Tuesday, November 20, 2007

Dia da consciência negra.


Arrumam cada nome, né? Consciência negra parece coisa de pecado, de colégio interno. Minha consciência não está negra, está de todos os tons de pele. Êta nós! bichinhos de plumagem tão desenxabida... brigando por causa de cores tão sem imaginação. Qualquer inseto é mais lindo que nós, confiram na imagem ao lado. Depois leiam mais um capítulo e aproveitem bem o feriado.




Capítulo IX

Passeei de gôndola ontem!

Tanto tempo aí e só agora você passeou de gôndola?

Não. Já andei antes, mas ontem fiz aquele passeio noturno, com os gondoleiros cantando.

E porque só ontem?

Porque estava esperando a lua cheia, bobo! Para o passeio ser completo.

Para ser completo tinha que ter um amante carinhoso do lado...

E quem disse que não tinha?

Quem? O japonês ou o garçon?

Você é tão cansativo... Até parece que não me conhece. Desde quando eu ia me agarrar com um japonês ou um garçon?

Preconceituosa.

Não é nada disso! Eu não me apaixono assim, por rótulos. Me apaixono por pessoas, e aí não importa profissão, cor, classe social: é o alguém que é importante.

Então quem era o alguém?

Era o poeta. Me apaixonei por ele. Criei o personagem com tantos detalhes que acabei me apaixonando. Então resolvi que eles iam se encontrar, que iam passear de gôndola, que ele ia se comportar como um bobo e que ela ia se comportar como uma adolescente, toda iludida.

Nossa, que mudança!

Dei a ele um nome: Francesco.

E ela é...

Paula, é claro. Inverti os nomes dos amantes que se perdem por conta de um livro.

Só podia ...

Eles se encontraram, finalmente.

Como?

Ela e ele estavam lendo o mesmo livro.

Tinha que ter um livro no meio... Mas se eles nem se conheciam...

Em exemplares diferentes, uma coincidência.

Isso não explica o encontro.

Eles esquecem o livro. Ela esquece num lugar, e ele no outro. Mas, como eles estão sempre indo para os mesmos lugares, eles encontram o livro um do outro. E aí eles descobrem os respectivos nomes, perguntam aos garçons, percebem que estão procurando as pessoas que os interessam, investigam, e acabam se encontrando.

Boa!

Mas já estão apaixonados.

Engano seu. Eles pensam que estão apaixonados. Eles ainda nem se conheceram!

Mas já leram as anotações que estavam na margem dos livros.

Boa! Você está ficando ótima de trama, sabia? Isso dá até para fazer um filme. O pessoal do projeto vai adorar. Manda logo por e-mail, para eu já ir providenciando um roteirista.

Mas eu não terminei a história...

Para o roteiro ela termina aí no passeio de gôndola. Lua cheia, gôndola e canções românticas: quer final melhor do que esse?

Eles nem sequer foram para a cama...

Você, Mariana, a casta, vai levar seus personagens para a cama?

Ainda não sei... Mas não sou Mariana, a casta, coisa nenhuma, viu?

Não?

Não. E acabo de me decidir. Vou levá-los para a cama porque ...

Porque...

Porque vai ser muito bom escrever sobre essa entrega. Ela precisa de carinho. Precisa de se deixar abraçar, de sentir o calor do corpo dele, de se sentir desejada.

Já vou te avisando que carinho não é sexo.

Eu sei. Mas não vou fazer sexo sem carinho. E ele é um amante paciente. Ele vai querer contemplá-la...

Ih... cuidado com os verbos!

Mas é isso mesmo. Ele quer olhar para ela, quer ver o corpo dela em toda sua humanidade. Quer emocionar-se com suas imperfeições, comover-se com suas falhas.

E quem disse que a Mariana tem falhas?

Não é Mariana. Mariana sou eu. Minha personagem é Paula.

Mas ele a conhece como Mariana. É o nome que ele deu a ela...

Não, você está inventando isso! Eu não escrevi nada disso.

Eu sei. Mas é pena. Para mim ele deu a ela um nome, com o qual ele fantasiava.

Pára com suas sujeiras!

Não é sujeira. É desejo. Mas, continua a sua história.

Me perdi.

Você estava nas imperfeições e falhas, quando eu protestei. A Francesca não tem falhas.

Não é Francesca, é Paula! E toda mulher acredita que tem falhas. A gente se olha no espelho só para confirmar: A celulite, a bunda caída, a gordurinha, o culote.

Taí a grande diferença do homem e da mulher: nossa olhada no espelho é sempre positiva. A gente encolhe a barriga, estufa o peito, dá uma flexionada nos músculos e se vê como somos na realidade: uns deuses!

Mentira!

Verdade. A barriga é coisa que se esconde com uma boa encolhida. Você nunca surpreendeu um homem se olhando de lado no espelho? Ele encolhe a pança e sorri, satisfeito com o que vê. E sai da frente do espelho, solta a barriga de novo e passa a mão nela, já com saudade da companheira de chopada...

Cara, a descrição está perfeita. É assim mesmo. Mas vocês só vêem perfeição em vocês mesmos. Na gente estão sempre vendo defeitos.

Eu, não!

Estão sim!

Homem nem nota essas coisas de celulite, de bunda caída. Homem nota é coxa, bunda, peito. Essa coisa de se está caída ou se está levantada é coisa de gay. Tipo diferença entre azul isso e azul aquilo. Se o cara conhece cor pelo nome, pode contar que é gay. Homem sabe que existe azul claro e azul escuro. Vá lá, conhece azul marinho. É o mesmo com bunda. A gente nota bunda grande e bunda pequena. E gosta das duas. Se está caída ou levantada, não importa. O que importa é que seja, digamos, acessível...

Não acredito.

Mas é verdade.

E peito?

A mesma coisa. Peito grande, peito pequeno, redondo ou pontudo, cada qual tem seu encanto.

Mesmo caidaço?

Bem, existe um tipo de caidaço que é feio, pouco apetecível, aqueles que parecem uns sacos vazios. Mas um peito grande, daqueles fartos, felinianos, tem que ser caidaço, se não fica surreal.

Você tem um gosto...

Não é isso. A gente pode ter preferências, mas não fica procurando chifre em cabeça de cavalo. Uma mulher bem proporcionada, isso nos basta. Se os cabelos são bonitos, se o sorriso é franco, se os olhos brilham quando nos vêem, é o máximo. Se são inteligentes e boas companheiras, a gente cai de quatro.

Se é tão fácil te agradar, porque é que você nunca mais casou?

Talvez por isso mesmo. É muito fácil me agradar...

Seu galinha!

Não é verdade. Você está sendo injusta.

É verdade. Aliás, eu nunca conheci uma namorada sua. Depois que você se separou da Vera, nunca vi você saindo com ninguém...

E eu nunca vi você saindo com ninguém também.

É porque eu não saio. Não estou interessada. Sou da raça mais complicada que existe na terra: mulher intelectual.

É. Isso complica. Sabe que uma vez eu li uma pesquisa que dizia que quanto mais uma mulher estuda, menos namorados ela tem?

Eu li essa bobagem.

E?

Você quer mesmo saber ou só quer me irritar?

Toquei no seu ponto fraco?

Não, é que eu fico puta quando as pessoas não entendem as manobras que são feitas contra as mulheres! Será que você não entende que isso só desestimula as brasileiras de estudar? Mulher brasileira acha que precisa de homem para ser feliz. E é capaz de largar os estudos com medo de não conseguir mais namorar. Pois fique sabendo que mulher não precisa de homem para nada, viu? E quanto antes elas descobrirem isso, melhor!

Bem, para alguma coisa elas precisam.

Não precisam não! Homem é totalmente dispensável!

Mas para se reproduzir...

Nem para isso. A ciência já avançou tanto que dispensa o espermatozóide.

E para transar...

Me desculpe, mas isso também se resolve sem necessidade de homem. Viva a tecnologia! Sinceramente, o reinado do macho já era!

Mas qual é a graça de uma transa com um objeto inanimado?

Por que você não pergunta isso para aquele cineasta francês que fez um filme sobre um homem que trocou a mulher por uma fêmea de silicone?...

Que filme é esse?

Ah, não me lembro do nome. Mas você já assistiu. Passou até na TV. Olha, quer saber? Estou cheia de trabalho, e já que você não quer saber da transa da Paula e Francesco, acho melhor desligar. Até qualquer dia!

Não desliga, essa história me interessa!

Mas a mim não. E tenho mais o que fazer. Depois a gente se fala!

Depois quando?

Não sei. Depois.

Monday, November 19, 2007

Dia da bandeira!


Gente, tinha me esquecido que havia um dia da bandeira! E olha que eu adoro nossa bandeira, tão diferente das listras e brasões usuais. Nossa bandeira é visionária, coloca quase que toda a Via Láctea dentro dela. O verde é das nossas florestas, me ensinaram. O amarelo de nosso ouro. O azul é de nosso céu, e a partir desses ensinamentos fiquei achando que o céu do Brasil tem um azul só dele, especial. Além do mais, a nossa é a única bandeira com horóscopo! Aposto que algum astrólogo, pela posição das estrelas na bandeira, deve poder fazer vaticínios e predições. Mas, o mais importante, ela inspirou versos lindos, exemplares:
Auriverde pendão da minha terra
que a brisa do Brasil beija e balança
estandarte que a luz do sol encerra
e as promessas divinas da esperança...
Castro Alves é demais! Viva a bandeira! Viva a poesia!
E viva minha novela! Vou respeitar meus três leitores e deixar de dizer novelinha. Até porque está meio compridinha, né? Mas eu também gosto dela, acho-a bem divertida e até inteligente...
Desculpe, Amauri. É você mesmo, um Amauri bem brasileiro, desses amigos que a gente só pode mesmo fazer no céu. Pois foi voando pelo nosso céu, de um azul especial, que nos conhecemos.
Vamos ao novo capítulo. Mas, atenção: este é X-Rated! Mas procurei não ser muito vulgar.

Capítulo VIII

Até quando você vai deixar esses dois se desencontrando?

Já disse que eles não vão se encontrar.

Mas eles precisam. Eles são almas gêmeas. Eles se completam. Ele é um artista, precisa dela para trazê-lo para a realidade. Sem ela, ele nunca vai ser ninguém.

Claro que vai. Ele tem escrito os poemas dele, poemas da solidão. Se ele a encontrar, os escritos dele vão desandar...

Mas ele sofre. E ela também sofre. Para que criar personagens que só vão ficar sofrendo todo o tempo?

Não, eles não estão sofrendo. Eles estão...vivendo. A vida é assim, cada um na sua. Essa coisa de “encontro” não existe. A gente se esbarra, mas cada um tem a sua vida.

Caraca! Você é impiedosa. Não faz uma concessão ao romantismo!

Não estou escrevendo novela, estou escrevendo uma história de amor.

Mas onde está o amor, se eles nunca se encontram? Desta vez achei que eles iam, finalmente, se encontrar. Ela o avistou na basílica, correu atrás dele, e você deixou que ele escapasse. Isso é maldade com os leitores. E com os personagens!

Não enche, Fábio. Acho que está ficando muito bom, assim como está.

Prá falar a verdade, não acho não. Está muito literário. Esse tipo de história não vende. Era preciso que eles se encontrassem, fizessem muito sexo, delirassem um pouco por conta de drogas ou bebidas...

Eu não escrevo assim.

E por isso seus livros nunca chegam a best-seller.

Touché!

Não estou agredindo, estou querendo que você fique mais assim...um pouco menos...

Mais...

Moderna.

Não era isso que eu ia dizer, mas era um pouco assim nesse sentido: mais próxima do público.

Eu posso escrever um capítulo com ele pensando em levá-la para a cama...

E por que não o contrário? Ela pensando em levá-lo para a cama, ia ficar mais verdadeiro.

Homem é que está sempre pensando em levar a mulher para a cama.

Vai me dizer que mulher não pensa nisso?

Pensa, mas a minha personagem não pensa. Ela idealiza o cara.

E daí?

E ele é um poeta. Ninguém pensa em levar um poeta para cama!

De onde você tirou essa idéia?

Não combina, entende? Um poeta revirando os olhos de gozo, suando e ...

E o que?

Você sabe. Metendo. Dando estocadas. Penetrando. Poeta não pode ser assim ativo. Poeta contempla. Fala coisas bonitas...

E então? Ela pode pensar nele usando a língua...

Sua mente é podre!

O que é que eu disse? Você é que imaginou.

Posso até ter imaginado, mas, daí a escrever, há uma longa distância. No máximo uma cena com ele imaginando como seria possuí-la. Ele se perdendo por entre os caminhos...

Cafona!

Mergulhando nos seus abismos...

Ridículo!

Metáforas delicadas...

Péssima transa. Põe ele deitado, se masturbando, cuspindo na mão para deslizar mais fácil...

Pára!

... a outra mão acariciando o saco...

Não quero ouvir!

Descendo até mais atrás, para fazer um fio terra...

Lá! Lá! Lá! Lá.

Sentindo o sangue esquentar, enquanto ele acelera o ritmo...

LA! LA! LA!

Olhando o jorro de esperma, que chega quando o pau dele começa a pulsar, e que se projeta longe enquanto ele soluça o nome dela...

Ele nem sabe o nome dela!

O nome que ele dá a ela.

E qual é o nome que ele dá a ela?

Mariana.

Esse é meu nome!

E daí?

Daí que eu vou desligar. Não achei graça nenhuma em você tirar sarro de mim. Você, às vezes, me tira do sério.

Sunday, November 18, 2007

Nada como um dia de sol...

Nada como um dia de sol após uma noite de lua crescente e tímida. Ontem à noite tive um programa que merecia todo um post no blog: um concerto particular. Fui à casa de Manica, ou Teresa, ou Terpsícore, uma fada musical e acolhedora que, juntamente com seus amigos, tocou do clássico ao popular com elegância e paixão. A noite foi dedicada a Astor Piazzola, mas não faltaram Villa-Lobos e Brahms, Beatles e Chico Buarque, Pixinguinha e Nat King Cole. De "platéia" só nós três: Teka, Fafá e eu. Todos os demais eram músicos, mas não eram amadores, eram profissionais do mais alto escalão. E acho que consegui um professor de piano, se é que ele não vai se arrepender de tomar uma aluna tão crua e enferrujada como eu. Ah, meu lindo piano vai voltar a ter voz, minha casa vai adquirir uma alma!... Hoje, cheia de energia, fui para a rua antes do almoço e só estou voltando agora. Como esse blog tem um relógio totalmente desencontrado da minha vida, comunico que, apesar do que ele disser, estou escrevendo às 10:45 da noite de domingo. Acreditem em mim, não na máquina.
Bem, agora vamos a mais um emocionante capítulo de minha novelinha efervescente. E, com sorte, consigo mais uma foto de Veneza.

Capítulo VII

Caminhava apressada pela praça. Não tinha razão para se apressar, mas ela não sabia como se comportar de outra maneira. Precisava acreditar que seu tempo era precioso, que não podia desperdiçá-lo em caminhadas lentas e sem propósito. Mesmo de férias ela planejava o dia de maneira a não perder tempo, dividindo-o em fatias racionais, preenchidas por atividades. Naquela manhã tinha planejado uma visita à basilica de São Marcos. Fizera o seu dever de casa. Sabia que esta era a terceira igreja a ser construída no local. A primeira, de 832, construída pelos mercadores venezianos que haviam roubado as relíquias de São Marcos da cidade de Alexandria, tinha sido destruída pelo fogo. A segunda dera lugar, no século XI, à nova Basílica, tão grandiosa que exigia várias visitas antes de esgotar seus tesouros.

Tinha planejado chegar na Igreja às onze e meia da manhã, para poder observar os mosaicos em toda sua glória. Nessa hora, quando a igreja está totalmente iluminada, o esplendor dos desenhos dourados se desvela ante os olhos maravilhados de quem não sabe se olha para os tetos, as paredes, ou o próprio chão. Procurou com os olhos o losango, em frente à entrada principal, onde o imperador Barba Ruiva se viu obrigado a fazer um tratado de paz com o Papa Alexandre III. Andou para lá, sem perceber que o homem magro e alto de olhos fixos no teto, dava passos para trás que o levariam ao mesmo lugar para onde ela caminhava. Seu encontro parecia inevitável, mas a entrada de um grupo de turistas alemães, caminhando com passos pesados e cadenciados tirou o homem de seu embevecido contemplar, e o fez mudar a direção. Ele atravessou o pórtico, a passos largos, mas sem pressa. Ela desafiou os corpos maciços, tentou se posicionar sobre o losango e fazer as pazes consigo mesma, mas a guia parecia determinada a expulsá-la dali, a fim de mostrar o lugar a seus conterrâneos, e ela capitulou, cedendo o lugar, e afastando-se fustigada pelos sons guturais que se amenizavam com os efeitos do eco.

Optou por subir os precários degraus que levam ao museu da Basílica. Lá de cima, do balcão onde, no passado, os doges assistiam as cerimônias festivas na praça, ela poderia ver de perto as réplicas dos cavalos de bronze que enfeitam a fachada da igreja. Os originais, que haviam sido roubados do hipódromo de Constantinopla, já não ficam mais expostos ao tempo, e são exibidos numa sala ao fundo do museu. Da galeria, a vista que se podia descortinar do interior da basílica era impressionante, e ela se deixou ficar ali por instantes, quando percebeu a cabeleira negra e revolta que parecia flutuar sobre o chão desenhado da igreja. Aquele vulto masculino parecia a materialização de seus devaneios, e ela, com a respiração suspensa, atravessou outra vez o espaço e foi para o balcão, tentando descobrir para onde ele se dirigia. O homem saiu da Igreja e parou, parecendo ofuscado pelo sol a pino. Depois seguiu em frente, olhando por sobre o ombro esquerdo para o Campanile e para as longas filas de turistas que aguardavam para subir no elevador.

Sem pensar no que fazia, ela desistiu de ver os cavalos de bronze originais e desceu as escadas, na esperança de descobrir para onde ele seguia. Chegou na praça um tanto sem fôlego, segurando com a mão úmida a alça da grande bolsa que carregava atravessada nos ombros. Procurou a cabeleira escura, mas não conseguiu distingui-la no mar de pessoas que tomavam a praça. Percebeu que o local em que se encontrava parada era o mesmo onde, há muitos anos atrás, tirara uma fotografia com os braços e ombros recobertos de pombos. Notou, então, que eles haviam desertado a praça. Seguramente os venezianos haviam descoberto algum meio de afastar as aves dali.

Ela esqueceu a urgência que sempre a acompanhava e se deixou ficar ali, imersa numa sensação de perda. Queria os pombos de volta, com seus arrulhos e seu incessante bater de asas. Neste instante, os mouros tomaram vida e, cansados, bateram o sino, avisando que era uma hora.

Saturday, November 17, 2007

Ficou linda, não é?


Estou tão orgulhosa de minha foto!... Que não é minha, claro, nem estive lá em Veneza recentemente. Um dia hei de ir, e fazer as coisas que eu digo que a minha personagem andou fazendo. (E ver se consigo fazer as coisas que a Eugênia fez, pois acho que ela se divertiu muito mais que minha pobre Paula.)
Bem, vamos a mais um capítulo?
Antes, um agradecimento ao Joel, da Voz de Santiago. Recebi ontem o jornal com a entrevista, e posso garantir que essa foto que publicaram foi a melhor foto que tirei nos últimos tempos. Se eu conseguir escaneá-la, vou colocar aqui, para todos vocês verem e mandarem parabéns ao Joel e sua fotógrafa maravilhosa. Gostei muito da entrevista, que me fez parecer inteligente. Ele e o Leonardo Lichote, do Globo, fizeram de minhas respostas assustadas e confusas um texto inteligível e claro. Obrigada aos dois.
Antes do capítulo: esta é a Estação de Santa Lucia, com os vapporetti em frente. Foi esse o cenário do primeiro texto da Paula..

Capítulo VI

Fala!

Como você sabia que era eu?

Quem mais sabe o telefone do meu hotel?

Tá zangadinha?

Estou irritada com você. Esta manhã você me atacou de todos os modos. Você diz que eu te trato como um ralo de pia, mas você é que despeja tudo em cima de mim, com violência. Passei o dia arrasada.

Não saiu?

Saí.

Sozinha?

Não.

Com quem? Com o japonês?

E se fosse?

Dizem que o dos japoneses é muito pequenininho.

Grosso! Você ligou prá isso? Vou desligar.

Não desliga, não. Liguei prá pedir desculpa.

Não parece.

É que não sei bem o que dizer.

Que tal dizer: você me desculpa de ter sido um grosso, escroto e mal-educado?

Pega leve!

Estou pegando levíssimo!

Você tem razão em ficar brava. Não sei o que me deu. Estava nervoso. Acho que foi porque o Botafogo perdeu.

Bem, se você vai ficar assim toda a vez que o Botafogo perder, ninguém mais vai te aguentar...

Não começa. Olha que eu liguei na maior boa-vontade. Mas ficar zombando do Fogão não dá.

Então tá. Você já pediu desculpas. Boa noite.

Mas você não disse que desculpava.

Porque não desculpei. Acha que é assim?

Escreveu mais?

Não. Passei o dia todo fora. Acabei de chegar.

Fazendo o quê?

Fui ao cemitério.

Eu sabia que você ia lá!

Sabia como?

Era natural. Você escutou as Quatro estações, de Vivaldi.

E o que isso tem a ver com minha ida a San Michele? Vivaldi nem está lá no cemitério! Pelo menos, acho que não.

É, mas a música fez você lembrar de Concerto Barroco, do Carpentier. E aquele piquenique em cima dos túmulos. Você é bem capaz de ter levado um sanduíche para comer entre os túmulos!

Como é que você sabia disso? Eu não te falei...

E precisa? Até parece que eu não te conheço. Você adora esse livro.

Tem razão.

Eu sabia que seu próximo destino ia ser o cemitério. Como também sei que sua ida ao Café Floriano vai provocar uma visita ao Museu Fortuny, ou vice-versa.

Virou médium?

Não, mas é fácil deduzir: Vai ser o lado proustiano da viagem. Você adora Proust. Proust frequentava o Floriano. E endeusava os tecidos de Fortuny. E você vai querer aproveitar para fazer ...pesquisa de campo! Era isso a que você estava se referindo, não é?

Sabe de uma coisa?

O quê?

Nada, não.

Fala, vai.

Por que é que essa história de pesquisa de campo te incomoda tanto?

A mim? Tá louca? Incomodar por quê? Olha, tenho que corrigir provas. Vai dormir, e sonha comigo, viu?

Só se eu quiser ter pesadelo...

Não seja mazinha. Já te pedi desculpa. E estou doido para saber do resto da história. Estou gostando muito desse começo. Boa-noite, Desdêmona.

Friday, November 16, 2007

Quase uma fotonovela...


Mais um capítulo, desta vez com foto, se os deuses da internet permitirem. Antes do texto, um obrigada carinhoso para o Luciano. Estou com saudades, viu? Foram ótimos os nossos "dezesseis" jantares no Dezasseis. E, para a Eugênia, uma palavrinha só: Ma-ra-vi-lho-sa! Você tem razão, minha amiga, a realidade bate de longe a ficção! Que show! Quero fotos, quero mais detalhes. Não deixem de ler os comentários de Eugênia, que fazem minha história ficar totalmente sem graça...
Então, vamos ver se consigo colocar a foto, e depois mais um capítulo:

Capítulo V.

Que é que você achou desse início?

Quer minha opinião sincera?

Lógico!

Gostei. Gostei muito mesmo. Tem esse lance do desencontro, o leitor já fica torcendo para que eles se descubram, logo.

Não acho que eles vão se encontrar...

Em algum momento eles têm que se encontrar. É uma história de amor.

Mas é uma história de amor moderna. Não tem que “acabar bem”. Na verdade, talvez nem comece. O mundo de hoje é um mundo de desencontros e perdas. Tudo conspira contra os amantes: a velocidade, as inúmeras variáveis da vida. A gente tem muitas solicitações, muitas alternativas. É muito difícil fazer os personagens se encontrarem.

Difícil, mas não impossível. Afinal, as pessoas vivem se esbarrando por aí.

Não adianta esbarrar. Por exemplo, fui a um concerto no La Fenice...

E como está o teatro? A reforma ficou boa?

Ficou ótima, igualzinho ao que era antes, um primor. Acho que o nome do teatro é profético: uma fênix renascendo das próprias cinzas.

E mais de uma vez.

Você quer me ouvir, ou quer ficar falando de incêndios?

Desculpe. Fala aí, vai.

Fui ao tal concerto...

Qual era o programa?

Vivaldi, As quatro estações. Era um concerto para turista: Il prete rosso e sua maior composição.

Coitado do Vivaldi. Se ele estivesse aqui na época da repressão ia ser preso como subversivo – o padre vermelho, desencaminhando órfãs...

Desisto!

Não, desculpe. Fala.

Você não está nem um pouco interessado...

Estou.

Mas eu já esqueci o que ia falar.

Você ia falar de alguma coisa que aconteceu no concerto.

Pois é. Fui para lá, pensando que talvez pudesse encontrar alguém interessante, alguém que me despertasse interesse, igualzinha a minha personagem, entende?

Hum-hum.

Mas não encontrei ninguém. Centenas de pessoas, e eu não “esbarrei” em ninguém! Na verdade, até esbarrei. Do meu lado estava sentado um japonês que puxou conversa comigo.

Ele te disse que era japonês?

Não. Mas tinha cara de japonês.

Como é que você sabe? Podia ser norte-coreano...

Norte-coreano não viaja.

Filipino...

Chinês, tailandês, o que é que importa?

Viu? Você cortou o barato do cara. Não fez as perguntas-chaves. Você olhou e só viu o que queria ver: um estereótipo que você já trazia dentro de si mesma.

Acho que você tem razão.

Claro que tenho razão! E o resto?

Que resto?

Do texto. Vai me dizer que você passou três dias e só escreveu isso?

Andei ocupada.

Sua ocupação não era escrever o romance?

Estou em...pesquisa de campo...

Ei! Essa me pegou de surpresa. O que é que você está querendo dizer?

Não estou querendo dizer nada.

Mas eu estou querendo saber. Quando é que essa mudança ocorreu? Bem que eu notei que sua voz estava diferente, hoje.

Diferente, é? Como assim, diferente?

Bem, prá começar, sem esse tom chorão que você sempre tem.

Jura que eu tenho um tom chorão? Eu nunca notei. E você nunca comentou isso antes.

Você está sempre falando assim, como criança manhosa, um tom trêmulo na voz. E ninguém pode te contrariar que você explode. Fica agressiva, grosseira!

Estamos falando de mim, ou de você?

Eu sou um santo. Amigo exemplar. Ouvidos abertos como o ralo da pia, para você despejar toda sua sujeira, toda e qualquer merda que você pensa! Já reparou que você não tem censura comigo? Fala tudo o que te vem à cabeça, e eu tenho que ficar aqui escutando...

Tem não. Você escuta porque quer.

Escuto porque você me chantageia, se faz de frágil, chora.

Fábio...

Tá vendo? Já está chorando! Eu nunca posso dizer nada que você abre o berreiro.

Não estou berrando. Estou chorando silenciosamente, com classe. E contra a vontade! Você pensa que eu queria estar chorando? Mas você me magoa, cara. Você ataca na jugular! Eu sempre confiei em você, me mostrei assim por inteira, nunca suspeitei essa tua crítica. Ai, estou me sentindo péssima!

Desculpe. Desculpa aí, vai!

Como é que eu posso te desculpar? Você pensa que é assim? Diz o que quer e sai na maior, bastando dizer: “desculpa, vai.”... Você destruiu o clima de confiança...

Pára com isso, porra! Você me pegou num mau dia. Você acha que só você tem problemas? Acha que minha vida é só escutar você? Que eu não posso ter sentimentos próprios? Quando você está contente, tenho que me alegrar com você, quando você está na fossa, tenho que simpatizar, te animar. E eu? Não tenho vez?

Porque você não falou logo? O que é que aconteceu?

Não aconteceu nada. Já passou.

As coisas na escola andam bem?

Sempre na mesma.

Bateu com o carro?

Não. Nem bateram em mim.

Ah, é. Esqueci que você nunca bate. Os outros é que batem em você. Está doente?

Não, já te disse, não é nada. Acordei de mau humor, é tudo.

Então desconta em mim, vai! O que é mais que te incomoda em mim?

Sua incapacidade de terminar uma conversa! Sabe quanto você deve estar pagando por essa ligação?

Estou pagando com o meu dinheiro!

Que, por acaso, eu te ajudei a descolar...

Tudo bem, você indicou meu nome para o projeto, mas sou eu que estou ralando aqui, sozinha. Pensa que é fácil, largar tudo e passar um mês numa cidade desconhecida?

De férias e reclamando!

Férias?

Fazendo pesquisa de campo...

Isso te incomoda? Você nem sabe a que estou me referindo.

Não sei e não estou interessado. Na verdade, nada me interessa em você. Prá ser sincero, quando indiquei teu nome foi para me dar umas férias.

Cara! Você está insuportável! O que foi que aconteceu?

Nada, já disse.

Então é melhor eu desligar.

Também acho.

Mas não queria desligar assim, nesse clima.

Você está perdendo um tempo precioso. E sua pesquisa de campo?

O que é que tem? Isso está te incomodando?

Não.

Mas parece.

Assim não dá. Chega!

Thursday, November 15, 2007

Feriado de mim mesma

Hoje passei um dia assim, meio que anestesiada. Esses dias de chuva, muito nublados, me deixam meio deprimida. Mas hoje não foi dos piores dias, só que não produzi nada do que contava fazer. Só mudei tapetes de lugar, assisti filmes na TV, com preguiça de enfrentar a chuva e ir ao cinema. Não li, não escrevi, não telefonei...
Mas aqui estou eu, colocando mais um capítulo de minha historinha de amor...

Capítulo IV

Teria sido preciso atravessar a minúscula ponte para poder encontrá-lo, mas ela estava cansada, e os degraus a desanimaram. Procurou com o olhar um lugar onde pudesse se sentar. Atrás de si, uma minúscula pracinha exibia uma fonte, que murmurava sempre o mesmo segredo. Ela pensou em sentar-se ali, com os pés mergulhados na água fria e buliçosa, mas lembrou-se de ter lido, em algum lugar, que as fontes eram protegidas por uma legislação muito rigorosa. Aquela cidade, nascida das águas, poderia ilustrar o suplício de Tântalo: rodeada de água por todos os lados, sofria de escassez de água potável.

Pensou em como Veneza era cheia de ironias como essa. Tinha sido fundada para evitar a vinda de invasores, e hoje suportava hordas de turistas que a invadiam diariamente, sem piedade, e ocupavam seus cafés, seus teatros, seus museus, além de agitarem as águas de seus canais com seu incessante ir e vir. Outra ironia era que a cidade, que tinha ficado famosa pela biografia de Casanova e por seus licenciosos Carnavais, tinha sido o berço de vários Papas.

Divisou um pedaço de mureta plano o bastante para poder servir de assento e ali se acomodou. Descarregou no chão, ao seu lado, a bolsa pesada, e abriu as páginas muito manuseadas de seu guia, para se decidir sobre seu próximo destino.

Alheia aos passantes, não reparou no homem alto e moreno, com os cabelos mal cortados que se rebelavam contra a brisa que começava a soprar. Quase todas as pontes em Veneza são arqueadas, algumas são pequeninas escadarias que sobem e descem, exigindo um constante exercício. Com esse formato peculiar, as pessoas parecem sair do solo, num nascimento para o alto: primeiro os cabelos, depois o rosto e os ombros, braços e troncos, e, finalmente, as pernas e os pés, em constante movimento. No topo da ponte, ele hesitou por um momento, antes de dar meia volta e começar a desaparecer aos poucos: primeiro os pés e as pernas, em seguida o dorso, e finalmente a cabeleira, negra, onde se destacavam os primeiros fios prateados.

Ela terminou a leitura e olhou na direção da ponte, com um suspiro. Pensava em como lhe seria agradável encontrar alguém interessante, com quem simpatizasse, e que lhe servisse de companhia nos dias que tinha para explorar a cidade. Em seu devaneio pensou que preferiria alguém do sexo masculino, que falasse uma das línguas em que ela podia se comunicar. Foi compondo, sonhadora, uma figura forte, de um homem magro e alto, pernas compridas, quadris estreitos, de aparência um tanto ou quanto descuidada, e olhos sonhadores.

O som dos sinos na igreja próxima a sobressaltou. Logo os vários campanários ecoavam as mesmas horas, avisando-a de que era tempo de se apressar, para não perder a performance em que músicos, vestidos com roupas do século XVII, tocariam um Concerto Barroco para turistas calçados de hediondos sapatos confortáveis e coloridos, carregados de mochilas, com o pensamento na hora do jantar que se aproximava.

Guardou o guia depois de uma última olhada no mapa, atravessou a bolsa nos ombros e recomeçou a caminhada. Finalmente atravessou a ponte, mas, do outro lado, só a aguardavam as margens vazias do canal.