Thursday, September 24, 2009

Quase livre

De repente, neste dia tão cinzento e tempestuoso, vislumbro um raio de sol: liberdade? Ainda não, mas um passo já foi dado. Entreguei textos, agora tenho que me dedicar a formatar os capítulos. Depois, três cópias. Depois, não sei. Mas começo a olhar a tese como algo que será feito. Vejo as páginas cobertas de letras, imagens e sou capaz de escutar música (tantos clássicos, tantos boleros, tantos devaneios de jazz que se inscrevem por entre as linhas!) Queria uma casa de chá onde pudesse me sentar com Cortazar e Carpentier, Callado e Oswald, Machado e Proust. Nas paredes, muitos quadros coloridos. Eu tomaria um uísque (apesar de não gostar), ou tomaria duas taças de champanhe rosé, porque sou fresca e gosto de bebidas cor de rosa. Ou tomaria um chá de capim limão e escutaria, calada e sorridente, e ficaria embevecida, escutando a algaravia das conversas desencontradas. Depois, já um pouco tontinha, deixaria esses sábios para lá e voltaria para casa, para ler um pouco. Ler alguém que ainda não conhecesse, sem compromisso, como uma criança descobrindo um livro de histórias. Ou para escrever a história de Mariana, tadinha, abandonada, mas não esquecida. 
Por enquanto, fico só nesses pensamentos. E reviso as normas, para poder revisar os trabalhos. Amanhã recomeço.

Thursday, September 17, 2009

Aniversários e o canto das sereias

Só pra descansar um pouco desta minha faina…
Hoje é aniversário da Tania, amiga dos tempos de colégio que nunca mais vi. Se você estiver me lendo, parabéns, saiba que não esqueço de você.
Amanhã é o aniversário da Rachel Jardim. Estou sorrindo, pensando nestas amigas que transformam dias comuns em dias especiais. Que bom que vocês nasceram, que bom que são (ou um dia foram) minhas amigas.
Hoje também foi o dia que me mudei para Portugal, há tanto tempo atrás. Lá conheci o Guilherme, lá mesmo me casei, no mosteiro dos Jerônimos, num lindo dia de julho  (Vejam como a vida da gente muda rápido: em setembro estava chegando numa terra estrangeira, sem conhecer ninguém, meses depois conheci, namorei, noivei e casei!). 
E, já que falamos de paixões avassaladoras, as sereias brasileiras estão seduzindo os escritores de Portugal e Moçambique! Esses descendentes de Ulisses (diz o mito que Lisboa é a cidade fundada por Ulisses –Ulissiponense) não seguiram o exemplo do herói, e sucumbiram aos encantos das sereias de cá. O Mia Couto, como é moçambicano, não deveria estar incluído nesta categoria, mas, como ele criou uma sereia para uso pessoal, caiu nas malhas e derrapou nas curvas brasileiras também. Arre! E suas Penélopes? Como ficam? Será que estão chorosas e tecendo suas teias ou raivosas planejam vinganças e cobram pensões? Mas esqueçam as preteridas e pensem nas preferidas, que, estas sim, estão sendo seduzidas pelas palavras desses grandes contadores de história. Imaginem as jovens cavalgando as ondas generosas de seus amados, embaladas pela declaração sussurrada, com sotaque: Amo-te, amo-te! Tomara que não enjoem!

Seminário

Bem, a quem acompanhou meus trabalhos de parto nestas últimas postagens, quero que saibam que o seminário foi um sucesso. Tudo correu bem, desde as adoráveis e elegantíssimas monitoras, atentas e eficientes, até as palestras que foram interessantíssimas e que se encadearam, formaram um corpo de pensamento que revela, em suas manifestações de loucura e rebeldia, os "desassossegos" da Lúcia Helena e do Pessoa.
Só que minha gestação é de gêmeos, e o outro bebê ainda não veio à luz. Volto ao trabalho, dando forma concreta ao pensamento para o exame de qualificação.
Fui.
Mas antes de desaparecer no espaço cibernético, um deslumbramento guloso: as contribuições para os lanchinhos do seminário fizeram do evento intelectual, o banquete de idéias, uma festa dos sentidos, um banquete literal. Vejam como literatura e comida se juntam para provar minha tese sobre o banquete! Volto a escrever sobre o assunto, mas agora com imagens de chuviscos de Campos, bolos de fubá, cafezinho da roça, e outras delícias twittando como passarinhos a meu redor. 
Agora me levanto desta mesa para me sentar em outra.

Tuesday, September 15, 2009

Trapaças da sorte

Sempre que estou trabalhando em minha tese tenho acidentes. Ontem aquele tal de "chupa cabra", o tal negocinho que a gente pluga no computador para fazer um backup, se recusou a copiar meu arquivo porque estava cheio. Tentei retirar algumas velharias, de que já não necessitava e ele me respondeu, muito petulante, que eu não podia fazer isso. E, sem que eu fizesse mais nada, pois humildemente desisti dos meus intentos e quis ejetar o negocinho, o safado se apagou! Nem tive coragem de tirar o vampirinho do computador, esperando que meu filho apareça por aqui para poder salvar alguma coisa. Eu, hein, Rosa! (Isso é o que meu avô dizia, em 1900 e antigamente)
Amanhã tem Seminário na UFF. Começa com um Workshop às 10:00h, e, depois do almoço, teremos uma mesa de conferências e duas mesas de palestras, essas três abertas ao público em geral. Os debates girarão em torno do tema: Literatura:pesquisa & atualidade. Jornal, cinema,crise, política, alteridade, a solidão moderna e o desassossego da ficção, tudo isso sublinhado pelo papel da pesquisa que indica novas direções e que detecta os caminhos que vão reinventando a nossa nação. O site está aqui:
Bem, por hoje é só esse convite e o lamento de quem vai ter que se reinventar para não quebrar o computador, jogar tudo pela janela e se mudar para o Himalaia, para ver se lá consegue esfriar a cabeça.
Vejo vocês na UFF.

Monday, September 14, 2009

Rapidinha

Semana difícil a minha, com muito trabalho, mas queria registrar aqui minha tristeza pela morte do Norman Borlaug, "pai da Revolução Verde", ganhador do Nobel da Paz em 1970 por seus trabalhos que ajudaram a alimentar o mundo. No entanto, como o ser humano tem um gene defeituoso (Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, dizem, mas esse negócio de transferência de tecnologia é perigoso, avisem ao Lula!, a tecnologia pode vir contaminada), as safras viraram objeto de especulação financeira, ao invés de serem obrigatoriamente divididas e distribuídas pelo mundo. Quem me dera um mundo sem fome, um mundo em que a gente olhasse o sofrimento dos outros e se compadecesse, ao invés de se congratular pela boa sorte que teve, ou de dizer aquela frase odiosa: "antes ele do que eu". Bem, tenho um gene Madre Teresa, mas é recessivo e preguiçoso. Nunca vocês me verão à frente de campanhas e movimentos, criando fomes-zeros pelo mundo afora. Mas procuro educar minha família, na esperança que um deles venha a fazer alguma diferença. Mas cumpro os pequenos gestos: Procuro não desperdiçar, procuro reciclar, cuido com carinho das limpezas das ruas e praias que frequento. Meu grande crime ambiental é a quantidade exagerada de livros que compro, mas agora já tenho um kindle, e os livros em inglês vou comprá-los desta maneira eletrônica. Não gosto muito, mas devo estar salvando alguma árvore, com esse esforço de ler na maquininha. 
Guido me mandou mais um link, tudo o que ele me manda é interessante, e agradeço. Ele também tem um blog, de fractais, que um dia serei capaz de listar aqui no meu blog. Vocês, que acompanham meu blog há mais tempo, já tiveram a chance de ver a beleza desses fractais, pois ele já me mandou imagens que reproduzi aqui.
Hoje o caderno de tecnologia do Globo diz que twitter emburrece, mas facebook não. Ora vejam só! E eu que achava que era exatamente o contrário, pois o FB está cheio de coisinhas engraçadinhas que nos fazem perder um tempo louco, ao invés de fazer algo sério. Recebo mil e um convites para saber coisas do tipo: que bairro eu sou? que escritor eu sou? que música eu sou? que pintor eu sou? que cor eu sou? No início, respondi a uns questionários, mas logo percebi que era tudo uma roubada. Minha cor é azul, cor que escolhi, que amo e que faço constar em quase tudo o que escrevo, mas se eu tiver que ser uma cor, preferia ser o arco-iris, algo assim matizado, variável, ligando um mundo a outro. Vocês sabem porque o arco de cores se chama Iris, não? Porque Iris era a mensageira dos deuses, e sempre que estes tinham algo a comunicar ao "cerumano" (li isso outro dia e adorei, mas me esqueci onde foi) mandavam a bela deusa até nós e esse era o caminho da deusa. Meu amor nasceu numa ilha cheia de arco-iris, uma ilha perdida no meio do Atlântico Norte, muito verdinha, onde as cercas são feitas por hortências, brancas, azuis e cor-de-rosa. Essas hortências são tão abundantes por lá que chegam a parecer cascatas, quando as contemplamos ao longe, descendo as encostas das montanhas. Juro que não fantasio, que a ilha é assim mesmo. Mas seus habitantes nem ligam para toda essa beleza. Reclamam da chuva, que cai a toda hora, sem perceberem que essa é a condição para o aparecimento das cores no céu. E consideram as flores uma praga, de tempos em tempos os tratores arrancam os arbustos, sem piedade. Nunca uma dona de casa de lá enfeitou a casa com hortências, até o dia em que saí da casa de minha sogra munida com uma tesoura e voltei com braçadas de flores (azuis, claro) e fui colocando em todos os vasos da casa. Minha sogra já não estava mais lá, e a casa andava meio triste, sem os arranjos de flores que ela gostava de fazer. Meu sogro, que me olhou com espanto quando me viu entrar, quando viu a casa toda florida se admirou:" Nunca tinha notado que essas flores fossem tão bonitas! ", ele me agradeceu. E, da vez seguinte que veio ao Brasil, me trouxe um quadro onde as hortências apareciam em primeiro plano. Não são lindas, as minhas histórias? Será que no futuro terei mais histórias de beleza igual? Ou vou ter que ficar para sempre recorrendo a esse estoque, que já vai ficando antigo?
Vejam como sou: saí do FB e fui parar nos Açores (Ilha Terceira, para os mais curiosos). E agora vou correr atrás do tempo perdido, pois, como li na crônica do JFS, "o relógio maaaarrrca…" São os últimos momentos para meus trabalhos na UFF!

Sunday, September 13, 2009

Feiura e finais

Sempre que visito o blog dos amigos me sinto humilhada. Vejam o blog de minha amiga e agente, Valeria Martins www.pausadotempo.blogspot.com. Lindo, arrumadinho, elegante… tudo aquilo que o meu queria ser e não é. Só sei mesmo é ficar falando minhas abobrinhas, pensando em voz alta. Nem sequer colocar a lista dos blogs dos amigos sei fazer. Geralmente conto com meu filho, que nasceu com um computador acoplado no cérebro. Mas ele não se liga em blogs e twitters.Daí que nunca vou progredir nestas ferramentas, acho. Quem me iniciou nestas coisas de blog foi meu mano André de Leones, outro blogueiro competente,www.rechavia.wordpress.com Aliás, vocês devem procurar o JB e ler a resenha que ele fez de Suíte dama da noite, no caderno Idéias deste sábado. Eu também escrevi uma resenha publicada neste sábado, sobre Compaixão. Pensei se ia contar ou não que adoro esta palavra, não no sentido que ela habitualmente tem de "peninha", mas no sentido (errado) de compartilhamento de paixão. E não vou continuar no assunto, a não ser para relembrar meu queridíssimo poeta pernambucano, Marco Polo Guimarães, com quem amenizei o longe de Triunfo saboreando palavras. André e Breno também estavam na van, cuja refrigeração não era páreo para o calor sertanejo. Quantas saudades desta viagem, quanta saudades destes amigos! Preciso de meio Lexotan, hein Breno? E de muitas risadas cristalinas, de caminhadas para ver, ao longe, a Paraíba. De palavras doce-amargas proferidas na modorra de Caruaru… Delícia, tão boa quanto o gosto do doce de laranja que não consigo esquecer. Ah, pára com isso! (E nem se atreva a perguntar se tem ou não acento!)
Vim escrever por duas razões: a primeira, para agradecer ao Guido pelo link que adorei. Vou usar no meu trabalho, sim. E avisar que recebi pelo blog, claro!
A outra é para sugerir um outro final para a Ivone (Yvonne?). Confesso que fiquei fisgadinha por esse final de novela, e que acompanhei muitos capítulos, embora tenha sido uma relação Norminha/Abel. Eu fui infiel como a Norminha, mas fazia coro com o Abel e dizia: você não vale nada, mas eu gosto de você. E paro por aí, não quero saber o por quê, pois o bom do amor ou do gostar é esse mesmo, a gente gosta e ponto. E se examina demais, deixa de gostar.
Voltando ao final: desde sexta que só ouço gente reclamando e dando seus finais, ou leio twits comentando as cenas, essas coisas. O que eu acho mesmo é que todo mundo queria era prolongar um pouco mais as histórias e seu encantamento. Mas, já que os palpites estão por toda a parte, aqui vai o meu: Se eu fosse a autora, a Ivone não fugiria. Golpista do jeito que ela é, e lendo sobre o que acontece nas penitenciárias, ela se "converteria" e terminaria "bispa". Grande golpe, não?  
Bem, não percam seu tempo aqui comigo, o dia está lindo, a praia nos chama. Vamos todos caminhar pelo Leblon antes que comece a nova novela e a gente passe a tropeçar nos famosos por aqui. E aí vocês podem me perguntar: e não é para a gente tropeçar nos famosos, que vai ao Leblon? Não. A gente também curte bater longos papos na esquina do Zona Sul, cumprimentar os lojistas que nos conhecem e até sabem o nome do pessoal lá em casa. A gente curte o jornaleiro que nos entrega o jornal favorito antes mesmo que peçamos (e olha que é só aos sábados que a gente vai lá!) A gente detesta o cara que circula com seu megafone comprando tudo velho, adora o vendedor de brinquedo artesanal que aparece aos domingos, se deixa tentar pela empada apregoada com voz tão forte que chega até aos andares mais altos dos prédios, sorri para os rostos que, de tão vistos, se tornam conhecidos. Curte o nascimento de Maria Eduarda, e celebra a volta de sua mãe ao Celeiro. Lamenta a falta das coxinhas do bar da esquina, fechado para reformas. Se arruma só para dar uma voltinha, chegar até a praia e voltar, tomando um picolé de limão. Se admira com o surgimento de mais uma novidade em termos de restaurante, gasta mais do que pode na livraria, e, quando o que se quer não está nessa, vai na outra, um pouco mais longe, e acaba indo até ao teatro! A gente conhece os cachorros que desfilam seus últimos modelitos de tênis, óculos e viseiras. Ri com o Beethoven saltitante, conta as embaixadinhas na esquina do Cafeína, e imagina histórias para o atleta… Adora saber que tudo está a uma distância facilmente transposta pelas suas próprias pernas, e que só precisa de carro para as longas excursões até as terras estrangeiras de Búzios, Itaipava ou Angra.
E chega! Vou para a rua, provar de tudo o que recomendo.

Friday, September 11, 2009

Literatura, twitter e otras cositas más

Passei o dia hoje preparando uma comunicação que vou fazer num seminário da UFF. Acabei perdendo a noção do tempo, coisa que às vezes me acontece quando fico muito enfronhada no que estou escrevendo. Enquanto isso o dia 11 de setembro passou e eu quase nem notei. Só agora, e fiquei arrependida de não ter lembrado nem um pouquinho do trauma que foi esse dia. Me lembro que foi o Guilherme quem me avisou do que estava acontecendo. Eu estava no carro, voltando para casa (sim, eu sei, eram nove e pouco, mas eu já tinha feito mil coisas, antigamente eu era uma mulher muito ativa.) e o Gui ligou, querendo saber melhor o que estava acontecendo. Eu não entendi nada, achei que um avião da ponte aérea tinha batido no prédio redondo lá perto do Santos Dumont. E ele me corrigia, dizendo que tinha sido em NY. Bem, sei que voltei para casa e fiquei de olhos grudados na TV, vi os prédios em chama, um avião sendo perseguido, o pentágono, os prédios desmoronando. Num primeiro momento, aquele prédio ferido ali em Manhattan, nem me dei conta da tragédia, nem da grande nem das milhares pequenas tragédias individuais, as mortes, os medos, os atos de bravura e os de mesquinharia. Hoje quando penso nas torres gêmeas, penso no amigo que perdi, nos filhos dele e na mulher. Penso nas pessoas tentando se salvar, descendo escadas intermináveis, mas acabando todos esmagados entre escombros. Penso no filho de uma amiga, vendo tudo aquilo pela janela, e depois correndo pelas ruas, sem saber para onde. E, hoje, fico pensando que, se já houvesse twitter, teríamos uma obra coletiva monumental. Em que estariam pensando aquelas milhares de pessoas, as envolvidas na catástrofe e as que nem sabiam do assunto? O twitter chegou tarde para esse grande colapso, mas talvez esteja aí no dia do Juízo Final. Que, pelo menos aqui no Brasil parece cada vez mais próximo. Com os tornados que agora resolveram devastar o sul do país, as enchentes fora de época, deslizamentos de terra, e o discurso belicista de Lula, nosso guia atrapalhado que nos leva às cegas para o colapso final. Com tanto discurso eleitoreiro, a realidade virou retórica, e tem tanta importância como uma notícia de jornal. Por falar em notícia, volto ao twitter, desta vez para comentar a Cora Rónai que postou algo assim: "deslizamentos de terra no Haiti matam uma pessoa" – e isso é notícia? 
Ai, Cora,bem sei que você não está menosprezando a vida desaparecida, mas ficou feio, esse post. Melhor fazer como seu amigo Millor, o mais perfeito autor de twits que já li. Tudo o que o Millor twita nos faz sorrir e pensar, os 140 caracteres dele equivalem a um livro de 140 páginas.
Para terminar, só quero dizer que o Amauri, meu fiel e querido leitor, tem toda razão. Os mortos não nos perturbam, os vivos é que nos exasperam. O que falei foi algo que tirei de uma conversa com uma amiga espírita. Bem que eu gostaria de acreditar nessas coisas de almas, no poder desses "trabalhos" e das "orações". Iria de bom grado visitar uma dessas mães-joanas que prometem trazer a pessoa amada em três dias, se eu acreditasse um pouquinho.  E, como sou incrédula, também não consigo acreditar no Nelsinho Piquet.  Daqui a um tempo, a Cora vai postar: "Brasileiro mente e prejudica economia mundial" – e isso é notícia?
Nós tamos ficando tão desmoralizados…

Wednesday, September 09, 2009

nove de setembro!

Antes que o dia acabe, aqui vão minhas impressões sobre data tão … tão o que, mesmo? Era para ser alguma coisa diferente?
Comecei quase esquecendo o dia nove do nove do nove, mas a TV Globo não deixou que a data passasse em branco: fizeram uma reportagem sobre a fila de casamentos lá na China, já que "em mandarim o dia de hoje quer dizer eternidade". Juro que isso foi o que disseram. E aí falaram da excessão aberta hoje, em que ampliaram o número de casamentos e informaram que cada cerimônia de casamento estava levando uma média de 3 minutos, incluindo as fotos. Agora fiquei curiosa: se uma hora tem 60 minutos, eles estavam fazendo 20 casamentos por hora. Supondo que o expediente dos cartórios, ou templos, ou seja lá onde eles se casam "em mandarim", seja 8 horas, teríamos 160 casamentos. Mas, já que eles adoram o número 9, digamos que eles tenham ampliado também o expediente para 9 horas – teremos, então 180 casamentos – isso se só puderem se casar num único estabelecimento. Mas, supondo que sejam nove … dá o quê? 1720? Ihh, mas aí a soma dos números já não vai mais dar 9: 1+7+2+0=10. Cortem-se 10 casais deste grupo de candidatos ao amor eterno, então! E daí? Pelo mundo a fora, outros milhares de casais estarão casando hoje, mas tenho a certeza de que nem todos terão garantido o amor eterno. Que eles tenham ao menos aquele que Vinícius cantou, o infinito (enquanto dure).
Mais tarde a Globo (sempre ela) me ilustrou ainda mais, entrevistando um numerólogo, que me informou que o número 9 significa mudança. E a novela me ensinou que o luto indiano dura 11 dias, tempo necessário para o morto descobrir que está mesmo morto. Aliás, ontem, conversando com uma amiga, ela me falou sobre isso: alguns mortos não percebem que já estão mortos e em vez de "partir para outra" ficam perdidos aqui no mundo, perturbando a vida dos que continuam vivos. 
Por que será que acham que os mortos não sabem que morreram? A gente não sabe quando acordou? Claro que sabe! Bem, acordar não é exatamente o mesmo que morrer, concordo. Mas acho que é mais provável que os vivos não aceitem a morte de alguém querido que o pobre morto não aceitar sua condição mortal.
Nossa! Que papo mais chato! Vamos aproveitar que o nove significa mudança, e mudar logo da fala sem interesse para o silêncio significativo.
Então, até outro dia.

Monday, September 07, 2009

Sete de setembro, onze de setembro,…

 Setembro virou um mês de muita importância. Temos o sete, que se comemora por aqui com desfiles tradicionais, coreografias militares, armas e barões axincalhados, e, pelo mundo afora, com festas alegres e espontâneas – alegria, oba-oba e mulheres melancias.  Falo nessas pois hoje fui verificar quais os blogs que estão concorrendo para virar livro. Num dos concorrentes (no setor cultural, pasmem!) estavam publicadas as piores fotos postadas no Orkut. Uma mulher fantasiada de havaiana, usando como sutiã duas metades de melancia, entreabria a saia de palha e se masturbava. Essa era apenas uma das fotos. Eu me pergunto: por que será que as pessoas colocam suas fotos constrangedoras na rede? Por que será que tiram essas fotos constrangedoras? Por que será que esses otários fazem um apanhado dessas fotos e colocam em seus blogs? Por que será que esses blogs chegam a ter picos de 50 000 acessos num único dia, e viram concorrentes para virar livro? Por que será que concorrem na categoria "arte e cultura"?  E por que será que alguém publica as instruções para fazer sexo oral, em duas versões, a masculina e a feminina? Ah, que saudades de Drummond, que dizia que amar se aprende amando. Mas essas coisas de sexo sempre foram meio complicadas, Freud que o diga!
Como vocês já sabem, fui assistir o Despertar da primavera, que trata exatamente disso: a descoberta do sexo, e as decorrentes angústias da puberdade. Escrita em 1891, continua atual. A montagem foi feita com bom gosto e bons atores, as cenas mais fortes não são constrangedoras, embora as letras das canções empreguem termos que a imprensa ainda não está publicando. O que não me impediu de sair cantarolando a melhor canção da peça, Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, vá se f…! A gente pensa que já avançou muito nessas coisas, mas o sexo, assim como a maconha, precisa de ser descriminalizado. Enquanto houver esse aspecto de proibição, de venda ilegal, de baixaria, nossa juventude continuará sofrendo as consequências dessas abordagens infelizes. E um bando de bobocas continuará confundindo cultura com 
cu ltura (desculpem o trocadilho infame). 
Chega de digressões: depois do sete, o onze. Tantas teorias para explicar o porque da escolha da data! Mas ninguém sabe ao certo a razão da escolha. Por exemplo, por que foi em 14 de julho que a Bastilha caiu? Por que escolheram o 1º de maio como dia do Trabalho? Por que a festa de Iemanjá é no dia 2 de fevereiro? Por que? Mas, entre uma e outra data, temos o nove. E fico aqui esperando o que vai acontecer nessa data tão engraçadinha: 09/09/09. E me pergunto: o que terá acontecido no dia 9 de setembro de 1909? Mas isso fica para outro dia. Quem sabe dia 9 volto ao assunto?
Para terminar com as datas, hoje, essa história de votação me fez descobrir que existe um "blog day" e que cai no dia 31/08. Mas essa data é motivada. Arranjando os números de forma correta descendo bem o 8, 3108 forma a palavra BlOg. Só soube hoje, por isso não comemorei, indicando o blog dos amigos. Mas vou fazer uma lista e publicar com atraso.  E fui!

Saturday, September 05, 2009

Névoa densa

A vida às vezes se torna opaca, densa como uma névoa que esconde e distancia as coisas a nosso redor. Estou atravessando um período de nevoeiro, e me sinto desorientada. Entretanto, vez por outra escuto um sininho de bóia, e descubro que não estou tão fora do rumo. Ultimamente as amigas têm me levado ao teatro. Fui assistir In on it, uma ótima peça, na outra semana fui assistir a Clarice interpretada pela Beth Goulart e esta semana fui ver o Despertar da primavera e também Um estranho casal. Overdose? Não, carinho das amigas, preocupadas com meu "universo em desencanto". De todas, a que mais gostei foi In on it, e recomendo a todos. 
Esta semana, com feriado e tudo o mais, reservo para o trabalho: tenho que adiantar a tese, preparar seminários, essas coisas. Não pretendo sair, até porque estou com uma crise de coluna, ou seja lá o que for, que tem me obrigado a pensar cada movimento que faço. Existe coisa mais chata que isso, essa consciência de nosso próprio corpo? Bem, perdoem-me, então, por não escrever mais. Antes de me despedir, porém, uma propaganda: Dia 16 de outubro, na UFF, o seminário do Grupo de estudos da professora Lúcia Helena. Vejam o programa no site, e compareçam, acho que as palestras vão ser muito interessantes. E vai ter lançamento de livro, Ficções do desassossego: fragmentos da solidão contemporânea – da professora Lúcia Helena. Vale a pena conferir.

Sunday, August 30, 2009

Efemérides

Há palavras que nascem assim, feias e desajeitadas. "Efemérides" é uma delas. Parece que vai numa direção, guina para outra pior ainda e termina. Insatisfatória. Aprendi a usá-la num dos muitos cursos inúteis que frequentei: astrologia. Diplomei-me na confecção de mapas astrais, depois de aprender a usar o termo efeméride, com louvor. Perdi minha vida fazendo cursos que nunca viraram percursos, mas isso é assunto para outro post, hoje me concentro nas datas que acabaram de passar. Dia 27 de agosto, dia de Nossa Senhora dos Prazeres, padroeira de Maceió, por exemplo. Queria me tornar devota da santa, mas fui pelas Igrejas a sua procura e só encontrei a das Dores. Dores maiúsculas, nem essa santa quer minha devocão: se a ela me dirijo, contando os meus males, ela logo vem comparando com os seus. "Isso não é nada, minha filha. Imagina se você se visse grávida, numa sociedade machista, tendo que se casar com um velho para não ser apedrejada na esquina. Sabe a dor de uma pedrada?" Eu, que uma vez fui atingida por uma faísca de brita que escorregou de uma obra e atingiu meu nariz, reconheço que deve doer muito a tal de lapidação (outra palavra com a qual implico). Mas ela continua: "Um velho, cabeça branca, espinha curvada, suado, mãos ásperas, e eu mal tinha entrado na puberdade! Você nem pode imaginar o que é isso. E, depois, ainda ter que parir sozinha, pois ao invés de me levar a uma parteira, ele me levou a um estábulo, e eu tive que me virar, no meio de bosta de vaca e de mijo de jumento, correndo o maior risco de pegar uma doença." Nessas alturas, eu já estou me levantando, disposta a ir embora da Igreja, mas a pobre santa ainda reclama: "E o filho, que eu tive que criar sozinha, só me deu trabalho. Com o jeito que tinha para curar pessoas, podia ter sido um médico famoso, mas foi se meter com uns subversivos e acabou na cadeia. E depois, ainda me envergonhou, sendo crucificado no meio de ladrões…" Eu saio. Volto para casa. E descubro que sábado teria sido o aniversário de São Michael Jackson. Que foi assassinado. Que foi/não foi pedófilo. Que era doido de pedra, mas, como ficou muito rico e famoso, preferiam dizer que ele era excêntrico. E aqui estou eu, no domingo de sol, sem nenhuma data a comemorar nem a deplorar, pensando nas coisas menores que aconteceram durante a semana, como, por exemplo, uma ida ao teatro, para assistir a Beth Goulart interpretando Clarice Lispector. Ela e o Michael tinham muito em comum, talento, por exemplo. (Vocês pensaram que eu ia dizer loucura, e, como não quero frustrar ninguém, está dito.) Uma das coisas ditas na peça ficaram ecoando na minha cabeça: ela queria que o público a achasse bonita. Há uma outra escritora, despontando, que deseja a mesma coisa, que se envaidece por ser considerada a "mais bela". Há alguma coisa de errado em não ser bela? Alguma coisa que nos obrigue a fazer operações plásticas para corrigir nossos narizes, a barriga excessiva, o peito caído, os cabelos ralos? Por que devemos ser belos? Nós, a espécie animal mais sem graça, segundo nos ensinam os índios, que precisamos roubar dos outros animais as suas belezas – penas, peles, dentes – para nos enfeitarmos, por que é que valorizamos a beleza acima de tudo? Talvez porque a beleza de um domingo de sol nos leve ao êxtase, ao prazer, a uma sensação de bem estar. Então, prezado leitor, querida leitora, não perca tempo aqui na frente da telinha do computador. Corra lá para fora e mergulhe seus olhos no azul do mar. Ou, se for de noite, procure encontrar o desenho secreto de Deus entre as estrelas curiosas. Sim, o outro diz que Deus é um delírio, eu sei. Então procure apenas identificar qual, dentre tantas luzes, corresponde a um satélite artificial prestes a cair. Ocupe-se com sonhos, filosofias ou recordações. Teça suas próprias dores, ou encontre seus próprios prazeres. E não use nunca a palavra "efeméride" em seus textos. Poupe-nos de mais essa dor.

Monday, August 24, 2009

segunda-feira

Às vezes a gente perde o senso de direção, e parece que o tempo fica meio confuso, dando voltas na nossa cabeça. Isso costuma me acontecer nas segundas-feiras. Não é que aconteça ao pé da letra, nada que me impeça de funcionar, é mais uma sensação secundária, que persiste às vezes durante toda a manhã, enquanto eu acordo, providencio a vida, decido a semana, inicio projetos, finalizo pendências. Lá no fundo uma sensação de deja-vu, uma falta de propósito, a certeza de que, se não fizer o que tenho para fazer, o mundo não vai parar.  Acho que isso acontece porque reflito muito sobre a morte. To die, to sleep, no more – diz o Hamlet, numa equação que ele mesmo põe em dúvida. Não estou pensando na morte do ponto de vista pessoal, ou seja, em minha morte. Mas na morte cotidiana, na morte corriqueira, na morte de quem morre de morte morrida ou matada, a cada dia. Um interrupção na imagem, uma peça mal feita em que os personagens saem de cena sem resolverem suas questões. Um dia, a Glória Perez do mundo se cansa de um Gopal qualquer e lá desaparece ele, com ou sem bigode, e nem por isso os Ramiros deixarão de receber seus copos de água geladinhos nem seus cafés quentinhos. Delmiras ou Vanderleis, Robertos ou Susanas, todos se vão, uma hora estão ao nosso lado, outra hora não mais. No entanto, a vida se acomoda. As contas que a Delmira pagava passarão a ser pagas pelo Sérgio. As aulas que o Antônio dava serão dadas pelo Joaquim. A carteira que Dulcinéia ocupava passará a ser ocupada por Robson. Algumas pessoas ainda se lembram do Carlos, outras se espantam: Quem?! Um marido relembra os carinhos da mulher, outros passeiam ao lado de novas companheiras, de cabelos molhados, sorridentes.  Sei que sairei de cena e que meu papel será feito por outra pessoa: alguém decidirá que fruta comprar, outro alguém ferverá a água para o café, fulano passará no banco, beltrano escolherá o presente para o aniversário. Segundas-feiras me deixam assim, pensativa. Caminho pela praia, e noto que reconheço alguns rostos. Se amanhã não estiverem lá, quem sentirá falta deles?

Friday, August 21, 2009

Achei a letra

Spring was never waiting for us, girl
It ran one step ahead
As we followed in the dance
Between the parted pages and were pressed
In love's hot, fevered iron
Like a striped pair of pants
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
I recall the yellow cotton dress
Foaming like a wave
On the ground around your knees
The birds, like tender babies in your hands
And the old men playing checkers by the trees
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
[break]
There will be another song for me
For I will sing it
There will be another dream for me
Someone will bring it
I will drink the wine while it is warm
And never let you catch me looking at the sun
And after all the loves of my life
After all the loves of my life
You'll still be the one
I will take my life into my hands and I will use it
I will win the worship in their eyes and I will lose it
I will have the things that I desire
And my passion flow like rivers through the sky
And after all the loves of my life
After all the loves of my life
I'll be thinking of you
And wondering why
[extended break]
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
Oh, no
No, no
Oh no!!

Volver…

Descubro que estou sofrendo de uma doença que não tinha antes: nostalgia. Meu amor me perguntava se eu não tinha saudade de meus 18 anos, de meus 28 anos e eu me horrorizava e respondia: Voltar atrás?! De jeito nenhum! Tá tão bom agora! Agora me descubro querendo viver o ontem, o muito tempo atrás, não por causa de voltar à juventude, mas para voltar à companhia dele. Faço um teste e vou para o YouTube, procurando músicas antigas. Meu amor era fã de jazz e eu, para agradar a ele, procurava uns discos que me agradassem também, e descobria as coisas mais maravilhosas, na maioria das vezes por acaso. Uma vez estava passando pela Rua Souza Lima onde existia uma lojinha de discos muito fraquinha. Mas o vendedor tinha colocado um CD maravilhoso e foi assim que descobri John Coltrane. Comprei o CD de presente para ele, claro, para juntar à sua enorme coleção de jazz, que nunca mais toquei. Mas hoje fui ao YouTube procurando um velho Caetano, que outro dia tentei cantarolar e não consegui: Uma tigreza de unhas negras e iris cor de mel… Dali, fui dando voltas, passei para Ella, e de Ella a Amy Winehouse foi um pulo. Só não sei como passei de Amy para Petula Clark. Se existem opostos perfeitos em música, devem ser essas duas. Pois minha jornada ainda não tinha terminado. De Petula passei para The Mamas and The Papas. (Alguém me disse um dia que a Michelle Pfeiffer é filha de uma das Mamas, será verdade?) E foi então que me curei da nostalgia: alguém que escute a orquestração de California Dreaming hoje só pode ficar feliz por viver em nosso tempo. Aquele som de banda evangélica era uma tristeza… e o pior é que gostávamos disso!… Quero ficar nos meus dias de hoje, mesmo, escutando, na pior das hipóteses, as músicas da novela das oito, "Salame - Uísque, salame, salame…". Mas, de vez em quando, não custa dar uma espiada no You Tube. Acho que vou voltar para lá, e ver como é que resisto à xaropada do MacArthur's park, melting in the dark. Que letra! Someone left  the cake out in the rain, I don't think that I can take it, 'cause it took so long to bake it.... E o pessoal reclama de rap. É por que a memória é curta.

Saturday, August 15, 2009

Notícias do SPA

Ainda não sei como, mas no meio da semana acabei aterrissando num Spa em Itaipava. Vim na doce esperança de um sossego, de tempo para escrever os trabalhos para a UFF, essas coisas. Mas, chegando aqui, me vi aprisionada num universo paralelo onde a vida se desenvolve de um modo peculiar e muito diferente do meu mundinho sempre tão igual. Um Spa reúne as pessoas mais diferentes e com os objetivos mais exdrúxulos (adoro esta palavra). Todo mundo parece animado por uma pilha inesgotável, e se reúne em rituais estranhos, em volta de mesas sempre com comida insuficiente, mas onde não se fala de outra coisa que não seja comida em abundância. Esses seres famintos se deslocam como zumbis de um recanto a outro do Spa, e se animam ao som de músicas cheias de batidas ritmadas, se submetem a rituais de pesagem, como cavalinhos no Jockey, escutam as palavras de sabedoria proferidas pela nutricionista, mergulham em piscinas aquecidas, suam as camisas apesar do frio insano, e, à noite, ainda se exibem em infindáveis Karaokes, com músicas de uns 20 anos atrás… Deve ser alguma coisa que põem nos chás diuréticos, única coisa que os hóspedes podem tomar à vontade! 
Vendo que não ia dar mesmo para fazer o meu trabalho atrasado, graças às dores musculares que adquiri logo no primeiro exercício que fiz, isso para não falar na sensação de vazio no estômago, decidi me dedicar à única atividade razoavelmente prazerosa que encontrei:  as sessões de massagens redutoras. Em resumo, aqui estou eu, com fome, dores musculares, diversos hematomas distribuídos pelo corpo, escutando, ao longe, o animado Karaoke. Mas, o que mais me divertiu aqui foi a variedade de tipos humanos que encontrei. Os hóspedes não variam muito, claro, alguns são mais inconvenientes que outros, como a senhora que insiste em documentar todas as atividades com sua câmera, invadindo a privacidade de todos. Já os funcionários, cada qual tem um perfil, e servem de inspiração para muitas histórias que se podem imaginar. Não vou contar nenhuma aqui – falta-me apetite (rá!) e tenho sono. Mas, um dia, quem sabe? Posso, por exemplo, casar o rapaz gordinho (sou muito delicada) com a jovem garçonete sonhadora. Agora, faço como Machado e me despeço com um "boas noites".

Sunday, August 09, 2009

Pensando na Ceia

Querem coisa mais linda que dizer que a gente está pensando na "Ceia"? Ceia é uma refeição vestida de festa, com ares literários e coisa e tal, fumaças religiosas, que tem, ao mesmo tempo, uma conotação frugal (afinal, é ceia, uma refeição logo antes de dormir, não dá para a pessoa comer muito) e luxuosa, de excesso (pois o cara já jantou, comer a ceia significa que a casa é farta, que o conviva ficou acordado até tarde, já teve tempo até de digerir a refeição servida no final do dia. Querem saber o oposto de ceia? É "lanche", aquela história de que "lá em casa abolimos o jantar, a gente só faz um lanche"… Que tristeza, aquela mesa de toalha encardida, com louça desbeiçada servindo um café com leite na companhia de um pão com manteiga que não satisfaz a ninguém, mas que deixa uma sensação de estômago cheio graças ao fermento… E pensar que, quando eu era criança, minha refeição favorita era o lanche. Lanche reforçado, com prato de sonhos, queijo de minas, presunto. Ou com sanduíches de carne assada, ou pastéis acabados de fritar… Os lanches de minha infância só aconteciam aos domingos, dias de "ajantarado", aqueles almoços que saíam depois da hora e nos encontravam a todos famintos pelas iguarias fora do comum, e nem sempre apreciadas. Por exemplo: angu a baiana, que me deixava absolutamente indiferente e até mesmo frustrada, pois era um prato do qual eu não gostava de nada. No dia de mocotó, que eu também não gostava, eu me salvava com o pirão. Era o que eu comida. Dia de rabada, sempre era a batata o que me agradava (depois passei a gostar de agrião). Dia de angu era o fim do mundo. Morta de fome, vendo todo o mundo comer, e eu tendo que embromar até a hora da sobremesa. O pior era quando, de sobremesa, faziam torta de banana. Tudo aquilo que eu não gostava. Bons mesmos eram os dias dos assados: pernil, lagarto, frango, fosse o que fosse, na companhia de uma farofinha generosa, de maionese, de batatinhas coradas…
E a ceia. Sempre festiva, nas noites de Natal e de Ano Novo. Muitas opções. Direito a coca-cola, bebida mais rara que champanhe, em minha casa. Hoje, ceia para mim tem outra conotação. Tantos anos estudando a Ceia de Leonardo da Vinci, já virei conviva. Nesta ceia, só idéias, além de pão e de vinho. E ecos do passado, planos de futuro.

Thursday, August 06, 2009

Peixes e pescados

Os falantes nativos de espanhol diferenciam os peixes dos pescados. Nossos hermanos jamais comeram um peixe, mas sempre comem pescados. Hoje, lendo o artigo da Cora, lembrei-me disso, numa telepática tentativa de consolá-la por ter comido a carne de um esperto "peixe-gato", um fóssil vivo, mas isso na sua versão pescado. Lembrei também de uma coisa que me fascina e me encanta: as cores dos peixes: observados debaixo d'água, enquanto nadam e também nos observam, curiosos, os peixes possuem tons lindos, nuances maravilhosas, uma espécie de alma exterior (Machado a encontrava até nos humanos). No entanto, mal são retirados do reino das águas claras (pois nesse é que sou capaz de observá-los) essas cores desaparecem, se perdem num acinzentado, desmaiam em subtons, se é que isso existe. Um dourado, por exemplo. Exposto num balcão faz que os fregueses se perguntem por que lhe deram esse nome. Os vermelhos empalidecem. As pintas dos namorados desmaiam. Listras e cores, pintas e manchas todas procuram o tom metálico do cinza, os pastéis do desânimo. Talvez porque o que nos interesse, ao contemplar o pescado, não seja mais sua beleza, mas a cor de sua carne depois de preparada. Quantas vezes escuto a freguesa perguntando ao feirante: Esse peixe é bem branquinho? -- e se justifica: É que meu marido (ou filho, ou sogra) só come peixe quando é bem branquinho. Ou então, mais sofisticada, ela questiona o comerciante sobre o tom pálido do salmão: Gente, mas que salmão mais anêmico!
Sou uma devota consumidora de peixes, desde que não me venham inteiros para o prato. Um filé de linguado, uma tranche de cherne, um belo filé de vermelho, preparados de maneira simples, basta grelhar, me encantam. Restaurantes há que só me veem pedir um único prato, como por exemplo o salmão ao molho de mostarda e dill, com pequenos pedacinhos de banana, do Guimas. Ah, que delícia! No entanto, passei um jantar (na França, meus amigos!) em jejum pois o pedido da amiga que estava sentada em frente a mim foi uma truta, que veio inteira, nadadeiras abertas, mandíbulas ferozes abocanhando o próprio rabo, olhos cegos de raiva que, não obstante minha inocência, despejavam sobre mim a violência da interrupção de sua vida. Nem gosto de lembrar…
E, como sempre retornamos ao assunto essencial, a vida, que seja bem vindo ao mundo o pequeno Lorenzo, que ele chegue para ser príncipe e magnífico, como o encantador florentino que tanto incentivou as artes. Mas que ele não tenha a vida marcada por batalhas, que seu caminho seja de paz, que a terra floresça à sua passagem, que as mulheres lhe sorriam e os homens lhe respeitem, que os livros o encantem e lhe ensinem seus tesouros. Lorenzo e sua irmã, a bela Sofia, sua primeira e devotada súdita sou eu!
Assim como saúdo a chegada de um príncipe, dou um adeus à mãe de minha xará, que partiu quando eu estava viajando e só agora soube de sua ida. Tão frágil, a castelã de Petrópolis descansa agora em paragens ainda mais altas que a serra, velando por toda sua família e amigos. Suspiro um até breve, saudosa do meu amado…

Monday, August 03, 2009

Despedidas

Uma semana que se inicia melancólica: no domingo, despedida da filha, que voltou para os US; hoje, despedida definitiva de uma amiga, DEDEI, depois de um longo sofrimento. Saudades novas que se juntam a saudades antigas, ainda tão dolorosas…
Em compensação, reencontro meu cantinho, de onde o mar me consola com seus azuis. O céu aparece velado de malva, misterioso, mas amigável. Ainda saboreio a resenha que fiz sobre o livro do Mia Couto, e que foi publicada no JB-Idéias, de sábado. O livro, Antes de nascer o mundo, é um dos melhores dele. Foi um prazer escrever a resenha. Agora hei de me dedicar ao trabalho da UFF, que já começa a me preocupar. Preciso produzir muito para a faculdade, pois quero terminar logo o doutorado. Tenho pressa de embarcar em novas aventuras. Sonho com mudanças, com mais viagens. Me imagino tomando um carro e viajando em linha reta, sempre, sem que nada me detenha… Mas quero é ficar aqui mesmo, batendo papo com vocês, curtindo o silêncio da minha casa, meio reclusa, meio livre numa indefinição que me permita criar minhas histórias e meus textos. Li sobre um cara que fala que não acha graça em escritores, que largam da vida para ficar escrevendo sobre ela. Mas, na verdade, esta é uma forma de vida tão saborosa quanto a vida de ação e aventuras. É que somos estruturados de uma maneira diferente, vivemos através de palavras, não de ações. Custei para entender isso, mas agora já não invejo mais as amigas e os amigos que "vivem" de outra maneira. Eu também vivo, e minha vida é tão válida quanto a daqueles que estão saltando de bungee-jump, ou que passam a noite nas raves, ou que amam fisicamente. E que a vida desses outros é tão válida quanto a de uma vaca pacífica, ou de uma leoa selvagem. Ou a vida de uma barata. A vida é um fenômeno que se manifesta de diferentes maneiras e que nos maravilha, quando a contemplamos, seja do ponto Aleph ou do ponto mais subjetivo e egoísta. Escritores, bailarinos, cineastas e contadores, fiscais do imposto de renda, polícia e ladrão, macacos e pulgas, cobrimos a terra com nossos comportamentos aparentemente tão diversificados e que, no entanto, são apenas manifestações de um mesmo fato, e que, tão inesperadamente, pode desaparecer. Aproveitemos. Carpe diem, diziam os antigos, significando que devíamos lamentar a passagem de cada dia. O que vale é que traduzimos de uma maneira muito mais positiva, e dizemos: aproveitemos o momento, vivamos.

Tuesday, July 28, 2009

De volta

Cá estou eu no meu cantinho outra vez. Os ventos uivantes que não encontrei na Argentina estavam à minha espera aqui na minha torre, trazendo arrepios e cheiros do mar. Qual é o bom de chegar? Encontrar a casa com seus cheiros e objetos familiares. Olhar pela janela e encontrar as paisagens já conhecidas, mesmo que desconhecendo o agreste vento. Poder usar uma roupa recém tirada do armário, e não de uma mala. Usar o computador que, dócil, não se recusa a abrir páginas de internet. Qual é o triste de chegar? É a saudade do novo, do inesperado. É a síndrome de abstinência que nos ataca quando nos vemos na casa vazia. É a realidade que nos morde com mil dentes nas correspondências, nas faltas nos armários da cozinha, nas chaves extraviadas, nas providências a tomar.
Mas, pouco a pouco, a gente se sente aconchegada nos abraços dos amigos, nos sossegos da rotina, no cheiro de café, no sabor da comida preparada em casa. Isso para não falar de nosso prazer em escutar nossa própria língua, na TV, nas ruas, em casa.
Chego e já penso em partir, no entanto. Irei, talvez essa semana mesmo, talvez na próxima. Com certeza em setembro, para a Itália. E, no entretempo, vou escrevendo, visitando o país das maravilhas, das lembranças, do espelho. Isso enquanto o sorriso da lua me faz pensar em Alice, enquanto o pessoal das Histórias Possíveis me chama de volta das férias, enquanto passeio pela cidade e encontro mudanças de cenário. 
Agora vou descansar o corpo moído de carregar malas e de passar horas em aeroportos e em pequenos aviões fabricados em Liliput. Por falar nisso, semana que vem os Houyhnhnms estarão atraindo todas as atenções da cidade. Athina, a imperatriz, traz seus súditos para a Hípica e todos nós vamos nos tornar especialistas em cavalos, graças à mídia. Taí, vou gostar de aprender. Mas, agora, descanso.

Saturday, July 25, 2009

Don't cry for me , Argentina

Como é linda essa região da Argentina. O lago Nahuel Huapi (Nahuel=jaguar;huapi=ilha) emoldurado pelas montanhas de picos nevados (estavam nevados quando chegamos, agora estão sem seu disfarce), o sol que prateia as águas, o vento que empurra as nuvens e provoca mil pequenas ondas, é, realmente, de dar gritos! Adoro o sol que aqui sempre me parece obliquo, como os olhos de Capitu, adoro o frio que mordisca meu nariz até deixá-lo vermelho. Adoro os passeios procurando a neve que se esconde, fugaz e passageira. Bariloche, San Carlos de Bariloche, com suas incontáveis fábricas de chocolate, ruas cheias de gente, mesmo com a ameaça da gripe suína, e os cafés onde, ao invés de me comportar, sucumbo à tentação de un chocolate caliente.
A família se divide: uns anseiam pela neve e suas emoções, outros adoecem com o frio, eu finalizo as resenhas, tento adiantar o trabalho final do curso, luto com a falta de sinal para a internet, a falta de adaptador para carregar os eletronicos do qual dependemos…
A TV me faz companhia, mas também me impacienta. As massagens oferecidas pelo hotel me tentam, mas não sucumbo à tentação. Li mais dois livros de Mia Couto, e assim que consegir carregar meu brinquedo novo, o Kindle, lerei o que nele se esconde. Amanhã parto para Buenos Aires, com a informação de que em breve vai estrear um filme sobre os últimos anos de vida de Borges.  Curiosa, tenho que me aguentar, pois ainda é cedo para vê-lo.
E, desde já, começo as despedidas, cantando, com Evita, que the truth is I never left you.