Wednesday, October 20, 2010

Vergonha

Às vezes me envergonho de sangrar tão fácil.
Estou me despedindo de Rimbaud, terminando com minhas alunas a leitura de Rimbaud, o filho de Pierre Michon. Um livrinho curtinho e denso que nos serviu de base para explorar a poesia e a vida do poeta. Por conta disso, fui ler as cartas que ele escreveu e que estão publicadas pela Topbooks, na tentativa, tantas vezes ensaiada por tanta gente boa e má, de compreender seu inexplicável silêncio. Claro que não faço ideia da razão de seu silêncio. E lendo suas cartas, escritas de seu "exílio" na África me admiro: por que escrever cartas depois de escrever os poemas que tinha escrito? Por que voltar a ser homem depois de ser um semideus? Mas, aquele que escreve poemas e palavras geniais pode ser considerado outra coisa que não um ser humano comum? Não precisa ele viver num corpo de carne e osso, tendo que alimentá-lo, banhá-lo, vesti-lo de maneira adequada? Poeta e gênio, não precisa ele de ganhar a vida, de manter a vida, de pensar na velhice, ou preocupar-se em aprender uma nova língua, em sobreviver entre pessoas que são regidas por leis tão diferentes das que o governam?
Cartas discutindo o preço, pleiteando pagamentos, tentando escapar de prejuízos e regularizar situações me incomodaram. Mas o que me fez escrever aqui no blog é ler suas últimas cartas, nas quais descreve os males que o afligiram e o levaram à morte.
Sangro fácil, qualquer coisa me fere, mas eu não sou Rimbaud. Imagino, então, esse alguém, com uma sensibilidade tão maior que a minha, sofrendo provações tão superiores às minhas. Medos, injustiças, dores insuportáveis e a necessidade de se aceitar como um ser vivo. Sua última viagem pelo deserto, carregado numa liteira que ele mesmo teve que desenhar, donde não pode sair nem para ir ao banheiro. Depois, já com a perna amputada, seu desespero com as muletas, seu medo de ser derrubado por alguma pessoa descuidada… Só lendo as cartas!
Abandonar a última esperança, abdicar dos últimos sonhos. Fazer a vontade da irmã carola e confessar-se, e talvez até crer, com a intensidade com que fez tudo na vida.
Tenho vergonha de sangrar tão fácil! Minhas dores me transpassam como as espadas que atravessam a imagem de N. S. das Dores e provocam sangramentos hemofílicos que não estancam, que me debilitam. Mas talvez a minha dor seja, afinal, comparável com a de Rimbaud, e com a de todos os outros sofredores: é a dor de estar viva.

2 comments:

Tereza said...

Compreendo tudo isso, toda essa dor. Já senti até dor de experimentar um grande momento de felicidade. Vou ver se encontro essas cartas para ler (vou lendo suas postagens e fazendo uma lista de coisas para ler: você faz tudo parecer importante, você faz parecer que se não lemos algo, estamos perdendo muito, e isso é mesmo muito interessante. Com essa coisa de literaturas de língua inglesa, fui neglicenciando as outras, fora os grandes clássicos). Acabou de sair um livro que abriga os últimos poemas de escritores à beira da morte. Tenho um amigo antropólogo com doutorado sobre o tema da morte. Vida e morte. Andam mesmo de braços dados, acho. Mas sabe o que acho que é a grande morte? Nunca ter vivenciado um grande amor. Beijocas, T.T.

Amauri said...

Olá Lucia B.
Entendo sua dor e concordo com a Tereza ; A grande morte é nunca ter vivenciado um grande amor. Nao é seu caso.
Mas voltando ao seu texto - A dor nao é de estar vivo(a) e sim de nao estar vivendo essa dádiva de ter a vida.
Para nossa felicidade voce esta viva e nos desperta para a vida a cada texto.
Ufa! chega de falar de vida, adorei a ideia de deixar livros por aí, vou deixar de ser egoista guardando os livros mas sim deixa-los para que outros se deliciem com as maravilhas que saem destas geniais cabecas.
Grande abraco. Am
(Nao critique meu teclado é spanish)