Sunday, February 27, 2011

Scliar

Hoje perdemos uma pessoa admirável, o nosso querido Moacyr Scliar. Gostava de ficar escutando suas histórias, pois ele era um exímio "contador". Ele, modesto, dizia que tinha aprendido isso com o pai. E até contava alguns casos do pai. Mas o que ele contava mesmo bem eram histórias da mãe: sabe como é, mãe judia, em seus extremos amorosos, parece mesmo obra de ficção. E a gente ria, escutando ele contar coisas que deviam remexer o mar de saudades que ele carregava dentro de si. Outras histórias eram sobre o filho, o único filho, que não gosta de ler (segundo ele contava, talvez para fazer graça) e as estratégias que ele inventava para obrigar o filho a ler. Só que eu ficava pensando que, se o Moacyr Scliar fosse meu pai, eu provavelmente não gostaria de ler também, pois quem não quer ficar escutando alguém nos contar histórias e nos divertindo em conjunto ao invés de ir para seu quarto e ler sozinho? Quem tem uma pessoa que conta histórias em sua casa, e conta bem histórias, só passa a ler quando o repertório do contador se esgota. O problema é que, com sua criatividade, as histórias de Scliar iam se multiplicando, sempre novas, sempre saborosas. Compreendo seu filho, e sei que agora ele há de procurar nos livros os ecos de sua voz, e encontrará consolo na leitura.
Vai em paz, Scliar, e que não te faltem histórias para contar e escutar pela eternidade. Nós sentiremos sua falta, mas honraremos sua memória e sua generosidade com nossas lembranças.
Desculpem andar escrevendo pouco aqui no blog, mas estou soterrada de trabalho e meio paralisada de tanta desorganização. Se eu sobreviver, voltarei com força total depois de Abril, o mais cruel dos meses! Quem sabe até pronta para dançar um tango?

2 comments:

Guilherme Ramos said...

Oi, amiga...

Soube, hj, da "viagem" de Scliar. Sabia que alguém do talento dele compor o grupo de contadores de histórias celestiais.

Sua histórias, há tempos, já ultrapassavam o limite do simples mortal. Deus iria querer ouví-las também...

Um abraço,

Saudades, sempre,

Guilherme.

Mara Senna said...

Linda e merecida homenagem, Lucia! Tomei a liberdade de transcrevê-la no meu blog, com o devido crédito a vc , claro. Um abraço