Thursday, October 15, 2009

Manhattan

Cheguei a Manhattan bem no dia de Colombo, e fui recebida com uma parada muito chocha na Quinta Avenida. Não sei se estava desanimada porque já era o final da programação, ou se era mesmo assim sem graça e solene como o desfile dos floats que assisti em Nova Orleans. Esse tal desfile de Carnaval era uma chatura. Não sei como as pessoas ficam aguardando pela chegada dos carros alegóricos sem samba, nem mesmo um bom grupo de jazz. Alguns homens de blazer e colares, algumas louras disfarçadas de sereias, algumas flores douradas enfeitando tudo, carros exageradamente grandes e pesados, desfilando lentamente, sonolentamente, esta é a lembrança que guardei. De noite, as ruas apinhadas de bêbados e bêbadas, os mesmos homens de blazer, que haviam desfilado de manhã nos carros alegóricos, apenas com seus narizes mais vermelhos por causa da bebida, aparecendo nas sacadas e jogando colares para as louras de peitos descobertos, molhados de cerveja, balouçantes... Isso lá em Nova Orleans. Aqui em Nova Iorque, senhores solenes em pé nos carros, com estadartes das sociedades "colombianas", acenando para famílias desatentas e para turistas desinteressados. Mas o desfile não empanou o brilho e beleza da cidade. O sol frio brincando entre as nuvens provocava desenhos nas vidraças dos prédios, ou sombras nas fachadas elaboradas dos prédios mais antigos. Atravessei a parada e mergulhei no cubo de cristal da loja da Apple, para consertar meu computador. Quando saí de lá o dia já tinha acabado. Só me restava jantar e descansar. No dia seguinte, o sol se abriu, glorioso. Depois de fazer uma caminhada pela Quinta Avenida (estou pertinho dela), fui ao Metropolitan para ver os Vermeer. Preciso dizer o quanto eu adoro este Museu? Eles sabem o que fazem, e a exposição, apesar de pequena, era interessantíssima. Adorei ver os quadros que foram contextualizados entre outros quadros da época, entre outros quadros da mesma temática, e aprendi coisas que nem suspeitava. Minha "Françoise", pois sempre penso estar vendo a personagem de Proust no quadro de Vermeer, me fascinou com sua calma e suas sutilezas, todas explicadas e colocadas em primeiro plano.
Mais uma vez fui visitar minha "pedra do sono", a escultura de um japonês cujo nome sempre me esqueço, e que é uma das minhas favoritas. O nome da escultura não é esse, eu é que lhe dou esse nome. Imaginem um cubo de granito, quase perfeito, com uma excavação na parte superior, coberto por água que dá a impressão de estar absolutamente parada, mas que corre e cai, sem que vejamos seu movimento. Sabemos que a água escorre porque escutamos o rumor que ela faz, mas não podemos perceber seu movimento. Minha impressão é a de que poderia me sentar em frente a ela para sempre, me deixar ficar ali fascinada por aquela calma aparente, por aquela pedra viva, linda em sua simplicidade, absolutamente complexa em sua invisível dinâmica.
Para terminar a visita, uma chegada no terraço para ver Maelstrom, uma escultura de um raio que ocupa todo o espaço do terraço. À volta, as copas das árvores, ainda não totalmente amareladas. Mais ao longe, o perfil dos prédios, sentinelas zelosas do parque e do museu. Quanta beleza dá para carregar em nossos corações? Tinha vontade de fechar os olhos para não deixar meu encantamento se desfazer, ao olhar para outras coisas. Agora que estou aqui escrevendo, me lembrei da história que contam de Proust, absorto na contemplação de uma flor, tentando guardar sua imagem para depois usá-la em seu texto. Quem me dera a intensidade daquele olhar! O meu, vadio e indisciplinado, logo logo estava se deliciando com detalhes de caixinhas de rapé, frascos de perfume, leques franceses. E meu corpo, rebelde, exigia descanso.
Hoje foi o primeiro dia do Congresso do qual estou participando. No caminho para a NY Film Academy, onde foi a abertura, a cidade foi revelando recantos que eu ainda não conhecia, ou ponde em evidência prédios que amo, pelo seu valor simbólico ou por seu traçado elegante. O desenho arquitetônico maciço e sólido das construções mais antigas parece ainda mais concreto ao se contrapor à leveza dos prédios mais novos, que abusam das transparências e de espaços vazios. Mas já escrevi demais, a hora se adianta e amanhã tenho um dia cheio. Se conseguir amanhã escrevo mais, contando os detalhes do Congresso.

2 comments:

Ana Cristina Melo said...

Acho que seu olhar captou muito mais do que você pode imaginar. A descrição que nos deu foi maravilhosa.
Sucesso aí.
Beijos

marciofo said...

Repito o que disse a Ana Cristina Melo. Conte mais. Marcio