empanou o brilho e beleza da cidade. O sol frio brincando entre as nuvens provocava desenhos nas vidraças dos prédios, ou sombras nas fachadas elaboradas dos prédios mais antigos. Atravessei a parada e mergulhei no cubo de cristal da loja da Apple, para consertar meu computador. Quando saí de lá o dia já tinha acabado. Só me restava jantar e descansar. No dia seguinte, o sol se abriu, glorioso. Depois de fazer uma caminhada pela Quinta Avenida (estou pertinho dela), fui ao Metropolitan para ver os Vermeer. Preciso dizer o quanto eu adoro este Museu? Eles sabem o que fazem, e a exposição, apesar de pequena, era interessantíssima. Adorei ver os quadros que foram contextualizados entre outros quadros da época, entre outros quadros da mesma temática, e aprendi coisas que nem suspeitava. Minha "Françoise", pois sempre penso estar vendo a personagem de Proust no quadro de Vermeer, me fascinou com sua calma e suas sutilezas, todas explicadas e colocadas em primeiro plano.
Mais uma vez fui visitar minha "pedra do sono", a escultura de um japonês cujo nome sempre me esqueço, e que é uma das minhas favoritas. O nome da escultura não é esse, eu é que lhe dou esse nome. Imaginem um cubo de granito, quase perfeito, com uma excavação na parte superior, coberto por água que dá a impressão de estar absolutamente parada, mas que corre e cai, sem que vejamos seu movimento. Sabemos que a água escorre porque escutamos o rumor que ela faz, mas não podemos perceber seu movimento. Minha impressão é a de que poderia me sentar em frente a ela para sempre, me deixar ficar ali fascinada por aquela calma aparente, por aquela pedra viva, linda em sua simplicidade, absolutamente complexa em sua invisível dinâmica.
Para terminar a visita, uma chegada no terraço para ver Maelstrom, uma escultura de um raio que ocupa todo o espaço do terraço. À volta, as copas das árvores, ainda não totalmente amareladas. Mais ao longe, o perfil dos prédios, sentinelas zelosas do parque e do museu. Quanta beleza dá para carregar em nossos corações? Tinha vontade de fechar os olhos para não deixar meu encantamento se desfazer, ao olhar para outras coisas. Agora que estou aqui escrevendo, me lembrei da história que contam de Proust, absorto na contemplação de uma flor, tentando guardar sua imagem para depois usá-la em seu texto. Quem me dera a intensidade daquele olhar! O meu, vadio e indisciplinado, logo logo estava se deliciando com detalhes de caixinhas de rapé, frascos de perfume, leques franceses. E meu corpo, rebelde, exigia descanso.
Hoje foi o primeiro dia do Congresso do qual estou participando. No caminho para a NY Film Academy, onde foi a abertura, a cidade foi revelando recantos que eu ainda não conhecia, ou ponde em evidência prédios que amo, pelo seu valor simbólico ou por seu traçado elegante. O desenho arquitetônico maciço e sólido das construções mais antigas parece ainda mais concreto ao se contrapor à leveza dos prédios mais novos, que abusam das transparências e de espaços vazios. Mas já escrevi demais, a hora se adianta e amanhã tenho um dia cheio. Se conseguir amanhã escrevo mais, contando os detalhes do Congresso.

Sunday, October 11, 2009

Visitas

Passo rapidamente pelos blogs dos amigos. É como uma visita caladinha, cheia de saudades, uma espécie de passeio. Vou até Israel, no blog do André, depois velejo até Alagoas, com o Guilherme. Me embrenho por museus, acompanhando o Márcio, e por aí vai… Enquanto isso, fisicamente, me divirto com a visita que estou fazendo aqui na casa do Tom e da Margaret. E eles também recebem visitas: do Brasil, como eu, de Washington, de Stamford, do Maine. Conversamos, escutamos música, comemos, bebemos, trocamos confidências e admirações. Passo um dia cheio e eu, desacostumada de falar, termino a jornada com a garganta doendo, mas com a boca em sorriso, feliz. E deixo aqui um beijo, aos amigos que visitam meu blog.

Friday, October 09, 2009

Saudades de vocês

Minha nossa! O tempo passou e eu nem notei. Tantas correrias, e agora aqui estou em Nova Iorque, com amigos do passado, revendo primeiro Connecticut e, depois do dia 12, me hospedando mesmo na grande maçã, onde participarei do I Congresso Brasileiro em NY. Se tiverem curiosidade,  o site é: www.brasilianendowment.org Lá vocês podem ver o programa completo do Congresso. 
O que dizer desse retorno? Nem sei. Esse comecinho de outubro, com as árvores mudando de cor, e as folhas bailarinas que nos saúdam com seus vestidos de festa é realmente deslumbrante. As árvores ainda não estão no auge da mudança de cor, mas já estão lindas, algumas parecem flamejantes, outras ainda só têm uma pincelada de amarelo, ou de vermelho. 
E uma palavrinha a respeito do céu: eu tinha me esquecido do espetáculo do céu!. No Rio, ele aparece entre montanhas, não tem o mesmo apelo dramático dos céus daqui, onde as nuvens fazem verdadeiras coreografias. E os pássaros também desenham quadros – as revoadas de pássaros que, ao mudarem de direção, mudam de cores, parecem quadros abstratos, dinâmicos, apaixonantes. É bom estar aqui, nas ruas desertas e muito limpas, no ritmo educado das pessoas que aguardam que você atravesse a rua sem ficar acelerando ameaçadoramente…
Desculpem a demora em escrever. Vou procurar compensar. Obrigada, Amauri, pelo puxão de orelha, pois foi o estímulo de que eu precisava para voltar ao nadanonada.

Thursday, September 24, 2009

Quase livre

De repente, neste dia tão cinzento e tempestuoso, vislumbro um raio de sol: liberdade? Ainda não, mas um passo já foi dado. Entreguei textos, agora tenho que me dedicar a formatar os capítulos. Depois, três cópias. Depois, não sei. Mas começo a olhar a tese como algo que será feito. Vejo as páginas cobertas de letras, imagens e sou capaz de escutar música (tantos clássicos, tantos boleros, tantos devaneios de jazz que se inscrevem por entre as linhas!) Queria uma casa de chá onde pudesse me sentar com Cortazar e Carpentier, Callado e Oswald, Machado e Proust. Nas paredes, muitos quadros coloridos. Eu tomaria um uísque (apesar de não gostar), ou tomaria duas taças de champanhe rosé, porque sou fresca e gosto de bebidas cor de rosa. Ou tomaria um chá de capim limão e escutaria, calada e sorridente, e ficaria embevecida, escutando a algaravia das conversas desencontradas. Depois, já um pouco tontinha, deixaria esses sábios para lá e voltaria para casa, para ler um pouco. Ler alguém que ainda não conhecesse, sem compromisso, como uma criança descobrindo um livro de histórias. Ou para escrever a história de Mariana, tadinha, abandonada, mas não esquecida. 
Por enquanto, fico só nesses pensamentos. E reviso as normas, para poder revisar os trabalhos. Amanhã recomeço.

Thursday, September 17, 2009

Aniversários e o canto das sereias

Só pra descansar um pouco desta minha faina…
Hoje é aniversário da Tania, amiga dos tempos de colégio que nunca mais vi. Se você estiver me lendo, parabéns, saiba que não esqueço de você.
Amanhã é o aniversário da Rachel Jardim. Estou sorrindo, pensando nestas amigas que transformam dias comuns em dias especiais. Que bom que vocês nasceram, que bom que são (ou um dia foram) minhas amigas.
Hoje também foi o dia que me mudei para Portugal, há tanto tempo atrás. Lá conheci o Guilherme, lá mesmo me casei, no mosteiro dos Jerônimos, num lindo dia de julho  (Vejam como a vida da gente muda rápido: em setembro estava chegando numa terra estrangeira, sem conhecer ninguém, meses depois conheci, namorei, noivei e casei!). 
E, já que falamos de paixões avassaladoras, as sereias brasileiras estão seduzindo os escritores de Portugal e Moçambique! Esses descendentes de Ulisses (diz o mito que Lisboa é a cidade fundada por Ulisses –Ulissiponense) não seguiram o exemplo do herói, e sucumbiram aos encantos das sereias de cá. O Mia Couto, como é moçambicano, não deveria estar incluído nesta categoria, mas, como ele criou uma sereia para uso pessoal, caiu nas malhas e derrapou nas curvas brasileiras também. Arre! E suas Penélopes? Como ficam? Será que estão chorosas e tecendo suas teias ou raivosas planejam vinganças e cobram pensões? Mas esqueçam as preteridas e pensem nas preferidas, que, estas sim, estão sendo seduzidas pelas palavras desses grandes contadores de história. Imaginem as jovens cavalgando as ondas generosas de seus amados, embaladas pela declaração sussurrada, com sotaque: Amo-te, amo-te! Tomara que não enjoem!

Seminário

Bem, a quem acompanhou meus trabalhos de parto nestas últimas postagens, quero que saibam que o seminário foi um sucesso. Tudo correu bem, desde as adoráveis e elegantíssimas monitoras, atentas e eficientes, até as palestras que foram interessantíssimas e que se encadearam, formaram um corpo de pensamento que revela, em suas manifestações de loucura e rebeldia, os "desassossegos" da Lúcia Helena e do Pessoa.
Só que minha gestação é de gêmeos, e o outro bebê ainda não veio à luz. Volto ao trabalho, dando forma concreta ao pensamento para o exame de qualificação.
Fui.
Mas antes de desaparecer no espaço cibernético, um deslumbramento guloso: as contribuições para os lanchinhos do seminário fizeram do evento intelectual, o banquete de idéias, uma festa dos sentidos, um banquete literal. Vejam como literatura e comida se juntam para provar minha tese sobre o banquete! Volto a escrever sobre o assunto, mas agora com imagens de chuviscos de Campos, bolos de fubá, cafezinho da roça, e outras delícias twittando como passarinhos a meu redor. 
Agora me levanto desta mesa para me sentar em outra.

Tuesday, September 15, 2009

Trapaças da sorte

Sempre que estou trabalhando em minha tese tenho acidentes. Ontem aquele tal de "chupa cabra", o tal negocinho que a gente pluga no computador para fazer um backup, se recusou a copiar meu arquivo porque estava cheio. Tentei retirar algumas velharias, de que já não necessitava e ele me respondeu, muito petulante, que eu não podia fazer isso. E, sem que eu fizesse mais nada, pois humildemente desisti dos meus intentos e quis ejetar o negocinho, o safado se apagou! Nem tive coragem de tirar o vampirinho do computador, esperando que meu filho apareça por aqui para poder salvar alguma coisa. Eu, hein, Rosa! (Isso é o que meu avô dizia, em 1900 e antigamente)
Amanhã tem Seminário na UFF. Começa com um Workshop às 10:00h, e, depois do almoço, teremos uma mesa de conferências e duas mesas de palestras, essas três abertas ao público em geral. Os debates girarão em torno do tema: Literatura:pesquisa & atualidade. Jornal, cinema,crise, política, alteridade, a solidão moderna e o desassossego da ficção, tudo isso sublinhado pelo papel da pesquisa que indica novas direções e que detecta os caminhos que vão reinventando a nossa nação. O site está aqui:
Bem, por hoje é só esse convite e o lamento de quem vai ter que se reinventar para não quebrar o computador, jogar tudo pela janela e se mudar para o Himalaia, para ver se lá consegue esfriar a cabeça.
Vejo vocês na UFF.

Monday, September 14, 2009

Rapidinha

Semana difícil a minha, com muito trabalho, mas queria registrar aqui minha tristeza pela morte do Norman Borlaug, "pai da Revolução Verde", ganhador do Nobel da Paz em 1970 por seus trabalhos que ajudaram a alimentar o mundo. No entanto, como o ser humano tem um gene defeituoso (Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, dizem, mas esse negócio de transferência de tecnologia é perigoso, avisem ao Lula!, a tecnologia pode vir contaminada), as safras viraram objeto de especulação financeira, ao invés de serem obrigatoriamente divididas e distribuídas pelo mundo. Quem me dera um mundo sem fome, um mundo em que a gente olhasse o sofrimento dos outros e se compadecesse, ao invés de se congratular pela boa sorte que teve, ou de dizer aquela frase odiosa: "antes ele do que eu". Bem, tenho um gene Madre Teresa, mas é recessivo e preguiçoso. Nunca vocês me verão à frente de campanhas e movimentos, criando fomes-zeros pelo mundo afora. Mas procuro educar minha família, na esperança que um deles venha a fazer alguma diferença. Mas cumpro os pequenos gestos: Procuro não desperdiçar, procuro reciclar, cuido com carinho das limpezas das ruas e praias que frequento. Meu grande crime ambiental é a quantidade exagerada de livros que compro, mas agora já tenho um kindle, e os livros em inglês vou comprá-los desta maneira eletrônica. Não gosto muito, mas devo estar salvando alguma árvore, com esse esforço de ler na maquininha. 
Guido me mandou mais um link, tudo o que ele me manda é interessante, e agradeço. Ele também tem um blog, de fractais, que um dia serei capaz de listar aqui no meu blog. Vocês, que acompanham meu blog há mais tempo, já tiveram a chance de ver a beleza desses fractais, pois ele já me mandou imagens que reproduzi aqui.
Hoje o caderno de tecnologia do Globo diz que twitter emburrece, mas facebook não. Ora vejam só! E eu que achava que era exatamente o contrário, pois o FB está cheio de coisinhas engraçadinhas que nos fazem perder um tempo louco, ao invés de fazer algo sério. Recebo mil e um convites para saber coisas do tipo: que bairro eu sou? que escritor eu sou? que música eu sou? que pintor eu sou? que cor eu sou? No início, respondi a uns questionários, mas logo percebi que era tudo uma roubada. Minha cor é azul, cor que escolhi, que amo e que faço constar em quase tudo o que escrevo, mas se eu tiver que ser uma cor, preferia ser o arco-iris, algo assim matizado, variável, ligando um mundo a outro. Vocês sabem porque o arco de cores se chama Iris, não? Porque Iris era a mensageira dos deuses, e sempre que estes tinham algo a comunicar ao "cerumano" (li isso outro dia e adorei, mas me esqueci onde foi) mandavam a bela deusa até nós e esse era o caminho da deusa. Meu amor nasceu numa ilha cheia de arco-iris, uma ilha perdida no meio do Atlântico Norte, muito verdinha, onde as cercas são feitas por hortências, brancas, azuis e cor-de-rosa. Essas hortências são tão abundantes por lá que chegam a parecer cascatas, quando as contemplamos ao longe, descendo as encostas das montanhas. Juro que não fantasio, que a ilha é assim mesmo. Mas seus habitantes nem ligam para toda essa beleza. Reclamam da chuva, que cai a toda hora, sem perceberem que essa é a condição para o aparecimento das cores no céu. E consideram as flores uma praga, de tempos em tempos os tratores arrancam os arbustos, sem piedade. Nunca uma dona de casa de lá enfeitou a casa com hortências, até o dia em que saí da casa de minha sogra munida com uma tesoura e voltei com braçadas de flores (azuis, claro) e fui colocando em todos os vasos da casa. Minha sogra já não estava mais lá, e a casa andava meio triste, sem os arranjos de flores que ela gostava de fazer. Meu sogro, que me olhou com espanto quando me viu entrar, quando viu a casa toda florida se admirou:" Nunca tinha notado que essas flores fossem tão bonitas! ", ele me agradeceu. E, da vez seguinte que veio ao Brasil, me trouxe um quadro onde as hortências apareciam em primeiro plano. Não são lindas, as minhas histórias? Será que no futuro terei mais histórias de beleza igual? Ou vou ter que ficar para sempre recorrendo a esse estoque, que já vai ficando antigo?
Vejam como sou: saí do FB e fui parar nos Açores (Ilha Terceira, para os mais curiosos). E agora vou correr atrás do tempo perdido, pois, como li na crônica do JFS, "o relógio maaaarrrca…" São os últimos momentos para meus trabalhos na UFF!