Friday, August 31, 2007

Confusões tecnológicas

E eis que, embora não fosse essa minha intenção, acabo tendo uma espécie de diário aqui neste blog. Uma espécie porque estou bem consciente de que ele pode ser lido, embora eu não me esforce para que ele seja conhecido. Um amigo me falou que colocou no seu blog um título assim como dicas para passar no vestibular, e que isso aumentou à beça o número de hits (será que é isso que se diz?) no tal blog. Aliás, o blog dele é muito mais sofisticado que o meu, com contadores e gráficos que lhe ajudam a administrar seus escritos, como se fosse uma novela. Eu fico com esse meu formato " blog 101" e nem sequer consigo publicar tudo o que quero. Ontem a noite, depois de descrever uma festa de comemoração e o rótulo do vinho Reserva dos Amigos, acabei perdendo todo o post, que se recusou a ir para seu devido lugar. Nem sequer consegui salvar um rascunho para mandar depois. Mas, em compensação, mandei resenha pela internet lá mesmo da lona, com esse meu equipamento de laptop e modem da vivo, que me rompeu as fronteiras das antes inevitáveis tomadas. E é banda larga, é um show.
As jornadas aqui de Passo Fundo continuam me encantando. Hoje levei o dia devagar, pois ontem quando finalmente cheguei ao hotel, estava um bagaço. Mas assisti a uma espetacular palestra com o Ferrez, que me abriu os olhos para muitas coisas. As idéias se agitam em meu cérebro, as emoções me invadem, as confusões me rodeiam e dou mil bandeiras, mas estou feliz.

Thursday, August 30, 2007

Noites brancas

Falo desta madrugada gelada, prateada de lua, que se seguiu a um dia intenso. Não consigo dormir, não quero que este dia termine, um dia que começou com um discurso acadêmico e que passou por uma palestra sobre arte e erotismo, com direito a vaias e a bombas de hiroshima, e que depois teve o extraordinário espetáculo de Dario Fo, representado pelo Julio com a maior entrega que já vi no palco. Em seguida, minha participação na mesa Arte e transcendência, logo eu, bicho da terra tão pequeno, me fazendo ridícula, tropeçando no tapete das etiquetas, enquanto brilhavam as estrelas de Lya Luft e de Affonso Romano de Sant'Anna, de Mario Sabino e de Mariana Ianelli. Aliás, a Mariana é uma estrela de primeiríssima grandeza. Seu livro, Almádena, é tão elegantemente lindo, tão sensível e profundo, que todos nós nos reconhecemos nele. Aguardo um momento de serenidade para voltar a lê-lo, com unção. Mas a serenidade está longe de mim. Não consigo dormir. Estremeço de frio, embora esteja com o aquecimento ligado e aninhada entre lençóis. Escuto o canto de um pássaro -- rouxinol ou cotovia? Ou seria apenas algum pássaro mítico, o canto de alguma sereia extraviada, atraída pelas inúmeras seduções da jornada?

Tuesday, August 28, 2007

Prêmio Josué Guimarães

Agora já posso revelar o meu segredo: Recebi o prêmio Josué Guimarães com os contos
A mãe de Proust
A caixa
Manhã.
Acho que nem preciso dizer como estou feliz. E que estou compartilhando este prêmio com o Guilherme, que ainda me habita

Monday, August 27, 2007

Passo Fundo

Cheguei a Passo Fundo, com olhos de encantamento. A cidade não é especialmente bela, mas tem um coração. Essa universidade que transcende seus limites de "interior" e que avança pelo imaginário de brasileiros, de angolanos, de poloneses e outros através do trabalho de um grupo enorme, liderado pela Tânia, que mal conheci mas que já parece amiga de uma vida inteira. Gostei de meu "ônibus escolar", que me trouxe de Porto Alegre até aqui na companhia de gente tão maravilhosa em carne e osso que nem parecem "autores consagrados" nem "editores renomados". Eles existem, eles conversam e riem, comem quindins (ou chocolates, como a menina da tabacaria), fazem-nos pensar ou matam-nos de tédio, carregam suas malas e contam suas histórias -- maravilhosas, instigantes, repetidas, sedutoras--. Alguns são pessoas de ação, fazem, planejam, organizam. Outros são contemplativos, absorvem por todos os poros, pelo olhar, pelos ouvidos, tudo o que podem. Ainda nem cheguei na Jornada propriamente dita, estou só no hotel, mas já me sinto feliz, com a maravilhosa sensação de pertencer a um grupo.
Agora vou trocar de roupa, tentar comprar uma máquina fotográfica e, finalmente, ir ao encontro dos outros peregrinos nesta romaria cultural. Os sinos ao longe avisam da passagem da hora. É tempo.

Thursday, August 23, 2007

Estranheza

Ontem li em voz alta um conto de Felisberto Hernández para as proustianas (Rachel, Stella, Nelly, Sylvia, o grupo todo, só faltava a Laura). Elas adoraram. Mas eu me pergunto: quem não adora Felisberto? Ele é um sedutor. Suas histórias caminham devagar -- devaneando -- e sempre que existe a possibilidade de o leitor se cansar e olhar o relógio, ou afastar os olhos da página, ele nos oferece alguma coisa inesperada e valiosa, como uma imagem estranha, uma observação inteligente e saborosa como uma iguaria de Circe. Não da mitológica, mas daquela Circe envenenadora de Cortázar, que nos faz apreciar até os mais repulsivos ingredientes, dos quais só nos damos conta depois de experimentarmos o seu sabor... Foi uma manhã de Balcão, pois é este o nome do conto que li, e estávamos sentadas ao lado do "balcão" da Dedei, amplo, com suas plantas e sua vista para a enseada de Botafogo. Vejam como são as coisas, bastou escrever "enseada de Botafogo" para Machado invadir minhas lembranças e eu ficar pensando como o universo de Machado é diferente do do contista de Montevidéu. Machado criou e nutriu seus loucos com a ciência e a filosofia. Felisberto fê-lo a partir dos sonhos e da arte. Seus contos são melodias onde os acordes se desenvolvem em pequenos trechos que se dispersam para se agruparem todos no final, fazendo sentido ou desfazendo os sentidos e nos devolvendo nossas emoções e pensamentos com uma nova roupagem.
No fim do dia me entreguei a Tezza e suas angústias. Só estou no começo, mas percebo como é denso e trabalhado o seu texto. Minha professora eterna, Marlene de Castro Correa, dizia que Drummond era uma mistura de paixão com meticulosidade. Encontro essas qualidades no texto de Tezza. Hoje vou dedicar mais tempo a ele.
Para os curiosos: Os livros em questão são: O cavalo perdido e outras histórias, de Hernández e O filho eterno, de Tezza. Valem muito a pena.

Tuesday, August 21, 2007

Uma mulher com um segredo

Vejam como são as coisas: Inesperadamente, uma campainha de telefone toca e sua vida se modifica, os planos se desfazem, ou então surgem já prontos e reluzentes numa nuvem de ouro e incenso (será que é assim mesmo que se escreve?). Há meia hora atrás eu carregava minha placidez, sem sustos. Agora meu coração sobressaltado pula, inquieto, dentro do meu peito e eu me transformei numa mulher com um segredo. Um segredo que pulsa, como uma nova vida, e que brilha como um sol pelos meus olhos espantados que, instantes atrás, se embaçavam de mesmice.
Queria telefonar também, e me transformar em anjo mensageiro, queria dividir com o mundo essa notícia, mas não posso. Trata-se de um segredo. Preciso calar, apagar o brilho dos olhos, sossegar o coração e continuar vivendo minha vida a conta-gotas, mesmo que minha taça esteja transbordando de alegria. Porque é alegre o meu segredo. É iluminado de sol e saber. Mas eu me calo, e me envolvo nos véus do mistério.
Um anjo me anunciou a boa nova. Outro anjo me confirmou. E eu me maravilho e, finalmente, me entristeço. Onde está você meu amado, para se alegrar comigo?
O que vale é que tenho Felisberto Hernández aqui comigo. Embarco nas palavras dele e navego pela casa inundada, esquecendo de meu coração também inundado de prazer.
Ave, palavra. Ave, T. Ave, L.

Saturday, August 18, 2007

de exílio e outras solidões

Minha companhia neste sábado é a TV ligada. Sem que eu preste atenção às vozes, seu som me faz companhia, e volta e meia eu olho para essa visita tagarela, que, mesmo ignorada, continua seu solilóquio na esperança de me fisgar, em algum momento. Mas eu resisto. Devia estar fazendo as resenhas atrasadas. Termino de ler os livros, começo a escrever, depois desisto, vou jogar paciência. Ou vou fazer um lanchinho, Ou tirar uma soneca.Ou escrever no blog... Aqui estou eu, a tv em frente, os livros a meu redor, a cabeça vazia. Ou cheia do que não devia. Um sábado pecaminoso, improdutivo,preguiçoso, seguindo uma sexta-feira idem. Amanhã saio dessa. Tenho programa. Vou ver amigos, vou ao teatro. Mas, e as resenhas? Volto para elas. Ao menos tento mais uma vez.

Saturday, August 04, 2007

Dallas, partindo.

Desta vez deixo Dallas com um gostinho de quero mais na boca. Mas o que me espera é NY, a cidade que parece feita de energia. Quando chego lá eu me sinto devagar, lenta, pesada, pois tudo parece estar acontecendo na velocidade da luz. As pessoas andam correndo, os edifícios engolem milhares de pessoas, como aqueles monstros mitológicos que exigiam o sacrifício de pessoas. Engolem e vomitam depois, e a multidão, estonteada, parece escapar de um monstro para ser engolido por outro, subterrâneo e lúgubre. Os que escapam zunem como moscas atraídas pelos letreiros da cidade. Broadway, Times Square. Soube que tem gente que não gosta de suas luzes e do constante burburinho a seu redor. Pos eu adoro.Gosto de parar e atrapalhar centenas de pessoas que não chegam a compreender o meu irresistível desejo de olhar à volta, de me banhar de luz. Mas também gosto de me refugiar em alguma sala menos procurada de algum museu, e me perder na contemplação de alguma beleza ou terrível hediondez. Porque há muitas coisas feias em Museus. Há gente horrorosa tanto retratada quanto visitando as artes. Há quadros que são dolorosamente feios, propositalmente desagradáveis. Há assuntos terríveis, inquietantes. Depois eu conto o que se passar por lá. Agora, neste instante, o futuro ainda não existe, ou talvez só exista em alguma cidade neo-zelandesa, ou em alguma província do Japão. Hoje já é amanhã por lá. Me lembro de quando Guilherme viajava para a China que eu gostava de brincar com ele e perguntar, quando ele me ligava: E aí, o que é que vai acontecer comigo amanhã? Ele habitava o futuro, e isso para mim era tão estranho quanto agora é saber que ele está vivendo somente no passado. Como reverter o tempo e reencontrá-lo? Minha viagem ainda só tem um vetor, é como a viagem daquele filme 2046. Vou seguindo pelo tempo, mas estou em outro 2046, aquele do passado, do quarto de hotel onde vivia a pessoa amada...
Voltando ao presente, é hora de fechar as malas. E de mandar um beijo aos leitores, presentes e passados, mas também futuros.

Wednesday, August 01, 2007

Museus e mais museus

Muito melhor que fazer spinning em Dallas é visitar seus museus. Ficam um ao lado do outro, no cultural district, que, na verdade, não é bem em Dallas, mas em Fort Worth, na cidade universitária. Os museus são lindos, belas obras de arquitetura, com espelhos d'água e design moderno, esculturas na entrada, ótimo acervo, embora não muito grande, e extraordinárias exposições. Fui ver From Mirror to Portrait, no Kimbell Art Museum, e Ron Muek no Modern Art Museum of Fort Worth. Duas exibições excepcionais, sendo que a primeira, como é coletiva e temática, dá até para fazer uma enorme monografia. Como se pode dizer coisas sobre essa insistência artística em fazer retratos e auto-retratos na era da fotografia! E retratos auto-fágicos que se alimentam não dos modelos, mas da própria concepção de retrato, uma coisa de louco. Nunca tinha parado muito para pensar sobre isso, embora goste imensamente de retratos. Sou até razoalvelmente boa em desenhá-los e esculpi-los (é, tenho uma veiazinha de artista plástica, mas nada que me faça abandonar a literatura). Adorei, adorei, adorei.
Também adorei a expo do Muek, que sempre me impressionou muito com suas peças tão intensamente realísticas no detalhe, embora totalmente modificadas nas proporções. Seu bebê gigantesco, um recém-nascido que toma uma sala inteira de um museu, mas que surge ainda com seu cordão umbilical quase que latejante, e suas marcas de sangue como insígnias da batalha pela vida, contrasta com a pequena dimensão do pai morto, indefeso, inerte e diminuído, vencido pela morte, mas comoventemente apresentado como uma criança que necessitasse de ser apanhada no colo para ser consolada...
Demais!
Acho que estou, finalmente, começando a gostar de Dallas (ou, pelo menos, de Fort Worth, já que os museus se concentram na cidade universitária.) Mas, o moderno perfil dos edifícios de Dallas, sua natureza escultórica, me fascina. Fico contemplando os edifícios ao longe, quando passo pelas auto-estradas (que também são altas-estradas, em seus cinco andares inacreditáveis) e me parece que estou passando por uma cidade do futuro, com suas torres todas únicas, todas belas e friamente espelhadas.
Mas aí me deparo com uma orgia arquitetônica de uma lanchonete à beira da estrada imitando um palácio das mil e uma noites e me pergunto que estranho país é este, onde a beleza se revela em bom e mau gosto, e onde a paródia se instaura a cada passo do caminho?

Sunday, July 29, 2007

Spinning em Dallas

Uau! Primeira vez numa aula de spinning, e logo aqui, numa língua estranha. Porque não adianta saber falar inglês, o inglês de academia de ginástica é um dialeto só para iniciados. Mas a gente pega logo, olhando para os lados e vendo o que os outros estão fazendo, aparentemente com a maior facilidade e com muita graça. Só eu que parecia sentir a hostilidade da bicicleta de spinning, que se revoltava contra meu declarado sedentarismo e tentava torcer meus tornozelos e quebrar minhas pernas, sempre que eu me atrevia a copiar a leveza dos companheiros de classe, que se levantavam dos assentos, pedalavam em pé, ou deitados sobre o volante, todos eles suando, mas parecendo dançar sobre os selins. Eu nem sequer conseguia respirar -- respirar e pedalar é mais difícil que assobiar e chupar cana! O assento, apesar de protegido por uma capinha de gel, doía em todos os lugares em que tocava o meu corpo, e eu ficava pensando, distraída: como será que os homens conseguem pedalar? O que será que eles fazem para não se machucar? Ou então, olhava para os vídeos que estavam sendo exibidos: Giro d'Italia. Centenas de pessoas pedalando, subindo e descendo montanhas e uma multidão, que certamente já participou de uma aula de spinning, acompanhando, correndo ao lado dos atletas, incentivando-os. Eu precisava daquele incentivo. Olhava para os rostos animados da torcida e dava ainda mais uma pedalada, embora minhas coxas já estivessem parecendo feitas de uma massa sem músculos nem ossos, só nervos estirados. Ao final de cinqüenta minutos, eu já não podia mais, mas a classe, desfeita em suor, continuava subindo montanhas virtuais, materializadas com simples torções de botões. Parei. Enxuguei as duas únicas gotas de suor que tinha conseguido expremer de meu corpo, e obriguei minhas pernas a me levarem para longe dali, para uma poltrona confortável onde pudesse acomodar meu dolorido assento e ler. Fiquei me recompondo uma hora inteirinha, o que me permitiu ler duas revistas de fofocas e me informar sobre a vida feliz e produtiva que a Katie, mulher do Tom Cruise, está levando com a filha Suri. E sobre a outra, cujo nome esqueci, que agora carrega um bracelete que analisa o seu suor e avisa da presença de álcool em seu organismo ( será que ela bebe sem perceber, e precisa de ser avisada?). Também soube que uma fulana já perdeu não sei quantos quilos depois da gravidez. Que a Julia Roberts saiu para comprar livros infantis dois meses após ter seu terceiro filho (ou filha, em inglês não dá para saber). E ainda que uma apresentadora de TV é muito mais feliz com sua obesidade -- já está usando tamanho 20, o que deve ser equivalente a manequim 58, no Brasil, calculo eu.
Pois, é. Lembrei que, nos vídeos do Giro d'Italia, as pistas estavam cheias de cartazes com anúncios de sorvetes, refrigerantes, pães e massas... O que será que importa mais para aqueles atletas? O exercício ou a permissão para atacar todas as gulodices do mundo? Já estava na hora do almoço. Na lanchonete do Spa, diversas pessoas comiam sanduíches e engoliam litros de refrigerantes. Fiquei com medo de tanta mastigação, e vim para casa ruminar...

Wednesday, July 25, 2007

Questionário para comemorar o dia do escritor.

Esse negócio de dia sempre me grila. Me lembro da música: todo dia era dia de índio... Agora para lembrarmo-ns deles, é só no 19 de abril. Espero que esse negócio de dia do Escritor não indique que estamos em extinção. Meu amigo/irmão em SESC me passou esse questionário, que vai rolando pelos blogs. Vejam no site dele o que ele respondeu (André de Leones)
Eu respondo aqui:
1. Que livro você está lendo?
O cavalo perdido e outras histórias de Felisberto Hernández
2. Lembra do seu primeiro livro?
Não. Só me lembro de uma cartilha onde aprendi a ler. No dia que me dei conta que já sabia ler, fui contar para a minha avó, que achou que eu tinha decorado a história. Quando ela percebeu que eu sabia ler mesmo, fez a maior festa.
3. No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?
Leio pelo menos quatro, ou seja, um por semana. Mas, quando o livro é fininho, leio mais de um por semana. Li o livro da Carola Saavedra e o da Verônica Stigger cada um numa tarde. Mas demorei uns dois ou três dias para ler o do Ian McEwan, Na praia.
4. Você tem um gênero favorito? Qual?
Todos. Só não gosto de auto-ajuda. Mas leio até livros científicos, tipo aquele do Hawkings. Acho que a preferência depende do dia, da situação e da motivação.
5. Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como "seres superiores" por alguns leitores. Você em ídolos escritores? Quais?
Na verdade, todos os escritores que admiro muito tiveram vidas muito chatas .Vejam, por exemplo, Proust. O cara nunca fez nada de interessante na vida, mas observou o que os outros faziam e isso lhe deu assunto para preencher os anos que passou de cama, doente, escrevendo. Virginia Woolf era doida de carteirinha, Clarice também era meio complicada. Drummond e Machado eram dois funcionários públicos certinhos. Se eu tivesse que admirá-los pelo que foram, não ia ter por onde. Mas o que eles escreveram...Prefiro ter como ídolos alguns personagens. Teve uma época que eu queria ser a Sanseverina, prá citar uma preferência adolescente.
6. Você distingue o escritor pelo gênero -- poesia, conto, romance, etc -- ou acredita que escritor é escritor e ponto.
Escritor é escritor e ponto. Mas alguns se dão melhor em alguns gêneros...
7. A internet pode se transformar em uma ameaça para a leitura de livros?
Tadinha da internet... Tão doidos prá botar alguma culpa nela. Ela ameaça a leitura, estimula a pornografia, aumenta o desemprego, dá unha encravada. Mas ela é uma ferramenta sem a qual já não sabemos mais viver. Adoro internet.
8. Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?
Por decreto, para ser bem rápido!
9. José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre os seus valores, ou pode mudar de opinião?
Quando a gente não consegue mais aceitar as coisas novas e as mudanças é sinal de que começou a se anquilosar a a envelhecer. O cérebro vivo está sempre aprendendo e mudando, fazendo novas analogias. Não pode continuar sempre parado na mesma opinião. Já valores são coisas diferentes: têm a ver com a ética. Podemos "estar"comunistas, mas temos que "ser" honestos.
10. Uma frase para o Dia do Escritor:
Leia um livro!

Bem. É isso. Espero que minhas respostas não tenham matado os leitores de tédio.

Friday, July 20, 2007

Putz Grila!

Mutatis Mutantes...

Eu sei que a expressão é mutatis mutandis, mas quis fazer um trocadilho. Adoro trocadilho, devem ser aqueles anos todos que passei estudando Derrida e Lacan. Estudei, estudei, e tudo o que consegui guardar foi o gosto pelos trocadilhos. De Lacan fiquei com muita inveja: ele era genial. Ao Derrida fiquei indiferente. Acho que não entendi nada do que li.
Mas, depois de tanta digressão, volto aos Mutantes: eu sempre adorei esse grupo e nada pode me deixar mais contente do que essa comparação Rita Lee e os mutantes /Lucia Li e os inventantes...
Ando meio desligada... Fiz dessa frase meu leitmotif. Sempre andei meio desligada, foi uma maneira de me proteger. Como estar sempre ligada -- e sempre sofrendo? Porque há sempre uma porção de razões para sofrer, quando a gente se liga. E basta ligar a tv para começar o martírio. Quem não sofreu com esse acidente terrível, com jeitinho de atentado? Que horror, um inferno se instalando ali, do outro lado da rua, do outro lado da tela, e a gente olhando, sem poder fazer nada?
Um dos meus queridos inventantes, o Henrique, mandou um emocionado poema sobre esse desastre. Estou copiando abaixo, leiam e confiram.
De resto, vou mudar de lugar por uns tempos. Lá vou eu de novo para Dallas. Escrevo de lá.

CHÃO DE ÍCARO

E subiram sobre a largura da terra,
e cercaram o arraial dos santos e a cidade querida;
mas desceu fogo do céu, e os devorou. (Apocalipse 20:9)

Eu mergulhei na noite e suas sendas trespassadas,
Com a sensação da liberdade sobre os meus martírios.
E tudo o quanto já nos coube nas vivências terrenas
Rendeu-se à travessia vitoriosa para além destes domínios.

Daí que os céus sucumbiram ao clamor da minha angústia
E conquistei-os como um bardo que entoa docemente o seu canto
Tendo a sedução insidiosa com seus sorrisos de lírios.

Abandonei a lua – tão tímida e opaca –, outrora metafórica,
Ao mesmo tempo em que soube das estrelas todas mortas.
E então que essa soberba aniquilou meus infinitos
Enquanto a nódoa mitigava qualquer perfeição dos sonhos.

Porém, no claustro ardeu o grito denso das fatalidades
Por meio de um véu espesso, oriundo da madrugada,
Que me lembrou o peso espesso dessas mãos de chagas.

As vestes nuas sobre o céu cobriram o instantâneo,
Num grunhido de fantasmagoria sobre o jardim esquecido
(À revelia da inocência silenciosa daquelas pétalas,
Em cuja fronte jamais repousaria novamente o orvalho.)

Perdi o vão do tempo e a largura absurda dos espaços:
Na ostentação viril de suplantar o céu longínquo,
Sequer notei que a chuva demasiado fria dessa noite
No espanto desordenado queimou todas as nossas asas.

Tuesday, July 17, 2007

Vã guarda

Gente, será que virei vã guarda?
Nunca esteve nos meus planos sair na frente, agitando bandeiras, como a Marianne (aquela que é símbolo da República Frencesa). Mas, de repente, não mais que de repente, estou aqui como signatária do manifesto 00.
Para vocês saberem do que se trata, leiam abaixo. E riam, pois acho que é o único remédio.

MANIFESTO 00

A literatura nos une. O humor nos desune.

Todas as vozes. Todas as particularidades. Todos os estilos. Todas as ausências de estilos. Somos o que nos falta. Somos o que falta ao outro. Somos o que falta à falta.

Abaixo os manifestos.

Pela despapelização das idéias e pela idealização dos papéis

Não julgue o poeta pela métrica ou pela ausência de métrica.

Pelo silêncio que antecedeu o Big Bang.

Abaixo os romances narrados e/ou protagonizados por répteis, aves, cães, padres, poetas, assassinos em série e afins.

Vá às escolas e fale sobre livros e autores; aprenda e seja apreendido.

Deus não existe.

O futuro a Deus pertence. O futuro, adeus.

Trate o leitor com respeito suficiente para não subestimá-lo – ou superestimá-lo.

Não trate a imprensa com condescendência. Não aceite ser tratado com condescendência pela imprensa.

Incorpore a merda e o sangue derramados. Mas com amplos significados, é claro. E com sutileza, por favor.

Não critique quem aceitar trabalhos sob encomenda.

Aceite encomendas e torne-as algo seu.

Abaixo os bons sentimentos. Bons sentimentos causam câncer.

Abaixo as boas intenções. Boas intenções causam câncer.

A boa literatura é amoral. E o bom escritor, imoral.

Não menospreze qualquer vencedor de concurso, ainda mais se você tiver participado – e perdido.

Não supervalorize qualquer vencedor de concurso, ainda mais se você tiver participado – e vencido.

Em literatura, o acaso não existe. Você descobrirá isso um dia, por acaso.

Chame as coisas pelos nomes. Especialmente quando tratar de sexo.

Abaixo toda e qualquer metafísica.

Contra a metaforização excessiva.

Realidade: menos metafórica, mais metadêntrica.

Abaixo os nefelibatas alcoólicos, os crentes de uma suposta superioridade dos escrevinhadores e literatos, os que se fiam em transes e inspirações divinas ou demoníacas ou lisérgicas ou político-partidárias.

O diabo não existe. Karl Marx está morto.

Não à demagogia travestida de "consciência social", à incivilidade, à barbárie travestida de "contestação", ao movimento dos não-alinhados, aos suicidas frustrados, à invasão das salsichas gigantes, à terceira via, às balas perdidas, à literatura engajada.

Não a quaisquer bairrismos.

Unamo-nos todos na suruba dos diametralmente opostos.


Por ANDRÉ DE LEONES, HENRIQUE RODRIGUES, VANDRÉ ABREU, LÚCIA BETTENCOURT e WESLEY PERES.


Sunday, July 08, 2007

Saudades e saudações

A FLIP acaba hoje, e eu não estive lá. Não ouvi as palestras, não participei das rodinhas de conversa fiada nas filas (tão longas) dos bares e restaurantes. Não exercitei meu voyerismo e minha curiosidade espreitando os autores mais queridos e os mais badalados. Mas sei que meus amigos vão me contar coisas quando voltarem. E, pela minha experiência, as coisas contadas são inevitavelmente mais saborosas do que as coisas vividas. Um bom contador de histórias não precisa mentir para fazer suas experiências reluzirem no texto: é só saber escolher (editar) alguns aspectos e vesti-los com as palavras corretas. Tcharã! Cinderela virou princesa. É simples assim. Já um não-contador de histórias não consegue editar nada, daí que seus relatos são sempre longos demais. E ele, ou ela, se perdem em risadas provocadas pela sua experiência, que não conseguem transmitir, repetem: "você precisava estar lá", ou então, "só vendo pra entender", ou ainda o pior de todos, "não dá para explicar". Enchem nossos ouvidos com desimportâncias, choram e se indignam com fatos que ficam sem sustentação, e partem, nos deixando cheios de fragmentos.

A última vez que estive na FLIP foi há dois anos, com o Guilherme. Encontramos muita gente querida, e outra gente que se tornou querida por lá. Passeamos pelas ruas da cidade com aquele jeito de turistas com um propósito, e fomos a todos os lugares recomendados, nos deixamos seduzir por todas as exposições, paramos em frente aos camelôs que nos maravilharam com suas artesanias e seus bonecos contadores de histórias. Chovia, e nós saltavamos as poças que se criavam entre as pedras irregulares da rua. Às vezes não havia como escapar da lama, que se tornava uma lagoa, mas nós olhávamos os cachos floridíssimos dos buganviles e esquecíamos os pés molhados. Acho que estou evitando voltar a Paraty para não substituir essas lembranças.

Passei uma semana muito ocupada, mas continuo as leituras. Vou devagar e sempre na Nadine Gordimer (The House Gun), livro denso. Fui de um só fôlego na Verônica Stigger, a promissora. Já tinha lido Toda terça, da Carola Saavedra. Agora me deu vontade de ler toda essa galera, inclusive o Galera, de quem já li Mãos de Cavalo. Quero conhecer o jacaré do Mastigando humanos, quero ler alguma coisa além das reclamações de Berlim da Cecília. Mas preciso de arranjar tempo para isso. Estou na fase final da obra, meio que paralisada com a mudança (ô que coisa mais amendrontadora, meu Deus!) e com um conto começado pelo qual estou particularmente fascinada. Chama-se Nove sultanas. Não é lindo o nome? Pois é. Quero lê-los, mas isso não quer dizer que eu os admire. Mas quero entendê-los, ou malentendê-los, antes de falar neles.

Despeço-me com um poema.

Caneta tinteiro

Uso minha caneta tinteiro

como se fosse um falo.

Acaricio, aperto, estreito,

não deixo que desfaleça

antes que em minhas mãos estremeça

e seu espesso sumo exploda sobre o papel:

estrela, gota, poema

É meu, apesar de eu sempre dizer que não escrevo a mão. Mas, na verdade, tenho um verdadeiro fetiche por canetas, lápis, lapiseiras e todas essas coisas de papelaria. E por hoje é só.

Sunday, July 01, 2007

De viagens e resenhas

Viajei. Fui para Vitória, e conheci gente muito legal. Palestrei, ouvi palestras, bati-papo com gente bamba. Só que, sempre que viajo, meu computador parece que fica com ciúmes e dá tilt. Desta vez, cheguei e ele não queria mais se conectar com a Internet.
Agora ele voltou, que bom, que não sei mais viver sem este vício.
Em Vitória, falei sobre essa nova ferramenta (ferramenta? uma coisa tão sutil, tão diferente dos camartelos parnasianos, como posso chamar meu computador de ferramenta?) e de como essa invenção facilitou a minha escrita. Adoro escrever na frente da telinha. Adoro preparar aulas na frente da telinha. Resenhar, nem se fala. Pesquiso, abro páginas, vejo o que há de novidade por aí. Leio esses blogs literários que são ótimos e variados, vejo fotos...
Amanhã e depois estarei no SESC, ali no Flamengo, escutando as boas falas dos amigos e reencontrando um pessoal que adorei conhecer nas viagens pelo Brasil. Vou encontrar também o pessoal da Editora, com quem já não encontro desde o final do ano passado. Vou estar com o Mussa e o Antônio Torres, vou estar com o Wesley e o Nereu, os novos vencedores do prêmio SESC. Vou estar com o pessoal do SESC de Pernambuco, de Manaus, do Paraná, do Rio Grande do Sul e do Espírito Santo.
Há um ano atrás eu estava lá na ABL, olhando pela primeira vez meu livro (enquanto objeto) e muito atordoada para poder saborear melhor o momento. Amigos e família estavam presentes, me acarinhando, e eu agradeço muito, embora no dia eu só tivesse a aguda sensação da falta do Guilherme. Esse livro e suas badalações me ajudaram a suportar esse ano. Esse prêmio me abriu uma porta na frente da qual eu hesitava: a publicação. Ano que vem sai meu novo livro de contos: Linha de sombra, também pela Record. Enquanto espero, uma ou outra coisa que escrevo tem sido publicada. Dois contos e três resenhas. E aqui no blog vou publicando um ou outro poema.
E é isso.
Volto quando o computador me permitir.

Sunday, June 17, 2007

Dias nublados

Domingo de preguiças e lembranças... Há dias que a gente acorda assim, devagar, se deixando ficar um pouco mais entre os lençóis, e depois saindo da cama arrastando chinelos, cabelos sem pentear, com preguiça de ler as mesmas notícias dos jornais. Depois fica procurando o que fazer entre as páginas de algum livro, mas a cabeça parte em devaneios, inquieta. Cada frase, cada letra é um desvio. Lembramo-nos de músicas antigas, italianas, com suas exageradas declarações de amor - coisa de cantores como o Wando, que está em alta, depois de ter seu dito machista repercutido em todos os jornais. Acho a ministra um horror, seu "relaxa e goza" pior ainda, mas acho infinitamente mais pobre essa reação que as pessoas ainda admiram no Brasil - uma tirada machista. O Wando vai me perdoar, mas duvido que ele conheça alguma bem-amada, pois amante machista não sabe amar bem. Como é que se ama? Quando é que se ama? Quem sou eu para responder essas questões transcendentais, que todos os dias me assombram! Vivo formulando perguntas, tenho a sensação de que sou habitante de uma charada. O mundo é tão cheio de enigmas! E eu me pergunto, mas nem sequer espero pela resposta, vou logo perguntando outra coisa, e mais outra, e ainda outra... E, no entanto, sou daquelas que acreditam em muitas "certezas". Vivo tendo pequenas epifanias que se esvaem tão logo eu tente formular em palavras essas visitas do espírito (santo?) São sensações, de repente todo o mundo faz sentido e me perpassa. Se tivesse à mão meu livro de Drummond, transcreveria A máquina do mundo. Por um breve instante nos é dado vislumbrar o funcionamento dessa máquina. Por uma instantânea eternidade visitamos o Aleph. E depois, continuamos, para o final trágico, edipiano. Nada do que Freud ensina como edipiano, antes com a idéia de destino, de nosso inevitável destino. E daí, num salto epistemológico permitido nos domingos nublados, saltamos ao Egito e à bela deusa Nut, com suas asas douradas abertas sobre nós. Pena que eu seja tão despreparada e preguiçosa, se não colocaria aqui uma imagem da deusa, como ela aparece em alguns sarcófagos: Sobre a cabeça e entre as pernas um disco, representação do sol, nascendo e se pondo, no eterno retorno, apogeu e ocaso, voltando para o mesmo útero e recriando-se de novo.
Agora me pergunto: como foi que cheguei até aqui? Quando tudo o que queria era agradecer os comentários e o carinho da EZ e da VH?
Antes de me despedir, só mais uma coisa: estou encantada com a idéia de energia. É, energia, coisa que eu nem sei explicar direito, mas que os cientistas vivem esmiuçando: energia, que, segundo entendi, é imortal. Se é imortal, e nós somos feitos de energia, só preciso de mais uma epifaniazinha para compreender como recuperar a forma que essa energia adotou um dia.
Acho que era mais simples quando eu ficava sonhadoramente repetindo que somos "poeira de estrelas"... E somos! E convido a todos a ler Calvino.

Saturday, June 16, 2007

Ne me quitte pas

Estou com saudades de meus leitores. Andei pensando em dois blogueiros que de vez em quando me visitavam, e que eu visitava de volta, para minha alegria. Por onde andas, helderpoeta, dos belos versos e de um bom gosto incrível para escolher ilustrações para seus posts. E você, Wagner, tão delicado, que volta e meia me deixava uma mensagem pequenina, só anunciando sua visita? Onde anda Daniela Mendes com seu talento, seus contos e insights sempre interessantes e surpreendentes? Por onde anda Vera Helena, sábia e perspicaz? Por onde anda o Amauri dono de palavras gentis? E a Thalita e seus sonhos? Por onde andam os comentários do enigmático Desejo, solto, sem rosto nem nome, um legítimo filho de Vênus? E Berthe, nom de plume de uma amiga de sorriso amplo e idéias grandiosas? E aqueles de visitas únicas, que nunca mais voltaram? Por que partiram?
Não seria bom se os blogs tivessem identificador de chamadas e a gente pudesse, nos agudos ataques de solidão, lançar apelos a todos os que, um dia, tiveram a curiosidade de nos ler? Outros passaram pelos posts do nadanonada, e, tímidos ou desdenhosos, não deixaram rastros. Outros, amigos, mandaram comentários pelo e-mail pessoal da autora. Outros amigos visitam sempre: meu mano mentor André de Leones, com seu canissapiens que já se profissionalizou nos blogs e noutras literaturas. Outros enrolados com teses e prêmios, andam sumidos, como o Wesley. Estou com saudades desta turma, ne me quittez pas! Quem lembra desta música, lamento tão triste, um atrás da porta francês?

Wednesday, June 13, 2007

Ítaca

Há um pequeno livro de poemas no mercado que parece uma jóia preciosa: Poemas, de Konstantinos Kaváfis, publicado pela José Olympio. O tradutor é José Paulo Paes, que faz uma longa apresentação. O poeta é ótimo. Quem gosta de poesia e ainda não o conhece, tem que correr "em busca do tempo perdido". Como estou dirigindo um grupo de estudos que está examinando A Odisséia, fui checar o poema Ítaca, na tradução acima e na de Marguerite Yourcenar, ambas excelentes, só que a da MY é em prosa.
De presente para meus leitores, transcrevo Ítaca, pois o que é belo tem que ser compartilhado.

Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
As muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar,
mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho,
mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Ave Sangria

Li uma entrevista de Marco Polo Guimarães no site Interpoética e adorei. Primeiro porque fiquei conhecendo um pouquinho mais este amigo que conheci há um ano apenas, e a quem vi apenas duas vezes, e no entanto, estimo como se fosse uma "estrela da vida inteira". Não vou dizer mais nada sobre ele. Leiam lá no site a entrevista, e vejam que pessoa mais interessante e que excelente poeta ele é. Mas vou perguntar se alguém aí no espaço tem as músicas do Ave Sangria, grupo do qual ele foi o vocalista. Fiquei morrendo de vontade de escutar esses roqueiros arretados portadores de peixeira, irreverentes seixos rolados nordestinos que ousaram desafiar os cabras da peste. Queria colocar aqui um retrato do grupo, que achei na net, mas não soube reduzir o tamanho da foto. Ah, como me identifico com Macunaíma! Sei que posso aprender, mas digo, ai, que preguiça, e deixo para depois. Então, aqui vai o blog sem foto, mas quem quiser conhecer os meninos, é só googlar, que eles têm página. E feliz dia de Santo Antônio para todos!

Friday, June 01, 2007

Um pouco de poesia

Há quanto tempo não venho aqui! Quanta saudade de jogar conversa no cyber espaço, para ver quem é que me escuta...
Há muito tempo que não coloco nada literário aqui neste blog, porisso hoje vamos de poesia, para começar bem este mês de junho.

Vênus

O olhar de tranqüila indiferença

o sorriso levemente zombeteiro

entre as espumas do mar

Uma cabeleira

de algas douradas

pernas esguias

quase enguias

sobre uma concha

talvez algumas flores

ou dedos feito anêmonas

sublinhem

a beleza de quem

desconhece o belo

o olhar

tranqüilamente

indiferente

e o sorriso

abertamente

zombeteiro

cabelos

membros

espumas fúteis

beleza

na sinuosidade

da concha