Friday, July 04, 2008

Perversões e pervertidos

Hoje foi o dia da Roudinesco. Que show!
A mediadora foi fantástica, orientou muito bem a palestra, apresentou sem exageros, mas demonstrando um profundo conhecimento e respeito pela obra de Mme. Roudinesco. Simpática, com cara da comadre da prima de Pindamonhangaba, uma voz aguda, mas um francês claríssimo, fácil de entender.
Falando sobre "uma" história da perversão -- a perversão no mundo ocidental, ela ensina que as perversões têm a ver com metamorfose -- modificação do corpo. As perversões foram mudando com o tempo, o homossexualismo,por exemplo, já foi considerado uma perversão, e hoje deixou de ser. Hoje, a perversão está ligada à falta de consentimento, pois se considera normal tudo o que se faz entre adultos capazes de consentir. Sobraria então a pedofilia e a zoofilia. A zoofilia é um pouco mais controversa, pois, desde que não haja sofrimento do animal, talvez não se deva falar em perversão. A pedofilia, então, com crianças pequenas, não com adolescentes, seria a última fronteira da perversão.
Ela ainda falou sobre o sadismo, sobre o nazismo, sobre Freud e a maneira de a psicanálise encarar a perversão (uma doença a ser curada). Tudo era tão interessante. Pena que há uma advertência aparecendo aqui na tela, demonstrando a instabilidade da conexão. Vou abreviar o relato, mencionando uma frase da mediadora: O sadismo concebeu o inconcebível, e o nazismo praticou o impraticável.
Mme. aproveitou essa frase para dizer que o nazismo não é uma herança de Sadeismo (para diferençar de sadismo, termo que foi cunhado pela psicanálise, mas que não corresponde exatamente, a uma lição de Sade) pois o naziemo é quando todo o estado se perverte. Além do mais, Sade tinha talento, e os nazistas todos eram medíocres.
Foi uma grande palestra. Volto a ela mais tarde.

Falando sobre as perambulações favoritas, meu lugar mais aconchegante é o espaço Bravo, na Pousada do Sandi. Ontem e hoje passei alguns momentos agradáveis por lá. Somos recebidos com simpatia, e nos oferecem café, queijinhos, frutas...e muita solicitude.
Um espaço muito agradável é a casa do Jornal do Brasil. Lá os autores vão dar umas mini palestras, o povo em pé, ao redor deles, ouvindo um bate-papo quase íntimo.

A outra palestra que assisti hoje foi concorridíssima, também: Sexo, mentiras e videotape, onde três mulheres poderosas nocautearam o português que fez a mediação. Inês Pedrosa, Zoe Heller e Cynthia Moscovitch (já está muito tarde, faz frio e eu não quero ir buscar minhas anotações para confirmar grafias e nomes) contra um escritor tatuado que fazia sua primeira mediação...Só podia dar no que deu --o rapaz sofreu. A Inês é simplesmente ótima. Fala bem, tem um texto excelente e é muuuiiito inteligente e esperta, vivaz. A Zoe é uma inglesa de voz extremamente sexy, atraente e também muito articulada, inteligente, e a que mais expunha a fraqueza do mediador, talvez porque tivesse dificuldades com a tradução. A Cynthia fala bem, se posiciona polemicamente, é engraçada, e foi simpática. Cada uma leu um pequeno trecho de suas obras e depois responderam às perguntas do mediador, que acabaram descambando para essa coisa de insistir na literatura feminina. Elas retrucaram à altura, e mostraram que existe um certo desconcerto por parte do público, que reconhece que existe uma característica "feminina" no que lêem, mas que as autoras recusam o rótulo. É como se estivessem criando uma nova divisão no reino animal, os seres humanos e as mulheres. Quando um homem escreve sobre angústia e solidão é um problema humano. Se a mulher escreve sobre isso, é um problema feminino. E, como lembrou a Inês Pedrosa, porque é que ninguém lembra de perguntar a um homem como ele concilia seu trabalho e a vida familiar, e nenhuma mulher escapa dessa pergunta?
Foi muito interessante o debate.

Depois fui jantar com Agualusa, Maitê Proença, Gisela Amaral, Helcio Pitangy e muitos outros famosos. Na verdade, em minha mesa estavam os convivas mais interessantes: os meus amigos. Mas eu devo estar lendo demais a revista Caras, porque fui capaz de identificar quase todo o mundo que entrou no restaurante. A comida estava deliciosa, a música era boa, e depois saímos e fomos ao Bar do Che, encontrar a galera da Record. Sergio França, Ana Paula Costa, Anna Maria, e aí fomos topando com o pessoal do SESC, com os poetas de plantão (desde Elisa Lucinda, a poeta sestroza que enriquece a editora, passando pelo Claufe Rodrigues e pelo Chacal), com o pessoal da Globo (Paulo Betti, que tem o dom da ubiquidade, estava em todos os lugares para onde eu olhava -- vai ver que ele foi clonado --, e um bando de atrizes cujas caras eu reconheço, mas cujos nomes não sei).

Já estou quase congelando, não escrevo mais por hoje, nem coloco as fotos que tirei. Amanhã eu volto, mais organizada, prometo.

2 comments:

Anonymous said...

Lúcia querida, obrigada pelo deleite de seus relatos. Senti, pode parecer presunção, que você relatou a Madame para mim. Muito merci, de todas as formas.
Beijos e calor, nas mãos que teclam e no coração que vibra,
Eugenia

Amauri said...

Puxa que bom, dá para notar a sua felicidade pelo que você escreve. Fico feliz por você também. Como disse o Jabor, este é o evento cultural mais importante do Brasil. E você esta nele!
Grande Abraço.