Tuesday, November 20, 2007

Dia da consciência negra.


Arrumam cada nome, né? Consciência negra parece coisa de pecado, de colégio interno. Minha consciência não está negra, está de todos os tons de pele. Êta nós! bichinhos de plumagem tão desenxabida... brigando por causa de cores tão sem imaginação. Qualquer inseto é mais lindo que nós, confiram na imagem ao lado. Depois leiam mais um capítulo e aproveitem bem o feriado.




Capítulo IX

Passeei de gôndola ontem!

Tanto tempo aí e só agora você passeou de gôndola?

Não. Já andei antes, mas ontem fiz aquele passeio noturno, com os gondoleiros cantando.

E porque só ontem?

Porque estava esperando a lua cheia, bobo! Para o passeio ser completo.

Para ser completo tinha que ter um amante carinhoso do lado...

E quem disse que não tinha?

Quem? O japonês ou o garçon?

Você é tão cansativo... Até parece que não me conhece. Desde quando eu ia me agarrar com um japonês ou um garçon?

Preconceituosa.

Não é nada disso! Eu não me apaixono assim, por rótulos. Me apaixono por pessoas, e aí não importa profissão, cor, classe social: é o alguém que é importante.

Então quem era o alguém?

Era o poeta. Me apaixonei por ele. Criei o personagem com tantos detalhes que acabei me apaixonando. Então resolvi que eles iam se encontrar, que iam passear de gôndola, que ele ia se comportar como um bobo e que ela ia se comportar como uma adolescente, toda iludida.

Nossa, que mudança!

Dei a ele um nome: Francesco.

E ela é...

Paula, é claro. Inverti os nomes dos amantes que se perdem por conta de um livro.

Só podia ...

Eles se encontraram, finalmente.

Como?

Ela e ele estavam lendo o mesmo livro.

Tinha que ter um livro no meio... Mas se eles nem se conheciam...

Em exemplares diferentes, uma coincidência.

Isso não explica o encontro.

Eles esquecem o livro. Ela esquece num lugar, e ele no outro. Mas, como eles estão sempre indo para os mesmos lugares, eles encontram o livro um do outro. E aí eles descobrem os respectivos nomes, perguntam aos garçons, percebem que estão procurando as pessoas que os interessam, investigam, e acabam se encontrando.

Boa!

Mas já estão apaixonados.

Engano seu. Eles pensam que estão apaixonados. Eles ainda nem se conheceram!

Mas já leram as anotações que estavam na margem dos livros.

Boa! Você está ficando ótima de trama, sabia? Isso dá até para fazer um filme. O pessoal do projeto vai adorar. Manda logo por e-mail, para eu já ir providenciando um roteirista.

Mas eu não terminei a história...

Para o roteiro ela termina aí no passeio de gôndola. Lua cheia, gôndola e canções românticas: quer final melhor do que esse?

Eles nem sequer foram para a cama...

Você, Mariana, a casta, vai levar seus personagens para a cama?

Ainda não sei... Mas não sou Mariana, a casta, coisa nenhuma, viu?

Não?

Não. E acabo de me decidir. Vou levá-los para a cama porque ...

Porque...

Porque vai ser muito bom escrever sobre essa entrega. Ela precisa de carinho. Precisa de se deixar abraçar, de sentir o calor do corpo dele, de se sentir desejada.

Já vou te avisando que carinho não é sexo.

Eu sei. Mas não vou fazer sexo sem carinho. E ele é um amante paciente. Ele vai querer contemplá-la...

Ih... cuidado com os verbos!

Mas é isso mesmo. Ele quer olhar para ela, quer ver o corpo dela em toda sua humanidade. Quer emocionar-se com suas imperfeições, comover-se com suas falhas.

E quem disse que a Mariana tem falhas?

Não é Mariana. Mariana sou eu. Minha personagem é Paula.

Mas ele a conhece como Mariana. É o nome que ele deu a ela...

Não, você está inventando isso! Eu não escrevi nada disso.

Eu sei. Mas é pena. Para mim ele deu a ela um nome, com o qual ele fantasiava.

Pára com suas sujeiras!

Não é sujeira. É desejo. Mas, continua a sua história.

Me perdi.

Você estava nas imperfeições e falhas, quando eu protestei. A Francesca não tem falhas.

Não é Francesca, é Paula! E toda mulher acredita que tem falhas. A gente se olha no espelho só para confirmar: A celulite, a bunda caída, a gordurinha, o culote.

Taí a grande diferença do homem e da mulher: nossa olhada no espelho é sempre positiva. A gente encolhe a barriga, estufa o peito, dá uma flexionada nos músculos e se vê como somos na realidade: uns deuses!

Mentira!

Verdade. A barriga é coisa que se esconde com uma boa encolhida. Você nunca surpreendeu um homem se olhando de lado no espelho? Ele encolhe a pança e sorri, satisfeito com o que vê. E sai da frente do espelho, solta a barriga de novo e passa a mão nela, já com saudade da companheira de chopada...

Cara, a descrição está perfeita. É assim mesmo. Mas vocês só vêem perfeição em vocês mesmos. Na gente estão sempre vendo defeitos.

Eu, não!

Estão sim!

Homem nem nota essas coisas de celulite, de bunda caída. Homem nota é coxa, bunda, peito. Essa coisa de se está caída ou se está levantada é coisa de gay. Tipo diferença entre azul isso e azul aquilo. Se o cara conhece cor pelo nome, pode contar que é gay. Homem sabe que existe azul claro e azul escuro. Vá lá, conhece azul marinho. É o mesmo com bunda. A gente nota bunda grande e bunda pequena. E gosta das duas. Se está caída ou levantada, não importa. O que importa é que seja, digamos, acessível...

Não acredito.

Mas é verdade.

E peito?

A mesma coisa. Peito grande, peito pequeno, redondo ou pontudo, cada qual tem seu encanto.

Mesmo caidaço?

Bem, existe um tipo de caidaço que é feio, pouco apetecível, aqueles que parecem uns sacos vazios. Mas um peito grande, daqueles fartos, felinianos, tem que ser caidaço, se não fica surreal.

Você tem um gosto...

Não é isso. A gente pode ter preferências, mas não fica procurando chifre em cabeça de cavalo. Uma mulher bem proporcionada, isso nos basta. Se os cabelos são bonitos, se o sorriso é franco, se os olhos brilham quando nos vêem, é o máximo. Se são inteligentes e boas companheiras, a gente cai de quatro.

Se é tão fácil te agradar, porque é que você nunca mais casou?

Talvez por isso mesmo. É muito fácil me agradar...

Seu galinha!

Não é verdade. Você está sendo injusta.

É verdade. Aliás, eu nunca conheci uma namorada sua. Depois que você se separou da Vera, nunca vi você saindo com ninguém...

E eu nunca vi você saindo com ninguém também.

É porque eu não saio. Não estou interessada. Sou da raça mais complicada que existe na terra: mulher intelectual.

É. Isso complica. Sabe que uma vez eu li uma pesquisa que dizia que quanto mais uma mulher estuda, menos namorados ela tem?

Eu li essa bobagem.

E?

Você quer mesmo saber ou só quer me irritar?

Toquei no seu ponto fraco?

Não, é que eu fico puta quando as pessoas não entendem as manobras que são feitas contra as mulheres! Será que você não entende que isso só desestimula as brasileiras de estudar? Mulher brasileira acha que precisa de homem para ser feliz. E é capaz de largar os estudos com medo de não conseguir mais namorar. Pois fique sabendo que mulher não precisa de homem para nada, viu? E quanto antes elas descobrirem isso, melhor!

Bem, para alguma coisa elas precisam.

Não precisam não! Homem é totalmente dispensável!

Mas para se reproduzir...

Nem para isso. A ciência já avançou tanto que dispensa o espermatozóide.

E para transar...

Me desculpe, mas isso também se resolve sem necessidade de homem. Viva a tecnologia! Sinceramente, o reinado do macho já era!

Mas qual é a graça de uma transa com um objeto inanimado?

Por que você não pergunta isso para aquele cineasta francês que fez um filme sobre um homem que trocou a mulher por uma fêmea de silicone?...

Que filme é esse?

Ah, não me lembro do nome. Mas você já assistiu. Passou até na TV. Olha, quer saber? Estou cheia de trabalho, e já que você não quer saber da transa da Paula e Francesco, acho melhor desligar. Até qualquer dia!

Não desliga, essa história me interessa!

Mas a mim não. E tenho mais o que fazer. Depois a gente se fala!

Depois quando?

Não sei. Depois.

2 comments:

Amauri said...

Vixi!!! Sua novela ta pegando fogo.
Enrola mais um pouquinho para ver no que dá essa provocação, mas não fique muito empolgada..eheheh!!

Abração querida!

eugenia said...

ADOREI o Paula e Francesco.
- Franchesca, teu sofrimento me faz chorar de dor e de piedade...
- Paolo, não há nada pior que recordar a felicidade em tempos de dor.
E Dante os colocou no inferno só por que eles PENSARAM em adultério. E foi quando estavam lendo um livro, um romance de cavalaria. Está vendo o poder deletério das histórias de amor?
Pelo jeito que as coisas vão, daqui a pouco sua heroína estará declamando as memórias de Casanova.
Mais, mais, mais