Saturday, September 25, 2010

Tempus fugit


Quase uma semana… Produzi algumas coisinhas: revisão da tradução da Secretária de Borges, que sai dia 1 de outubro na WWB, aulas, início da palestra para Juiz de Fora, atendi alguns compromissos pessoais, até mesmo fui ao cinema e ao teatro. Nestas andanças, fiquei engarrafada atrás de um ônibus que anunciava mais um desses livros milagrosos: Pense e fique rico.
Sim, eu sei, fui criada numa família que me garantia que a maior riqueza era aquilo que aprendíamos, que ouro e riqueza desaparecem, mas o que aprendemos fica para sempre… Agora, já avistando o fim da linha, sei que não é bem assim. Até o conhecimento se esvai, infelizmente. Mesmo quando não somos acometidos por doenças avassaladoras, que nos comem metade, ou mais do cérebro (e isso em qualquer idade, uma amiga foi fazer uma cirurgia boba, remoção de um quisto, pegou uma infecção hospitalar, e lá se foi sua memória, levada por alguma bactéria. Esqueceu do namorado, dos estudos, dos colegas de trabalho, das viagens… muito, muito triste!) Mas, mesmo quando não se trata de uma doença, nosso próprio conhecimento se transforma em coisas obsoletas. Por exemplo: de que me adianta ter aprendido a usar um videoK7, se hoje eles já nem existem mais? Para que me serve o conhecimento dos CDs, se agora só usamos MP3? Num livro infantil, a Casa de Ninoca (nada assim tão antigo), perguntei ao meu parceirinho de leitura, onde estava o telefone. Criança inteligente, ele não soube me mostrar. Fiquei admirada, e apontei o desenho, perguntando: Isso aqui o que é? Ele não sabia. Insisti, mostrando o desenho tão claro, com o corpo sólido onde o dial ostentava sua roda de números equilibrando um fone que parecia um alteres: Não é esse o telefone? Ele olhou para mim, exclamando: Claro que não! Telefone é assim!, e mostrou o microscópico telefone sem fio, equilibrado em sua base, que estava sobre a mesa da sala. E esse era o telefone fixo, quase do tamanho do celular, totalmente diferente daqueles telefones do passado, onde aguardávamos, com paciência, que o giro dos números discados se completasse corretamente, enquanto os músculos de nossos braços se fortaleciam, passando o pesado fone de uma mão para outra. "Colocar o fone no gancho" é uma frase de época, vejam só!
Mas há lugares onde o tempo parece seguir um ritmo menos agitado. Parece que os dias se solidificam nas pesadas pedras dos monumentos, ou nas preguiçosas águas de um rio dourado pelo sol.


A bela Firenze, em alguns relances, nos parece imutável. No burburinho das ruas, no entanto, logo mudamos de opinião. Há mudanças, é certo. Mas o tempo resiste, entrincheirado nas pontes, nas ruelas estreitas, nas igrejas silenciosas. Sim, ainda existem dessas igrejas sombrias e quietas. Mesmo assim, algumas já sofrem as marcas do tempo: Por exemplo, a "igreja de Dante", um pequeno templo feioso, a dois passos do museu que afirma ser "a casa de Dante", ostenta cartazes e fios de alarme, tudo por causa da violência cometida contra o pobre Cristo Crucificado. Acabados os tempos da delicadeza, onde os pais ensinavam aos filhos que não se devia bater em quem não pudesse se defender, o crucificado virou alvo fácil, dentro de uma igreja vazia, pouco frequentada. Somente eu apareci por lá, e parei por um momento frente ao túmulo de Beatriz, uma laje tosca, sem embelezamentos, onde alguém depositou flores de plástico. Quis recitar de memória um versinho… não lembrei de nenhum em que ela fosse o eixo. Imperfeita como sou, favoreço a história de Francesca, desencaminhada por um livro. Afinal, é nesse inferno que minha alma se consome…
Anteontem à noite, a lua me deixou maravilhada: Lua cheia, inaugurando a primavera… Ontem à noite, a lembrança da Lua me fez sentir saudades do tempo em que me aninhava entre braços amorosos. Ao invés de perdição, porém, a salvação veio na memória de um livro: recordei os versos de Drummond: "mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo". Passou. E lá fui eu ao teatro, ver como a vida pode ser chata. Com a lua escondida e o espírito embotado pela peça, voltei para casa e dormi. Não sem antes pensar no nome do livro indicado pelo ônibus. Pense e fique rico. Nos tempos de minha infância, as coisas eram diferentes. O ditado popular rezava: "pensando morreu um burro…"




1 comment:

Tereza said...

Olhe menina, sua pena está afiada, afiadíssima. Lendo sua postagem fiquei triste, melancólica e depois surgiu aquele sorriso ao ler as frases onde transparece um humor de que sou fã, aquele meio inglês, o tal do wit. Enfim, a vida é tudo isso. E cada vez mais gosto desse tempinho diário que passo aqui lendo você. Aliás, com meu pezinho oitocentista gosto de ler impressões diárias. Grande abraço, salve você e a Lua, T.T.