Friday, May 18, 2007
Allen, Texas
Não sei sobre o que falar primeiro: o tamanho das Igrejas, por exemplo, é coisa digna de nota. São tão grandes, que parecem estádios. Os estacionamentos são divididos em setores, os edifícios têm uma ordem de ocupação, pessoas que se dedicam a orientar os frequentadores, day-care para crianças pequenas, fábricas de hóstias, achados e perdidos, tudo o que se possa imaginar. Padres, músicos, administradores, eletricistas, marceneiros, são tantas as pessoas que dependem da Igreja (das igrejas, porque são inúmeras) que a gente se admira de tanta fé.
A fé remove montanhas, diz o ditado. Aqui à volta, como não há montanhas para remover, acho que a fé se dedica a construir casas e auto-estradas. Já falei antes, mas volto a repetir: auto- estradas com diversos andares -- no caso, cinco. Só vendo para ter uma idéia do que seja uma rampa de acesso numa dessas auto-estradas. É de dar medo nos dias de mais vento.
As casa, todas enormes, são uma representação de um paraíso socialista: todas iguais. Todas têm as mesmas cores ( ou falta de cores) tons de terra e pedra, acinzentadas. Neste clima seco, os novos habitantes se preocupam em modificar a paisagem, criando lagos. Lagos e mais lagos, lagos em todos os condomínios, com fontes e repuxos, patos, cisnes, gansos. Tudo isso rodeado de gramados e de árvores, que são vendidas em imensos tonéis, já crescidas, pois quem é que tem tempo para ver uma árvore crescer?
Ao contrério do que se faz aí na minha terra, há previsão para tudo. As estradas são largas, com várias pistas de ida e volta, e uma separação no meio que dá para, no futuro, se necessário, aumentar mais umas oito pistas. Tudo é extravagante. O centro cultural que só vai ficar pronto daqui a dois anos, (com suas estradas, estacionamentos, jardins, etc.) já tem a sua própria orquestra. Os músicos foram selecionados, já estão ensaiando, fazem apresentações para, quando o dia chegar, já ser conhecida como uma grande orquestra. Não me admiro nada se já estiverem providenciando gravações de cds e dvds.
Por falar em dvd, provavelmente todo o mundo já sabe, menos eu, porém existe um novo tipo de dvd, com altíssima definição, imagens espetaculares. Qualquer dia ninguém vai suportar olhar a realidade. Tudo vai ficar muito blah, sem alta-definição.
Porém, numa única coisa ainda somos melhores: nossa rede de telefonia celular funciona melhor que a deles. Pelo menos por enquanto...
Monday, May 14, 2007
Em busca do tempo perdido
Andei por obras, casas de material de construção, ruínas de apartamento, projetos de banheiro e cozinha...
Hoje, quando me apercebi, vi que estava muito atrasada, sem postar nada há mais de uma semana. O triste é que ninguém reclamou. E aí, dezessete leitores? Eu sumo e vocês não dizem nada?
Hoje li uma coisa que me deixou rindo até agora: Meu irmão em SESC, o André, está escrevendo um romance para o projeto Amores Expressos. Não sei se posso cometer essa inconfidência, mas como é um pedacinho mínimo da história, acho que ele vai me desculpar se eu contar aqui o que me deixou com o riso inextinguível dos deuses. Ele compôs uma cena de sexo entre dois septuagenários, mas isso não tem nada de engraçado. O amor e o sexo não têm idade, ele pode nem saber disso, mas um dia ele chega lá e descobre. O engraçado é que o homem é viúvo e a amante, ao ir para a casa dele, pensa que poderia até encontrar a defunta sentada na biblioteca, lendo Em busca do tempo perdido, com o ar exausto de quem já está cansada de ser eterna...
Bem, depois volto a isso. Ler ou não ler Proust, eis a questão...
Sunday, May 06, 2007
Falta de vontade...
Pensar na aula de amanhã, no aniversário da amiga, abrir o correio eletrônico, pensar em escrever, mas com vontade é de terminar o dia vendo TV, na cama, ar condicionado geladinho. E é isso mesmo que vou fazer. Meus amigos que me desculpem, mas nem vou dar a passadinha costumeira nos blogs. Vou fazer a vontade do corpo, que reclama descanso e ficar por aqui.
Wednesday, May 02, 2007
Dia do trabalho
Milhares (milhões?) de cariocas insistindo em levar uma vida normal, vida em que cabem os feriados e as comemorações, os passeios, os restaurantes, a brincadeira com as crianças, a leitura.
Enquanto isso, indiferentes à opinião da população, uma guerra se amplia. Violência, mortes, batalhas que seguem a estratégia alemã das blitzkrieg, ataques relâmpagos e inesperados (!) na cidade sempre de pé atrás. Conversando com uma amiga, outro dia, rimos porque, ao escutarem um estouro na rua as pessoas procuram abrigo, automaticamente, calejadas pelas balas perdidas. Depois, me envergonhei: carioca é assim, acha graça até onde não é para achar.
Lembrei, agora, do excelente romance de Lúcio Cardoso, Crônica da casa assassinada. Até porque encontrei a Norma Benguell, uma Nina inesquecível, na ABL. Pois é. Estamos assistindo à Crônica da cidade assassinada, obra coletiva, e ninguém consegue parar este despropósito.
Mas, maio chegou. É o mês de Maria, mês das mães, quem sabe há alguma esperança?
Sunday, April 29, 2007
Passagem do tempo
Vamos então olhar a passagem do tempo e aproveitar o que temos agora. Abril pode ter sido o mais cruel dos meses para um poeta mas estes dois últimos dias de abril ainda estão desabrochando, são o nosso presente. Não permitam que o tempo passe desapercebidamente. Quantas vezes nos assustamos, dizendo: Mas já é maio? O que aconteceu com o verão? Já é Natal? Mas ainda ontem estávamos no dia das crianças... Ano novo, de novo?
O tempo passa, sim. E nós passamos com ele, mas nada nos impede de olhar as nuvens, e as flores, e as estrelas, enquanto passamos.
Thursday, April 26, 2007
Recomendações
Passei tantos anos casada com um grande executivo, que julgo reconhecer nestes amores, um projeto de negócio digno de um desses laboratórios universitários. Vejam se não é isso: O projeto é internacional, pois já abre as portas da mídia em outros países -- com isso, o interesse por traduções pode surgir, e o mercado para as histórias se ampliar. Além disso, tudo é aproveitado: Enquanto escrevem suas histórias, os autores mantêm um blog, com seus diários de viagem, suas impressões, e no blog pode ser vendido espaço para propaganda. Eles também carregam suas câmeras e gravadores, e lá vão eles glauberizando sua experiência. Os escritores mais "midiáticos" terão um cinegrafista, pelo que eu entendo, registrando seus processos criativos. As histórias poderão ser transformadas em roteiros e transformadas em curtas. Ou mixadas e transformadas num longa. Se o projeto se sustentar, o "formato" poderá ser vendido para outras editoras, locais ou estrangeiras, que pagarão royalties, tal como a Globo faz com a Endemol (é esse mesmo o nome dos inventores do big brother?) Podem vender documentários separados, fazer uma caixinha para empresas distribuirem como brinde no final do ano, vender conferências em universidades estrangeiras, mil possibilidades. Será que estou viajando? Ou será que é isso mesmo?
De qualquer forma, isso só me interessa porque estou desfrutando do produto: Não só me correspondo com um dos autores, como estou me divertindo com o blog que eles criaram, e que está muito bom, mesmo. Espero que os meus leitores (dezessete?) se animem e visitem o endereço:
www.amoresexpressos.com.br
E depois, comprem os livros. Precisamos aumentar o mercado literário.
Outra recomendação, importantíssima:
Comprem o Rascunho. Aposto que já conhecem o site, mas o jornal em si, bem diagramado, com fotos e desenhos e resenhas interessantes, com páginas bastante para não ser aquela coisa exígua dos cadernos literários perdidos em nossos sábados é uma jóia. Coisa para se ler devagar, saboreando, e para depois recortar e guardar nas pastas sobre nossos escritores prediletos. Fala dos consagrados e dos consagráveis, dos que apenas despontam e dos que fazem sucesso há décadas, e ainda publica textos inéditos, e poemas... Ah, que delícia. Tem até textos polêmicos.
E a assinatura anual é de apenas R$50,00. É menos que um real por semana! Imperdível!
Wednesday, April 25, 2007
Vingança
Peguei esse já começado, não prestei atenção no nome. Mas era com Jeremy Irons e Anette Benning, e fui ficando, vendo a trama se desenrolar. Uma atriz madura, com um casamento "liberal", se apaixona por um rapaz, quase da idade de seu filho. Por sua vez, o rapaz se apaixona por uma jovem aspirante a atriz e deseja usar sua proximidade com a mulher mais velha para promover a jovem. Sofrendo, a mulher percebe que a outra não só se relacionava com o rapaz, mas tinha partido para abocanhar seu marido também. Ela arquiteta uma vingança, mas não contra os dois homens infiéis. Ela se vinga da Outra! Será que só eu acho o filme anti-feminista? Ou minha insatisfação se deve à noite mal dormida?
Sunday, April 22, 2007
Penélope, a impaciente
O que queria Penélope? Deixada em Ítaca, com um filho pequeno, sem a paciência e a criatividade de Odisseu, que tanto a reconfortava, teve que aprender a lidar com o sogro e, sobretudo, a sogra, mulher de personalidade forte e dominadora, temida pelo marido. Com a morte desta, e o afastamento de Laertes, ela assume a primeira posição na ilha e torna-se alvo do desejo de inúmeros pretendentes, homens que a cobiçavam pela posição que ela poderia garantir-lhes.
Sua fidelidade a Odisseu foi antes a fidelidade a si mesma, e a seu filho. Os anos se haviam passado, as lembranças de Odisseu se apagavam e se transformavam, conforme o interesse de quem o evocasse.Ninguém mais tinha a certeza de como o homem se comportaria, pois já ninguém se lembrava exatamente de como ele havia se comportado. Euricléia, a ama, Eubeu, o amigo de infância, eram poucos os que ainda se lembravam do antigo rei com benevolência. Penélope já nem lembrava da paciência de Odisseu em torná-la sua, nem do cheiro de seu corpo quando voltava suado das amenas caçadas aos pequenos animais da ilha. A brisa marinha lhe despertava lembranças de jogos à beira mar, quando, após dirigir as escravas nas tarefas de lavagem da roupa, era surpreendida por um marido vigoroso, estimulado pelo sol e pelos banhos de mar. Mas essa lembranças estavam cada vez mais indistintas, e seu corpo cada vez mais silenciado, pela constatação de que, satisfazê-lo, significaria colocar em perigo o futuro de seu único filho. Durante anos Telêmaco foi sua única fonte de carinho. Era ele que compartilhava seu leito, os braços do menino rodeavam-lhe o pescoço quando ela sucumbia às frustrações, e soluçava baixinho, até dormir. O menino assustado sussurava-lhe: não chore, mamãe. E ela, para tranquilizá-lo, engolia as lágrimas e endurecia o coração.
Aos poucos acostumou-se a mandar. Tomou as rédeas da casa, dos campos. Determinava as tarefas e as partilhas, organizou sua casa e começou a sentir o prazer decorrente da autonomia e do cumprimento do dever. Quando os pretendentes começaram a chegar, deixou-se envolver pelos jogos de sedução e conquista, até compreender que casar-se de novo seria abdicar da liberdade que gozava. Utilizou os mesmos jogos para conservar o poder: encorajando a todos, não encorajava a nenhum. As pressões aumentaram, ela encontrou um estratagema: enredou a todos numa teia, ganhando mais três anos de relativo sossego. Quando seu ardil foi descoberto, o filho já estava quase adulto, já tinha chances de se defender a si mesmo. Mas, para sua surpresa, ele parte e ela descobre que as mães são seres tão facilmente descartáveis quanto as recem-casadas. Olha-se no espelho, e vê-se não mais como era, mas como se havia tornado: uma mulher madura, sem muitas ilusões, independente demais numa sociedade que não permitia nem às suas deusas tamanha autonomia. Seu casamento já não frutificaria mais, seria apenas a confirmação da passagem do poder para um estranho. Mas, se ela demorasse mais, sua capitulação seria vã, pois nem sequer conseguiria atrair o novo marido para negociações na cama. Quando seu filho volta, suas esperanças retornam. Ele havia sobrevivido, tinha experimentado as asas, não sucumbiria facilmente às armadilhas. Casar-se significava conseguir um aliado para o filho. E ela anuncia sua resolução de casar com quem melhor manejasse as armas de Odisseu. Um anúncio que não deixa de ser ambíguo.
Para sua surpresa, o velhote alquebrado que acabava de chegar à ilha é o vencedor do torneio, e se revela o próprio Odisseu. Penélope o encara com os olhos da memória, e o vê belo como um deus. Mas logo o sortilégio se desfaz. O homem que retorna ao lar não é o mesmo que partiu. As lembranças de Odisseu não são as suas, eles compartilham muito pouco. Vinte anos se passaram, e eles nem se conhecem mais. Quando Odisseu anuncia que vai partir, a rainha o encara com indiferença e algum alívio. Quando ele embarca e desfralda a vela, manobrando para sair do porto, ela sente alguma ternura. Podia amar o marido ausente, o homem de suas memórias. O que não podia suportar era o homem de carne e osso, com cicatrizes que ela não ajudara a curar e atitudes amorosas que não tinha aprendido com ela.
Podemos não saber o que deseja Penélope. Mas sabemos que ela não deseja Odisseu.
Wednesday, April 18, 2007
solidão, solitude
Estou, com meu querido grupinho, lendo a Odisséia. Chegamos até a Rapsódia VI. Odisseu sai da ilha de Calipso, esperançoso. Ele já não tem mais nenhum dos companheiros do início da viagem. Está só, numa jangada, mas persiste. Ao avistar terra, vê -se, de novo, mercê das intempéries. Sua jangada se desfaz e ele está outra vez náufrago, desvalido.
Qual a importância dessa viagem de Ulisses? O que faz dessa obra um marco de tanta importância que os séculos passam e ela continua viva? Como nos relacionamos com essa viagem? A impressão que tenho é que os autores estão quase sempre tentando responder às mesmas perguntas, resolver as mesmas inquietações. Muitas são as obras que poderíamos agrupar dialógicamente em torno da Odisséia. A mais óbvia é Ulisses, de Joyce. Mas são numerosos os exemplos, mais ou menos próximos do modelo. Há obras que são matrizes, estão sempre dando filhotes, e, a cada nova leitura, a matriz se nutre e se amplia.
Odisséia - A divina comédia - Fausto, quantas e quantas vezes essas obras não foram atualizadas por novas tramas plenas de originalidade, ao mesmo tempo que imbricadas profundamente nos veios nutrientes desses textos placentários?
O mais triste é a confirmação de nossa solidão. Estamos sós. Nossa jangada é frágil, construída a pressa; nossa bagagem se perde, tragada pelas ondas; nossa direção oscila à nossa revelia, impelida pelos ventos. É mais fácil descer aos infernos que chegar à Itaca, nosso destino, de onde nos arrancaram à nossa revelia.
Hoje estou náufraga. O mar amargo escorre pelos meus olhos e eu sossobro. Para voltar a ser gente, preciso de uma platéia, que escute minhas histórias. Onde encontrá-la?
Sunday, April 15, 2007
Filosofia e tatuagem
Não foi lendo um livro ou um artigo. Conheci, de apertar a mão e dar beijinho, como se faz aqui no Rio. Esse aqui é o fulano (não entendi bem o nome, e fiquei com vergonha de perguntar). Olhei para ele e o que me chamou a atenção foi o braço todo tatuado e a pele vermelha de tanto sol. Forte, não muito alto, com um saudável apetite por aipim frito e chope, ele tinha cara de tudo, menos de filósofo. Mas qual é a cara de um filósofo?
Não sou muito chegada à Filosofia. Já li uma ou outra coisa, em péssimas e pomposas traduções, que me desestimularam. Um pouco de Platão, eu li. Estudei um pouco dos gregos, e também um pouco de Nietzsche e de Spinoza, um Schopenhauer de segunda mão, uma pitadinha de outros cujos nomes já nem sei mais soletrar. Outros, mais amenos, ou com melhores traduções, até me divertiram: Erasmo e Thomas Moore, por exemplo. Fiquei com a idéia de que os filósofos eram figuras excêntricas, com roupas, modos e hábitos peculiares. Por isso me admirei tanto com esse filósofo mais novo do que eu, vendendo saúde, com uma aparência que podia ser a de qualquer vendedor de loja de material de construção, discutindo detalhes de seu próximo casamento.
Onde a caspa? Onde os óculos de garrafa? Onde os livros e o mau-humor?
Só flores tatuadas no braço, cabelos ainda úmidos do banho recém-tomado, uma fome de pós-praia e um grande interesse pelos diferentes tipos de papéis usados em convites de casamento. Mora na filosofia?
Saturday, April 14, 2007
Novidades
Claro que fui lá conferir, e fiquei impressionada com o lay out elegante e a variedade de coisas interessantes para fazer. Cliquem no endereço e confiram por si mesmos.
Ontem fui a um casamento, hoje vou a um chá de panela: 2007, apesar de ímpar, tem vocação de casamenteiro. Se bem que essa coisa de casamento é meio cíclica. Quando atingimos certas faixas etárias, parece que todo mundo se casa -- por exemplo: quando estamos terminando a faculdade e todos os nossos amigos parecem se casar por esta época. Uns doze anos depois, metade daquela turma está se casando de novo. Passam-se mais doze, e é a vez dos filhos daqueles primeiros casamentos...Gosto muito de casamentos, talvez porque tenha sido tão feliz no meu. Acho muita graça nas produções elaboradas, as roupas (geralmente) lindas das noivas, e das roupas tristemente calorentas dos noivos. Gosto de observar a disputa velada entre as sogras, de quem exibe mais elegância. Me comovo com a palidez dos noivos, com a emoção das noivas, sobretudo as mais novinhas ou as mais coroas. Me lembro do casamento, há muitos anos atrás, de uma senhora conhecida, de mais de 50, ainda virgem, que, de tão emocionada, mal conseguia atravessar a nave. Todas as suas amigas, algumas até avós, estavam emocionadas com a situação. Foi bonito, ela atravessou a igreja sozinha, trêmula, trôpega, e, ao chegar no altar, explodiu num choro emocionado que levou todo o mundo às lágrimas. Acho que até Santo Antônio chorou, aquele dia. Eu ainda era uma garota, mas não me esqueço desta cerimônia tão cheia de emoções. E do desfecho, que em nada combina com a história. O casamento tão ansiado não foi feliz, eles se separaram, brigaram muito, e quando terminaram de brigar, ele morreu. Triste, não? Mas tenho a certeza de que os desse ano vão ser todos muito felizes. Seja em abril, em maio, em julho ou em outubro (são esses os que vou esse ano) ou nos outros meses restantes, estou com um palpite que todos vão durar e ser muito felizes.
Friday, April 13, 2007
Sexta-feira 13
Se eu tivesse nos arquivos alguma dessas imagens, estaria ilustrando o post com elas. As notícias de hoje porém, são as melhores possíveis: Nascimento de Adriana -- Bem vinda ao mundo, uma texana de coração bem brasileiro! Leitura de Paul Celan no blog de Vera Helena, o Palimpsesto. Quis deixar um comentário, mostrando meu entusiasmo, mas não acertei a senha! Acho mais fácil acertar a mega-sena do que as senhas que se interpõem em meu caminho... Penso que se Drummond fosse escrever seu poema hoje, substituiria pedra por senha.
Meu cérebro irriquieto lembrou que pedra e senha se combinam na história de Ali Babá. Teria sido ele o primeiro hacker da história (ou das histórias)? Afinal, ele é um ladrão de senha - Abre-te, Sézamo! A segunda é a princesa (ou seria camponesa?) de Rumpelstiltskin, juntamente com o príncipe de Rapunzel: Rapunzel, joga as tuas tranças! Hoje, nenhuma dessas senhas nos serviria. Estamos limitados a oito caracteres alfanuméricos que não devem lembrar nada pessoal. Não devemos utilizar telefones, datas de nascimento, nomes de conhecidos. Não devemos utilizar a mesma senha para vários sites, devemos trocar de senha com frequência, e não devemos anotá-las para que um possível ladrão não se apodere delas... Estamos em guerra, e cada um de nós é sua própria central de codificação. Ah, quanta complicação.
Queria viver num mundo de portas abertas, fronteiras abertas, sites livres. Estou cansada de tanta proteção, tantas grades, tantas barreiras. Por isso é que gosto dos livros. Suas páginas se abrem, oferecidas; seus códigos pertencem a muitos e deviam pertencer a todos, pois ler e escrever é um direito de todos e não um privilégio de alguns. Detesto essas capas de celofane ou plástico, tentativas de impedir a entrega das páginas aos olhos ávidos. E dou graças por não venderem mais aqueles livros de páginas por rasgar, que me obrigavam a estratégias de leitura que me deixavam de olhos tortos. Nunca tinha comigo algum instrumento cortante e abrir as páginas com os dedos era garantia de rasgar o papel em lugares indevidos.
Vera Helena, o comentário que não deixei em seu blog era a explosão de minha alegria ao descobrir que você também gosta de Paul Celan, o poeta mais vertiginosamente triste e docemente melancólico que conheço. Que bom que a gente se descobriu! Visitem o Palimpsesto, meus queridos leitores. Vocês vão adorar.
Sunday, April 08, 2007
Novo blog
Acho que foi até auspicioso conseguir esta migração hoje, domingo de Páscoa. Afinal, trata-se de renovação, de nova vida. Não quero cometer nenhum sacrilégio e falar em ressurreição, mas isto talvez seja o mais próximo que a gente consiga chegar disso. A internet e seus recursos, que se modificam, nos dão uma onipresença e uma sensação, falsa, de onisciência.
Hoje estou fora de casa, num computador estranho, por isso escrevo pouquinho, só para não passar o dia em branco, pois a semana foi toda fora do ar. Amanhã, quando voltar para casa, escrevo mais. Deixo aqui meus votos de Feliz Páscoa a todos os leitores: Amauri, André, Berthe, Helder, Rosana, Talitha,Vera Helena, Wagner os anônimos e aqueles que nunca deixaram mensagem mas que já me disseram que leram, como Maria Helena e Cecília e Breno e Flora. Talvez eu até já tenha alcançado os dezessete leitores. Espero que vocês não cansem de mim e de minhas palavras.
Saturday, March 31, 2007
Ballet (outros quadros)
Agora, então, posso me dedicar a comentar mais quadros do ballet de Roland Petit. Vamos aos três últimos quadros do primeiro ato do ballet.
Quinto quadro - As raparigas em flor. Ao fundo uma paisagem marinha, de cores impressionistas. As bailarinas, jovens vestidas de branco, dançam nesta praia encantada demonstrando sua juventude e seus sonhos. Em alguns momentos, elas se juntam, e, com suas saias enfunadas, figuram barcos partindo para horizontes de sonho. A música, apropriadamente, é La mer, de Debussy.
No sexto quadro, as meninas saem e deixam apenas duas em cena, Albertine e Andrée. Sob o título "a prisão das dúvidas" as duas dançam ao som de Syrinx pour flûte seule e deixam no ar uma tensão voluptuosa, que não chega a se desenvolver plenamente, mas que persiste, como um eco distante.
O último quadro do primeiro ato é uma obra prima.A cena se inicia toda negra, apenas com uma enorme cortina de seda branca à esquerda, derramando-se sobre o que parece ser um leito, onde dorme Albertine. No quarto, um jovem Proust, de colete, a admira. Ela acorda e a dança vai se tornando um ballet cada vez mais sufocante para a bailarina, que tem seus movimentos tolhidos e cortados pelo parceiro até que ela, cada vez mais apática, se enrijece, como uma morta. O bailarino, ternamente, deposita-a com cuidado sobre a cama cenográfica, que se revela um alçapão. A bailarina some e a cortina, que parecia um facho de luz sobre o leito, se desprende e cai como uma nuvem que se desfaz pelo efeito do vento. Foi tão lindo o efeito que toda a platéia gritava emocionada: Bravo! As palmas soaram como os trovões repentinos de uma chuva de verão.
Ah, que lindo! O mais triste foi não ter com quem compartilhar minha emoção, já disse isso. Ensaiei duas palavras com a vizinha do lado, e me calei, sem saber mais o que dizer. Examinei todos os detalhes do teatro -- o teto pintado por Chagall; as inúmeras esculturas em talhas douradas - o que seriam? anjos? violinos? partituras?; o fechamento do palco por um painel imitando uma cortina desalinhada; os lustres de cristal; as cadeiras forradas e confortáveis, que não rangem e se colocam a uma distância confortável umas das outras. Examinei também os camarotes. Qual seria o da duqueza? Em que cadeira o autor se teria sentado para sonhar as apresentações da Berma?
Olhei em volta, as pessoas retornavam a seus lugares e todas estavam bem-vestidas, elegantes, e em seus rostos havia uma espécie de luz despertada pelo prazer do espetáculo.
Em outro post conto do segundo ato. Assim podemos todos respirar e refletir.
Friday, March 30, 2007
Ballet - quadro a quadro
Aqui venho cumprir o prometido, escrever sobre o ballet Proust ou les intermittences du coeur.
Roland Petit dividiu o espetáculo em dois atos. No primeiro, Algumas imagens dos paraísos proustianos, como está intitulado, temos sete "quadros". Descrevo um por um:
Primeiro quadro: Uma matinée na casa de Mme. Verdurin, a burguesa em busca de ascenção social, que copia os modelos dos aristocratas, já em declínio, mas ainda com muito prestígio social. Os figurinos de época, um piano de cauda, um cantor que entooa uma canção de Reynaldo Hahn, e um sósia de Proust que permanece imóvel, numa conversadeira, nos mergulham diretamente nas reminiscências do romance e da vida de Proust.
Rapidamente passamos para um novo quadro, desta vez a interpretação do que seria a "pequena frase" de Vinteuil. Para quem desconhece o romance, Vinteuil é um compositor imaginário, que morre desconhecido, mas deixa uma obra pequena e linda, que perpassa todas as páginas do romance, como fundo musical dos amores vividos pelos personagens. Esta pequena frase, que é o "hino nacional" dos amores de Swann e Odette, é descrita como um diálogo entre o violino e o piano, um fugindo do outro, e depois se encontrando, como uma brincadeira pueril de esconde-esconde num jardim. Roland Petit usou a sonata para violino e piano, de Cesar Franck, já que esta é, confessadamente, uma das fontes de inspiração para o que Proust imaginou como a obra de Vinteuil, e aproveitou as descrições proustianas da pequena frase para a elaboração da coreografia. Um resultado delicado e de muito efeito plástico. O bailarino é o violino e a bailarina representa os sons do piano.
Quadro terceiro: Les aubépines ou les mots fées.
A flor da infância de Proust é a da aubépine, arbusto cujos ramos espinhosos confeccionaram a coroa de Cristo, e que floresce na época da Páscoa. Suas flores lhe despertam o desejo de escrever, e em meio a elas ele descobre seu primeiro amor, Gilberte. O cenário é composto por um pano rendado, dando a sensação de um maciço florido, e as aubépines são representadas por bailarinas vestidas de branco, carregando sombrinhas de renda. No meio delas, desponta Gilberte, ainda um símbolo da pureza.
Quarto quadro:"Faire catleya" ou As metáforas da paixão:
Outra flor poderosa do imaginário proustiano, a orquídea - a catleya - com seu formato sensual e exótico, se transforma num símbolo de Odette, a mulher prostituída que acaba se casando com um dos mais cobiçados partidos da alta-sociedade da época. Swann, delicado e cavalheiresco, faz-lhe a corte como se ela fosse uma mulher de gabarito e a primeira vez que a possui é depois que, na carruagem, um solavanco inesperado desarranja as catleyas que Odette prendeu no decote. Ao reajustá-las, os dedos de Swann tocam na carne de Odette o que acende o desejo entre ambos, que acabam na cama. A partir daí, fazer amor, para o casal, passa a ter o nome de "fazer catleya". Odette, porém, é uma mulher livre, que tem outros amantes, o que tortura os ciúmes de Swann. Finalmente, ele consegue conjurá-los, casando-se com ela. A beleza do quadro está em como R.P. conseguiu, em poucos momentos, contar toda uma história entre os dois, e ainda oferecer tantas informações sobre Odette. Ela aparece numa roupa elegantíssima, em preto e branco, com uma única e enorme orquídea vermelha presa ao decote. Swann está vestido com uma casaca cinza, do mais fino gosto. Odette se revela com trejeitos estilizadamente orientais, moda da qual era adepta, e demonstra que em nenhum momento se deixará prender a apenas um homem, num ballet elegante ao som de um trecho do concerto para harpa e orquestra de Camille Saint-Saëns.
Estou me estendendo demais. Volto em outros posts, para dar mais detalhes.
Thursday, March 29, 2007
Meu bloguinho...
Hoje, quando finalmente voltei ao blog, pensei nela. Não é que não possa ficar aqui no bloguinho, mas viajei, não levei o computador, e, quando voltei, tive uma crise de alergia que, com esse calor, não me deixava sossegar. Escrever, então, nem se fala!
Mas aqui estou eu, com mil coisas para contar: Fui a Paris e assisti ao ballet desejado: Proust ou les intermittences du coeur. Lindo. Genial. O ballet foi criado em 1974, por Rolland Petit, mas só agora está entrando para o repertório do Ballet do Opéra de Paris. São tantas as coisas para contar, que vou criar um post só para falar de minhas impressões sobre cada um dos quadros dançados. Esse foi o pior aspecto de minha viagem: sozinha, não tinha com quem compartilhar as emoções. Precisei me virar para o lado e falar, no meu parco francês, com uma estranha. Depois pedi uma caneta a um senhor do outro lado, para anotar detalhes. Se eu falasse um francês um pouco mais decente, acho que teria feito amigos ali. Afinal, toda a platéia estava emocionada, eletrizada com o que via. Era preciso tornar essas coisas todas mais acessíveis. Nessas horas é que a gente entende que não se vive a vida em vão. E que não vale a pena nos isolarmos uns dos outros. A arte nos une, nos explica, nos redime, nos engrandece e revela o divino. Gostaria que todos tivessem a mesma oportunidade de ver e compreender. Pois, para chegar à platéia do Opéra, foram muitos anos de estudo e de reflexão. Mas, a maravilha da arte está aí: um ballet, um quadro, uma escultura,uma música prescindem do estudo e da reflexão, mas, quando acompanhados desses dois processos, o mesmo ballet, o mesmo quadro, a mesma música, se ampliam, de desdobram, crescem em nosso interior, e, ao mesmo tempo que nos alimentam, nos deixam esfaimados por mais.
Mudando de assunto, aqui vai meu pedido de desculpas a Thalita -- coloquei hhh demais em seu nome, no post dedicado a você. Saiba que você está no bom caminho, e que esse caminho nunca termina. A faculdade acaba, mas o aprendizado nunca. E escreva, escreva, que estou aguardando para lê-la.
Outro a quem estou aguardando para ler é o meu novo "irmão em SESC" - Wesley, parabéns! Mas cuidado com esse imperialismo goiano... Será que aquela maravilhosa geração mineira pensou em termos de "dominação"? Acho que esse florescimento em Goiás se deve a alguma conjuntura favorável, que deve ser procurada para ser repetida em outros lugares: escola? grupos de discussão? DNA? Seja o que for, vamos procurar repetir pelo país inteiro! Então, todos me façam o favor de procurar o blog do Wesley(e do André também), pois eu esqueci como se fazem os links... Vamos ver se a gente descobre o que é que os goianos têm, para copiá-los.
Volto em breve, para falar do ballet.
Friday, March 16, 2007
Rapidinhas
Wednesday, March 14, 2007
O sonho de Talita
Beleza pura

As fotos que tirei não revelam o encanto que senti ao ver essas geleiras de perto. O fato é que, ao viajarmos, as experiências nos bombardeiam por diversas frentes: Vemos, ouvimos, sentimos, cheiramos, provamos. Esse passeio de barco até as geleiras se compõe com outras sensações: o frio, por exemplo, que era intenso, apesar de ser verão. O ruído e o movimento do barco em que estávamos. As explicações dos guias. O gosto de café ou de chocolate quente. O som que parece reagir de forma diferente, junto ao gelo. Para mim, essa viagem tinha ainda outra dimensão: as viagens dos exploradores -- Darwin e Moreno -- eram mencionadas a toda hora. E minha própria viagem ao outro fim do mundo, ao Nord Cap, tão desolado, tão diferente deste fim de mundo ameno, cheio de árvores, habitado por selvagens nus e curiosos. Bem, desses a gente só tem notícias, há muito que desapareceram. Mas, debaixo de nossos vários agasalhos, em pleno verão, era impossível deixar de pensar naqueles seres que, para se proteger, só usavam a gordura dos leões marinhos.
O ponto alto da viagem? Não foi atravessar os Andes a pé, foi mesmo a visita a Upsala, o glaciar silencioso que se desfaz em icebergs, verdadeiras esculturas em águas marinhas. É bem verdade que não cheguei a caminhar sobre o glaciar Perito Moreno. Isso talvez tivesse dado maior relevo a essa massa de gelo que avança, que estala, que atroa e desmorona constantemente. Do que fiz e vi, a chegada a Upsala foi a melhor parte.
Tuesday, March 13, 2007
O retorno
Saturday, February 24, 2007
Brennand, partindo

Ainda não falei de minha ida ao museu Brennand, no Recife. Que beleza! Que projeto interessante, grandioso, nem sempre belo, mas muito instigante. Às margens do rio (Capiberibe?), a história de Pernambuco se confunde com a história do mundo: dos heróis da expulsão dos holandeses à Tróia, revisitando os mitos da literatura ocidental e da religião. Muito fálico, muito bélico, e ególatra, Brennand reconstrói o mundo à sua vontade, nas artes que domina: escultura, desenho, pintura, arquitetura. Seus templos incorporam a obra de um único outro criador, a quem se equipara: Deus e o Homem medem forças e se desafiam. Na foto ao lado, um flagrante de muita beleza, quando a água e o cisne, suaves, contrastam com a rigidez imponente das construções humanas.
Nova postagem, agora, só em março. Vou aos pinguins e às geleiras.
Thursday, February 22, 2007
Só Jesus expulsa o demônio do corpo das pessoas
http://rascunho.ondarpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=4&lista=1&subsecao=12&ordem=1213
Este incrível combinado de nomes e números é o endereço que vai dar nele, publicado com uma excelente ilustração. Mas, pelo visto, se clicarem no título do post vocês também poderão encontrar a história.
Por alguma razão, as letras estão mudando de aparência. Acho que preciso de um exorcismo. E como não sei mais o que fazer, por hoje me despeço. Mas aproveito para dizer que fui a Olinda, sim. E adorei. Assim como adorei o frevo e me encantei com o Galo. E me comovi até às lágrimas com um grupo de Maracatu que tinha vindo a pé desde a zona da mata até a cidade do Recife, com suas fantasias elaboradas e seus rostos esculpidos em madeira. E como me deixei fascinar pelas tribos de índios e suas danças, e pelos bonecos gigantes, flutuando sobre um mar de cabeças. No entanto, o momento mágico de meu Carnaval foi mesmo aquela Ciranda, quando todos nos demos as mãos e nos dissolvemos, pulsantes, cósmicos, mágicos.
Tuesday, February 20, 2007
Carnaval em Recife
Pela primeira vez passo o Carnaval no meio do povo, de seus ritmos, de seus suores e cheiros. Saí da janela e mergulhei na confusão, na feira, nos risos, nas dores. Estranhei, muito. Refleti, no desconforto, sobre o que atrairia essa multidão para as ruas de cheiros acres e desagradáveis; no que poderia levar toda essa gente para caminhos apinhados, desprezando o cansaço e as inevitáveis dores nos pés. Fui listando as coisas desagradáveis que me ocorriam: a inevitável dor nos pés; o cansaço; o nojo que invadia as narinas e os corpos; o calor ampliado pelas barracas preparando comidas azedas e pouco saudáveis. Mas o que insistia em aparecer em minha mente, eram os rostos iluminados de riso; as famílias fantasiadas arrastando juntas, pelas ruas, sua exaustão incansável. As moças em flor; as crianças em botão adormecidas no colo dos pais; as velhinhas trêmulas, caminhando resignadas e abraçadas nas filhas maduras; os velhos resistentes ornamentados de fitas e guisos, os rostos cavados e crestados de sol, prontos para a batalha.
A cidade não desvendava seu mistério, apenas exibia o milagre de um povo em transe. Refleti, muito, e já me resignava a ficar sem resposta quando, numa noite, no pátio de São Pedro, a máquina do mundo se revelou perante meus olhos. No palco, alguém tocava e cantava algum ritmo desconhecido para mim. As pessoas se espalhavam pela praça, sentadas, ou conversando em grupos pequenos. Foi quando os músicos anunciaram uma Ciranda, e, sem mais nem menos, todos foram se unindo num grande círculo mágico, mas antigo que a cidade, mais antigo que a nação, remontando a um tempo tão ancestral que era difícil identificar. As mãos se uniam, jovens e velhas, macias ou calosas, de cores diferentes, de tratos diferentes. Um passo para dentro da roda. Mãos para cima. Um passo para fora. E o mundo girava e fazia sentido. Mas foi um instante. Logo as mãos se afastaram, o circulo se rompeu. Por breves instantes compreendi que a festa fazia sentido, e que fazia muito sentido eu estar ali naquela ciranda, esquecida da dor. Mas a música demorou menos que o vôo de um beija flor. A máquina do mundo voltou a ser impenetrável. Mas o meu coração passou a achar muito natural os novos compassos exigidos para suas batidas.
Tuesday, February 13, 2007
Amor eterno
Há uns dias atrás essa foto foi publicada nos jornais do Rio. Fiquei siderada, como dizem por aí. Era assim que eu sonhava morrer, nos braços de meu amado. Eu sempre dizia que não tinha inveja de nada, que a única coisa que eu invejava era a morte do ex-presidente da Xerox, num acidente de automóvel, com a mulher. Os dois dormiam no banco de trás, o carro bateu e eles morreram, juntinhos, em paz. Não recebi esse dom. Meu amor morreu nos meus braços, mas eu continuei viva, e sem saber por que.Hoje morreu o pai de uma amiga minha. Que Deus o abençoe, Dr. Paulo. Há muitos anos atrás, morreu minha mãe, neste mesmo dia, num acidente de automóvel.
E eu continuo aqui, embora não saiba o que fazer da minha vida.
Triste, penso que não hão de encontrar meus ossos entrelaçados nos de meu amor, daqui a cinco mil anos. Só posso dizer que, embora não tenha morrido com ele, também não me sinto viva sem ele. Aguardo.
Sunday, February 11, 2007
Fim, final
Friday, February 09, 2007
Continuando...
Continuo depois. Chega de seriedade por hoje,
Wednesday, February 07, 2007
Parque Lunar
A leitura do Ellis me agrada/desagrada, ciclicamente. Tem horas que me deixo envolver pelo talento -- enorme-- que ele tem. Tem outras vezes que me irrita a sem-cerimônia com que ele "trai" os seres mais próximos dele: pai, mãe, amigos. Essa maneira Big Brother de escrever, imitando um Rousseau e seu "tout dire", a gente já está cansado de saber que esse tipo de honestidade não existe, e que estamos sempre exercendo a função de diretor de cinema: cortando e editando... Bem, mas ainda é muito cedo para refletir sobre o livro. Estou apenas no início. Vou voltar ao livro. Bye.
Tuesday, February 06, 2007
Querido blog
Saturday, February 03, 2007
claro enigma
Continuo com a leitura do Oz, um verdadeiro mago. Costumava ler muito mais rápido, mas não consigo ler no trânsito, e a sensação que tenho é que estou sempre no carro, presa num engarrafamento. Alguém já percebeu que o único presídio de segurança máxima do Rio é o trânsito? E eu me sinto condenada à prisão perpétua. Que ainda via piorar na época do Pan.... Hoje passei meu dia entre a Banda de Ipanema e uma outra que estava concentrada em frente ao Caiçaras. Da janela do meu carro perdi a conta dos homens que vi bancando o chafariz na Lagoa. Dá nojo. Assim como dá nojo ver a condição em que deixam a rua, com milhares de copinhos, latinhas, garrafas, embalagens. E isso quando todo mundo está discutindo aquecimento global e apocalipse now. Geralmente me estresso no trânsito, mas hoje, num entardecer lindo, as pessoas borbulhantes de vida e carnaval me provocaram muita simpatia (menos os nojentos, claro). Meu coração se deixou levar por uma onda de ternura por todos os foliões, e por todos os observadores, por aqueles que tentavam fugir da confusão e pelos que queriam mergulhar nela. Via os olhos brilhantes das moças em flor, circulando, às duas ou três, entre os rapazes de bermuda e sem camisa; sentia a expectativa e os sonhos no ar. Lá no alto, o Cristo, discreto, se deixava envolver pelas nuvens, dando carta branca a tamanha animação. Aqui em casa, sozinha, rememoro a cena com um sorriso nos lábios. É bom ver o Rio no seu jeito mais carioca de ser.
Thursday, February 01, 2007
Memórias
Wednesday, January 31, 2007
Proust, Vermeer e outros casos sérios

Segunda feira passada fizemos uma festa: é que tenho um grupinho de proustianas que se reúne há uns cinco anos em torno da leitura de Em busca do tempo perdido. No dia 29 terminamos a leitura dos sete volumes, e comemoramos com champagne. Só que dá uma nostalgia, uma sensação de vazio, que até amedronta. Foi uma leitura atenta, minuciosa. Destrinchamos fatos históricos, outras obras literárias; discutimos filosofia, história da arte; escutamos música; refletimos sobre moda; examinamos preconceitos e hipocrisia social... Aprendemos muitas coisas juntas, num ambiente prazeroso e amigo. Uma das coisas que aprendemos a apreciar foi a pintura de Vermeer, e eis que hoje recebo um cartão com esse quadro que aparece aqui ao lado. Fui logo tratar de colocá-lo no blog. Esta mulher humilde, robusta e calma, tão concentrada em sua simples tarefa doméstica foi pintada com os mesmos pigmentos caros que o artista usou para pintar seu rico e aristocrático benfeitor. Esse azul dos quadros de Vermeer era obtido com lápis-lázuli macerado, e todo mundo sabe como essa pedra é cara. Já era caríssima no tempo de Vermeer. Mesmo assim, ele não deixou de usá-la, e com abundância, para pintar a criada. Assim como Proust, que usou a mesma rica linguagem para compor a duquesa de Guermantes e a criada Françoise. E, no final do livro, a duquesa, já sem a magia que a rodeava, se confronta com a empregada. Ninguém se surpreende com a superioridade auferida à velha criada, tal como ninguém se choca com o uso de um pigmento tão extraordinário na pintura da mulher sem nome. São essas pequenas coisas que fazem da arte um assunto sempre fascinante: sua coerência interna é capaz de revelar as grandes verdades, e de dar a precisa dimensão às coisas que nos rodeiam.
Sunday, January 28, 2007
Máscaras

Confesso, de cara, um roubo: tirei a imagem ao lado do blog do Wagner Marques (www.wagnermarques.blogspot.com)
um lugar muito legal, com bons poemas e textos. Ele é lá de Pernambuco, estado para onde pretendo ir em breve, passar o Carnaval.
Por que é que roubei a imagem dos putti? Porque nas minhas resoluções de ano novo decidi que ia começar a fumar e a beber! Então encontro esta imagem e tive que me apropriar dela, para ilustrar minha nova fase de "menina má".
É muito difícil mudar de máscara, sabiam? A gente pensa que é difícil só quando a gente se dispõe a adotar hábitos louváveis, mas adotar qualquer hábito novo é complicado. É preciso lembrar de comprar cigarros, por exemplo, para poder fumar. É preciso gostar do sabor das bebidas para poder beber. E o que é que a gente faz quando não gosta de cerveja, e está muito calor para tomar vinho? Quanta complicação... Bem, vou me esforçar mais um pouquinho. Quem sabe no Carnaval a fantasia engrena? Ou é melhor ir vivendo sem fantasia?
Saturday, January 27, 2007
Outro poema
Posse
Lúcia Bettencourt
O homem se apoderou da poesia
substantivo feminino
para não termos chance de possuí-la
Mas eu infrinjo regras e tabus
levo ela pra cama e
me divirto
por escrito.
Não tenho vergonha de admitir
que me encanta a vulva da palavra
seus sumarentos espaços
convidativos como desabafos.
Exploro-a com o meu lápis
um ato falho
E quem me consome
me come
me fala o meu
eu
é
ela.
a
bismo.
Friday, January 26, 2007
Hermes Trismegistus
- "Verdadeiro, sem mentira, certo e veríssimo.
- O que é inferior é como (o) que é superior, e o que é superior é como (o) que é inferior, para realizar (variantes: para penetrar, para preparar) os milagres de uma coisa única.
- E como todas as coisas vieram de um, pela meditação (variante: pela mediação) de um, assim todas as coisas vieram dessa coisa una, por adaptação
- (variante inexata: por adoção).
- Seu pai é o Sol, sua mãe, a Lua; trouxe-o o vento em seu ventre; a sua nutriz é a terra.
- O Pai de toda perfeição do mundo inteiro é este.
- A sua força (virtude) permanece íntegra, mesmo quando derramada na terra.
- Separarás a terra do fogo, o subtil do espesso, suavemente e com muito engenho.
- Subiu da terra para o céu, novamente desceu para a terra, e recebeu a força dos superiores e dos inferiores. Assim terás a glória do mundo inteiro.
- Por isso fuja (fugirá) de ti toda escuridão.
- Este (esta) é a fortaleza forte de toda fortaleza, porque vencerá toda coisa sutil e penetrará toda coisa sólida (variante: e tudo o que é sólido).
- Assim foi criado o mundo.
- As adaptações dele serão admiráveis, e o seu modo é este.
- Por isso sou chamado Hermes Trismegisto: tenho as três partes da filosofia do mundo todo.
- Está terminado o que eu disse sobre a operação do Sol."
Num bate-papo com o André de Leones (Hoje está um dia morto) escrevi a palavra hermetismo umas cinco vezes em três linhas. Daí me veio a dúvida: a palavra viria mesmo de Hermes, como parecia evidente? Hermes é o deus do comércio, é o mensageiro dos deuses, exatamente porque é bom de conversa, como poderia estar ligado a um tipo de comunicação difícil, pouco clara? Fui googlar o hermetismo e daí surgiu este texto. Como todos os deuses, há o negativo e o positivo: Hermes ao mesmo tempo que se comunica, se trumbica, como diria o filósofo Abelardo Barbosa, a.k.a. Chacrinha e o texto que copiei acima mostra como.
Quem o decifrar vira Édipo. E está terminado o que eu disse sobre o hermetismo.
Medos e receios
E, por falar em MPB, a entrevista que dei à emissora foi ao ar, e recebi muitos recados por conta disso. As pessoas me procuraram no ORKUT (que nome feio, meu Deus) e aqui no Blog também.
Isso da entrevista foi apenas um parênteses, pois o que me interessa hoje é explorar um pouco esses medos e receios inerentes à vida. Creio que eles me atacam todas as vezes que preciso tomar uma decisão, e como viver é decidir, creio ser justo dizer que viver é recear. Vejam só o que diz Amós Oz :
"Para escrever um romance de oitenta mil palavras é preciso tomar no decurso do processo algo como um quarto de milhão de decisões. Não só decisões sobre o enredo, quem vai viver ou morrer, quem vai amar ou trair, quem vai ficar rico ou sobrar por aí, quais vão ser os nomes e as caras dos personagens, seus hábitos e ocupações, qual vai ser a divisão em capítulos e o título do livro (essas são as decisões mais simples); não apenas o que narrar e o que ocultar, o que vem antes e o que vem depois, o que revelar em detalhes e o que apenas insinuar (essas também são decisões bem simples); mas é preciso ainda tomar milhares de minúsculas decisões como, por exemplo, na terceira sentença do começo do parágrafo deve-se escrever "azul" ou "azulado"? Ou seria melhor "azul-celeste"? Ou "azulão"? Ou "azul-marinho"? Ou poderia ser "azul-cinzento"? Bem, que seja "azul-cinzento", mas onde colocá-lo? No começo da frase? Ou seria melhor aparecer só no final? Ou no meio? Ou deixá-lo como uma frase bem curta, com um ponto antes e ponto e parágrafo depois? Ou não, quem sabe seria melhor fazer esse "azul-cinzento" aparecer no fluxo de uma frase longa, cheia de subordinaçoes? Ou quem sabe melhor seria simplesmente escrever as quatro palavrinhas "a luz da tarde", sem tentar pintá-las seja de "azul-cinzento" seja de "azul-celeste" ou de qualquer outra cor?"
Vejam, então, que não dá nem mesmo para me refugiar no ofício de escritora. Numa média de mais de três decisões para cada palavra, eu, que sou prolixa já decidi tanta coisa na vida que não sei como ainda me presto a escrever. Mas essas decisões não me amedrontam. Podem cansar, mas amedrontar, não, principalmente depois do advento do computador e das teclas deletar, cortar e colar. A gente sempre tem a chance de revisar e corrigir. Até depois de publicada uma história, sempre há a chance de fazer uma nova edição e publicar uma nova versão. Na vida real, porém, não dá para deletar, inserir, revisar. Fazemos e pagamos o preço. O problema é que, na maioria das vezes, desconhecemos o preço que vai ser cobrado. Acho que por isso é que o Rosa dizia que viver é muito perigoso: periga chegar no final e descobrirmos que estamos na falência.
Tuesday, January 23, 2007
Babel: filme e torre
Monday, January 22, 2007
Carnaval em Veneza
Tantos planos! Deve ser o aniversário que vem chegando, o Carnaval que se aproxima,o início de um novo livro. Não vou vestir" la giuba", vou é colocar a máscara e sair por aí.
Casa no campo
De tarde, deitada na rede do alpendre, notei que um mugido se repetia, insistente. Curiosa, calcei o tênis e fui tentar descobrir o que acontecia. Era um boi todo preto que tinha sido deixado no cercado sozinho, enquanto as vacas eram ordenhadas. Ele chamava, inquieto, com saudade das companheiras. Debruçada na cerca eu me compadeci de sua angústia, eu, especialista em saudade. Disse a ele, desta vez em português mesmo, que elas iam voltar, e ele se acalmou. Fiquei ali, falando coisas carinhosas e acho que fui eloquente, pois um cavalo -- perdão, perdão -- um garanhão se aproximou orgulhoso. Com certeza queria saber o que era feito das éguas. Mas o dono da fazenda chegou, e eu interrompi a conversa. O boi e o garanhão compreenderam. Um sacudiu suas crinas, elevando o pescoço e tremulando as pequenas orelhas num aceno. O outro me envolveu num olhar ainda mais doce e piscou um dos olhos, cúmplice, agradecido pela minha atenção. Voltei para a minha rede, tentando convencer o fazendeiro de que ele aumentaria a produção de leite se colocasse Mozart para tocar nos estábulos.
Friday, January 19, 2007
O tucano da rua da Paula
O tucano se entremostra entre a folhagem empoeirada de uma árvore urbana, e enche meu coração de ternura por um bicho improvável e solitário. Lamento sua tristeza, sua falta de grandeza numa árvore raquítica, com uma cantora sem prestígio. Meu pobre tucano não atrai as romarias que a capivara mereceu durante sua permanência na Lagoa. Não é fotografado por pessoas hábeis com celulares, nem mesmo por fotógrafos com suas câmera mais antigas, de focos poderosos. Meu pequeno e desvalido tucano equilibra-se na extremidade do seu bico, e se esconde entre as folhas ralas da árvore, esperando alguma coisa que não tenho para lhe dar. Depois se cansa e voa, discreto, sem que eu veja seu esforço em transportar tamanha carga com suas asas frágeis. Esta pequena ave, com sua presença quieta e modesta, acentua a minha solidão, dá-lhe contornos inesperados, toma meu coração em seu bico e, laboriosamente, reabre sua ferida a cada aparição. E, no entanto, é belo. E eu o espero, procuro seu vulto entre as folhas, e, contraditoriamente, me alegro enquanto choro a sua presença.
Tuesday, January 16, 2007
Amigos invisíveis
Tuesday, January 09, 2007
Dia de Reis e de Resenha
Cliquem no link para ler a resenha, e aproveitem para conhecer mais um blog.
Agora só falta uma resposta da Record quanto ao segundo livro: Linha de sombra.
Sunday, December 31, 2006
Comendo castanhas
Alguns, impacientes, se foram. Morreram antes de ver o ano acabar, ou para não ver o ano acabar. A data não parece combinar com velórios, pois os olhos estão todos voltados para o início, não para o término.
Desejamos a ceia, a mesa posta, os brindes e a alegria, estamos famintos, e passamos estas últimas horas comendo castanhas, laboriosamente nos livrando das cascas e enganando a fome com pequeninos pedaços que levamos à boca como troféus arduamente conquistados que foram. De banho tomado, com as roupas escolhidas, cheios de boas intenções, nem percebemos quantas castanhas já comemos, nem como o que mastigamos displicentemente nos alimenta. Indiferentes, comemos castanhas. Alienadamente, comemos castanhas.
Quem se lembra do poema de Fernando Pessoa, atravessado pela menina que come chocolates?
Me equilibro nesta ponte entre passado e futuro comendo castanhas. Caminho agudamente consciente do fim. Alguém morreu esta manhã. Minha vida se acabou há precisamente um ano, dois meses e quinze dias. A Tabacaria de Pessoa, no entanto, continua aberta. E eu, a exemplo da menina, como castanhas. Penso estar morta, mas como castanhas. E sonho: uma casa, livros, uma conversa amena. Talvez haja uma ceia...
Thursday, December 28, 2006
Promessas de ano novo
Não acho que seja hora de dúvidas, todos devemos começar o ano cheios de boas intenções, nem que seja apenas para neutralizar as notícias terríveis que se tornam cada vez mais próximas. Mortes, ataques, guerras, aumento de AIDS, destruição do planeta, corrupção e impunidade: os jornais insistem, a TV alardeia, as pessoas comentam, mas nada muda para melhor. O banqueiro foi solto, o político teve o processo retirado, os bandidos atacaram com mais violência, o clima foi para o beleléu... Ainda dá tempo de mudar? George Bush admira o mundo, resolvendo proteger os ursos polares -- ninguém lembrou que a Coca-Cola usa o urso polar como garoto propaganda?
Vamos neutralizar tudo isso, fazendo uma lista de boas intenções: comecemos em casa, tipo -- este ano vou pintar a sala/arrumar a sala/trocar as cortinas/reformar o banheiro/cuidar das plantas. Depois podemos sair às ruas e prometer: não vou jogar papel no chão/guimbas de cigarro nas floreiras/não vou pisar nos canteiros/não enterrarei palitinhos de picolé ou de queijo coalho nas areias da praia/recolherei os presentes que meu cachorro deixar nas calçadas/dirigirei meu carro dentro do limite de velocidade. Vamos assim, ampliando para a cidade, o país, o continente, o mundo, o universo e então poderemos pensar na maior tarefa de todas: nós mesmos. Mudar-se, melhorar-se, prestar atenção em si mesmo. Vamos fazer uma lista?
Tuesday, December 26, 2006
Ganhe dinheiro agora!
Sunday, December 24, 2006
Feliz Natal?
Depois o Natal foi ficando cada vez mais difícil. A gente vai perdendo uns e outros até que chega um dia e se perde a si mesma. Vou para o Natal me sentindo vazia: uma casca incapaz de se alegrar, e tão frágil que qualquer coisa pode destruir esta falsa imagem de mim. Não digo me destruir, pois já estou destruída, oca. Estou há mais de um ano, juntando pedaços para recuperar algo que possa chamar de eu. Vou ligando esses pedaços com a argamassa do carinho dos amigos. Vocês, se porventura lerem este blog, saibam que têm um papel fundamental para a construção desta Lúcia que vocês olham admirados, dizendo: como você está bem; você está linda; você tem muita força e está reagindo muito bem... Se eu fosse crente, saberia remeter a todos para o capítulo e o versículo em que se fala de sepulcros caiados... Sou um túmulo, carrego em mim um amor morto. A Lúcia que vocês olham e admiram é a imagem que as lembranças que vocês têm de mim projetam sobre essa ausência.
Mas, em algum lugar, o Natal continua maravilhoso. Talvez nos beijos apaixonados de André e Camila, talvez nas praias baianas onde se divertem Guilherme, Rita, Beatriz e o próximo Guilherme, talvez nos sonhos e equívocos do Ivan, talvez em Dallas, no futuro de Barbara, Michael, Gabriela e quem mais vier, talvez na casa e no coração da Paula e do Leonardo, do Fernando e do Marcello, acolhendo a todos os que chegam, convidados ou não. Vejo o rosto dos amigos, sorridentes e iluminados, Helena, a estrela que vai iluminar a noite de Natal de sua irmã, o sorriso e o brilho do olhar de Renée, generosa em suas emoções, escuto a conversa bilíngue da Marta e do Dennis, leio as mensagens carinhosas dos amigos próximos e distantes, fiéis e nem tanto, e sei que há uma promessa de beleza nesta noite, em que tantos corações tentarão caprichar nas batidas, para criar uma harmonia universal.
Feliz Natal, para todos os felizes. Feliz Natal, para os que tentam, Feliz Natal, para os observadores, para os excluídos, para os alheios, para os que não estão nem aí, para quem nunca soube o que é felicidade, para os raivosos, para os indiferentes, para todos, enfim. Que a data seja comemorada em paz, em dignidade, em sossego, pelos crentes e os descrentes.
Saturday, December 23, 2006
Cigarras e predadora
Antes, porém, uma notícia: saiu um conto meu na Revista Continente. É uma revista lá de Pernambuco, muito bem editada, excelente apresentação, que muito me honra ao publicar meu conto. Está na página 34, com uma ilustração, muito bem feita, mas cujo autor, ou autora, desconheço. Acho sempre muita graça ao ver a interpretação dos outros quanto ao que a gente escreve: quem ilustrou o conto colocou a predadora como uma raposa, e sua vítima um cordeiro, com jeito assustado. Nada disso! A raposa é furtiva, escolhe caças pequenas e age mais pela esperteza. Uma amiga imagina a predadora como uma loba, mas também discordo. Lobas caçam em grupo, e essa predadora é exclusivista. Uma onça, uma leoa, ou, vencendo as conotações de filmes e músicas, até mesmo uma pantera ou uma tigresa. E a vítima não tem nada de cordeiro medroso. É tão selvagem e disposto a matar quanto a predadora. Só que ela toma a iniciativa... Mas, como já constatei, o conto só é nosso enquanto ninguém mais o lê. Cada leitor assina a co-autoria, pois a decodificação é dele e suas sinapses serão, necessariamente, diferentes das de quem escreveu. Aceito a raposa e o cordeiro, portanto, porque são manifestações de uma interpretacão possível, quem sabe de um machismo destronado que se vê vitimizado e inocente?
Curiosos? Vocês podem ler o conto na Continente de dezembro, que está à venda na Livraria Letras e Expressões. Corram, antes que acabe!
Termino, então, com o canto das cigarras, que hoje estão caladas, dando a vez para os bentevis.
Estou escrevendo com um fundo musical de cigarras enlouquecidas de sol e azul. Um dia lindo, como há muito já não se via no Rio, mas que exige ar condicionado, vestidos de alcinha, sorvetes, chope e água de coco. Ah, o verão... Estação mais complicada, aqui no Brasil! Começa com a correria das compras de Natal, das festas de fim de ano, com comida demais, para nos cansar a todos e nos dar aquela vontade doida de largar tudo e ir para a praia, mergulhar no azul, almoçar só uma saladinha ainda vestindo a roupa de banho e sentindo na pele o gostinho do sal, que tempera amores efêmeros ou eternos. Gosto do verão, mas como observadora. Me posto em alguma janela e olho toda a efervescência, escuto os pregões, me embalo nas músicas. Mas nunca aprendi a dançá-las, nem comprei as ofertas, nem me embriaguei com o gás. E, no entanto, amo esses dias-balões, que se inflam com o canto das cigarras e vão minguando sem que nos apercebamos bem quando é que terminam.
Solto meu canto (como o dos insetos, intenso e breve), e mando meu bom-dia a todos, minhas saudades e meu carinho.
Friday, December 15, 2006
Descartes e A contramão da palavra
Descartes
Penso
logo não posso existir
como me querem
submissa
como as feras
Penso
e com isso surgem os problemas
O natural, a natureza
não correspondem
aos anseios
e receios
Penso
Ato tão pequeno
que ninguém explica
Deus e a Filosofia
debatendo entre si
minha agonia
Penso
E se o corpo é fêmea,
o que é a mente?
Talvez ilusão
mito da serpente
Pura sedução
Penso
Se isso é normal
outra é a falha
Ou talvez a culpa
seja de Descartes
por acrescentar
Existo
Penso
E não existo
Somente assim
Posso me explicar
Nesse momento
Não sou
Penso
Não existo
Penso
Logo, me crio
Prometi, e aqui estou eu cumprindo, cartesianamente, o prometido. Este meu poema é de um livro inédito, chamado A contramão da palavra. Antes de escrever contos, eu costumava escrever poesia. Mas escrevia, volta e meia, um ou outro conto. Agora minha produção se inverteu. Passei a escrever preferencialmente contos, e ocasionalmente poesia. O que é que nos leva a uma ou outra forma de expressão? Porque preferimos a concisão e a elipse numa determinada fase da vida? Por que é que certos assuntos parecem mais poderosos quando escrevemos de forma mais simbólica? Porque alguns autores elegem uma única forma de expressão e nunca se aventuram fora dela? Por exemplo, nunca ouvi falar num trecho em prosa escrito por João Cabral de Melo Neto. Mas, conhecendo os poemas perfeitos dele, enxutos, concisos, numa elegância de equilibrista, como não entender essa sua preferência?
Chega de perguntas sem resposta. No fim de semana continuo.
Thursday, December 14, 2006
Bloggando devagar
E é também época de falta de assunto, pois os acontecimentos são sempre os mesmos, só varia o menu: aqui, servem champagne, ali servem cerveja, aqui servem pão com brie e damasco, ali servem mini quiches de cogumelos selvagens... Num lançamento, a gente se acotovela com o povo das colunas sociais, noutro respira o mesmo ar das cabeças pensantes da literatura, na esperança de ficar um pouco mais inteligente, um pouco mais criativo. O resultado é sempre o mesmo: uns quilinhos a mais, talvez uma dorzinha de cabeça, muitos risos, comentários maldosos ou inteligentes, e a sensação de que precisamos nos ver mais, conviver mais, aproveitar mais esses amigos que passam o ano distante de nós para surgir no final do ano, tão interessantes, tão especiais que nem compreendemos como pudemos ficar tanto tempo afastados.
Mas chega de desregramento! Volto a bloggar, devagar, mas com promessas de constância. Hoje só escrevo isso. Amanhã prometo um poema que vou catar nos arquivos. E umas palavrinhas, no fim de semana, sobre os ótimos livros dos amigos: A musa diluída, do Henrique Rodrigues e Lápide e Versão, do Jorge Fernandes da Silveira.
Me aguardem.
Saturday, December 02, 2006
A teia de Ariadne
Volto a escrever, não sei quando, mas prometo que com muitos livros para comentar: Estou carregada de novos romances. E com um disco novo/antigo dos Beatles, o comentado Love, criado pelo George Martin e seu filho para um espetáculo do Cirque du Soleil. Então, como despedida, all you need is love...