Tuesday, May 26, 2009

Um café e a conta

Não fui entrevistar ninguém, nem mesmo ser entrevistada. Só me sentei ali porque havia uma mesa vazia e eu tinha tempo e um livro para ler. Pedi o café. Junto veio uma história, um sujeito apaixonado, reclamando de sua amada pelo celular. Depois de separados por um ano, um ano e meio (essa imprecisão me enlouquece, não funcionaria num conto!)  Ela topa sair de novo com ele. Foram jantar. Ele pensava em levá-la para cama (juro que tudo isso eu ouvi, e não tinha como não ouvir, ele falava alto, no celular, e sua cadeira estava ao lado da minha). Ela "conversou legal", mas de repente, danou de falar de um outro, o tal que ela namorou durante a separação. Mas ele não desistiu, queria levá-la para casa, transar com ela, pois era natural, depois dessa separação, afinal, ela o procurara, aceitara sair numa sexta à noite. Mas aí ela tomou dois copos de vinho e apagou. A mulher do outro lado, pois agora ele já tinha dito o nome da interlocutora, deve ter querido saber o que ele queria dizer com "apagou" e ele repetia, "apagou, apagou, passou a falar coisas desconexas, os olhos ficaram vidrados, apagou!" Mas ele não se conformou. Propôs saírem outra vez e a amada aceitou, mas no dia D disse que não tinha com quem deixar a filha. Mas o apaixonado reclamava: "Como é que ela aceitou sair e não fez planos para deixar a filha com alguém? Ela aceitou, e no dia quis desconversar, quis arrumar uma desculpa…"
Eu estava completamente fisgada pela história. O homem já era bem maduro, mais de sessenta, ele aparentava, mas se conservava, os cabelos estavam todos lá numa farta cabeleira grisalha, as mãos eram bem tratadas. Não vi seu rosto todo, só o perfil. Fiquei pensando que a mulher tinha que ser bem mais nova, para ter uma filha que precisasse deixar com alguém. Será? Mas aí ele disse que ela, naquela idade, não ia arrumar mais ninguém. Ou melhor, ia, sim, mas um tipo de gigolô que lhe tirasse o pouco que ela ainda tinha. 
Ele continuou falando e reclamando, querendo aquela mulher de volta. Estava claro que ele dizia tudo aquilo para que a amiga fosse intermediar, fazer as pazes dos dois. Mas eu sabia que não ia dar mais. Que mesmo que ela fosse para a cama com ele, ia ser só por cansaço, por desalento. Não era ele quem acendia suas pupilas, pelo contrário, ele as apagava. E, na verdade, quem é que ia querer um homem que ficava assim no celular, contando tudo o que se passara entre eles, deixando que uma bisbilhoteira ficasse acompanhando a história feito novela? Paguei minha conta e vim para casa, escrever. Ele continuou, se queixando, insistindo. Eu aposto que a amiga, do outro lado do celular, já estava quase apagando!

Monday, May 25, 2009

Twitting

Cara, entrei no twitter! Não aguentava mais saber que todo o mundo andava brincando com uma coisinha nova, menos eu.  Consegui entrar, consegui colocar uma foto e já tenho até seguidores. UAU! Agora, a pergunta que não quer calar: será que vou brincar muito com isso? Até que tenho dado as caras no facebook, mas essas coisas tomam muito tempo da gente. Tempo que me falta para ler e escrever e ir ao teatro e ao cinema, essas coisinhas básicas. Bem, fui ao cinema, ver Desejo e perigo. Bom filme, com uma história tão bem urdida que a gente não se desliga dela nem mesmo nas tórridas cenas de sexo. (Comentário que ouvi de uma amiga: "A Fulana disse que tinha posições que ela não conhecia… acho que ela está pensando que faz sexo, mas faz é outra coisa!")
Fui ao teatro assistir a peça da Susana Fuentes, que ela escreveu e ela mesma representa. Fiquei impressionada! Bem montada, com um texto poético e engraçado, e recursos teatrais explorados com muita elegância. Fiquei amiga do sumido Ramón, da vaidosa Rodinha e do Balão das lembranças. Me encantou a música tocada no acordeão, com seus gemidos que soam tão franceses, românticos. E ela também toca flauta, improvisa uma banda de circo com a platéia, envolve a todos com a magia do palco. Foi uma ótima noite. Prelúdios, chama-se a peça, e ontem foi o último dia, mas vamos torcer para ela ir para outro local, encantar mais gente!
Também li o livro do Leandro Resende, finalmente! Estava comigo há meses, mas entre viagens e trabalhos atrasados, ia adiando, certa de que ele compreenderia a demora. Agora li, e adorei. Meu companheiro de Histórias Possíveis, alguns dos contos eu já conhecia de lá. Mas os que ainda não tinha lido me surpreenderam com suas inovações, o caráter telegráfico de textos que vão sendo lançados de um lado a outro, construindo um painel que os ultrapassa, tudo muito legal. Estou muito contente por ele. Adoro meus amigos!
Para terminar, um poema de Chico Buarque de Hollanda, Soneto. É uma letra de música, mas vale sozinha, assim, e espero que inspire a semana de todos.

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio

Saturday, May 23, 2009

Aviso aos navegantes

Gente, recebi uma coisa incrível da Gerusa, amiga de Pernambuco (Ah, Recife, cidade dos meus amores…) e coloco aqui o link para vocês poderem imaginar;
Trata-se do I leilão de manuscritos. Quem dá mais? Eu dava tudo para poder estar lá assistindo. Infelizmente, não tenho manuscritos. Não escrevo a mão. Meus originais estão nos arquivos de GZK (sabe a brincadeira do Kubrik? HAL era o nome do computador revoltado, que tinha sido batizado com as letras anteriores a I-B-M, daí que, supondo que o alfabeto forme uma roda contínua, o meu computador imaginário se chama GZK, letras anteriores a H-A-L). Voltando aos manuscritos – lindos, pessoais, verdadeiros quadros – acho que devia copiar meus livros a mão, em folhas soltas, de boa qualidade, e depois… não sei, talvez forrar as paredes com elas. Isso é um projeto para depois, um dia que me sobre tempo. Ou que me falte inspiração. Por enquanto corro atrás das tarefas, que abandono de vez em quando para escrever historinhas novas. Daí que na quarta-feira, dia 27 de maio, o blog do Prosa vai postar (acho que não cabe publicar, mas talvez caiba) um conto meu: Lorelei. Escrevi especialmente para o Prosa, me sentindo muito feliz e completamente "prosa" pela chance de participar do espaço.
Aqui vai o link, para vocês já colocarem nos favoritos e irem sempre até lá:

Thursday, May 21, 2009

Vãos pensamentos, dores igualmente vãs

http://www.youtube.com/watch?v=XwrDPucMO4k

Quem clicou já pode ver o meu estado de ânimo nesta manhã de maio. Creio que estou ficando cliclotímica ( não é esse o novo nome para bi-polar?) Um dia, eufórica ( bem, nem tanto) com as notícias da brasiliana, outro deprimida e desanimada.  Bem, mas hoje é meu dia de UFF, preciso funcionar, daí que vou à luta.

Wednesday, May 20, 2009

Brasiliana, José Mindlin e Zezinho

Não sei do que falar primeiro: Dr. Mindlin e  sua incrível simpatia e paixão compartilhada? A Brasiliana, orgulho de nosso país, apresentada ao mundo todo? Ou o Zezinho, esse incrível robot, criado para ler livros e compartilhá-los? Acho que fico com o Zezinho, que eu aperfeiçoaria e já o conectaria com um chip na minha cabeça, e me alimentaria, incessantemente, com páginas de histórias e Histórias, de sabedoria e diversão.  Quero o Zezinho! Mas, será que o prazer da leitura poderia ser substituído pelos implantes de chips? O processo de decodificação dos textos não seria a fonte de todo o prazer de ler? O que nos atrai na leitura, o ato de ler ou o conhecimento da história? Acho que é da combinação das duas coisas que nasce esse prazer (como, talvez, todos os prazeres – estímulo e estimulado). Daí que meu pensamento-borboleta já se dirige a outra flor colhida no jornal da manhã: o movimento dos sem-namorados. Combino-o com a entrevista que assisti, outro dia, a uma médica que se dedicou a estudar o cérebro dos apaixonados, e traduz paixão em dopamina, serotonina e outros "inas". Ela escaneia cérebros de pessoas apaixonadas e tira suas conclusões a partir das partes dos cérebros que se iluminam. Fico pensando (estou muito cibernética, hoje) num novo cartão para o dia dos namorados, onde apareça o catscan do remetente e as palavras: meu cérebro se ilumina quando te vê, ou quando pensa em você ( a versão visual é para os remetentes do sexo masculino, a outra é para os remetentes do sexo feminino, pois, no estudo, a Dra. descobriu que as mulheres amam através da memória, e os homens através da visão). O mais incrível de tudo é que ela gosta de poesia, essa doutora, diz ser uma apaixonada leitora de poesia. Voltamos, assim, ao Dr. Mindlin, que, enquanto sua esposa foi viva  e ele ainda enxergou, todas as noites lia poesia para ela. Na sua simplicidade, ele dizia: ela gostava de escutar poesia, e eu de ler poesia em voz alta, era um casamento perfeito. Ah, Dr. Mindlin, o senhor nem pode imaginar como o meu cérebro se ilumina ao falar do senhor. Pois não deve ser só a paixão que provoca belas cores em nosso catscan, mas a amizade e a admiração também devem ter as suas luzes especiais. Gosto do senhor e da sua família, adoro um dos livros da sua filha Betti, Muqueca de maridos, imperdível recompilação dos mitos de origem do ponto de vista feminino (a Betti é antropóloga). E deixo aqui, para meu publiquinho pequeno, mas fiel, e que tem se ampliado com a adesão do David e de outros recém-chegados cujos nomes ainda não decorei, mas que são muito benvindos, o agradecimento pela Brasiliana.

Sunday, May 17, 2009

Domingos de sol

Adoro essas manhãs preguiçosas de domingo, quando o sol nos convida a um passeio, mas o corpo, preguiçosamente, se recusa a sair. Ficamos, então, passeando apenas em pensamento, o olhar comprido mergulhado no azul, nos azuis que competem em beleza entre si. Meus leitores devem ter percebido o quanto me agrada a cor azul. Agrada tanto que não titubeio em pintar de azul os olhos de meus personagens. Volta e meia aparece um de olhos azuis, o que não significa que a cor imaginada seja mesmo azul. É o espírito de alguns olhos que são azuis. Meu amor tinha olhos azuis, embora os dele fossem castanhos, escuros. Mas ele tinha essa qualidade de olhar, olhos que, ao olharmos dentro deles, nos mostram surpresas, abismos, liberdade e sonho. São olhos que nos convidam a aventuras, ao mundo. Não hesitamos em aparelhar nossas naus e partir. Ou, mais impacientes, largamos tudo e mergulhamos, em ondas que nos sustentam e nos trazem, sãos e salvos, para a praia.
Passeio no barco que tivemos juntos e ancoro, mais uma vez, entre as Cagarras. De lá julgo me ver aqui nesta torre, prisioneira, desejando quem já partiu. Vejo-me a me contemplar, e me pergunto se algum dia alguma lágrima desceu pelas minhas faces salgadas, apiedada. Mas sei que não. Ao lado dele, julgava que o que via era uma miragem, impossível de acontecer. Nas minhas faces apenas os seus lábios deixavam traços doces, desenhando um mapa de meus prazeres.
Imagino beijos, borboletas, pássaros e nuvens se desfazendo no azul. Sonho com o nada. Azul.

Friday, May 15, 2009

Frases que ando lendo - o retorno

"No 'homem cordial', a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência".
Todo mundo conhece o termo, mas acho que poucas pessoas leram o excelente Raízes do Brasil, do pai do filho famoso, Chico. É engraçado ver como gerações diferentes identificam as pessoas de maneiras diferentes. Tenho amigas mais velhas que falam daquele menino, o filho do Sérgio, ou, até mesmo, o filho da Maria Amélia. Para consumo atual, temos que falar no cara que é pai do Chico Buarque. 
O Sérgio ( e aqui se manifesta minha cordialidade, afastando o nome de família) não é o pai do termo, cunhado por Ribeiro Couto. Mas é o pai do homem menos cordial da história do Brasil: seu filho preserva sua intimidade, é polido, civilizado como um japonês, pouco expansivo nos seus atos - embora seja dos mais expansivos nas suas obras. Somente as palavras do Chico são cordiais, e nos aproximam de seu coração dele. (Essa construção meio arrevezada, tirei do José de Alencar, não é erro, não.) De uma certa maneira, também é pai do "My man cordial", já que foi um dos fundadores do PT, e o PT floresceu em Lula, personificação mais perfeita do homem cordial tal como explicado por Buarque de Holanda. Essa sacação da cordialidade do Lula não é minha, é de Lívia Reis, minha orientadora e amiga de toda a vida.
Voltando às amigas mais velhas, uma delas contou um comentário de D. Maria Amélia (que já vai chegando aos 100) sobre o filho: "Ainda bem que ele não entrou em decadência." O que será que ela quis dizer com isso? Eu agora vou me labirintar com Borges, lá no TELEZOOM. Bye!

Wednesday, May 13, 2009

Fotos no facebook

Oi, Turma.
Consegui. Postei algumas fotos no Facebook. Vou ver se consigo postar outras. E depois vou ver se descubro como vocês podem ir até esse tal de Facebook, se é que vocês ainda não sabem.

Frases que li hoje

Hoje estava lendo A Prisioneira, de Proust, e ele descreve Albertine como um ser em fuga, uma amante que lhe escapa entre os dedos e que por isso mesmo ainda se torna mais desejável. Aí está o cerne do amor e do ciúme em Proust: a incapacidade de se possuir o que se deseja, pois só se pode desejar aquilo que não se possui. Os amores serão sempre infelizes, em Proust, e desencontrados. Uma gangorra amorosa, pois quando um deseja o outro se escapa, e quando o outro deseja, o um já não o pode amar…
Outra descrição digna de nota são os "olhos fragmentados". Fiquei lembrando de Machado. Num, o perigo, noutro, a desconstrução, quase pós-moderna. Olhos fragmentados: uma escolha vocabular tão inesperada, que nos obriga a pensar que, afinal, Picasso já estava pintando e fazendo sucesso nesta época. Quando foi que o mundo passou a ser visto como um caleidoscópio? O impressionismo, o fauvismo, o cinemascópio, tudo isso revelava uma nova maneira de olhar, que nos afastaria cada vez mais da UNIDADE. Um mundo que se desfaz, visto por olhos fragmentados. Impossível harmonia, como diria Alejo Carpentier, anos mais tarde, em seu Concerto Barroco.
Bem, depois de amanhã tem mais um encontro no Telezoom. Mais labirintos, desta vez, espero, com o powerpoint funcionando direitinho. Meus slides estão bem bonitos. Os contos que escolhi para comentar são excelentes. Tomara que tudo dê certo.
 Agora vou a Mariátegui, a Sérgio Buarque de Holanda, a Nélida Piñon. Mistura de UFF e Rascunho que vai ampliando a fragmentação de meu olhar.Pois, foi com Mário de Andrade que aprendi que é preciso ser trezentos, ser trezentos e cinquenta.

Tuesday, May 12, 2009

Beleza pura

Tanto trabalho, tantas leituras, mas não resisto: não tenho tempo para escrever, mas coloco aqui um mimo, como diriam Marco Polo, Breno, José Manoel e meus amigos de Recife:
O que eu queria mesmo era já colocar o vídeo, para vocês já irem se deliciando, mas vale o link, que é a única coisa que sei postar.
Deleitem-se. Escutem em pensem  nos amores de suas vidas. E ofereçam para quem merecer. Eu ofereço a vocês, meus leitores, com emoção.

Saturday, May 09, 2009

Facebook, dia das mães, idéias desconexas

No meu proverbial desajuste internético e computadorial, vou levando uma vidinha não de todo desconectada. Capenga e surpreendente, decerto, mas muito melhor do que a alternativa:
Escrever à mão, por exemplo, para mim é uma dificuldade: minha letra pequena (mínima, dizem alguns) e pouco caprichada se torna ininteligível até mesmo para mim. E tenho a mania de só escrever com lapiseira 0,5 mm, com mão leve, delicada, sem deixar marca no papel (me corrigiram muito para que isso acontecesse). Resultado: o pouco que consigo ler, em breve torna-se apagado e desaparece.
Escrever à máquina também não me serve. Meus dedos fracotinhos, que nunca conseguiram aprender a arte da datilografia, se intrometem entre as teclas e se ferem. Houve um tempo em que eu ostentava band-aid em quase todos os dedos da mão direita ( o polegar escapava) e no indicador e dedo médio da mão esquerda. 
Tenho um caso de amor com computadores, mas é um amor mal-correspondido. Eu o amo, tento seduzir, ofereço o que tenho de melhor, mas ele me maltrata, indiferente aos meus carinhos. No entanto, malandro, me dá sempre o suficiente para que eu não abra mão de nosso caso.
De vez em quando troco de "amante", mas eles todos são da mesma laia. Esse agora, um Apple, tem a vantagem de ser lindo. Artístico! Me dá vontade de experimentar com um monte de coisas para as quais não tenho tempo (nem talento, diga-se de passagem). Ele brinca comigo, oferece coisas que não pedi, mas que são fáceis de usar, então acabo indo na dele. Mas, na hora do trabalho, ele às vezes, me prega uns sustos, mudando de tela, num jogo de esconde-esconde. Como estou falando de Borges em seus labirintos, penso que também estou num labirinto e que ajo como uma Ariadne louca, sem amarras, mas também sem Minotauro que me apavore. Me deixo encurralar em alguns becos, mas depois, com calma, encontro o caminho a seguir…
Bem, quero comunicar a todos que entrei para o Facebook. E para o Plaxo. Legal? Não faço a menor idéia. Durante anos tive (acho que ainda tenho) um Orkut, mas não sei o que fazer com ele. Linkei o Plaxo e o Facebook. Para quê? Também não sei. Tinha essa opção, e achei que seria legal. Deixo o Facebook vigiando o Plaxo e vice-versa. Meus amigos devem achar que vou usar isso à beça. Bem que eu gostaria.
Num dos dois, já esqueci qual, aparece meu estado civil. Não havia a opção viúva, daí que apareço como solteira, com um coraçãozinho vermelho vibrante do lado. Se houvesse a opção viúva, será que apareceria um coração partido? 
Voltando ao Facebook, parece que todo o mundo se comunica por ele e pelo tal do twitter, que desconheço. Acho que estou lascada. Mandam fotos, informações, trocam juras de amor, enviam documentos, e eu mal consigo manipular meu imeio. Como é que vai ser? Onde vou arranjar tempo para ler tanta coisa, escrever, publicar, encontrar URLs, fazer uploads, inserir filmes, etc, etc? Aprendo uma coisa e já me soterram com novas necessidades.
O pior é que as necessidades do passado não desaparecem. Daí que não vou poder celebrar o dia das mães pela internet. Vamos celebrar ao vivo e a cores, em duas reuniões, sábado e domingo. Em compensação, já coloquei todas as fotos no computador, graças a um "chupa-cabra" que descobri e adquiri, feliz por não precisar mais do meu filho para isso. Gosto de autonomia. Agora só preciso descobrir como colocar as fotos do Pantanal e da Chapada no Facebook. Aí terei colocado, finalmente, meu pé no século XXI!
Para terminar, coloquei minha foto, tanto no Facebook quanto no Plaxo. Numa estou me escondendo atrás de meu livro emblemático. Noutro estou sendo atacada pela natureza em fúria, personificada pelo Chico, uma macaquinho safado, que queria roubar meus óculos de leitura. E roubou! Tive que fazer mil acrobacias e trapaças para conseguir de volta os meus olhos.
Bem, se algum de meus leitores souber como utilizar essas duas maravilhas internéticas e quiser me ensinar (sem muitas complicações) para que servem, agradeço.
Feliz dia das mães, para quem o for, para quem as tiver, para quem não está nem aí, mas quiser curtir um belo domingo.

Friday, May 08, 2009

Dendrolatria


Tinha uma lista de coisas sobre as quais queria escrever, mas o tempo não estica e eu, indo de um lado para o outro no espaço, só me desloco num único sentido no tempo (isso foi tema de minha aula hoje no Espaço Telezoom: Labririntos de Borges).  Como o tempo não estica e se desloca num único vetor e eu estava no carro ou pelas calçadas do Leblon, não anotei as coisas e acabei me esquecendo delas. Uma, porém, consegui gravar, pois munida do celular e de meu inepto talento para as fotos, registrei em imagem que agora compartilho com vocês, queridos e desconhecidos leitores: 
Ao parar para atravessar uma rua en

contrei uma árvore florida, bela em sua singela oferta de cores e vida a uma rua do Leblon.
Quem saberá me esclarecer dos mistérios da internet?
Estou desde ontem tentando postar esta foto, e agora que consigo, tudo muda.
Estou escrevendo da direita para a esquerda, as letras saem numa cor que não escolhi, acho melhor parar e continuar em outro post.
Bye.

Thursday, May 07, 2009

Lady Frankenstein

Vejo uma imagem e as idéias me assaltam. Estamos presenciando a criação de Mary Shelley nos vídeos do mundo afora. Costurar, colar, unir pedaços de gente que já se foi, e pedaços de gente que por aqui ainda anda. E essas colchas de retalhos falam, nos emocionam, nos assustam e nos empolgam. Mary, será que ao lermos tua história hoje em dia ainda nos assustaremos? Ainda sentiremos algum arrepio na nuca? 
Penso numa época em que a esfera era sinônimo da perfeição. Como tal, era sagrada. Falar do círculo ou da esfera era falar de Deus. Com o tempo, o divino foi perdendo sua substância, até que Aristófanes, o engraçadinho grego, fez piada com isso, cortou-os ao meio, combinou-os por gêneros, explicou amor e homossexualidade com essas imperfeições marcadas pela sua cicatriz.
Agora explicamos a vida toda através da cicatriz. O monstruoso torna-se assombroso, e nem mesmo isso: engenhoso, apenas. Olhamos por alguns segundos, e já pensamos em outras coisas, em enchentes, em secas, em aviões que caem, em países que desmoronam. Nem lembramos do nome do criador nem da criatura. Mary, acho que já ninguém compreenderá o susto que tua história gerou. Hoje tua criação é pasto para possiveis engraçadinhos pós-modernos. Mas a pós-modernidade não sabe rir de si mesma. Leva-se muito a sério, sem sonhos nem delírios. Exibe a realidade e a fragmenta, como criança entediada que após construir a torre de Lego a desfaz, procurando uma nova distração. Em algum lugar de minha lembrança, tão fugaz, grava-se a lembrança desta Lady Frankenstein. Dizem que ela sorri, testemunham sua fala e seu júbilo. Eu não vi nada disso. Vi a cicatriz. Olhei os olhos de um ser solitário, criado pela mão humana, após ter sido destruído por mão desumana. Vi uma solidão. Que se multiplica em outros assombros, em mais antigas engenhosidades. Pergunto-me: para quem Mary Shelley contaria sua história nos dias de hoje?

Tuesday, May 05, 2009

Paris e a plástica

Pronto! E essa agora? Acabo de saber que estão pensando em mudar a cara de Paris… Fiquei sem saber o que pensar, e então resolvi filosofar sobre cirurgia plástica. Conheço dois tipos de mulheres muito bonitas: aquelas que estão sempre pensando em melhorar um pouquinho, submetendo-se a todo tipo de cirurgia e tratamento, e outras que dizem que não suportam a idéia de deixar que alguém corte e costure seus rostos. Achei que Paris era deste último tipo, daquelas madames que juram que não fizeram plástica mas que, nas encolhas, deram uma suspendidinha aqui, uma esticadinha ali, tudo muito discreto, com elas cheias de medo de que alguma coisa não dê certo, mas sem resisitir a tentar manter sua beleza. Agora vejo que Madame quer se submeter a uma cirurgia radical, a famosa cirurgia macacão, da qual não escapa nada.  Uma reurbanização. Isso porque, na meia idade, bem, ali pelo século XIX, Madame, na época casada com Napoleão III, não resistiu e contratou o famoso cirurgião urbano, Barão de Haussmann, para lhe fazer uma plástica radical. Suas irmãs, pelo mundo afora, seguiram seu exemplo. Aqui no Rio, o cirurgião contratado foi o Pereira Passos. Confesso, tanto Paris quanto o Rio ficaram lindas, mas Paris conservou o trabalho de seu cirurgião, enquanto o Rio danou-se de fazer modernizações e a bela Avenida Central desapareceu. Hoje, a Rio Branco, praticamente não tem mais nenhum dos prédios do início deste século. Sobrados pelas redondezas caem ou se incendeiam, ou são dilapidados pelo descuido de seus proprietários. Quando a gente vê esforços como os do pessoal da Rua do Lavradio, até se admira. 
Semana passada fui a um prazeroso encontro na R. Sá Ferreira, na Casa Vuillot (acho que é este o nome), uma casa construída por Virzi, o mesmo arquiteto da Mansão Martinelli. Confesso que, embora tenha sido moradora do posto 6 por muitos anos, não conhecia a casa, nunca tinha notado aquela construção esdrúxula, que se projeta em ângulo, como uma ponta de seta agressiva. Hoje, graças à Prefeitura, a casa foi toda reformada e virou uma biblioteca. Somente ao entrar reconheci o encanto que a construção possui. Misteriosa, submarina, com cantos e recantos em ângulos agudos ou retos, mas nem porisso menos evocadora de um útero (um útero projetado por um engenheiro, pode ser), oferecendo a possibilidade de vida, de um renascimento, que agora se concretiza ao ser transformada em biblioteca. Foi um presente que minha querida Rachel nos ofertou, mais um tesouro escondido dos muitos que ela possui, e que divide, generosa, com seu grupo.
E, no entanto, apesar de meu aparente saudosismo, também gosto de apreciar as novas construções. Toda semana, quando vou a Niterói, me maravilho com o perfil dos prédios no centro da cidade. Passando pela Perimetral (pois assim visito todas as belezas da orla), sempre me encanto com o contraste entre o moderno e o antigo, no reflexo do prédio antigo nos espelhos do arranha céu a seu lado. Olho para o mosteiro, escondido ali sobre seu pequeno monte, e imagino o que não pensam aquelas paredes que viram a cidade crescer. Parece um avozinho, maravilhado com netos altos e fortes, que já nem falam mais a mesma língua…
Não quero me estender muito mais, porém recordo um tempo em que a enseada de Botafogo e o próprio Aterro eram circundados por cartazes luminosos, que amenizavam os longos engarrafamentos dentro de ônibus calorentos. Eu lia e relia as manchetes de um jornal luminoso, precursor da internet, informando-nos das últimas novidades, exasperando-nos com a temperatura, e mostrando, implacável, a passagem do tempo. Ou me distraía olhando o balé das cores das lâmpadas que se acendiam e apagavam, ora azuis, ora vermelhas, ou verdes, ou brancas, ou amarelas, nos cartazes de tantas empresas desaparecidas.
Mas chega de saudade. Deixo de lado a lenda do palacete Martinelli, já abandonado, quando eu passava por ali. E outras memórias, mais modestas, dos mosaicos das calçadas, dos vendedores de cataventos coloridos, dos parques com fontes em que se podia matar a sede... Fico aqui no meu Leblon, que já foi só de casas, no alto de minha torre, olhando minha nesguinha de mar. Hoje água e céus estão prateados, tão diferentes do colorido de ontem que até posso acreditar em gênios que, durante a noite, transportam cidades inteiras para lugares bem distantes. Estou, talvez, às margens do Sena, na nova Paris…

Sunday, May 03, 2009

uma notícia triste

Leio no jornal sobre a morte do Boal, o criador do Teatro do Oprimido. Quantos sonhos morrem quando morre uma pessoa? Boal, creio eu, levou esperança e compreensão a tanta gente, aqui e pelo mundo. Iluminou um pouco a minha juventude, deu esperanças ao meu idealismo, `a minha vontade de fazer algo pelos nossos irmãos – só em nome, infelizmente.
Nos dias assim tão lindos a morte nos parece tão distante, que é difícil acreditar que haja gente morrendo. Principalmente Gente assim, com maiúscula, que tocou corações e mentes e que eu gostaria que nunca fosse esquecida.
Como diria Drummond, ele (e nesse pronome cabe tanta gente!) agora é apenas um retrato na parede. Mas como dói!

O tempo passou na janela...













Caraca, mano! Há quanto tempo não escrevo. Já estamos em maio, o mês mais cruel já passou (T.S. Eliot), chegamos ao mês das noivas, das mães, de Maria, e eu num silêncio beneditino, trabalhando em coisas de literatura, me preparando para as aulas da UFF que assisto sem passividade, e para as aulas que dou para meus grupos queridos.
Falei em tempo passando na janela e olhei para fora, para ver o dia lindo, espetacular, um verdadeiro dia de maio, com sua luminosidade especial. Mas, enquanto vejo coisas belas, penso nos e-mails com que meu amigo Márcio F. me presenteia todos os domingos: e-mails de arte, sempre com belas imagens e informações interessantes. Hoje, a propósito do dia, ele me mandou as gravuras que roubei para ilustrar minha postagem. Três de maio, chamam-se as pinturas acima. Um dia tão violento, que marcou a imaginação de três grandes pintores, mas que hoje se apresenta numa versão calma e suave, cheia de beleza e, me parece, aqui do alto de minha torre de concreto, de paz.
Estou sumida do mundo, mas não deixo de amar meus amigos, em silêncio. Neste post homenageio a todos os que não têm recebido uma palavrinha minha, mas que não saem de meu coração: Para umas, o caraca, mano, private joke. Para outros, as imagens, para mais algumas, o Eliot. Para o meu amor, a lembrança de outros dias de maio, cheios de menções a Baudelaire... Para meus leitores, meu coração, que bate sem esperanças, mas que não se cansa de contemplar o jardim!
Só para terminar, mais uma bela imagem de uma fotógrafa inepta, mas sortuda:

Monday, April 27, 2009

Capivaras outra vez?

Nem todas as capivaras são iguais. E eu não pretendo me transformar numa nova Cora Rónai, escrevendo artigos em defesa do estilo de vida destes animais.  Mas, de volta ao Rio, com muitas fotos de capivara, já que elas estavam por toda a parte no Pantanal, e as aves e outros animais que eu pretendia fotografar eram apressados e deixavam o cenário antes que minha câmera inábil as clicasse, me vi com um acervo que faria inveja a qualquer estudioso dessa espécie. Estou viajando na companhia de uma amiga, americana, cujo filho de 12 anos lhe informou, ao ser contemplado com uma das suas também incontáveis fotos capivarescas, que "capybaras are my favorite rodent". Em português: são o roedor favorito deste menino da Nova Inglaterra!

A mãe dele e eu nos admiramos muito, mas o rapazinho é estudioso, está num dos melhores colégios da região,  é um ávido leitor – achamos que isso era coisa de sua educação primorosa. No entanto, ao chegar ao Rio, descobrimos que as capivaras são as favoritas das crianças aqui também. Sem que ninguém desse por isso, as bichinhas entraram na moda! Talvez já estejam até ameaçando o reinado longevo do Rato. Será?

Mas, com essas fotos que coloquei aqui cheguei à conclusão de que nem todas as capivaras são iguais: pode-se perceber um tipo de personalidade em cada um dos exemplares destas fotos. A primeira capivara é tímida, tenta se esconder atrás de um anteparo. Se capivaras fossem alfabetizadas, ela estaria com um livro, enquanto as outras brincavam de pegar entre uma e outra poça. Já a capivara da foto acima é uma sonhadora, que imagina aventuras para além da cerca, ou sonha com algum amor distante. Talvez sinta saudades de um primo que resolveu mudar-se para o Rio, e levar uma vida mais agitada e glamurosa, estampando as páginas de um  jornal.

Este amiguinho aqui em cima é resignado, pensa em se recolher para descansar depois de um árduo dia de mastigação. Como sou uma fotógrafa de muito pouca qualidade não podemos ver seu sexo, que as capivaras macho ostentam sobre o nariz. Bem, não exatamente aquilo, mas os machos têm uma glândula grande e preta no focinho e dividem seu tempo entre pastar, tomar intermináveis banhos de beleza na lama, namorar (rapidinho, prá não cansar) e esfregar o nariz por toda a parte, com evidente volúpia, marcando seu território. 
Então, meus caros capybara lovers, apreciem as fotos e essas gotas de sabedoria de sua amiga zoóloga de ocasião.

Saturday, April 25, 2009

Ontem não deu...

Pois é. Ontem tive um dia cheio. Estou oferecendo uma oficina de contos aqui no SESC Arsenal, em Cuiabá. Mas ontem tive, além da oficina, uma mesa redonda, que não foi assim tão redonda já que era composta apenas de duas pessoas -- uma poeta local, Luciene Carvalho, cujo último livro, Insânia, trata de sua experiência num manicômio onde esteve internada, pelo que eu entendi, por problemas de drogas e bipolaridade, e eu. Claro que eu não podia ter nada que fosse tão interessante quanto a loucura, eu, que sou apenas eu, embora me sinta trezentas, ou trezentas e cinquenta, como na poesia de Mário. Mas vivo no limite dessa Lucia que construí a duras penas, e que vou colando com palavras e lembranças, para não desmoronar. Quem me dera ter uma persona, como revelou a Luciene, que se pode despir à noite para ir dormir. Eu tenho que ir dormir com a cabeça cheia de idéias, frustrações, apreensões, cansaço, nem sempre descanso bem, acordo meio amarfanhada e vou à luta, esticando um pouco daqui, puxando um pouco dali, para fazer frente ao que surge.
Mas Luciene encantou a audiência com sua exuberância, sua palavra fácil e suas confidências. Afinal, ela é uma atriz, interpreta suas próprias poesias nos palcos que encontra. E tem tanta competência que vai abiscoitando os incentivos fiscais e culturais que encontra, o que permite que ela confesse, orgulhosa, que vive de literatura. Ela me faz lembrar a Elisa Lucinda, outra performática, que se expõe corajosamente, com seus versos. Não cheguei a conhecer os versos da Luciene, não aprecio o gênero de versos da Elisa Lucinda, mas isso não me impede de admirar as duas, pela garra que têm pela vida.

Thursday, April 23, 2009

Cuiabá



Dizem que Cuiabá é a cidade mais quente do Brasil. Para mim, que estou vindo do Pantanal, até que não estou achando tão má assim. Vejam: no Pantanal acho que faz o mesmo calor, mas a gente se vê obrigada a andar de mangas compridas, calças compridas enfiadas para dentro das meias, chapéu, sapato fechado ( e o que eu não daria por uma galocha, na hora de andar a cavalo pelos campos alagados!)
É bem verdade que o pessoal daqui vai para a região do Pantanal para ficarem mergulhados nos corixos, que, pelo que eu entendi, são terrenos vizinhos aos rios, que estão permanentemente alagados, embora variem de extensão conforme a época do ano.

Na verdade, a primeira espécie animal que pudemos identificar no Pantanal foi a da foto que aqui vai. Confiram!







É isso mesmo!
Seres humanos, exibindo suas carnes brancas e suas latinhas de cerveja, na água muito transparente, ao lado de todas as 122 pontes da Transpantaneira. A estrada não é asfaltada e as pontes são de madeira. Ao lado de cada um dos quatro apoios da ponte, forma-se uma espécie de rampinha, onde o carro desce de marcha a ré e despeja a família ou os amigos para o refrescante banho de imersão. Ao lado, os jacarés vão lentamente se afastando, indignados com esa usurpação. Ninguém se incomoda com eles, que fogem do convívio humano. Quem também partilha das águas são as incontáveis capivaras. Rebolando, lentas, sempre mastigando, elas parecem as donas das poças e dos charcos. Sua vida parece tranquila e talvez por desfastio, uma ou outra se lembre de dar uma corrida, sempre curta, espadanando muita água. Outros casais combinam um encontro dentro d'água, e com a brevidade que que seus ímpetos preguiçosos permitem, dão uma namoradinha rápida, e depois mais outra, e mais outra... afinal, elas não têm nada melhor para fazer!

Pouco a pouco vamos compreendendo que o Pantanal é a república dos Pássaros. Primeiramente, nossos olhares desacostumasdos não conseguem perceber a grande variedade e o incontável número de aves. Nossos ouvidos, porém, vão reconhecendos cantos diferentes, e em breve passamos a perceber que as sombras não são sombras, e que o balançar das folhas das árvores e arbustos não se deve ao vento, mas à mudança de posição de aves solitarias ou em bandos estridentes.
Amanhã coloco mais fotos e outras impressões pantaneiras.

Tuesday, April 21, 2009

Enquanto as capivaras pastam...

Ilhada, mais uma vez! A internet e o celular n'ao funcionam, so consigo me conectar do computador da propria pousada, que, apesar de estarmos aqui desde domingo, somente hoje voltou a funcionar. A paisagem eh uma beleza, mas o calor nao da vontade de fazer mais do que fazem as capivaras -- pastar, chafurdar numa pocinha de agua e uma ou outra mudanca de posicao. Assim que estiver conectada com o mundo mando noticias de novo

Sunday, April 19, 2009

trapaças da sorte.




Prometi,estou cumprindo, só que com algum atraso, pois não contava com a falta de sinal para entrar na internet. Mas aqui estão algumas das belezas que experimentei na Chapada dos Guimarães. Ficamos na pousada do Parque, e as fotos são de lá: cachoeira inclusive, onde tomamos um banho que lavou corpos, corações e mentes, até mesmo as almas. Esta foto imediatamente acima é para dar uma idéia de como foi nossa caminhada no mato. Era assim mesmo, sem caminho, pisando entre folhas e galhos, engolindo um medo danado de encontrar alguma cobra. A primeira foto está classificada como "outono na Chapada" -- não acham que é apropriado? E a da formação rochosa se inttula Máquina de costura, pois é ao que se assemelha. Agora ciao!

Thursday, April 16, 2009

Lucia já vou indo

Este é o nome de uma historinha infantil, da qual não lembro nada a não ser o nome. A Lucia era uma tartaruga, ou uma lesma, alguma coisa lenta, que estava sempre atrasada. Eu já sou de outro tipo. Cumpro horários, não costumo me atrasar, mas estou sempre indo a algum lugar. Então, até amanhã, na Chapada. Não tive tempo de passar as fotos para o computador, mas garanto a vocês que vou conseguir colocar fotos da Chapada. Tenho uma estratégia, me aguardem! Até amanhã!

Wednesday, April 15, 2009

Hello, goodbye

Acabo de chegar, mas é só para assistir a uma aula e trocar de malas: já estou de partida de novo. Desta vez vou a trabalho, uma oficina de contos no SESC Arsenal, em Cuiabá. Só que não resisto ao desejo de dar uma espiadinha na Chapada e no Pantanal, por isso vou uns dias antes. É cansativo, mas acho que vale a pena. Desta vez levarei o computador, e minha intenção é postar algumas fotos de lá. Na verdade, queria postar fotos da viagem a Colômbia e ao Panamá, mas ainda estão na máquina, não sei se terei tempo para fazer isso ainda hoje.
 Mas quero que todos saibam que adorei a viagem, apesar de achar que San Andrés não vale a pena (é muito sacrifício, muita distância e temos aqui coisas tão belas ou ainda mais belas do que lá). O que chateia na viagem à Colômbia, é o infernal ritual de abrir e fechar malas. Quando chegamos, temos que abrir as malas. Quando saímos, também. Só que despachamos a mala, que vai para o avião, não temos mais acesso a ela e, ao chegarmos em nosso destino, temos que abri-la outras vez. E tudo isso acompanhado de uma infinidade de papéis a serem preenchidos em não sei quantas vias. Tudo é muito burocrático e as filas são onipresentes e looongas. Em compensação, recebi beijos e mais beijos de Augusto Xavier, vi a casa de Garcia Marques, ouvi histórias de piratas, bucaneiros, flibusteiros e corsários, andei pelas ruas floridas de Cartagena de Indias e depois nadei nas águas multicoloridas de San Andrés. Bem depois coloco as fotos de Augusto Xavier para que todos morram de inveja! E as fotos do Aquarium, e tudo o mais que conseguir desentranhar da máquina. Se der, até um filminho das eclusas do Canal do Panamá. Adorei o Panamá. Bem, não tenho intenção de voltar lá, mas gostei do povo, da comida, da cidade que está em pleno crescimento, de ver os barcos, cada qual mais maravilhoso que o outro. (Estou falando de iates e veleiros particulares deslumbrantes) Parece o Mônaco da América. Se eu estivesse começando a vida, acho que lá seria um bom lugar para ir trabalhar. Um país em pleno crescimento, dinâmico. É bem verdade que eles têm 9 meses de chuva ao ano, e pode ser que minha opinião fosse bem diferente se tivesse chegado lá em maio... Mas, com só posso falar do que vi, fica minha impressão positiva.
Hasta la vista!
Ah, Feliz Natal, para quem é de Natal, Feliz Páscoa para quem é de Páscoa e feliz aniversário para as muitas aniversariantes do mês: Angela, Maria Helena (é hoje!) Kim, Dedei, Sílvia....Nossa! Ainda tem mais, mas vou parar por aqui.

Saturday, April 11, 2009

Sabado de sol em San Andres

Amigos
estou longe de casa, na Colombia, num computador estranho e sem acentos. Desculpem a falta de noticias, mas depois faco um resumo da viagem para todos. Estive em Cartagena de Indias, agora estou en San Andres e antes de ir para casa, passo pelo Panama, onde espero poder visitar o canal.
Se nao der para conectar amanha, desejo a todos uma feliz Pascoa. Por favor, coloquem os acentos e as cedilhas e a pontuacao necessaria. E obrigada por me lerem, viram. Esse e meu maior presente.

Sunday, April 05, 2009

Mais um domingo de sol no Rio…

É impossível não amar esta cidade num dia como o de hoje. A temperatura amena e os tons do céu e do mar parecem um convite à alegria e ao bom humor. Sorrio, portanto, com o carinho da Cris: obrigada, amiga! Tomara que dê certo. É verdade que ali na enorme lista dos inscritos tem muita gente boa. Flavinho alça sua "cabeça baixa", entre os romances, e eu, por um lapso, esqueci de colocá-lo no post passado. Ele é amigo querido, claro que estou torcendo por ele, também. Mas não vou mencionar todos os amigos, nem falar mais nesse assunto. Volto ao meu bom humor domingueiro, mesmo com o estresse da véspera da partida, e o atraso dos trabalhos. Mas lembro do filme que assisti ontem: Simplesmente feliz. Concluo que o bom humor constante de algumas pessoas pode ser muito irritante para outras. Que saco! O mundo se acabando e a fulana ou o fulano rindo como uma imbecil, ou um drogado. 
Me lembro de uma consulta médica que muito me ofendeu – o médico, um mal-humorado crônico, achou que eu era burra como uma porta, só porque eu sorria, tentando ser simpática. E transformou a consulta numa sessão de tortura, tentando desaparafusar o sorriso do meu rosto. Eu, por teimosia, insistia no sorriso, mas por dentro tinha vontade de dar-lhe um tabefe. E assim ficamos, por toda aquela longa meia-hora, medindo forças, até que ele me dispensou e eu saí dali aliviada, para nunca mais voltar! Mas fiquei indignada, por ter de pagar por isso! O que vale é que a minha memória é seletiva: lembro do caso, mas não há maneira de me lembrar do médico. Vai ver que isso nem aconteceu comigo, mas alguém me contou a história da qual me apropriei, por me colocar no lugar da pessoa. Tenho memórias que são desse tipo – produzidas pelos outros.  Há coisas que me contam a meu respeito e que eu acredito que tenham se passado, mas das quais não tenho a menor recordação própria. Só que, de tanto a pessoa insistir, assumo aquilo como uma memória possível, e passo a guardar a versão da pessoa sobre o meu passado. Este episódio difere ligeiramente. Talvez eu tenha elegido essa versão de alguém como própria – afinal, combina comigo, sou uma sorridente contumaz, e ouvinte atenta. Nas conferências, sinto, muitas vezes, que sirvo de ponto de referência para o falante. Olho atenta, sorrio, concordo, balançando a cabeça. Se discordo, aperto os lábios, numa mímica de dúvida ( ia dizer num esgar de dúvida, mas achei a palavra muito pedante). E tenho grande amor por boas histórias. Me lembro que a editora, por ocasião de meu primeiro livro, me pediu uma "biografia" para colocar na orelha do livro. Aquilo me deixou absolutamente perplexa: quem poderia estar interessado na vida que levo? Não tinha nada para contar: nasci, fui para o colégio, aprendi a ler e escrever, casei, tive filhos, enviuvei… Escrevi, então, uma biografia possível e disse que era neurocirurgiã, amante do Salman Rushdie, o que tinha me obrigado a levar uma vida clandestina. Por isso mesmo, por ocasião do ferimento que havia abatido Osama Bin Laden, eu tinha sido levada – por pessoas não identificadas – para as cavernas do Afeganistão, onde tinha efetuado uma operação de emergência salvando a vida do terrorista mais procurado do mundo. Conseguira escapar do sequestro atravessando o deserto sem bússola, fazendo um pacto semelhante ao do Paulo Coelho, mas havia errado a fórmula cabalística e ao invés de invocar o senhor do Mal, tinha invocado um ex-malandro da Lapa que, forçado a trabalhar graças à minha invocação, havia me castigado transportando-me para uma vida sem novas emoções. Isso, ou algo no gênero.  Eles preferiram a versão tradicional: carioca, formada em Letras, pesquisando as diferenças da colocação do pronome demonstrativo entre os romances cubanos e brasileiros etc, etc.  É de morrer de tédio, não?
E o que é que eu faço, então, com o meu bom humor e o meu sorriso?
Enfio em mais alguma outra "vida possível" e conto que sou o leite que o Chico derramou, por não conseguir prestar atenção na minha fervura… Vou sonhando, vou viajando, numa busca incessante de motivos que justifiquem o sorriso que me crucifica o rosto. Vou vivendo.
E aí termino dizendo para o Guido: tenha um pouco mais de paciência com os escritores em geral, e com o Chico e o Proust em particular. Principalmente com o Proust, cuja obra, difamada como coisa de uma "bichinha fútil, fazendo crônica social" é um dos melhores estudos da alma humana que já tive a oportunidade de ler. E peço um pouco de respeito para quem, a fim de escrever, desistiu de viver. Pois mesmo essa minha vidinha sem graça, sem emoções, sem atividades, como é a única que tenho, me é cara. É muito difícil abdicar de sair para passear, de ir ao teatro, de ir viajar, de encontrar com os amigos, para se dedicar, exclusivamente, a escrever. E mesmo quando a gente diz que quer morrer, que só pensa em morrer, talvez o que a gente esteja mesmo querendo é se observar "completo", pois só o fim permite que se compreenda o que passou. Proust ficou uns treze anos recluso escrevendo, e reescrevendo, obsessivamente, sua obra. Viveu por escrito.

Friday, April 03, 2009

Portugal Telecom

André me avisa que estamos inscritos para o prêmio Portugal Telecom. Ah, quem me dera!... Ele e eu vamos ficar torcendo para conseguirmos ser escolhidos nesta fase inicial. Passar adiante, chegar um pouquinho mais para a frente, ganhar uma extensão para nossos sonhos. Os dois irmãos em SESC desse ano também estão inscritos. Vou dizer o nome de nossos livros: Linha de sombra, é o meu. Paz na terra entre os monstros é o do André; do Maurício é Beijando dentes, e ainda tem o Zé Mizé, do Sérgio. Caso algum de meus leitores seja jurado do Telecom, ou tenha amigos jurados do Telecom (basicamente, todos os jurados são professores universitários e jornalistas culturais) favor lembrarem desses livros. E chega de campanha!
Só um comentário pequenino, pois ando muito sem tempo: Já li o livro do Chico Buarque, que gostei e que já emprestei e até já dei de presente – não admira que o livro se esgote, é um presente que agrada, pois todo o mundo quer ler. Do livro só não gostei do nome : Leite derramado. Talvez por que me lembre de frias manhãs do passado, quando, sonolenta, ficava encarregada de tomar conta da leiteira e acabava me distraindo e deixando que o leite se derramasse pelo fogão, sujando tudo, prendendo-se, queimado, do lado de fora da leiteira, deixando minhas manhãs infelizes, e fazendo meu dia ter um cheiro meio doce, meio azedo, forte e insistente, sublinhando outros cheiros mais felizes, como a hortelã da pasta de dentes, e a alfazema dos abraços mais queridos.
Bem, mas, como contei, emprestei para alguém que conhece a família do Chico, e que reconheceu a mãe dele direto. Sabia de que casas ele falava: essa de Copacabana, disse-me ela, ele só conheceu de ouvir falar, quando ele nasceu já não existia. Contou casos de exílios, de infância, de sonhos, de doenças – e repetia, está tudo ali. Mas ela foi categórica: não é um livro machadiano, como diz a crítica, nem proustiano, como eu me atrevi a dizer. Ela não achou nada de Proust ali. Eu, no entanto, achei que o trabalho da memória e as retomadas das histórias, que se repetem, e nas repetições revelam um novo aspecto, é muito proustiano. É um livro triste, livro de velhice e tristeza, de um olhar que se recusa a envelhecer, mas de alguém cuja decrepitude impiedosamente descrita só pode levar à aniquilação. Um livro maduro, bom de ler, sem complicar a vida do leitor, e cujo fantasma do ciúme (seria por aí que a crítica fala que é machadiano?) não leva à criação de uma Capitu, pois Matilde se desfaz, se esconde, desaparece como o leite derramado. E, no entanto, é um livro difícil! Ainda bem que tirei férias do Rascunho e não vou ter que resenhá-lo esse mês.
Para terminar, esta semana peguei um texto antigo de Cortazar, onde ele fala de uma viagem à Índia. Que show! Que diferença de Caminho das Índias!
Por falar na novela, quem é que aguenta ficar uma semana inteira no enterro do falso morto? Morre, não morre, prepara o corpo, desaparece com o corpo, e tudo que a gente queria era ver o festival das luzes e as danças, e quem sabe descobrir um lugar onde servissem comida indiana, para a gente balançar nossas pulseiras e exibir os brincos da Maya, que já estão à venda no Rio?
Enquanto isso, o tempo passa e eu perco meus prazos. Então bye-bye. Vou trabalhar. Sei que é noite de sexta-feira, mas para mim os dias ficaram perigosamente iguais. Então trabalho, que é o melhor que posso fazer.

Wednesday, April 01, 2009

Nobel de literatura vai para brasileira!

Finalmente! O mundo se curva ante o Brasil, e descobre nossa literatura! Infelizmente, esta é apenas uma brincadeira de primeiro de abril, embora, como toda brincadeira, com seu fundo de verdade. Parece que nossa Nélida, que não é brasileira, mas que não o deixa de ser, pois sendo galega é ligada ao Brasil pela língua, alegria e generosidade, é uma das candidatas ao prêmio deste ano. Vamos torcer por ela e fazer de nossa manchete de 1º de abril, uma manchete de 31 de março. Isso já foi feito antes, talvez alguns se lembrem ainda da "gloriosa", quem sabe?
Aproveito para relembrar meus amigos da Galiza. Quanta saudade do sorriso sempre aberto da Carmen, de sua incrível disposição para a vida, de sua capacidade de trabalho! E do poeta e fotógrafo e professor e conhecedor de café, o homem para todas as estações, Carlos Quiroga! E das peças do Quico Cadaval! E das conversas com tantos amigos e amigas nos bares e restaurantes (hmmm!), dos dias dourados em Santiago de Compostela, das ruelas onde os apaixonados se abraçavam com paixão, e enchiam meu coração de saudade!
Continuemos na literatura, vamos falar um pouco dos livros que ando lendo: Numa mistura doida, um coquetel sem método, sem motivações a não ser o mero acaso, junto ensaístas hispano americanos com Amós Oz e Chico Buarque. Já li o Leite derramado. Estou ainda lendo a Caixa Preta e salpico este preto e branco com o matiz intenso de Alfonso Reyes, Cortázar e Borges. Na fila, que sempre aumenta e nunca tem fim, estão Nélida, Nietzsche e Barthes. Me lembrei agora de Machado, que não está na lista, mas que é bem vindo a qualquer hora, dizendo que "quem mamou da teta gótica…", ou seja, quem havia se criado sob a égide romântica, não conseguia se separar dela. Pois eu fui "criada" com o leite derramado de Nietzsche e Barthes. Os outros (Derrida, Foucault, etc.) nunca me pegaram tanto como os dois primeiros, pois estes me pegaram pela emoção e os outros pela razão. Mal comparando, estes últimos seriam "amas-secas", e não de leite (viram o trocadilho? juro que foi acidental!). Daí que, ao ver um livro bonito relançado, não resisto, vou revisitá-lo. A capa do livro Wagner em Bayreuth é absolutamente sedutora!
Bem voltando ao retrato em preto e branco que vou criando a partir de Oz e Chico, enquanto um faz a rememoração de uma paixão, o outro faz reviver o desamor, que, por incrível que pareça, convive com muita facilidade com a paixão. E isto está evidente nos dois livros: ambos são histórias de amor acabado, e em ambos a gente vê que nenhum dos apaixonados jamais conheceu realmente o alvo de sua obsessão. Ambos falam de morte e solidão, de ciúme e de desencanto. Chico, sempre mais suave, terno, mesmo, valoriza as perdas e confere um encanto às falhas de memória, dando sentido à perda de sentido e ao vazio. Oz é cáustico: suas palavras doem, são letais. Falando do envelhecimento de sua ex-mulher, ele pinta um dos retratos mais aterrorizantes da velhice feminina. Nem vou copiar aqui, pois só relembrar o que ele diz me dá engulhos (será que me sinto tão ameaçada assim?). Mas não é justo falar aqui de um livro que ainda não terminei de ler. Depois comento mais. 
Quanto aos ensaístas, com que prazer vou lendo o texto inteligente e culto dos autores citados. E, com alguma surpresa, vejo que vou criando, sem maiores pretensões, meus próprios ensaios aqui na rede. Sou ensaísta! Ora, viva! Mas, brincadeiras à parte, começo a criar uma outra indagação: o gênero que os brasileiros tanto prezam, a crônica, é, no fundo, um ensaio. Vou ter que comentar isso na aula.
Para terminar: estou com um texto publicado numa outra revista eletrônica, a diversos-afins
O que chama a atenção logo à primeira vista nesta revista são as fotos. Gente, que beleza! E são da Leila que tem um fotoblog muitíssimo legal, e de um outro amigo. Fiquei entusiasmada! Parabéns, Leila! E obrigada por me chamar para fazer parte do grupo. Nesta "leva", como eles chamam, tem Maurício de Almeida, outro irmão em SESC. E muitos outros autores legais. Chamo atenção do Guilherme, meu amigo poeta lá de Maceió, pois neste site eles publicam poesia. No Histórias Possíveis ficou determinado que só prosa, poesia só quando for dos colaboradores regulares.
Bem, preciso ir. Deixo vocês na esperança que todos cliquem no endereço acima e se encantem com as coisas que encontrarem por lá.
E feliz dia da ficção! Pois a mentira, quando bem contada, é uma boa história!

Friday, March 27, 2009

Radiohead e pianíssimo

Alguns desaparecem completamente graças ao Radiohead. Aposto que meu amigo André foi ao show, em Sampa. O Dapieve, que não é meu amigo, mas não deixa de ser, já que me visita pelas páginas de O Globo, foi e se deslumbrou. Ele fala em 20 mil pessoas assistindo ao show. Eu nem preciso de tanta plateia para desaparecer completamente: 2 mil já me fazem sumir. E ainda menos: deslizo por entre algumas pessoas de locomoção difícil e me sento numa poltrona da Cecília Meireles, para assistir a um pianista. A lotação da casa não estava esgotada, éramos um grupo pequeno, sem os encontrões nem o nervosismo de casa cheia. Acho que ali estavam muitos estudantes de música, pois pelos corredores ouvia aqueles jovens cantarolando as peças de Ravel e de Schumann. Entusiasmamo-nos com o Liszt, uma peça que é difícil, e que chama minha atenção graças a seu título: Após a leitura de Dante.  Confesso que meu Dante não é muito musical, mas entendo bem que seu poema estimule músicos. Eu, que nem sei italiano, só dou umas arranhadas porque sempre fui assim metida, querendo ler tudo o que encontro escrito em caracteres que conheço, ao ler minha edição bilíngue da Comédia me deixo encantar com a musicalidade dos versos. Aquela terza rima, que ele inventou, parece música, e me faz compreender como a poesia, em suas raízes, está firmemente ligada a ela. E me lembro daquela famosa canção do Henrique VIII, Autumn Leaves. Outro dia estava defendendo o Henrique VIII, falando de como ele era excepcionalmente inteligente. Muitas pessoas não lhe reconhecem o talento de estadista nem suas habilidades sociais (as social graces, do inglês). Lembrem-se da ordem da jarreteira, com sua maliciosa origem, uma liga entregue em público, com a frase, em francês: Honi soit qui mal y pense. E desta melodia, uma das mais belas e suaves, que agrada a todos os que a escutam. Os príncipes, antigamente, eram assim: educados. Aprendiam a falar várias línguas, aprendiam música, estudavam métrica, filosofia, e ainda faziam exercícios e tinham tempo para dançar na corte. Mas suas vidas eram dureza. Nada de banhos, nem sequer de banheiros. E os deslizes eram pagos com terríveis castigos. Esse rei acabou entrando para a história como fedorento e gordo. Ele devia ser diabético, com aquela ferida que nunca cicatrizou, desde os tempos da Bolena. Mas quem é que não fedia naqueles tempos de antanho?  Até hoje, na Europa, nossos narizes se ofendem na multidão…
Eu e as digressões! Volto à Cecília Meireles e confesso que a peça que mais me encantou foram os pequeninos retratos musicais de Ravel. Adoráveis  descritções, uma Ondina mergulhando num mar azul, um sino tocando tristemente, um gnomo rodopiando como um pião, atrapalhando o sono de uma criança assustada. Gostei de tudo, inclusive da bela cabeleira prateada do pianista, de seu jeito abrupto, meio tímido, de atacar logo o piano, desaparecendo completamente e deixando, em seu lugar, as notas bailando enlouquecidas, penetrando nossos corpos sem cerimônia e se instalando em nossos corações, colonizando nosso ritmo vital.

Thursday, March 26, 2009

Cigarras

Falei do coro da Butterfly que me parecia asinhas de insetos, e por coincidência, recebi um e-mail de um amigo poeta, Henrique Rodrigues, com poemas de Olegário Maciel, sobre cigarras.
Esses insetos que tantas vezes serviram como metáfora aos poetas, os artistas que morrem de tanto cantar, me entristeciam tanto, que eu chorava nos finais das tardes de verão, quando o som das cigarras parecia tornar o ar mais espesso, quase irrespirável. Aquilo me penalizava, como aquela fábula da Cigarra e da Formiga me revoltava. Nunca vi uma fábula mais odiosa, mais pequeno-burguesa que essa! Mas não sou especialmente fã de cigarras. Nem mesmo quando elas apareceram na forma de revista A cigarra, que acho que eu era muito pequena para ler. Houve um tempo, há tanto tempo, meu Deus, que o Rio foi invadido por insetos inoportunos e chatos, que o pessoal chamava de lacerdinhas. Aquilo caía em nossos olhos e fazia arder, era horrível. Se era horrível para as crianças, para as mulheres maquiadas era ainda mais, pois os insetos as faziam chorar, e o choro borrava sua maquiagem, vivemos, por um tempo, numa cidade de zumbis: mulheres de olhos derretidos, impressionantes. Houve um outro inseto, acho que nesta mesma época, que era só incrivelmente chato, mas não me lembro de um mal que ele causasse: uns besourinhos verdes que ficavam parados no ar, batendo muito as asas, trombando na gente, pois ao contrário dos outros insetos, esses não se afastavam quando nos aproximávamos. Era um pavor ser criança nesta época, e estar firmemente segura pelas mãos de algum adulto responsável, que nos arrastava para uma trombada inevitável com os monstrinhos, embora nos estorcêssemos, tentando escapar... 
Costumava dizer aos meus alunos que eu era da pré-história (e agora? tem acento? tem hífen?) da humanidade. Mais uma prova disso é ter vivido num tempo em que não havia água no Rio. E, de tarde, não havia luz. Minha mãe, que era uma pessoa, digamos, diferente, achou uma saudável ocupação para mim no horário sem luz: aulas particulares com uma professora que morava no décimo-segundo andar. Lá ia eu, com uma vela, subindo as escadas malcheirosas do prédio (naquele tempo as lixeiras ficavam nas escadas, e ninguém usava saco-plástico para embalar o lixo, que era despejado embrulhado em jornal velho). E eu nem precisava de aulas particulares, já que nunca tive problemas na escola. Não era aluna brilhante (só nas coisas que eu gostava: 10 em ciências, 10 em desenho, 5 em matemática, 5 em geografia) Naquilo que eu achava chato, só obtinha a nota mínima. No que eu gostava, só ganhava 10. Deixo o português de lado porque nesse eu me safava graças à redação. Sempre fui muito boa de redação, mas não queria saber de gramática. Escrevo sem maiores erros gramaticais porque leio muito, mas é só me perguntarem uma regra específica para descobrirem que não sei nada de português. Por exemplo: magestade ou majestade? Escrevo as duas, olho e respondo, segura: com J! Mas, se não escrever, não faço a menor ideia. Sei que jeito é com j pois deixei de ganhar dez numa redação graças à ele. A professora me descontou UM PONTO INTEIRO, por esse meu único erro, e foi irredutível, e eu nunca mais esqueci que jeito era com j.  Aprendi, também, a palavra arbitrariedade, nesta mesma lição...
Por falar em arbítrio, ontem assisti a um ótimo filme: Frost/Nixon. Fiquei fascinada pela caracterização dos atores. Vale a pena conseguir um horário para assistir o filme que se esconde em sessões quase impraticáveis.

Wednesday, March 25, 2009

Madame Butterfly

Acabo de chegar da sessão de cinema que nos mostrou a deslumbrante montagem de Mme. Butterfly no Metropolitan. Que beleza!
Chorei desesperadamente, como há muito não chorava no cinema, as lágrimas gordas e quentes descendo sem parar, e eu tentando não fungar, para não atrapalhar o resto da plateia. Que ódio me deu do Pinkerton! Que reação, que nem eu mesma consigo entender, pois essa era uma das óperas que mais se ouvia lá em casa. E eu já assisti mais de uma montagem, mas nenhuma tão bela quanto essa, diga-se de passagem.
Estou aqui, triste demais para poder ir dormir, cantarolando áreas e relembrando cenas e detalhes. Aí lembrei que há muitos anos, comecei a escrever um poema para a Butterfly, mas fiquei empacada, igual ao Bentinho, com seu soneto "perde-se a vida, ganha-se a batalha…" Eu lembro de um verso: "Somente aos quinze anos se sabe amar" Não me lembro se escrevi mais alguma coisa, mas sei que nunca terminei, embora soubesse exatamente o que queria dizer: a gente só consegue amar, se entregar, confiar, quando se é muito jovem, sem maldade. Na nossa inocência não vemos a possibilidade do mal. E mergulhamos de cabeça, avançamos sem couraça, achando que a emoção que sentimos resgata o mundo. Todo nosso corpo reage, o sangue acelera, a respiração falta, as mãos tremem e ficam geladas. Encontrar com o amado, mesmo quando a gente sabe que ele vai estar naquele lugar (no colégio, ou na festa) provoca uma comoção. O coração pula uma batida, ou mais, nossas pernas bambeiam e precisamos nos segurar para não cair. Somos capazes de loucuras, mas também somos muito tímidos, inseguros, e às vezes nunca encontramos a coragem de abordar o alvo de nossa paixão. O primeiro beijo, então! Finalmente experimentar o gosto do amor, mas totalmente incapacitados, exagerando nos trejeitos, ou mantendo-nos tão rígidos que corremos o risco de quebrar os dentes e até a própria língua, que se transforma numa inconveniência...
Bem, claro que falo isso a partir de minha experiência, ocorrida num tempo muito mais doce, muito mais suave que o de agora. 
Sempre fui complicadinha, querendo encontrar a perfeição onde só se pode encontrar humanidade. Pobre Butterfly. Leal, entregue, vencida, achando que não exigia nada quando sua demanda era muito maior que seu amado. Um canalha, aquele Pinkerton, mas os homens, na época, se davam esse direito de serem canalhas. Se eu fosse escrever o libreto, minha vontade era de fazer o B.F. Pinkerton estourar os miolos de remorsos. Só que ele é tão canalha que vai levar uma vida fracassada, criando o seu japonesinho louro, bebendo todas para esquecer que uma mulher muito melhor que ele, por tê-lo encontrado, tinha sido destruída.
Mas vejam a safadeza do Puccini, colocando o nome do canalha de Benjamin Franklin e o do navio que o transporta de Abraham Lincoln...Para bom entendedor…Eles estão sempre escondendo os interesses pessoais atrás de símbolos da democracia. Aparecem cheios de grandes palavras, mas no fundo, só o que querem é mesmo f&*er os outros!
Bem, acho que o sono, finalmente, vem chegando. Queria um coro de anjos assim, como o coro que acompanha a Butterfly ao seu "cadafalso". Aquela música parece as asinhas dos insetos numa tarde de verão, não acham?

Tuesday, March 24, 2009

Defesas

Fui assistir a uma defesa de tese. Mestrado, ainda, mas todo o nervosismo já estava presente. Éramos poucas pessoas. A família da candidata, duas colegas, outras tantas amigas... Fiquei pensando na minha vez, tenho a certeza de que a família não vai querer ir. Aposto que não vão, mas pode até ser que me surpreenda e eles apareçam, carinhosos, belos, enchendo a sala, já que são muitos. Algumas amigas irão, e o sorriso delas vai me sustentar, mas o sorriso que me amparava mesmo não vai estar lá.  Eu, depois de ter me desesperado até a medula, estarei sentadinha na mesa, atrapalhada com o texto que lerei e que cumprirá, rigorosamente, os 20 minutos, ou 30, ou o que me destinarem. Sou muito cuidadosa com a cronometragem, pois odeio ser chata. Até aí tudo bem. Mas, quando chegarem os comentários e a arguição, já sei que vou me atrapalhar. Muito nervosa, não vou conseguir anotar nada, nem acompanhar o que as professoras estarão dizendo. Vou ficar com vontade de chorar, ou com raiva de mim mesma, por ser tão confusa. Vou beber água, minha garganta vai secar. Mas só uma coisa vai me consolar: o fato de que não vou ter mais que olhar para a cara da tese! O pior é que vou, pois terei que incorporar as recomendações e acertar os problemas levantados pela banca. Mas terei conseguido fechar essa página de minha vida. Estou tentando terminar todos esses capítulos que deixei em aberto, ansiando por terminar essa obra e descansar a caneta, os olhos, os dedos. Bem sei que não escrevo com caneta, mas é uma metáfora, aceitem-na.
E torçam para que meu banquete não seja indigesto.

Sunday, March 22, 2009

No que pensa o maestro?

Esta semana foi muito atribulada. Doenças, doenças, atrasos, prazos. Eu estava bem, era minha filha que sofria, e, de certo modo, isso ainda é pior.
Hoje, depois de bons resultados de exames, de entregar tudo o que precisava dentro dos prazos, lá fui eu para a Cecília Meireles, assistir a um concerto. Mendelssohn, com direito a Marcha Nupcial e tudo o mais! Grandiosa, cheia de metais e pesada, essa marcha nupcial sempre me fez desconfiar que foi escrita não para o casamento dos príncipes, mas para o de Titânia, rainha das fadas, com Bottom, o atrapalhado ator com cabeça de burro. Minha amiga perguntou se foi essa a música de meu casamento, mas não foi. Na verdade, não lembro de música em meu casamento. Lembro da beleza da Igreja – O Mosteiro dos Jerônimos e seus arcos lindos. A Igreja sem ornamentação, pois não quisemos nada. Na verdade, eu e Gui nos casamos meio que num sonho. A festa foi feita para agradar aos pais dele e à minha mãe. Ele e eu, tão apaixonados, flutuamos até o altar, repetimos aquilo que nos mandaram repetir e saímos, depois de inúmeras fotos, já envolvidos numa conversa que só terminou com a partida dele.  Nem meu próprio vestido de noiva escolhi. Foi um presente de minha madrinha, a Mara, que também vestiu branco. 
Música? Talvez houvesse, mas talvez não seja de praxe nos casamentos em Portugal. Houve uma procissão, pois é o costume, e eu fiquei muito desconcertada com isso, ao descobrir, quando cheguei na Igreja, que estavam todos do lado de fora me esperando para entrar. Então, foi assim que entrei na Igreja, nos braços de meu amado, confusa, achando aquilo tudo tão teatral, seguida por um pessoal que eu nem conhecia. Meus convidados eram apenas minha mãe e meus padrinhos. Sim tinha alguns amigos, mas, pessoas que eu tinha conhecido 6 meses antes, ou até menos tempo. 
Depois fomos a pé para a festa, num restaurante ou casa de festa que parecia um castelinho, paredes grossas, janelas ogivais. Umas amigas de minha sogra me levaram para o banheiro e tiraram minha grinalda, o que irritou a minha mãe, que brigou comigo.  Eu tentei dizer a ela que por mim nunca mais tiraria aquela grinalda, pois estava me sentindo linda vestida de noiva, mas ela nem me ouviu. E eu fiquei triste, mas nem tive muito tempo para ficar triste pois o Guilherme não esperou pelo jantar e meio que me raptou da nossa festa e fomos, risonhos e confiantes, para nossa lua de mel. 
Eu e minhas digressões...
Pois vim escrever para falar do concerto, e da impressão que o Karabtchevsky me causou. Vou a concertos desde muito cedo, ia sempre ali na Cecília Meireles e na época ele era o maestro da sinfônica. Tinha amigos que tocavam na sinfônica. Assisti os concertos do Nelson, do Arnaldo, que na época competiam. Aliás, acho que competem até hoje, mas o Nelson ficou mais conhecido aqui no Brasil, ficou mais "brasileiro". 
Minhas amigas Suzana e Elza tocavam piano. Outro Nelson também era pianista. E eu vivia naquele meio, sem tocar uma nota, mas amando escutar, idolatrando aqueles pianos de 1/4 de cauda ou de 1/2 cauda que enchiam as salas dos apartamentos grandiosos, em Copacabana ou Flamengo. Olhava aquelas partituras e discutia méritos de professores: Miriam ou Arnaldo? Familiarizava-me com Rachmaninoff e Brahms, sufocava meu amor por Tchaikovsky, aprendia a conhecer Kachaturian de nome, eu que antes só o conhecia pelas danças. pois meu amor pelos clássicos começou pelo ballet. Como eu adorava ir assistir ao ballet, fosse no teatro, fosse no cinema!
O Karabtchevsky foi o primeiro maestro que conheci. Casado, na época, com a Maria Lucia Godoy, ele era o amor de minha amiga Suzana, que, talvez uns dois anos mais velha do que eu, estava apaixonadíssima por ele, que a ignorava. E eu escutava as confidências, sentia suas mãos geladas, via seu corpo estremecer de emoção, e a consolava, dizendo que um dia o maestro ia perceber que a Maria Lucia era muito feia, e que ela, Suzana, tão linda e tão jovem, era a mulher da vida dele. Era só uma questão de tempo. Um dia ele escaparia do feitiço da cantora e se apaixonaria por ela e eles seriam felizes para sempre. 
Não sei até hoje o que aconteceu. Mudei de colégio, deixei de frequentar a Cecília Meireles, mudei de país, e muito depois encontrei a Suzana casada, com dois filhos que estudavam no colégio militar e tinham orelha de abano. Ela estava esperando que eles atingissem a idade correta para fazerem a correção. O marido, se não me engano, era militar. E eu fiquei pensando na novela de Guimarães Rosa, Noites do sertão. Amor é bom, mas vida é vida, e é também urgente.
Bem, não sei o que o maestro pensa, nem o que pensava na época. Provavelmente pensava no que ia comer depois do concerto, ou no próximo passo em sua carreira.  Na hora em que regia, na hora que rege, acho que ele sente, vibra, pensa em notas e ritmos, em coisas que nunca conseguirei pensar, já que, infelizmente, não tenho esse talento.

Monday, March 16, 2009

Voo sem paraquedas

Esse fim de semana, com alguns amigos batendo papo aqui em casa, todos ligados, de um jeito ou de outro aos afazeres literários, foi inevitável que a conversa recaísse no acordo ortográfico. A doce Natércia, saída da pureza dos versos de Camões, reclamava dos hífens: Alguém antes da reforma havia se preocupado com os hífens?, ela perguntava, e respondia em seguida: Ninguém! Mas agora todos estão preocupados com eles.
O Márcio, filho do autor de Casa da mãe Joana, educado por um pai cujos conhecimentos gramaticais excedem os dos comuns mortais, defendia os acentos e tremas, e relatava as exceções que foram suscitadas pelas novas regras ortográficas. (O computador está sublinhando de vermelho a palavra exceção. Será que errei?Não importa a combinação de letras, ele exibe esse sublinhado, e eu passo a duvidar de mim mesma: será que o próximo passo da reforma ortográfica não será abolir as palavras sobre as quais mais se tem dúvida?)
Bem, eu fico pensando que tenho um carinho especial por alguns dos acentos que usei por toda a vida, e dos quais custo a abrir mão. Talvez o que mais me custe abandonar seja o circunflexo de voo, que me servia de paraquedas toda vez que conjugava este verbo. Voar, agora, ficou muito mais perigoso. Vou entrar nos aviões sem essa garantia, abandonando o acento na alfândega, mas carregando escondido um trema que me agüente nas situações de susto: duas mãozinhas levantadas, em pedido de socorro –Valha-me Deus, já que os gramáticos me passaram a perna!
Riamos, brinquemos, enquanto não chega o decreto que acabe, também, com o subjuntivo. Boa semana a todos. E não se esqueçam de usar, amanhã, alguma coisa verde, em homenagem a São Patrício, o conservador dos acentos. Esse verdinho, segundo os irlandeses, traz boa sorte para quem o usar.  São Patrício foi um bispo do bem, provavelmente tomava cerveja, já que era irlandês, e ria muito. Rir, como muita gente sabe, é o melhor remédio. 

Sunday, March 15, 2009

Idos de março

Um pouco de história é sempre bom. Eu adoro histórias, com ou sem maiúsculas, mas, quase sempre chego à História através das histórias que leio. Os idos de março chegaram até mim pomposamente trazidos pela mão de Shakespeare, na peça Julio César, traduzida pelo Carlos Lacerda, por quem minha mãe era apaixonada. Lacerdista doente, diziam na época. Devo ao Lacerda minha passagem por uma escola pública, pois antes dele, e depois dele, só estudei em colégio particular. Já a faculdade, fui eu que escolhi, e só queria a UFRJ, onde entrei, muito bem colocada, atrás apenas de Cecília, minha amiga querida. Fui muito feliz na UFRJ. Adorava minha turma, LEA. Adorava meu grupo, que se mantem unido até hoje. Adorava meus professores, a quem admiro até hoje. Tive dois filhos estudando, já entrei com uma no colo. Me lembro de fazer a inscrição para o vestibular, gravidíssima, minha e do meu marido, que estava me esperando no carro. Quando cheguei lá com a papelada e o retrato do Gui, novo, cabelão, queimado de sol e de óculos escuros, o atendente, um senhor de meia idade olhou para mim e abanou a cabeça: Ô minha filha, você aqui e o surfista na praia?! Não faz isso com você não… Mas o "surfista" nunca subiu numa prancha de surf e nunca me deixou na mão. Ele fez a faculdade trabalhando e eu procriando. Não sei como, consegui dar conta de tudo,  e ainda lia sem parar. Minha sogra, quando me via abrir um livro, dizia: "pronto, agora ela já se fechou no seu mundo! Não adianta mais falar com ela!" Meu marido tinha ciúmes de meus livros. Mas só no início. Depois ele entendeu que para me amar, precisava amar meus livros. E ele fez questão que esses livros nunca me faltassem. Duros como éramos, o presente que ele me dava a cada natal era um crédito na livraria perto de nossa casa, onde passei muitas tardes sentada no chão (naquele tempo as livrarias não tinham essas frescurinhas de poltronas) lendo os livros que não tinha dinheiro para comprar. Escrevo essas coisas e sou varrida por uma onda de sentimentos contraditórios, alegria e tristeza, amor e saudade. Acho que meus amigos me acham uma chata, em minha obstinada viuvez, ninguém entende lá muito bem porque eu fico só. Mas … eu também não entendo muito bem, e não consigo pensar em ter outra atitude. Vou ficando do jeito que estou. Choro um pouquinho, rio um pouquinho, me escondo em casa, até me chamarem para algum programa. Viajo, gosto disso, e vou sempre que posso. Escrevo, coisa que também gosto, e que me dá um sentido, uma canoa a bordo da qual atravesso a vida. E leio, prazer enorme, vício, mesmo, pois sem ler começo ficar inquieta, impaciente, agitada.
Bem, ia falar nos idos de março, no assassinato de César, talvez no nariz de Cleópatra e, quem sabe, no Marco Antônio. Falei dos idos de minha própria vida, e agora vou correr atrás do tempo, para fazer a resenha que estou devendo ao Rascunho, os e-mails que tenho que colocar em dia, e as leituras para a UFF. 
Só para terminar, o André de Leones me mandou um convite para participar de uma comunidade de leitores chamada skoob, que está bombando. E citou a mim e ao Marcelo Moutinho, na resenha que ele fez para o JB. Fiquei muito contente! É bom ser lembrada.

Saturday, March 14, 2009

Pulei o 13

Ontem não deu. Fazendo juz a sua fama de aziaga, a sexta-feira 13 me surpreendeu com coisas inesperadas, até com uma grande tempestade, e eu fiquei caladinha, no meu canto. Hoje acordei como uma formiguinha atarefada. Já fui três vezes à rua, pretendo ir mais outra, arriscando a sorte e passando por baixo da árvore que estão cortando aqui em frente. Uma árvore que tomba, pela chuva, pela idade, pela infestação de cupins… mesmo assim, dói meu coração vê-la ser transformada em pedaços de madeira, em serragem pelo chão. A sombra que me acolhia quando eu chegava na minha rua, agora já não vai mais me refrescar. Me pergunto se algum passarinho teve que abandonar seu recanto ali no fresquinho? Me entristeço com essas pequenas bobagens. Só me alegro com a possível diminuição de cupins a me ameaçar.  E nem consigo me entusiasmar com a próxima viagem: uma ida à Colômbia – Cartagena de Indias, o porto cobiçado pelos piratas, por onde tanto ouro e tanta prata saíram do continente para enfeitar as Igrejas e Palácios da Europa. Depois, San Andrés e as sete cores de seu mar. É, parece legal, mas eu desanimo, desencanto, só penso nos galhos que se retorcem à espera de serem levados para longe daqui. Sinto o perfume que a madeira recém cortada desprende e me lembro de que, ao cheirarmos, estamos inalando moléculas, e, portanto, transportando para dentro de nós mesmos um pouco do outro. Respiro fundo e decido que está na hora de descer mais uma vez. E que não adianta lutar contra o fato consumado.
Para terminar, agradeço ao Guido o cordel que ele me mandou. Vocês podem encontrar no endereço que ele me mandou e que copio aqui: http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=38858
É sobre a excomunhão da vítima… Nem abordei o assunto aqui porque ainda me sinto ferver. Minha proposta, já que o padre, ou o bispo, sei lá o que ele é, acha que estupro não é tão grave, é convidar os estupradores para atacarem o padre. Pena que o danado não engravida! Mas, citando o Milk, o negócio é continuar tentando. 
Agora, falando sério, me lembro de um romance que li quando garota, mas já não me lembro do autor nem do título. Sei que era um desses autores muito católicos e que o personagem, padre, é chamado ao hospital para decidir sobre um impasse: sua única irmã estava à morte, e sua única chance era uma operação, para retirarem o bebê que ela estava esperando. Se os médicos não terminassem a gravidez, ela ia morrer, e o bebê talvez morresse. Se os médicos interompessem a gravidez ela ia sobreviver, e talvez até pudesse ter filhos, mais tarde. Pois o raio do padre decide manter a gravidez e, assim, assina a pena de morte de sua irmã. Fechei o livro, em lágrimas, revoltadíssima! Nem sei como a história terminou. E acho que nem vou saber, pois esqueci tudo o mais. Teria sido A chave do reino? Vai ver que é do mesmo autor. 
O negócio é seguir as escrituras – dai a Deus o que é de Deus! O resto não é da alçada dele. E eu garanto que Jesus, que tanto amava as crianças, ia cuidar dessa criança atropelada pela desumanidade e violência, e se indignar contra quem a agrediu. Pois é, confesso que não gosto desse Deus que pretende que a gente aja contra as pessoas a quem podemos amar em favor de quem nem existe ainda.
Bolas! Não ia falar nada sobre o assunto, mas aqui estou eu, indignada. 

Thursday, March 12, 2009

Tempus fugit

Gente, dei uma bobeada e lá se passaram quatro dias desde a última postagem! É que essa semana é de volta às aulas, de reencontro com amigas distantes, de missa por amiga que partiu, de contratações, de um monte de encontros e partidas.
Bem, alguns já sabem, mas quero logo contar para todos e convidá-los a participar:
Em maio vou dar um curso "Labirintos de Borges", no Telezoom. Quem ainda não conhece o Telezoom, é uma cobertura gracinha, bem equipada, na Dias Ferreira 78, portinha colada com o Esch Café. Em noites de lua cheia, o terraço, com vista para o Cristo, é um encanto. Em alguns eventos noturnos eles servem um acarajé delicioso, é imperdível! E a programação é variada e interessante. Agora está havendo um curso maravilhoso, da Ana Christina Nadruz, a melhor professora de História da Arte que eu conheço. 
Mas, voltando ao meu curso: será às sextas-feiras, de dez ao meio dia, no formato de "Café da manhã com Literatura" Eles servem um café completo para o corpo e eu um prato cheio para a mente!
Confiram as atividades em www.telezoom.com.br
Eu conto mais, depois, pois hoje recomeço as aulas  e tenho mil coisas a fazer.
Volto amanhã, com trevos, ferraduras, figas e tudo o mais, para proteção – sexta-feira 13!

Sunday, March 08, 2009

Ia me esquecendo…

Ontem foi ao ar mais uma edição de nosso Histórias Possíveis.  Tenho um conto, juntamente com a Dani e o Cremasco, e o mais novo membro efetivo, o Erwin. Bem vindo, Erwin, um conto sólido e bem construído, digno de Vieira, pelo raciocínio claro, que nos pega pela mão e leva ao final inesperado.
Agora estamos com novo formato e com colaboradores que respondem, a cada semana, a um desafio. O desta semana foi a palavra VIDRO, e dois responderam com maestria. 
Agradecimentos a Dani, e a todos que contribuem para a continuação deste projeto, filho das idéias de André, inesquecível.
Então, porque ainda estão aqui? Vão lá no www.historiaspossiveis.wordpress.com e leiam, e recomendem!

DIA DA MULHER

Recebi votos carinhosos dos amigos e das amigas, pelo mundo a fora. Celia GouveiaC, artista brasileira radicada em Nice, Laura Burnier, outra artista de talento, Marcio Galli, amigo de tanto tempo, Henrique, poeta de grande talento, a Bis-Tekinha, toda energia e entusiasmo, meu distante Amauri. Mensagens e ligações para quem amanheceu em ressaca de tristeza. Mas já está passando, vou enxugando as lágrimas e abrindo o sorriso, meio irônico, pensando que, enquanto estivermos recebendo homenagens pelo "dia da mulher", significa que ainda temos muito o que batalhar… Cadê o dia do homem? Cadê o dia do branco? Cadê o dia do banqueiro?O dia do comerciante? Cadê o dia do filho/a? 
Quem está por cima da carne-seca não precisa de dia, pois todos os dias são deles… Enquanto isso vamos comemorando o dia da Mulher, o do Índio, o da Consciência Negra, o do bancário, o do comerciário, o do Papai e o dia das Mães…
A mensagem mais curiosa, que recebi hoje, foram instruções de procedimento em caso de panela pegando fogo. No dia das mulheres já não tão prendadas, um serviço de utilidade pública para que elas não ponham fogo na casa. Ao menos, não destruam, fisicamente, o Lar!

O que será que significa ser mulher hoje em dia? Os modelos são os mais conflitantes possíveis. Podemos escolher entre Mulher-Salada de frutas,  Mulher de malandro, Mulher maravilha, Mulher macho, Mulher independente, Mulher de carreira, mesmo com duplo sentido, mulher isso e mulher aquilo. Já não existem mais definições e certezas. Antes era-se mulher de família ou mulher da rua, e a gente que se enquadrasse o melhor possível nestes papéis. Daí aquelas donas de casa de Nelson Rodrigues, sonhando em serem putas –única alternativa –, mas se consumindo nos dramalhões da culpa burguesa.

Apago todo um parágrafo, eu mesma me canso de minhas desvairadas filosofias. 
Feliz dia das Mulheres, para todos os modelos, até mesmo para as cri-cris e relutantes como eu! E basta!

Friday, March 06, 2009

Carta dos leitores.

A Cora Rónai escreveu uma coluna maravilhosa falando sobre as livrarias ameaçadas de extinção. Aquilo me entusiasmou, e eu acabei mandando um e-mail para ela. Geralmente não sou de mandar e-mails, nem cartas para a redação. Conto nos dedos as que já enviei até hoje. A primeira, ainda nos tempos do "snail mail", foi para protestar contra uma reportagem do Ela, que dizia que quanto maior a escolaridade feminina menos chance as mulheres tinham de arrumar um namorado. E aí entrevistavam jogadores de futebol, cantores sertanejos, e modelos/manequins. Acho que entrevistaram duas intelectuais, que se colocaram na defensiva, assustadas com a cobrança. Falavam que, com mais de doze anos de estudos, a chance de a mulher arrumar um parceiro sexual era praticamente nula. Gente, doze anos de estudos não te leva nem a terminar uma faculdade! Lá mandei eu uma carta desaforada e meio gozadora, lamentando muito que a repórter – que eu supunha ter completado seus estudos de jornalismo ou de comunicação, seja lá como isso se chame hoje em dia – estivesse impossibilitada de tirar seu atraso. Claro que não me responderam.
A segunda vez foi uma cartinha ao Xexéo, a quem assisti numa palestra dizendo o quanto os jornalistas apreciavam essa facilidade dos e-mails, que estimulavam os leitores a reagirem a suas colunas e davam um feedback precioso, que era muito estimulante. Lógico que, boa moça que sou, logo na coluna seguinte do Xexéo mandei uma mensagem bem educada e incentivadora. Ele deve ter apreciado e se sentido muito estimulado, mas não me disse nada, e eu nunca mais insisti. Só que, recentemente, a Fernanda Torres publicou uma coluna falando sobre Proust, de quem sou ardorosa devota. Tenho a imagem dele junto a meu computador, na esperança de que o santo me transforme numa escritora de qualidade. Impulsivamente mandei um e-mail dando os parabéns pela coluna, falando de como o exemplo dela poderia estimular a leitura de uma obra que, pela sua extensão, assusta um pouco, mas que, uma vez iniciada, se transforma num vício, difícil de largar. Descobri que ela publicou na Revista de Domingo! Achei o máximo. Agora, estimulada por esse assunto que me apavora – como poderei viver sem frequentar livrarias? –, escrevi um e-mail para a Cora e ela me respondeu!  Juro! Escreveu prá mim, dizendo que tinha adorado o e-mail (bem, talvez ela tenha dito gostado, ou apreciado, mas foi como eu entendi) e que tinha tomado a liberdade de colocar lá no blog que ela mantém. Lá fui eu ver o blog, que adorei. Cheio de retratos de gatinhos bonitinhos, e com um vídeo tirado do YouTube, nota dez – pena que, em minha ignorância, eu não saiba quem é o cara que está falando. Vou pesquisar. Aconselho, então, a todos os meus leitores : visitem o blog da Cora, que é imperdível. Para facilitar, aqui vai o link:
E aqui está a resposta que recebi dela, para vocês verem como ela é simpática:
Salve, Lucia!

Adorei o seu email – e tomei a liberdade de levá-lo lá para o blog, onde a coluna tem uma sobrevivência de mais alguns dias e a turma pode discutir o assunto. Apareça por lá: cora.blogspot.com. A casa é sua. Curiosamente, você vai ver que, lá, também falei na questão dos acentos.

Um abração,
Cora

Thursday, March 05, 2009

Batatas fritas…

OK, vocês venceram!
Peço desculpas por ficar tanto tempo sem escrever, e explico: estou na fossa. Termo tão antigo que já perdeu seu charme e agora tem um caráter meio repugnante. Mas é isso mesmo. Não posso falar em depressão, coisa muito forte para o que estou sentindo. Estou mais para melancólica, devido, acho eu, à época do ano. Afinal, sábado que vem era meu dia predileto do ano. Dia 7 de março. Agora é mais um dia que tenho que atravessar.
Mas, para meu bem, ou meu mal, sou uma deprimida de bom humor. Estou sempre de bom humor, acho que isso deve ser doença! Meu humor só se modifica em filas – de banco, de supermercado, de inscrição. Não entendo, mudo mesmo, parece que algo dispara e eu fico insuportável. Mas, mal chega a minha vez de ser atendida, the bitch disappears, e volto a ser a doce Lucinha de sempre. 
Além das filas, outra coisa que revela meu lado Ms. Hyde é meu prazer em assistir ao pior seriado da TV – House. Digo pior porque o seriado pretende nos fazer acreditar que o House é um gênio dos diagnósticos, mas só nos mostra todos os erros que ele vai fazendo. Assim até eu sou boa de diagnóstico, na base do erro e acerto:
 – É câncer, façam uma sonografia.
 – A sonografia está normal, Dra. Lúcia. 
– Então é uma infecção, façam uma punção lombar. 
– Não há sinal de infecção, Dra. Lúcia. 
– Ah, então é porque é uma bactéria desconhecida, vamos envenenar o paciente pois assim a bactéria morre! 
– Mas, Dra., se fizermos isso o paciente também morre… 
– Ahá! Mas morre curado, e isso é o mais importante. Eu preciso acertar o diagnóstico, mas não estou nem aí para o que acontece com o paciente!
Digam-me com sinceridade, eu não poderia ser uma roteirista de House e estar ficando milionária em Hollywood? Ou estar trabalhando para a Globo, passando férias na Ilha de Caras, conversando platitudes com alguma atriz que mudou o visual de loura para morena, já que ela (nenhuma delas) sabe representar e que para incorporar o personagem precisa mudar o cabelo, para que os espectadores entendam que agora ela já não é mais a outra… Ou talvez a razão dessa mudança de coloração seja porque o encarregado de escalar as atrizes seja daltônico, ou mesmo cego.  No roteiro, todas as cenas de amor falam de como a pele branquinha e os cabelos louros da moça deixam o herói louco de amor . O cara escala a Giovana Antonelli, pois é cego e não sabe que ela é morena,  e a saída do contra-regra é pintar o cabelo da moça e passar maquiagem para clarear a pele dela, já que o roteista se recusou a reescrever toda a história para acomodar a escalação.
Bem, voltei. Não zanguem comigo. Na verdade, adorei os puxões de orelha! Desculpem. Amanhã tem mais.