Wednesday, February 24, 2010

Imagens e fotos

Percebo que vou desenvolvendo umas manias esquisitas, que talvez sejam coisa hereditária. Minha bisavó, por exemplo, detestava tirar fotografias. Os poucos instantâneos que temos dela são inúteis, porque ela ou colocou a mão em frente ao rosto, ou virou de costas, ou abaixou o rosto. Sou uma péssima fisionomista, daí que não me peçam para descrevê-la. Ela era muito branquinha, pele de porcelana, macia. Não sei que idade tinha, mas ela me parecia bem velha. Ainda mais naquela época em que as plásticas e os preenchimentos não existiam, e as pessoas precisavam ostentar suas rugas, Mas não me lembro de rugas no seu rosto, e sim de uma papada, que dava a ela um ar empertigado e meio ofendido já que, talvez para tentar minimizar o apêndice, ela andava sempre com o queixo elevado, e muito empertigada. Ou talvez fosse apenas uma questão de boa educação. Minha bisavó não se "atirava nas cadeiras", como me acusavam de fazer. Ela se sentava com as costas eretas, as pernas juntas, e ficava longos períodos calada. Estava um pouco surda, e era difícil falar com ela. Uma vez assisti uma conversa entre ela e uma outra avó, a vó Beá. Uma dizia: – Hoje está fazendo calor. A outra respondia: – Há tempos que não vejo o professor. A primeira retrucava: – Acho que é a umidade. A outra dizia: Acho que está ensinando na universidade… Bem, não me lembro exatamente o que elas disseram, mas me lembro de que ficaram conversando por rimas, falando sozinhas, mas muito simpáticas e sorridentes, duas senhoras que tinham vivido na Belle Epoque, e que lamentavam seus paraísos perdidos. Minha bisavó chamava-se Maria Cândida, mas se dizia Dona Mary. E nunca me permitiu chamá-la de bivovó. Tinha que tratá-la de Dona Mary, como todo o mundo. E ela não gostava de abraços nem de beijos. Acho que, quando ela olhava para mim, me via como um sinal da decadência de sua família. Eu era uma menina bobona e mal-educada, para os parâmetros dela. Pelo menos essa é a impressão que fiquei.
 De vez em quando ela me levava para uma "estação de águas". Uma das mais antigas lembranças que tenho é a de uma ida a Caxambu, de avião. Toda a família no avião, Dona Mary instalada em uma poltrona e, quando o avião finalmente levantou voo, a senhora tão compenetrada começou a gritar de medo e só parou quando o avião voltou a pousar. Me lembro de meu avô tentando fazer que ela se calasse, sugerindo que ela fechasse os olhos, e brigando comigo por abrir a cortininha e deixar que a visão das nuvens a atemorizasse ainda mais. Resultado, tivemos que voltar para o Rio pela superfície. E nunca mais fomos a Caxambu de avião, até porque depois acabaram os voos para lá.
Numa outra vez, fizemos uma viagem de trem, meu avó, Dona Mary e eu. Ao chegarmos a nosso destino, o vagão em que estávamos ficou fora da plataforma, e não sei porque, precisamos descer no meio do campo. Meu avô pulou do vagão, me ajudou a saltar e aí começou a comédia: Ele pegou a mãe que, assustada, começou a gritar e tapou os olhos dele com as mãos. Vovô ficou cambaleando, sem saber para onde ir, com os olhos tapados. Eu fui puxando os dois, me sentindo como uma personagem de uma fábula. Tinha medo de que o trem começasse a andar e eles ainda estivessem ali ao lado. Vovô carregando a mãe nas costas, meio desnorteado, e eu puxando os dois pela aba do terno de linho. Hoje imagino a aflição de meu avô, sem saber onde pisar, cuidando da mãe e da neta, às cegas.
Meu avô era o meu querido, meu herói, meu ídolo. Moreno, forte, bonito, era um homem carinhoso e bom. Ele me contava histórias, milhares de histórias, todas inventadas por ele. Eram as histórias do caxinguelê (bichinho mais esperto da floresta) ou as histórias do Zumbizão e do Zumbizinho (ele e eu). Foi ele quem me ensinou a amar o Centro da Cidade.  Eu ia com ele para a Câmara, ali, ao lado do Amarelinho, e me sentia o máximo. Passeávamos pelas ruas cheias do que, na minha opinião, eram palácios. Andávamos em elevadores antigos, de portas manuais, e conversávamos com os ascensoristas, e com garçons, sempre tão delicados, e sempre bem informados. Na hora do lanche, íamos ao Amarelinho onde o amigo do vovô, o Xavantes, tomava um copo de leite gelado com sal. Nunca tive coragem de experimentar. Devia ser horrível. Vovô me levava ao dentista, no largo da Carioca. Depois ( e acho que por isso meus dentes nunca prestaram) íamos comemorar na Colombo, ou na Cavé, ou na Manon. Para onde íamos, havia sempre um amigo do vovô por perto. Na ABI, assistíamos a filmes maravilhosos. Minha iniciação ao cinema japonês  foi ali. Vi um filme que me deixou impressionadíssima, em que um lobo comia um bebê recém nascido. Foi minha revisão da história de Chapeuzinho Vermelho. Os lobos comiam mesmo as criancinhas e depois não havia caçador que desse jeito no assunto. Na Câmara, vovô tinha amigos de nomes esquisitos: Honestaldo de Pennaforte (eu fazia questão do H no nome dele),  o supracitado Xavantes, Lígia Lessabá (Lessa Bastos). O poeta Jorge de Lima, para mim, era um pintor. Vovô tinha um quadro dele, que ficou para minha tia. E frequentava o sítio que ele tinha em Piabetá. Foi lá que nasceu minha madrinha Mara, com o nome mais popular de Maria da Penha. Ela deve ter inspirado a famosa música que diz "ela só pensa em namorar". Toda as vezes que me arrumava para sair, era uma tragédia. Alguma peça essencial de vestuário ficava faltando, ou ela calçava meus sapatos nos pés trocados, alguma coisa no gênero. E acho que na época ela namorava algum fotógrafo, pois tinha muitas fotos 3x4 que ia tirar com ela. Depois perdi o gosto pelas fotos. Meu avô, avesso que era a todas as maquininhas, nunca teve uma máquina fotográfica. Também não teve automóvel e a nossa TV, enorme, "faixa preta da GE", só era ligada pela vovó, que gostava de assistir um programa chamado Os intocáveis, e outro chamado Perry Mason. Vovô nem lâmpada trocava. Ele chamava o porteiro. Minha avó é que fazia todos os pequenos consertos elétricos, trocava os fusíveis, a resistência dos ferros, as tomadas das geladeiras e dos aspiradores de pó. E ela era a dona de nossa vitrola, onde escutei incontáveis historinhas que vinham nos disquinhos coloridos que até hoje amo. Minha primeira grande "possessão" foi uma vitrolinha portátil, que só abandonei depois de casada, quando meu marido, que adorava todos esses brinquedos tecnológicos decretou que ela distorcia os sons. Chega de saudade. Imagens e fotos do passado, como diria o poeta, doem muito.

3 comments:

Leonardo Villa-Forte said...

Parabéns pelas traduções para o inglês dos seus contos, Lúcia! Espero que conquiste mais leitores lá no Tio Sam. Um beijo.

Anonymous said...

Linda sua história! Márcio Galli

Tereza said...

Gostei imensamente. E me veio à mente a imagem da Mara que realmente era uma pessoa cheia de vida! Eu a encontrei umas poucas vezes mas mesmo assim a imagem dela ficou no meu imaginário. Grande abraço, Tereza.