Monday, November 26, 2007

Conferências

Já fui a diversas conferências pela vida afora, e, apesar de meu interesse, da qualidade dos conferencistas, dos temas abordados, acho que não guardei nada do que escutei. Fico tão embalada olhando as pessoas, vendo seus trejeitos, avaliando seu à vontade frente ao público, olhando a mobília, as estátuas, todas as coisas periféricas, que a substância das palavras me escapa. Claro que na hora eu percebo, entendo, concordo ou discordo. O que me falta é a memória do conteúdo, depois. Para reter algo, preciso escrever sobre aquilo que ouvi. Se não, vou me lembrar dos óculos do Saramago, do cavanhaque do Eco, das mãos pequeninas do Manguel, mas não de suas palavras e de seus pensamentos. Isso não acontece, porém, quando vou a um concerto. Não me lembro dos maestros nem dos músicos, mas me lembro da música, não das notas em si, mas da experiência da beleza que senti. Já não sei mais o que a Filarmônica de Berlim tocou aqui no Municipal quando a escutei. Mas lembro que, naquela noite, entendi porque as duquesas largavam palácios e jóias, maridos e filhos e iam atrás de um Beethoven, ou de um Liszt, ou de um Chopin -- como não existiam os meios de reprodução do som, para escutar de novo essas maravilhas, só seguindo-os.
E, agora, o momento mais esperado do dia: a continuação da novela! Boa leitura, a todos.

Capítulo XV

Está tão escuro, que horas são?

Quatro.

E já está assim escuro?

Quatro da manhã.

Eu dormi tanto assim?

Deixa eu ver a sua febre.

Estou tão suada. Preciso de um banho. Você não foi dormir?

Estava preocupado com você. A febre não baixava. Agora baixou. Você só está com 38.

E o que você ficou fazendo aqui?

Li o manuscrito. Está muito bom.

Gostou do final?

Vou preparar seu banho.

Não gostou.

Gostei. É que não esperava que eles acabassem assim. Vem, deixa eu te ajudar a levantar.

Eu levanto sozinha.

Olha aí! Cuidado. Quase caiu, viu? Essa tua gripe é muito violenta, e você está sem comer... Põe o chinelo, não anda descalça no chão frio.

Deixa. Agora aqui eu fico sozinha. Eu me seguro. Sai, vai.

Mas deixa a porta do banheiro entreaberta.

Que idéia! Deixo destrancada, mas entreaberta não.

Está com medo?

Não estou ouvindo.

Não posso falar mais alto, são quatro da manhã!

Não escuto nada.

Deixa, não tem importância. Enquanto isso eu vou ajeitando as coisas aqui no quarto.

O quê?

Estou fazendo tua cama.

Fábio?

Já terminou?

Sabe que você é o melhor amigo que eu tenho?

E você a minha. Vem, deita aqui.

Não, vou pegar roupa limpa, minha camisola está muito suada, e eu não vou ficar de roupão de banho.

Deixa que eu pego. Tá na gaveta? Eu pego.

Não, não mexe aí. Fico com vergonha de você ver minha roupa de baixo.

Por quê? Que é que tem? Mulher tem cada frescura! Não mostra isso, não mostra aquilo, mas vão prá praia de fio dental.

Eu não uso fio dental.

E isso aqui?

Fábio! Que droga! Eu não disse prá você não mexer na minha gaveta?

Sinceramente, prá que é que vocês mulheres se dão ao trabalho de vestir uma calcinha dessas? Não vêem que não cobre nada? Isso não protege nenhuma das partes importantes.

Esse tipo de calcinha é para ocasiões especiais... Ah, estou tão mole! Nem consigo levantar o braço para pentear meus cabelos.

Deixa que eu penteio. Sempre tive vontade de pentear os teus cabelos.

Já notei. Você sempre arruma um pretexto para mexer neles. “Está no seu olho, tem uma coisinha aqui presa, acho que vi um fio branco”...

É que seus cabelos são lindos. Tão pretos. Os cabelos de Iracema deviam ser assim, pretos como a asa da graúna...

Os meus são pretos como a caixinha de tintura.

Olha o seu pêssego. Quer comer agora?

Ah, está uma delícia. Não sabia que eu estava com tanta fome!

Come mais um.

Não. Só quero água. Estou morrendo de sede. Olha só como a minha boca está ressecada.

Vem, deixa eu te ajudar a deitar.

O dia está amanhecendo...

Está frio, lá fora.

É a umidade. Aqui chove tanto. Estou com saudade do sol... De ficar na praia, te vendo jogar vôlei...

Você sempre debaixo da barraca... Não vai nem na água!

Não gosto de água fria!

Não quer a coberta?

Agora estou com calor. Acho que vou dormir mais um pouquinho.

Antes me diz uma coisa: por que é que tua história acaba assim?

Por que eu não acredito em amor! Quando a gente baixa a guarda, vapt, lá vem o golpe!

Como é que você pode ser assim?

1 comment:

Anonymous said...

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