Sunday, January 16, 2011

Caricaturas

Às vezes tenho vontade de fazer umas croniquetas, tipo os "retratos inesquecíveis" da New Yorker, mas, ao invés de retratos, fazendo caricaturas de mulheres e homens que observo pelas ruas. Poderia falar, por exemplo, da "atrasadinha". Não daquela que chega atrasada aos lugares, mas daquela que só vê as coisas depois de ocorridas. Aquela que é doida para arrumar um namorado, mas que só vê que o cara estava de olho nela depois que a amiga avisa: "Pô, Fulana, você não viu que ele não tirava os olhos de você?" Ela não tinha visto, e agora era tarde. Com torcicolo, de tanto virar para olhá-la, o cara já está indo embora da festa. Ou, pior ainda, já cruzou o olhar com aquela "auto-estimosa", que acha que todos os olhares lançados são para ela. O velhinho que estiver tendo um derrame e olhar para ela pedindo socorro, vai ganhar um sorriso e um cartãozinho com o celular dela. "Me liga outro dia, gato! Hoje estou acompanhada, não vai dar. Mas… que é isso? Não fique tristinho, não precisa dar uma de Cazuza e se jogar aos meus pés! O que é isso, homem de Deus? Eu, hein?!Gente, socorro, acode aqui, o carinha foi flechado por Cupido e teve um piripaque!"
O contrário desta é aquela mulher que se acha um horror, e acredita que todo o mundo está olhando para ela, de zombaria. "Aquele casal que chegou, viu só como eles riram da minha cara? Devem estar imaginando o que uma baleia como eu está fazendo encalhada nesta praia de bacanas!" Pior do que essa é a "simpática". Ela pega suas vítimas nas filas, nas salas de espera, nos bancos de ônibus. Sorridente, faz uma pergunta qualquer, óbvia: "Esta fila é do cinema?" "Este ônibus passa em Copacabana?" "A doutora está atrasada?" e logo embala num monólogo sobre o horror das enchentes. Ela deve ter preparado cuidadosamente esse monólogo, pois relembra todas as enchentes ocorridas naquela região. "Sabe, em 1902, a imprensa nacional já tinha categorizado a região como área de risco. A mortandade foi grande e o resgate se estendeu durante seis meses, pois naquela época não havia ainda os recursos de hoje. Nada de helicóptero, nem de retroescavadeiras. Algumas pessoas foram resgatadas de balão. Já imaginou? De balão?!" Essa leva qualquer um à total anestesia intelectual. Mas às vezes ela encontra um adversário à altura, o "sabetudo". Esse se dedica a corrigir os detalhes das informações da simpática: "No tsunami morreram quase um milhão de pessoas, e tudo por falta de um sistema de alerta!", proclama esta. Mas o sabetudo corrige: "Na verdade, morreram apenas 825.193 pessoas. Desaparecidas ficaram 932 crianças, 643 turistas alemães, 196 idosos e 47 mergulhadores. Os feridos ultrapassaram a casa do milhão, mas esta é uma estimativa, porque nos hospitais foram atendidos 987.789 pessoas. O problema é que milhares de pessoas sofreram ferimentos leves, que não foram tratados nos hospitais…" A conversa se estende, para desesperos dos apressadinhos: "Será que ainda vai demorar muito para abrir?" "Porque será que eles nos deixam aqui fora, neste calor? Isso é desumano, lá dentro tem ar condicionado" Mas, uma vez abertas as portas, quando todos estão no ar condicionado, começa a fala da descontente; "Será que só eu estou sentido frio? Não dá para abaixar a temperatura?" Que logo é corrigida pela mulher do sabetudo: "Aumentar a temperatura. Sai um tremendo bateboca, mas deixo vocês escaparem deste suplício. Volto outro dia, com outras caricaturas.
P.S. Tenho um bocadinho de cada uma dessas pessoas. Mas, quando noto, me corrijo.

1 comment:

Tereza said...

Amei essas croniquetas e estou esperando mais tantas outras. Sabe do tipo que lembrei? Aquele da sala de espera de médico, aquele que pergunta sobre sua doença só para falar, ininterruptamente, sobre a dele. Tem gente "sem noção". Gostei de todos os tipos, mas esses da simpática e do sabetudo eu gostei muuuuito!!!Beijos, T.T.