Monday, March 07, 2011

Aniversários…

Comemorar o aniversário de quem já se foi, tarefa tão difícil. Onde depositar os beijos que ainda guardo? Em que braços me perder, ou dançar, ou me apoiar? No castelo de lembranças, fugazes como nuvens, vejo as mais diversas figuras, todas jovens, tão jovens, tão vivas.
Lá fora, o Carnaval embaralha minhas ideias. A música começa cedo, desafiante. Meus olhos se desviam da alegria, mas os ouvidos são violentados. Violas? Guitarras? Cavaquinhos? Cornetas e trombones? Surdos? Tudo se mistura numa indistinta melodia que se repete, se repete, por horas. Uma angústia me toma por inteiro: como me refugiar? Onde encontrar o silêncio no meio da alegria generalizada?
Vi a notícia de um retiro, patrocinado pela Igreja. Antes retiros eram … bem, na falta de melhor adjetivo, retirados. Distantes, silenciosos, as pessoas se recolhiam e meditavam, não no sentido atual do termo, que tomou coloridos zen budistas, mas no sentido de pensar na vida, de remoer mágoas até que, transformadas numa farinha fina, pudesse ser sacudida, como poeira. Mas o retiro que anunciam é uma festa: cantos, atividades infantis, jogos… saímos de uma agitação e caímos em outra.
Viajar poderia ser uma solução, caso os carnavalescos contumazes não viajassem também. Para onde vamos, encontramos um grupo munido de tamborins e altofalantes que nos incitam a "requebrar as cadeiras" ou "sacudir o popozão". Os refúgios antigos e mais simples, como as livrarias e os cinemas foram tomados por turbas agitadas, cheias de crianças que, temerosas de mascarados, vem expandir sua vitalidade nos corredores de shoppings, entre as mesas de restaurantes, pedindo livros e novas histórias a pais exaustos (alguns até contrariados, por estarem perdendo a festa).
É Carnaval, eu sei. Não reclamo. É o reinado de Momo, da Carne, da Alegria… Mas nem os mortos mais são respeitados. No desfile de ontem, a morte esteve presente, fazendo gracinhas, rebolando como se fosse uma vedete. Levar a morte para a avenida pode ser uma maneira de torná-la menos temível, mas nada há de fazê-la menos definitiva. Não há contorno, nem requebro, nem desvio.
Morte é morte, e nós a carregamos dentro de nós, vamos tecendo nossa mortalha lentamente, amorosamente. Essa é uma das maiores ironias disso a que chamamos de vida. "Viver é morrer um pouco a cada dia", diz o lugar comum. Mas, ao mesmo tempo, como é doce a vida! Como cada gomo dessa fruta nos satisfaz, mesmo quando nos engasga com alguma semente ou com um inesperado dissabor. Só que às vezes nossa vida parece terminar antes do prazo: o corpo se arrasta respirando e andando, ou mesmo entrevado, enquanto a alma que nos habitava se foi, voluntária ou involuntariamente. A gente se sente fechado numa sala de espelhos, se vendo refletido em mil imagens, e sabendo que não é nenhuma delas.
De imagens quero apenas aquelas em que apareço acompanhada, amparada, amada. O que fazer, se agora me vejo sozinha? No meio do bloco, dos cantos, dos risos, dos mais de mil palhaços, solto um grito silencioso de socorro, disfarçado em "feliz aniversário!" Onde você estiver, não deixe que minha tristeza empane seu brilho. Vou me cobrir de purpurina e brilhar também. Brilhar no escuro de mim mesma, sorrindo apesar de tudo, escondendo o rosto numa máscara negra que, apesar de seus esforços, não me mata a saudade.
E, no entanto, a lembrança de que houve um tempo em que esse era o dia mais feliz do ano para mim, me faz sorrir sinceramente. É com esse sorriso que aceno uma bandeira branca e digo, bem baixinho, feliz aniversário, eu peço paz!…

2 comments:

Tereza said...

"Do not go gentle into that good night. Rage, rage against the dying of light" são versos de Dylan Thomas, o escritor galês que além de ótimo poeta tem prosa de altíssimo nível. Minha dissertação de Mestrado foi sobre ele há mais de 30 anos e continuo me emocionando com sua poesia. Ao ler sua postagem, quis deixar essas palavras com você. Um grande abraço e meu carinho, T.T.

Lucia B said...

T.T.
Adorei a lembrança. Não conheço quase nada de Dylan Thomas, mas sei que ele (e Rimbaud) é uma influência importante nos poetas malditos contemporâneos que são os roqueiros.
Estava com saudades suas, mas não tenho seu imeio, nem telefone… Vc está no Facebook?
Agora vou correndo procurar o poema de DT, pois vou levar para as minhas proustianas. Acabei de traduzir, a pedido de Rachel, alguns poemas da Adelaide Crapsey, sobre a morte. Mas são uns poemas meio deprê. Este será a sacudida que elas vão apreciar. Recomenda alguma tradução? Beijo
L