Sunday, June 01, 2008

Junho chegou!

Dia um de junho, dia primeiro de junho, dia inicial do sexto mês do ano. Já estamos quase na metade de 2008 e eu me espanto não com a rapidez do tempo, coisa de que todos estamos cientes, mas da indefinição desses dias já passados, que se misturam na minha lembrança sem nitidez. Já não sei se foi ontem ou mês passado que fiz isso ou aquilo, já não tenho certeza se disse ou se apenas tive a intenção de dizer, já não lembro se faltei ou não ao compromisso. Não se trata de doença, trata-se de indiferença, mesmo. Mais um dia, menos um na corrida do tempo, e assim eles se perdem na mistura de livros e palavras caladas para sempre.
Ontem estive conversando com uma amiga que falava de seus netos, descobrindo o amor: Ela sorria, deslumbrada: Como eles se apaixonam, como sofrem e se emocionam! admirava-se. Eu sorri, também, pensando que chega uma idade em que a gente já não é mais capaz de se apaixonar. Ou será que estou errada? Drummond tem aquele poema em que diz algo como "Na curva dos cinqüenta derrapei neste amor..." Fui conferir no google e vejo que me engano: várias são as confissões de quem, aos cinqüenta, cinquenta e poucos, sessenta, se descobrem amando de novo -- geralmente homens, geralmente apaixonados por alguém na inconseqüente curva dos vinte e poucos. Mas eu me pergunto, desapaixonadamente: será o mesmo clarão? Será a mesma sensação que avassala, nos toma de assalto, retira todas as reservas? Acho difícil, depois que nos ferimos, que adquirimos experiências e passamos por dores e desamores a entrega sem cautela, o mergulho no abismo. E todos os temores que nos assaltam, todos os receios -- como entregar esse corpo já cansado, do qual conhecemos os limites e as falhas, ao olhar e cuidado de pessoas que nunca chegaremos a conhecer bem? Por que aos cinqüenta a gente descobre que nunca se chega a conhecer o outro inteiramente, que passamos uma vida ao lado de desconhecidos íntimos.
Nem sei como embarquei nestas reflexões, talvez porque tenha passado a tarde escutando as angústias de uma jovem que não quer sair pensando se vai ou não beijar a boca de alguém. Sinceramente, nem sei -- e não tive coragem de perguntar -- se esse beijo era eufemismo ou não. Mas me admiro de pensar em pessoas que saem, não se perguntando se vão conhecer alguém interessante, mas em busca de um prazer imediato e perigoso, nestes tempos que não são do cólera, mas de outras pestes. Junto tudo com os dois dedos de filosofia que estou batalhando para aprender, e me ancoro em Baumann, no seu "amor líquido" -- imediatista, egocêntrico, de onde foi banida qualquer possibilidade de compromisso. Descubro, impressionada, que estou antenada com esses tempos pós-modernos, ou líquidos, ou até mais etéreos, tempos em que tudo se desmancha no ar, como fumaça, até a comida que comemos.
Meus dias se desfazem na indefinição de minhas memórias. Não guardo lembranças, pois não quero tê-las mais. Vivo assim, gota a gota, e, mais adiante ainda que esta geração, nem procuro o prazer, que sei fugaz. Só desejo o atordoamento, o vórtice.

2 comments:

Bela Au pair said...

Oi Lucia!

Acho que nao é so nos 50 que a gente nao tem mais aquele vigor...Depende muito das experiencias vividas..Tenho 24 e ja estou com receio de 60...hehe

Bjao

Anonymous said...

Querida, aprecio muito a obra de Baumman, mas ela não deixa esperança.
O que junho tem de bom são as festas juninas, estrelas em carreirinha! Beijos, Eugenia.