Friday, March 26, 2010

Sumiço II

Não sou muito dada a sumiços, uma vez que adoro escrever. Este meu bloguinho é uma fonte de prazer, um lugar onde converso com amigos "de verdade" e "imaginários". Quando era menina, filha única, vivia criando minhas narrativas, onde interpretava personagens que criava. Não me lembro de muitas destas criações, que sempre variavam, só uma ou outra, como a "menina pastora". Tudo começou quando encontrei uma espécie de bengala (na verdade era um suporte de cabide de um armário). Eu tinha uma bola de encher, multicolorida, e passei a "pastoreá-la", com a bengalinha, pela casa. Ia para cima e para baixo, conduzindo minha ovelhinha, desviando-a dos móveis e paredes de minha casa, incentivando-a com gentis (nem tanto) toques de minha bengalinha, transformada em cajado. Minha avó aceitava estas minhas brincadeiras sem comentar. Minha empregada já estava convencida de que eu era maluca, e essa brincadeira foi a confirmação de seu diagnóstico. Ela foi uma das principais agentes para manter minha autoestima embaixo. Toda a vez que falava comigo, era de maneira a ressaltar alguma qualidade negativa que eu por ventura tivesse. Será que ela fazia isso na frente de meus avós? Sinceramente, não sei. Mas ela passava por mim e sussurrava um "doida", um "cara de lua", e me tratava meio aos trancos. Não acho que ela não gostasse de mim, ao contrário, acho que ela gostava sim. Mas eu era o membro mais frágil da família, e era em mim que ela descarregava suas frustrações e hostilidades. Só que na época eu não era capaz de entender isso, e cada "safanão", cada "porca", rosnado baixinho e com raiva, ficavam sangrando. Mas volto às minhas personagens. Eu lia muito, sempre adorei ler. Tive até um livrinho inglês, Candles For The Queen, que ganhei de uma amiga de vovó (na verdade, era uma muambeira, que vinha regularmente vender camisolas importadas e não sei mais o quê). Acho que, como ela nunca conseguiu freguesa que quisesse comprar o tal livrinho e percebeu que a neta da cliente vivia de livro na mão, resolveu agradar a cliente e se livrar do encalhe com o presente. Corri para o embrulho, que, pelo formato, já podia adivinhar que era um livro. Quando abri e não entendi, fiquei decepcionada, mas minha avó foi logo dizendo que eu estava aprendendo inglês e em breve seria capaz de ler a historinha. Olhei o livro todo e só reconheci a palavra queen. Mas o livro era ilustrado, e fui acompanhando a história. Descobri que candles eram velas. Pouco a pouco fui descobrindo o vocabulário, construindo a história da coroação da Rainha Elizabeth II (vejam como o livro era velhinho). A última aquisição foi um verbo, yelled, que pode ser traduzido como exclamaram. Por onde andará este livrinho? Guardei-o durante muito tempo, mas acho que minha mãe jogou-o fora, ou deu-o de presente. Quando fui estudar em Portugal, ela simplesmente deu tudo o que deixei para trás. Toda minha coleção do Príncipe Valente, todos os livros, discos e recortes dos Beatles, a coleção de histórias infantis que ganhei de prêmio de redação no ginásio – uma casinha de papelão com uma estante onde estavam uns dez livrinhos extraordinários como Tartarin de Tarascon, O Albergue do Anjo da Guarda, A menina das nuvens, e outros que já esqueci quais eram. Para terminar essas rememorações, claro que fui a Menina das Nuvens, claro que fui Narizinho (Tanto uma como outra compartilhavam meu nome). Daí que acabei com esse sonho de que, quando crescesse, queria ser personagem. Hoje entendo que, quando finalmente virar personagem, crescerei.

3 comments:

Tereza said...

Lucia querida,é muito bom ler o que você escreve! Grande abraço, saudades, Tereza.

Marcia Naidin said...

Lucia, fiquei comovida com sua história de infância. Me fez pensar na minha relação com as babás daquele tempo. E, é claro, você pastoreando a bola me lembrou artes de Berenice, rs.

Ana Cristina Melo said...

Texto lindíssimo, Lucia.

Fico pensando que é isso que buscamos a cada história escrita, nos encontrarmos em cada personagem, até que um dia isso seja verdade.

Mesmo sem ser um personagem, você já é eterna em nossos corações, mas aquele que conseguir criar a personagem Lúcia, terá que ter muita sensibilidade para alcançar todos os detalhes dessa mulher fantástica.

Beijos