Monday, October 20, 2008

Horóscopo

Confesso um vício -- ou seria uma crença? Todos os dias leio meu horóscopo. Mas não sou das mais fiéis, se não gosto do que está previsto, leio as previsões de outro signo, ou as de outro jornal, quando tenho... Hoje, porém, gostei do que li no signo de aquário, que talvez seja o meu signo real já que na semana passada acordei dentro de um aquário, nada metafórico. É que um cano rompeu e minha casa ficou inundada, desde a cozinha até os quartos. Passei mais de três horas, com os dois faxineiros do edifício, passando rodo na casa, retirando tapetes e livros -- muitos irremediavelmente perdidos, para meu desconsolo. O que passou, passou. Water under the bridge, como dizem the americans... O que interessa é que resolvi fazer o que o horóscopo manda para hoje: pensar na cor verde. Claro que imediatamente me vieram os versos de Lorca: Verde que te quiero verde...
Então, para que eu pense acompanhada no verde, aqui vai um trechinho de Romance Sonambulo (que, aliás, pode ser ouvido no YouTube, no mais lindo castellano)
Verde que te quiero verde
Verde viento. Verde rama
El barco sobre la mar
Y el caballo en la montaña
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
Verde carne. Verde pello
con ojos de fría plata
Verde que te quiero verde,
bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas
....
Ella sigue en su baranda
Verde carne, pello verde
soñando en la mar amarga.
É um lindo poema, sonoro a mais não poder. Creio que esse poema esteve nas mentes dos escritores latinoamericanos quando iniciaram seus romances... Vejam, por exemplo, o início de um que sei quase que de cor, já que é assunto de minha tese.
Concierto barroco, de Alejo Carpentier
De plata los delgados cuchillos, los finos tenedores; de plata los platos donde un árbol de plata labrada en la concavidad de sus platas recojía el jugo de los asados; de plata los platos fruteros, de tres bandejas redondas, coronadas por una granada de plata; de plata los jarros de vino amartillados por los trabajadores de la plata; de plata los platos pescaderos con su pargo de plata hinchado sobre un entrelazamiento de algas; de plata los saleros, de plata los cascanueces, de plata los cubiletes, de plata las cucharillas con adorno de iniciales....

La plata e el verde se tornam palavras encantatórias, e adquirem um significado muito mais profundo que a cor ou o material. Porque o texto ofusca com seus reflexos prateados, porque o poema vibra com o r de verde que toma conta do mundo (mar e montanha) e das pessoas (carne e cabelo)? Talvez nem importe descobrir o porquê, talvez nos baste sentir a beleza das palavras e sabermos que, enquanto elas estiverem sendo lidas, nós estamos a salvo das inquietações que, no entanto, não se distanciam nem no poema nem no romance. A sombra está presa ao cinto, o peso da prata se faz sentir sobre nossas línguas, incapacitadas de correr com tantas "explosões" consonantais. A ameaça, a violência, a dor estão ali, mas por um breve segundo o verde tremula, a prata ofuca e brilha e nós nos sentimos a salvo de tudo e de todos.

Podemos, assim, esquecer a morte que nos rodeia, e nos colocarmos, como quer o Joaquim Ferreira dos Santos, suburbanamente sentados nas calçadas, admirando o por do sol. Eu, que acredito, se não em horóscopos, no poder mágico das palavras, penso que muito dos males pelos quais passamos são provocados pela imprensa equivocada e sensacionalista. Se não noticiássemos tanto -- não digo calarmos, mas sim transformarmos em foco de atenção -- o mal, talvez ele fosse minorando. Eu morei numa cidade (do tamanho de um botão, como diziam antigamente) cujo jornal noticiava as coisas boas da comunidade. Na primeira página apareciam as vitórias do time, as melhorias da praça, o encanto das flores que voltavam, os aniversários de casamento, as reuniões cívicas. Entrevistavam a motorista do ônibus escolar, que já estava levando a terceira geração à escola. Discutiam a qualidade da merenda. Falavam do sucesso do time de soletração. Dos ensaios do musical que ia ser encenado. Do talento da costureira que tinha criado a nova bandeira dos veteranos. Existia crime, mas este estava sempre na página x, sem manchetes em negrito. Enquanto morei lá houve homicídios inexplicáveis, espancamentos até a morte, roubos, atropelamentos, assaltos, mas tudo estava lá na página x, sem negrito, e todos tínhamos a impressão de vivermos numa cidade tranquila e abençoada. Deixávamos os carros abertos nos estacionamentos, colocávamos as bolsas nos balcões das lojas enquanto olhávamos as mercadorias expostas e nos afastávamos sem medo de sermos saqueados. Ensinávamos aos nossos filhos que não deviam falar com estranhos, nem aceitar caronas ou doces de desconhecidos, mas ninguém olhava para os outros com olhos assustados, sem saber se dali viria a próxima agressão. Parávamos para prestar ajuda quando alguém estava com um pneu furado, ou se alguém caía de sua bicicleta e machucava o joelho. E, quando o fazíamos, podem estar certos de que seríamos notícia de jornal, quase heróis: A senhora fulana socorreu N, de sete anos e meio, que sofreu uma queda da bicicleta ao ir para a escola. E lá estaria a foto da sorridente senhora fulana, ao lado da carinha sofrida da vítima N. E era assim que todos queriam aparecer no jornal, heróis do bem. Ninguém se orgulhava em ser o "rei do gueto", pois este ficaria na página x, sem negrito, enquanto que a senhora F., que todos os anos plantava tulipas no canteiro de sua casa e que fazia a cidade ficar mais bonita graças a isso, não só aparecia orgulhosa, com suas ferramentas de jardinagem, como merecia medalhas da cidade por causa disso. Tinha manchete, foto e medalha. Ganhava placa com seu nome. Sua casa virava atração da cidade, as pessoas diminuíam a marcha de seus carros ao passar em frente aos canteiros radiosos de tulipas, e de outras flores que estufavam suas pétalas orgulhosamente cientes de sua beleza.
Bem, já me estendi demais, e tenho muitas coisas a fazer. Depois de amanhã é o lançamento de meu livro, minha filha chega de fora, durante alguns dias serei o centro das atenções, manchete principal do jornalzinho da cidade -- saibam que, se eu mandar notícias para lá, eles colocarão em destaque, sim : a Senhora B., antiga moradora, lançou seu segundo livro... e estampariam minha foto, para que meus antigos vizinhos pudessem me reconhecer. Se o Paul Newman ainda estivesse vivo, ele olharia as fotos e diria: sabe, acho que cruzei com ela umas duas vezes aqui na cidade... Não, não foi ela a tonta que guardou o sorvete na bolsa quando me viu no Baskin Robbins, até porque eu fui ídolo da mãe dela, e não dela. Mas ela me reconheceu e me sorriu, como uma vizinha simpática, que me ofereceria a pá para retirar a neve caso me encontrasse atolado na estrada, pá que ela, tropicalíssima, sempre carregou no porta-malas, junto de um cobertor, com medo dos invernos e de suas neves...
Nossa! Viajei! Viu no que dá ler horóscopo?

4 comments:

Ana Cristina Melo said...

O problema não está no horóscopo, mas nas primeiras páginas, em alguns livros, em alguns filmes.
Cultua-se como mais bonito, associa-se como o mais cult, o texto vermelho de sangue. E seguindo assim, sempre aparecerá alguém achando que é o máximo ser o "rei do gueto".
Que se multiplique a ficção dos pequenos detalhes do cotidiano!
E falando de pequenas grandes belezas, meus parabéns pelo livro "A secretária de Borges", que eu li na época do lançamento.

Guido Cavalcante said...

Por si só essa cidadezinha já é uma peça de ficção: pois ao esconder na página de dentro os piores fatos, cobrindo-os com o véu da bondade, como se o lado terrível da vida não fosse para ser visto, a cidadezinha engendra a mais perfeita obra de disfarce jamais criada. Essse o grande romance que ainda deveria ser escrito no Brasil. Está nas suas mãos!

P.S. Adoro o Concerto Barroco - li a primeira vez em Havana

Guido Cavalcante said...

Se bem lembro ainda do plot do Concerto, a realidade disfarçada não é o seu tema recorrente - uma realidade que não corresponde a toda verdade? Sei lá onde anda o maldito livrinho aqui na biblioteca hrs-hrs-hrs

Anonymous said...

Prezada Lúcia:
Sinto não poder estar no seu lançamento de hoje, 22-10, mas, desejo-lhe alegrias junto dos amigos e leitores.
Abraços,
Ernane Catroli