Sunday, June 29, 2008

São Pedro e pinguins...

Quem disse que os dois assuntos acima não combinam? A gente pode combiná-los, por exemplo, através do canto do galo -- uma ave, outra ave, e acaba-se por rezar uma Ave Maria, no dia de hoje, que é dia do santo. Ou a gente pode combiná-los, numa outra hipótese, pelas ocupações: São Pedro era pescador, os pinguins são pescadores, e aí a gente sai para uma volta de barco, na procissão lá na Urca, num barquinho de nome...Pinguim. Sou fã de São Pedro. Acho que gosto de todos esses santos que, em suas histórias, conseguem nos transmitir um pouco de sua humanidade. Me lembro de quando era pequenina, minha avó contando histórias da sogra de São Pedro. Um santo casado! Não é o máximo? O primeiro chefe da Igreja católica era casado, e aí resolveram transformar a vida dos padres num negócio meio anti-natural:
"Olha, daqui por diante, como você vai ser padre, tem de abdicar de uma das suas funções biológicas, viu? Escolha: deixar de respirar, deixar de comer, deixar de ..."
"Mas assim eu morro!"
"Bem, sua saída é deixar de transar."
"Acho que prefiro morrer!"
Bem, esse diálogo hipotético, pelos vistos, não acontece assim como eu o imagino. Afinal, ainda existem padres vivos por aí. Mas não era por isso que o santo me agradava: ele era meio covarde, meio teimoso, meio egoísta. Estava sempre objetando alguma coisa a Jesus: "Como, dividir o pão? A gente só tem cinco!" ou "Quem, eu? Mas se eu nunca vi esse maluco antes!" ou "Jogar a rede prá quê? Acabei de passar a noite inteira pescando e não bateu nenhum peixe!"
Pois foi esse mesmo que aprendeu a "transcender" -- deixou de lado esse lado humano pela força de uma idéia, de um amor. Jesus há de saber quantas noites sem dormir, quantos litros de suor frio custaram as resoluções posteriores de Pedro. Mas, homem de bom caráter, ele foi cumprir o seu dever. E por isso ganhou as chaves do céu: ele pode avaliar e perdoar gente como a gente. Um daqueles santinhos feitos com jejuns e êxtases nunca poderá avaliar as dificuldades de quem vive no mundo, tendo que alimentar uma sogra gulosa e exigente! Viva meu São Pedro! E perdão pela minha teosofia?teologia?teolalia?
Guido me mandou um vídeo de um pinguim "amigo da onça", derrubando um coleguinha. O Amir Klink contou uma história de pinguins, que contei para meu marido, e ele adorava: tinha a ver com liderança, motivação, e esperteza. Meu marido dizia que era o exemplo da diretoria executiva. Vou tentar resumir: Observando os pinguins na Antártica, num dia, quando havia muitos predadores nadando por perto, o Amir viu um grupo de pinguins que hesitava em se jogar na água. Olhavam, chegavam perto, voltavam, disfarçavam, e iam ficando. Mas, a fome foi apertando, e, de repente, do meio do grupo de pinguins, uns cinco ou seis começaram a correr em direção ao mar. Os outros se empolgaram e começaram a correr também, de repente, todos os pinguins desabalaram numa carreira e se atiraram no mar, com exceção dos primeiros cinco ou seis pinguins, que, ao chegar na borda, estacaram, esperaram os outros mergulhar, deixaram que os predadores se saciassem e aí então foram à pesca. Espertos, né?
Para finalizar, conto que hoje completaria mais um ano de casamento civil. É que, como casei muito cedo, precisava de licença dos pais para casar, e tive que oficializar o casamento antes da festa, marcada para 19/07. Era o último dia da licença, o dia era de sol, como o de hoje, e eu estava usando um chapéu de palha branco, me achando o máximo, num vestido comprado na Loja das Meias -- a loja mais chique de Lisboa na época. O sapato estava apertando, mas nas minhas fotos ninguém vê o desconforto: só o sorriso nos lábios, e uma ligeira sombra de medo pela responsabilidade, assumida tão cedo, bem lá no fundo dos olhos. O Gui estava sério, pálido, sempre muito mais responsável do que eu. Ainda bem que ele não parou na borda! Nadamos em mares revoltos, mas ele estava sempre junto comigo. Quanta saudade!

4 comments:

Guido Cavalcante said...

Divido com vc a admiração e carinho com os pinguins. Quando perambulei uma época no extremo sul do continente, fiz um documentário sobre esses bichos - no caso o Pinguim de Magalhães, um dos bichos mais valentes que há. Dele conhecemos apenas o que faz durante uma parte do ano, quando se aninha para procriar. O resto do tempo passa no oceano aberto. Bem, eles cavam um ninho raso e ficam aquecendo os ovos. Chegam os turistas e enfiam as câmeras dentro da cova e disparam o flash na cara do animal. Você pode imaginar o stress que isso produz. Eu não sou exatamente o maior amigo dos animais, mas o que o ser humano produz de sofrimento às espécies inferiores, não tem tamanho. Ontem o JN mostrou um pobre gorila enjaulado no zoo de BH por 24 anos! Eu conheci umprisioneiro de Stroessner que ficou detido sem saber a razão por 11 anos. Seres humanos, bah!, que praga!

Amauri said...

Lucia, também gosto dos dois, pinguins e São Pedro. Dos primeiros não sei quase nada do segundo muito. Meu pai era Pedro e como sempre teimoso e turrão. Igual, até mesmo um missionário certa vez disse, como és teimoso Pedro, como o santo não deixa nada a dever na teimosia. Mas são lembranças, ele ja se foi e certamamente divide a teimosia com o Santo. Aprendi muito com ele e neste dia de São Pedro muitas lembranças, as festas, os quentões, as fogueiras e o frio, que frio fazia, mas minha infancia foi marcada pelo calor de São Pedro. Obrigado por me fazer lembrar esta delícia que foi minha infancia e das festas juninas que naquela época eram diferentes, divertidas e religiosas mesmo. Ah, seu casamento deve ter sido uma maravilha, 19/07 dia em que nasci.
Beijos.

Anonymous said...

Lúcia, que o segundo semestre nos seja propício, bafejado pelo hálito doce das musas. Contraste terrível entre a inclemência dos pinguins corporativos e a doçura dos seus sonhos de noiva.
Mas um viva a divindade dos recomeços. Eugenia.

Olavo said...

...e eu sou testemunha disto, a ultima testemunha viva:
"Para finalizar, conto que hoje completaria mais um ano de casamento civil. É que, como casei muito cedo, precisava de licença dos pais para casar, e tive que oficializar o casamento antes da festa, marcada para 19/07. Era o último dia da licença, o dia era de sol, como o de hoje, e eu estava usando um chapéu de palha branco, me achando o máximo, num vestido comprado na Loja das Meias -- a loja mais chique de Lisboa na época. O sapato estava apertando, mas nas minhas fotos ninguém vê o desconforto: só o sorriso nos lábios, e uma ligeira sombra de medo pela responsabilidade, assumida tão cedo, bem lá no fundo dos olhos. O Gui estava sério, pálido, sempre muito mais responsável do que eu. Ainda bem que ele não parou na borda! Nadamos em mares revoltos, mas ele estava sempre junto comigo. Quanta saudade!"

...conjuntamente com Dona Ivani.

Embora a minha vida tenha mudado varias vezes, nunca me esqueci por um momento de voces TODOS. Foram sempre familia para mim.

Encontrei hoje este blog, estive a pesquizar e de repente clique clique...Lucia.
Daqui de Austin, um forte abraco a todos.