Monday, February 22, 2010

Volta à escola


É hoje o dia…, diz a canção. E os brasileiros, entre sábios e brincalhões, avisam: hoje é o primeiro dia útil de 2010. Tenho uma grande implicância com essa coisa de dia útil. Se alguns dias são úteis supõe-se que os que não são úteis são inúteis. E como podemos chamar algum dia de inútil? Nestes dias, vivemos. São os dias em que encontramos os amigos, em que vamos ao cinema, em que nos estiramos ao sol. São dias de passear na praia, de dormir até mais tarde, de macarronada com a família. Ou dias de futebol, de cabeleireiro, de brincar com as crianças. São dias em que podemos mergulhar na leitura, sem interrupções. Dias de ficar olhando pela janela, invejando o ânimo de quem se aventura pelas ruas, seja para encontrar um amor, seja para dançar nos blocos, ou para ir à Igreja. Aí me lembro de Manoel de Barros, penso em sua arte da inutilidade, a poesia. O bom da poesia é que ela existe assim, sem compromisso. Não é útil, e, por isso mesmo, é a mais necessária das artes. Pois é nesses dias inúteis, nessas artes inúteis, nas ações inúteis que realmente encontramos o essencial. Um gesto de carinho, por exemplo, precisa de ser inútil, pois, se anexarmos alguma utilidade a ele, o carinho se embolora instantaneamente, se modifica e pode até virar agressão. Quem recebe um carinho porque o outro pensa que, nos acarinhando, há de conseguir alguma coisa, se sente degradado, não é não?
Quem nos roubou a vida? Pois poucos são os que ainda sabem fazer essas pausas e olhar para as coisas com desprendimento. Quem nos ensinou essa coisa de que "tempo é dinheiro"? Tempo é vida, é só o que temos. Mas fomos aprendendo a "fatiá-lo", dividindo-o em dia e noite, em horas, minutos, segundos, décimos de segundo, milésimos, até ficarmos com nada, esquecendo de que é possível regular nossos momentos pelas sensações e lembranças. 
Estamos de volta à escola. Vamos para lá para reaprendermos as coisas que a utilidade nos retira. Se a escola pode ser apenas um adestramento para a utilidade, ela também é a porta que nos liberta para nos reencontrarmos com a vida. A escola nos ensina, meninos travessos que somos, a desmontar o relógio para descobrir o tempo. Ela nos revela a utilidade para nos mostrar que tudo isso só importa se soubermos que o segredo da utilidade está em contemplá-la a partir da inutilidade essencial. 
Filosofei tanto, hein? Não era essa a intenção. 
Só queria postar alguma coisa absolutamente inútil…

3 comments:

Zilda Santiago said...

Muito bom e nem tão inútil!!!rsrsrsr
Estou com um novo blog,se possível passe por lá:http://rumoslibertadores.blogspot.com

Guido said...

Belo texto. Ao qual me junto, no mesmo sentimento de que dias não deveriam ser divididos entre úteis e inúteis, pois, originalmente, os inúteis assim o foram únicamente para que pudéssemos mais tranquilamente louvar ao Senhor. Hoje, quando não mais louvamos e o Senhor já deixou de se importar conosco, tal divisão deveria cair por terra. Seriam "úteis", finalmente, todos os dias! Tal coisa seria bem prática: continuaríamos trabalhando obrigatóriamente os cinco dias estipulados e os dois restantes, que agora são inúteis, os poderíamos deslocar ao bel prazer para qualquer diz da semana que nos desse na telha. Assim, os bancos estariam abertos todos osdias, também os consultórios médicos, os museus, sei lá o que mais. A vantagem é que tudo sempre funcionaria e a demanda seria melhor distribuída durante a semana, evitando o congestionamento para nos valermos daquilo que nos pude ser útil. Vamos fazer um partido, o dos dias eternos, nem úteis, nem...

Lucia B said...

Está, então, fundado nosso P.D.E.!