Monday, June 30, 2014

Zero em futebol, Dez em torcida

Se existisse um boletim de torcedor, essas seriam minhas notas. Não pretendo saber nada de futebol. Nada mais que uma brasileira, criada numa família que não se interessava pelo esporte, possa  conhecer. A gente conhece os nomes, já leu uma ou outra crônica, tem noção de que o Saldanha e o Nelson sabiam escrever sobre as partidas, sabe o que é pênalti – embora nem sempre reconheça com exatidão os motivos para eles serem marcados. Não sei como meus filhos, criados com a indiferença futebolística de pai e mãe, se tornaram apaixonados por futebol, ou por outros esportes. Nasceram assim, herança genética de algum tataravô atlético que desconheço.
Mas, talvez por ser mãe praticante, sei torcer. Estou sempre na torcida pelos meus filhos, pelos amigos, assim como passei a vida torcendo pelo meu marido, confiando, acreditando até o último minuto e, quando por ventura alguma coisa não dava certo, escondendo minha decepção e me convencendo (e a todos ao meu redor) de que "agora" ia dar certo. Torço ardentemente pelo Brasil, espero que o time vença e fico indignada com todos esses entendidos que expressam suas desconfianças em público. Fico danada com comentários que só ressaltam a trave, e não o goleiro. Ora bolas! Futebol não é ciência, não é estratégia, não é probabilidade, não é nada disso. Futebol (e a vida) é a peça Ricardo III. Tá todo mundo achando que os outros estão em vantagem, mas a gente sabe que vai conseguir. E consegue. Naquela noite angustiosa antes da batalha, uma única pessoa acredita. Tem fé apesar de tudo, racionalmente, estar apontando para o fracasso. Ele fala, sem mentir, apelando para a emoção e para a entrega. Revela sua fé naqueles guerreiros e essa crença vai contagiando até que todos se animam e percebam que precisam de estar com os corações confiantes para que os deuses os favoreçam.
Vamos torcer, gente. Sem medo do ridículo, pois todo amor, já disse o poeta, é ridículo quando expresso em palavras, e precisa de ser ridículo para que seja verdadeiro. Vai Brasil-il-il.

Monday, June 23, 2014

O que será que me dá?

De quatro em quatro anos sou acometida de uma virose que me transtorna e transforma. Descubro que, encarcerada a sete chaves, tenho uma outra personalidade turbulenta, passional, bagunceira e irreverente que, além do mais, gosta de futebol.
Ela passa anos sem se manifestar hibernando, e chego a esquecer que essa outra Lúcia, que se veste com roupas verde-amarelas, que não desdenha o uso de perucas e adereços e que diz bobagens, grita e sopra buzinas desafinadas faz parte de mim.
Ela tem uma vitalidade que não tenho. Pula e abraça pessoas sem um pingo de cerimônia. Diz coisas que eu, em meu estado normal, preferiria morder a língua até sangrar a proferir as palavras que essa outra usa sem se envergonhar.
A duração dessa virose depende da participação do Brasil na Copa. E, à medida que o time vai avançando nos jogos, vai ficando cada vez mais séria. Houve uma Copa em que me julguei curada: aquela malfadada Copa na França, quando o time entrou rendido em campo. Ao olhar aqueles "heróis" já vencidos antes mesmo da batalha, fiquei tão indignada que não sei como cheguei até o final do jogo.  Jurei que nunca mais assistiria a um jogo do Brasil. Depois disso, a "outra" ficou enclausurada, sem dar sinal de vida durante duas Copas. Em 2010 amoleci um pouco, e, vez por outra a turbulenta tornava a botar a cabecinha de fora, soprando uma buzina solitária na varanda do meu apartamento. E, embora não tenha assistido a nenhum jogo naquele ano, ligava religiosamente a TV na sala e voltava para o escritório para ler, mas mantendo os ouvidos alertas na esperança de ouvir os gritos de gol. Quando isso acontecia, corria para ver a comemoração na TV, e depois voltava ao meu sossego.
Esse ano, na contramão de todos os bem-pensantes partidários do "não vai ter Copa", fui me entusiasmando devagarinho e, quando vi, a louca tinha escapado do cárcere e está agora no comando de minha vida. No meu coração tem Copa! Estou torcendo como louca para o Brasil chegar ao Hexa. Não saio de casa, não vou à Fanfest, não fico nos bares com os turistas que surgiram como cogumelos, da noite para o dia, em todos os recantos da cidade. A Louca da Casa acompanha todos os jogos, parece que até entende um pouco de futebol, e encontrou amigos que a acham muito engraçada.
A Lúcia de sempre se espanta, mas acaba se divertindo com esse alter-ego muito mais desinibido e popular que o seu ego de cada dia. Fica se perguntando se a virose ainda vai demorar a passar, e tem até um pouco de medo quando sua parceira sossegar, seja pelo final da Copa ou (God forbid!) quando seu time se despeça da luta. Sua vida vai voltar a ser a de antes, sem a paixão e a adrenalina… Acho melhor ir planejando alguma aventura emocionante, como uma volta numa enorme montanha russa, ou umas aulas de voo livre para me entreter e satisfazer essa que, afinal de contas, também posso chamar de eu.

Saturday, June 14, 2014

A pátria de chuteiras

I
De quatro em quatro anos me descubro torcedora de futebol. Não acompanho os jogos do Brasil, porém. Ligo a TV e perambulo pela casa, tentando fazer uma ou outra coisa, enquanto todos os meus sentidos ficam atentos a espera do tão esperado grito de GOL. Odeio os locutores de futebol, que demoram uma eternidade neste Goooooooooooooooooollllllll e custam a confirmar ser do Brasil. O que me ameniza a ansiedade são as generosas explosões de fogos. No meu imaginário, são como fogos de Reveillon e vejo tudo colorido, brilhante, alegre. Este ano, encontrei uma brincadeira que me encantou: mensagens no Facebook, absolutamente piradas, que eu ia fazendo, baseadas em pequenos retalhos de coisas que escutava sendo ditas na TV, ou respondendo aos comentários às minhas próprias bobagens. Só posso dizer que este primeiro jogo do Brasil foi perfeito. Vitória, quatro gols brasileiros (um foi contra, eu sei, mas quem pode criticar o cavalheirismo dos donos da casa?), facebook e brincadeiras, fantasias, filhos acompanhando na torcida, tudo legal. Nem o joelho machucado numa queda estúpida por causa de um elevador que parou fora do nível me deixou chateada. Era um pretexto a mais para desviar minha atenção da ansiedade. Ia buscar gelo, ou espirrar um cataflan, e nisso a posse de bola voltava para o Brasil-il-il, pois durante a Copa o meu país é assim, com eco e peito inflado de amor.
Nos outros jogos, não ligo, embora tente acompanhar, torcendo para os que me parecem mais simpáticos e menos ameaçadores numa possível final contra o Brasil-il-il. Foi assim que ontem comecei torcendo pela Holanda. Simpáticos, acariocados, o Flamengo da Europa vestiu azul, cor de minha predileção. Quando o jogo começou, vi uns momentinhos, mas depois tive que sair. Estava certa, ao me arrumar, que os meus favoritos iam levar uma surra. A impressão que dava é que havia mais jogadores espanhóis em campo. Para onde se olhava, lá estava o uniforme branco, enchendo a tela. Já na saída de casa, um gol da Holanda!!! Resolvi me atrasar um pouquinho. Precisava de ver se tinha sido do Robben cujo nome de ladrão (se pronunciado à brasileira, parece uma ordem, se pronunciado à estrangeira, lembra o famoso personagem inglês, que roubava aos ricos para dar aos pobres). Só então entendi que, se a Espanha parecia tomar o campo, é porque estavam ali plantados, como balizas, para os meninos praticarem seus dribles e fintas (nomes lindos, mas não me peçam para explicar pois não sei diferenciar uma coisa da outra; só sei que são mágica feita com os pés e uma bola que desaparece e reaparece onde menos se espera). Bem, saí e quando cheguei ao local de destino, descobri que o resultado tinha sido Holanda 5, Espanha 1. OK, por mais que eu simpatizasse com o time, não torcerei mais por ele. A não ser que perca na próxima partida, e eu possa dizer que esse resultado foi sorte ( mas acho que não foi, não). Eu bem que gostaria de continua torcendo por eles, mas o Brasil-il-il é o meu amor, e não me atrevo.

II
Tem um monte de gente escrevendo sobre futebol, no facebook, nos jornais, no twitter. Tem um monte de caras falando sobre futebol, também, mas isso eu não escuto: ou troco de canal ou mudo de posição na rodinha.  Voltemos aos que escrevem: uns entendem muito de futebol, e merecem todo o meu respeito, mas… quando são brasileiros e se colocam encastelados em uma lógica analista que os faz criticar os nossos jogadores tenho piedade deles. Uma das melhores coisas da vida é se "apaixonar". Diz Proust (e ele cabe citar até em textos sobre futebol) que se apaixonar por mulher linda não tem graça, muito maior é a paixão de quem se encanta por uma feiosa, pois aí a imaginação revela toda sua grandeza. O meu time pode não ser perfeito, mas estou apaixonada por ele. Pelo Oscar, pelo Neymar pelo David Luiz, e até mesmo pelo Fred. Não critiquem, não deixem que a lógica estrague a paixão. O Fred caiu, foi covardemente desequilibrado pelo adversário. O Fred é ótimo deitado, gente! Faz gol, arranja falta…Deixa ele deitar, gente.  Não procurem defeitos na pegada do goleiro, na cabeleira do volante, no chute do zagueiro, na finalização do atacante. Eles são o nosso Brasil-il-il, e enquanto estiverem no páreo, a gente deve torcer por eles com toda a nossa paixão. E, se vocês ficarem escrevendo essas coisas, não passarão de chatos que, no dia do casamento, queiram falar do desengonçado do noivo, do terno mal passado, da perna torta. Eu sou a noiva apaixonada, não vejo nada. Tudo o que me interessa, no momento, é o SIM, aquela taça que quero levantar  e brindar. A embriaguez da alegria e a promessa de uma noite de núpcias me deixam indiferentes a tudo o mais. Vambora torcer, gente, e se o prazer de vocês é analisar os defeitos, concentrem-se nos convidados, e deixem meu noivo em paz. Meu Brasil-il-il é perfeito. (Agora, se ele perder…viro mulher abandonada, entendem?)

Thursday, May 01, 2014

A revolta dos brinquedos

Viajei. E, com preguiça de carregar o computador, só o telefone me serviu de comunicação pelas ondas da WEB.  Quando voltei, meus brinquedos abandonados estavam revoltados. O computador alegava estar sofrendo de falta de memória e se recusava a abrir. Os outros brinquedinhos estavam descarregados e os carregadores estavam escondidos em gavetas inesperadas, o que me obrigou a andar pela cidade me fazendo de "incomunicável". Até o controle remoto da TV tinha se escondido entre as almofadas da poltrona. Dei de ombros, chamei o meu filho, que me aconselhou a comprar um novo computador. Dei de ombros outra vez e, lembrando a ele que o dia das mães está chegando, ele tinha a opção de me dar um computador novo ou consertar o desmemoriado. Venceu a segunda opção, ainda bem. Tenho grandes ataques de ansiedade quando me vejo obrigada a trocar de computador, com a certeza de que nunca mais vou encontrar os arquivos que vão se escondendo em pastas que se multiplicam e aparecem dentro de outras pastas, num jogo de caixinhas chinesas que me deixa enlouquecida! Foi assim que perdi os poemas que escrevi para o meu querido Gui, e não consigo recuperá-los de jeito nenhum. Mas tenho a esperança de que um dia, ao abrir uma pasta qualquer, lá estejam eles, me aguardando.
Enquanto isso, vou-me aclimatando com a cidade que ainda chamo de minha: Trânsito caótico para chegar ao Municipal. Compensado, depois, com o ótimo concerto de um pianista lindo como um príncipe, mas frio como um boneco de neve. Techné, porém, é um dos nomes da Arte, e eu aceito essa lição de proficiência.
Tal como aceito as lições dos acadêmicos João Ubaldo Ribeiro e Antônio Torres. Um me oferece "medidas para a produção literária": um GG, um Conrad, um Woolf. O primeiro parâmetro corresponde ao número de palavras que Graham Greene escrevia por dia, 500. Já Conrad escrevia 800, enquanto que Virginia, mais prolixa, escrevia 1200. Isso me deixou satisfeita. Talvez eu consiga encontrar um método para minha produção. Vou fazer como meus amigos que agora usam uma pulseira eletrônica que conta seus passos: vou arrumar uma pulseira que conte minhas palavras escritas. Se usar as dos e-mails, comentários no Facebook, torpedos no telefone acho que alcanço um limite razoável. Ou será que esse limite só se aplica para a ficção? Aí estou encrencada, pois vou ter que parar de escrever as outras coisas todas. Ou terei que aprimorar minha técnica e transformar meus dedos em maquinistas velozes como as do pianista Nicolai Lugansky… Talvez minha salvaçnao esteja em seguir os conselhos do Antônio Torres: escolher uma música bacana, adotar um ritmo e deixar que o romance se escreva por si mesmo. Poderei, assim, fechar os livros que estou lendo sobre Freud, escrever um belo título e deixar que as palavras se reproduzam, lúbricas, na tela do computador, num novo tipo de selfie que me deixe só como uma daquelas pessoas que obtêm seu prazer ao ver os outros engajados em atividades amorosas. Isso, caras palavras, crescei e multiplicai-vos enquanto eu fico por aqui limando as unhas e depois assino meu nome  no texto.
Vai ver que é por isso que os brinquedinhos me sabotam e modificam até meu nome. Toda vez que assino tenho que corrigir o escrito, pois o corretor automático substitui meu nome por Lucinda.
Então termino por aqui, cantando, com Jacques Brel – ou talvez com a Maysa, que tinha tanta paixão – "ne me quite pas", para ver se meus brinquedos revoltados voltam a ser amigos e colaboradores.

Friday, April 04, 2014

Prazo perdido

Prometi que voltaria a publicar todas as quintas, mas perdi meu prazo. Desculpem, mas acho que vocês poderão compreender que meu tempo não é elástico e que, nas horinhas que dispunha para a escrita, hoje, precisei encaixar mais uma visita ao dentista. A terceira esta semana! Mas valeu a pena. Começo a sentir o rosto desinchar, e me sinto mais aliviada.
Depois, uma aula extra, já que na segunda vou gravar um programa de rádio… Já fui a três gravações de programas de rádio, uma numa universidade fora do Rio, acho que no Paraná, mas já esqueci. As outras duas em rádios aqui no Rio. Os programas cariocas eram ao vivo e na primeira gravação, ali em Botafogo, fiquei fascinada pelo microfone, um daqueles lindos, imitando os antigos, com uma espécie de halo. Sinceramente, não sei como desgrudei os olhos daquele microfone e consegui me concentrar para responder as perguntas que o locutor fazia.
Na segunda vez, aqui no Rio, só que bem ali ao lado do edifício garagem Menezes Cortes,  eram várias as pessoas participando, e o programa acolhia perguntas e comentários dos ouvintes. Impressionantemente dinâmico, o rádio dá uma sensação de maior adrenalina que as gravações de programas na TV. Em minha primeira entrevista, num estúdio de TV a cabo de uma emissora local, lá no Paraná, fiquei super insegura, com medo de que mostrassem alguma coisa que eu (ou os produtores) não queriam. Pois era preciso esconder o fio do microfone, era preciso não suar em bicas, apesar dos intensíssimos holofotes e do meu sempre crescente nervosismo. A entrevistadora era uma dessas jovens jornalistas que estão se preparando para tomar o mundo de assalto com suas certezas: uma bonita moça, sem dúvida uma boa aluna da faculdade de comunicação, mas ainda uma máquina. Ela usava o ponto com desenvoltura, enquanto eu pensava em "Deus", uma voz desmaterializada que havia me notado e se dignado a me dar instruções por um altofalante.  A sala toda era preta, mas havia um bar num dos cantos, que suponho que fornecia água para os que morressem desidratados pela incidência das luzes. E, no entanto, essa não foi a pior vez de uma entrevista: houve uma vez muito anterior, quando fui dar uma palestra em Trinity College, em Hartford. Como ali é uma cidade de forte presença portuguesa e meu assunto tinha alguma conexão com Portugal, descobri que, na hora que subi ao pódio para fazer minha apresentação, uma equipe de TV se montou inteira no meio da plateia e me filmaram, implacavelmente. Assim que as luzes se acenderam e eu vi o aparato, minha garganta se contraiu e foi com um esforço sobre-humano que consegui dominar minha voz trêmula. A voz ficou passável, mas aí as mãos começaram a tremer e foi preciso apoiar o papel no pódio para que eu pudesse ler o que havia escrito. Quando terminei, meu corpo todo doía de tanto se contrair, tentando se controlar. Foi minha primeira grande plateia. E eu nem sequer me lembro sobre o que falei…
Volto ao rádio. Ali me sinto mais solta. Não vou aparecer em lugar nenhum, e por isso me solto um pouco mais. Preocupo-me com minha voz, que sempre acho muito infantil, nada apropriada para ser escutada. Mas, o que é uma voz desacompanhada?
Nas minhas pequenas palestras pelo mundo afora, vou-me virando. Prefiro aquelas em que estamos todos ao redor de uma mesa, em congressos mais ou menos procurados, embora sempre interessantes. Tenho um grande temor quando sei que haverá um tempo para as perguntas da plateia, pois sempre acho que não vou saber responder. Acontece que as pessoas têm sido gentis comigo: fazem-me perguntas fáceis, ou nem perguntam nada ou só fazem suas "colocações". Deixo que coloquem, meio anestesiada, sabendo que esse ritual é sempre um tanto incômodo. Sorrio e agradeço a contribuição, pois não sou mulher de contracolocar nada. Algumas palestras me renderam muito bons frutos. Outras me conquistaram bons leitores. No cômputo geral, acho que estou dando conta.
Quais as que mais gosto? Aquelas em que identifico, em alguns olhares, um brilho cúmplice de aprovação e de encantamento. As que mais detesto são as entrevistas mecânicas a apresentadores indiferentes, profissionais sem paixão. E aquelas em que me divirto são as leituras que faço para as crianças, de meus livros infantis, quando desencavo um lado que herdei do meu avô, o meu mais querido contador de histórias: um teatro envergonhado e contido, coisa de tímida, que se deixa levar pelo olhar generoso das crianças.

Thursday, March 27, 2014

Fotobiografias

Acaba de me chegar às mãos a fotobiografia da imortal Nélida Piñon.  O título é Tenho apetite de almas, e isso me faz lembrar a crença de alguns, que não se deixam fotografar por medo de que lhe capturem as almas. O livro se torna uma fonte preciosa para historiadores da cultura, pois raro é o escritor e o intelectual consagrado seu coetâneo que não se encontre devidamente fotografado, identificado e arquivado. Quase sempre sorridente, Nélida aparece desde a mais tenra idade, entre seus familiares entre os quais se destacam sua mãe e seu avô Daniel (a quem deve o nome, em anagrama). Fotos tiradas em casa, mas também em palácios e templos da cultura, em recantos que lhe evocam boas memórias, em locais que a imaginação tornou míticos. Comendas, cartas, dedicatórias, capas de livros se multiplicam e disputam espaço com Gravetinho Piñon, o cachorrinho bem amado, e com figuras da política brasileira e internacional. Ao final, sob o título "não deu para falar", uma lista de prêmios e de nomes de amigos e colegas, de participações em atividades culturais e a constatação de que, possuindo um curriculum vitae de 150 páginas, era inevitável a necessidade de algumas ausências na obra. São tantas as coisas e pessoas deixadas de fora que, quem sabe, talvez ainda apareça um vol.II da obra em questão. Até porque a escritora continua produzindo, e brilhando pelo mundo afora, tal como o broche em formato de sol, que ostenta na capa do livro.
Sou encantada por essas fotobiografias. Tenho a de Proust e a de Rimbaud, que foram organizadas por ocasião de seus centenários. Tive a de Clarice, que se extraviou, infelizmente. Acho delicioso ver as fotos de lugares e reproduções de manuscritos. Também vou a exposições de "centros de memória", e encontro pequenos retalhos de vida que muito me comovem. Só uma coisa me atrai e repele, ao mesmo tempo: as máscaras mortuárias. Essas esculturas são fascinantes para quem não teve a chance de ver o rosto fino de Olavo Bilac em vida, por exemplo. Mas, ao mesmo tempo, como não pensar que ali o rosto já não é habitado pelo espírito que fez daquela face um símbolo de sua época? Bem, não vou me alongar aqui, citando Proust com relação ao rosto de sua avó morta, de onde toda a velhice e a dor foram subtraídas ao enrijecer-se. Prefiro, sem dúvida as fotos, os retratos que se chamaram, um dia, de instantâneos mas também aquelas fotos posadas, feitas em estúdios, nas quais os cenários e gestos congelados revelavam quase tanto quanto o próprio rosto fotografado.
Só para terminar, acredito que o livro que folheio é um testemunho de nossa época, e estou convencida de que sua existência revela mais sobre os tempos em que vivemos do que suspeita nossa vã filosofia.

Thursday, March 20, 2014

Retomada

Vejo que desde dezembro não escrevi aqui neste meu cantinho.
Que vergonha, senhores! Como posso ser uma blogueira tão bissexta assim? Minha desculpa é a do país inteiro: o ano só começou mesmo depois do Carnaval! Tive férias. Saí do Rio no Natal/Reveillon. Viajei em janeiro. Saí do Rio no Carnaval. Nada disso me impediria de escrever, exceto a viagem de janeiro, pois estava sem computador, ou melhor, sem internet, pois o computador agora segue conosco nos telefones… Mas, o calor, talvez possa botar a culpa no calor. Como este verão foi quente. Temperaturas inusitadas. Quem se anima a trabalhar com temperaturas assim tão fortes? Ou talvez possa botar a culpa num desânimo enorme, que me faz pular, indiferente, de uma atividade a outra, sem me dedicar, verdadeiramente, a coisa alguma. Só que essa desculpa não seria muito válida, pois escrevi algumas coisinhas que me pediram. Um conto para uma antologia, um conto para o SESC, um verbete sobre Clarice.Não fui tão improdutiva, assim. Escrevi mais um livrinho infantil, também, que não sei quando sairá. E também participei de uma Banca de doutorado, o que me deu algum trabalho de leitura e reflexão.
Volto, agora. Vamos ver se estabeleço um dia certo na semana para escrever. Quinta me parece um bom dia, o que acham? Vou tentar.
Então, até a próxima quinta.

Thursday, December 12, 2013

Conto de Natal - 2013

Como vocês sabem, adoro escrever um conto de Natal a cada ano. Este ano não foi diferente. Comecei na semana passada, mas os compromissos de dezembro, o Facebook e o meu vício em paciência foram me atrasando, e só ontem coloquei o ponto final na história. Quando comecei a escrever, os dias eram de sol, no entanto. E espero que nosso Natal não seja chuvoso, nem triste. E que todos tenham, em seus corações, um pouco deste espírito natalino que cada vez é mais difícil de encontrar. Paz na Terra entre os seres de boa vontade!
Aqui vai ele, espero que gostem!


Wet Christmas - Natal 2013
Lúcia Bettencourt

A rua inquieta, tomada pelos carros impacientes, atrasados reluzia molhada. Vista da janela do apartamento, assemelhava-se a uma fileira de luzes natalinas, piscando: Vermelho, amarelo, verde, vermelho, vermelho…
Um ritmo se impunha. Os carros se movimentavam, depois paravam outra vez, quase no mesmo lugar. Buzinas diziam, em código, frases desaforadas. Vermelho, vermelho…
Olhos, luzes, corações, vida, tudo pulsava no mesmo ritmo. Os sinais mudavam suas cores, os carros não saíam do lugar. Outra vez as buzinas gritavam impropérios,: alguns longos, mais altos; outros roucos, cansados. Vermelho, vermelho…
As luzes de uma sirene giravam, esperançosas, mas ela reprimia seu canto. Apenas vez por outra, quando o sinal mudava de cor, ela ensaiava um gemido. Alguns carros tentaram abrir caminho, mas o espaço entre eles não permitiu manobras, e permaneceram todos nos mesmos lugares, apenas um pouco mais desalinhados. Vermelho, vermelho…
A chuva voltou a cair, violenta. Os pingos ressoavam nos tetos e davam urgência ao ritmo dos alertas e sinais. A água começou a subir, os corações aceleraram. Vermelho, vermelho…
Com a rua metamorfoseada em rio, as calçadas sumidas sob ondas sujas, a esperança de chegar em casa a tempo da ceia começou a falhar. Um relâmpago anunciou a queda de um raio e, logo em seguida, uma trovoada longa estremeceu o ar. Num estertor, as buzinas todas clamaram, mas foram engolidas pelo novo trovão, irado, acompanhando os raios que caíam próximos. Vermelho, vermelho…
Vista da janela, a rua se apagava debaixo da cortina d’água. Ali, dentro do apartamento, havia um perfume de coisas gostosas. A mesa estava posta com capricho e fartura. Os pés da dona da casa caminhavam no seco, e os saltos clicavam no ritmo da impaciência de quem percebe que os convidados irão se atrasar.Vermelho, vermelho…
A árvore de Natal piscava suas luzes. De repente, mais um clarão seguido por um formidável trovão que pareceu estilhaçar a abóboda celeste. Seguiu-se uma súbita escuridão e gritos, sustos. Vermelho, vermelho…
Na rua, os carros sustentavam a iluminação, suas luzes agora pareciam mais intensas por falta das lâmpadas dos postes e sinais. A dona de casa olhou pela janela enquanto, com dedos trêmulos, tentava acender as velas do arranjo natalino. Vermelho, vermelho…
Alguma coisa aquela luz insistente queria dizer. Era preciso fazer algo, diminuir a sensação de pânico, de tragédia. Afinal, era noite de Natal. A chuva melhorava, já era possível ver os carros, meio submersos pela rua/rio que impedia a passagem de todos. Alguns veículos tinham se apagado, mas a ambulância ainda ostentava as luzes da sirene, hipnóticas. Vermelho, vermelho…
A mulher tirou os sapatos elegantes, foi para a cozinha procurar alguma coisa que lhe pareceu essencial naquele momento. Ansiosa, abriu gavetas e armários, juntou coisas, cortou, encheu, separou. Na cozinha escura, iluminada por velas, o tempo parecia correr mais rápido, pulsando no ritmo das luzes fracas que vinham da rua. Vermelho, vermelho…
Com tudo arrumado, ela ainda lembrou de tatear embaixo da árvore de Natal, tirar as luzes da tomada, retirar as caixas dos presentes, juntar tudo num enorme saco de lixo. Lá fora a chuva já havia parado, mas as águas se agitavam em ondas. A mulher saiu do apartamento, carregada de sacolas e caixas. Começou a descer as escadas, ruidosamente. Alguns vizinhos escutaram os ruídos inusitados, abriram as portas, temerosos. Ao compreenderem o que se passava, foram se unindo a ela. Vermelho, vermelho…
As lâmpadas de emergência deixavam espectrais as faces de todos. Mas o número de pessoas descendo as escadas foi aumentando, e os sons tornaram-se risonhos, animados. Lá embaixo, os porteiros de plantão ajudavam homens, mulheres e crianças, calçando galochas e capas de chuva, equilibrando sombrinhas e embrulhos, portando lanternas, toalhas, e grandes caixas pesadas em cima de carrinhos de feira, carrinhos de supermercado, de bicicletas. Vermelho, vermelho…
As pessoas se espalharam entre os carros, e batiam nas janelas embaçadas oferecendo as coisas que traziam em  seus recipientes. As ceias de Natal repartiram-se com aquelas pessoas ilhadas, famintas, cansadas. Criancas chorosas saíam de dentro dos carros para braços solícitos que lhes davam o que beber, o que comer. Esquecida, a sirene continuava a girar: Vermelho, vermelho…
As águas se escoavam, já era possível abrir as portas dos automóveis. O movimento entre os carros se multiplicou. Pessoas de outros prédios se juntaram aos moradores do primeiro, todos os carros foram confortados com aquela celebração improvisada. Aqui e ali ouviu-se o espoucar de uma rolha, os ruídos alegres de brindes, e vozes desejando benesses. A mulher que havia iniciado o movimento chegou à ambulância, fechada e quieta, no meio da festa que se formara na rua. Lá dentro, inquietantes ruídos abafados escapavam. Vermelho, vermelho…
A mulher ficou olhando a luz da sirene, girando, inútil, como uma estrela ensanguentada. Em suas mãos, as ofertas que trazia começaram a pesar, e ela sentiu o coração aflito. O relógio marcava quase meia-noite. Outras pessoas notaram sua imobilidade frente à ambulância fechada, e agruparam-se ao redor do veículo, cuja luz pulsava revelando seus rostos preocupados. Vermelho, vermelho…
Ouviu-se um grito agoniado, quase um uivo. Depois o silêncio reinou por instantes que pareciam congelados. Finalmente, a porta se abriu, e um enfermeiro, cansado e sujo de sangue apareceu,  Vermelho, vermelho…
Nos braços ele segurava uma criança que emitia seus primeiros vagidos. Alguém começou a cantar uma velha canção, baixinho: “Noite feliz”… Logo, todos cantavam. Era meia noite.  Trocaram-se presentes, abraços foram dados, mãos apertadas, faces beijadas.  A sirene, exausta, girava cada vez mais lentamente. Vermelho, vermelho…

Ela também improvisava e se transformava numa estrela anunciando vida. Vermelha, quente, pulsando como a emoção que tomava a todos naquele auto de Natal inesperado…

Thursday, November 14, 2013

Feliz aniversário! No caminho de Swann completa 100 anos.

E eis que a Recherche chega aos 100 anos de publicação!
Parabéns, Proust, por ter realizado uma obra tão duradoura, que ainda emociona a leitores vivendo no século XXI.
Declaro meu amor aos quatro ventos – ao menos a dois ventos virtuais, o Facebook e este meu blog. Explico minhas razões: sinto-me retratada e amada na obra. E imagino mudar-me para dentro do romance, numa ida a Pasárgada. Depois, com bom senso, me questiono: seria eu amiga do Rei, na Recherche? Com qual personagem eu poderia me identificar?
Com nenhuma duquesa, pois sem dúvida não tenho este prestígio social. O brilho com que ele retrata suas duas principais divas (a duquesa e a princesa de Guermantes) não pertence a elas, no entanto. São dois astros fulgurantes, mas sem luz própria: o nascimento, a fortuna, o esnobismo próprio e de seus contemporâneos transformam-nas em jóias dos salões.  A duquesa ainda tem "esprit", uma inteligência vivaz e pronta, que a faz parecer uma mulher superior. Pouco a pouco descobrimos a precariedade de sua vida particular: a infelicidade no casamento, sua maldade e egoísmo, sua superficialidade. E o vazio de seus ditos mordazes. E o tempo não tem piedade com ela, vencendo-a.
Nem sequer a irmã de Legrandin,  enobrecida pelo casamento, mas depois se descobrindo uma nulidade no mundo que julgava ter conquistado. Ela sofre, casada com um homem medíocre cujo único valor é seu título de nobreza provinciana. Sua cultura musical, que ela acha profunda, não passa de um verniz, pois não se baseia no amor à música em si, como o de sua sogra antiquada, babona e deselegante, ex-aluna de Chopin. Mme. Cambremer-Legrandin definha e luta para obter um prestígio que está sempre além de seus esforços.
Proust não tem piedade com quem tem alguma sensibilidade e pendor artístico, mas se descaminha e se deixa levar pela vida social, embora os compreenda e, na maioria dos casos, lamente.
Mme. Verdurin, inteligente e riquíssima, faz da arte um instrumento de ascensão social, pecado que vai ser punido pela mordacidade com que o narrador a descreve. Ele revela todas as suas estratégias, desmascara suas intenções, mostra as garras que ela não hesita em usar contra quem a fere. No entanto, ela sabe se "fazer" no mundo social. E genuinamente apoia as artes, embora seu interesse seja pela criação e não pelos criadores de arte, a não ser que estes se "escravizem" e a "bajulem", e nunca desertem seus salões. Talvez por isso ela seja "premiada", ao final, no baile de máscaras, a que ela usa é a desejada, mas é ainda uma máscara.
As amadas do narrador não combinariam comigo: Gilberte, renegando o próprio pai e Albertine, ambígua demais, fantasiosa demais, sem uma família, sem uma classe definida, e um joguete nas mãos de um namorado neurótico e, sem dúvida, mais preocupado em impedi-la de amar a outrem do que em fazer amor com ela.
A mãe e a avó, e Celeste, a empregada de toda a vida são as figuras mais espiritualmente nobres da obra. A mãe e avó com seu altruísmo exacerbado estão muito além de minha capacidade. Já Celeste… talvez seja ela a figura mais bem construída de toda a obra. Adoro a Celeste. Detesto a Celeste. Seus lados bons e maus se equivalem, se alternam, convivem sem contradição e ela consegue se impor mesmo estando numa posição das mais subalternas e frequentando a obra quase que em todos as situações. Ela, tão verdadeira, é, ao mesmo tempo, quase que uma alegoria do "povo francês"
Odette? Grande personagem, seja como cocotte seja como grande dama, a gente se liga a ela e à sua beleza atemporal, e não sabe ficar sem ela, mesmo não sendo "nosso tipo".
Charlus? Swann? Saint Loup? Quando li o romance pela primeira vez, na minha juventude, fui me apaixonando por um e por outro, sucessivamente me decepcionando e fazendo, depois, as pazes numa amizade eterna e doce. O único a envelhecer é Charlus. Os outros dois morrem cedo e são, de certa maneira, poupados de sua inconsequência com relação às artes. Pois essa é a única falha que nunca é perdoada: trair o talento artístico.
Mesmo assim, Morel, que nunca trai seu talento como violinista, é mostrado como um canalha. Em todos os outros personagens suas imperfeições impedem que eles sejam resgatados pela arte. Em Morel, que triunfa pela arte, o autor despeja, sem piedade, seu desprezo por alguém mesquinho e, mais do que isso, mau. Como se nos alertasse de que a arte em si, sem o compromisso com algum tipo de ética, não salva ninguém.
Acho que eu gostaria de ser o narrador. Queria criar uma obra assim, ao meu redor, como um casulo, e deixar de ser esta lagarta que sou. Ao menos na minha "procura" eu teria as asas de borboleta que a vida me negou.

Monday, November 11, 2013

Uma carta de amor

Sim, meu querido ausente.
Escrevo uma carta de amor, nesta manhã de sol claro e brisa fresca, e imagino que talvez você tivesse prazer se a recebesse. Mas, talvez não. Seus interesses podem ser outros agora e, sem nem sequer lembrar que existo, se esta carta chegasse até você, sua reação seria de surpresa e de um certo enfado, palavra antiguinha que nós ainda conhecemos e talvez seja este nosso único elo em comum: palavras antigas, em desuso.
Entre nós existe apenas o não-dito. O silêncio. Não o silêncio do ponto final, mas o das reticências.
Não apago o que escrevo. Deixo aqui, na tela, esta carta que jamais será enviada, e me pergunto a razão para escrevê-la. É que anseio por companhia, por olhos que se iluminem ao me ver, por afagos. E me iludo ao pensar que sim, ainda é possível amar. Sei o contrário, mas me iludo, nesta manhã de sol claro, de céu pálido, de mar desbotado. Nesta minha solidão, nem mais o verão aquece, e aqui seria o local de colocar um sinal de reticências, mas nem é preciso.  Em todos os sentidos. No não-sentido.
Ausência, o meu único presente. E, assim, coloco o ponto final, fazendo mais curta esta carta de amor ridícula. E gosto desse diminutivo tão essencial que já nem mais parece um diminutivo.
Gostaria de que sua mão agora acariciasse meu rosto e que você me dissesse que não é motivo para desesperar, que amanhã é terça, e vou acordar diferente, mas talvez não acorde e que não tem importância. E por isso termino, assim, reticente e imprecisa, talvez …

Wednesday, November 06, 2013

Falas e observações

E la fui eu para San Diego, falar sobre dois filmes: um de Gláuber Rocha, "Terra em transe"; outro de Teresa Prata, baseado em romance do Mia Couto, "Terra sonâmbula".
À primeira vista, os dois têm pouco em comum, mas o que me chamou atenção foi o fato de a literatura ocupar um papel importante em ambos. Achei graça no filme que se apoia na escrita… E também tem o lance político. Teresa diz que não fez um filme político, mas ela mesma afirma que tenta fazer, com sua obra, que as pessoas vejam a guerra de um outro ponto de vista. Contemplar a guerra significa meditar sobre as forças políticas que levaram a essa guerra. Mas ainda tem mais um ponto de intersecção: o povo. Em Gláuber ele está presente, como coadjuvante, mas aparece como massa sendo manipulada. Em Teresa ele também se encontra presente, só que já manipulado, regenerando-se. O otimismo e um certo lirismo da jovem a distancia da perplexidade e urgência de Gláuber, que faz uma denúncia. Ela já vê as coisas terminadas, a catástrofe já ocorreu, e daí uma certa  lentidão…
Bem, afora minha palestra, estive presente em outras sessões e o que me chamou a atenção foi a quantidade de sessões dedicadas a "leituras" de obras literárias. Fiquei conhecendo autores novos, e gostei muito do que escutei. Outra coisa que me agradou foi o fato de que agora temos sessões em "food studies". Gente, quando comecei minha tese e explicava o que ia fazer, as pessoas me olhavam desconfiadas, pensando que eu queria escrever um livro de receitas, ou algo assim… Ninguém entendia, vejam só. E agora já fazem até sessões em separado sobre o assunto.
Mais um comentário sobre o PAMLA foi a confirmação de uma coisa que estava notando já há algum tempo: os personagens estão envelhecendo. E daí o interesse por essa "geriatria literária", e por exemplo, sessões sobre: as avós na literatura francesa. Claro que assisti à palestra sobre a "avó proustiana". Adorei.
Mas não foi só a conferência, a cidade de San Diego é encantadora. E o hotel onde ficamos hospedados e onde assistimos a palestra, é excelente, bem à beira do mar, com barquinhos, barcões, bicicletas e até  aquela motocicleta em pe, cujo nome sempre esqueço e parece com Sedgewick. Para mim, a temperatura estava muito fria, mas para os americanos radicados em lugares como Minnesota, era o paraíso e alguns foram nadar e aproveitar o bom tempo. Eu fui até a praia, fora da baía, ver o Pacífico, mas não tive coragem nem sequer de molhar os pés na água.
Agora estou de volta ao Texas, e já vejo os sinais do outono: vento, árvores mudando suas cores, chuva… A temperatura, para mim, está um gelo. Mas com um casaco ou dois, vou-me aguentando. Em breve volto ao Brasil, e ao calor. Ou ao ar condicionado, pois calor demais enjoa…

Thursday, October 10, 2013

Diário da depressão

E por que será que, num dia lindo assim, me descubro deprimida e sem ânimo? Por que estou zanzando, desde cedo, de uma poltrona a outra da casa, desejando alguma coisa que não sei o que é?
É bem verdade que outubro é o mês mais cruel. A cada dia de outubro o espinho se finca mais profundamente e me arranca lágrimas. Reajo. Resisto. O mar, lá fora, se agita, e eu me agito também.
Deprimida com o que vejo, deprimida com o que escuto. Desencantada com amigos e com o mundo, sinto dificuldade até para trabalhar…
Bem, desabafei.
O que eu queria mesmo era um milagre…

Wednesday, October 09, 2013

Lições que ainda não aprendi.

A vida nos ensina… O quê, mesmo?
Achava que uma das lições que deviam ser aprendidas era a de "não cuspir no próprio prato". Pelos vistos, estava errada. Vejo que as pessoas que são levadas para representar o país com o aval de uma instituição, assim que recebem o microfone, desqualificam a instituição e o país que estão ali representando e, com isso, são ovacionadas. Bem. É assim? Deve ser assim? Num raciocínio lógico, se você foi a pessoa escolhida por uma instituição e uma sociedade racista, homofóbica, incompetente, etc. das duas uma: ou você se iguala a essa instituição/sociedade ou você as denuncia antes de se beneficiar dos privilégios ofertados por essa instituição/sociedade. Usar os benefícios e denunciar quem lhe proporcionou os mesmos, não é uma postura ética e nos coloca a todos como ou otários ou aproveitadores. Creio que não aprendi a lição número 1 da nossa pós-modernidade: "ética é para os otários". Ou talvez a primeira e mais importante lição seja: "aparecer a qualquer custo".
Mudando de lição, vejo esse debate sobre as biografias: uns são contra, outros são a favor. Enquanto isso, fui assistir ao filme Salinger, uma biografia de J.D. Salinger, autor de O apanhador no campo de centeio. Gostei do filme. Mas o que ficou martelando em minha cabeça foi o "mea culpa" que o diretor fez na entrevista final. Como não existem identificadores, fiquei sem saber quem era esse último entrevistado, que confessa que nunca encontrou o escritor, mas "quase" que conseguiu uma entrevista. Numa de suas conversas com uma amiga de Salinger, ela lhe perguntou:"Se você o encontrasse pessoalmente, o que ia querer saber?" O homem respondeu que gostaria de saber se ele continuava escrevendo, e se ele estava bem e tinha planos para o futuro. A mulher respondeu afirmativamente a todas essas questões e lhe disse que, uma vez que ele já estava de posse de todas as informações que desejava, não havia motivo para encontrá-lo pessoalmente. E esta é a minha dúvida: O que é que eu quis saber ao ir ao cinema, ver a vida de Salinger? O que essas informações sobre a vida amorosa, o que esses acertos de conta entre familiares e fãs influiu na minha leitura de suas histórias? Nada. Agora tenho um rosto para colocar no autor (antes eu nunca tinha nem sequer visto uma foto sua). E agora que sei que ele foi um péssimo marido para suas mulheres e um mau pai para seus filhos, qual a importância disso na sua obra?  Mas saber que ele levou seus manuscritos para a guerra, que brigou com um amigo por causa do título de uma história, que era obsessivo com seu texto, isso sim vai me obrigar a ler o texto com uma maior atenção aos detalhes. Portanto, biografias – literárias – têm seu valor, não como reality shows nem acertos de conta, mas como reveladoras da relação do autor com sua obra. Mas duvido que isso alguém queira saber. Tenho amigas que estão lendo a vida de Catarina da Rússia, e seu maior encantamento é com a quantidade de amantes que a rainha teve. Até agora nenhuma me disse o que levou Catarina a obter o apelativo de "a grande". O que ela fez, além de ir para cama com apreciadores de vodka e generais? Alguma coisa ela realizou, mas deve ter passado desapercebida ao biógrafo. Ou aos leitores.

Gregor Samsa em Tóquio

Acabo de ter uma visão. Na verdade, foi mais uma "audição". Um escritor, no Japão, acha que é muito original fazer seu personagem se apaixonar por uma boneca. Se ele tivesse lido o genial Felisberto Hernández, veria que essa história rendeu uma obra maravilhosa, Las Hortensias. Isso muito antes de inventarem essas bonecas infláveis que estão enlouquecendo alguns homens e muitas baratas.
Baratas?! É que só assim entendo a frase do escritor, que ao invés de usar o verbo consumar para o ato amoroso, usa consumir. Entendo, então, já que silicone não é um alimento apreciado por humanos, que seu personagem será uma barata. Isso para evitar o chavão do sexo como produto, e blá, blá, blá. Pois suponho que escritores não apreciem o uso do chavão. Será?

Saturday, October 05, 2013

Festival de cinema

Estamos em pleno festival (ou seria maratona?) de cinema .Fui a três filmes por dia, visitei Botafogo com assiduidade, vi o que queria e o que não queria. Perdi alguns filmes que gostaria de ter visto. Agora vou perdendo o fôlego. Hoje, apesar de sábado, só tenho dois filmes. Um já assisti: e foi a prova de que as sinopses podem ser enganadoras. Vou a outro mais tarde, com a recomendação e o estímulo de uma amiga.
Vi muita bobagem, vi coisas muito sérias, algumas muito chatas. Vi, também, bobagens muito chatas. Do que vi, acho que pouco merece ficar registrado por escrito. A grande beleza; o último dos injustos. Alguns filmes me surpreenderam: Como não perder essa mulher foi muito melhor do que eu esperava, apesar de não ser "my cup of tea". Blue Jasmine me surpreendeu às avessas. Apareceu apregoado como "o melhor Woody Allen de todos os tempos" e eu achei uma versão envelhecida, desencantada e cínica de Annie Hall.
O que foi exatamente como eu esperava foi a loucura do Julio Bressane. Totalmente Julio Bressane. E apaludido no final, para desespero de minha amiga, que não se conformou com o filme, nem com o outro curta, que o antecedeu, e cujo nome não me lembro
Hoje assisti dois curtas no computador. Do inferno ao paraíso leva mais ou menos 15 min. e o Cine centímetro. Gostei de ambos. Queria ver a serpente que dança, mas não encontrei.
E agora, lá vou eu de novo, pelo mundo afora. Vou conhecer o Cinema São Luís. Que coisa!

Thursday, September 26, 2013

Pudor das palavras

Existem palavras que deviam andar por aí de burca, até porque não existem em estado dicionarizado, são uns seres híbridos e assustadores. Hoje topei com (perdão, perdão!) "convulsivante". Achei que a dita cuja deveria ser imediatamente "emburcada", antes que vire uso comum. Pois que coisa horrorosa que andam as nossas contemporâneas invenções vocabulares! Querem ver uma outra que poderia desfilar de burca, para ver se nos esquecíamos da distinta? "visualizar"! Já repararam que ninguém mais usa o bom e velho verbo ver? Todos querem visualizar o mapa, ou as fotos, os os novos modelos de carro. Os botões eletrônicos do telefone nos convidam a visualizar o número chamado, e por aí vai.
Não vou me estender, até porque não tenho tempo para isso, estou com muito trabalho pendente. Mas fica aqui meu protesto. Principalmente porque a palavra convulsivante que me arrepia até a raiz dos cabelos, veio inserida num poema de amor. Por favor, ouçam a voz da experiência, amores podem ser expressos em sussurros carinhosos, ou mesmo em palavras com arestas, ferinas. Amores podem ser celebrados com palavras banais, corriqueiras, mesmo. Evitem, no entanto, essas palavras hediondas, causadoras de soluços e engasgos. Principalmente no meio dos corpos convulsos, pois um deles pode sufocar e morrer. 

Saturday, September 21, 2013

Saqueando a realidade

Sou de uma estranha raça de bípedes que adora ir a palestras literárias. Vou, não só para falar, mas também para escutar. Isso é o que me torna "estranha". Geralmente as pessoas comparecem por alguma razão alheia ao discurso do "outro". Vão escutar a própria voz. Vão porque a professora vai passar uma lista de chamada (alguns, uma vez assinada a lista, saem descaradamente). Ou vão porque devem favores a quem fala. Outros, ainda, vão porque têm a chance de pegar o microfone que se abre para perguntas e, sem perguntar nada, fazer uma conferência paralela. Algumas pessoas vão às palestras por causa do prestígio do local, ou do palestrante. Algumas estão ali como eu: esperando para escutar o segredo revelado do universo. Claro que nem sempre a gente escuta algo que preste, mas quase sempre aprendo alguma coisa, boa ou má.
Ultimamente, tenho escutado a mesma coisa, repetida ora como confissão, ora como queixa. Um escritor que confessa que coloca fatos reais nos seus romances. Uma que reclama que, conversando com outro escritor numa festa, ou num bar, disse alguma coisa interessante – ou proibida, daquelas que se diz na intimidade, entre amigos – e que recebeu o aviso: "vou usar isso no meu livro, já estou avisando!" Numa diferente versão, fico sabendo de livros que se dizem de ficção, mas que contam as histórias e os nomes de seus conhecidos, apenas tomando algumas "liberdades poéticas".
Então quero propor aqui a leitura de A louca da casa, de Rosa Montero. Ela nos dá uma boa lição do que seja o trabalho literário, que toma como ponto de partida a realidade, mas depois deixa que a "louca da casa", nome que Sor Juana dava à imaginação, apropriar-se da pena e narrar. Assim, um episódio como (já não me lembro bem qual é) uma briga com o namorado e uma posterior ida à casa dele, dá origem a umas três histórias diferentes, completamente diferentes do que se passou – se é que se passou. Em  Rimas da vida e da morte (acho eu que é esse o título) Amós Oz dá uma lição magistral de como tirar leite das pedras, ou seja, ficção da realidade. O livro principia com uma possível confissão autobiográfica, de um autor que vai a uma palestra para ouvir sempre as mesmas perguntas, superficiais,  e, mesmo no meio do tédio e das dúvidas, ele é capaz de fazer dessa plateia uma matéria prima pulsante, viva, e, no entanto fantástica, onírica.
Só queria registrar aqui, neste meu cantinho escondido, que saquear a realidade e colocá-la entre as páginas de um livro não cria uma obra realista, cria, no máximo, uma reportagem. Romances não são reality-shows, são muito melhores do que isso. E o escritor não é uma câmera escondida, flagrando amigos e conhecidos em situações embaraçosas, e colocando-os na berlinda. Nem mesmo a nossa própria vida merece se expor desta maneira, nua e crua, sem um bom photoshop literário. Literatura é arte e arte é surpresa e reinvenção. Vejam os impressionistas, que saíram de dentro de seus estúdios, procuraram pintar a natureza e fizeram quadros que ninguém reconhecia como "realidade". Eles nos ensinaram, ampliaram os limites do que vemos como "real". Ensinaram que tudo o que vemos é mediado e nos fazem pensar até hoje. Pois taí o da Vinci (será que é ele mesmo?) que não me deixa mentir: "arte é coisa mental". E eu acrescento: arte também é generosa: por que ferir um só, se com um pouquinho de trabalho a gente pode ferir a todos?

Sunday, September 15, 2013

recados e mensagens

Vou contar um segredo de polichinelo para vocês (caso alguém não saiba o que é o tal do segredo de polichinelo, é aquele segredo que todo mundo já conhece, menos a pessoa que está espalhando o caso, que acha que é um grande furo)
Bem, meu segredo – conhecido por todos – é que sou péssima nessas coisas de computação, mas adoro todas essas novidades. Acontece, então, que todas as minhas ações cibernéticas são à base de erro e acerto, e percorro caminhos tortuosos para fazer o que os outros fazem em dois segundos, com um único comando.
Para acessar este meu blog aqui, que mantenho obstinadamente há anos, como um amigo, meu caminho é através do google. E, às vezes, me assusto: descubro que ele está classificado no ranking Brasil (provavelmente em último lugar, me deu preguiça de ir lá olhar); descubro que existem outros blogs semelhantes e que alguém (isso é que me admira, mesmo que esse alguém se chame Logarítmo da Silva) se deu ao trabalho de comparar e classificar. Não fui lá ver, para me proteger. É que sou parcial aqui com este meu bloguinho de estimação, mas sei de meu espírito crítico. Se olhar para os blogs estranhos que outros comparam com o meu e encontrar mediocridade, vou ficar arrasada. Pois no meu não sou capaz de ver minha própria banalidade, mas no dos outros… É outra história!
Só que desta vez não resisti a uma página que dizia "recados do nadanonada blogspot.com". Quis ver que recados eram esses que eu andava mandando sem saber. Juro que nunca mandei nada daquilo, coisinhas bobocas como alfabeto da amizade e retratinhos de bebês falando de resoluções para o novo ano. Que droga! Essa ida a esse descaminho virtual só serviu para me deixar deprimida: afinal, meu bloguinho, quase um diário, pois estou mesmo convencida de que ninguém, além de mim, o visita, na verdade é escrutinizado pelo sr. Logarítimo da Silva, que atesta que ele recebe X visitas mensais, e manda recadinhos idiotas, ou, mais acuradamente, que algum espertinho usa o nome de meu blog para mandar recadinhos infantilóides para o ciberespaço.
Estou pensando que as visitas devem ser todas de Obama Dearest (tenho que tratar bem ou ele ainda me acusa de usar armas tóxicas). Imagino que esse meu blog está ajudando a recuperar a economia americana, uma vez que eles precisam empregar o Sr. Logarítimo da Silva e o Sr. Tradutor de Abobrinhas, além de outros mais, visto que continuo insistindo em manter esta página. Pela longevidade, ela se tornou importante, sem dúvida. Já virou parâmetro e inspiração.
Viva o mundo web e nossas mensagens circulantes e ociosas. Esta semana li que estamos acelerando o aquecimento global por armazenarmos tudo nas "nuvens". Daí fico aqui pensando, num ET arqueologista, quando se deparar com esse meu blog, daqui a anos luz. Será que o Sr. ET da Cunha vai ter a mesma reação admirada de quando, hoje, contemplamos a arte rupestre? LINDO! Lindo. Legal… Por que será que eles só desenhavam (conchas) (cavalos) (mãos) (caçadas)?
Repetitivos e fastidiosos, convencidos de nossa própria genialidade, vaidosos, eu me enquadro nesta multidão que começou deixando sinais nas paredes de cavernas e agora deixa suas marcas na solidão das esferas.  E digo ao Sr. ET da Cunha, não se decepcione quando, finalmente, conseguir decifrar nossos bits e bytes. Se eles não trazem o segredo da vida, ao menos ocupam as nossas. Eu elaboro, você decifra e todos sonhamos.

Saturday, September 14, 2013

O bicho está feio!!!

Um concurso de feiúra, coisa de nossos tempos conturbados, ocupou jornais e internet. Não sei se teve muita repercussão, mas ocorreu; e o eleito foi o "peixe-bolha". O peixe bolha é a massa cor de rosa no alto à direita. Blob (batizei-o assim) não me parece ser o mais feio. Acho que ele não me assustaria, se acaso, num mergulho, topasse com seu muxoxo infeliz lá nas águas escuras do oceano. Uma cabeça derretendo de tanto pensar tristezas, cismando com o fim de uma era.
Acho que não gostaria é de  abrir uma porta e descobrir um Ai-ai arregalando os olhos para mim. Seria como entrar na tela de Munch, o bicho contribuiria com a cara preocupada e eu com o grito.
No meio destes bicharocos, o macaco narigudo posa de galã. Parece um Jean Paul Belmondo do mundo animal, olhando-nos meio de lado, com alguma ironia. Suponho que essa semelhança só seja válida enquanto permanecer calado. Falando pelo nariz, comprido como dois dedos, deve ficar mais feio e muito mais estranho.
Para situar, o Ai-ai é o orelhudo à esquerda de Blob, e o Jean Paul é o macaco arruivado imediatamente abaixo do dito Blob. À esquerda, embaixo, está a cara vermelha da Uacaraci. Diz a legenda que a fêmea canta para seduzir o macho. Espertíssima, pois talvez sua voz seja bela e sua canção maviosa. Sua cara parece ter sofrido um peeling e talvez ela consiga emprego como mascote de uma campanha centrada nos dermatologistas. Um paciente, com a cara em fogo depois de ser abrasada por ácido, certamente contribuirá para minorar as mazelas de sua companheira de infortúnio.
Nesta linha de raciocínio, a toupeira cega, que está à direita, embaixo, poderia estrelar a campanha voltada para os consultórios de oftalmologia, mas, lendo a legenda que acompanha sua foto e que nos garante que ela cava túneis de até 20 metros, acho melhor fazer dela a mascote da Papuda. Ela também escaparia de lá, e talvez os outros "não-presos" lhe dessem um mensalinho ecológico.
Só me falta comentar a rãzinha fashion do Titicaca, envolta em peles, com seus olhinhos de boneca e suas dobras e pregas que a fazem mascote da alta-costura. Qualquer hora vamos ver uma rãzinha dessas numa loja de brinquedos pertinho de você. Aposto que a Pixar ou os studios Disney já estão elaborando histórias para ela. Uma fofa! Totalmente fashion! Só precisa de um nome. Tite? Tite Pelechen?  Übermodel da ecologia, arrasando na semana da moda de Paris!

Sunday, September 08, 2013

Violência

Vivemos num mundo violento demais. Não sou eu que o digo, são os jornais, a TV, os filmes. Eu até que não tenho me encontrado muito com a tal violência. Não tenho testemunhado abusos, a não ser o do supermercado aqui em frente, que insiste em ocupar e emporcalhar nossas ruas.
Aqui no prédio as pessoas são educadas. Os funcionários são educadíssimos. Na rua, como o Leblon ainda é uma aldeia, somos reconhecidos e cumprimentados por quase todos. Isso quando somos anônimos, ou seja, essas pessoas que passam desapercebidas e nem precisam de máscaras. Pois sei que sou reconhecida, mas tipo: lá vem a dona do cachorro branco, olha o bigodudo cantor, e onde será que anda o moço das cadeiras. Gente de quem só lembramos ao cruzarmos na rua e de quem até sabemos o nome, mas na maioria das vezes não. Por exemplo, tenho uma vizinha que gosta de plantas, cujo marido está com dificuldades para andar, e que não é brasileira. Sei que gosta de vestir roupas claras, e que é muito disciplinada. Sei de muitas coisas sobre ela, mas não sei o seu nome.
Outro vizinho toca piano, pratica todos os dias. Um outro (talvez o mesmo) fuma maconha. Sinto o cheiro todos os dias. Uma tem cachorro, outra tem netos. Uma está sozinha, não tem filhos, perdeu o marido, a família mora longe. Uma é ambiciosa e segura de si. A outra é recém-chegada ao país, tem um filho pequeno e não fala português. Aquele usa perfume demais, sempre que posso, tomo outro elevador, por conta de minhas alergias. Mas quem são essas pessoas, realmente? Anônimas – sem nomes, sim, mas com histórias e características próprias.
Talvez seja esta a razão de nos saudarmos e de sermos gentis uns com os outros. Eles aparecem para a gente com algum sinal de humanidade. Quando estamos numa situação de "massa", as coisas se tornam diferentes. Pessoas se acotovelam nos locais muito cheios, empurram, gritam com quem eles acham que está em desvantagem. Pessoas são horríveis quando são apenas "gente". Grosseiras. Perderam a delicadeza e seus sorrisos.
Nós somos seres horríveis quando viramos "massa". Abusamos do nosso ambiente, abusamos de tudo e de todos. Somos um grupo de infelizes, achando que o mundo nos maltrata, mas nós é que maltratamos o mundo.
Digo isso por causa de minha leitura da Revista de Domingo. Um fala do meio ambiente ameaçado, outra fala da sala de espera do analista e do esforço pela invisibilidade. Mas há uma história que me encanta. A do médico que inventa exames baratos e que se preocupa em identificar doenças negligenciadas porque são, erroneamente, classificadas como "doenças de pobre".  Exames que custam apenas 5 reais. Acho que contribuir para isso faria mais bem à alma da cronista que frequentar o consultório do analista e se preocupar com a etiqueta de cumprimentar ou não o paciente da sala de espera. Ela que estenda a mão a quem precisa, e que abra a bolsa que seus leitores generosamente recheiam. Pessoas como ela, com nome, são exemplos para anônimas como eu. Mas é pelo médico anônimo e estrangeiro que a lição verdadeira é ministrada. Meus parabéns a ele. Prometo que vou decorar seu nome e aprender sua lição.