Saturday, June 09, 2012

Dia de chuva…

As reticências no título são uma tentativa de mostrar a chuva que cai incessante e me tolhe o ânimo. O mundo se apaga nestes dias de chuva, se resfria, perde as cores. Olho pela janela e não vejo o mar, pois céu e mar se transformaram numa tela esbranquiçada onde se destacam as grandes manchas geométricas e cinzentas dos edifícios. Se me estico um pouco para um dos lados, alguma cor aparece: uma faixa amarela, outra cor de vinho sublinham a monocromia do resto do dia.
Olho para dentro de mim mesma e não vejo uma paisagem mais alegre. Meu ânimo sucumbe ao frio e à monotonia. Para escapar, tenho os livros, sempre amigos, mas agora também tenho as lições de piano. Passo algum tempo batucando as teclas e reclamando do afinador, quando devia estar deplorando a minha inépcia. Levanto-me e volto para o calor de Jorge Amado, fazendo um inventário da Bahia. São poucas as linhas que releio, e já entendo logo de cara a epígrafe de Gregório de Matos. Penso que está na hora de revisitar o poeta. Penso, também, que já não leio com a velocidade/voracidade da juventude, pois agora minha trama está mais densa e me faz refletir sobre coisas paralelas. E, falando em trama, relembro de Penélope, a sábia, que desfazia seu tecido e recomeçava sempre, numa lição preciosa de leveza. Ler com olhos inaugurais, no entanto, já não me é mais possível. Mesmo os livros recém lançados me surgem de mãos dadas com obras que suas frases me evocam. Comparo tudo isso às minhas lições de piano: a cada frase melódica que reproduzo toscamente, julgo reconhecer traços de melodias populares ou clássicas, todas muito amadas. Aqui um Frère Jacques, ali um Hino à alegria, todos mutilados pelos meus dedos ineptos e apressados.
Venho ao computador, na esperança de uma mensagem que me resgate dessa melancolia. Nada. Nonada. Aqui estou: caminho traçado pelo GPS da ausência de sol, buscando refúgio nas palavras e em possíveis leitores. Mas será que ainda tenho leitores? Este Google espião me aponta um monte de gente lendo minhas publicações, mas ninguém me dá sinal disso. Um ou outro amigo mais fiel, eu sei que me revisita. Acho que o Google mente, para me manter escrevendo aqui. Escrava fiel, dominada pela esperança de…
De quê, mesmo? De que o sol volte a aparecer e a me brindar com suas cores e energia. Deve ser isso, última esperança que (em breve?) deixarei.

Monday, June 04, 2012

Presentes

Tenho um amigo que faz aniversário por esses dias, e ando à procura de um presente para ele, alguma coisa de especial, que revele o quanto ele é querido. O problema é que nos conhecemos desde crianças, mas sei muito pouco de suas preferências. Será que a gente chega a conhecer o outro, algum dia?
Tenho o péssimo hábito de "construir" as pessoas ao meu redor. Conheço Fulano e Beltrano, Sicrana e Virana, mas o que sei de cada uma dessas pessoas? Retalhos… Uma gosta de coisas africanas, outra prefere coisas de grife; um adora poesia, outro coisas de tecnologia; um é de praia, outro de montanha… Sei que praticamente todos os meus amigos gostam de ler, e isso dificulta: provavelmente eles já leram os livros que penso em dar. Houve um tempo que eu dava ótimos CD's, músicos que aprendi a garimpar graças ao interesse do Guilherme por jazz. Agora, no entanto, ninguém escuta mais CD's…
E eu, graças à minha própria personalidade ansiosa, e que fui ensinada que não devemos deixar a conversação "morrer", acabo por interromper silêncios que poderiam levar às confidências, para ficar contando coisas que aprendi em livros. Aliás, uma vez, uma amiga me perguntou se eu nunca tinha vivido alguma coisa, pois só falava sobre o que tinha lido… Aí está o problema: nunca li uma biografia de meu amigo, e ser apenas uma testemunha de sua vida não me habilita a conhecê-lo, pois só conheço o que leio.
Este é meu grande defeito, e minha maior qualidade: sou uma leitora, vivo através de minhas leituras, roubo as experiências dos outros e as transformo nas minhas emoções. Nossa, será que sou mesmo assim? Não sei, ainda não li a minha biografia ;-)


Saturday, June 02, 2012

Mudei!
Não consegui usar as duas primeiras fotos que escolhi, mas essa também me deixa feliz: é o meu abraço aos leitores, e a acolhida que sinto entre os livros.
Estou contentinha, por enquanto.
Não posso deixar de comentar a notícia que saiu no jornal hoje: Tradução no Nook adultera texto de Tolstoi. Num arroubo de imbecilidade, ou de fidelidade, a pessoa que fez a revisão (pois um tradutor, por mais traidor que seja, seria incapaz de tal nonsense) substituiu todas as ocorrências do verbo to kindle, um legítimo vocábulo que em português equivale a acender laboriosamente uma chama, para o neologismo to nook, o que transforma o livro numa piada.
Adoro o moderno, sou uma incompetente fã da tecnologia, mas essa loucura me faz lembrar as palhaçadas do vocabulário politicamente correto. Imaginem a próxima tradução do romance de Stendhal: O vermelho e o afro descendente…
Com essa, me calo!

Friday, June 01, 2012

De amores e de amigos

Estranho a nova aparência de meu blog. Quando tiver um tempo e aprender mais um pouquinho, mudo tudo!
Por hoje quero apenas comentar a linda noite de lançamento de O amor acontece. Só que já parece que faz um ano que aconteceu e, no entanto, foi só anteontem! Os dias parecem correr mais depressa, e eu me espanto com tanta velocidade. Creio que funciono melhor no tal do tempo psicológico, que encolhe e estica de acordo com as emoções. Quero prolongar os momentos felizes, mas eles passam rápidos demais. Mas os momentos de tristeza, ultimamente, também andam se atropelando e eu me sinto como nas aulas de piano, incapaz de acompanhar o ritmo indicado.
Estou de novo martelando as teclas e os ouvidos pacientes de meus vizinhos. Estou na terceira aula, a caminho da quarta. Para comemorar, comprei dois métodos de piano e dois livros com musiquinhas que executarei sem dó nem piedade! As cinco notas da mão direita já estão aprendidas. As da mão esquerda… quase. Dó, si, lá, sol, fá. Difícil encontrá-las na pauta, embora nas teclas não seja tão mau. Mas vejam a minha ambição: parcamente alfabetizada, já vou em busca de livros e me encanto quando toco alguma coisa parcamente identificável!
E, se isso acontece na música, imaginem no meu lado escritor: mal acabo de publicar O amor acontece já estou fazendo planos para O amor acaba. Pode parecer o oposto, mas não é. Também é um livro muito alto astral, com muito humor, só que trabalhando uma angústia feminina, a de perder o companheiro no momento em que o relógio biológico se acelera! Passando do desespero ao bom humor, minha heroína dá a volta por cima e é assim que o amor acaba…bem!
Isso tudo enquanto escrevo um trabalho sobre Jorge Amado, que vou apresentar em Lisboa e no Cairo, preparo aulas sobre Proust e termino o romance sobre Rimbaud! Não admira que eu anseie por um relógio mais camarada.

Vou, então, à prática do piano. Depois, às leituras. Mas aqui fica uma foto do amor acontecendo na Livraria Argumento.

Monday, May 21, 2012

Amor à leitura

Passei a semana providenciando detalhes para o lançamento de O amor acontece. Mas encontrei tempo para ir até Monte Alto, em São Paulo, onde participei do projeto Caminhos da Leitura.
Tenho fotos da cidade lindinha e bem cuidada, bem como dos fósseis de Titanossauros que habitavam aquela região. Imaginem que lá no Centro Cívico da cidade está localizado um interessante Museu Paleológico, fiquei fascinada.  Adorei as pessoas com quem tive a chance de interagir, e mando meu abraço a todos do Projeto Guri, e das escolas que participaram do primeiro dia do projeto. Que ele tenha muito sucesso e repercussão.

Saturday, May 12, 2012

Estive ali!

Hoje no jornal aparece um lindo apartamento na Toscana, e eu estive lá! Numa de minhas andanças pelo mundo afora, fui visitar a mãe da dona do apartamento, que mora em Siena, por conta de uma história de amor que é das mais românticas. Dessas histórias de amor que sempre acontece com os outros, mas nunca com a gente mesmo. Uma mulher madura, depois de quase morrer, acaba por encontrar seu amor na internet e, aventureira, vai ao encontro de seu Romeu, em Siena. A família desaprova, mas ela insiste e, depois de algum tempo, a filha não só aceita o novo casamento da mãe como escolhe a cidade de Siena como seu ponto de apoio na Europa.  Pois bem, estive lá e o apartamento ainda não estava terminado, mas tudo o que ali está retratado já estava pronto. Os móveis, os quadros, o enorme relógio na parede de tijolinhos, os sofás todos recobertos de plástico, pois ainda estavam pintando a sala, e a poeira se espalhava por cima da enorme mesa de jantar, cujas cadeiras estavam completamente embaladas, para não se estragarem. Tenho fotos na varanda que tem essa vista lindíssima, e de onde podemos escutar os sinos das Igrejas deslumbrantes. Passeei pela cidade com a mãe e seu Romeu, um gentilíssimo italiano que nos levou à volta da muralha para conhecer as sete portas da cidade. Nossa guia leva uma vida meio retirada, seu ninho de amor fica perto da fazenda onde foi filmada aquela novela da Globo que tinha um Tony Ramos meio boboca, que foi enganado por uma mulher mais nova.
Bem, aproveito aqui para mandar um beijo para nossa anfitriã, que deixou saudades em nós duas, Helena e eu. Para quem não sabe, Helena, aos 92 anos, é uma amiga animada, que me acompanha em viagens e leituras, e me serve de inspiração.

Monday, May 07, 2012

Mudou tudo, nada mudou.

Apertei algum outro botão, e tudo mudou. Já não reconheço mais o blog, mas, ao menos, aqueles erros que todo mundo via ao abrir esta página foram para o espaço. Não tenho mais capinhas de livros repetidas equivocadamente para mostrar, não aparecem mais os blogs dos amigos (alguns até desativados, mas eu não sabia como tirar dali). Agora são só palavras. Nem cor mais… Quando tiver tempo, vou ver se melhoro alguma coisa, prometo.
Mudou também o governante da França. Eles agora têm o seu Chico, que pode não ser Buarque, mas é de Hollande. Torço para que a festa de ontem dure 5 anos. E que minha douce France continue uma terra encantada.
Tudo mudou. Mas nadanonada continua sobrenadando minha incompetência. Agradeço a vocês, meus leitores, que me incentivam a continuar. Obrigada!

Sunday, May 06, 2012

Detalhes da escrita

Abro o jornal hoje e leio o Ubaldo falando de como seus assuntos se desviam, apesar de sua vontade. Quem já me ouviu falar nas oficinas e palestras que andei fazendo por aí, sabe que, como escritora, minha autonomia é cerceada pela própria história. A palavra escrita tem uma lógica própria, e nos faz entrar em descaminhos, em divagações, em retornos inesperados. Navegamos na página sem GPS, guiados por estrelas que mudam de constelações, rindo de nossos astrolábios. Concordo com o querido João Ubaldo, e fico pensando quanto dessa nossa pena insubmissa se deve às lições dos livros amados? Pois dois mestres muito queridos, pelo menos esses dois, tenho certeza de que compartilhamos: Machado e Homero. O velho Borges, que não é meu mestre, mas que muito me fascina, bate com sua bengala para me chamar a atenção, e avisa: "não se esqueça das Mil e uma noites!" Faço que sim com a cabeça, mas o coração discorda. Minha paixão por Machado e por Homero são coisas da adolescência, época em que já temos discernimento suficiente para apreciar as leituras com corações e mentes.  Minhas mil e uma noites foram puro encantamento infantil, como aquela coleção adorada dos Melhores Contos de Fada de… e cada livro se dedicava a um país. Podia ser Hungria, França, Rússia, Portugal. Sei que aprendi muito com eles. Li coisas que depois descobri que eram clássicos medievais, como o Roman de Renard. Por mais que me esforce, meu amante alemão me proibe de lembrar o nome da tradução infantil, para o livro. Provavelmente "As histórias de Renard, a raposa", na corte deliciosa em que o leão era rei, coroado e tudo o mais, e o grande vilão era o Lobo, mas onde os Mastins também eram maus e violentos. O outros bichos apareciam e formavam uma sociedade complexa, rica, onde as vítimas eram sempre as Galinhas. Não digo que somos regidos por uma lógica diferente da nossa? Lá ia eu explorando um assunto e agora me vejo aqui, falando de uma história da qual nem sequer me lembro direito, mas que deseja ser reconhecida entre meus farrapos de memória.
Volto a Machado e Homero, os dois reis das digressões. Homero resgata o mundo a partir das histórias de Odisseus. Sei que o Ubaldo prefere a Ilíada, mas sou fã da Odisseia, que acredito ser a "mãe" de todas as narrativas. Não vou dizer porquê. Nem saberia, num blog, explicar minha tese. Seria necessário escrever outra tese, e nessa não me meto. Prefiro ser borboleta de um jardim de muitas flores que jardineira de uma única espécie. Portanto, lá vou eu em nova digressão, falando das histórias de Odisseus, que nos ensinaram desde geografia a história, que exemplificaram a criação do mundo, o sagrado e o profano, desvendaram o reino dos mortos, revelaram os perigos da sedução e os ardis da arte, e, no final, nos levaram a bom porto! Tudo isso pela boca de um mentiroso, que é a jogada mais genial de toda a Odisseia. Quem conta as histórias é reconhecidamente um grande embusteiro. Deixe a musa encantar o Ubaldo, e cantar a cólera do semideus Aquiles. Eu fico com as mentiras de Odisseus, humano como eu!
E, naturalmente, com Machado, o esperto Machado. Com ardileza, ele nos leva a pensar aquilo que ele deseja que pensemos: estratégia do fraco esperto, que aprendi – e agora se explica a intromissão – nas histórias de Renard, a raposa. Vamos e voltamos, e nunca saímos do lugar – e isto é a Odisseia… Navegamos num mar de leituras e aí venho a falar da Marta Medeiros que hoje comenta que prefere ler aqueles que são melhores do que ela. Sim, dona Marta. É sempre mais edificante lermos o que foi escrito pelos grandes mestres. Mas também é bom lermos nossos pares, e até mesmo aqueles que nem parecem dominar ainda a arte da escrita. Se olharmos sempre para cima, ficaremos com torcicolo e nos achando incompetentes. É preciso nos avaliarmos também com jogadores do mesmo nível e até mesmo bater uma bolinha com outros que ainda não nos alcançaram. Esses são os diálogos que nos reasseguram e reforçam nossa autoestima. Mas nada de abuso, se ela começar a crescer demais, corramos para os clássicos, para os excelentes, para os divinos: eles nos revelarão nossa justa medida!

Wednesday, May 02, 2012

Livros

Há muito não falo de minhas leituras. Mas continuo lendo muito, embora já não leia tanto quanto no passado, por culpa dos óculos. Adorava ler na cama, mas agora já não consigo mais. Os óculos saem do lugar, e acabo me chateando e desistindo. Mas leio por "devoção" e por distração. Minha diversão é ler, meu hobby é a leitura, meu prazer é, basicamente, lido. Leio os livros dos amigos, e muitos lançaram livros, ultimamente. Tenho uma filinha de livros de amigos. No momento estou terminando o do Molica, que fala sobre a vida de seu bisavô, o compositor Julio Reis. Já li o da Angela Dutra de Meneses, O incrível geneticista chinês, livro cômico, sobre o Dr. Wang, imaginário inventor da cura da chatice e da obesidade. Exílio, da Marcela Tagliaferi também aguarda. Por devoção, isto é, trabalho, li Regente Plutão, da Cleusa Maria, para fazer uma resenha. E, por mera curiosidade e desejo, li Livro, de um português chamado José Luís Peixoto. E estou lendo The Lady in Gold, a história do quadro de Klimt que retrata Adele Bloch-Bauer e que foi arrematado pelo herdeiro da Estée Lauder, depois de ter sido devolvido à família de quem havia sido confiscado pelos nazistas. O livro conta a história do quadro e da batalha jurídica para recuperá-lo. Mas também conta a história da Viena da Belle Époque, conta da sociedade que se desenvolveu na cidade que já foi o centro da Europa e que hoje, ainda linda, já não tem mais a importância de outrora. Incrível a quantidade de pessoas interessantíssimas que viveram em Viena no fim do século dezenove. Ainda não penetrei muito na leitura, mas já estou deliciada com as histórias de Klimt e seu irmão Ernst, morto tão jovem. E com vontade de fazer as malas e voltar a caminhar pela Ringstrasse, de ir tomar cafés nas "Colombos" de lá, de escutar música nos seus cafés concertos e nos teatros…
Bem, volto à leitura. Só fiz esse post para deixar vocês com água na boca!

Monday, April 30, 2012

Nada mudou?

Nada! Ou melhor, mudou meu retratinho do perfil e a maneira que aparece a tela aqui para eu digitar. De resto, o nadanonada continua igualzinho a antes. Tudo bem. As coisas aqui na terrinha também não mudam desde o Brasil colônia. E, o pouco que muda é para pior. Então, continuemos mais um pouco, até que outro botão me tente mais uma vez. Bem, a não ser que um Mandarim lá na China tenha caído fulminado, mas ninguém me avisou nada. Até porque, com tantos chineses, é bem provável que um tenha caído duro no exato momento em que cliquei meu botão. Mas isso seria uma mera coincidência. Ou não, conforme diriam Caetano e Jung.
Fui ver o filme sobre Freud, Jung e Sabina Spielrein. Gostei? Não muito. Logo de cara, fiquei apavorada com as caretas da bela Kyra Knightley. Será que o diretor mandou que ela fizesse todos aqueles esgares? Não gosto muito dela como atriz, embora ache que ela é bonita. Aliás, todos no filme são muito bonitos. E as locações e figurinos são maravilhosos. Mas achei que a questão do nascimento da psicanálise, ou psicoanálise, como Freud preferia que dissessem, se apequenou no filme que tornou a todos "demasiadamente humanos". E as preferências sexuais de Fraulein só entusiasmaram mesmo o Jung, que caiu em tentação. E por falar em cair, estou elaborando uma teoria, para uso próprio: a Terra anda rateando, está dando umas travadinhas, como aquelas freadas inesperadas e rapidinhas que os motoristas de ônibus costumam dar, para "arrumar" os passageiros. Tenho reparado num número enorme de pessoas com algum tipo de imobilização, ou muletas, ou bengalas que andam pelas ruas do Rio. Aonde quer que eu vá encontro um rapaz de perna imobilizada, uma senhora com o braço na tipóia, uma criança com alguma marca de queda. De todas as idades, atléticos ou sedentários, fortes ou fracos, estamos vivendo no "vale dos caídos". Primeiro andei culpando a cidade e suas calçadas e ruas mal cuidadas. Depois percebi que devia ser algo cósmico: a Terra está de motores engasgados, rateando, derrubando a nós, humanos, e outras espécies também. Ontem à noite tive a confirmação: enquanto tomava um suco no Bibi, um morcego caiu da árvore em frente. Depois de vagar um pouco desnorteado, acabou pousando no chão, no canteiro do outro lado da rua. Só mesmo por conta de uma travadinha da rotação! Mas talvez uma blogueira lá na China tenha clicado um botão, e fulminado o morcego daqui, por falta de mandarins…

Saturday, April 28, 2012

Mudanças e comparações

Mudei o perfil, agora sou google +, espero não me arrepender. Depois de tanto tempo escrevendo daquele jeitinho de sempre, sem mudar nada porque nem sequer sabia mudar nada (afinal, trata-se de nadanonada, né?)  resolvi tentar me modernizar um pouco. Em verdade, esses brinquedos vão ficando cada vez mais fáceis, pensando em pessoas atoladas como eu, que persistem nas formas antigas, eles nos tentam, com um único clique e sucumbimos. Cliquei. Vamos ver no que é que dá.
Será que alguém aí se lembra do conto do Eça, O mandarim? Tem semelhanças com a minha tentação: basta apertar um botão, vamos apertar? Você não vai sentir nada, mas haverá uma consequência. No meu caso, mudo o meu blog. No caso do conto, morre um mandarim. Qual é a tentação? Por que sucumbimos? Talvez eu tenha me condenado aos remorsos eternos que suponho que o executor do mandarim deve de ter sentido. O caso dele era mais grave, uma questão ética. O meu caso é banal, mera curiosidade. Mas as tentações existem para que a gente sucumba a elas. Só assim podemos criar os paraísos perdidos e lidar com realidades que preferiríamos não ter que lidar. Vejam hoje, no jornal, a pequena notícia no Ancelmo que revela a contratação, pelo prefeito de Niterói, de médicos, serventes e coveiros  pelo salário de R$622,00. Salários iguais para todos. Não acredito que os coveiros tenham a mesma necessidade de especialização dos médicos, mas, ao fim e ao cabo, do jeito que anda vergonhosa a nossa Saúde e também a nossa Educação, vai ver que existe uma lógica. O problema é  que, no mesmo Diário Oficial, o prefeito  Sessim (devia se chamar Senão) contratou shows para a festa de aniversário da cidade, pagando 185 MIL reais para o Zezé e Luciano e 135 MIL reais para o Jota Quest.  Esse prefeito não entendeu o preceito romano de panis et circenses. Dê o circo, tudo bem, mas dê dinheiro aos trabalhadores para comprarem seu pão!  Esses músicos vão ganhar num show de duas horas, eu suponho, aquilo que os médicos e os coveiros terão que passar umas 30 MIL horas trabalhando para ganhar. Matemática não é o meu forte, aconselho vocês a fazerem suas próprias contas!!!!
Amanhã eu volto, se o botão que cliquei não decidiu a extinção deste nadanonada.

Thursday, April 19, 2012

Dia do índio

Dia 19 de abril, porque será que escolheram essa data para dia do índio?Talvez porque logo em seguida, nos idos de 1500, aportou por aqui a frota de Cabral e eles deixaram de ter sossego. Seria? É bem plausível. Por falar em índios, fui ver Xingu, e fiquei com uma vontade doida de ver Kuarup. Se o filme de agora tem qualidade e excelentes atores, e se baseia na vida de pessoas admiráveis como os irmãos Villas Boas, o outro tem a seu favor a obra literária e seus insights, que, de certa maneira, o tornam mais profundo que a realidade filmada pode ser. Sei lá, aprendo mais através da ficção que da vida real. Mas, admito, às vezes a vida real é uma boa ficção. Esta madrugada, o Discovery Channel estava mostrando um programa sobre relógios que me deixou fascinada: a origem do relógio se deve à necessidade de regulação da vida sexual de um remoto imperador chinês. Pensei que, com uma legião de mulheres e concubinas ele precisasse de dividir o tempo destinado a passar com elas de maneira justa. Mas não era nada disso. Para os chineses, o horóscopo de uma pessoa se deve ao momento da fecundação, e não ao do nascimento. Por isso eles precisavam organizar as visitas das mulheres do imperador de maneira que no momento mais propício para o surgimento de um herdeiro ele estivesse com a Primeira Esposa… Um sábio inventou um mecanismo que marcava horas, dias e fases lunares, garantindo assim os melhores sucessores para seu imperador. Claro que fiquei fisgada pelo programa, e assim aprendi também a origem da Clepsidra. Clepsidra era o nome de uma prostituta popular entre os gregos de uma cidade cujo nome não fixei. Ela percebeu que alguns de seus clientes eram rapidinhos, outros mais demorados, e para não ficar em desvantagem, criou uma espécie de taxímetro. Numa bacia cheia d'água ela colocava um recipiente com um pequeno furinho no fundo, pelo qual ia entrando a água até que o recipiente afundasse e fizesse glub! A cada glub correspondia uma tarifa, e Clepsidra só não patenteou sua invenção porque o instituto de patentes ainda não tinha sido inventado. Mas ficou rica, suponho. E deu seu nome aos relógios de água. Gosto muito de ampulhetas: seu desenho elegante, a pressa de suas areias, capturadas entre dois mundos, a sugestão de secura, de frágil inutilidade me fascinam. Mas elas precisam ser observadas com atenção: quando será que o tempo que marcam acontece? Basta desviarmos o olhar por um instante e puf! Ficamos sem saber exatamente quanto tempo decorreu. Lembro-me, então, da crueldade da marcação do tempo no Brasil Colônia: alguns senhores de escravos amarravam um de seus negros e colocavam, sobre sua cabeça raspada, uma vela acesa. Quando o negro gritasse de dor é porque a vela tinha derretido toda e estava queimando sua pele. Terrível, não? Eu, pequenina, acreditando no Negrinho do Pastoreio, achava que ele se ocupava em soprar as velas que acendiam na cabeça de seus protegidos. Pobre Negrinho. Pobres escravos. A história de nosso país está mesmo cheia de casos tristes e um dos mais tristes que conheço é a história de uma tribo que, removida de sua região e confinada numa reserva, se suicidou inteira da maneira mais simbólica possível: comendo terra. Com saudades de sua terra, eles comiam a terra do exílio, uma terra fatal. Afinal, aprendo muito com a realidade. Mas é porque sempre coloco, junto aos fatos, um grãozinho de imaginação, que me faz vivenciar estes episódios. O conhecimento que não apropriamos, não nos traz crescimento. Mantém-se superficial, informativo, e acabamos por esquecê-lo. Aquilo que experimentamos, nem que seja no faz de conta, torna-se uma lição para toda a vida. Portanto, o Tuatuari que vi em Xingu, nunca será o Tuatuari que conheci em Kuarup, e amei a partir dos sons onomatopaicos das aguinhas correndo ligeiras. Preciso mesmo de ver Kuarup, para complementar esse Xingu!

Tuesday, April 17, 2012

O amor acontece

Vem  chegando um livro novo e eu começo a ficar impaciente, doida para vê-lo logo impresso, à venda nas livrarias. Todo mundo compara lançamento de livro a parto, e é com razão. Chega num ponto que a gente não aguenta mais esperar para ver a "carinha", examinar os detalhes, curtir tudo aquilo que a nossos olhos parecem perfeições.
Aprovei a capa, que achei bem do jeitinho do livro, mas agora fico aqui roendo as unhas imaginando se o tom é esse mesmo ou se vai se modificar na capa, se as pessoas vão gostar. Daí que passo para qual será a recepção que ele terá. Será que o público vai gostar? Será que vão comprar? Será que a imprensa vai comentar? Lógico que penso também no dia do lançamento: será que vai aparecer alguém? E minhas idéias de brindes, será que são boas? E o local do lançamento, será apropriado? E a época? Ah, quanta ansiedade.
Para tentar me acalmar, resolvi criar uma página para ele no Facebook. Agora estou na dúvida se fiz o trabalho direito. Será? Acho que isso só me provoca mais ansiedade.  Ah, desculpem. Estou assim, sem conseguir funcionar direito, só vejo o lançamento na minha frente. O pior, ou o melhor, é que tenho lançamento na semana que vem, na FNLIJ. No dia 24, sai o livro da Laura Sandroni, Contos para jovens de todas as idades, do qual participo com um conto chamado "Seduções", onde misturo Gonçalves Dias com Tabela Periódica para contar uma história da descoberta do amor por um adolescente… Eu adoro este continho, espero que ele seja bem recebido. No dia 25, lançamento duplo de A cobra e a corda e de Botas e bolas, meus dois infantis, com ilustração da Fernanda Moraes. E, ainda sem data marcada, mas já pintando no horizonte, o lançamento, em Juiz de Fora, de Erratas pensantes, em colaboração com a Rachel Jardim. Este livro é decorrência de uma palestra que fizemos no ano passado e a Universidade Federal de Juiz de Fora resolveu publicar. Mais um filho querido! Isso sem esquecer O livro branco dos Beatles, antologia que será lançada em 18 de junho (provavelmente), na qual tenho o conto "Ticket to write". Como sou beatlemaníaca (ou fui, agora já não tenho mania de nada) também estou ansiosa por esse, esperando que seja muito bem recebido.
Esses sonhos de mother to be… sempre os mesmos, sempre cheios de esperança, vão me ocupando e me tirando o sono. Acho que ainda voltarei ao assunto.


Saturday, April 14, 2012

Hello, stranger!

Acho que posso cumprimentar o blog e meus leitores com esta saudação, já faz tanto tempo que ando sumida… Falava de perdas: Chico, Tabucchi, Millor, e acho que me perdi a mim mesma. Fiquei deprimida, acreditem ou não. Depois fui melhorando aos pouquinhos, o fim de semana de Páscoa, com a família, ajudou, e depois entrei numa roda-viva de atividades que me deixaram tão cansada que ontem acabei ficando de cama. Ontem não consegui sair de casa, por mais que tivesse vontade. O bom foi que fiz umas coisas que há muito não fazia: ler revistas, por exemplo. Li a Piauí e a Veja, e de quebra uma revista bonita que vem dentro do Globo, mais propaganda que outra coisa, visto que é Magazine Casashopping, ou seja, uma vitrine para o estabelecimento. Aliás, por falar em revista, fiquei sabendo que o condomínio Península mantém uma revista. Isso me alegrou: se existem revistas, é porque existem leitores. Outra coisa que me alegrou, foi que a Globo está com uma nova atitude nas novelas – as personagens lêem! Achei fantástico, outro dia, ver o Tufão, um jogador de futebol (que deve estar aposentado, pois nunca o vi treinando nem mesmo jogando), lendo Kafka na cama! Que máximo. E ele comentava com a mulher aquilo que lia, falando com admiração do homem que acorda e se vê transformado numa barata. Imaginem se o autor, para minha sorte, resolva fazer a mulher retrucar que está lendo a história de uma mulher que vê uma barata se transformar em homem, mas, apesar de se sentir um pouco responsável, acaba desistindo do projeto de humanização do outro… Huummm… muito complicado. Acho que meu conto, O inseto, não vai ter vez na TV Globo, não… Brincadeiras à parte, vejo que a ex-catadora de lixo também gosta de ler, e fico torcendo para que ela faça o ex-Batata (e quem sabe neste apelido não esteja a explicação para ela ter virado chef) se tornar um leitor. No núcleo doa bacanas, ninguém lê. Pelo menos eu ainda não vi ninguém lendo, mas sou uma noveleira infiel. Acho que foi por puro acaso que esta me pegou, combinando minha depressão com os bons desempenhos dos dois capítulos iniciais. Depois já perdi alguns (muitos) capítulos, ou porque me esqueço, já que não tenho hábito de assistir novelas, ou porque estou na rua, em lançamentos, em exposições, em jantares, em compras. Eu disse, tive uma semana muito agitada. E as próximas duas prometem ser ainda mais movimentadas do que esta que passou.  Quarta, quinta e sexta feira da outra semana vou falar para meus leitores infantis. Na quarta, estarei na FNLIJ, na quinta e na sexta em duas sedes de uma mesma escola, a Aldeia. Aliás, eu mesmo preciso anotar: Quarta-feira, às 14horas, é o lançamento de meus dois livros infantis: A cobra e a corda e Botas e Bolas, no FNLIJ. Estarei no estande, acompanhada pela minha fabulosa ilustradora, a Fernanda Moraes. E no dia anterior, no mesmo horário, temos o lançamento do livro da Laura Sandroni, Contos para jovens de todas as idades, do qual participo com um conto, "Seduções".
Puxa, queria escrever sobre coisas menos circunstanciais, mas quando vi, fiz uma espécie de agenda on line. Desculpem-me. Amanhã volto, espero eu, com algum texto reflexivo. Este foi só para desenferrujar.

Monday, March 26, 2012

Lá vai o Tabucchi

Quantas perdas!
Chega um ponto na vida da gente que temos mais amigos do "outro lado" que a nosso lado. Eu, então, que comecei cedo a perder parentes e amigos, já me sinto quase lá. Ainda era menina quando comecei a frequentar o São João Batista. Meu bisavô, minha bisavó, pai, avó, mãe, avô, tio, entremeados de amigos mortos em acidentes, e das incontáveis histórias de parentes que não cheguei a conhecer, mortos de tísica, ou de amor (o famoso e popular suicídio de veneno com guaraná). Depois foram amigos mortos no 9-11, um num dos aviões, outro na Torre. Minha sensação de imortalidade foi abalada bem cedo, de repente comecei a ver a possibilidade da morte em casa episódio da minha vida. Crianças amadas, levadas depois de sofrimentos inimagináveis. Bichinhos de estimação, madrinha e padrinhos queridos, amigos novos estupidamente levados por tumores fulminantes, amigas mais velhas que se foram depois de doenças mais ou menos longas. Meu marido adorado, cuja perda me fez entender que podemos morrer em vida.
Agora lá se vai o Tabucchi, o italiano que quis ser português, por entender como ninguém o sentimento de um povo que amo sem entender muito bem.
Não quero ficar contando os que estão encantados, como diz o Guimarães Rosa. Também não quero contar os que continuam me encantando, por uma questão de superstição. Mas tenho a certeza de uma coisa: quando eu for, terei um céu povoado de pessoas maravilhosas, que me acolherão e nem vão reparar no quanto mudei. Pois mudei, mudamos todos, a cada dia. Mas serei reconhecida pelos olhos do amor que nos uniu.
Mas, lembrando meu padrinho, talvez nos vejamos todos no Inferno, destino que ele tinha certeza de que seria o seu. Grande apreciador de mulheres, bebidas e da boa vida da praia, ele brincava dizendo que só seria castigado indo para o céu, onde não conhecia ninguém. O inferno era a pasárgada deste bon vivant.  Para onde for que esteja carimbado o meu bilhete, espero que seja ao lado do Guilherme pois, com ele, qualquer lugar sempre foi o paraíso.

Saturday, March 24, 2012

Lá vai o Chico.

Olho para o céu e, numa clareira entre as nuvens, vejo uma estrelinha que parece passar pelo céu. Imagino que seja o Chico, presença tão constante na TV, que encantou muitas das minhas noites com seu humor e sua criatividade aparentemente inesgotável. Agora, nestes últimos meses, sempre que falávamos no Chico eu descobria alguma coisa que preferia não saber: vícios, mau humor, etc. Eu desligava. Tecia alguma desculpa e preferia pensar no Chico que amava as mulheres, que teve filhos brilhantes, que deu emprego a tantos amigos, que criou personagens que ainda vivem. Como esquecer? Passei minha vida inteira vendo o Chico, só quando os programas pararam de ser exibidos na Globo é que parei de assisti-lo. Bem, confesso que não gostava da Escolinha. Mas gostava do professor Raimundo. E das incontáveis personagens que ele fazia. Como não gostar de Coalhada, do Bozó, do Alberto Roberto? Do Baiano? E da Salomé, do Pantaleão, de Painho? Daquele latin lover cujo nome esqueci e sua "Biscoito"? Do Bento Carneiro, o vampiro desdentado e desnutrido? Não sou boa de nomes, mas me lembro de muitas outras, arremedando políticos, artistas, figuras populares. Eram tantos, tão variados, sempre engraçados. A maquiagem era primária, as perucas horríveis, mas tudo isso compunha de tal maneira a personagem que aceitávamos sem questionar. Chico foi a Meryl Streep do humor. Capaz de convencer, de mudar de voz e sotaque, de representar, arte pouco conhecida entre nossos atores.
Fico aqui, no meu canto, sem vontade de sair de casa. Vontade até tenho, mas me assusto ao ver que os cinemas estão cheios demais, que ora faz muito calor, ora chove muito. Fico em casa, desencorajada. E tento trabalhar, mas vou daqui para ali, e não faço muita coisa. Leio o jornal, penso em alugar um quarto para um dos participantes do Rio + 20. Eu não! Esbarrar com alguém dentro de casa me faz sentir ameaçada. Acostumei com o silêncio, com a mesmice. E, além do mais, minha casa está cheia de livros, amigos que pedem um pouco de tranquilidade para serem curtidos. Ando, rodeio, computo, leio, penso, sonho, e, quando vejo, o dia acabou. Não fiz muita coisa. Mas não custou tanto assim a passar. Já posso voltar para a cama, pensando: amanhã faço mais.

Friday, March 23, 2012

Mudanças

Nós, os brasileiros, não somos um povo muito afeito a mudanças. Geralmente ficamos pela cidade onde nascemos, ou naquela que elegemos. Quando morei nos EUA, descobri a "impermanência", essa mudança a cada dois anos para cidades e países distantes; a ida dos filhos para universidades no outro lado do país; a troca de residência por ocasião da aposentadoria; costumes que nos parecem, ainda hoje, um pouco estranhos. Mas cada vez mais precisamos nos adaptar. Eu mesma já mudei mais de dez vezes, mudanças nacionais e internacionais. Tenho um cartão de cliente preferencial em guarda-móveis, se é que esses cartões existem. Porque aqui as pessoas não se desfazem de seus cacarecos a cada mudança. Lá nos EUA mobiliei as três casas em que vivi com móveis comprados em Tag Sales. Geralmente acontecem no verão, as famílias em mudança abrem as portas de suas casas e vendem tudo, até as roupas! Confesso que algumas até comprei: aqueles casacos de neve que as crianças usam por duas semanas e perdem antes mesmo de terminar a estação, foi assim que agasalhei meus filhos ao chegar lá. Isso porque eles chegaram doidos para ver neve, brincar na neve, esquiar, andar de sleds, coisas que cariocas só conhecem de ouvir falar. E, temerosos, queriam todos os casacos do mundo. Logo descobriram que ali onde morávamos dava para esquiar de calça jeans, pois o exercício aquece, e os casacos e calças atrapalham os movimentos. Eu, que nunca consegui aprender a esquiar, ficava na base da montanha encarregada de segurar os casacos descartados, que as crianças tinham trazido por muita insistência minha, mãe protetora e preocupada. Com o tempo, relaxei. Cuidava apenas de recebê-los com muito chocolate quente e minha afamada sopa de cebola. E não ia mais para os lodges, ficava em casa, lendo e operando a máquina de lavar e secar, equipamento dos mais importantes em estações de esqui e em casas de praia…
Apesar de ser uma especialista em mudanças, isso ainda me desestabiliza. Ter que mudar ou ajudar a família a mudar é exaustivo física e psicologicamente falando. Um misto de esperança e temor, uma grande dose de desencanto: a cada mudança nossos móveis parecem envelhecer décadas. Um sofá que na casa X parecia novo entra num caminhão de mudança e revela toda sua idade e uso ao chegar na nova casa. Mas o que tornou essa última mudança particularmente difícil foi a sensação de retorno. Regressar a um lar que abandonamos é tão difícil como dirigir em marcha a ré. Temos que fazê-lo com cautela, para não deixar que nossas lembranças nos atropelem.

Wednesday, March 21, 2012

Quanto vale?

Quanto vale a vida humana? Outro dia falei nos trabalhadores do edifício ao lado. Hoje acordo com mais uma reportagem sobre o jovem brasileiro morto na Austrália, suspeito de ter roubado um pacote de biscoito. E jornais, TV's e internet continuam falando das mortes – gratuitas – em Toulouse. E a imprensa daqui explora e vai continuar explorando o acidente envolvendo o jovem rico e o ciclista ferrado. E finalmente prendem o rapaz (tão bonitinho, meu Deus!) que, ainda menor, foi um dos que arrastaram o pobre menino preso pelo cinto de segurança, e que agora, aos 21 anos, tinha virado empresário e empregava outros menores no tráfico de drogas. Essas reportagens ensombreceram meu dia, e agora, de tarde, cheguei em casa tão triste, tão deprimida, pensando que não existe muito motivo de alegria em viver em tempos como os que correm. Será que pioramos? Ou temos melhorado e eu estou sendo pessimista? Ontem fui assistir, na ABL, uma palestra chamada Pensar a Humanidade. O douto professor Gianotti e seu anfitrião, o doutíssimo Marco Lucchesi, foram, sem dúvida, brilhantes. Mas não consegui acompanhar o alto voo de suas mentes privilegiadas. Tendo saído do Logos para o Ratio, e do Ratio para a Trindade, eu ia, de sobressalto em sobressalto, fazendo essas piruetas filosóficas quando, sem que eu esperasse o golpe, fui abatida pela crise da matemática. Os números, capitaneados pelo zero, tornaram impossível o pensamento tradicional! Caí no abismo, sem rede de proteção nem paraquedas! O danado do Pi destruiu o raciocínio?! Mas como é que, existindo desde a amena Grécia, só no século 19 ele provocou essa destruição? Talvez pela sua combinação com o zero? Ou teria sido a impossibilidade da unidade? Sim, Marco Lucchesi me deu a entender que não se pode pensar a unidade pois ela deixaria de ser unidade uma vez que seria o Um mais o conceito de Um. Saí da Academia e vi um dos acadêmicos, acabrunhado, sentando-se no fuleiro barzinho ao lado, com certeza tão desconcertado como eu. Pois a alta filosofia, jogada assim no colo de mortais e imortais, pode deixar a plateia fora de combate. Vi o olhar perdido no Nada que o Imortal ostentava. Um Nada muito mais ameaçador que o meu nada, pois eu, mortal, não vou precisar me preocupar com isso por toda a eternidade. Resolvi imitá-lo e fui tomar uma caipirinha, em outro bar, perto de minha casa. Hoje, em crise, penso no nada que é o valor de nossa vida. Nem a leitura me consolou. Sofrendo, desabafo aqui neste nadanonada –cujo nome não poderia ser mais apropriado – Quanto vale a vida? Vale o que não pesa.

Monday, March 19, 2012

Dor no coração

Moro num andar alto. De minha janela posso ver vários telhados e é num desses telhados, de um prédio não tão alto quanto o meu  (mas que deve de ter uns 12 andares) que desde sexta feira estou sendo sistematicamente torturada por alguns trabalhadores que se movimentam sem nenhum tipo de equipamento de segurança. Na primeira tarde, um cara, solitário, se debruçava para chamar um outro, que nunca lhe respondeu. Pelo que posso ver, os homens no telhado são jovens, entre 20 e poucos e 30 e poucos anos. Têm uma vida inteira pela frente. Mas são completamente indiferentes a isso. O solitário andarilho do telhado da semana passada hoje tem um companheiro nas suas lides. Agora há pouco, os dois se movimentavam no parapeito, andando de um lado para o outro, sem nenhuma corda, cinto ou rede de segurança.
Na sexta feira, a cada chamado, meu coração se encolhia todo e doía, apavorado. Tinha vontade de gritar para ele tomar cuidado, mas estava com medo que o meu grito o assustasse e ele despencasse lá embaixo. Vesti-me e fui para a rua. Sábado e domingo eles não trabalharam, mas hoje lá estão eles. Não sei o que faça. Vou sair de novo, e pedir ao meu porteiro que avise o síndico do prédio ao lado. Ficar aqui em casa vendo esses dois desafiando a sorte faz meu coração doer. Literalmente.
Só mais uma coisa:
Hoje fui ao centro da cidade e ao saltar do ônibus, em frente ao Fórum, me vi arrastada por uma multidão que ia em direção à Igreja de São José. Hoje é dia de São José, e eu coloco aqui meu salve a todos os pais de família. Um santo simpático, o pobre carpinteiro, que acolheu a jovem grávida e, devotado, criou seu filho da melhor maneira possível. O que me deixou contente foi ver aquela simples crença popular, uma devoção feita de flores e santinhos, de idas à Igreja e portas abertas, acolhendo a todos. Hoje, que lastimo ver as Igrejas se cercando de grades, de portas semicerradas, horários restritos, ver aquela festa me deixou alegre, com vontade de participar e de rezar um tantinho. Rezo em público pelos pais de família que me fazem tanta falta, e desejo que meus filhos possam amparar e orientar suas famílias com carinho e compreensão. Ofereço-lhe uma flor, metafórica que seja, acendo-lhe uma vela, virtualmente, e relembro, com saudade, o colo que me falta, o olhar de aprovação, o semblante severo que vigiava meus caminhos, para que eu não me desviasse. Agora sigo por minha conta. E pensar nisso me provoca mais dor no coração. Literalmente.

Sunday, March 11, 2012

Fidelidade

Não sei se sou fiel ou se sou apenas chata. Nunca troquei de marido, por exemplo. Enquanto o Guilherme viveu, fui sempre fiel e apaixonada, companheira, parceira, cúmplice. E depois que ele morreu permaneço fiel a esse amor que ainda me habita, apesar da ausência física do amado. Sou fiel a coisas básicas. Posso tomar o mesmo café da manhã todos os dias do ano, sem cansar: mamão, de preferência com algumas gotinhas de limão, café puro, queijo e presunto. Tenho uma amiga que varia seu café da manhã todos os dias. Passei uns dias hospedada em sua casa e me admirei com ela, porta do congelador aberta, absorta em contemplação, sem saber o que escolher para o café. Estávamos nos EUA, onde receio que isso seja mais comum do que eu pensava. Os pais perguntam aos filhos o que vão querer de café da manhã. E cozinham ovos, preparam french-toasts, oferecem três ou mais tipos de cereais (eles devem de ter uns 150 tipos diferentes em oferta, nos mercados), preparam bolinhos, torram fatias de pão, cortam frutas, misturam geléias nos iogurtes criando novos sabores que um dia aparecerão industrializados nas gôndolas… Tanta oferta e as crianças dão duas bicadas no leite, comem metade ou um terço de sua escolha e são obrigadas a deixar tudo para trás pois vão perder a hora. E lá se vai toda a comidaria para o lixo. Não admira que algumas mães engordem tanto depois de terem filhos. Vai ver que, com pena de jogar tanta comida no lixo, elas comam todas as sobras das duas, ou três crianças. O pote de cheerios de um, o lucky charm de outra, o bagel com cream cheese do marido, o ovo que ela havia preparado para si mesma, na tentativa de "cortar os carbs", como eles dizem todas as vezes que entram em dieta.  Acho que aqui no Brasil ainda é mais fácil. Café com leite, pão com manteiga me parece ainda dominar nas mesas. Mas, aí, abriram estes restaurantes que servem cafés da manhã monumentais. O sujeito acorda no fim de semana e não dá mais aquela paradinha na padaria, no caminho da banca de jornal. Ainda se vê um ou outro freguês encostado no balcão, tomando média no copo (ih, é proibido, mas é tão gostoso…) e comendo um pão canoa, com a manteiga derretendo. Agora o pessoal acorda e já vai enfrentar a fila para conseguir uma mesa e tomar aqueles cafés que incluem sucos, ovos, cesta de pães, salada de frutas, iogurtes, geléias, requeijão, cereal, fatias de queijo branco e de presunto de peru (assim fica light, eles pensam). Para as criancinhas, um super milkshake e um queijo quente. Mas, saí completamente do meu assunto, que era a fidelidade! Volto a ele.
Sou fiel até a hábitos. Antes de preparar meu café, vou em busca do jornal, por exemplo. Por isso agora, que o jornal tem subido atrasado, tenho que me refrear para não pegar o interfone e reclamar com a portaria. Na verdade, por que é que preciso de ler o jornal tão cedo? Não preciso. Na verdade, hoje em dia a gente nem precisa ler o jornal. As notícias se repetem, regulares, mudando apenas os protagonistas. Eu, que não sou detalhista, não consigo ver a diferença entre a corrupção de João e de José.  E os países, hoje a Coreia, amanhã o Irã, depois de amanhã – ou teria sido no passado – Cartago, se alternam como ameaças iminentes à paz mundial. O que quero mesmo é ler meus amigos cronistas. Como sou avoada, nunca sei em que dia eles escrevem. Veríssimo, Ubaldo, Jabor, Francisco Bosco, Wisnik, Joaquim, Xexéu, geralmente fico alegre (e surpresa) quando os reencontro. Leio-os, fielmente, há anos. Sendo assim, não abro mão da minha assinatura. Antes assinava o JB também. Depois que ele acabou em papel, deixou de existir para mim. Sou capaz de ler livros digitais, mas jornal digital nem sequer quando viajo! Fico danada com aquelas armadilhas colocadas ao lado da notícia, por exemplo, dos 60 anos de reinado da Elizabeth, que nos oferece as fotos do Harry na comunidade do Alemão em que sempre acabo caindo e me perdendo para sempre. Vou de armadilha em armadilha e, quando vejo, estou lendo sobre as próteses de silicone da atriz fulana que vai se casar com o… Chega! Isso me faz lembrar de minhas idas ao dicionário. Nunca me restrinjo à palavra que busco. Digamos que eu vá ao dicionário em busca de restringir. Afinal, é um verbo pouco usado. Como não tenho dons mediúnicos, nem meu dicionário tem linguetinhas com as letras, abro-o ao acaso e caio, por exemplo, na página que é encabeçada pela palavra Toé. Toé? Nunca ouvi falar, e minha curiosidade se aguça. Leio a definição: que fala de solanáceas e infundibuliformes e até escopolamina. Simplifico: planta que dá barato. Descubro que a página em que caí é uma armadilha. Vejam só outros exemplos: Tola, que revela que nossa tolice não tem limites, uma vez que tola é um outro nome para a nossa cabeça, e também sinônimo de juízo. Mas não para aí. Existe uma tola que é uma espécie de torquês de madeira usada pelos penteeiros… Desisto. Deixo para os leitores o prazer de ir ao dicionário descobrir que penteeiro é quem fabrica …pentes, claro! Mas, estimulada pela recente polêmica em torno da palavra cigano, lá vou eu ver o que está escrito no meu dicionário, um vestuto Aurélio, já meio desmilinguido, de tanto uso.  "Povo que tem um código ético próprio". Politicamente correto, é verdade. Mas, em seguida, lá vem: indivíduo trapaceiro, trampolineiro, velhaco. E termina com: Ladino, astuto, trapaceiro. E agora? vamos queimar o dicionário porque a palavra já foi usada com esses sentidos agora ressentidos? Lá me  perdi de novo de meus assuntos! Volto à fidelidade, dizendo que sou fiel aos meus amigos, e coleciono alguns de muitos e muitos anos de convivência. De um deles, recebi um cartão enigmático: Prolfaças pelo genetlíaco! Deixo a vocês o prazer de procurar o significado, mas já adianto: está escrito em vernáculo!