Wednesday, August 20, 2008

De amor e de cinzas

Histórias de amor, o que será melhor? Lê-las ou escutá-las? Decerto vivê-las! Mas, quando isso não acontece, ler um bom romance ou escutar uma amiga ou amigo contando seus encantamentos funciona como uma espécie de bálsamo.
De todas as histórias de amor que li, qual seria a que mais me marcou? Me lembro, por exemplo, de ter chorado compulsivamente ao ler Amor de Perdição. No entanto, não lembro da história. Quais foram as tragédias que aconteceram? Foram tantas... Termina, se não me engano, com o rapaz morrendo numa viagem marítima e sendo jogado ao mar. Bem, de amores infelizes, foram muitas as histórias que li. A Dama das Camélias, por exemplo. Romeu e Julieta. Grande Sertão, Veredas. O Guarani. Iracema. Anna Karenina. Mme. Bovary.... E eu ansiando por finais felizes, que encontrei num Alencar mais ameno de A pata da gazela, Tronco do Ipê, Sonhos d'Ouro. E, claro, na Moreninha, de Macedo. Depois passei a não me interessar tanto pelos finais, mas sim pelas peripécias amorosas. Na Cartuxa de Parma, o heroísmo de Fabrizio del Dongo me fascinou até que, anos mais tarde, relendo, descobri a Sanseverina e o Conde Mosca! Porque eu gosto de reler livros. Volto às histórias como quem vai visitar amigos. Nem sempre isso dá certo, os livros se modificam, hoje já não tenho mais paciência para o Pequeno Príncipe, que li, apesar de nunca ter sido miss. Sei que os livros continuam os mesmos, e que quem muda sou eu, mas, como eu continuo sendo eu, digo que são eles os modificados, para não questionar minha identidade. Pois, admitindo minha mudança, tenho que perguntar: qual a Lúcia verdadeira, a de hoje ou a que leu e gostou do Pequeno Príncipe? E, além disso, alguns livros continuam me agradando até hoje: Memórias de um sargento de milícias, por exemplo, continua adorável. Os romances e contos de Machado, permanecem tão bons como quando os li pela primeira vez. Alguns dos romances de Eça ainda me deliciam. E os contos de Cortázar, ainda me ensinam coisas. Um romance que adorei apaixonadamente, quando o li pela primeira vez, Vento Forte, de Miguel Angel Asturias, tornou-se ilegível, anos mais tarde. Outros não tenho desejo de voltar a ler. Em alguns romances, me apaixonei pelos seus personagens masculinos. Em outros, me identifiquei com as heroínas. Depois descobri que quem eu queria ser, mesmo, era o autor, ou a autora. Às vezes terminava uma leitura e chorava, frustrada, achando que nunca ia escrever nada assim tão importante como o que acabara de ler. Não era inveja, era um sentimento de que minha vida é tão pequenina, que jamais poderia gerar algo grandioso. Depois percebi que não era isso o que importava. Os livros nos tocam pelas suas "verdades". Quando logramos atingir a seiva daquilo que nos faz humanos e iguais, sendo tão diferentes, encontramos nos leitores uma resposta através dos tempos. Assim, as histórias de Leonardo, passadas no tempo do rei, que vira Sargento de Milícias e consegue, finalmente, casar com sua Luizinha ainda nos fazem rir, e pensar, e nos surpreendem com suas observações.
Termino falando de cinzas, em dois livros que adorei ler: Os sinos da agonia e O nome da rosa. Hoje já não quero reler nem um nem outro, embora os tenha relido pelo menos três vezes cada um. Tenho medo de não gostar. Os dois falam da época da Inquisição, são bem construídos, inteligentes. Só que, muitos Códigos da Vinci depois, já não me deixo seduzir pela manipulação da arte de narrar, tenho medo de achar a "matéria de carpintaria" muito aparente. (O Autran Dourado, autor de os Sinos..., escreveu depois esta obra, explicando como tinha sido a construção de seu romance, e deu este título, matéria de carpintaria). Mas volto a isso outra hora. Agora já são horas de dormir...
Antes, porém, uma palavrinha a respeito do comentário do Amauri, que me diz estar num Spa chamado Dona Urraca. Quando estudei a história de Portugal, fui apresentada a uma dama com este nome. Ela e sua irmã, Dona Tareja, me assombraram: como é que princesas recebiam esses nomes tão pouco sonoros? O pior é que o marido de uma delas, querendo livrar-se da mulher, matou um urso, costurou-a dentro da pele do animal e soltou os cachorros atrás. Quanta barbaridade, não acham? Espero que este spa não tenha nada a ver com essa história! Aguardo notícias.

2 comments:

Guido Cavalcante said...

Releituras, adoro fazê-las. Isso porque livros são seres vivos, que de sonolentos numa prateleira geralmente empoeirada, readquirem novo vigor quando se encontram de novo entre mãos amigas, que lhes restituem por momentos um pouco da glória que tiveram na primeira vez que foram abertos. Para mim Um Diário no Ano da Peste, de Defoe e O Hóspede Secreto, de Conrad, sempre vão se mostrar suculentos quando os empunho por alguns dias. Gosto do Diário por ser pretensamente um livro "real", embora Defoe tivesse apenas cinco anos quando os acontecimentos que relata se passaram. Dificilmente ele poderia tê-los vivido da maneira que descreve, com a espontaniedade coloquial que utiliza para narrar a evolução da epidemia na cidade. E gosto do Hóspede pela agonia contida de dois homens buscando ocultar-se da tripulação de um barco imobilizado numa calmaria no mar da China. Como é possível manter o segredo naquele pequenino universo em que todos sabem tudo sobre todos? A forma de descrever realísticamente o improvavel é fascinante pra mim.

Amauri said...

Lucia,

Fique tranqüila(esta certo o trema? andaram me confundindo ultimamente)já estou em Temuco, sul do Chile bem perto do vulcão AIMA que estava em erupção até bem pouco. Agora esta enfeitado de neve e faz a festa dos esquiadores por aquí.Doña Urraca é um hotel e SPA em Querétaro no Mexico. Urraca por lá é um pássaro, parecido com o anú preto do Brasil. Vive em bando e faz muito barulho. Em homenagem ao dito pássaro é que tem este nome URRACA. O hotel é muito lindo e agradável, uma construção antiga com tudo a ver com a colonização espanhola.
Grande abraço.