Friday, February 22, 2013

Na tonga da mironga…

Será que estou tendo alucinações? Outro dia, juro que ouvi, na novela , núcleo da incapadócia, as pessoas se cumprimentando usando a palavra Kabuletê. Quis perguntar a algumas amigas sobre o dialeto turco usado na globo, mas me esqueci. Quando encontro com as amigas temos outras coisas a comentar, que, para nós, são infinitamente mais interessantes. Devia postar isso na Facebook, talvez assim obtivesse uma confirmação. Mas o danado me distrai, com suas perguntinhas. Quer saber como estou me sentindo, o que estou fazendo, essas coisas maquinais, nas quais a gente nem pensa a não ser que uma maquininha nos pergunte. Ou então, o danadinho, mandão como ele só, me exige: "Escreva alguma coisa, Lucia" e eu, obediente, saio da página e volta ao trabalho em word…
Mas volta e meia a lembrança do kabuletê me assombra, na forma da musiquinha do Vinicius (em parceria com o Toquinho, acho eu) e fico cantarolando, em meio aos meus afazeres, que esta semana teêm sido burocráticos e chatos. No entanto, não posso reclamar, estou cumprindo todas as etapas. Dei entrada no passaporte, agendei renovação de carteira de motorista, providenciei o conserto do carro, cobrei o conserto da TV, estava presente no conserto do filtro de água, agora preciso ler contrato e tomar decisões chatas, chatíssimas. No meio desse caos, aniversariei, tive um dos meus piques de tristeza, me aprumei, dei uma ajudinha familiar de emergência, e continuei na leitura de Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso. E Rimbaud, meu Deus? Descobri mais um livro sobre ele, na Travessa! Acabo indo à falência… E será que escrevo sobre o Mia Couto? Oh, céus! Tanto o que fazer… E o meu vício secreto, de ficar jogando paciência no computador, me corroendo as horas produtivas!
Vale mais ficar lembrando da Tonga da mironga, e dizendo a todos, com sorrisos banhados a chá de maçã: Kabuletê!

Tuesday, February 19, 2013

Aniversariando

Aniversariar é uma arte.
Aos poucos, com a repetição, a gente vai aprendendo que não tem muito o que esperar da data. Alguns amigos se lembram. Outros, não. Alguns amigos telefonam, outros nos mandam mensagens por e-mail, telefone, facebook. Outros vêm a nosso encontro, outros se escusam.
E a arte, onde está?
Está no sorriso feliz que, por delicadeza, colocamos em nosso rosto, mesmo a contragosto. Principalmente quando se sabe que a data de nosso nascimento deixou de ter importância para os outros. Há um tempo em que nossa data de aniversário é um motivo de comemoração de "maravilhas". É a data em que surgimos no mundo e passamos a ser o ente mais importante para um alguém qualquer. Tenho uma amiga cujo filho é médico e se embrenhou pelas selvas. Num belo dia, foi chamado para assistir a um parto de uma índia. Quando chegou, o bebê, minúsculo, já tinha nascido e estava exangüe entre as pernas da mãe. O jovem pegou o pequenino e cuidou dele, massageou seu coraçãozinho com a ponta dos dedos e rejubilou com seu primeiro vagido, ainda fraquinho. Esse menininho terá o dia de seu natalício comemorado com carinho e emoção por este rapaz sensível, enquanto ele viver. Talvez sua mãe, e seus parentes também se relembrem da data com grande alegria. Mas o indiozinho, provavelmente, vai crescer, seus pais e seu médico desaparecerão, provavelmente antes dele, e ninguém mais ficará comovido e relembrará o milagre de seu nascimento…
Passei minha infância sem maiores comemorações. Naquela época, não eram usadas. Mas ninguém estava especialmente feliz com o meu nascimento, ou, pelo menos, essa era a impressão que eu tinha. Na adolescência, tive uma festa de aniversário, meus quinze anos, ameaçada por uma das enchentes no Rio. Não era uma super-produção, mas era a minha festa. Um amigo, o Ricardo Zambelli (por onde andará ele?) tinha uma banda e ia tocar lá em casa. Eu fiz meu próprio bolo – nessa época eu conseguia fazer bolos deliciosos – em formato de coração, pois era a única forma que eu tinha em casa. Mas a chuva começou a cair e as ruas foram alagadas. A garagem do meu prédio encheu e os carros flutuavam, descontrolados. Eu olhava a intempérie e sofria, com a certeza de que ninguém iria aparecer. Mas, maravilhada, vi chegarem amigos ensopados, os rapazes da banda rebocando seus instrumentos encharcados, e me encantei com a festa, embora até hoje tenha certeza de que a festa em si é que era o atrativo, e não o meu aniversário.
Casada, descobri que meu dia de nascimento era realmente razão de júbilo para alguém. O Guilherme realmente se importava comigo, disso eu tenho certeza. E, mesmo nas comemorações mais simples, o carinho dele tornava meu dia especial.
Agora, sei que tenho amor e carinho a meu redor, mas também sei que o meu aniversário é apenas mais um dia do calendário. Ninguém vai acordar maravilhado porque, num ano remoto, uma menina indesejada nasceu para se tornar a pessoa mais importante da vida de outrem. Agora voltei a ser uma pessoa comum. E, no dia do meu aniversário, sofro, lembrando do que um dia fui.
Mas sobrevivo, estou sobrevivendo bravamente, e vou sorrindo, agradecida de ter tantas pessoas que querem demonstrar, com carinhos realmente verdadeiros ou com originalidades requentadas, que sou uma pessoa querida, amada verdadeiramente. Só não sou mais aquela pessoa especial.

Monday, February 18, 2013

Sobrevivendo ao meteorito

Era dia de aniversário na família… E, de tarde, haviam marcado um meteorito como uma atração extra.  Ia passar perto, mas sem perigo algum para o planeta. Todos os telescópios focados no grande show estelar e eis que um penetra resolve roubar a cena, e quase que nos prega uma peça de mau gosto! De noite, fui jantar com a família, e a conversa ficou assim meio entrecortada, cada qual pensando com seus botões que "imagine se a trajetória do astro fosse um pouquinho diferente"…
Dias antes, em plena folia, um reforço na loucura: O papa renuncia! Vejam só o que dá nascer na segunda metade do século XX: a gente vê o homem pisar na Lua, vê estrelas caindo sobre a Terra, vê (e aprende o nome de) tsunamis se repetindo, vê a revolução nas comunicações e vê um Papa renunciar… É bem verdade que perdemos as duas guerras mundiais, mas fomos fartamente compensados com violentas e intermináveis guerras, quase que uma por semana. Guerras que já não se diferenciam de jogos eletrônicos a não ser pela contagem de mortos pois neste caso são reais. E que nos fazem lembrar do conto de Eça de Queirós – O mandarim. Basta apertar um botão… Lá longe, na distância, o mandarim cai fulminado. E deixa-nos a herança de uma ameaça: quem sabe não estamos à mercê de um outro botãozinho qualquer?
Mas o meteorito, com certeza, anda perturbando outras leis da natureza. Eis que o morto ressuscita e lá aparece o Chaves, pimpão e sorridente, segurando um jornal do dia. Será que só eu me lembro do filme Moon over Parador? Aquele com a Sonia Braga, que conta a história de uma república latino americana cujo caudilho morre prematuramente e os seus prepostos arrumam um sósia que lhes permita uma "sucessão sem percalços"?
A onda de choque demora algum tempo para chegar ao Brasil, mas chega e "mata" meu celular! De repente, estou outra vez no tempo das cavernas, sem celular, sem amigos, flutuando no vácuo, como um meteorito pré-queda. Ninguém sabe de mim, eu não sei de ninguém… Encontros, só fortuitos, por mero acaso, na calada da noite, na fila de táxi.  E agora? Paralisada, fico sem saber como agir, onde ir, como recuperar a vida que depositei num aparelhinho um pouco maior que uma caixa de fósforos.
Refugio-me no cinema, para aproveitar o ar condicionado e a fantasia dos outros. Escolho As sessões e me comovo. Uma história real de alguém capaz de viver de suas palavras. Bravo!

Monday, February 04, 2013

Ai de mim, leitora ociosa…

Leio, e leio por prazer.
Creio que esta é uma confissão cada vez mais rara. Quase tão rara quanto as questões levantadas por Rubem Braga, ociosamente, em sua crônica "Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim…" No entanto, parece que, na época, era mais comum do que se pensa essa dúvida apavorante de como se chamaria a fêmea do cupim.  Como sou dada a um escabichamento, lá fui eu ao meu dicionário procurar a femme fatale que cortou o ingresso de tantos ao Instituto Rio Branco e… aleluia!  Pensam que esta é uma exclamação de júbilo? Bem, não deixa de ser, mas é também a solução do mistério.
ALELUIA - designação comum aos exemplares alados (macho e fêmea) dos insetos isópteros ou cupins, quando abandonam o ninho para o voo nupcial após o qual as fêmeas fecundadas formam novas colônias; arará, cupim, sililuia, siriruia.
O mistério, aliás, já tinha sido desfeito por Manuel Bandeira, em seu texto "A fêmea do cupim". Graças a uma amiga aficcionada às palavras cruzadas ele descobriu que a palavra almejada pelo concurso de ingresso à diplomacia brasileira era arará, a qual depois encontrou no seu Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa – indicando que tamanho não é documento.
Como estava com a mão na massa, aproveitei para descobrir que quem nasce no Cairo, cairota é. Escardinchar não está no Aurélio, lamento, mas encontro a palavra sinema. Aposto que poucos conheciam o vocábulo, mesmo que os que já conheciam a anatomia das orquídeas e que fossem capazes de identificar a parte da coluna que representa os filetes estaminais concrescidos. Nem mesmo toda minha propensão ao escabichamento me permitiu ir atrás dos novos enigmas. Até porque me distraí com seresma, talvez prima das sereias, mas que não passa de uma mulher mole, indolente e inútil. Mas eu não sou nada disso! E, embora não tenha tempo para descobrir o antônimo de póstumo, sou prestimosa e ofereço-lhes um sinônimo para saudade – escabiosa. Advirto, porém, que esta saudade não é um sentimento, e sim uma flor, e não das mais belas. Uma flor roxa e humilde, daquelas que custam a fenecer…

Sunday, January 20, 2013

Viva São Sebastião

Ontem, conversando com um amigo espanhol, relembrei a primeira vez que vi fogos fátuos. Alguém ainda sabe o que é isso? Quando era garota, todo mundo (no meu pequenino universo de filha única) sabia. E até conheciam sinônimos para o fenômeno – fogo de santelmo, por exemplo. É que quando era pequena, naquele meu reduzido mundo, falava-se muito em fantasmas. Custei a perder o medo deles,  cheguei mesmo a pensar que ia ter medo para sempre, até que um dia… Meus fantasmas se desvaneceram. Na verdade, até conjuro alguns, mas eles me esnobam, nenhum me aparece. E, justiça seja feita, nenhum jamais me apareceu, embora eu vivesse num mundo que parecia inspirador às obras de García Marques. Na verdade, quando li Cem anos de solidão, só fui me dar conta de que o livro se classificava como realismo mágico na Faculdade. Em minhas leituras era apenas um bom livro. Realista. Regionalista, talvez. Mas aquele universo narrado era muito próximo daquele em que eu habitava, onde cadeiras de balanço se balançavam sozinha e uma bisavó, ocupada em bordar sua própria teia de Penélope, comentava com um suspiro: Ah, seu bisavô sempre vem se sentar em sua cadeira predileta nestas tardes de vento!… Ele continua igualzinho, garboso, em seu lindo uniforme. Um dia, talvez ela tenha soltado um grito ao olhar para a cadeira: Ai! A farda manchada de sangue! Agora é o fim! Sei que ele não voltará, e esse também é o meu fim!
Naquele meu país da infância, caixas preciosas guardavam ossos queridos, escondidas em prateleiras do armário. Esquecidas as caixas, os ossos apareciam em meio a faxinas, e causavam comoções. Algum habitante mais moderno desejava se livrar dos despojos, mas as avós os proibiam: Hão de ser de algum antepassado!, avisavam. E as estratégias eram planejadas, incluíam visitas a cemitérios e esquecimento de sacolas, ou exéquias em bosques não muito distantes. Uma das caixas, com ossos pequeninos e frágeis, foi enterrada num enorme jarrão de plantas na área de serviço. Um esqueleto completo, pequenino, de algum cachorro ou gato de alguém que não se conformou em se separar do amiguinho…
Na verdade, os bichos de minha família foram (suponho) mais amados que os próprios parentes consanguíneos. Havia uma coleção de animais empalhados e empoeirados, ressecados, com dentes à mostra, penas sem lustro, espalhados pelas estantes, dentro de armários, sobre aparadores. Herdei esse "gabinete de curiosidades", herdei as caixas de pó de ossos, herdei as cadeiras auto-impulsionadas, mas não herdei as memórias nem os fantasmas. Herdei pequenos escrínios com dentinhos e cordões umbilicais ressecados, amarrados em fitas descoradas. Herdei brinquedos quebrados, fotos apagadas, dedicatórias que não identificavam pessoas, mas sentimentos. Ao Nonô, da sua Iaiá,  20/09/1823, nas costas de um cartão onde os traços apagados não mostravam mais nada além de uma sugestão de cores. O que fiz com esses mementos? Encerrei-os em outras caixas, grandes caixas de mudança, que ficaram em guarda-móveis, em depósitos, em garagens, em outros guarda-móveis…
Outros mementos se foram, depois de virarem brinquedos por algum tempo, e de se estropiarem. Outros se desfizeram, por obras de traças e cupins, enchentes, pequenas catátrofes.
Mas, apesar de todos esses despojos, só fui conhecer os fogos fátuos em San Sebastián. Nenhum medo, só deslumbramento. E para sempre a associação do mistério com o pobre santo flechado. No meu universo, a história do santo se misturava à de Estácio de Sá, e eu achava que nossa cidade tinha sido fundada por um santo-martir, que perecera numa luta renhida contra os índios que tinham se aliado aos franceses. Corrigi a história, por boa aluna. Sei que meu querido Rio de Janeiro comemora seu aniversário apenas em 1º de março, e que o santo em questão é de outras paragens distantes. Nascido na França – em Narbonne –, depois cidadão de Milão, vai ser guarda de Diocleciano que, ao descobrir que ele era cristão, condena-o à morte, por flechas. Só que o jovem não morreu das flechadas, nem de ser atirado ao rio, de onde foi socorrido e cuidado por Santa Irene. E ele volta a se apresentar ao imperador,  que desta vez manda matá-lo de pancadas e atirar seu corpo no esgoto. Desta vez, o pobre não escapa e seu corpo é resgatado por Santa Luciana, que, após limpá-lo, lhe dá uma sepultura decente nas catacumbas. Mas, o venerável, divino, sebatós, Sebastião tornou-se santo querido não só da igreja católica quanto da umbanda, e continua vivo no coração dos cariocas. Viva nosso santo padroeiro, que, mesmo tendo nascido na França, lutou ao lado de Estácio de Sá para afastar seus compatriotas daqui desse paraíso tropical. Afinal, com tão pouca roupa, ele tinha que ser um santo tropical, para escapar de mais um flagelo…

Saturday, January 12, 2013

Ano novo, Blog velho…

Desculpe, meu querido bloguinho, mas persisto em te manter, embora não com a assiduidade que deveria. Têm me faltado tempo e oportunidade… Viajo, escrevo, adoeço, procrastino e… já estamos no ano de 2013, numa data também legalzinha: 11/1/13.  Por que legal? Porque são quatro uns e um três. Sei que vocês não vão entender, mas, para mim, tem piada, como dizem os portugueses.
Hoje de manhã, adoentada, fiquei na cama, zapeando… Primeiro vi um clipe do tal coreano, com sua música que me parece falar de uma corrida de cavalos. Que dança é aquela, gente? E faz sucesso, eu mesma falo mal, mas gosto. Só que cansei e fui para outro canal, onde estava um filme do Mazaroppi. Descobri que as raízes da dança coreana estão no andar do Mazaroppi (ou seria Mazzaropi?). As pernas abertas, o braço levantado, aos arrancos. Se a trilha sonora fosse coreana, ele estaria mais do que atual. Mas a trilha sonora era Angela Maria, cantando Feliz ano novo, adeus ano velho, que tudo se realize… Sempre pensei que isso era um jingle comercial, e agora descubro que era mesmo uma música que se cantava em "festas" de asilo para velhos, onde todos, felizes, acompanhados de suas famílias e de seus médicos que não faltavam a plantões, comemoravam o Natal enquanto a velhinha abandonada por seu filho exalava o último suspiro…
"Para os solteiros, nenhuma esperança perdida" - repetiu a cantora, pelo menos três vezes. "Para os casados, nada de briga"… Prefiro parar mesmo no "muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender!". São infinitas as possibilidades de quem tem dinheiro no bolso e saúde. Podemos ir ao cinema, ao teatro, sair com amigos, fazer um brinde pelo aniversário da amiga, etc. Quando falta uma das coisas, a gente fica em casa, sem posição, assistindo videoclipes e falando bobagens para si mesma, escrevendo desatinos e olhando lá para fora, tentando decifrar o voo dos pássaros.
Despeço-me então, e juro que pretendo voltar a escrever antes da próxima "data legalzinha", que, no meu entender seria o dia 31/1/13. Então, tá. Volto logo. Ou antes tarde do que nunca. Só sei que volto. Espero que meus leitores também!

Thursday, December 20, 2012

20/12/2012


Não queria perder a oportunidade de escrever numa data tão engraçadinha como esta. Não sei quando teremos uma outra repetição tão perfeita. Talvez por isso os Maias tenham resolvido acabar com o mundo após essa data. Chegamos ao equilíbrio e… catapum! Tudo desmorona e é preciso reconstruir, como aquelas torres do brinquedo "pequeno engenheiro". Ontem, num delicioso almoço que compartilhei com um amigo de longa data e uma nova amiga, mas que me encanta igualmente, me perguntaram qual a minha mais antiga lembrança. E eu não tinha uma lembrança antiga! Me esforcei bastante e lembrei de quando descobri que sabia ler e fui contar toda contente para minha avó. Ela não acreditou, achou que eu tinha decorado o livro. Agora, no entanto, me lembro da paixão que tinha por esses brinquedos de construção. Equilibrava os retângulos de madeira, os triângulos vermelhos, se fazendo passar por telhados, gostava especialmente dos cones, que faziam minhas torres se parecerem muito com as torres de um castelo. E também gostava dos blocos em arco, me comprazia em construir prédios com pilotis, ao gosto da época. Depois… catapum! Tudo desmoronava, como a perfeita data que, ao passar, nos deixa saudosos de perfeição.
A profecia, tantas vezes desmentida, é de que o mundo vai acabar. Para mim me é indiferente. Mas aproveito a dica para fazer meus votos de final de ano.
Se for para alguma coisa acabar, que sejam a intolerância, a desigualdade, o crime, a violência, o desprezo, a opressão, a miséria, a impaciência, a solidão, a tristeza, a dor… Acabem! Obliterem-se! Desapareçam!
E conservemos os bons amigos, a convivência, a tolerância, o respeito, a delicadeza. E que a Literatura volte a ser uma fonte de prazer e emoção. Que as artes sejam encantamento. Que os abraços sejam calorosos e os beijos, sinceros. Que os amigos se reunam com frequência, que os amores sejam cálidos, que os problemas sejam resolvidos. E que o equilíbrio de hoje, de 20/12/2012, mantenha suas proporções humanas, oferecendo enigmas não muito complicados, valores fáceis de assimilar, sorrisos de esperanças de que nosso planeta possa ultrapassar o 21/12/2012, e o 22 e o 23 e que, depois do dia 31/12/2012 a gente acorde num belo 1º de janeiro de 2013, ano que, para os supersticiosos, vai ser de sorte, muita sorte!
E, para vocês, meus queridos leitores, aqui vai meu conto de Natal de 2012, com carinho e muitos agradecimentos por acompanharem minha jornada.


Conto de Natal – 2012.
Milagre de Natal
Lúcia Bettencourt

Uma lista. Era para ser fácil. “Neste Natal eu desejo”, escrito com letra caprichada, maiúsculas bem desenhadas, depois dois pontos. Mudar a linha. Podia até pular uma linha para começar a escrever, as mesmas coisas de todos os anos, tipo  “saúde”, “paz”, “prosperidade”. Não, essa palavra estava fora de moda, ninguém mais a dizia e talvez ninguém mais entendesse o seu significado.  Melhor colocar na lista essas outras coisas como “dinheiro no bolso”, “amor”, “harmonia”… Taí uma boa palavra, harmonia… Coisa meio musical, e também angelical, isso combinava bem com a época. Mas ele não conseguia, sentia-se ridículo, sem conseguir segurar direito o lápis com a mão que já não reconhecia como sua.  Seu rosto também já não era reconhecível. Além de novas rugas, dos óculos que tiveram de ser substituídos, pois os antigos, levinhos, quebraram-se no acidente, sua boca congelava-se num ângulo estranho, desdenhoso, e o olho direito quase se fechava, a pálpebra emperrada como uma porta empenada.

Uma ironia. Era isso que ela pensava, olhando para o pai cujo rosto sempre lhe fora um pouco estranho. Logo ele, que fizera das palavras seu ganha-pão, agora não conseguia mais usar o lápis. As palavras, para ele, tornaram-se irreconhecíveis.  A página em branco em cima da mesa, o braço inútil, ou quase. O lápis preso num ângulo estranho entre os dedos grossos da mão alheada. Ela olhava para o pai com um misto de preocupação e de curiosidade, mas não sentia amor. Eles eram distantes, incapazes de mostrar afeto. Sua relação com o pai havia começado tarde, muito tarde, quando ela, ingressando na faculdade de Filosofia, despertara nele uma certa curiosidade e algum orgulho. A filha abandonada no berço, visitada apenas no Natal e no aniversário, era um ser formado à sua semelhança, inteligente, culto, esforçado. Mas nunca um gesto de afeto. O beijo protocolar, do qual ambos, desconfortáveis, procuravam escapar. Jamais um abraço. O interesse que passou a existir era intelectual: telefonemas para saber coisas da aula, se as
notas estavam boas, qual seu filósofo predileto: Nietzsche ou Kierkegaard?  E o oferecimento dos livros de sua enorme biblioteca. Ecce homo, pensou. Vencido, derrotado, impotente. O rosto estranho de um homem estranho, incapaz de falar, de escrever…

Uma lástima. Ele agora seria um peso,  e seria ela quem teria de carregá-lo! Isso por amor à sua única filha, pois, se não assumisse os cuidados, a menina seria sacrificada. Olhava para o velho em que ele havia se transformado, com um misto de pena e de ódio. Ele tinha sido, por mais de quarenta anos, irônico, cruel, indiferente. Tinha sido mesquinho e ausente. Nunca tinha oferecido uma palavra de consolo nem de amparo.  Mas dividira sempre seu salário de jornalista e pagara as contas da menina religiosamente em dia. Nenhum presente, é bem verdade. Com exceção da boneca que ele deu no aniversário de 16 anos, e dos livros que, mais tarde, passaram a chegar com insistência, dados ou emprestados, na ânsia de fazer da filha uma projeção de seu intelecto brilhante. Se ela ainda acreditasse em Deus, talvez se conformasse, mas suas crenças haviam sido meticulosamente destruídas pelos comentários cáusticos que ele fazia, pelos raciocínios sempre corretos mas impiedosos e maus. Ele nunca tivera piedade dela, nunca sentira um pingo de remorso por deixá-la sozinha nas noites de febre e de tosses. Nem estendera a mão para ajudá-la a levar a filha, já quase de sua própria altura, ao pronto socorro, com a perna sangrando depois da queda feia de bicicleta. Incapaz, indiferente, ausente… E ali estava ele, um velho, um peso morto, para que ela cuidasse, pois não havia mais ninguém, a não ser a filha, mas isso ela não permitiria.

Um boneco! Margarida reconhecia o avô naquele boneco gigantesco, maior que sua mãe, chegando numa cadeira de rodas para a festa de Natal na casa da vovó. Um boneco de carne e osso! Era feio como o avô, mas ela estava contente, pois era assim mesmo que tinha sonhado aquele presente de Natal. Grande, com cabelos para pentear, roupas para vestir. Podia dar comidinha e água, e, com um pouco de esforço, levá-lo para passear naquela cadeira grande e prateada, com rodas de bicicleta. E podia enfeitá-lo com as guirlandas de Natal, e colocar os bonecos sentados no seu colo. Podia até castigá-lo, virando-o para a parede quando ele não se comportasse como ela queria. Aquele era o melhor Natal de sua vida, sussurrou no ouvido da mãe, que não compreendeu bem a alegria da menina.  Mas que depois reparou na atividade em volta do doente, e acabou entrando na brincadeira. Está na hora da papinha… Venha, vamos ajudar o avô a fazer seu exercício de fisioterapia… Até a avó, a princípio um pouco brusca, entrou no jogo, e as três mulheres, como anjos, fizeram daquele menino Jesus crescido e velho demais, o centro de suas atenções. Na hora do exercício, colocaram a folha em branco em cima da bandeja que lhe servia de mesa, e puseram o lápis entre os dedos da mão quase imobilizada. Faz uma lista de Natal!, a menina comandou. Mas não prestou atenção no milagre que estava ocorrendo ali, na sala, sem estrelas nem cânticos. Um milagre prosaico de vida e inocência.


Sunday, November 04, 2012

Cheiros

Tem dias que parece que a vida cheira diferente: um cheiro de guardado, de passado, que persiste em nossas narinas, insistindo em nos lembrar de algo perdido há muito tempo…
Perambulo pela casa, procurando de onde vem esse cheiro que eu quase conheço, mas percebo que é uma ilusão. Aqui, o que cheira mesmo é a tinta que pintou minha cozinha, em minha ausência, mas que ainda exala seu aroma acre.
Vou procurar frascos de perfume. Este que já não existe mais, mas de que eu gostava tanto… Aquele, vibrante, de cor sedutora… Este que comprei só por causa do nome… E este, de frasco tão lindo, parecendo uma escultura… E aquele… não, nem falo no que ficou por usar!
Desisto. O cheiro ainda brinca em minha memória. Mas não é o cheiro bom de chuva. Nem o cheiro de certas épocas do ano, carregadas de especiarias. É um cheiro antigo, como o de rendas que se desfazem com o tempo. Ou como o que ficava nas mãos depois da brincadeira no parque, cheiro de ferrugem, de madeira, de areia…
Acho que é cheiro de saudade.

Saturday, November 03, 2012

Tamanho e documento

Há uns tempos atrás pretendia escrever sobre o lançamento no novo i-Phone, maior que os anteriores. Minha tese era a de que os "jovens antenados", criadores do i-Phenomenal Apple estavam começando a envelhecer e descobriam a necessidade de telefones maiores e teclados que se acomodassem a dedos artríticos… E que um dia eles chegariam ao meu ideal: um i-Phone do tamanho do i-Pad, a perfeição!
Ledo engano!
Eis que agora eles diminuem o tamanho do i-Pad! Para quê? E o pior é que tem gente que se assanha e corre para comprar este novo objeto que é um i-Phone sem phone, ou seja, não serve para nada…
Acho que perdi mesmo a corrida contra o tempo e a tecnologia, pois não soube responder à pergunta básica de minha filha, quando lhe disse, orgulhosa, que tinha comprado um i-Pad: Dois ou três?
Como é que vou saber? Mas não perdi a pose. Disse que era o último modelo, o mais novo. Mas que não importava, pois em breve sairia outro… E saiu mesmo, o tal do mini.
Com essa demonstração de estar a par do futuro como uma pitonisa cibernética, safei-me.
Mas ontem ela me ligou, perguntando-me se já tinha comprado o tal mini.
Eu? Logo eu, que estou esperando o I-Pad-phone?!
Pois ela se surpreendeu: ué! O seu não tem telefonia? Basta você clicar no ícone tal, e baixar o aplicativo Y que seu i-Pad…
E ela continuou explicando, embora eu já não prestasse mais atenção. Estava pensando em uma amiga, que está apaixonada por seu telefone fixo: Imagine, diz ela, ligo para qualquer telefone fixo em qualquer estado do Brasil, falo o tempo que quiser e no fim do mês minha conta é sempre 49,90! Feliz amiga, que tem amigos que ainda usam telefones fixos. Eu não teria com quem falar. Talvez com ela…
Chega um tempo em que nossos olhos se voltam para o passado, mesmo à nossa revelia. E descobre coisas que são mais confortáveis e baratas do que o nosso presente já quase futuro. No entanto, do século XIX só o que nos resta neste século XXI é a ficção científica, que nos apresentou ao nosso mundo antes que ele existisse. Do meu pobre século de nascimento, o XX, pouco restou. A lembrança de algumas guerras, algumas armas assassinas e a revolução sexual. O que já foi interessante, agora virou uma função corporal. Coisa para ser desempenhada como uma espécie de ritual de higiene. Tomar banho, escovar os dentes, fazer sexo, cortar as unhas…
No programa humorístico de ontem à noite, o comentário da moça: Eu não vou dar, vou é distribuir!
Oh, céus! Quanta generosidade! Que ela encontre pessoas que desejam o que ela tem para oferecer, pois me informam que são poucos os interessados. E eu me lembro do filme boboca que vi da mulher que nunca tinha experimentado um orgasmo. Ela, então, se separou do marido (era do tempo em que as mulheres casavam) e arrumou um vibrador, e, na falta de vibrador, o telefone celular, no "vibracall" quebrava seu galho. Taí, eis uma nova sugestão para os prodigiosos engenheiros/designers da Apple. Quem sabe o próximo lançamento não possa ser um i-Vib? Com fone de ouvidos, cada chamada se transformaria num motivo duplo de alegria. Tesão e comunicação, compartilhados por todos, ao alcance de todos. Vou correndo comprar ações de algumas companhias telefônicas. Quem sabe minha ideia cola e eu fico milionária?

Sunday, October 28, 2012

Discovery Channel no Leblon

Olá, amigos.
Passei muito tempo sem postar nada aqui, mas estava viajando e fui fazendo comentários no facebook. Não dá para tudo, muitos textos para escrever, muitos canais de comunicação, e a gente vai se virando como pode, reclamando das conexões no exterior, reclamando do peso do computador, do dia de apenas 24 horas, mas cada vez mais dependente dessas maquininhas maravilhosas e de sua possibilidades que nem sempre dominamos.
Bem, escrevi textos para congressos e colóquios, viajei, voltei e ontem, de volta ao meu recanto no Leblon, participei de uma cena digna de Discovery Channel. Na hora do almoço, ao sair, já tinha me maravilhado com a beleza do Rio. Paris e Londres são lindas, imponentes, cheias de culturas e charme. Mas o Rio é deslumbrante com essa natureza toda, esses recantos verdes intensos, as montanhas, o mar que torna o ar mais suave para nossas mucosas, e ainda nos diverte com suas cenas. Só que nem eu mesma tinha me dado conta do quão "naturais" somos. Imaginem que tenho uma varanda que é protegida por uma dessas redes de proteção. Quando vieram instalar a rede aqui em casa, o rapaz , que não viu sinal de crianças, perguntou se era para a minha gata. Já não me lembro se respondi o que tive vontade de dizer na época, que era uma garantia contra mim mesma, tentada que podia me sentir pelo abismo. Acontece que a rede aqui está, e acontece que ela virou um local de repouso para passarinhos, que me visitam todos os dias. Não sou daquelas que colocam vidrinhos com água com açúcar, nem nada. Eles visitam porque na varanda tem plantas e eles, aparentemente, gostam de pousar nos fios da rede. Ontem, porém, estava olhando para fora quando vi que um passarinho entrou desesperado pela rede e procurou abrigo na minha biblioteca. Num flash de segundo depois, um falcão se chocou contra a rede, e foi embora, desapontado. Minha filha, aninhada a meu lado, envaideceu-se:
"Viu? Todos sabem que serão protegidos e acolhidos aqui!"
E eu finalmente entendi por que razão existia essa rede em volta de minha casa. Uma rede/"haven" para os mais fraquinhos  e assustados. Mas também entendi que minha biblioteca, por mais absolutamente encantadora que seja, não é o lugar ideal para um passarinho assustado. Eu escutava seus pios agudos e vi que ele ainda precisava de mais ajuda. Fizemos um grande mutirão. A filha buscando a escada e o pano de prato, o filho subindo nas alturas e pegando o bichinho assustado, que não se rendia fácil. Eu dava as orientações. E ainda havia uma plateia, preocupada, torcendo. Finalmente o passarinho foi apanhado e colocado no vaso de plantas. Ainda dentro da varanda, mas sem perigo de machucados por conta de batidas contra a vidraça e aprisionamento no labirinto dos livros... Lá ele descansou, recuperou-se e, quando se decidiu, foi embora. Deixou saudades. Um passarinho que vem cantar de manhã em nossa janela é sempre uma alegria. Espero que ele volte, sempre que quiser. E, por incrível que pareça, fico satisfeita de ter frustrado os planos do falcão, mas espero que ele tenha encontrado uma outra boa refeição. Quem sabe um roedor? Por favor, senhor falcão, não este passarinho que agora quero chamar de meu. Não na minha janela. Mas também não abandone minha vizinhança, e deixe-me ver, de vez em quando, seu belo voo e sua perícia. Gosto de viver num lugar onde a natureza ainda se mantém próxima o bastante para desenrolar-se, ao vivo e a cores, sem câmeras intermediárias...

Sunday, September 23, 2012

Cronistas de domingo

Gosto desta conversa que estabeleço aqui com dois queridos cronistas de domingo, o Ubaldo e o Veríssimo. Este fala do futuro e de seus artefatos, e eu me lembro da reportagem que assisti e que nos ensina de que são necessários apenas 3 segundos (ou seriam milionésimos de segundo?) para que recebamos uma informação e a arquivemos em nosso cérebro. Daí que nossa vida seja totalmente dependente da memória. Sou aquilo que lembro, e, como vocês podem ver, vou ficando cada vez mais imprecisa e difusa, com essas memórias que já não se fixam com a mesma facilidade. No entanto, o Veríssimo fala de artefatos do futuro que invadem nosso presente. Ou não invadem, se esfumam e desaparecem, como o Concorde, que já pareceu, um dia, ser o futuro da aviação e hoje não passa de uma vaga memória que pertence, ainda, a uns poucos. Elege ele, como o único artefato da ficção científica a estar presente no que ainda chamamos de hoje, ao tal radinho de pulso do Dick Tracy. Como não sou muito ligada a quadrinhos, não me lembro deste detalhe. Dick Tracy, para mim, foi um filme com um homem que já foi o objeto de desejo de muitas mulheres lindas e famosas, e de outras sem beleza e fama, também. Warren Beaty! Quem se lembra dele ainda? Quem ainda pode imaginar o ideal de beleza que ele representou? Sic transit gloria mundi… Peter O'Toole,  Robert Redford, Alan Delon, – a impressão que tenho é de que só os feios escapam. Por alguma misericórdia, os feios se tornam atraentes, alguns até melhoram. Jean Paul Belmondo, por exemplo. Yves Montand, não sou muito boa de nomes, vocês bem sabem. Abro aqui um parênteses para lastimar a beleza do Cauã Reymond, que provavelmente vai desaparecer e deixar as jovens de agora, no futuro, com essa mesma sensação de perda que sinto agora. Volto ao assunto da memória, sob o domínio da qual vivemos: O aparelhinho que o personagem dos quadrinhos levava no pulso seria semelhante a um celular de hoje, que podemos levar amarrado no pulso. Só que estes celulares são um dos principais causadores de nossa perda de memória: como, em seus chips, armazenamos todas as nossas pequenas lembranças e identidades (senhas, números de telefones, endereços dos amigos, datas de aniversário dos parentes, vencimento de contas, compromissos assumidos) cada vez esquecemos mais. Logo, vivemos menos.
Enquanto vivemos, no entanto, usamos nossos idiomas para nos expressarmos, e aí é que entra a crônica do Ubaldo. Como estamos nos esquecendo de tudo, até das regras de nossa própria língua esquecemos e vamos adotando, com uma total falta de critério, tudo o que a "globalização" nos impõe.
Paralimpíadas é a mãe, diz ele.  Desse jeito vamos todos acabar como os vira-latas do Nelson… Mas, como não existe uma versão de complexo de vira-latas nos chips do nosso celular, a gente nem sabe o que é isso, e dá de ombros, sem entender bem o que é que esse tal de cronista quer dizer. E é por isso que, talvez, ao fim de suas crônicas sempre apareça uma identificação por escrito "João Ubaldo Ribeiro é escritor".  Por que será que o mesmo não ocorre com o Veríssimo? Talvez porque esse tenha deixado de ser gente e agora seja apenas uma grife. Volta e meia me aparecem com um texto que dizem ser dele. Textos que eu sei que não são, porque atacam assuntos que ele defende, ou porque são de uma qualidade muito baixa. Isso é o que me diz a memória que ainda guardo de outros tempos. Mas as maquininhas atestam a autoria. O melhor é abanar o rabinho e sorrir latindo como dizia… quem, mesmo? Talvez o São Google saiba!

Friday, September 07, 2012

Possível cenário

Meu amado, hoje eu te chamaria para passear pelas ruas deste Rio enevoado, que misteriosamente esconde suas ilhas e propõe que olhemos para a terra firme. Tomaria tua mão e te levaria a lugares que não costumamos frequentar, à procura de obras de arte semeadas pela cidade, para ver se nossos olhares amorosos as ajudariam a germinar. Com passos despreocupados, quase de dança, relembraríamos o encanto do ballet de ontem à noite. E sorriríamos juntos, no mistério das lembranças compartilhadas. Você e eu, cansados de andar, faríamos uma pausa para tomar uma água de coco e conversar à sombra. Sim, eu sei que você ia preferir uma cerveja gelada, mas o sonho é meu e eu te ofereço algo saudável e natural, cuidando de teu corpo imaterial. Depois, de mãos dadas, quem sabe escolheríamos um museu, onde pudéssemos ver ainda um pouco mais de arte, quem sabe uma livraria, onde você adorava me levar para observar-me, sádico, estorcendo-me nas garras do vício da leitura. Saltando de livro em livro, estonteada, folheando, separando, gemendo a dor de não conseguir ler todos, só encontraria sossego depois que você, com habilidade, me ajudasse a escolher algum livro que acabaria entre nós, na cama, ao fim do dia. Mas a esta hora já teríamos fome, e iríamos almoçar, longe ou perto. A comida seria boa, suave, e nossos olhos satisfeitos, brilhariam de prazer e alegria por estarmos ali juntos, desfrutando a calma do feriado. Iríamos a um cinema, depois. Um filme francês ou português, para usufruir dos festivais. Depois, um café, quentinho, e a nossa interminável conversa seria sobre o filme e a estranheza das imagens ou o intrincado da história, ou a graça das imagens e a força dos personagens. Vamos para casa? Um de nós dois perguntaria, e o outro não conseguiria apagar o brilho malicioso do olhar. Vamos! Você escolheria uma música para preencher a penumbra. Talvez tomássemos um vinho, talvez não. Mas nós nos beijaríamos muitas e muitas vezes. E eu lembraria de uma coisa urgentíssima para te dizer: Te amo, sabia?

Tuesday, September 04, 2012

Ticket to ride

Minha amiga me escreve perguntando sobre um ensaio que eu, supostamente, teria escrito sobre o envelhecimento. Como um dos problemas de envelhecer é o esquecimento, achei que tinha esquecido o que havia escrito e fui procurar, indagar, pesquisar. Não escrevi sobre o assunto, respiro aliviada. Mas resolvo escrever, pois percebo que envelhecer é viver. Só envelhecemos porque temos em mãos o "bilhete de ida", embarcamos na vida e o preço da passagem é esse: o desgaste lento, constante, progressivo.
Já começamos a envelhecer ao nascer? Não sei se é exagero afirmar isso, mas, sem dúvida, já começamos ali com as perdas. Perdemos a união, nos destacamos, e vamos perdendo cabelos, células epiteliais, saliva. Vamos perdendo a graça, perdendo o medo, isso para não mencionar os números incontáveis de chupetas, de sapatos, de touquinhas, de fragmentos que viram coleção de algumas mães: os dentinhos de leite, os cachinhos de cabelo etc.
Perdemos a inocência, perdemos as esperanças, perdemos as estribeiras, perdemos a fé, perdemos amores, mas conservamos algo: nosso bilhete de ida, que seguramos, descuidados e despreocupados a princípio, e que depois agarramos com zelo e atenção. Quando mais se aproxima a estação do desembarque, menos queremos saltar, acostumados que vamos ficando à viagem. Este é um dos males do envelhecer: como só o que conhecemos é a vida, passamos a nos apegar a ela, mesmo quando já não é mais essas coisas.
E, por um capricho do destino, a meio caminho muitos mudam sua posição no veículo. Ao invés de se postarem virados para a frente, e para o caminho que ainda virá, algumas pessoas insistem em se sentar olhando para trás, para o que se distancia em velocidade sempre crescente. Pois o trem da vida está sempre acelerando e os dias, que eram longos na infância, se minimizam e agrupam em semanas e meses cada vez mais fugazes.
Algumas pessoas, tardiamente, resolvem desacelerar o envelhecimento. Acreditam que exista uma idade mental e uma idade corporal, que algumas pessoas podem se conservar jovens toda a vida. E querem ter a aparência de 20 ao chegarem aos 30. E de 30 ao chegarem aos 40. E querem continuar com a aparência de 30 aos 50, 60, 70… E querem continuar pensando como aos 30, mesmo quando já estão na casa dos 80. E pensar não é nada. Querem aparentar, pensar, se vestir e se comportar como alguém de 30 para sempre. E, para isso, se mutilam, se cortam e recortam, malham em academias, esquecem da família, repudiam amigos doentes, adotam filosofias.
Percebo que estou escrevendo estas coisas de fora, como se eu estivesse fora da ciranda. Mas estou lá. Nesta dança macabra, sou aquela caveirinha ali, de peruca rala e óculos de leitura, sorridente, achando que encontrei a fórmula do Shangri-la entre as páginas de um livro.
Meu bilhete de ida já tem o nome da estação de desembarque, mas ainda não posso lê-lo. No meu rosto não consigo ver o que todos os outros já veem, sem muito esforço: a decadência. Como diz meu amigo querido, "O espelho só me ensina a ruína do desejo.
                Sei que é meu este olhar em que eu não mais me vejo."
Eu não vejo, mas os outros sim. Veem aquela que sou agora e que pensa que ainda é de outrora.
Está na hora de saltar deste trem…

Saturday, August 25, 2012

Sem gana que eu gosto…

Acordar sem gana de viver. Decidir passar o dia na cama, esperando a manhã seguinte. Pode isso, com um dia como esse, uma paisagem como essa? Se eu fosse finlandesa, ou russa, ou sami, aposto que uma coisa dessas não aconteceria comigo num dia de sol. Na verdade, lembro-se de minha surpresa ao visitar a Rússia e, naqueles dias intermináveis (e frios) de verão, me surpreender ao ver os bebês passeando com seus pais e irmãos às 11 horas da noite, quando o sol ainda estava iluminando as ruas. A guia, que adorava contar as histórias dos príncipes e czares que tinham morrido estrannnngulados, é que se admirou com minha surpresa: "Quando é que eles vão conseguir apanhar sol, se não aproveitarem o verão?!" Daí que, mesmo sendo inverno, conformadamente me levanto da cama, leio os jornais e agora dou uma passadinha aqui antes de me vestir para ir à praia. Sim, cumprirei meu dever de boa finlandesa/carioca e irei desfilar o maiô novo pela praia. Se o Guilherme estivesse aqui, ia perguntar: Maiô novo? Mas você quase nem usou o do verão! E sorriria com a minha resposta: Este estava tão florido, parecia um buquê, e não resisti. E então eu desfilaria satisfeita, banhando-me no sol do sorriso dele, e criaria coragem para mostrar que também comprei uma saída nova, pois era muito chique. E lá iríamos nós, não para a praia, mas para o barco, o reino encantado que me transformava em sereia e a ele em Posídon. Vejam como é possível passar do mais completo desânimo ao entusiasmo. Aliás, não sei se os leitores sabem o que significa entusiasmo, em suas origens. Numa etimologia mambembe revelo que é possuir um deus interior. Acho que é verdade. Despertei o deus interior e a alma voltou. E agora vamos os três passear. Usando bastante protetor solar, é claro!

Monday, August 13, 2012

Fim de festa

Acabou. Já não temos mais Olimpíadas em Londres, agora o Rio é que já é cidade olímpica. Não assisti aos jogos, não vi TV esta semana, com as retinas queimadas pela minha própria imagem na TV Senado, no programa homenageando o Antônio Carlos Secchin feito pelo Maurício Melo Jr.
Odeio me ver na TV, detesto minha voz, tenho vergonha de minha imagem. Creio que isso se deve à minha timidez, reajo muito mal a posições de destaque, e estou tão encabulada que sumi. Não apareço por aí, não tenho saído de casa, a não ser para as coisas mais urgentes, e esta semana foi cheia de coisas urgentes. Festas de aniversários – e não estou errando no plural: é que foram várias festas e vários aniversários. Velório de amigo querido, aula nova no Midrash, tantas coisas, tantas… E tudo o que eu desejava era ficar escondida debaixo da cama, esperando que tudo passasse e que eu mesma me esquecesse de que tinha me visto na TV. Não consegui rever o programa, apesar de ter sido re-exibido no sábado e no domingo.  Neste próximo sábado e domingo vai voltar a aparecer na TV e depois creio que poderei voltar a viver um pouco menos escondida. Por enquanto, não contem comigo para andar pela praia, passear pelas ruas do Leblon, visitar exposições e ir ao cinema. Fico em casa, lendo. Mas tenho que aparecer na Bienal. Vou para SP na terça, mediar a mesa do SESC e na quarta vou ao espaço de leitura infantil para ler A cobra e a corda.
Ontem não resisti e fui ao Municipal assistir o Neschling regendo a OSI (Orquestra da Suíca Italiana). Deslumbrante. Ele ficou tão emocionado que chorou, as lágrimas correram soltas pelo seu rosto, mostrando bem a emoção que o entusiasmo do público lhe causou. A interação entre maestro e orquestra foi muito espontânea, todos pareciam estar fazendo música com prazer. Eu confesso que esperava um pessoal mais "burocrático" com aquele espírito de relógio perfeito em seu funcionamento, mas sem mais animação, e fiquei agradavelmente surpreendida. Por algumas horinhas me esqueci de mim mesma. Ô coisa boa, esquecer que a gente existe!…

Saturday, August 11, 2012

Dia dos pais

Amanhã é dia dos Pais.
Nem ia falar nisso se não estivesse conversando com uma amiga, outro dia, sobre as novas famílias: com múltiplos pais e mães, por diferentes razões. Nem sempre isso acontece por conta da orientação sexual, mas por casamentos desfeitos e refeitos ou situações bem tristes de perdas familiares quando irmãs e amigas, pessoas mais próximas, se acomodam e incorporam os filhos de vizinhos, os netos, os sobrinhos, etc.
Conheço uma família de três irmãs, e apenas uma delas teve uma única filha. Essa menina passou a ser filha das três irmãs, pois o pai da menina morreu muito cedo. Uma das irmãs nunca se casou, a outra está casada até hoje, mas seu marido é um artista razoavelmente famoso, passa muito tempo fora do Brasil, apresentando seus filmes em festivais. Mas ele gosta da menina, e sempre que pode leva-a com as três "mães" para viagens encantadoras a Disney ou a resorts deslumbrantes.
Tudo o que essa menina quer, ela obtém. Tudo que ela diz, é motivo de encantamento para as suas "mães", ela cresce, linda e saudável, esbanjando auto confiança. Mas ela não é uma menina feliz. Não tem amigas de sua idade, por exemplo. Ninguém vai com ela ao teatro ou ao cinema, e ela não vai a festas de aniversários, pois sempre tem algum programa maravilhoso para fazer com alguma de suas "mães": um dia vai andar de balão com a mãe 1, no outro vai à noite ao ballet com a mãe 2, depois de passar o dia com a mãe três numa visita guiada ao Jardim Botânico em que o guia é nada menos que o ministro da Agricultura ou seu equivalente…
Amanhã as três mães estão competindo para fazer coisas mirabolantes, para que ela não note a ausência de seu pai, e do tio, que está montando uma exposição no Kwait...
Talvez de noite, escondida, ela chore baixinho, escondendo o rosto no travesseiro, imaginando como sua vida seria mais divertida se seu pai estivesse vivo e ela tivesse tempo para brincar com as outras crianças.
E também me lembro do caso de meu amigo, que morreu nas vésperas do dia dos Pais, deixando uma ausência insuportável. Sei como é isso. Quando meu marido se foi, eu não suportava reunir a família, pois era quando a ausência dele se fazia mais notável. Passei alguns anos fugindo de Natais e aniversários, dia das mães e dia dos pais, com o coração em carne viva. Mudei? Não, continuo tentando me esquivar, embora agora esteja mais forte para poder estar presente sem ele nas festas. Afinal, não é justo com meus filhos deixá-los sozinhos tendo que lidar com suas perdas. E vou, reúno e faço questão de mostrar que o pai muito amado está em nossas lembranças, em uma expressão de um de seus filhos, mas, sobretudo, no carinho e no cuidado enorme que fazem de meus filhos extraordinários pais e mães. Isso eles aprenderam e herdaram do pai.
Mas, quem nunca teve pai, teve que ser "pai" de si mesmo. Cuidar-se. Fortificar-se. É para essas pessoas que não conheceram seus pais, ou que tiveram pais ausentes, que desejo um Feliz Dia. Sejam fortes. Sejam compassivos consigo mesmos. E aceitem-se como os heróis que são. Heróis porque sabem perdoar.

Sunday, August 05, 2012

TV ou não TV

Há tanto tempo sem ligar, descubro que minha televisão não liga mais. Queimou? Suicidou-se? Eu nem sabia, e ficaria sem saber se não fossem os filhos que chegam e mexem em tudo. Remexem. Reviram. Depois dão uma "ajeitadinha" e se vão, me deixando com um sorriso bobo no rosto. E a casa totalmente desarrumada. Não ligo. Nem arrumo, pois seria como esticar os lençois logo depois de se fazer amor. A gente quer as marcas, só mais um tempinho, para olhar e sorrir, lembrando do que acabou de ocorrer. Os jornais espalhados, a geladeira cheia de guloseimas, as taças de vinho para mais um brinde bobo qualquer. Meus sapatos que ficaram pela sala, junto aos jornais, misturados de ontem e de hoje, quase sem ler. Proponho um cineminha, mas eles não querem: Não tem nada passando, me informam. Eu sorrio, sabendo bem a tradução… eles não querem ver os filmes em exibição, seja porque já viram, seja porque já marcaram com amigos e irão outro dia. Depois debandam. Hoje é dia de futebol, o tempo ficou meio feio, já até choveu muito. Agora esfriou e, de barriga cheia, eles se espalham deitam, rearranjam móveis e perguntam da prateleira que ainda não mandei fazer, do ar condicionado que preciso revisar, da pintura, da mesa, dos detalhes que me esqueço de providenciar. Olhares críticos, atentos, certificando-se de que ainda podem mandar e exigir coisas aqui em casa.  Você mudou de lugar as taças? se espantam. Mas eles é que esqueceram o lugar de sempre, e ficam meio assustados com isso. De repente se dão conta de que o tempo passa e de que eu estou cada vez um pouco mais distante. Qualquer hora dessas eles são capazes de chegar aqui e não me encontrar mais. Ou de encontrar uma mãe diferente daquela que eles carregam em suas lembranças. Cada vez que aparecem, fazem questão de olhar as fotos e comentá-las, como se com isso se reassegurassem de que ainda sou aquela das fotos, aquela menina de 20 anos segurando um bebê no colo, a de 24 com os três filhos no colo, todos sorridentes, todos impacientes por sair do congelamento do instante e voltar a brincar de viver. E sempre se admiram de que o Ivan ainda não estivesse ali com eles. Como se estivéssemos sempre presentes, sempre todos juntos mesmo ainda antes de existirmos, e muito depois que todos desaparecermos. E todos curtem as lembranças. A casa de Angra. O mar. O barco. E sonham com o passado, pensando no futuro. E eu me despeço. Aos poucos. Sem que eles percebam. Vão, vocês podem seguir em frente, não precisam parar. É essa a vida, e eu fico feliz por sentir que, mesmo daqui a muito tempo, eles vão sentir, na visita de seus filhos, adultos, a doçura que eu sinto ao recebê-los aqui. Mesmo que seja apenas para me anunciar que não tenho mais TV…

Sunday, July 29, 2012

A virada

Estou lendo o Stephen Greenblatt e de repente me vejo roída de inveja. Inveja? Que coisa feia, D. Lúcia, que sentimento horrível, a ser evitado! – dizem as vozes internalizadas de censura. Dou de ombros. Não estou nem aí. Esta inveja que me acomete é legítima, tem toda a razão de ser.  Ela tomou conta de mim quando li o trecho que fala da conquista da Macedônia feita por Emílio (será esse mesmo o nome?) e do Rei Perseu (deste nome estou segura, é mitológico) um descendente de Felipe e de Alexandre. O autor diz que de acordo com a "cleptocracia"(termo que adorei) romana, o vencido Perseu foi mandado junto a fabulosos tesouros, num navio para Roma. Após o desfile, o butin iria para o SPQR – Senatus PopulusQue Romano – mas o general tinha reservado para si mesmo uma parte dos despojos: uma biblioteca! Foi aí que a inveja me atacou. Não do fato do Emílio ter ficado com a biblioteca, mas do prestígio que uma biblioteca tinha naqueles tempos romanos. Tá certo, eles ainda não tinham eletricidade, não conheciam a penicilina nem a anestesia, seus colchões não eram de molas, mas, apesar de tudo, os romanos sabiam valorizar uma biblioteca. Era chique ser dono de uma. E, por muitos anos, Roma foi expandindo suas fronteiras e seu amor aos livros, semeando bibliotecas públicas por onde se estendesse o poderio de seus exércitos. Augusto só ele, mantinha duas bibliotecas públicas, a Otaviana e a Palatina.  Embora tivessem copiado a ideia dos gregos, eles a ampliaram, multiplicaram, e até bolaram cadeiras confortáveis e maneiras práticas de ler e enrolar os manuscritos.
Fico eu aqui com uma inveja boa, sonhando com uma cidade em que, quanto mais poderoso, mais o indivíduo se sentia compelido a ler, a estudar e a discutir o conhecimento. Retorna, Roma! Voltem, livros, a ser o objeto de cobiça, a razão do desejo!… E, já que estou nessa de pedir benesses ao universo e seus átomos, eles bem que podiam dar uma virada repentina e me transformar na Isis Valverde. Linda, simpática e, descubro eu, filósofa! Acho quem nem Epicuro sonhou com uma coisa dessas. E me despeço, invocando, sonene: Ó átomos! Virai-vos! Sacudi-vos! Ponde alguma azeitona em minha empada!…                                                                                                                              

Friday, July 27, 2012

Eu é um outro

Fui ao Rimbaud, ontem à noite, e gostei.
Dividido em 3 partes, mas as três funcionando juntas, ainda comporta um 4º nível, no qual os atores dialogam com a plateia e entre si.
Temos uma vida, bem simplificada, de Arthur, com destaque para alguns poemas e o caso com Verlaine. Um episódio, verídico, que retrata a censura à publicação de Uma temporada no inferno, por represália ao Ênio, que na peça é chamado de Henrique. E um caso passado na França de 2005, o caso Thierry, homossexual abandonado pelo parceiro e que dá guarita a um jovem de origem argelina, que entra em sua casa para roubar 90 euros. E as discussões entre os atores e a plateia, e um inflamado manifesto pela educação. O que costura os episódios? Num dos casos, a censura, noutro o homossexualismo? Seria tão simples assim? Fiquei achando que perdi alguma coisa…
Gostei muito dos atores e em certos momentos achei o jovem Rimbaud muito bom. Ele peca por ser muito simpático, no entanto. Rimbaud provocava, exasperava, obrigava todo o mundo a reagir. O que a gente não entende é quando ele fica quieto. Pois esse comportamento irritante inicial é muito similar aos jovens com algum tipo de distúrbio mental, que insistem, invadem, perturbam nosso cotidiano. Quem já teve um parente ou amigo com um determinado tipo de depressão, dessa que exige um público para sua infelicidade agressiva, sabe o que estou falando. Nem sei se o nome certo é depressão, para este tipo de doença, mas sei que existe e que leva as pessoas a fazerem bobagens, como geralmente se diz. A jovem que engravida, por exemplo, e que é forçada pelos pais a abortar, e depois foge de casa, vai viver numa comunidade hippie, se droga, anda com gente "abaixo de sua classe social", escuta rock, é presa, etc (essa é a descrição de uma personagem secundária do romance Serena, do Ian MacEwan, que estou lendo). Os roqueiros como Jim Morrison seguem este padrão. Viver no limite, afrontar costumes burgueses, experimentar outros níveis de realidade. E insuflar lendas. Alguns acreditam que Morrison não morreu e desapareceu numa vida misteriosa. Claro que, depois de dez anos de sumiço, o Morrison, para fazer juz à lenda, deveria ter voltado para morrer verdadeiramente (de câncer ou de AIDS) e provocar pena e lágrimas e muitos mea-culpas. Pelos vistos, o sonho acabou mesmo em 81…
Volto à peça. Minha amiga me perguntou: Por que é que Rimbaud está na moda? Será que é uma questão de moda? Ou atemporalidade? Personificar os tormentos e as incompreensões, a arrogância da juventude com sua vida até os 19 e depois personificar o arrependimento, a aceitação, a conformidade da vida madura? Ou, no enigmático silêncio, salvar-nos a todos da mediocridade?
Sei lá. O que me atrai nele é a injustiça divina. A punição e o aniquilamento implacável, seu sofrimento de oferenda, inimaginável.
Bem, volto ao trabalho.

Tuesday, July 24, 2012

Adiamentos

A peça do Rimbaud ficou para quinta-feira. Os filmes vão ter que esperar. Aulas de piano? Estou de férias, mas ainda preciso estudar. Os planos de viagem? Encaminhados. No fim de semana retomo. O romance? Volto ao Rimbaud, cheia de encantamento.
Poesia? Sempre, mas só curtindo, de longe. Prosa? Não, estonteada de sono, pois as preocupações têm me mantido acordada. Novela? Eu não. Romance do Ian MacEwan, e uma pilha de outros à espera.
Tempo? Escasso. Aulas? A preparar. E o mar lá fora? Lindo, e me chama, mas preciso resistir. Facebook? uma só vez por dia, rapidinho. Música? Não, uma tacinha de vinho Malbec, delicioso. Coisas para fazer? Um milhão, mas esqueci.
Sim, um autorretrato singelo e sincero.