Friday, November 12, 2010

Veredas…



De volta ao Rio, com fotos e novidades:
Começo com as fotos ao lado, tiradas no dia 10, pouco antes de meu embarque de volta ao Rio. Passear no Central Park no outono, num dia como anteontem pode ser uma das melhores coisas a se fazer em NY. A beleza das árvores, o contraste com os prédios, o friozinho que nos deixa meio elétricas, exigindo que nos movimentemos para aquecer um pouco, é um prazer que se sente com corações e mentes. Mas, principalmente, depois de ter, na noite anterior, tido o prazer de assistir Al Pacino no palco, representando o Shylock de Mercador de Veneza. Um grande ator (não em tamanho, que ele era o segundo mais baixo no elenco) exibindo, sem frescuras nem grandiloquências, sua arte. Ele estava tão perfeito que, por muitas vezes, me perguntei se ele não seria mesmo judeu. A expressão corporal era impressionante, ele parecia traduzir no corpo a essência do judaísmo. E era tão humano, seu "pathos" era tão legítimo, que fez que todos os outros personagens se tornassem artificiais, vazios, irritantes. Senti, com ele, as dores do preconceito, a raiva e o desespero, o desprezo. Seu último gesto na peça, depois de ser batizado à força, é levantar sua Kipah (como é que se escreve o nome do chapeuzinho usado pelos homens?) e, depois de limpá-la, recolocá-la em sua cabeça, não sem antes lançar um olhar expressivo, para os homens que se afastam, achando-se "os vencedores". Neste olhar havia tanta dor, tanta revolta, tanto orgulho, tanta sinceridade que, por mais que eu escreva aqui falando sobre ele, não conseguirei dizer tudo. Foi um pequeno flash, ele estava cabisbaixo, amparado por seus amigos, apenas recolheu a kipah (perdoem-se se escrevo errado) sacudiu-a e, ao levantar a cabeça para colocá-la de volta, olhou para os "bully" que se afastavam. Era o olhar de uma vítima de estupro. Foi impressionante. E depois ele saiu do palco e a peça continuou com o brilho das frases de Shakespeare, mas senti uma impaciência, era como se, depois de um drama, estivesse sendo obrigada a ver uma peça de jardim de infância onde nenhuma das crianças fosse minha conhecida. Acho que esse meu sentimento foi compartilhado. As pessoas na platéia se entreolhavam, como se se perguntassem: que erro foi esse de Shakespeare, continuar a peça depois que ela se acabou? Pois, na verdade, o Antônio se acaba ali naquele julgamento e a bela Porcia, tão inteligente, mostra que bem merece seu Bassanio: são dois fúteis! São visões do futuro, esses dois personagens, gente que se preocupa com fama e riqueza, e nada mais. O amor entre eles é muita atração sexual e cálculo, sentimento Zero!
Mas nem só de Broadway se faz uma NY, embora eu tenha feito a quase proeza de assistir 3 espetáculos desta vez: Além do Pacino, fui assistir Rain, o musical dos Beatles, que me fez regressar a um tempo em que todos os sonhos pareciam possíveis. E também Fella, sobre o líder africano do mesmo nome, com impressionantes danças negras que mostram as afinidades entre Bahia e África. Rita, baiana, ao meu lado, curtiu muito toda a coreografia.
Os museus foram apenas 3: Metropolitan, Natural History e o Discovery Center, onde estava a exibição de Tut Ankh Amun. Decomponho o nome na tentativa de recordar os significados que aprendi no cartucho, mas, de cabeça, só lembro do Ankh, o símbolo da imortalidade, quase irónico num faraó que morreu aos 19 anos de idade. Cheio de artefatos e de filmes, a exposição consegue criar a mesma expectativa da época, com a abertura da tumba do Rei Tut. Vamos sendo levados pelo Egito e acompanhamos os passos da descoberta da tumba: o jovem carregador de água que, ao cavar um buraco na areia dá com os degraus que levam à tumba, o encontro da primeira câmara, Lord Carnavon e sua filha correndo para o local, para a abertura da última câmara, o brilho da parede de ouro, que tira nossa respiração, a imensa presença do sarcófago e os seguintes, que acabam por revelar a extraordinária máscara de ouro do rei. Finalmente, a reprodução, em bronze, da múmia, a única no Egito que permanece em seu túmulo, que foi preparado cientificamente para preservá-la. E o filme da extração do DNA do faraó, que tem respondido a tantas questões da história. Para finalizar, um filme em 3D sobre Ramsés II, sua vida e o processo de mumificação. Adorei. Sem falar no convite para passar a mão no crânio do rapaz, também reproduzido em bronze.
São muitas as histórias. Ficam para depois.
Agora só falo do prazer de pegar o jornal de hoje e ler as notícias da parte científica: a leitura modificando nosso cérebro, o pensamento que pode nos levar à infelicidade, a impagável foto do Obama: ainda é muito bom ler o jornal em papel! E ler os livros em papel, também… Pois não resisti e comprei um monte ( na verdade, só uns quatro) E mais dois audiobooks, para escutar no carro (adoro!) Em resumo, a gente pensa que as viagens nos modificam, mas elas só nos tornam mais iguais a nós mesmos. Aqui estou de volta, mais Lúcia do que nunca!

1 comment:

Tereza said...

Lúcia querida, o Cristo e nós todos te acolhemos de braços abertos! Sei de uma estorinha bem interessante e vou contá-la como me lembro: era uma vez dois doentes, sendo que um estava impossibilitado de se levantar da cama e ficava perguntando para o outro o que ele via da janela. E o outro cada dia contava que via coisas incríveis: bela vegetação, crianças correndo, namorados se beijando e outras lindas coisas mais. O mais doente ficava com raiva, invejoso, com ódio porque não tinha ficado perto da janela. Um belo dia o outro morreu ou teve alta, e o invejoso pode se levantar e alcançar a janela que só dava para um paredão sem nada, tipo o do Bartleby. Enfim, o outro, com suas narrações e descrições diárias, só queria agradá-lo e lhe propiciar visões memoráveis que iriam lhe distrair. E o invejoso, ao se confrontar com a realidade, ao ter consciência do que o outro tinha feito por ele, chorou. Resumindo: esse é o poder da palavra, esse dom que algumas pessoas, como você, têm. E nós, diferentemente do ouvinte invejoso, ficamos aqui na torcida, esperando, cada dia, mais relatos que nos ajudem a nos reinventarmos, despertando em nós, cada vez mais, percepções e desejos que, às vezes, infelizmente, se encontram totalmente, ou quase totalmente, embotados. Um grande abraço, T.T.