Thursday, October 18, 2007

Mimos e meiguices

Descobri que Meiga é o nome que dão às feiticeiras, aqui. Descobri isso na Coruña, pois, no menu do restaurante, havia um peixe com esse nome. O Luciano, um de meus anjos da guarda, leitor de literatura brasileira que me tem acompanhado pela cidade em muitas ocasiões, e foi meu guia na Coruña, me explicou que, além desse peixe, de carne semelhante à do linguado, meiga é o termo que se refere às bruxas daqui. Vejam só que coisa!Acho que assim as feiticeiras, sendo sempre chamadas por esse outro nome, não têm coragem de fazer maldades com as pessoas, e se tornam todas umas fadinhas, voando de giesta em giesta, salpicando de orvalho os arbustos, e afastando as névoas matinais para que o sol volte a brilhar em Santiago. A cidade tem me mimado com esses dias de sol, aqui tão raros. Quando se fala em Santiago as pessoas vão logo pegando os guarda-chuvas, pois sempre "choive", principalmente em outubro. Só que mesmo com todos esses mimos, estou-me sentindo adoecer. Um resfriado, devido a tantas mudanças de temperatura, pois se no sol faz calor, basta atravessar um pedacinho de sombra para a gente arrepiar-se de frio. E um tiquinho de alergia, provocado pelas lãs que a temperatura exige. Acho que ontem tive uma pontinha de febre, mas, como não trouxe termômetro, ela passou despercebida. Apenas mais um pouco de frio, mais alguns calafrios, e muita vontade de ficar na cama, sob as cobertas.
E, mais uma vez, a preguiça me fazendo deixar o trabalho de lado. Mas agora volto ao Mister Pip, que, afinal, não ganhou o Booker Prize, o que me alegra. Sempre gosto muito dos ganhadores do Booker Prize, e este livro me deixou pelo meio da estrada. Parti achando que ia gostar muito dele, mas acabei num outro "sendero", questionando as estratégias narrativas do autor. Vou à resenha.

5 comments:

eugenia said...

Take care...Uma bruxa é uma bruxa, ainda que debaixo de outra denominação: o que é um nome? Uma rosa é uma rosa, exalaria o mesmo perfume ainda que sob outra denominaçãp (mais ou menos assim, citando de cabeça aquela cena do balcão, escrita você sabe por quem). Não é porque chamam-nas de "meigas" que a natureza se altera.
Cuidado com os golpes de ar, agasalhe-se, proteja os pés e a garganta pois desde os antigos sabe-se que gripes e resfriados entram por aí. Muita água, sob a forma de chá,sucos, sopas e um pouco de vinho (desde que de boa qualidade não faz mal a ninguém).
Desconfie dos dias cada vez mais curtos e desses ventos gelados que prenunciam o inverno.
No mais, aproveite e continue postando seus textos tão belos. Beijos da Eugenia.

Anonymous said...

Lúcia,

Vou curtir neste sábado este seu blog com descrições da bela Galícia. Reparei, lendo seu texto na diagonal, que você não falou de Rosalía de Castro, la llorona, embora você esteja curtindo os "airinhos, airinhos aires, airinhos da minha terra".
Você teve por aí algum contato com Manuel Rivas ou com sua obra? Tenho interesse em conhecê-lo mais depois que assisti à Lingua das Mariposas, belo filme baseado em alguns de seus contos.

Parabéns pelo seu blog! Ele traz de fato o diabo pra rua, no meio do redemoinho!

Um abraço,
João Mattos

Amauri said...

Lucia,
Muito obrigado pela lembrança, o abraço e o beijo de segunda feira.
É sempre um prazer contagiante ler seu blog, tenho viajado junto com voce, seguindo sua trajetória, tenho vivido coisas maravilhosas e revivido momentos que ja não voltam. Com sua mensagem sincera e doce, move algo dentro de mim fazendo-me pensar o quanto vale essa vida longe voando de um lado ao outro quando poderia esta mais com aqueles que nos cercam. Obrigado por sem querer, sutilmente abrir os olhos de quem te le.

Guido Cavalcante said...

De fato, pouco importa se as bruxas são consideradas maldosas. De fato, poucas bruxas puderam ser consideradas como tal: na maior parte das vezes foram aprisionadas, julgadas e finalmente exterminadas sob torturas horrorosas pelo lugar comum da mediocridade medieval. As bruxas representvam um momento de liberdade naquela idade que se considera das trevas e onde lugares como Compostela apareciam como uma chama amena na corrente de sofrimento, angústia e medo em que a vida estava condicionada durante os séculos da "idade das trevas" brrrr.... A bruxa aparecia como a suspenção daquele estado de aflição e permanente contenção da vida medieval: bruxas faziam sabats, preparavam poções e filtros para o amor e para o sexo praticado às ocultas longe dos olhares zelosos dos inquisidores (lembram do O Nome da Rosa?).

Existe uma pintura de Brueguel, o genial pintor dos costumes medievais chamada (creio) de Jogos de Crianças, onde são representadas as bincadeiras das crianças num cenário de rua medieval. Eu tinha uma reprodução deste quadro no meu quarto de criança - meu pai considerava apropriado para um menino. Pois bem, reparem que nenhuma criança está rindo naquela pintura. É enregelante. O riso, a gargalhada eram considerados coisas do demônio e deviam ser evitados, como toda manifestação extrema, pelos piedosos crentes medievais. As bruxas contestavam esta determinação. Elas incorporam o rito da terra e ndevolviam o pulso da vida natural. Por isso foram proibidíssimas e queimadas vivas. Vivam as bruxas!

eugenia said...

Très cher, recebi seu aviso geral sobre as dificuldades em acessar sua caixa de Pandora (não parece mesmo, a gente abre e tem de tudo...). Por isso passei por aqui, trazida pelos ventos e chuvas que não param de cair em SP, montada em minha vassoura.Esta, como você deve saber, era a simbolização do falo: montadas nelas, meigas, bruxas ou feiticeiras eram mulheres mais integradas do ponto de vista psicológico do que as outras, pois haviam trazido um pouco da sua cotê masculina (seu animus) à consciência. Daí pensarem e agirem por si próprias.
Michelet, em a Feiticeira, escreveu que o pior que os homens poderiam ter feito é ter convencido que elas eram feias. Ente as bruxas, encontravam-se as mais belas e sensuais das donzelas.Boa sorte na conclusão dessa sua aventura.
Beijos, mimos e meiguices da Eugenia