Thursday, July 25, 2013

Tragédias e alegrias

Sempre me espanto com o fato de que nossos sentimentos não são universalmente compartilhados. Se estou triste, como pode o mundo e as pessoas seguirem alegres com coisas que nem sequer têm a ver com eles? Lamento a tragédia acontecida na Galícia, onde tenho amigos e de onde guardo boas lembranças. Como pode um vagão sair voando assim  e estatelar-se, enquanto outros se engavetavam e matavam e feriam pessoas que estavam felizes, prontas para desfrutar um feriado? Indiscriminadamente, inesperadamente, inexoravelmente. E, enquanto isso, porque se alegram aqui as pessoas com o nascimento de um príncipe cujo nome é de arrepiar? George Alexander Louis, que talvez nunca venha a reinar sob o nome de George VII, tem tudo (no caso 3 nomes) para ser estilista.  Griffe denominada "By George!", uma pequena ruguinha sobre seu narizinho preocupado com a roupa que sua bisavó usaria na primeira visita real.
Enquanto tento me certificar de que nada aconteceu com meus amigos galegos, leio notícias sobre o "lodaçal da fé", e me preocupo com o Papa sorridente, mas um pouco chatinho. Se, logo na chegada ao Rio nossa expertise já levou o pobre homem para o meio de um engarrafamento, creio que na ida para o Lodaçal da Fé arrumem jeito de atolar seu Fiat numa poça e iniciarem um flash mob, com as pessoas cantando "vem pra Lama", enquanto se atiram no chão para o papa poder passar.
Espero estar enganada e que o papa não pegue dengue ou malária por conta de mosquitos impertinentes e talvez evangélicos. Espero que nem sequer um resfriado seja levado de herança por este simpático visitante que, sem dúvida, há de perguntar a Deus sobre a tão falada criatividade brasileira. Que fim levou, ó pai? Se em todas as estações da Via Sacra vamos ter uma "estátua viva" ou cadeirantes  empurrados por motoboys. Um espanto isso. Seriam os cadeirantes ex-motoboys? E os enfermeiros que irão alegremente empurrando as macas e, outra vez, as cadeiras de roda? Será que farão uma campanha contra a pólio?
Acho que tudo isso é despeito meu, que, gripada, não conseguirei acompanhar a festa. Mas vou tentar ver pela TV a cara que o papa F. fará ao descobrir que a Cristina K. foi convidada pela Dilma R. para assistir a missa do Envio do Papa. Vão enviar ele para onde? 

Tuesday, July 09, 2013

Quem sou eu, afinal?

Esse negócio de autoentrevista combinou-se com essa coisa de espionagem de meus posts, de minha correspondência eletrônica, e de minhas ligações por celular. Será que sou assim tão interessante? Devo estar na lista das pessoas mais procuradas do planeta, como serial killer: matei de tédio todos os agentes encarregados de ler e escutar os testemunhos de minha vida. Perdão, mil vezes perdão. Sempre me ofereço para melhorar as coisas com minha imaginação, mas as pessoas continuam interessadas na "verdade". Mas qual é a minha verdade verdadeira? As coisas que faço cotidianamente, acordar sempre cedo, escovar os dentes, tomar o mesmo café, puro, sem açúcar?
Ou seriam meus sonhos, minhas lembranças? Sou aquela que tem um jardinzinho, com plantas cultivadas em memória de pessoas amadas, que já se foram. Sou a que não olha álbuns de fotografias, com medo de chorar, mas que guarda as fotos e conversa com elas, nos portarretratos espalhados pela casa. Sou a que sorri quando encontra os amigos, e que os abraça com vontade de transmitir a eles a grande alegria que me dão, sendo meus amigos. Sou a que encontra refúgio entre as páginas de um livro, e a que conversa com passarinhos que visitam seu jardinzinho. Sou a que se entristece quando um bibelo barato se quebra, pois ainda lembra do carinho de quem lhe deu aquele enfeite, e dos olhos que já contemplaram aquelas coisas, e que se fecharam para sempre.
Sou também aquela que plantou algumas árvores, fez alguns filhos escreveu alguns livros. Continuo escrevendo livros na esperança de que alguém os leia. Talvez ainda plante alguma árvore, no futuro, ou mesmo um pequeno arbusto. Mas não farei mais filhos, os que tenho alegram minha vida, preocupam minhas noites e me fazem temer o futuro, que vislumbro ameaçador e pouco gentil. O futuro… devia estar me preocupando com o presente, que é somente o que temos. Aqui e agora, mas conscientes de que a vida se expande por longos anos, e que continua além de nós, portanto, para permitirmos a todos viver e aproveitar, é preciso cuidar e conservar.
Resumindo: sou sem graça, mesmo quando pretendo oferecer uma versão menos chata de mim. E sofro por isso. Mas tento consolar-me, da melhor maneira que consigo.

Tuesday, July 02, 2013

Autoentrevista 2384

Saiu numa revista espanhola, chamada 2384. Não me perguntem de onde tiraram esse nome, que é um número, para uma revista literária. Há de ter algum matemático infiltrado no conselho editorial. Ou esse talvez seja parte do número do telefone da namorada de um deles. Ou o final do cartão de crédito de outro. Ou um conselho cabalístico de uma numeróloga. Só sei que a revista é bacana, com uma produção visual que nem sempre facilita a leitura, e que tem fotos escandalosamente ótimas. E textos muito bons. E que gostam de que autores se autoentrevistem, talvez para evitar as repetições das perguntas de que se queixa o personagem de Amós Oz em Rimas da vida e da morte.
Julguem vocês, se me saí bem.
Publico em português e depois dou o link, para verem no site da revista, já traduzida para o espanhol.

Fazer uma autoentrevista é como fazer um autorretrato?
(Risos) Acho que não. Num autorretrato o artista tem o espelho como intermediador entre ele e sua criação, que fica em xeque por conta dessa imagem. Na autoentrevista, só existe autor e criação… uma combinação que geralmente leva à fantasia e ficção, a uma imagem sem limites objetivos.

Mas você pode revelar alguma coisa sobre sua vida e/ou sua obra?
Bem… Um autor, geralmente, vive através de suas obras. A vida cotidiana do autor é, na maioria dos casos, muito desinteressante. Sentamos e escrevemos. Ou ficamos de pé e escrevemos, como Pessoa. Ou, até mesmo, deitamos e escrevemos, como Proust. Mas, algumas vezes, lemos. Outras vezes paramos de escrever e é como se nos dissolvêssemos no ar. Pois, mesmo que estejamos mergulhados em atividades, que nossa vida esteja repleta de aventuras e eventos fantásticos, isso só parece existir para nós depois que traduzimos tudo em palavras.  Somos como náufragos, nadamos desesperadamente – não apenas para sobrevivermos –, mas para termos a chance de chegar a algum lugar e podermos criar a mensagem que enviaremos na garrafa. Essa mensagem, é claro, destina-se a alguém, mas não sabemos a quem. E, também, é necessariamente incompleta, fruto de nossa experiência de náufrago, – e que náufrago sabe, com segurança, para onde as ondas o levaram? Portanto, não há muito o que revelar sobre minha vida. Quanto à minha obra, saberei sempre menos que meu mais desatento leitor.

Então, por que dar uma entrevista a você mesma?
Creio que nenhum outro entrevistador seria capaz de me permitir mentir sobre mim ou sobre meus livros com a mesma sinceridade que o faço.

Mentiras sinceras? Você tirou isso de alguma música?
Preciso confessar que sim. Mas essas mentiras a que me refiro são completamente diferentes das da música, pois não são mentiras sentimentais. O autor, ao se analisar, crê sinceramente que está dizendo a verdade. No entanto, a verdade nunca é única e, como não conseguimos ser, ao mesmo, tempo sujeitos e objetos, nossa verdade confessada é subjetiva e imperfeita, portanto, mentirosa.

Falemos, então, de suas obras. Há quanto tempo você escreve?
Desde que aprendi a escrever passei a me relacionar com o mundo através da escrita. Sempre fui tímida e era mais fácil, para mim, escrever e deixar que os meus amiguinhos de escola lessem, ao invés de falar e me fazer notar.

O que você escrevia?
Histórias em quadrinho. Chegava em casa e “reciclava” os papéis usados fazendo caderninhos onde desenhava pequenas histórias. Era minha brincadeira predileta. Infelizmente não guardei nenhum desses meus livrinhos de infância, e meus pais nunca valorizaram esse meu subterfúgio.

Mas você lembra de alguma dessas histórias?
Não. Lembro apenas de minha primeira crítica negativa. Tinha escrito uma história – da qual já não lembro o enredo – mas que tinha uma  (em minha opinião) maravilhosa descrição do por do sol. Falava do astro e de como seus raios amarelos terminavam em formosas pontas de rubi. Meu pai leu a história e me alertou para o fato de que eu não estava descrevendo o por do sol, mas sim um desenho do por do sol. De repente, perdi minha ingenuidade infantil e passei a desejar escrever de maneira que pudesse criar imagens que, embora não tivessem necessariamente que ver com o real, pudessem ser percebidas como “verdadeiras”. Mas a fantasia continuou a imperar.

Você algum dia quis ser “escritora”?
Em verdade, nunca quis ser escritora, mas sempre me defini assim, pois escrever era e ainda é, minha expressão favorita. Gosto de falar e de estar com os amigos e a família, mas as coisas importantes que consigo comunicar são através de textos. Todas as minhas frustrações, todos os meus medos, tudo o que me incomoda, as coisas que me faltam, os desejos insatisfeitos, tudo isso eu resolvo em narrativas. Olho para o mundo, cada vez mais agressivo e incompreensível, e procuro um sentido para ele. As palavras são meu consolo e minha salvação. Através delas posso ser violenta ou suave, posso ousar ou temer, posso consertar ou destruir.

Esse seu aspecto demiúrgico é sua principal característica?
Não, muitas vezes, ao invés de criar mundos, prefiro brincar com a própria literatura. Sou uma leitora voraz, e algumas histórias que leio ficam germinando dentro de mim, crescendo e exigindo que eu reaja a elas criando alguma coisa diferente, algum tipo de resposta. Na verdade, é uma espécie de “leitura por escrito”, pois sempre que lemos um texto, nos apropriamos dele. A história que leio é necessariamente individual, pois ela se realiza na minha imaginação, na minha psiquê. Esse é o milagre da literatura: um bom livro viverá em seus leitores e sera único a cada leitura. Existem livros que são bem escritos, interessantes, mas que se esgotam numa única leitura, nunca mais voltamos a eles, nunca mais eles terão nada a nos dizer. Outros são livros a que voltamos sempre, e com o mesmo interesse. Mesmo sabendo o final, mesmo conhecendo a história, precisamos revisitá-la pois tornou-se parte de nossa própria experiência: essas, em minha opinião, são as grandes obras literárias.

O que você está escrevendo agora?
Estou terminando um romance sobre a morte de Rimbaud, pois, ao preparar umas aulas que estava dando sobre ele, li sua biografia e fiquei muito sensibilizada com o final de seus dias. A vida dele, um grande redemoinho, me parece exigir uma morte menos cruel, e menos escondida. Pensar que no enterro deste poeta extraordinário só a mãe e a irmã compareceram me  dá dor no coração. Então, escrevo e convido a todos para esse novo funeral. Acontece que estou escrevendo um romance, e não uma biografia, daí que posso criar de acordo com minhas interpretações e meus desejos.

Este projeto me parece bem triste. Você é sempre triste assim?
No fundo, no fundo, sou bem sombria. Mas tenho um lado solar e alegre que aparece mesmo no meio de minhas grandes depressões e é o que me “salva” de mim mesma. Meu romance anterior, O amor acontece, é muito divertido e com personagens mais doces, menos complicados. Trata-se de uma história de amor escrita por uma pessoa que não acredita em amor. Ela é contratada para ir à Veneza e escrever um romance ambientado nesta que é uma das cidades mais românticas da Europa.  Mas ela só vê os aspectos negativos, a umidade, o cheiro de mofo. Ou, quando seu humor melhora, ela só vê a Veneza dos livros:, a que foi contada por outros autores que fizeram da cidade seu cenário.  Ela é incapaz de ver o que está acontecendo ao seu redor, mas acontece que existe alguém que  consegue romper esse seu véu de descrença/fantasia e ensiná-la a se entregar às surpresas da vida. Só que a autora é teimosa e a história que ela escreve é um desencontro atrás de outro. Temos, então, um romance dentro de outro; passar de um plano a outro da narrativa é bastante agradável e provoca um diálogo entre as diferentes opiniões sobre a possibilidade de se amar no mundo moderno.
Você falou em romances, mas sua carreira se iniciou com contos, não?
Os primeiros livros que publiquei foram de contos. Durante muitos anos escrevi apenas poesias, mas essas estão guardadas, não sei se algum dia virão a prelo. Os contos também estavam engavetados, mas, em 2005, tomei coragem e mandei um para um concurso. Trata-se de “A cicatriz de Olímpia”, que ganhou o I concurso Osman Lins de Contos. No mesmo ano meu marido pegou os originais de um conjunto de histórias e os enviou para o SESC:  graças a iniciativa dele ganhei o Prêmio SESC de 2005 com o livro A secretária de Borges. Em seguida publiquei Linha de sombra, outro livro de contos. Mas as editoras não gostam de publicar apenas contos e acabei me aventurando na narrativa mais longa, embora eu prefira trabalhar com a forma mais sucinta e muito sofisticada do conto. Cortazar nos ensina que no romance existe espaço para divagações, mas no conto precisamos ser absolutamente essenciais e surpreendentes como um nocaute. Além dessas obras já mencionadas, escrevi e publiquei mais três livros infantis (O sapo e a sopa, A cobra e a corda, Botas e bolas), um livro de ensaio (O Banquete: uma degustação de textos e imagens)  que acaba de ser premiado pela Academia Brasileira de Letras, e colaborei em algumas antologias, revistas e jornais. E ainda ganhei o prêmio Josué Guimarães na 12ª Jornada de Literatura de Passo Fundo, com os contos “A mãe de Proust”, “A caixa” e “Manhã”, que só este ano estão sendo publicados pelos organizadores.

Qual o significado dos prêmios na vida do escritor?
Sem dúvida os prêmios ajudam na construção de uma carreira, e abrem algumas portas. Claro que, como em tudo na vida, quanto mais prestigioso um prêmio, mais portas ele abre. Eu mesma só comecei a ser publicada a partir dos prêmios que recebi, pois sou tímida e muitas vezes acometida de crises de autoestima. Os prêmios recebidos funcionam como estímulos e reconhecimento. Reconhecem o nosso esforço e nos estimulam a produzir e a continuar insistindo numa arte que é solitária e demorada. Vivemos numa época em que se procura gratificação imediata e o processo de publicação tradicional é necessariamente demorado. Esta é a razão pela qual acredito que o futuro vai ver cada vez mais publicações eletrônicas, embora convivendo com alguns livros tradicionais, que não desaparecerão completamente.  Voltando aos prêmios, algumas vezes, nos trazem tesouros inestimáveis. Por exemplo, quando recebi o prêmio Josué Guimarães, recebi também um convite da Universidade de Santiago de Compostela. As lembranças do local e as amizades que fiz por lá são motivo de grande alegria. E as coisas que aprendi, são inestimáveis! Com o prêmio SESC, seguiu-se uma série de viagens pelo interior do meu país, e foi como se eu tivesse ganhado um certificado de “brasilidade”. Ganhei a minha própria terra de presente, ganhei raízes mais profundas, uma injeção de seiva.

Escrever em português é mais ou menos difícil?
Que pergunta tão mal formulada, mas creio que entendo o que você deseja saber. Algumas vezes lemos sobre o isolamento imposto aos escritores por conta de suas línguas de origem. Falamos de um Conrad que abdicou de seu idioma natal para escrever apenas em inglês, por exemplo. Ou discutimos a questão de idiomas como o galego, que durante anos foi uma língua “clandestina” devido à prepotência franquista. Ou lamentamos a escassa repercussão de um autor que escreve apenas em português, imaginando que ele poderia ter muito mais público caso escrevesse em outra língua. Mas podemos pensar na literatura mundial em termos de uma orquestra: cada idioma é um instrumento maravilhoso, com sua sonoridade própria e sua personalidade.  Um Scholem Aleichem, que escreveu em íidiche, um Chinua Achebe, nigeriano cujos livros foram capazes de “dissolver as paredes da prisão” de Mandela, são autores que nos ensinam que nosso local de origem e nossa língua materna nos enriquecem e são nosso maior trunfo, ao invés de nos prejudicar. Lembro da escolha de Dante que, ao escrever sua Comédia, optou pelo dialeto florentino ao invés do prestígio do Latim e, com isso, transformou o mundo literário. Escrever, seja no Brasil, na Etiópia ou na Ucrânia, ou mesmo na França, nos Estados Unidos ou no Japão é um ato de coragem e um trabalho delicado.  E, em cada idioma, há força e significação para recriar o mundo a cada história.

Para terminar: você se comparou a um náufrago, disse que os escritores são como náufragos. Isso não seria uma imagem negativa?
Não, um náufrago é um sobrevivente, uma pessoa normal que, por alguma circunstância, se vê transformada em herói. É aquele que tem recursos e criatividade para sobreviver, e é aquele que pode contar sua história. O mar a que me refiro é o que carregamos dentro de nós, e que nos isola do mundo, embora seja nossa única possibilidade de nos ligarmos aos outros. Somos como Ulisses, sabemos que dependemos desse nosso mar para chegar a um bom porto e que nossos naufrágios é que moldam nossa identidade. Somente no mar somos grandes, porque enfrentamos o incomensurável. Mas é só quando contamos nossos fracassos que encontramos nosso sentido e podemos, enfim, vencer a morte. Narramos, logo, somos.

Friday, June 21, 2013

Sempre confiei mais na ficção que na realidade…

Foi assim que terminei o meu post anterior.
Será que essa é uma verdade? Pois estou sempre examinando e reexaminando o que digo. Não desautorizo o que repito aqui no título, mas qualifico. A gente confia mesmo em ficção?
Há muitos níveis e ocasiões para a confiança. Por exemplo, na hora da leitura, temos que nos entregar e formar o tal do pacto "suspension of disbelief" (suspensão da descrença? só lembro do termo em inglês). Se não damos um crédito de confiança ao autor da história, não podemos acompanhá-la. Isso às vezes acontece com as crianças. Geralmente elas confiam, mas chega uma fase que se tornam críticas.
 "Um passarinho me falou…", começamos a história, como sempre. E aí vem o protesto: "passarinho não fala, passarinho só pia" Reestabelecemos o pacto explicando que passarinho pode dizer coisas piando. Se um passarinho estiver com fome, ele pode piar chamando a mãe para trazer logo uma minhoquinha, ou, se estiver assustado, pode piar rápido, como os pintinhos que antigamente eram vendidos nas feiras, e que, quando íamos pegá-los, se encurralavam num cantinho da caixa de papelão, piando muito. Em nossas mãos, seus coraçõezinhos disparados, e seu súbito mutismo nos faziam ver o quanto estavam assustados. Eles, bichinhos da terra tão pequenos, tendo que conviver com desajeitados gigantes de dois ou três anos, sem muita coordenação motora e sem nenhuma noção de seus sustos. Quantos pintinhos assustei? E quanto de ódio armazenei contra os adultos que me separavam desta coisa fascinante que é um "brinquedo vivo"?
Mas o que acontece, por exemplo, quando lemos um livro como 1984, que já foi um ano tão distante que parecia coisa de outro planeta? Lemos aquilo que classificamos de "ficção científica" e que nos encantou com suas ameaças e possibilidades, nas quais acreditamos enquanto líamos. Fechadas as páginas, aquilo devia ficar existindo apenas no mundo da imaginação, mas talvez o livro tenha sido tão convincente que alguns dos leitores tenham dedicado sua vida a transformar o escrito em verdade. Chegou uma certa altura de nossa vida que começamos a ver que nosso mundo estava ficando cada vez mais parecido com o de Aldous Huxley. E agora? Em qual dos milhões de livros já escritos se esconde a solução para a nossa realidade?
Hoje estou vivendo no meio de um tempo em que as pessoas se comunicam demais – por telefones, e-mails, mensagens, twits, facebook, tv, rádio, internet. E onde existem manifestações espontâneas que se organizam por meios eletrônicos, sem líderes. Aí acontece que eu, aquela que sempre confia mais na ficção, se lembra de um episódio contado na Bíblia: o da Torre de Babel. Todos os seres se entendiam, e espontaneamente resolveram construir a torre e chegar ao céu. Afinal, com que direito aquele déspota tinha expulsado a nós do paraíso? O céu era nosso, o poder era nosso.
Bem, todos conhecem o final da história: o poder sempre tem uma carta na manga, e, quando ataca, sempre nos deixa piores do que estávamos antes: ficamos sem céu e sem nos entendermos.
Moral da história? Essa deve estar em outro livro, mas esse ainda não li…

Sunday, June 09, 2013

Amigos…

Amigas reunidas, os assuntos se multiplicam como borboletas em jardim florido! Conversamos sobre tudo, de aborto ao zoológico, nossas conversas contemplaram todas as letras do alfabeto, sem hesitações, mas sem ordenação. Relato aqui minhas reflexões sobre um dos últimos tópicos abordados, mas que está atual por conta da novela: bissexualidade. Acho que todas conheciam algum caso de marido exemplar que mais tarde revelou-se não tão exemplar assim. O que quero comentar, não é a preferência sexual das pessoas, pois acho que isso é coisa pessoal, e não me diz respeito. Mas sim a nossa impossibilidade de ler os "sinais", a não ser a posteriori. Me lembro de um senhor que conheci. Ele vendia livros, usava cabelo cortado curto, à escovinha. Tinha um aspecto marcial, andava sempre rígido, não era muito alto, mas via-se que era um homem forte, e que cuidava de sua aparência, sem luxos nem exageros. Um dia, ele veio se despedir: era sua última semana de trabalho, ele estava se aposentando. Fiquei emocionada com a deferência, e entabulei uma conversa dessas meio convencionais, tipo, "parabéns", "descanso merecido", "planos para o futuro". Pois então veio minha surpresa: esse senhor, que durante o tempo de nosso conhecimento, com sua voz forte e suas maneiras severas tinha falado com tanto orgulho de seus filhos, que tinham passado no vestibular, seguiam suas carreiras, e da mulher, sempre dedicada, me confessou que ia se separar. Admirei-me. Confessei-lhe que para mim era muito inesperado, pois ele sempre demonstrara ser um bom marido e pai de família. Ao que ele me respondeu, sem subterfúgios: "Cumpri o meu dever, agora vou seguir minha inclinação".  Talvez não tenham sido essas as exatas palavras. Mas, de repente, aquele senhor, sempre tão formal, e que eu conhecia há anos, embora não tivesse maior intimidade, me disse que sempre se interessara por rapazes, e não por mulheres, mas que casara para não decepcionar os pais, depois continuara casado, pois precisava criar os filhos e que desenvolvera uma verdadeira estima pela mulher, companheira dedicada, que muito o ajudara. Mas, agora, os filhos estavam encaminhados, os pais mortos e ele já não era mais nenhuma criança e se sentia com direito de contentar a si mesmo. Não sei porque ele veio se abrir comigo. Talvez seu instinto lhe tenha dito que eu não iria me horrorizar e que escutaria com simpatia o seu desabafo. Creio que eu era uma pessoa que ele respeitava, e achei que ele queria que eu lhe dissesse alguma coisa. Eu era pelo menos uns quinze anos mais nova do que ele, mas me vi na posição de "mãe", naquele caso. E disse-lhe que estava surpresa, mas que, se ele tinha tomado essa decisão de cabeça fria, e não por impulso, que seguisse seu caminho em paz. Perguntei-lhe se havia comunicado a decisão à família. Ele respondeu que ainda não. Então lhe disse que fosse cuidadoso e delicado, pois, se a minha surpresa era grande, a da família seria enorme. Perguntei-lhe se acreditava em terapia, pois talvez fosse o caso de discutir as estratégias da revelação com um analista.  Não sabia mais o que fazer. Ele agradeceu. Me abraçou. E nunca mais apareceu.
Hoje, quando olho para trás, relembro sua figura rígida, bem cuidada, militar. As roupas sempre impecavelmente passadas, rosto escanhoado, cabelo à escovinha. Ele não era uma pessoa "natural". Nunca se abandonou numa risada, nunca relaxou a postura, nunca se queixou da vida, nem do trabalho, nem do governo… Estava sempre controlado – hoje digo "vigilante". Eu teria sabido, se ele não viesse se confessar comigo? Suponho que não. E será que ele contou toda a verdade para a família? Gostaria que sim, pois seria sinal de sua auto-aceitação. Mas talvez ele tenha apenas pedido a separação, mudado de cidade, e ido viver sua vida longe da mulher e dos filhos. Seja o que for, espero que ele esteja feliz.
Por outro lado, conheço um outro caso, o marido de uma amiga, que era sempre citado como exemplo para os nossos maridos: Você bem que podia ser mais atencioso, como o X! Olhe a surpresa maravilhosa que o X fez para Y! Bem, a última surpresa de X para Y foi a pior possível. Se mandou, levando a grana e mandando a discrição às favas. Fez questão de se revelar aos filhos adolescentes, que entraram em crise. E agora se diverte infernizando a vida da Y… Olhando para trás, a gente reconhece sinais, sua paciência em escolher perfumes e roupas, seu interesse em maquiagem e cremes, que ele comprava, supostamente, para ela. Os arroubos românticos, tão diferentes de nossos maridos sérios e práticos, sua constante disposição para escutar nossos papos femininos de exposições, óperas, ballets e livros, deixando os outros maridos a discutir economia, impostos, futebol, política, música e vinhos… Mas será mesmo? Por isso é que acho os sinais do Felix (o personagem da novela) muito afetados. E acredito piamente nas descrições do Charlus, de Proust, que estava sempre em guarda, e se traia apenas por olhares, quando se julgava sozinho…Ou em companhia de iguais…
Afinal, sempre confiei mais na ficção que na realidade…

Sunday, May 19, 2013

De viagens e leituras…

Que vergonha! Mais de um mês e meio sem aparecer por aqui, que me desculpem os leitores.
Entre viagens e leituras, não consegui arrumar tempo para minhas divagações. Ou melhor, divagar até divaguei, mas silenciosamente, como compete a uma viajante em terras estrangeiras que não queira ser olhada como maluca. Levei computador a tiracolo, é bem verdade, mas nem sempre tive acesso a internet. Alguns leitores que também frequentam o Facebook poderiam objetar que andei postando pensamentos desconexos e fotos por lá. Mas acontece que o celular tem 3G e o computador necessita de rede wi-fi. Consigo escrever uma ou outra coisinha naquela telinha mínima, já adquiri alguma expertise na publicação de fotos, assim sendo, faço o que posso para me manter "existindo" nas esferas virtuais. Mas blog é coisa caseira, de teclado e tela grande, com um tempinho para elaborar os pensamentos com um pouco mais de cuidado.
As viagens foram variadas. Primeiramente, para Ilhéus, onde fui surpreendida pela imbricação de realidade e ficção.  Só faltou que Gabriela e Nacib esbarrassem em mim, se bem que em algumas curvas e sorrisos eu pudesse suspeitar o parentesco com a morena cravo e canela, e bigodes bastos me trouxessem, a todo instante, a certeza de que por ali havia passado um turco. A terra de Ilhéus é doce, seu povo acolhedor e festeiro – as roupas são justas demais, sensuais demais, coloridas demais para meus olhos desacostumados –. As comidas são saborosas e fartas, as bebidas nunca são frescas o bastante, o calor deixa a todos um pouco lentos, mas o mar… a praia que se estende a perder de vista, e que quando chegamos até a virada, se estende ainda mais longe, convidando-nos a nos perder no infinito…, esse mar de águas morninhas e ondas suaves é qualquer coisa de paradisíaco. E os alemães, que não são nada bobos, já descobriram isso e são agora os novos baianos, dourados, avermelhados como cajus.
Depois foi uma ida aos EUA. Texas, Kentucky e Arizona, com direito a um dia e uma manhã em NYC. Fiz uma viagem extraordinária, em termos de belezas naturais e de alegrias emocionais. Visitando a família, participando de atividades literárias, descobrindo um outro tipo de deserto, e voando sobre montanhas cobertas de neve, cada dia trazia uma nova surpresa e uma nova maravilha. A cereja no bolo foi NYC, com sol e temperaturas perfeitas, e sua inesgotável oferta de arte e vida.
Voltar para o Rio, resolver coisas pendentes, tomar novo impulso e partir, desta vez para Connecticut, para a quietude de CT,  para o frio e o vento, e as lembranças.
Viagens diferentes, mas todas muito prazerosas. Mas… estou cansada, e não adianta reclamar pois a vida me atropela, com suas exigências, suas tristezas, novas preocupações, prazos e compromissos. Atordoada, me refugio frente ao computador e releio os dias passados, aqui.
Quanto às leituras, são leituras modernas: enquanto os olhos e o dever me deixavam presa a Rimbaud, a curiosidade me fazia comprar livros escutáveis na "audible.com".  Agora que, finalmente, perdi o medo do i-tunes, me deixei levar e, ao invés dos meus tradicionais Books on CD, comprei uma voz que fala comigo pelo telefone, contando histórias.
Foi assim que já me inteirei do Inferno de Dan Brown, uma pobre releitura da Comédia de Dante, e das obras de arte relacionadas a ela. Pela voz virgiliana, fui seguindo o poeta pelas ruas de Florença, revisitando palácios, jardins e igrejas, atravessando pontes, que acabaram me levando a Veneza, uma Veneza totalmente diferente da minha, embora reconhecível. A trama é polêmica: alerta para a necessidade de dar um basta ao crescimento mundial, e o cientista "mau", ao final, revela-se "bom", uma vez que estereliza um em três dos habitantes mundiais, tendo chegado à conclusão que a "peste negra" tinha a exata proporção de extermínio necessário para o controle da superpopulação. E essa história de uma heroína careca e de um cientista maluco e suicida fez do sr. Brown uma pessoa rica e cheia de prestígio. Acho que vou procurar uma torre para me jogar, antes que eu seja caçada por um DRONE por não entoar loas irrestritas. No entanto, admito que os livros do Sr. Brown são altamente divertidos. Gosto deles, embora os critique.
Faço críticas também ao Great Gatsby, filme que assisti sem o 3D, mas que me horrorizou mesmo assim. Um tiro n'água. Um engano. A sensibilidade do passado desfeita num espetáculo fútil de modernidade. A atriz que eu tanto gostei em Education transformada num caniço lacrimejante, sem a trêmula futilidade em que Daisy se refugiava; Leonardo Di Caprio tentando nos fazer acreditar num idealismo que ele nem sabe o que seja. Uma droga. E, já que falei em filmes, recomendo o Kontiki, esse sim, cheio do idealismo e da vitalidade de uma geração que procurava reencontrar motivos para acreditar em si mesma. Simples, verdadeiro e muito bom.
E, já que falei tanto, porque não falar mais um pouco e dar uma examinada na TV? Um show horrível, que não leva a nada, mas que faz muito sucesso e em breve, sem dúvida, estará no Brasil é Cupcake Wars. Indescritível. Quatro equipes de lojas de Cupcakes competindo para ver quem fará os Cupcakes de eventos variados…
Meu queridinho da vez é Downton Abbey. Lindo, cuidado, com excelentes atores… Mas, como não há  nada perfeito neste mundo, parece que o sucesso subiu à cabeça de alguns, e isso os levou a abandonar a série, que se adapta a essas perdas. Tomara que a qualidade não caia.
E fico por aqui. O trabalho me chama!


Sunday, March 31, 2013

Bananas!

Tenho um problema de memória que não sei corrigir bem. Minha única memória em funcionamento é a afetiva, só lembro das coisas que falam à minha emoção. E esqueço nomes e rostos, mas me lembro da ação. Me lembro de histórias lidas, mas não recordo em que livros, misturo nomes e faço cara de parede quando me dizem "Fulano de Tal", certos de que devo conhecer, pois escreveu alguma coisa célebre, ou foi ministro da cultura, ou é o síndico do prédio em que vivo… Mas lembro de coisas, geralmente coisas sobre as quais li.
Sendo assim, há uns anos atrás li a respeito de uma exposição de arte contemporânea. Um banco qualquer, muito chique, estava inaugurando uma agência e nesta agência quis fazer um espaço de galeria de arte. Até aí tudo bem. Tem um banco aqui perto de minha casa que se auto-intitula Van-Gogh, por exemplo. Os bancos, desde umas duas décadas, descobriram que arte pode ser investimento. Só que o curador dessa galeria talvez fosse muito idealista, ou, quiçá porque não houvesse ninguém no banco com expertise para fazer curadoria de uma galeria de arte e tenham chamado alguém de fora, essa pessoa resolveu que a primeira exposição do banco seria com arte contemporânea, e essa manifestação artística era igualzinha a que agora ocorre na casa Daros. Cachos de banana, reais, pendiam como escultura e maravilharam a todos os convidados no dia da inauguração da agência, uma segunda-feira. Nos restantes dias da semana, os clientes estranharam o cenário, comentaram, foram entrevistados, tiraram fotos, alguns gostaram, outros detestaram, outros acharam aquilo tudo uma bobagem. E aí chegou o fim de semana. E os bancos fecham nos fins de semana. E era verão. E o calor dentro da agência fechada provocou o amadurecimento e até mesmo o apodrecimento precoce das bananas, o que, por sua vez, provocou uma infestação daquelas mosquinhas de banana. Na segunda-feira o banco não pode abrir. Nem na terça, por conta de limpeza e dedetização. Creio que passaram uns três dias fechados. E, uma vez reabertos, o cheiro entranhado afastou muitos clientes, e nunca mais falou-se em galeria de arte dentro de agência bancária. Mas os jornais noticiaram, e eu li, e agora não posso deixar de me lembrar, ao ler sobre esta exposição na Casa Daros que pretendem que as bananas cumpram "em público seu ciclo de vida". Eles estão calculando dois meses para que os viçosos se transformem num "fio escuro". E depois importarão novos cachos verdes até que, no dia 8 de setembro, eles finalizem a exposição. Resta saber alguns detalhes: o que farão quando as moscas surgirem e o cheiro começar a se entranhar?

Thursday, March 14, 2013

Menor que três

Agora há uma nova moda de se fazer corações com o sinal < e o número 3.
Olhava para minha criação e achava que era o desenho de um beijo <3 aceitei="" adinhos="" alguns="" ao="" assinatura="" at="" bios="" coloquei="" com="" cora="" de="" e="" engra="" escrevendo="" f="" fosse="" hoje="" l="" lado="" mas="" matem="" menor="" mensagem="" minha="" nbsp="" nosso="" num="" o="" os="" p="" perfil="" pintadinho="" portanto="" programas="" que="" repente="" rmula="" rosa.="" s.="" simples="" sinal="" tica:="" tr="" transformam="" um="" uma="" vi="">Meu Deus, sou tão pouquinha coisa! Menor que três, mas tenho 10 dedos e outros tantos artelhos. Células, tenho milhões! Também não me têm faltado neurônios, graças aos céus. Só tenho uma boca, e dois olhos, mas falo bastante e olho com atenção. Os dois ouvidos nem sempre estão ligados: às vezes ouço mas não escuto. Ou seria o contrário? Tenho dois braços e duas pernas, que me têm levado longe. Já passeei bastante pelo mundo afora, e ainda espero passear mais. Mês que vem vou ao Arizona, que ainda não conheço, e talvez consiga ir, este ano, a San Diego… Talvez, mas acho que vou ter que adiar: anda muito cheia de tarefas. Pois, tal como a fórmula me avisa, sou menor que três. Não consigo me multiplicar com a facilidade do Mário, que dizia ser trezentos, ser trezentos e cinquenta. Sou menos que três, mas a vida me foi ensinando a dar um jeito com esse pouquinho que sou.  

Saturday, March 09, 2013

Mr. Darcy

Leio no jornal um artigo falando sobre o fascínio de Mr. Darcy, exercido ainda hoje sobre as mulheres do século XXI. Reflito, será mesmo possível que um homem do século XVIII (vá lá, XIX, pois o romance foi publicado em 1813– mas Jane Austen começou a escrever sua história em 1796 e a primeira versão da mesma já estava pronta em 1797) exerça tamanho atrativo sobre as mulheres "liberadas" do século XXI?
Ou nós ainda não estamos realmente liberadas, ou o fascínio de Mr. Darcy se deve a alguma coisa que merece ser estudada seriamente por outro alguém mais douto e com mais seriedade do que eu. – Aha! Toquei no ponto crucial! – Passei a bola para uma figura mais séria, mais professoral, de mais – por que não dizer? – autoridade. Vejam, eu mesma continuo com essa canga intelectual que me faz abaixar a cabeça e me considerar mais supérflua, incapaz de voar alto no domínio intelectual, embora, sem modéstia, me considere uma pessoa culta e inteligente. Mas, é claro, sou mulher… tenho uma atenção mais difusa… me deixo levar pelos sentimentos e emoções e julgo pelas aparências, precipitadamente. Sendo assim, posso aceitar que o fascínio de Mr. Darcy possa ser explicado pela camisa molhada de Colin Firth (mas, sinceramente, nem toda a razão e a lógica do mundo me impedirão de suspirar ao ver Colin Firth nas telas, mesmo que seja no papel de gay). Só que não me conformo com essa explicação e me indago ainda outra vez: o que vemos em Mr. Darcy? Vemos um homem em posição superior, que ignora mulheres que brilham pela posição social, pela riqueza, e pela beleza  e que se interessa pelo intelecto, pela criatividade e sinceridade de uma mulher. Acho que é por isso que ainda suspiramos por alguém como ele: alguém que nos olhe como seres humanos e que nos faça triunfar sobre peitos e bundas de silicone, sobre holofotes da mídia e insolências do poder.
Mas, sinceramente, alguém poderia escutar a declaração de amor de Mr. Darcy, hoje em dia, sem rir? Depois de passar o romance inteiro em silêncio eloquente, que só a insegura da Elisabeth não entende, ele faz a declaração não de seu amor, mas de sua derrota: "Em vão tenho lutado comigo mesmo, mas nada consegui…"
Oh, céus, Mr. Darcy!!! O gostinho de vitória é muito bom, mas o que a gente quer é triunfar sem tripudiar. Don't spell it out! Passe logo aos finalmentes! "You must allow me to tell you how  ardently I admire and love you".  A chave está aí. E não é no love, é no admire. E vamos logo aos beijos, pois essa é que é a boa rendição! Ai, Mr. Darcy!!!! Que ardor é esse?!

Thursday, March 07, 2013

Aniversário

Acordo feliz, pensando em você!
Parabéns ao mundo que nos oferece maravilhas, parabéns a mim que passei algum tempo em sua companhia! Aproveitando o filme, canto com sinceridade: He slept a summer by my side, he filled my heart with endless wonder…
O tempo foi curto, eu queria mais, muito mais. Mas meu coração ainda transborda!
A brisa me procura aqui na minha torre, me envolve num abraço e eu jogo beijos na direção do mar, esperando que voem até você!
Feliz aniversário!!!!!

Friday, February 22, 2013

Na tonga da mironga…

Será que estou tendo alucinações? Outro dia, juro que ouvi, na novela , núcleo da incapadócia, as pessoas se cumprimentando usando a palavra Kabuletê. Quis perguntar a algumas amigas sobre o dialeto turco usado na globo, mas me esqueci. Quando encontro com as amigas temos outras coisas a comentar, que, para nós, são infinitamente mais interessantes. Devia postar isso na Facebook, talvez assim obtivesse uma confirmação. Mas o danado me distrai, com suas perguntinhas. Quer saber como estou me sentindo, o que estou fazendo, essas coisas maquinais, nas quais a gente nem pensa a não ser que uma maquininha nos pergunte. Ou então, o danadinho, mandão como ele só, me exige: "Escreva alguma coisa, Lucia" e eu, obediente, saio da página e volta ao trabalho em word…
Mas volta e meia a lembrança do kabuletê me assombra, na forma da musiquinha do Vinicius (em parceria com o Toquinho, acho eu) e fico cantarolando, em meio aos meus afazeres, que esta semana teêm sido burocráticos e chatos. No entanto, não posso reclamar, estou cumprindo todas as etapas. Dei entrada no passaporte, agendei renovação de carteira de motorista, providenciei o conserto do carro, cobrei o conserto da TV, estava presente no conserto do filtro de água, agora preciso ler contrato e tomar decisões chatas, chatíssimas. No meio desse caos, aniversariei, tive um dos meus piques de tristeza, me aprumei, dei uma ajudinha familiar de emergência, e continuei na leitura de Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso. E Rimbaud, meu Deus? Descobri mais um livro sobre ele, na Travessa! Acabo indo à falência… E será que escrevo sobre o Mia Couto? Oh, céus! Tanto o que fazer… E o meu vício secreto, de ficar jogando paciência no computador, me corroendo as horas produtivas!
Vale mais ficar lembrando da Tonga da mironga, e dizendo a todos, com sorrisos banhados a chá de maçã: Kabuletê!

Tuesday, February 19, 2013

Aniversariando

Aniversariar é uma arte.
Aos poucos, com a repetição, a gente vai aprendendo que não tem muito o que esperar da data. Alguns amigos se lembram. Outros, não. Alguns amigos telefonam, outros nos mandam mensagens por e-mail, telefone, facebook. Outros vêm a nosso encontro, outros se escusam.
E a arte, onde está?
Está no sorriso feliz que, por delicadeza, colocamos em nosso rosto, mesmo a contragosto. Principalmente quando se sabe que a data de nosso nascimento deixou de ter importância para os outros. Há um tempo em que nossa data de aniversário é um motivo de comemoração de "maravilhas". É a data em que surgimos no mundo e passamos a ser o ente mais importante para um alguém qualquer. Tenho uma amiga cujo filho é médico e se embrenhou pelas selvas. Num belo dia, foi chamado para assistir a um parto de uma índia. Quando chegou, o bebê, minúsculo, já tinha nascido e estava exangüe entre as pernas da mãe. O jovem pegou o pequenino e cuidou dele, massageou seu coraçãozinho com a ponta dos dedos e rejubilou com seu primeiro vagido, ainda fraquinho. Esse menininho terá o dia de seu natalício comemorado com carinho e emoção por este rapaz sensível, enquanto ele viver. Talvez sua mãe, e seus parentes também se relembrem da data com grande alegria. Mas o indiozinho, provavelmente, vai crescer, seus pais e seu médico desaparecerão, provavelmente antes dele, e ninguém mais ficará comovido e relembrará o milagre de seu nascimento…
Passei minha infância sem maiores comemorações. Naquela época, não eram usadas. Mas ninguém estava especialmente feliz com o meu nascimento, ou, pelo menos, essa era a impressão que eu tinha. Na adolescência, tive uma festa de aniversário, meus quinze anos, ameaçada por uma das enchentes no Rio. Não era uma super-produção, mas era a minha festa. Um amigo, o Ricardo Zambelli (por onde andará ele?) tinha uma banda e ia tocar lá em casa. Eu fiz meu próprio bolo – nessa época eu conseguia fazer bolos deliciosos – em formato de coração, pois era a única forma que eu tinha em casa. Mas a chuva começou a cair e as ruas foram alagadas. A garagem do meu prédio encheu e os carros flutuavam, descontrolados. Eu olhava a intempérie e sofria, com a certeza de que ninguém iria aparecer. Mas, maravilhada, vi chegarem amigos ensopados, os rapazes da banda rebocando seus instrumentos encharcados, e me encantei com a festa, embora até hoje tenha certeza de que a festa em si é que era o atrativo, e não o meu aniversário.
Casada, descobri que meu dia de nascimento era realmente razão de júbilo para alguém. O Guilherme realmente se importava comigo, disso eu tenho certeza. E, mesmo nas comemorações mais simples, o carinho dele tornava meu dia especial.
Agora, sei que tenho amor e carinho a meu redor, mas também sei que o meu aniversário é apenas mais um dia do calendário. Ninguém vai acordar maravilhado porque, num ano remoto, uma menina indesejada nasceu para se tornar a pessoa mais importante da vida de outrem. Agora voltei a ser uma pessoa comum. E, no dia do meu aniversário, sofro, lembrando do que um dia fui.
Mas sobrevivo, estou sobrevivendo bravamente, e vou sorrindo, agradecida de ter tantas pessoas que querem demonstrar, com carinhos realmente verdadeiros ou com originalidades requentadas, que sou uma pessoa querida, amada verdadeiramente. Só não sou mais aquela pessoa especial.

Monday, February 18, 2013

Sobrevivendo ao meteorito

Era dia de aniversário na família… E, de tarde, haviam marcado um meteorito como uma atração extra.  Ia passar perto, mas sem perigo algum para o planeta. Todos os telescópios focados no grande show estelar e eis que um penetra resolve roubar a cena, e quase que nos prega uma peça de mau gosto! De noite, fui jantar com a família, e a conversa ficou assim meio entrecortada, cada qual pensando com seus botões que "imagine se a trajetória do astro fosse um pouquinho diferente"…
Dias antes, em plena folia, um reforço na loucura: O papa renuncia! Vejam só o que dá nascer na segunda metade do século XX: a gente vê o homem pisar na Lua, vê estrelas caindo sobre a Terra, vê (e aprende o nome de) tsunamis se repetindo, vê a revolução nas comunicações e vê um Papa renunciar… É bem verdade que perdemos as duas guerras mundiais, mas fomos fartamente compensados com violentas e intermináveis guerras, quase que uma por semana. Guerras que já não se diferenciam de jogos eletrônicos a não ser pela contagem de mortos pois neste caso são reais. E que nos fazem lembrar do conto de Eça de Queirós – O mandarim. Basta apertar um botão… Lá longe, na distância, o mandarim cai fulminado. E deixa-nos a herança de uma ameaça: quem sabe não estamos à mercê de um outro botãozinho qualquer?
Mas o meteorito, com certeza, anda perturbando outras leis da natureza. Eis que o morto ressuscita e lá aparece o Chaves, pimpão e sorridente, segurando um jornal do dia. Será que só eu me lembro do filme Moon over Parador? Aquele com a Sonia Braga, que conta a história de uma república latino americana cujo caudilho morre prematuramente e os seus prepostos arrumam um sósia que lhes permita uma "sucessão sem percalços"?
A onda de choque demora algum tempo para chegar ao Brasil, mas chega e "mata" meu celular! De repente, estou outra vez no tempo das cavernas, sem celular, sem amigos, flutuando no vácuo, como um meteorito pré-queda. Ninguém sabe de mim, eu não sei de ninguém… Encontros, só fortuitos, por mero acaso, na calada da noite, na fila de táxi.  E agora? Paralisada, fico sem saber como agir, onde ir, como recuperar a vida que depositei num aparelhinho um pouco maior que uma caixa de fósforos.
Refugio-me no cinema, para aproveitar o ar condicionado e a fantasia dos outros. Escolho As sessões e me comovo. Uma história real de alguém capaz de viver de suas palavras. Bravo!

Monday, February 04, 2013

Ai de mim, leitora ociosa…

Leio, e leio por prazer.
Creio que esta é uma confissão cada vez mais rara. Quase tão rara quanto as questões levantadas por Rubem Braga, ociosamente, em sua crônica "Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim…" No entanto, parece que, na época, era mais comum do que se pensa essa dúvida apavorante de como se chamaria a fêmea do cupim.  Como sou dada a um escabichamento, lá fui eu ao meu dicionário procurar a femme fatale que cortou o ingresso de tantos ao Instituto Rio Branco e… aleluia!  Pensam que esta é uma exclamação de júbilo? Bem, não deixa de ser, mas é também a solução do mistério.
ALELUIA - designação comum aos exemplares alados (macho e fêmea) dos insetos isópteros ou cupins, quando abandonam o ninho para o voo nupcial após o qual as fêmeas fecundadas formam novas colônias; arará, cupim, sililuia, siriruia.
O mistério, aliás, já tinha sido desfeito por Manuel Bandeira, em seu texto "A fêmea do cupim". Graças a uma amiga aficcionada às palavras cruzadas ele descobriu que a palavra almejada pelo concurso de ingresso à diplomacia brasileira era arará, a qual depois encontrou no seu Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa – indicando que tamanho não é documento.
Como estava com a mão na massa, aproveitei para descobrir que quem nasce no Cairo, cairota é. Escardinchar não está no Aurélio, lamento, mas encontro a palavra sinema. Aposto que poucos conheciam o vocábulo, mesmo que os que já conheciam a anatomia das orquídeas e que fossem capazes de identificar a parte da coluna que representa os filetes estaminais concrescidos. Nem mesmo toda minha propensão ao escabichamento me permitiu ir atrás dos novos enigmas. Até porque me distraí com seresma, talvez prima das sereias, mas que não passa de uma mulher mole, indolente e inútil. Mas eu não sou nada disso! E, embora não tenha tempo para descobrir o antônimo de póstumo, sou prestimosa e ofereço-lhes um sinônimo para saudade – escabiosa. Advirto, porém, que esta saudade não é um sentimento, e sim uma flor, e não das mais belas. Uma flor roxa e humilde, daquelas que custam a fenecer…

Sunday, January 20, 2013

Viva São Sebastião

Ontem, conversando com um amigo espanhol, relembrei a primeira vez que vi fogos fátuos. Alguém ainda sabe o que é isso? Quando era garota, todo mundo (no meu pequenino universo de filha única) sabia. E até conheciam sinônimos para o fenômeno – fogo de santelmo, por exemplo. É que quando era pequena, naquele meu reduzido mundo, falava-se muito em fantasmas. Custei a perder o medo deles,  cheguei mesmo a pensar que ia ter medo para sempre, até que um dia… Meus fantasmas se desvaneceram. Na verdade, até conjuro alguns, mas eles me esnobam, nenhum me aparece. E, justiça seja feita, nenhum jamais me apareceu, embora eu vivesse num mundo que parecia inspirador às obras de García Marques. Na verdade, quando li Cem anos de solidão, só fui me dar conta de que o livro se classificava como realismo mágico na Faculdade. Em minhas leituras era apenas um bom livro. Realista. Regionalista, talvez. Mas aquele universo narrado era muito próximo daquele em que eu habitava, onde cadeiras de balanço se balançavam sozinha e uma bisavó, ocupada em bordar sua própria teia de Penélope, comentava com um suspiro: Ah, seu bisavô sempre vem se sentar em sua cadeira predileta nestas tardes de vento!… Ele continua igualzinho, garboso, em seu lindo uniforme. Um dia, talvez ela tenha soltado um grito ao olhar para a cadeira: Ai! A farda manchada de sangue! Agora é o fim! Sei que ele não voltará, e esse também é o meu fim!
Naquele meu país da infância, caixas preciosas guardavam ossos queridos, escondidas em prateleiras do armário. Esquecidas as caixas, os ossos apareciam em meio a faxinas, e causavam comoções. Algum habitante mais moderno desejava se livrar dos despojos, mas as avós os proibiam: Hão de ser de algum antepassado!, avisavam. E as estratégias eram planejadas, incluíam visitas a cemitérios e esquecimento de sacolas, ou exéquias em bosques não muito distantes. Uma das caixas, com ossos pequeninos e frágeis, foi enterrada num enorme jarrão de plantas na área de serviço. Um esqueleto completo, pequenino, de algum cachorro ou gato de alguém que não se conformou em se separar do amiguinho…
Na verdade, os bichos de minha família foram (suponho) mais amados que os próprios parentes consanguíneos. Havia uma coleção de animais empalhados e empoeirados, ressecados, com dentes à mostra, penas sem lustro, espalhados pelas estantes, dentro de armários, sobre aparadores. Herdei esse "gabinete de curiosidades", herdei as caixas de pó de ossos, herdei as cadeiras auto-impulsionadas, mas não herdei as memórias nem os fantasmas. Herdei pequenos escrínios com dentinhos e cordões umbilicais ressecados, amarrados em fitas descoradas. Herdei brinquedos quebrados, fotos apagadas, dedicatórias que não identificavam pessoas, mas sentimentos. Ao Nonô, da sua Iaiá,  20/09/1823, nas costas de um cartão onde os traços apagados não mostravam mais nada além de uma sugestão de cores. O que fiz com esses mementos? Encerrei-os em outras caixas, grandes caixas de mudança, que ficaram em guarda-móveis, em depósitos, em garagens, em outros guarda-móveis…
Outros mementos se foram, depois de virarem brinquedos por algum tempo, e de se estropiarem. Outros se desfizeram, por obras de traças e cupins, enchentes, pequenas catátrofes.
Mas, apesar de todos esses despojos, só fui conhecer os fogos fátuos em San Sebastián. Nenhum medo, só deslumbramento. E para sempre a associação do mistério com o pobre santo flechado. No meu universo, a história do santo se misturava à de Estácio de Sá, e eu achava que nossa cidade tinha sido fundada por um santo-martir, que perecera numa luta renhida contra os índios que tinham se aliado aos franceses. Corrigi a história, por boa aluna. Sei que meu querido Rio de Janeiro comemora seu aniversário apenas em 1º de março, e que o santo em questão é de outras paragens distantes. Nascido na França – em Narbonne –, depois cidadão de Milão, vai ser guarda de Diocleciano que, ao descobrir que ele era cristão, condena-o à morte, por flechas. Só que o jovem não morreu das flechadas, nem de ser atirado ao rio, de onde foi socorrido e cuidado por Santa Irene. E ele volta a se apresentar ao imperador,  que desta vez manda matá-lo de pancadas e atirar seu corpo no esgoto. Desta vez, o pobre não escapa e seu corpo é resgatado por Santa Luciana, que, após limpá-lo, lhe dá uma sepultura decente nas catacumbas. Mas, o venerável, divino, sebatós, Sebastião tornou-se santo querido não só da igreja católica quanto da umbanda, e continua vivo no coração dos cariocas. Viva nosso santo padroeiro, que, mesmo tendo nascido na França, lutou ao lado de Estácio de Sá para afastar seus compatriotas daqui desse paraíso tropical. Afinal, com tão pouca roupa, ele tinha que ser um santo tropical, para escapar de mais um flagelo…

Saturday, January 12, 2013

Ano novo, Blog velho…

Desculpe, meu querido bloguinho, mas persisto em te manter, embora não com a assiduidade que deveria. Têm me faltado tempo e oportunidade… Viajo, escrevo, adoeço, procrastino e… já estamos no ano de 2013, numa data também legalzinha: 11/1/13.  Por que legal? Porque são quatro uns e um três. Sei que vocês não vão entender, mas, para mim, tem piada, como dizem os portugueses.
Hoje de manhã, adoentada, fiquei na cama, zapeando… Primeiro vi um clipe do tal coreano, com sua música que me parece falar de uma corrida de cavalos. Que dança é aquela, gente? E faz sucesso, eu mesma falo mal, mas gosto. Só que cansei e fui para outro canal, onde estava um filme do Mazaroppi. Descobri que as raízes da dança coreana estão no andar do Mazaroppi (ou seria Mazzaropi?). As pernas abertas, o braço levantado, aos arrancos. Se a trilha sonora fosse coreana, ele estaria mais do que atual. Mas a trilha sonora era Angela Maria, cantando Feliz ano novo, adeus ano velho, que tudo se realize… Sempre pensei que isso era um jingle comercial, e agora descubro que era mesmo uma música que se cantava em "festas" de asilo para velhos, onde todos, felizes, acompanhados de suas famílias e de seus médicos que não faltavam a plantões, comemoravam o Natal enquanto a velhinha abandonada por seu filho exalava o último suspiro…
"Para os solteiros, nenhuma esperança perdida" - repetiu a cantora, pelo menos três vezes. "Para os casados, nada de briga"… Prefiro parar mesmo no "muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender!". São infinitas as possibilidades de quem tem dinheiro no bolso e saúde. Podemos ir ao cinema, ao teatro, sair com amigos, fazer um brinde pelo aniversário da amiga, etc. Quando falta uma das coisas, a gente fica em casa, sem posição, assistindo videoclipes e falando bobagens para si mesma, escrevendo desatinos e olhando lá para fora, tentando decifrar o voo dos pássaros.
Despeço-me então, e juro que pretendo voltar a escrever antes da próxima "data legalzinha", que, no meu entender seria o dia 31/1/13. Então, tá. Volto logo. Ou antes tarde do que nunca. Só sei que volto. Espero que meus leitores também!

Thursday, December 20, 2012

20/12/2012


Não queria perder a oportunidade de escrever numa data tão engraçadinha como esta. Não sei quando teremos uma outra repetição tão perfeita. Talvez por isso os Maias tenham resolvido acabar com o mundo após essa data. Chegamos ao equilíbrio e… catapum! Tudo desmorona e é preciso reconstruir, como aquelas torres do brinquedo "pequeno engenheiro". Ontem, num delicioso almoço que compartilhei com um amigo de longa data e uma nova amiga, mas que me encanta igualmente, me perguntaram qual a minha mais antiga lembrança. E eu não tinha uma lembrança antiga! Me esforcei bastante e lembrei de quando descobri que sabia ler e fui contar toda contente para minha avó. Ela não acreditou, achou que eu tinha decorado o livro. Agora, no entanto, me lembro da paixão que tinha por esses brinquedos de construção. Equilibrava os retângulos de madeira, os triângulos vermelhos, se fazendo passar por telhados, gostava especialmente dos cones, que faziam minhas torres se parecerem muito com as torres de um castelo. E também gostava dos blocos em arco, me comprazia em construir prédios com pilotis, ao gosto da época. Depois… catapum! Tudo desmoronava, como a perfeita data que, ao passar, nos deixa saudosos de perfeição.
A profecia, tantas vezes desmentida, é de que o mundo vai acabar. Para mim me é indiferente. Mas aproveito a dica para fazer meus votos de final de ano.
Se for para alguma coisa acabar, que sejam a intolerância, a desigualdade, o crime, a violência, o desprezo, a opressão, a miséria, a impaciência, a solidão, a tristeza, a dor… Acabem! Obliterem-se! Desapareçam!
E conservemos os bons amigos, a convivência, a tolerância, o respeito, a delicadeza. E que a Literatura volte a ser uma fonte de prazer e emoção. Que as artes sejam encantamento. Que os abraços sejam calorosos e os beijos, sinceros. Que os amigos se reunam com frequência, que os amores sejam cálidos, que os problemas sejam resolvidos. E que o equilíbrio de hoje, de 20/12/2012, mantenha suas proporções humanas, oferecendo enigmas não muito complicados, valores fáceis de assimilar, sorrisos de esperanças de que nosso planeta possa ultrapassar o 21/12/2012, e o 22 e o 23 e que, depois do dia 31/12/2012 a gente acorde num belo 1º de janeiro de 2013, ano que, para os supersticiosos, vai ser de sorte, muita sorte!
E, para vocês, meus queridos leitores, aqui vai meu conto de Natal de 2012, com carinho e muitos agradecimentos por acompanharem minha jornada.


Conto de Natal – 2012.
Milagre de Natal
Lúcia Bettencourt

Uma lista. Era para ser fácil. “Neste Natal eu desejo”, escrito com letra caprichada, maiúsculas bem desenhadas, depois dois pontos. Mudar a linha. Podia até pular uma linha para começar a escrever, as mesmas coisas de todos os anos, tipo  “saúde”, “paz”, “prosperidade”. Não, essa palavra estava fora de moda, ninguém mais a dizia e talvez ninguém mais entendesse o seu significado.  Melhor colocar na lista essas outras coisas como “dinheiro no bolso”, “amor”, “harmonia”… Taí uma boa palavra, harmonia… Coisa meio musical, e também angelical, isso combinava bem com a época. Mas ele não conseguia, sentia-se ridículo, sem conseguir segurar direito o lápis com a mão que já não reconhecia como sua.  Seu rosto também já não era reconhecível. Além de novas rugas, dos óculos que tiveram de ser substituídos, pois os antigos, levinhos, quebraram-se no acidente, sua boca congelava-se num ângulo estranho, desdenhoso, e o olho direito quase se fechava, a pálpebra emperrada como uma porta empenada.

Uma ironia. Era isso que ela pensava, olhando para o pai cujo rosto sempre lhe fora um pouco estranho. Logo ele, que fizera das palavras seu ganha-pão, agora não conseguia mais usar o lápis. As palavras, para ele, tornaram-se irreconhecíveis.  A página em branco em cima da mesa, o braço inútil, ou quase. O lápis preso num ângulo estranho entre os dedos grossos da mão alheada. Ela olhava para o pai com um misto de preocupação e de curiosidade, mas não sentia amor. Eles eram distantes, incapazes de mostrar afeto. Sua relação com o pai havia começado tarde, muito tarde, quando ela, ingressando na faculdade de Filosofia, despertara nele uma certa curiosidade e algum orgulho. A filha abandonada no berço, visitada apenas no Natal e no aniversário, era um ser formado à sua semelhança, inteligente, culto, esforçado. Mas nunca um gesto de afeto. O beijo protocolar, do qual ambos, desconfortáveis, procuravam escapar. Jamais um abraço. O interesse que passou a existir era intelectual: telefonemas para saber coisas da aula, se as
notas estavam boas, qual seu filósofo predileto: Nietzsche ou Kierkegaard?  E o oferecimento dos livros de sua enorme biblioteca. Ecce homo, pensou. Vencido, derrotado, impotente. O rosto estranho de um homem estranho, incapaz de falar, de escrever…

Uma lástima. Ele agora seria um peso,  e seria ela quem teria de carregá-lo! Isso por amor à sua única filha, pois, se não assumisse os cuidados, a menina seria sacrificada. Olhava para o velho em que ele havia se transformado, com um misto de pena e de ódio. Ele tinha sido, por mais de quarenta anos, irônico, cruel, indiferente. Tinha sido mesquinho e ausente. Nunca tinha oferecido uma palavra de consolo nem de amparo.  Mas dividira sempre seu salário de jornalista e pagara as contas da menina religiosamente em dia. Nenhum presente, é bem verdade. Com exceção da boneca que ele deu no aniversário de 16 anos, e dos livros que, mais tarde, passaram a chegar com insistência, dados ou emprestados, na ânsia de fazer da filha uma projeção de seu intelecto brilhante. Se ela ainda acreditasse em Deus, talvez se conformasse, mas suas crenças haviam sido meticulosamente destruídas pelos comentários cáusticos que ele fazia, pelos raciocínios sempre corretos mas impiedosos e maus. Ele nunca tivera piedade dela, nunca sentira um pingo de remorso por deixá-la sozinha nas noites de febre e de tosses. Nem estendera a mão para ajudá-la a levar a filha, já quase de sua própria altura, ao pronto socorro, com a perna sangrando depois da queda feia de bicicleta. Incapaz, indiferente, ausente… E ali estava ele, um velho, um peso morto, para que ela cuidasse, pois não havia mais ninguém, a não ser a filha, mas isso ela não permitiria.

Um boneco! Margarida reconhecia o avô naquele boneco gigantesco, maior que sua mãe, chegando numa cadeira de rodas para a festa de Natal na casa da vovó. Um boneco de carne e osso! Era feio como o avô, mas ela estava contente, pois era assim mesmo que tinha sonhado aquele presente de Natal. Grande, com cabelos para pentear, roupas para vestir. Podia dar comidinha e água, e, com um pouco de esforço, levá-lo para passear naquela cadeira grande e prateada, com rodas de bicicleta. E podia enfeitá-lo com as guirlandas de Natal, e colocar os bonecos sentados no seu colo. Podia até castigá-lo, virando-o para a parede quando ele não se comportasse como ela queria. Aquele era o melhor Natal de sua vida, sussurrou no ouvido da mãe, que não compreendeu bem a alegria da menina.  Mas que depois reparou na atividade em volta do doente, e acabou entrando na brincadeira. Está na hora da papinha… Venha, vamos ajudar o avô a fazer seu exercício de fisioterapia… Até a avó, a princípio um pouco brusca, entrou no jogo, e as três mulheres, como anjos, fizeram daquele menino Jesus crescido e velho demais, o centro de suas atenções. Na hora do exercício, colocaram a folha em branco em cima da bandeja que lhe servia de mesa, e puseram o lápis entre os dedos da mão quase imobilizada. Faz uma lista de Natal!, a menina comandou. Mas não prestou atenção no milagre que estava ocorrendo ali, na sala, sem estrelas nem cânticos. Um milagre prosaico de vida e inocência.


Sunday, November 04, 2012

Cheiros

Tem dias que parece que a vida cheira diferente: um cheiro de guardado, de passado, que persiste em nossas narinas, insistindo em nos lembrar de algo perdido há muito tempo…
Perambulo pela casa, procurando de onde vem esse cheiro que eu quase conheço, mas percebo que é uma ilusão. Aqui, o que cheira mesmo é a tinta que pintou minha cozinha, em minha ausência, mas que ainda exala seu aroma acre.
Vou procurar frascos de perfume. Este que já não existe mais, mas de que eu gostava tanto… Aquele, vibrante, de cor sedutora… Este que comprei só por causa do nome… E este, de frasco tão lindo, parecendo uma escultura… E aquele… não, nem falo no que ficou por usar!
Desisto. O cheiro ainda brinca em minha memória. Mas não é o cheiro bom de chuva. Nem o cheiro de certas épocas do ano, carregadas de especiarias. É um cheiro antigo, como o de rendas que se desfazem com o tempo. Ou como o que ficava nas mãos depois da brincadeira no parque, cheiro de ferrugem, de madeira, de areia…
Acho que é cheiro de saudade.

Saturday, November 03, 2012

Tamanho e documento

Há uns tempos atrás pretendia escrever sobre o lançamento no novo i-Phone, maior que os anteriores. Minha tese era a de que os "jovens antenados", criadores do i-Phenomenal Apple estavam começando a envelhecer e descobriam a necessidade de telefones maiores e teclados que se acomodassem a dedos artríticos… E que um dia eles chegariam ao meu ideal: um i-Phone do tamanho do i-Pad, a perfeição!
Ledo engano!
Eis que agora eles diminuem o tamanho do i-Pad! Para quê? E o pior é que tem gente que se assanha e corre para comprar este novo objeto que é um i-Phone sem phone, ou seja, não serve para nada…
Acho que perdi mesmo a corrida contra o tempo e a tecnologia, pois não soube responder à pergunta básica de minha filha, quando lhe disse, orgulhosa, que tinha comprado um i-Pad: Dois ou três?
Como é que vou saber? Mas não perdi a pose. Disse que era o último modelo, o mais novo. Mas que não importava, pois em breve sairia outro… E saiu mesmo, o tal do mini.
Com essa demonstração de estar a par do futuro como uma pitonisa cibernética, safei-me.
Mas ontem ela me ligou, perguntando-me se já tinha comprado o tal mini.
Eu? Logo eu, que estou esperando o I-Pad-phone?!
Pois ela se surpreendeu: ué! O seu não tem telefonia? Basta você clicar no ícone tal, e baixar o aplicativo Y que seu i-Pad…
E ela continuou explicando, embora eu já não prestasse mais atenção. Estava pensando em uma amiga, que está apaixonada por seu telefone fixo: Imagine, diz ela, ligo para qualquer telefone fixo em qualquer estado do Brasil, falo o tempo que quiser e no fim do mês minha conta é sempre 49,90! Feliz amiga, que tem amigos que ainda usam telefones fixos. Eu não teria com quem falar. Talvez com ela…
Chega um tempo em que nossos olhos se voltam para o passado, mesmo à nossa revelia. E descobre coisas que são mais confortáveis e baratas do que o nosso presente já quase futuro. No entanto, do século XIX só o que nos resta neste século XXI é a ficção científica, que nos apresentou ao nosso mundo antes que ele existisse. Do meu pobre século de nascimento, o XX, pouco restou. A lembrança de algumas guerras, algumas armas assassinas e a revolução sexual. O que já foi interessante, agora virou uma função corporal. Coisa para ser desempenhada como uma espécie de ritual de higiene. Tomar banho, escovar os dentes, fazer sexo, cortar as unhas…
No programa humorístico de ontem à noite, o comentário da moça: Eu não vou dar, vou é distribuir!
Oh, céus! Quanta generosidade! Que ela encontre pessoas que desejam o que ela tem para oferecer, pois me informam que são poucos os interessados. E eu me lembro do filme boboca que vi da mulher que nunca tinha experimentado um orgasmo. Ela, então, se separou do marido (era do tempo em que as mulheres casavam) e arrumou um vibrador, e, na falta de vibrador, o telefone celular, no "vibracall" quebrava seu galho. Taí, eis uma nova sugestão para os prodigiosos engenheiros/designers da Apple. Quem sabe o próximo lançamento não possa ser um i-Vib? Com fone de ouvidos, cada chamada se transformaria num motivo duplo de alegria. Tesão e comunicação, compartilhados por todos, ao alcance de todos. Vou correndo comprar ações de algumas companhias telefônicas. Quem sabe minha ideia cola e eu fico milionária?

Sunday, October 28, 2012

Discovery Channel no Leblon

Olá, amigos.
Passei muito tempo sem postar nada aqui, mas estava viajando e fui fazendo comentários no facebook. Não dá para tudo, muitos textos para escrever, muitos canais de comunicação, e a gente vai se virando como pode, reclamando das conexões no exterior, reclamando do peso do computador, do dia de apenas 24 horas, mas cada vez mais dependente dessas maquininhas maravilhosas e de sua possibilidades que nem sempre dominamos.
Bem, escrevi textos para congressos e colóquios, viajei, voltei e ontem, de volta ao meu recanto no Leblon, participei de uma cena digna de Discovery Channel. Na hora do almoço, ao sair, já tinha me maravilhado com a beleza do Rio. Paris e Londres são lindas, imponentes, cheias de culturas e charme. Mas o Rio é deslumbrante com essa natureza toda, esses recantos verdes intensos, as montanhas, o mar que torna o ar mais suave para nossas mucosas, e ainda nos diverte com suas cenas. Só que nem eu mesma tinha me dado conta do quão "naturais" somos. Imaginem que tenho uma varanda que é protegida por uma dessas redes de proteção. Quando vieram instalar a rede aqui em casa, o rapaz , que não viu sinal de crianças, perguntou se era para a minha gata. Já não me lembro se respondi o que tive vontade de dizer na época, que era uma garantia contra mim mesma, tentada que podia me sentir pelo abismo. Acontece que a rede aqui está, e acontece que ela virou um local de repouso para passarinhos, que me visitam todos os dias. Não sou daquelas que colocam vidrinhos com água com açúcar, nem nada. Eles visitam porque na varanda tem plantas e eles, aparentemente, gostam de pousar nos fios da rede. Ontem, porém, estava olhando para fora quando vi que um passarinho entrou desesperado pela rede e procurou abrigo na minha biblioteca. Num flash de segundo depois, um falcão se chocou contra a rede, e foi embora, desapontado. Minha filha, aninhada a meu lado, envaideceu-se:
"Viu? Todos sabem que serão protegidos e acolhidos aqui!"
E eu finalmente entendi por que razão existia essa rede em volta de minha casa. Uma rede/"haven" para os mais fraquinhos  e assustados. Mas também entendi que minha biblioteca, por mais absolutamente encantadora que seja, não é o lugar ideal para um passarinho assustado. Eu escutava seus pios agudos e vi que ele ainda precisava de mais ajuda. Fizemos um grande mutirão. A filha buscando a escada e o pano de prato, o filho subindo nas alturas e pegando o bichinho assustado, que não se rendia fácil. Eu dava as orientações. E ainda havia uma plateia, preocupada, torcendo. Finalmente o passarinho foi apanhado e colocado no vaso de plantas. Ainda dentro da varanda, mas sem perigo de machucados por conta de batidas contra a vidraça e aprisionamento no labirinto dos livros... Lá ele descansou, recuperou-se e, quando se decidiu, foi embora. Deixou saudades. Um passarinho que vem cantar de manhã em nossa janela é sempre uma alegria. Espero que ele volte, sempre que quiser. E, por incrível que pareça, fico satisfeita de ter frustrado os planos do falcão, mas espero que ele tenha encontrado uma outra boa refeição. Quem sabe um roedor? Por favor, senhor falcão, não este passarinho que agora quero chamar de meu. Não na minha janela. Mas também não abandone minha vizinhança, e deixe-me ver, de vez em quando, seu belo voo e sua perícia. Gosto de viver num lugar onde a natureza ainda se mantém próxima o bastante para desenrolar-se, ao vivo e a cores, sem câmeras intermediárias...