Tuesday, November 13, 2007

Amores Impressos, cap. 2

Continuo. Não desistam, só porque eu não uso a técnica cheia de ganchos do Dan Brown... Depois fica mais engraçado. Brigadim, André, pelo incentivo.

Capítulo II

Chegar a Veneza de trem pode parecer um contra-senso, mas é a melhor maneira de mergulhar diretamente na atmosfera da cidade. A estação agitada, os carregadores gritando suas frases longas e cantadas, o painel de avisos mudando frenéticamente os dizeres, com um ruído característico de placas de metal se entrechocando, estonteiam os viajantes e os deixam despreparados para a primeira visão da cidade, obtida ao sair do prédio datado de meados do século XIX. Com sua luz característica, a cidade parece um cenário pintado do outro lado do cais movimentado, onde toda a Europa parece convergir numa tentativa infrene de ocupar os hotéis que, dependendo de sua localização, podem cobrar tarifas de mais de mil dólares por noite.

Foi nesse burburinho que desembarquei, vinda de Milão, depois de atravessar quase meio globo terrestre de avião e de superar as barreiras linguísticas numa estação de trem hostil, ainda estonteada pelo jet-lag. As cinco horas que me foram retiradas do dia haviam se transformado em cobras, que invadiam meu cérebro e se compraziam em espremer a delicada massa pensante, até retirar dela toda e qualquer coerência. Irritada com o extravio de minha bagagem, com o rosto devastado pela falta de sono, as pernas inchadas, e precisando desesperadamente de um banho, que me devolvesse a sensação de pertencer a uma sociedade civilizada, estava determinada a ignorar os encantos que a cidade lagunar tinha a oferecer, e a ir direto para o hotel, onde recuperaria minha humanidade.

Veneza era uma adversária mais poderosa do que havia julgado.A cidade me recebeu com um sol primaveril, que desmaiava ainda mais as cores desgastadas dos palácios e das paredes descascadas das vilas e igrejas. Era uma sensação diferente, pois, mesmo brilhando e desenhando caprichosamente os ornamentos excessivos dos prédios, o astro não irradiava calor. Estremecendo ligeiramente, aconcheguei meu agasalho insuficiente, e me indaguei quanto tempo levariam minhas malas para me alcançar. Com otimismo pensei que talvez não precisasse gastar o dinheiro da diária, comprando um desnecessário casaco em euros.Corajosamente, enfrentei a fila do vaporeto que havia de me levar até as proximidades de meu hotel. Imprensada entre pessoas de todas as idades, algumas parecendo caricaturas, tentei respirar o menos possível enquanto estivesse dentro do barco, para escapar dos fortes odores que tornavam o ar do recinto irrespirável. Em nenhum momento pensei que o cheiro talvez se desprendesse de mim mesma, há mais de vinte e seis horas sem banho.

Foi com alívio que escutei o nome da Piazza de San Marco, e reconheci, das muitas fotos e quadros que havia examinado, a esguia coluna, no alto da qual o leão, símbolo da antiga república , se empertigava. A maré cheia havia coberto toda a praça com a água salobra dos canais. Meus sapatos foram incapazes de manter sua integridade, e eu sentia a água gelada molhando minhas meias, insinuando-se por entre os meus artelhos. Antes mesmo de passar pela frente da catedral, eu já havia começado a espirrar.

O hotel em que me haviam hospedado ficava numa viela por trás da arcada da praça. Programada que ia para escrever uma história de amor, estava com a cabeça cheia de histórias românticas que revisitara em velhos filmes e livros. Uma delas era “um quarto com vista”, história passada em outro ícone do romantismo italiano: Florença. As histórias que conhecia e que eram ambientadas em Veneza, eram todas trágicas, ou grandes farsas. Shakespeare, por exemplo, tinha adoração pela Itália, e por Veneza em especial. Mas suas histórias não me serviam como modelo. Os ciúmes excessivos de Otelo, sua incapacidade em confiar na mulher amada, e a facilidade com que acreditava em qualquer insinuação do amigo, me irritavam. Ou as artimanhas de trocas de sexo e os artifícios usurários de Shylock e companhia, ao invés de me fazerem rir, levantavam questões que incomodavam minha modernidade politicamente correta.

Ali estava eu, caminhando com os pés encharcados por uma ruela estreita e úmida, onde o cheiro de mofo suplantava meus próprios odores, e, nas circunstâncias, dando graças a Deus por não estar carregando a minha mala. Olhei para a placa onde as figuras de Arlechinno e Colombina dançavam entre as letras que anunciavam: Albergho della Commedia. Não sei como criei coragem para enfrentar a porta manchada e a escada gasta que me levariam ao meu quarto, que, sem dúvida nenhuma, não tinha vista para nada. E era ali que passaria os próximos trinta dias de minha vida.


Monday, November 12, 2007

Aniversário!

Minha nossa! O tempo passa, corre, galopa, e a gente nem percebe. De repente, não mais que de repente, descubro que faz um ano que mantenho esse Bloguinho... Devaneio... quantas pessoas terão lido meus devaneios? Porque acabo fazendo dele uma janela para todas as minhas loucuras.
Acho que, para comemorar, vou publicar aqui os capítulos de minha novelinha blague: Amores Impressos... É que todos os meus amigos próximos já leram, e adoraram, pois ficou divertidinha e rápida, mesmo. Assim, como tenho alguns amigos de blog, resolvi deverti-los também.
Bem, para explicar, faço uma introdução: quando meu gêmeo siamês (O André de Leones, que ganhou o prêmio SESC junto comigo, pelo romance Hoje está um dia morto) foi convidado pelo Cuenca para participar do projeto Amores Expressos, tive uma pontada de ciúme, tipo, por que ele e não eu? E pensei que queria muito participar, queria tanto que não me conformava em ficar de fora do projeto, por isso escrevi meu romance e mandei para o André, que estava em Sampa fazendo a pesquisa para o projeto. O André fala que foi o primeiro a entregar a tarefa. Mas é mentira! Eu fui a primeiríssima, só que estou fora... Não importa. Escrevi. Me diverti, e ainda diverti a pelo menos cinco pessoas que já leram. Ou dez. Sei lá. Dezessete, vá lá...
Não briguei com o André. Não briguei com o Cuenca. Tirei o problema de minha cabeça e o ciúme do meu coração.
Agora passo o texto para vocês. Leiam, Eugênia, Amaury, Dante, Helder, Ernane, todos aqueles que me dão o prazer de visitar e de deixar mensagens, e todos os que não conseguem ou preferem não escrever nada. Espero que vocês se divirtam com os capítulos.

Uma história de amor

Lúcia Bettencourt

Capítulo I

Mas por que de amor?

Porque é fácil, ora! Tudo o que você tem a fazer é ficar um mês hospedada na cidade, e, neste tempo, bolar uma história de amor, que depois até poderá ser filmada.

Mas quem é que diz que uma história de amor é fácil? Inda mais numa cidade estranha. Não conheço ninguém por lá. Não falo essa língua cantada deles. Sou tímida. Vai ser impossível!

Porra! Pára de doce! Toda uma população de escritores frustrados e invejosos dando qualquer coisa para estar em seu lugar e você aí reclamando que não dá. Escreve uma merda qualquer, põe uns nomes de ruas e de praças famosas e entrega. O dinheiro tá garantido mesmo! Ninguém tá querendo que você se apaixone, e muito menos querendo que se apaixonem por você. O negócio é inventar uma história.

Mas é isso aí. Ir para lá, uma cidade assim tão romântica....

Caraca! Não confunda vida real com ficção! Será que vou ter que te ensinar tudo?

Como, ensinar?

Olha aí. Você está em Veneza...

Tá vendo? Já complica tudo. Veneza é cheio de clichês...

Clichê facilita, porra! Até entregador de pizza vira uma maravilha quando está numa gôndola. Põe o cara numa gôndola, descreve os músculos dos braços dele se destacando na camiseta listrada, pinga uma ou duas gotas de suor descendo lentamente pelo pescoço grosso do tipo e...

Já sei, mas eu nunca me apaixonaria por um entregador de pizza numa gôndola, por mais tesudo que o cara fosse.

Por quem é que você se apaixonaria?

Deixa eu ver...

Anda logo! Vamos decidir logo esse enredo que eu tenho que dar aula.

Bem, acho que por um poeta. É, um poeta. Inteligente, mas sem ficar se mostrando de mais. Meio inseguro. Assim, às vezes. Mais para calado, mas de um silêncio prenhe de significados...

Era você que estava falando alguma coisa contra clichês?

Eu sei, mas, na verdade, conheci um cara assim na adolescência. Ele ainda não era poeta, era só meu colega de escola. Mas já gostava de poesia, e ficava lendo uns livros de Rimbaud...

O cara era bicha.

Bicha nada! Lia Rimbaud e lia Bandeira, e lia João Cabral.

Como era a cara dele?

Sei lá. Era uma cara de adolescente, cheia de espinha.

E como é que você se apaixonou por um cara cheio de espinhas?

Mas quem disse que eu me apaixonei? Nós éramos bons amigos...

Com que idade?

Uns dezesseis, ou dezessete.

Um cara normal, cheio de hormônio, nessa idade, sendo apenas “amigo” de uma gatinha?

Mas quem disse que eu era gatinha?

Para um cara normal de dezessete anos, toda menina dessa idade, que se disponha a escutá-lo falar de Rimbaud, é gatinha. Gatinha não. Gatésima!

Tudo bem. Eu até que não era das piores, mesmo. E tinha um peitão. Meu peito cresceu antes do peito de todas as garotas da turma.

E que fim levou?

Como? O que é que você quer dizer com isso? Tá criticando o meu peito? Olha o ditado, hein? “Quem desdenha quer comprar!”

Comprado não. Mas se você der...

Me respeite. Você está debochando de mim.

Não. Estou tentando te mostrar como é fácil cumprir sua tarefa. Você curte umas férias e ainda escreve uma história de amor, sem se desgastar.

Então vamos lá. Eu estou em Veneza. Ele é poeta.

Sim, ele tem dezessete anos.

NÃO! Imagine se eu ia me apaixonar, hoje em dia, por um fedelho cheio de espinhas na cara!

Então ele tem sessenta e sete anos...

Porque sessenta e sete?

Sei lá. Gostei do número. E dá para fazer uma história legal, tipo Morte em Veneza, uma última paixão antes do fim.

Não. Você está com fixação em viadagem. Imagina, meu poeta cheio de maquiagem derretendo com o calor! Nunca. Prefiro não me apaixonar.

Assim não dá. Você põe defeito em tudo o que eu falo, mas não colabora com nada.

Desculpe, vai. Mas porque você não põe o poeta assim da sua idade?

Mas o poeta é seu! Você dá a ele a idade que quiser. Ele tem a minha idade. Nasceu no mesmo ano que eu, é de uma boa safra!

Isso mesmo.

Mas é pálido.

Pálido nada. Ele é poeta mas adora andar à beira-mar. Acorda cedo todos os dias e vai fazer uma caminhada. Ele caminha pelas pontes. Está sempre atravessando pontes...

Uma mania estranha, mas até que combina com um poeta. Isso pode se tornar uma metáfora da própria poesia que ele pratica.

Taí! Gostei. E ele trabalha, e é casado, tem dois filhos, um do primeiro e outro do segundo casamento...

Calma, calma. Isso aqui não é biografia. É história de amor. Qual é a graça de colocar como herói um homem casado? E, pior, um homem duplamente casado, tendo que lidar com ex-mulher, pensão, TPM da nova mulher...

Ai, não corta o meu barato. Além do mais, adultério é sempre mais interessante de que um namorico desimpedido! Se você pensar nas grandes histórias de amor, tem sempre um adultério no meio. Veja Mme Bovary! Veja Anna Karenina!

Isso é teoria de francês.

Péra lá! Anna Karenina é de Tolstói.

Eu sei. Mas a Rússia, na época, podia ser considerada uma sucursal da França.

Você nunca dá o braço a torcer, né?

Prá que? E, além do mais, eu tenho razão. Os russos ricos pensavam que estavam na França. No próprio romance todo o mundo só fala francês, só veste francês, só...

Tudo bem, mas ao menos você reconhece o valor de um bom adultério?

Hoje em dia esta palavra nem se usa mais. A-dul-té-ri-o. Que coisa mais antiga. Mas acho que gosto da idéia de um amor que venha para resgatar o seu poeta de uma vida que se tornou muito banal. Um poeta, funcionário público, casado e com filho... só Drummond.

Pois é, tá vendo? Drummond tinha uma amante!

Outra palavra fora de moda. A-man-te. Você está querendo escrever algo no gênero de Nélson Rodrigues?

Não. Detesto estas patologias suburbanas.

Então vamos recomeçar. Esta história de amor já está nascendo muito antiga. Só que agora preciso ir dar aula. A gente se fala.

Ah, não. Vamos marcar hora e lugar para a gente se encontrar. Esse negócio de a gente se fala é muito vago, vou ficar na ansiedade. Vamos jantar, mais tarde?

Hoje não dá. Tenho que levar a Clarinha ao dentista. Prometi a mãe dela.

Então a gente almoça uma saladinha amanhã.

Nem pensar. Amanhã é dia de jogo do Brasil. Já me programei todo para assistir.

Mas esse jogo nem vale para nada. É só um amistoso. Você dá mais importância a um jogo vagabundo do que à nossa amizade? Cara, preciso de você. Não me deixa na mão.

Não tô te deixando na mão. Pelo contrário. Não se esqueça que eu dei a maior força para você arrumar essa boa. E agora estou aqui, dando uma de “personnal editor” prá tua história. Só que jogo do Brasil é minha terapia. Paro tudo e vou ver.

Cara, você é de uma insensibilidade total! In-sen-si-bi-li-da-de. Não é assim que você gosta de dizer essas palavrinhas antigas? Pois, é. É antiga, mesmo, mas vem ao caso e cai perfeitamente aqui. Você é um insensível, um homem de palha, sacou? A gente te toca assim, ó, e você estala, cheio de palha seca, sem vida.

Olha a agressão!

Agressão o caramba. Quem é que agride quem? Você é que me agride com a sua indiferença e seu pouco caso. Não sei como é que eu consegui permanecer tua amiga todos esses anos. Vai. Anda logo. Não quero mais falar com você Nunca mais! Prá mim chega! Some. E não adianta me ligar.

Friday, November 09, 2007

A Beleza Feroz

Vou agora assistir ao programa acima. Mas antes, duas palavrinhas sobre a imagem acima: desde a primeira vez que vi essa ilustração, que fiquei encantada por ela. Há muito que eu apreciava o trabalho do Rui, que conhecia dos livros infantis, mas nada infantilóides, que ele ilustra. Quando estive na Jornada, ele era o homenageado e os trabalhos do Rui, expostos como quadros, me permitiram um outro olhar sobre suas obras. Essa daí me fascina pela sua ambiguidade: são duas cores que se misturam e a gente fica perplexa frente ao desenho, sem saber onde começa a beleza, onde a ferocidade nos atinge. A Bela em Vermelho empresta seu tom à Fera, que, por sua vez, sombreia a formosura, num aviso dos perigos inerentes à beleza. A vida nunca é simples, e é preciso estar atento para isso, desde a mais tenra infância.
Crianças que aprendem a ver com as imagens do Rui terão sua sensibilidade aguçada, serão adultos mais alertas. As imagens do Rui não adormecem nosso intelecto, antes nos fazem pensar.
Vou ao programa.

Mar Vermelho

O Zona Sul está me obrigando a atravessar o Mar Vermelho todo dia. Não sei de onde eles tiraram a idéia de forrar a rua com um tapete, vermelhíssimo, enorme. Não é uma mera passadeira, é todo um mar, sangrando nas calçadas da Dias Ferreira e da Rainha Guilhermina, doendo nas vistas como um terçol. Sei que o Natal enlouquece as pessoas com um delírio decorativo. Eu mesmo me deixei contaminar esse ano, e aqui estou eu com uma caixa cheia de enfeites, uma árvore de Natal e um presépio para montar. Quando encomendei os enfeites, estava entusiasmada, no auge da virose. Agora olho para o volume em cima de minha mesa e me pergunto: Onde? Para quem? Nem sequer pretendo passar o Natal em casa...
Bem, pelo menos não tenho um tapete se esvaindo em minha sala. Na minha anemia, adio o momento de abertura da caixa. Mais uma vez, o palavrão: procrastino. Mas a promessa de um Natal com enfeites mostra uma Lúcia que, timidamente, recomeça a olhar a vida com olhos menos magoados. A árvore é pequena, sem luzes, quase um ramo de oliveira. Farei as pazes com Deus? Ou, pelo menos, comigo mesma?
No mar real uma traineira atravessa ligeira, e eu lembro: navegar é preciso. Viver?

Thursday, November 08, 2007

Milagres acontecem?

De vez em quando me deixo ficar esperando um milagre... Algo diferente, inusitado, que me estimule e me faça ter energia criativa. Se tivesse companhia (ainda tenho medo de fazer algumas coisas sozinha) eu iria para a beira da praia, escutar a canção do mar. Como não vou, me imagino indo, esticando uma canga e me deitando próxima da água, desafiando as ondas. Ficaria cansada tentando encontrar alguma estrela nesta noite nublada. Provavelmente me deixaria enganar, achando que tinha visto uma cintilação. Aos poucos o frio iria me fazendo enrolar nas pontas da canga, até que, me sentindo gelada, me levantaria, já com um pouquinho de sono, para sacudir a areia que teimaria em me acompanhar até em casa. Finalmente, um banho quentinho, e rápido, uma sensação de bem-estar ao entrar na cama, os olhos se fechando à procura dos sonhos.
O milagre? Não, não aconteceria, eu sei. Mas isso nunca me impediu de, de vez em quando, me deixar ficar à espera de um milagre...

Wednesday, November 07, 2007

Só mais uma coisinha

Só mais uma coisinha: e essa é para o João -- Li o Manuel Rivas, um livro de contos onde se encontra a "Língua das bolboretas". Recomendo muito. Acho que o nome é Tic-tac, mas, como o livro, lido, foi enviado pelo correio junto de outros não lidos, posso estar enganada no nome. Talvez o Tic-tac seja do Suso de Toro.
Voltando ao Manolo, adorei os contos em que ele não faz proselitismo contra os Ninja Turtles. Não porque eu tenha algum carinho especial pelos nojentos mutantezinhos que usurparam nomes de artistas tão queridos, mas porque achei que, em sua indignação, o Rivas perde a "mão" literária. Os outros são ótimos, e esse das bolboretas parece o machadiano "Conto de escola".
Fico por aqui. Ou melhor, saio, agora, para o Municipal, onde vou escutar a Orquestra filarmônica de Varsóvia. Lá, lá, lá, ré, dó, lá.

A sereia desequilibrada

Tenho ótimos amigos, e fico feliz com isso. Hoje estava apreciando a gentileza que um deles, o Márcio, me fez: gravou o programa Leituras do dia 20 de outubro, quando o entrevistado foi o Mia Couto, escritor de "minha devoção". Mia se diz poeta, e sem dúvida existe uma musicalidade poética em seus escritos. Mas o que ele é mesmo é um grande contador de histórias. Na entrevista isso fica bem claro: Mia encanta enquanto conta. Ele consegue sustentar toda a entrevista falando apenas de sua obra, mas remetendo a histórias paralelas, demonstrando o "palavra puxa palavra" que faz de uma conversa um prazer sem fim. Terminamos de ver o programa e não sabemos mais nada sobre o autor do que sabíamos antes. Temos a impressão de que ficamos sabendo muito sobre a obra, mas, quem já conhece os romances do Mia, sabe que ele apenas entreabre frestas e aponta caminhos para que nos percamos. Ele é assim: uma voragem. E, como toda voragem, apresenta uma superfície calma e enganosamente serena. Quando mergulhamos, somos sugados para um mundo desequilibrado, de tabus e possíveis transgressões. Falando de O outro pé da sereia, ele desconversa de si e aponta para as fontes históricas -- para logo em seguida dizer que, como história, a que ele escolheu é marcada pela "construção": é um jogo de caixas chinesas. Abrimos uma tampa e encontramos uma outra caixa, mas, ao invés de irem diminuindo, essas caixas se ampliam, acabam por nos engolir. Subitamente percebemos que estamos dentro da história, nós, que nunca nem estivemos perto da África, que desconhecemos o Moçambique e seu presente, e lá estamos exatamente porque desconhecemos -- Somos como o personagem que se aproxima do Monomotapa: não sabemos o que nos espera, nem esperamos as mudanças que nos assaltam, pois nada nos modifica mais que o desconhecido. Um universo sem natureza é tão distante de nós quanto o planeta Marte.
Quando estava na Universidade de Barcelona falei sobre José de Alencar e Iracema. Acho que eles lá não sabiam que Iracema é um anagrama de América, e que não é um nome indígena. Muita gente não sabe, mesmo aqui no Brasil, as pessoas desconhecem isso, pois foi uma criação tão bem feita que ilustra, melhor que nada, o lugar da arte (A arte não é o reflexo do real, mas o real deste reflexo). A sereia de Mia, que precisa escapar de dentro de uma outra representação, é essa América que precisa sair de dentro de Iracema. Somente quando formos capazes de olhar as coisas pelo que elas são e pelo que elas não são, concomitantemente, é que podemos começar a compreendê-las.
Eu, que já não estou entendendo nada do que estou escrevendo, vou-me calando. Ou melhor, vou me despedir com um poema, dos meus. Espero que vocês gostem.

Nunca contemplei o Índico

Nem sei o significado da palavra

Azul

Que pronuncias.

Não tropecei na estrada

Abandonada

Nem chorei pelas dores

Que sentistes.

Tanto mar nos separa

E tanta terra

Só as nuvens do céu

É que conspiram

Nosso encontro.

Como é que penso

Que já te conheço,

E que me conheces

A lágrima

Não derramada?

Tuas histórias

Embalam minhas noites

E eu sonho os teus sonhos

E ofereço-te os meus.

Vou para a beira do mar

Oferto meus tesouros

Jogo as palavras n’água

Devagar

Deito-me sob as estrelas

E aguardo

Que as venhas buscar.

Thursday, November 01, 2007

Todos os santos

Cheguei segunda à noite -- vôo diurno, mas não desagradável. Parecia uma festa, um grupo de italianos conversava, cantava, bebia. Ao meu lado, um ex-jogador de futebol, o Didi, entre goles de cerveja e vinho me pedia que escrevesse sobre ele. "Você faz um conto sobre mim? Não esquece meu nome, Didi." O Didi não tem nada a ver com aquele famoso do futebol brasileiro. Na verdade, é Dietmar, ou seja lá como se escreve o nome dele. O apelido é para facilitar, e talvez para homenagear o inventor do "folha seca". Sei tão pouco de futebol. Sei que existiu um Didi e que existe um gol ou chute chamado folha seca. Na minha ignorância ou fantasia, junto os dois. Mas o Didi alemão não tinha nada de seco. Estava bem umedecido pela cerveja e pela alegria de voltar para ver a filha, uma linda mocinha que completa 15 anos no sábado. Trazia, a tiracolo, o padrinho da menina, o Wolfie. E se entusiasmavam com a ida ao Barra Brasa, fizeram questão de me mostrar o cartão de lá, como se para comprovar que iam mesmo ao paraíso.
Pois bem, cheguei, cumpri minhas obrigações mais prementes e agora me arrasto para terminar as outras coisas que devia fazer. Arrumar gavetas e papéis, por exemplo. Mas prefiro fazer outras coisas, ler o livro da próxima resenha, escrever esboços de histórinhas, comprar utensílios de cozinha e pretender dar uma de dona-de-casa. Só que logo fui desmascarada: queimei a panela fazendo sopa... Então, jogo paciência, saio para tomar um cafezinho e comprar presentes de aniversário, para usar uma palavra que só aprendi nos EUA: procrastino. Meio obscena, ela, não acham? Difícil de pronunciar, difícil de escrever, difícil de ler.
O que não é difícil de ler são as mensagens de boas vindas, que agradeço. Obrigada, Eugênia, Obrigada Amaury e Ernane. É muito bom estar de volta e receber o carinho dos amigos.

Sunday, October 28, 2007

Viagem atribulada

Bem, tinha planos de escrever sempre, de falar com todos e até de trabalhar um pouco. Mas a Espanha e a Telefónica tinham outros desígnios para mim. As conexões wi-fi dos hotéis em que estive não funcionaram. Fiquei sem saber notícias de minha cidade que desmorona aos poucos, mas pude me concentrar nas belezas de Barcelona, de Cadaquès, de Figueres, de Girona, de Tossa de Mar, Lloret de Mar e arredores de Barcelona. Estou em Madrid, numa conexão com fio, aproveitando para agradecer os comentários que só agora pude ler. Aos amigos que me conhecem pessoalmente, obrigada pelo carinho. Aos que conheci aqui através do blog, obrigada pelo estímulo. E esclareço: a Rosalia está na minha bagagem, junto a Suso de Toro e mais outros.Não deu para ler tudo. E eu juro que vou ler, pois folheei e gostei muito. Para deixar a todos com um pouquinho de água na boca, comprei um CD com contos e poemas lidos por Cortázar. Adorável, escutá-lo falando como se estivesse conversando, explicando suas escolhas, e meio que se desculpando por ler. Depois conto mais.
Amanhã retorno ao Brasil. Volto ao meu cantinho, que ainda não está totalmente arrumado. Vou disposta a consertar cadeiras e mesas para poder reunir os amigos, numa inauguração do Cafofo, como diria o MM. Quem sabe uma inauguração temática, com tapas? Tapas e beijos para quem for, então.

Thursday, October 18, 2007

Mimos e meiguices

Descobri que Meiga é o nome que dão às feiticeiras, aqui. Descobri isso na Coruña, pois, no menu do restaurante, havia um peixe com esse nome. O Luciano, um de meus anjos da guarda, leitor de literatura brasileira que me tem acompanhado pela cidade em muitas ocasiões, e foi meu guia na Coruña, me explicou que, além desse peixe, de carne semelhante à do linguado, meiga é o termo que se refere às bruxas daqui. Vejam só que coisa!Acho que assim as feiticeiras, sendo sempre chamadas por esse outro nome, não têm coragem de fazer maldades com as pessoas, e se tornam todas umas fadinhas, voando de giesta em giesta, salpicando de orvalho os arbustos, e afastando as névoas matinais para que o sol volte a brilhar em Santiago. A cidade tem me mimado com esses dias de sol, aqui tão raros. Quando se fala em Santiago as pessoas vão logo pegando os guarda-chuvas, pois sempre "choive", principalmente em outubro. Só que mesmo com todos esses mimos, estou-me sentindo adoecer. Um resfriado, devido a tantas mudanças de temperatura, pois se no sol faz calor, basta atravessar um pedacinho de sombra para a gente arrepiar-se de frio. E um tiquinho de alergia, provocado pelas lãs que a temperatura exige. Acho que ontem tive uma pontinha de febre, mas, como não trouxe termômetro, ela passou despercebida. Apenas mais um pouco de frio, mais alguns calafrios, e muita vontade de ficar na cama, sob as cobertas.
E, mais uma vez, a preguiça me fazendo deixar o trabalho de lado. Mas agora volto ao Mister Pip, que, afinal, não ganhou o Booker Prize, o que me alegra. Sempre gosto muito dos ganhadores do Booker Prize, e este livro me deixou pelo meio da estrada. Parti achando que ia gostar muito dele, mas acabei num outro "sendero", questionando as estratégias narrativas do autor. Vou à resenha.

Wednesday, October 17, 2007

Quiroga e Cadaval

Queria falar desses dois galegos que me conquistaram com sua simpatia e sua arte. O Carlos Quiroga, além de professor aqui na USC é escritor -- romancista e poeta -- e também fotógrafo, e um dos melhores guias que a cidade de Compostela pode ter. Ele é especialista em café: sabe onde estão os melhores cafés (bebida) da cidade e também conhece as livrarias e bibliotecas todas daqui. Já li (devorando) dois livros dele. Um chama-se Periferias e tem um enredo tripartido, um texto é do século XV, outro do século XX e o terceiro é do século XXI. Todos se ligam através da ...linguagem, é claro -- uma preocupação mais que legítima aqui. O outro livro é o final de uma trilogia, e cham-se Retorno a Arder, e se recusa a se deixar classificar, pois é uma narrativa a duas vozes, mas também um livro de poemas e uma coleção de fotos. E tudo se integra, se completa, a imagem se refaz na palavra poética e os textos ficcionais problematizam os desabafos do eu lírico. Adorei. Acabei de ganhar um livro só de poemas, Gong, mas esse vou guardar para depois.
E o Quico?
O Quico é o Cadaval, aquele da peça que assisti, e que me deixou a mim ( e a toda a cidade, pois o teatro está sempre lotado) encantada. E ele é uma figuraça. Divertidíssimo, como aliás, o Mestre Quiroga também, eles me fazem rir o tempo todo, contando suas histórias geniais, ou contando as histórias um do outro. O Quico já andou no Big Brother daqui de Lisboa, era o professor de arte dramática do grupo. Assustou a mulher do Mia Couto, que estava doida para conhecê-lo, pois não perdia nenhuma de suas aparições na TV em Moçambique, pois desandou a contar piadas de ciganos e de passarinhos que fariam Bocage ficar encabulado. Ganha a vida como contador de histórias, e como encenador. Chocou os padres com uma encenação do cancioneiro, pois eles se deixaram perturbar como tamanho do consolo que saía das páginas do livro. Mas é modesto, e doce, e encantador como todos os galegos que encontrei.

Tuesday, October 16, 2007

Pensando em ti

Mesmo longe, mesmo correndo para outra cidade, falando sobre literatura e sobre a língua galega, passo o dia pensando em ti. Com você em meu coração, cheguei até a praia de A Coruña e saudei as ondas, tuas guardiães. Lá de cima do farol, postei-me no centro das rosa dos ventos e para cada um deles sussurei teu nome. Você me escuta? Você se lembra de mim? Existe isso, sons e lembranças aí onde estas? Só não quero que sintas a dor da ausência, deixa que este cálice eu o tomo todo.

Monday, October 15, 2007

Santiago das paixões

Um amigo me escreve (será que posso chamá-lo de amigo, nós que tão poucas palavras trocamos e que tão pouco convívio tivemos?) e me diz que já se apaixonou por Santiago.
Em verdade, em verdade vos digo, é fácil se apaixonar por Santiago, principalmente em dias de sol. Mas também deve ser fácil se apaixonar em Santiago. Para onde olho vejo casais se amando. Talvez porque se trate de uma cidade universitária, talvez por obra e graça do santo padroeiro, como as pessoas se amam em Santiago! Nos parques, imprensados nos muros, nas vielas estreitas, nos ônibus, por todo o lado o amor transborda e eu me encanto com isso. Vá lá, uma pontinha de inveja me dói, mas nada que seja como a maldição de Machado de Assis: um panarício que doa desmesurado e constante. Apenas uma certa melancolia de quem conhece o gosto bom dos beijos nas noites frias e escuras de uma cidade pacata. Ou dos beijos públicos e eufóricos nos parques banhados de sol. As saudades se acendem, mas as lembranças tiram suas arestas, e meus olhos sorriem encantados com tantos amores. Mas há outros amores em Santiago: amores de mães e filhas, que se amparam nas ladeiras. Amores de avós, assustadas com os abismos onde se arriscam os pequeninos. Amores de famílias inteiras, que param para saborear uma torta, deliciosa, cheiinha de amendoas, de onde o pecado da gula foi expulso pela cruz desenhada com açucar. Amores de pais que carregam seus filhos cansados de tantas andanças. Uma cidade pequenina, mas com tanto entra e sai que se torna enorme e variada, Santiago não nos cansa, e nos surpreende, nos envolve, nos apaixona...

segunda-feira

Estou escrevendo num computador diferente, por isso, lá se vao os tils -- nao consigo encontrá-los aqui no teclado...
Hoje mando recados pelo blog - Para o Ernane e a Eugênia, meus beijos e agradecimentos pelos incentivos que recebo de vocês. Para o Amaury, o mesmo. Para o Guido, minhas desculpas, mas tenho tentado entrar em contato com você pelo e-mail, mas algum deus da internet está conspirando contra mim. Ontem tentei mais uma vez. Uma nao, diversas. Só que acho que minhas mensagens nao estao chegando até você. Entao, publicamente, agradeço seu comentário sobre o Borges, que muito enriquece meu blog com seu depoimento pessoal. Imperdível, acho que o melhor de meu blog está no comentário de quem teve a chance de visitar e escutar o velho escritor.
Quanto à "fala", nao se esqueçam que comentei mais do que está no texto aqui reproduzido. Era uma aula, uma coisa mais informal, e a cada autor eu aproveitava para fazer algumas digressoes.
Bem, segunda-feira é dia de volta ao trabalho, e eu estou aqui na universidade para aproveitar e pesquisar um pouco. Segunda-feira, que amanhece enevoada, torna-se duplamente séria. Mas, como Santiago continua benigno e amável, o sol já voltou a se mostrar, e eu retirei um tempinho para os devaneios gálicos. Vamos, entao, às lembranças do fim de semana: missas e música, e muito teatro. Missa cantada, grupo folclórico, música nas ruas. Desde quarta-feira que a regiao tem se prodigalizado a me oferecer todas essas coisas. Mas também tive a chance de ir a duas peças teatrais, excelentes: Shakespeare em galego, para começar, uma excelente adaptaçao de Noite de Reis, pelo Quico Cadaval. E também uma peça 100% galega, Pan (pao, acrescentem o til, por favor) falando sobre os problemas da Galícia, que, segundo um dos 4 esquetes, é uma "puta idéia". Depois conto mais. Agora, volto ao trabalho!

Sunday, October 14, 2007

Entardecer em Santiago

Foi esta a hora. Em outro fuso, talvez, mas a hora foi esta. No entanto, o sol poente não traz as lágrimas e as angústias. Tudo isso se encontra aprisionado em um momento do tempo, imobilizado dentro de mim. Porque, descubro, o tempo pode parar, e para sempre.
Podemos eternizar um momento de angústia e dele fazer um abrigo. Nas chagas abertas, apenas o momento do choque não dói, daí voltar, e voltar, e voltar ao instante passado.
Na praça distante, o presente é um mal-estar. Estar mal sob o sol que arde e faz arder. O sol que enfeita os rostos dos outros com sorrisos de prazer, que ilumina as fachadas com os tons dourados do outono. Todo o mal-estar se encontra aqui, em meu rosto franzido, protestando contra a luz, Nos meus olhos vagueando pelas esculturas da fachada monumental, passeando pelas cores das bandeiras, evitando os rostos tranquilos dos caminhantes.
A hora foi esta e ainda é esta. O corpo se rebela e tonteia, como se o chão faltasse, mas o chão não falta. Está presente nas pedras que se organizam em torres à procura do céu. Desenham arabescos contra o azul do céu, sempre indiferente às nossas misérias. Azul, palavra ou cor, sempre mágica. Azul de tantos tons, tantos matizes, significando sempre algo que não foi ainda dito.
Quanto mais baixo o sol, mais douradas as pedras, mais douradas as árvores, mais dourados os reflexos de vinho nas taças levantadas. Contrastando com o sol, as sombras começam a se desenhar e o vento suavemente acorda as bandeiras para que elas acenem seus adeuses aos que partem.
Ele partiu. Foi essa a hora. E a partida foi súbita. Num instante o riso, no outro o choro.
A catedral se doura toda, celebrando. Uma gaita de foles começa seu lamento,pensando-se canção.
Ele se foi. O vento esfria os derradeiros raios de sol, e inquieta as aves que procuram um pouso na praça sem árvores, agitada de gente. Dentro de mim, o coração bate,violento. Melhor seria dizer que ele se debate e esbarra nos outros órgãos, empurra o estômago, oprime os pulmões. No rendilhado do ferro meus olhos distraem-se das lágrimas. Pedi ao santo uma graça que não me foi dada. Recebo, em troca, uma fachada dourada, com um céu azul e os sons da gaita.
A bandeira do Brasil se abre, única que dança na brisa suave que ainda não consegue esfriar o sol poente. As sombras parecem ter fugido do mundo. Aqui só há sol. A igreja resplandece, dourada. As vozes nunca se calam, o azul não desmaia, o mundo parece em paz. Refletido numa vidraça, o sol me ofusca, me cega. Mais um minuto se escoa, o tempo vai passando vagaroso: são dois os anos que se foram.
Ele partiu. E eu tento reconstruí-lo a cada dia, em cada palavra. E, tal como as pedras que se organizam em torres e escadas tentando chegar aos céus, eu empilho palavras que o reconstruam Será que meus monumentos atrairão a luz do poente? Será que outros verão esses tons dourados crescendo contra um céu azul, descuidado?
Hei de escrever-te até que você se torne mais concreto que minha própria vida. Hei de escrever-te, e por mais que te escreva você continuará sendo o azul por entre as pedras da torre, o azul unindo as embarcações no mar, o azul sustentando o vôo dos pássaros. Mesmo assim continuarei, pois as palavras são tudo o que me resta, por isso, te escreverei.

Botafumeiro

Acho que não contei que vi o famoso turíbulo em funcionamento. Na minha primeira visita à Catedral, o botafumeiro tinha sido retirado, e eu não vi suas dimensões. No dia seguinte, voltei à Catedral, desta vez sozinha e com mais calma, e descobri que o botafumeiro não era tão enorme quanto eu esperava. Ele já estava em seu lugar e, para minha surpresa, ia se iniciar uma missa, portanto fiquei e acabei assistindo a cerimônia. Ia brincar, dizendo cerimônia de insensatez, mas não há nem uma grama de insensatez ali. Tudo é matematicamente preciso e muito cuidado. O turíbulo está preso por uma corda de cerca de um punho de espessura, com uns nós intrincados.
Na ponta usada para balançá-lo, prendem-se seis cordas mais finas, cheias de nós, e é nessas cordas que os homens seguram. Estes homens estão vestidos com capas de peregrinos, ou com umas opas marrons, não encontrei nenhuma explicação. Eles, no entanto, apenas "seguram as pontas". O balanço é provocado pelo padre, ao final da missa. Deve haver alguma ajuda por parte dos seis, mas a impressão é que eles apenas levantam o botafumeiro de maneira a permitir que, com o impulso dado pelo padre, as três roldanas presas no teto criem o movimento pendular. E aí é que se encontra, finalmente, o encanto da cerimônia. Aquele objeto que, parado, não impressiona por suas dimensões, ao voar pela nave se transforma num projétil ameaçador. Ele passa assobiando ao lado de nossas cabeças desprotegidas, chega próximo ao teto da Catedral e retorna embriagado pela vertiginosa velocidade que alcança. Há perigo em sua trajetória, que passa pelo meio da multidão que mal abre espaço para o bólide passar. No entanto, não há notícias de ferimentos graves. Se estivéssemos nos EUA, toda a área teria sido isolada, haveria mil sinais para que as pessoas se afastassem e mais de um milhão de avisos de que a cerimônia poderia causar graves ferimentos nos incautos. Só que aqui todos se recomendam a Santiago e se afastam no último minuto, à procura da foto perfeita. E tudo dá certo. E esse santo encantador, que se deixa abraçar por todos os que aqui chegam, sorri lá do altar, compassivo e saciado. Se um dia seu lado Matamoros acordar, a devastação será tremenda e muitas cabeças rolarão. Santiago, porém, sabe dos incômodos que uma cabeça separada de seu corpo pode causar, e benigno, continua sentado em seu trono, deixando-se abraçar, sorridente.

Saturday, October 13, 2007

Centésima!

Esta, me informa o blog, é a centésima postagem que faço. Coloco então, para comemorar, o texto que preparei para servir de base à minha fala em USC (Universidade de Santiago de Compostela). Como foi uma fala de duas horas, obviamente que não fiquei lendo o que escrevi por duas horas. parti dali para falar sobre os meus autores mais queridos do momento. Achei até um jeitinho de encaixar o Mia Couto, e o Josué Guimarães, o escritor gaucho que dánome ao prêmio que ganhei em Passo Fundo. Vou falar de novo, sobre o mesmo assunto, na Universidade de A Corunha. Portanto, se lembrarem de alguma coisa ou se discordarem do que eu disse, favor avisar. E eu, prá variar, falei muitas abobrinhas a respeito de meus contos, e de mim mesma. Mas isso foi de improviso, e graças a Deus não tenho registro.
Então aqui vai,
A Fala:

Meu nome é Lúcia Bettencourt e estou aquí na USC porque ganhei um prêmio literário da Universidade de Passo Fundo.

Passo Fundo fica no estado mais ao Sul do Brasil, no Rio Grande do Sul. A Galícia está ao Norte de Espanha e é de admirar como podemos nos entender perfeitamente – nao só em termos linguísticos, mas em sensibilidade.

Há muito em comum entre nós: desde as cantigas galego-portuguesas que me fazem desejar ver as “ondas do mar de Vigo” – que, me informam, hoje já não têm nada em comum com as cantadas por Martín Códax – até a alegria e gentileza das pessoas que encontro aquí. Informais, carinhosos, abertos ao diálogo e hospitaleiros, os galegos me conquistaram desde o primeiro contato.

Agradeço a todos os que já encontrei a acolhida tao generosa.

Acredito que alguns aquí tenham tido a oportunidade de ler um de meus contos, “A secretária de Borges”. Este conto dá nome ao meu livro, que também recebeu um prêmio, o prêmio SESC. Nao é graças a este prêmio que estou aquí. O prêmio que me trouxe a esta universidade foi o “Josué Guimarães” que recebi por três contos inéditos, a saber: “A caixa”, “Manhã” e “A mãe de Proust” Creio que a Revista Agalia vai publicar um deles, e agradeço muito o interesse do Carlos Quiroga.

Este prêmio SESC, que começou a ser distribuído em 2003 apenas para a categoria romance, e que em 2005 passou a premiar também a categoria contos, visa a publicação, por uma editora de prestígio e de boa distribuição, como é o caso da editora Record, de autores inéditos em cada categoria. É uma excelente forma de premiação, pois todo autor sabe como é difícil batalhar por uma publicação. Alguns mais tímidos, ou mais covardes, como eu, adiam essa batalha, com medo das cartas de rejeição. Há tantos autores, tanta gente escrevendo, e tão poucos editores que é quase impossível que não se receba pelo menos uma carta de rejeição. Mas o importante é insistir e procurar seu “caminho” -- O meu me trouxe a Santiago, vejam só, e eu nem sou Paulo Coelho nem nada. Na verdade, devo ser uma das poucas pessoas no mundo que nao apreciam as obras de Paulo Coelho. Ele, portanto, nao constará de minha lista de autores contemporâneos já que tenho a liberdade de vir aquí expor o meu gosto pessoal.

Falo, então, dos outros ganhadores do prêmio SESC – O primeiro ano teve como vencedor um romance histórico Santo Reis da Luz Divina, de Marco Aurélio Cremasco, contando a saga da família de Santo, o autor se aproveita para contar a exploração do Paraná – recuperando modos de falar e tradições do passado. No segundo ano, a vencedora foi uma mulher com o romance intitulado As netas da Ema. Essa Ema é a Bovary –heroína do século XIX cuja sexualidade e idéias pouco convencionais levaram-na à ruína e ao suicídio. Eugênia Zerbini resgata suas “netas” e mostra as estratégias de sobrevivência da mulher moderna em nossos dias.

No terceiro ano, o SESC começou a premiar contos e eu fui a vencedora com o conjunto que aquí vocês vêem. Sao dezessete contos de temas variados, mas volto a falar deles depois. Continuo falando de André de Leones e de seu Hoje está um dia morto, romance de formação que comove em sua contundente demonstração de falta de perspectiva que acomete os jovens brasileiros de hoje. Seu romance é iconoclasta e revela que as opções encontradas “sexo, drogas, rock e religião” não são suficientes para a salvação – o único que sobrevive é quem escreve a história trágica dos amigos, indicando que existe, talvez, uma possibilidade de salvação através da literatura.

Este ano os vencedores foram Nereu Afonso da Silva, com seu Correio Litorâneo – uma coletânea de contos muito bem humorada, mas onde o riso se trava por um atento exame dos descaminhos a que o ser humano se vê levado a percorrer; e Wesley Peres, um jovem psicanalista, dono de uma poderosa prosa poética, com um romance de amor e reflexão chamado Casa entre vértebras. Na impossibilidade de escrever a carta que a mulher amada lhe pede, o narrador vai-se construindo em textos densos, líricos e altamente simbólicos.

Como vocês podem ver, o fato de compartilharmos todos o mesmo prêmio não significa, em absoluto, uma uniformidade. Somos tão diferentes quanto os diversos peixes do oceano ou as numerosas aves do céu da Galícia

Isso me leva a dizer que a produção literária contemporânea no Brasil é também diversificada. Talvez mais tarde os estudiosos encontrem um fio condutor dessa geração que abriga nomes como Marcelo Moutinho, Adriana Lisboa, Daniel Galera, Luís Ruffato, Verônica Stigger, João Paulo Cuenca ou poetas como Mariana Ianelli e Henrique Rodrigues. Suas produções se embrenham por estradas diferentes, “senderos que se bifurcan”, como diria Borges, mas todos são caminhos literários, de busca por uma expressão.

Há tantos caminhos quantas pessoas, talvez se pudesse dizer, mas, cada um de nós não hesita em reconhecer dívidas com relação a escritores que nos antecederam. Mia Couto, autor moçambicano de minha predileção, reconhece abertamente suas dívidas com relação a Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Raros são os autores que não se deixaram “emprenhar” por suas leituras. Alguns, como Verônica Stigger, seguramente revelam sua inspiração pela arte visual e pelas convenções dos vídeo-clipes e das revistas em quadrinhos. Com uma obra muito diferente, até repulsiva, em alguns casos, mas cheia de humor, ela procura um caminho novo ainda por explorar.

Mariana Ianelli (Almádena) e Henrique Rodrigues (A musa diluída), para citar dois excelentes poetas, buscam nos textos clássicos sua inspiração, não apenas formal, mas até temática. Enquanto uma cria uma poesia vigorosa e dialoga com os clássicos num discurso elevado e denso, o outro, como o título indica, dilui a inspiração clássica para mostrar que a opção pela cotidianeidade não impede o olhar poético.

Marcelo Moutinho, contista, possui um texto fortemente comprometido com um universo popular, onde não existem heróis, ou melhor, onde o maior heroísmo é a sobrevivência. Seu universo de pequenos funcionários e travestis lembram o mundo de Lima Barreto, mas seu lirismo o afasta dessa fonte e o aproxima de autores mais modernos, como Oswald e Clarice. Seu livro, publicado pela Rocco, chama-se Somos todos iguais essa noite, título retirado de uma canção popular, o que demonstra como as fontes em que todos nos abeberamos são variadas – Estamos abertos ao mundo – artes visuais, música, internet, tudo o que nos rodeia vem a ser apropriado por nossos apetites literários.

Chegamos,assim, a um autor como Daniel Galera, cujas primeiras incursões literárias foram livros publicados pela WEB e que acabou sendo descoberto e publicou seu romance Mãos de Cavalo pela Cia das Letras.

A rapidez do mundo moderno também provoca que os autores dos nossos dias repartam seu tempo entre escrever e organizar volumes de antologia ou séries de romances como é o caso de Ruffato, que todos aqui já conhecem, e do Cuenca. Aliás este último está lançando seu romance O dia Mastroianni (Agir), e, apesar de não conhecer o texto, afinal está sendo lançado hoje, posso apostar, e acho que vocês também fariam o mesmo, que tem a ver com o cinema...

Demonstrando que a globalização toma conta de todos nós, não são poucos os autores que, como Adriana Lisboa, procuram em lugares e autores distantes a inspiração para suas obras.

Espero que esse breve apanhado de autores brasileiros lhes abra o apetite para conhecer o que se está produzindo na atualidade, mas que não se esqueçam de ler, ou reler, autores já consagrados como Alberto Mussa (O trono da Rainha Jinga, O enigma de Qaf e O movimento pendular, todos da Editora Record) e Cristóvão Tezza (com seu último lançamento O filho eterno), e os ainda muito amados Rachel Jardim, Antônio Torres e Helena Parente Cunha. Esses autores, em plena produção, já têm consagração e reconhecimento, e seus novos livros são saudados sempre com alegria.

Agora passo a palavra a vocês – quero responder às suas curiosidades quanto ao conto que leram e me colocar à disposição para responder quaisquer perguntas sobre o que acabo de falar e sobre a minha obra. E igualmente sobre o prêmio SESC, pois está aberto a inscrições também a partir do estrangeiro.

Obrigada a todos.

Promessas vãs

Xente! Até parece que eu sou muito mentirosa, mas não sou não. Tenho tentado postar, mas as coisas se complicaram um pouco, primeiro por causa dos horários peculiares aqui na Galícia. O xantar, que é o nosso almoço, acontece aí pelas três da tarde. A cena, nosso jantar, acontece lá pelas dez da noite. Eu ando meio tonteada com os horários, mas não quero deixar de participar de nada. Então fico com uma "dupla xornada": os horários matinais, a que estou habituada e os noturnos, sustentados por muito café e bons programas. Se estou me divertindo? Claro! Para começar, eu sempre me divirto. E depois, porque tenho tido muita sorte. Os dias estão lindos, a temperatura quentinha, de dia faz até calor. As pessoas são formidáveis, a cidade é linda e cheia de coisas diferentes para fazer. E há o tal do "clima"de Compostela, onde os sinos nunca param de tocar, e onde as pessoas chegam a todo o momento dos mais improváveis lugares, e todas as que chegam acreditam em alguma coisa transcendente. Acho que sou a menos mítica das pessoas prsentes aqui. Tão pouco mítica que meu computador, revoltado, tem se recusado a trabalhar para mim. Algumas vezes é por causa da rede wi-fi, que se revela inconstante e fugidia. Outras é porque ele se recusa a se recarregar em certas tomadas...
Só sei é que, quando ele me esnoba, trato de ir fazer outra coisa. Vou passear, por exemplo. tudo me chama lá para fora, desde o sol do entardecer, que doura tudo em que toca, até a música que não cessa. E acho que é isso que vou fazer. Depois eu conto da minha "fala" na USC e de minha ida a Finisterra, ou Fisterra, como dizem por aqui.
Entom, até breve. Acho que xa estou falando galego, mas nom tenho muita certeza. Só aprendi unha ou duas cousas, como o "x" e o "unha", além do "nom" e da facultade de filoloxia, e e também do som de TCHE do ch.

Wednesday, October 10, 2007

Santiago

Meus leitores devem estar achando que virei a bela adormecida. Fiquei em casa sonhando até hoje? Não. Andei arrumando a casa, que já está, aparentemente, sem caixas (mas que ninguém se aproxime do quarto de empregada, pois lá está toda a bagunça.
Quando voltar, chamarei os amigos para comemorar, embora esteja sem cadeiras, pois todas estão quebradas e precisam de conserto e de palhinha.
Mas não quero ficar dando notícias disso: o importante é que já estou em Santiago de Compostela, que me recebeu com um por do sol espetacular. Vou sair e tirar fotos e prometo fazer posts diários.
Então, até muito breve.

Tuesday, September 18, 2007

Em casa, sonhando

Não fui e não vou ao Riocentro hoje. Mas estou em casa, sonhando com viagens. Para Santiago de Compostella, em decorrência do prêmio. Para terras distantes, procurando amigos que quero conhecer melhor. Á volta de meu quarto, porque sou de formação clássica e sei que vamos muito mais longe quando ficamos aqui mesmo.
Ontem fiquei emocionada com a leitura dramatizada do conto A secretária de Borges. Foi lido por André Gracindo, e ele não desmereceu em nada o sobrenome famoso. De olhos baixos, ele parecia mesmo um Borges, novo, lendo de memória e não com o olhar. E as pausas e entonações que ele deu ao texto, tão diferentes de minhas possíveis pausas e entonações, me fizeram sorrir, encantada de ver um novo entendimento surgindo. Um Borges ligeiramente diferente do que eu tinha em mente, um pouco mais malévolo, talvez mais borgeano que o meu...
Vi a mensagem do Ernane, de quem muito ouço falar, e agradeço. Pode deixar, darei seus parabéns à Rachel.

Monday, September 17, 2007

Impressões bienais

Linda e enorme, mas não muito freqüentada. Achei que este ano o público não compareceu. Mas os estandes estão lindos, cheios de livros belos e maravilhosos. E os ambientes estão sensacionais. Sábado e domingo, é bem verdade, foram dias de muito público. Crianças incontáveis e muitos adultos, também. Principalmente no sábado, pois domingo teve Flamengo e Vasco. Instantâneos da Bienal? São vários. Amigos se reencontrando, comidinhas compartilhadas em ótimos barzinhos, a fila da pipoca, os bons cafés, as ausências de uns e outros, as presenças de gente muito, muito legal... As falas têm sido ótimas, geralmente apaixonadas e interessantes, veementes. Raras são as vezes que a palestra não engrena. Os assuntos variados interessam a muitas pessoas. Infelizmente não pude ir a tudo o que queria assistir -- problemas logísticos. Amanhã não sei nem se vai dar para ir lá -- problemas familiares. Quarta não vou: é a festa da Rachel Jardim, e eu não abro mão de ir dar um beijo nela.
Já encontrei diversos livros que quase que comprei, só que depois lembrava de minhas caixas de livros ainda por abrir e desistia de trazer mais algum para casa. Ontem acabei comprando, mas tecnicamente tratava-se de uma revista... Na verdade, parece um dicionário, de tão alentada: falo da ótima revista teresa...Todinha sobre Machado de Assis -- não pude resistir! Em casa, procuro pelo outro pé da sereia, que sumiu! Odeio quando isso acontece, de um livro se esconder no meio da leitura, mas os livros têm lá suas razões... Aguardo. Ultimamente, só faço aguardar.

Saturday, September 15, 2007

Bienal, bienais

Bienal do livro, pela primeira vez com crachá de "autor". Eu sempre ia a Bienal. Mesmo que dissesse: esse ano não vou -- acabava me deixando tentar ou por uma palestra, ou por um bate-papo, e quando menos esperava lá estava eu, deslumbrada. Só que este ano é diferente. Estou com algumas programações já agendadas há muito tempo. Hoje, por exemplo, falamos no Prosa na Bienal, sobre prêmios literários. Para mim, o concurso do SESC foi uma porta de entrada neste mundo a que eu desejava ardentemente pertencer: autores publicados. Só que o que parecia meta, assim que foi alcançado, demonstrou que não passava de uma porta de entrada, e que, para mantê-la aberta, era necessário muito mais do que eu pensava. Os autores precisam de demonstrar sua consistência e regularidade de produção.
Mas trato aqui de emoções e de iniciações. Foi bom ir à Bienal e ser convidada para a festa de abertura, no Copacabana Palace, onde, sob lustres mais pesados que os da ópera, não se encontravam fantasmas, mas autores de carne e osso. A noite foi ótima, os vestidos eram lindos -- e de todos os gostos. Havia boa bebida, boa comida, muita gente e mais fofoca. Os risos talvez tenham sido um presente a mais.
O Copa não perde sua majestade, os sonhos parecem brilhar em cada olhar fixado sobre nós. Bebi champagne, falei com uns e outros, dancei com outros e uns. Mas agora, aqui em casa, em frente ao meu computador, sinto que este é o lugar que mais me agrada. Aqui as palavras se agrupam e me escrevem, me abrigam e me revelam. Bienal, embriaguês de textos e um enorme prazer de andar por entre exemplares sedutores. Bienais do passado, olhada sempre com desejo e fome,

Friday, September 14, 2007

Rapidinha

Hoje foi dia de arrumação: Abre caixa, descobre aquilo que você julgava perdido, hesitação para escolher onde guardar o objeto, coloca numa gaveta, ou prateleira, e ter a certeza de que aquilo vai continuar perdido. Metade das coisas qe se tem vivem perdidas. Bem, provavelmente nemtodo o mundo é assim como eu.
Consegui esconder quase tudo o que saiu das caixas hoje. Não sei quando vou reencontrar as coisas, nem quando vou ter mais tempo para me organizar. Mas meu cantinho começa a se fazer mais reconhecível, já tenho um quadro na parede. Tenho plantas pela casa. Já passei o aspirador de pó no chão... Daqui a muito pouco terei um lar, ou seja, saberei onde ficam os interruptores, onde estão as taças e os copos, terei um cantinho predileto. Mal posso esperar!

Wednesday, September 12, 2007

Atrás do caminhão da FINK

Mudança. Mudar de casa implica em mudar de vida, também. Por mais que a gente leve os móveis, os retratos, as lembranças, quando colocamos nossas coisas em um novo ambiente, elas revelam aspectos estranhos, que ainda não conhecíamos. As imperfeições aparecem: aquele arranhadinho que ninguém viu durante anos, agora se coloca em evidência, por exemplo. As fotos parecem um pouco mais amareladas, o porta-retrato perde o equilíbrio e já não se sustenta. O quadro que amávamos e que supúnhamos que ia ficar lindo em cima do sofá, nesta nova posição não combina. Continuamos amando o quadro, mas ele tem que se retirar para cima do piano. Um piano que ninguém toca, e que por isso mesmo é intocável. Para onde vou carrego meu piano, uma promessa de sonho.
O pior de tudo parece acontecer com as cores. Estofados que desbotam, vermelhos que se tornam sanguíneos demais, demoramos a nos acostumar com as tonalidades novas que nossas cores adquirem. Algumas coisas, no entanto, se dignificam: A mesa da cozinha que vira mesa de jantar assume nova dimensão e pose. Suas pernas se alongam e ela se posta sobre o chão como uma gazela, orgulhosamente examinando seu novo habitat. Ou a estante, que durante anos serviu para armazenar livros pouco lidos, agora destinada a exibir objetos de enfeite, deixa seu ar pesado e cansado de lado e se revela leve e elegante.
Me perdi, divagando, em vez de falar sobre minhas emoções acompanhando o caminhão da FINK. Descendo a Estrada do Joá, ele sacolejava levando lá dentro uma parte de minha vida, e quase todos os meus sonhos. Meus livros estavam lá, e eu os sentia alegres. Eles, que me levaram para passear sempre que eu quis, agora empreendiam uma aventura, levados por mim. Saiam de seu habitat e iam para um novo lar, apertadinho, mas mais iluminado. A cada sacolejo do caminhão eles me acenavam suas páginas e diziam: não se preocupe, você vai ficar bem. Nós estaremos com você e a faremos se sentir em casa assim que nos acomodarmos. E eles estavam tão confiantes, tão joviais, que , de repente, meu carro foi ficando para trás, preso no trânsito, enquanto eles se iam , aventureiros, na frente. Chegaram antes de mim no novo apartamento, mas não subiram logo. Ficaram lá embaixo, curtindo o jardim do edifício, escutando o barulho do trânsito, crianças alvoroçadas num passeio de colégio. Depois, serenamente, adormeceram em suas caixas, já dentro da nova biblioteca, aguardando que eu, amorosamente, os venha acomodar. Pensei em contratar alguém para organizá-los para mim, mas agora, ao escrever, percebo que devo isto a eles: Eu mesma abrirei as caixas e os colocarei em seus lugares. Eu é quem vou acomodá-los e tratá-los com o carinho que eles merecem. São mais que livros: são a vida que me restou.

Tuesday, September 04, 2007

Mia, mais que querido.

Postei a declaração de amor de meu mano Dré e depois fui dar uma espiada nos comentários de posts anteriores. Daí que vi o comentário do Marcelo (é você, meu amigo M.M.?) e tive que voltar ao tópico do Mia Couto. Poucas vezes em minha vida me impressionei tanto com uma pessoa em tão pouco tempo. E não é porque ele é bonito (e ele é mais que bonito), nem porque ele é elegante (e ele é mais que elegante). Tem a ver com o olhar que ele nos dirige. Quando o Mia nos olha, vem como que uma onda de luz azul que nos transfigura. Todos que conversam com o Mia mudam de atitude: a gente se coloca mais esticado, corrige a postura, procura palavras, sorri mais. Eu tive a oportunidade de ver isso acontecendo com todo o mundo que se acercava dele. As inúmeras fãs, de rostinhos deslumbrados e brilhantes de emoção, os velhos senhores intelectuais, os jornalistas ávidos, as professoras seguras de si e os intelectuais da moda, ao chegarem perto de sua doçura, resplandeciam com a luz que emanava dele, astro solar, mas humilde, delicado, de uma gentileza de ave. E, quando a gente julgava que o tinha apanhado, já ele voava, muito alto, embevecendo-nos com o desenho perfeito de seu vôo. Ele ia embora, mas seu interlocutor mantinha o sorriso, extasiado, enquanto pouco a pouco ia perdendo o explendor. Mas a gente guarda uma lembrança alada, esvoejando em nossos devaneios: são os sonhos que ele nos deixa de presente.

Melhor que Prozac

André de Leones colocou esta carta, ou crônica ou louvação, no blog dele. Pedi-lhe licença para copiá-la no meu e vocês, ao lerem, vão ver por quê. Há muito tempo que não recebo tantos elogios, e tão bem escritos. E assim, por puro narcisismo, coloco aqui, e a ela recorrerei sempr que a auto-estima baixar.
Obrigada, Dré. Não mereço, mas gosto de ler assim mesmo.

LÚCIA B.

A primeira vez em que eu ouvi falar de Lúcia Bettencourt foi em um dos dias mais felizes da minha vida: o dia em que o Henrique me ligou dizendo que eu era o ganhador do Prêmio Sesc de Literatura. Eu era o romancista da hora, e Lúcia, a contista. Siameses.

A gente começou a se falar por e-mail e, então, em um dia particularmente delicioso, ela me ligou. A voz dela. A voz da Lúcia era uma voz delicada, pequena, e eu me surpreendi ao encontrá-la pessoalmente meses depois, na ABL, pro lançamento dos nossos livros: Lúcia Bettencourt era, e é, um mulherão.

Viajar com esse mulherão pelo Brasil, promovendo nossos livros e o Prêmio Sesc, valeu por duas ou três faculdades, como se diz por aí. Essa mulher, a quem eu, orgulhosamente, chamo de "mana", me ensinou mais do que eu mereceria saber. Claro que, em Passo Fundo, onde estivemos juntos para a Jornada Nacional de Literatura, a coisa não poderia ser diferente.

Ainda em Porto Alegre, ao chegar ao hotel, vê-la caminhando na minha direção, dizendo o meu nome, foi o tipo de coisa que me deu toda a segurança do mundo pra Jornada que se iniciava, algo como a certeza de não estar sozinho. De fato, após sei lá quantas viagens juntos, acho que ia ser muito difícil encarar a estrada sozinho, sem a conversa, o ótimo humor, os livros e as guloseimas de Lúcia. Siameses.

A emoção maior, contudo, ainda estava por vir. Foi em Passo Fundo, no Circo da Cultura, onde assistíamos à cerimônia de abertura da Jornada. Havia uma senhora simpática sentada à minha direita (Lúcia estava à esquerda), com alguns papéis no colo. Nesses papéis, meio que sem querer, eu li o título "A Mãe de Proust" e o nome da Lúcia juntinho do número "1″. Foi quando eu saquei: aquele era o resultado do Concurso de Contos Josué Guimarães.

Minha primeira grandimensa emoção em Passo Fundo foi ver a Lúcia subindo aqueles degraus pra receber o prêmio (cinco mil reais, troféu e viagem pra Santiago de Compostela). O que vinha à minha cabeça era uma coisa só: ELA MERECE. E merece mesmo. Merece isso e muito mais.

Na quarta-feira, quando, à noite, Lúcia participou do debate sobre "arte e transcendência", sua exuberância verbal mais uma vez ganhou a platéia. Claro que o strip à Gilda angariou, de cara, a simpatia das milhares de pessoas presentes (Lúcia tirou apenas as luvas, como Rita Rayworth, e não precisaria tirar mais nada - como Rita Rayworth, aliás, não precisou), mas suas colocações, claras e pontuais, colocaram no saco o academicismo caduco e/ou displicente de alguns dos debatedores. Lúcia emprestou carnalidade à transcendência, e o debate ganhou peso de verdade. Aqueles aplausos, ao final, tenho certeza, foram quase todos pra ela. Os meus, pelo menos, foram todos pra ela. Como poderiam não ser?

Eu não vou ficar aqui dando uma de biógrafo e contando coisas e loisas da vida da Lúcia, até porque eu não tenho esse direito. Mas posso dizer que ela passou por poucas e boas, e que o Prêmio Sesc foi encontrá-la, há mais de um ano, meio que aos cacos. Gosto de pensar que ela vem se recolocando de pé, e percebê-la fazendo isso é algo dolorosamente lindo e incrivelmente inspirador. Sabe aquilo de andar por aí com ela valer por duas ou três faculdades? Pois é, tem a ver com isso.

Não me faltam motivos pra essa rasgação de seda explícita, mas nunca gratuita. Eu me lembro de quando, por exemplo, contei à Lúcia que tinha conhecido uma mulher em Paranaguá e que, por causa dela, estava deixando tudo em Goiás para me mudar pro Sul e me casar. Acho que ela foi uma das poucas pessoas que não me censuraram, não me sacanearam, nem nada parecido. E isso foi importantíssimo, porque eu estava jogando tudo pro alto e, porra, estava morrendo de medo de quebrar a cara, claro. Lúcia me deu a maior força. E me deu um dos melhores conselhos que eu já recebi em toda a minha vida: "Torne tudo motivo de festa. Mesmo coisas simples, como arrumar a cama de manhã cedo." Tenho seguido esse conselho à risca, e, caramba, estamos todos muito bem.

Este texto há muito deixou de ser (nunca foi) uma crônica ou croniqueta diretamente relacionada com a minha participação na Jornada de Passo Fundo (prometo compensar nos textos seguintes) para virar uma desavergonhada declaração de amor por essa mulher extraordinária. Daí que peço desculpas pelo derramamento talvez excessivo, ao mesmo tempo em que digo: dane-se.

Quem conhece bem a Lúcia, sabe que ela merece. Merece isso e muito mais. Love, sister. Siameses.

Sunday, September 02, 2007

Acabou-se o que era doce

Reli os últimos posts sobre a Jornada, e sorrio, pensando que aqui guardei detalhes insignificantes que, no entanto, me fazem reviver os instantes de maior emoção. Falo dos quindins, de que já me esquecera, pois só me lembro da doçura do escritor moçambicano, com suas histórias e sua caixinha de sonho. Falo dos rótulos de vinho, mas o que ficará para sempre é a beleza da fusão de palavras em imagens. Se falei da lua, foi na tentativa de recuperar algo que me acometeu, no instante que a vi, uma volta ao passado, uma lembrança doce. Outras coisas aconteceram na jornada, e muito mais importantes. Tantas palavras foram ditas, ou caladas. Tantas promessas foram feitas, tantos sonhos foram sonhados, mas essas coisas importantes serão anotadas, tratadas por mim ou por outros. Os pensamentos, as reflexões permanecerão. O troquinho miúdo de solidariedade de emprestar um casaco a quem tinha frio, de receber um olhar cúmplice no meio de uma platéia de estranhos, de ganhar um presente que nem merecia... Isso são detalhes que correm o risco de desaparecer, levados na enxurrada da vida. Mas não vou deixar que essas pequenas emoções se esvaiam. Isso foi o que fez das Jornadas dias tão intensos e especiais.

Friday, August 31, 2007

Confusões tecnológicas

E eis que, embora não fosse essa minha intenção, acabo tendo uma espécie de diário aqui neste blog. Uma espécie porque estou bem consciente de que ele pode ser lido, embora eu não me esforce para que ele seja conhecido. Um amigo me falou que colocou no seu blog um título assim como dicas para passar no vestibular, e que isso aumentou à beça o número de hits (será que é isso que se diz?) no tal blog. Aliás, o blog dele é muito mais sofisticado que o meu, com contadores e gráficos que lhe ajudam a administrar seus escritos, como se fosse uma novela. Eu fico com esse meu formato " blog 101" e nem sequer consigo publicar tudo o que quero. Ontem a noite, depois de descrever uma festa de comemoração e o rótulo do vinho Reserva dos Amigos, acabei perdendo todo o post, que se recusou a ir para seu devido lugar. Nem sequer consegui salvar um rascunho para mandar depois. Mas, em compensação, mandei resenha pela internet lá mesmo da lona, com esse meu equipamento de laptop e modem da vivo, que me rompeu as fronteiras das antes inevitáveis tomadas. E é banda larga, é um show.
As jornadas aqui de Passo Fundo continuam me encantando. Hoje levei o dia devagar, pois ontem quando finalmente cheguei ao hotel, estava um bagaço. Mas assisti a uma espetacular palestra com o Ferrez, que me abriu os olhos para muitas coisas. As idéias se agitam em meu cérebro, as emoções me invadem, as confusões me rodeiam e dou mil bandeiras, mas estou feliz.

Thursday, August 30, 2007

Noites brancas

Falo desta madrugada gelada, prateada de lua, que se seguiu a um dia intenso. Não consigo dormir, não quero que este dia termine, um dia que começou com um discurso acadêmico e que passou por uma palestra sobre arte e erotismo, com direito a vaias e a bombas de hiroshima, e que depois teve o extraordinário espetáculo de Dario Fo, representado pelo Julio com a maior entrega que já vi no palco. Em seguida, minha participação na mesa Arte e transcendência, logo eu, bicho da terra tão pequeno, me fazendo ridícula, tropeçando no tapete das etiquetas, enquanto brilhavam as estrelas de Lya Luft e de Affonso Romano de Sant'Anna, de Mario Sabino e de Mariana Ianelli. Aliás, a Mariana é uma estrela de primeiríssima grandeza. Seu livro, Almádena, é tão elegantemente lindo, tão sensível e profundo, que todos nós nos reconhecemos nele. Aguardo um momento de serenidade para voltar a lê-lo, com unção. Mas a serenidade está longe de mim. Não consigo dormir. Estremeço de frio, embora esteja com o aquecimento ligado e aninhada entre lençóis. Escuto o canto de um pássaro -- rouxinol ou cotovia? Ou seria apenas algum pássaro mítico, o canto de alguma sereia extraviada, atraída pelas inúmeras seduções da jornada?

Tuesday, August 28, 2007

Prêmio Josué Guimarães

Agora já posso revelar o meu segredo: Recebi o prêmio Josué Guimarães com os contos
A mãe de Proust
A caixa
Manhã.
Acho que nem preciso dizer como estou feliz. E que estou compartilhando este prêmio com o Guilherme, que ainda me habita

Monday, August 27, 2007

Passo Fundo

Cheguei a Passo Fundo, com olhos de encantamento. A cidade não é especialmente bela, mas tem um coração. Essa universidade que transcende seus limites de "interior" e que avança pelo imaginário de brasileiros, de angolanos, de poloneses e outros através do trabalho de um grupo enorme, liderado pela Tânia, que mal conheci mas que já parece amiga de uma vida inteira. Gostei de meu "ônibus escolar", que me trouxe de Porto Alegre até aqui na companhia de gente tão maravilhosa em carne e osso que nem parecem "autores consagrados" nem "editores renomados". Eles existem, eles conversam e riem, comem quindins (ou chocolates, como a menina da tabacaria), fazem-nos pensar ou matam-nos de tédio, carregam suas malas e contam suas histórias -- maravilhosas, instigantes, repetidas, sedutoras--. Alguns são pessoas de ação, fazem, planejam, organizam. Outros são contemplativos, absorvem por todos os poros, pelo olhar, pelos ouvidos, tudo o que podem. Ainda nem cheguei na Jornada propriamente dita, estou só no hotel, mas já me sinto feliz, com a maravilhosa sensação de pertencer a um grupo.
Agora vou trocar de roupa, tentar comprar uma máquina fotográfica e, finalmente, ir ao encontro dos outros peregrinos nesta romaria cultural. Os sinos ao longe avisam da passagem da hora. É tempo.

Thursday, August 23, 2007

Estranheza

Ontem li em voz alta um conto de Felisberto Hernández para as proustianas (Rachel, Stella, Nelly, Sylvia, o grupo todo, só faltava a Laura). Elas adoraram. Mas eu me pergunto: quem não adora Felisberto? Ele é um sedutor. Suas histórias caminham devagar -- devaneando -- e sempre que existe a possibilidade de o leitor se cansar e olhar o relógio, ou afastar os olhos da página, ele nos oferece alguma coisa inesperada e valiosa, como uma imagem estranha, uma observação inteligente e saborosa como uma iguaria de Circe. Não da mitológica, mas daquela Circe envenenadora de Cortázar, que nos faz apreciar até os mais repulsivos ingredientes, dos quais só nos damos conta depois de experimentarmos o seu sabor... Foi uma manhã de Balcão, pois é este o nome do conto que li, e estávamos sentadas ao lado do "balcão" da Dedei, amplo, com suas plantas e sua vista para a enseada de Botafogo. Vejam como são as coisas, bastou escrever "enseada de Botafogo" para Machado invadir minhas lembranças e eu ficar pensando como o universo de Machado é diferente do do contista de Montevidéu. Machado criou e nutriu seus loucos com a ciência e a filosofia. Felisberto fê-lo a partir dos sonhos e da arte. Seus contos são melodias onde os acordes se desenvolvem em pequenos trechos que se dispersam para se agruparem todos no final, fazendo sentido ou desfazendo os sentidos e nos devolvendo nossas emoções e pensamentos com uma nova roupagem.
No fim do dia me entreguei a Tezza e suas angústias. Só estou no começo, mas percebo como é denso e trabalhado o seu texto. Minha professora eterna, Marlene de Castro Correa, dizia que Drummond era uma mistura de paixão com meticulosidade. Encontro essas qualidades no texto de Tezza. Hoje vou dedicar mais tempo a ele.
Para os curiosos: Os livros em questão são: O cavalo perdido e outras histórias, de Hernández e O filho eterno, de Tezza. Valem muito a pena.

Tuesday, August 21, 2007

Uma mulher com um segredo

Vejam como são as coisas: Inesperadamente, uma campainha de telefone toca e sua vida se modifica, os planos se desfazem, ou então surgem já prontos e reluzentes numa nuvem de ouro e incenso (será que é assim mesmo que se escreve?). Há meia hora atrás eu carregava minha placidez, sem sustos. Agora meu coração sobressaltado pula, inquieto, dentro do meu peito e eu me transformei numa mulher com um segredo. Um segredo que pulsa, como uma nova vida, e que brilha como um sol pelos meus olhos espantados que, instantes atrás, se embaçavam de mesmice.
Queria telefonar também, e me transformar em anjo mensageiro, queria dividir com o mundo essa notícia, mas não posso. Trata-se de um segredo. Preciso calar, apagar o brilho dos olhos, sossegar o coração e continuar vivendo minha vida a conta-gotas, mesmo que minha taça esteja transbordando de alegria. Porque é alegre o meu segredo. É iluminado de sol e saber. Mas eu me calo, e me envolvo nos véus do mistério.
Um anjo me anunciou a boa nova. Outro anjo me confirmou. E eu me maravilho e, finalmente, me entristeço. Onde está você meu amado, para se alegrar comigo?
O que vale é que tenho Felisberto Hernández aqui comigo. Embarco nas palavras dele e navego pela casa inundada, esquecendo de meu coração também inundado de prazer.
Ave, palavra. Ave, T. Ave, L.

Saturday, August 18, 2007

de exílio e outras solidões

Minha companhia neste sábado é a TV ligada. Sem que eu preste atenção às vozes, seu som me faz companhia, e volta e meia eu olho para essa visita tagarela, que, mesmo ignorada, continua seu solilóquio na esperança de me fisgar, em algum momento. Mas eu resisto. Devia estar fazendo as resenhas atrasadas. Termino de ler os livros, começo a escrever, depois desisto, vou jogar paciência. Ou vou fazer um lanchinho, Ou tirar uma soneca.Ou escrever no blog... Aqui estou eu, a tv em frente, os livros a meu redor, a cabeça vazia. Ou cheia do que não devia. Um sábado pecaminoso, improdutivo,preguiçoso, seguindo uma sexta-feira idem. Amanhã saio dessa. Tenho programa. Vou ver amigos, vou ao teatro. Mas, e as resenhas? Volto para elas. Ao menos tento mais uma vez.

Saturday, August 04, 2007

Dallas, partindo.

Desta vez deixo Dallas com um gostinho de quero mais na boca. Mas o que me espera é NY, a cidade que parece feita de energia. Quando chego lá eu me sinto devagar, lenta, pesada, pois tudo parece estar acontecendo na velocidade da luz. As pessoas andam correndo, os edifícios engolem milhares de pessoas, como aqueles monstros mitológicos que exigiam o sacrifício de pessoas. Engolem e vomitam depois, e a multidão, estonteada, parece escapar de um monstro para ser engolido por outro, subterrâneo e lúgubre. Os que escapam zunem como moscas atraídas pelos letreiros da cidade. Broadway, Times Square. Soube que tem gente que não gosta de suas luzes e do constante burburinho a seu redor. Pos eu adoro.Gosto de parar e atrapalhar centenas de pessoas que não chegam a compreender o meu irresistível desejo de olhar à volta, de me banhar de luz. Mas também gosto de me refugiar em alguma sala menos procurada de algum museu, e me perder na contemplação de alguma beleza ou terrível hediondez. Porque há muitas coisas feias em Museus. Há gente horrorosa tanto retratada quanto visitando as artes. Há quadros que são dolorosamente feios, propositalmente desagradáveis. Há assuntos terríveis, inquietantes. Depois eu conto o que se passar por lá. Agora, neste instante, o futuro ainda não existe, ou talvez só exista em alguma cidade neo-zelandesa, ou em alguma província do Japão. Hoje já é amanhã por lá. Me lembro de quando Guilherme viajava para a China que eu gostava de brincar com ele e perguntar, quando ele me ligava: E aí, o que é que vai acontecer comigo amanhã? Ele habitava o futuro, e isso para mim era tão estranho quanto agora é saber que ele está vivendo somente no passado. Como reverter o tempo e reencontrá-lo? Minha viagem ainda só tem um vetor, é como a viagem daquele filme 2046. Vou seguindo pelo tempo, mas estou em outro 2046, aquele do passado, do quarto de hotel onde vivia a pessoa amada...
Voltando ao presente, é hora de fechar as malas. E de mandar um beijo aos leitores, presentes e passados, mas também futuros.

Wednesday, August 01, 2007

Museus e mais museus

Muito melhor que fazer spinning em Dallas é visitar seus museus. Ficam um ao lado do outro, no cultural district, que, na verdade, não é bem em Dallas, mas em Fort Worth, na cidade universitária. Os museus são lindos, belas obras de arquitetura, com espelhos d'água e design moderno, esculturas na entrada, ótimo acervo, embora não muito grande, e extraordinárias exposições. Fui ver From Mirror to Portrait, no Kimbell Art Museum, e Ron Muek no Modern Art Museum of Fort Worth. Duas exibições excepcionais, sendo que a primeira, como é coletiva e temática, dá até para fazer uma enorme monografia. Como se pode dizer coisas sobre essa insistência artística em fazer retratos e auto-retratos na era da fotografia! E retratos auto-fágicos que se alimentam não dos modelos, mas da própria concepção de retrato, uma coisa de louco. Nunca tinha parado muito para pensar sobre isso, embora goste imensamente de retratos. Sou até razoalvelmente boa em desenhá-los e esculpi-los (é, tenho uma veiazinha de artista plástica, mas nada que me faça abandonar a literatura). Adorei, adorei, adorei.
Também adorei a expo do Muek, que sempre me impressionou muito com suas peças tão intensamente realísticas no detalhe, embora totalmente modificadas nas proporções. Seu bebê gigantesco, um recém-nascido que toma uma sala inteira de um museu, mas que surge ainda com seu cordão umbilical quase que latejante, e suas marcas de sangue como insígnias da batalha pela vida, contrasta com a pequena dimensão do pai morto, indefeso, inerte e diminuído, vencido pela morte, mas comoventemente apresentado como uma criança que necessitasse de ser apanhada no colo para ser consolada...
Demais!
Acho que estou, finalmente, começando a gostar de Dallas (ou, pelo menos, de Fort Worth, já que os museus se concentram na cidade universitária.) Mas, o moderno perfil dos edifícios de Dallas, sua natureza escultórica, me fascina. Fico contemplando os edifícios ao longe, quando passo pelas auto-estradas (que também são altas-estradas, em seus cinco andares inacreditáveis) e me parece que estou passando por uma cidade do futuro, com suas torres todas únicas, todas belas e friamente espelhadas.
Mas aí me deparo com uma orgia arquitetônica de uma lanchonete à beira da estrada imitando um palácio das mil e uma noites e me pergunto que estranho país é este, onde a beleza se revela em bom e mau gosto, e onde a paródia se instaura a cada passo do caminho?