Sunday, August 30, 2009

Efemérides

Há palavras que nascem assim, feias e desajeitadas. "Efemérides" é uma delas. Parece que vai numa direção, guina para outra pior ainda e termina. Insatisfatória. Aprendi a usá-la num dos muitos cursos inúteis que frequentei: astrologia. Diplomei-me na confecção de mapas astrais, depois de aprender a usar o termo efeméride, com louvor. Perdi minha vida fazendo cursos que nunca viraram percursos, mas isso é assunto para outro post, hoje me concentro nas datas que acabaram de passar. Dia 27 de agosto, dia de Nossa Senhora dos Prazeres, padroeira de Maceió, por exemplo. Queria me tornar devota da santa, mas fui pelas Igrejas a sua procura e só encontrei a das Dores. Dores maiúsculas, nem essa santa quer minha devocão: se a ela me dirijo, contando os meus males, ela logo vem comparando com os seus. "Isso não é nada, minha filha. Imagina se você se visse grávida, numa sociedade machista, tendo que se casar com um velho para não ser apedrejada na esquina. Sabe a dor de uma pedrada?" Eu, que uma vez fui atingida por uma faísca de brita que escorregou de uma obra e atingiu meu nariz, reconheço que deve doer muito a tal de lapidação (outra palavra com a qual implico). Mas ela continua: "Um velho, cabeça branca, espinha curvada, suado, mãos ásperas, e eu mal tinha entrado na puberdade! Você nem pode imaginar o que é isso. E, depois, ainda ter que parir sozinha, pois ao invés de me levar a uma parteira, ele me levou a um estábulo, e eu tive que me virar, no meio de bosta de vaca e de mijo de jumento, correndo o maior risco de pegar uma doença." Nessas alturas, eu já estou me levantando, disposta a ir embora da Igreja, mas a pobre santa ainda reclama: "E o filho, que eu tive que criar sozinha, só me deu trabalho. Com o jeito que tinha para curar pessoas, podia ter sido um médico famoso, mas foi se meter com uns subversivos e acabou na cadeia. E depois, ainda me envergonhou, sendo crucificado no meio de ladrões…" Eu saio. Volto para casa. E descubro que sábado teria sido o aniversário de São Michael Jackson. Que foi assassinado. Que foi/não foi pedófilo. Que era doido de pedra, mas, como ficou muito rico e famoso, preferiam dizer que ele era excêntrico. E aqui estou eu, no domingo de sol, sem nenhuma data a comemorar nem a deplorar, pensando nas coisas menores que aconteceram durante a semana, como, por exemplo, uma ida ao teatro, para assistir a Beth Goulart interpretando Clarice Lispector. Ela e o Michael tinham muito em comum, talento, por exemplo. (Vocês pensaram que eu ia dizer loucura, e, como não quero frustrar ninguém, está dito.) Uma das coisas ditas na peça ficaram ecoando na minha cabeça: ela queria que o público a achasse bonita. Há uma outra escritora, despontando, que deseja a mesma coisa, que se envaidece por ser considerada a "mais bela". Há alguma coisa de errado em não ser bela? Alguma coisa que nos obrigue a fazer operações plásticas para corrigir nossos narizes, a barriga excessiva, o peito caído, os cabelos ralos? Por que devemos ser belos? Nós, a espécie animal mais sem graça, segundo nos ensinam os índios, que precisamos roubar dos outros animais as suas belezas – penas, peles, dentes – para nos enfeitarmos, por que é que valorizamos a beleza acima de tudo? Talvez porque a beleza de um domingo de sol nos leve ao êxtase, ao prazer, a uma sensação de bem estar. Então, prezado leitor, querida leitora, não perca tempo aqui na frente da telinha do computador. Corra lá para fora e mergulhe seus olhos no azul do mar. Ou, se for de noite, procure encontrar o desenho secreto de Deus entre as estrelas curiosas. Sim, o outro diz que Deus é um delírio, eu sei. Então procure apenas identificar qual, dentre tantas luzes, corresponde a um satélite artificial prestes a cair. Ocupe-se com sonhos, filosofias ou recordações. Teça suas próprias dores, ou encontre seus próprios prazeres. E não use nunca a palavra "efeméride" em seus textos. Poupe-nos de mais essa dor.

Monday, August 24, 2009

segunda-feira

Às vezes a gente perde o senso de direção, e parece que o tempo fica meio confuso, dando voltas na nossa cabeça. Isso costuma me acontecer nas segundas-feiras. Não é que aconteça ao pé da letra, nada que me impeça de funcionar, é mais uma sensação secundária, que persiste às vezes durante toda a manhã, enquanto eu acordo, providencio a vida, decido a semana, inicio projetos, finalizo pendências. Lá no fundo uma sensação de deja-vu, uma falta de propósito, a certeza de que, se não fizer o que tenho para fazer, o mundo não vai parar.  Acho que isso acontece porque reflito muito sobre a morte. To die, to sleep, no more – diz o Hamlet, numa equação que ele mesmo põe em dúvida. Não estou pensando na morte do ponto de vista pessoal, ou seja, em minha morte. Mas na morte cotidiana, na morte corriqueira, na morte de quem morre de morte morrida ou matada, a cada dia. Um interrupção na imagem, uma peça mal feita em que os personagens saem de cena sem resolverem suas questões. Um dia, a Glória Perez do mundo se cansa de um Gopal qualquer e lá desaparece ele, com ou sem bigode, e nem por isso os Ramiros deixarão de receber seus copos de água geladinhos nem seus cafés quentinhos. Delmiras ou Vanderleis, Robertos ou Susanas, todos se vão, uma hora estão ao nosso lado, outra hora não mais. No entanto, a vida se acomoda. As contas que a Delmira pagava passarão a ser pagas pelo Sérgio. As aulas que o Antônio dava serão dadas pelo Joaquim. A carteira que Dulcinéia ocupava passará a ser ocupada por Robson. Algumas pessoas ainda se lembram do Carlos, outras se espantam: Quem?! Um marido relembra os carinhos da mulher, outros passeiam ao lado de novas companheiras, de cabelos molhados, sorridentes.  Sei que sairei de cena e que meu papel será feito por outra pessoa: alguém decidirá que fruta comprar, outro alguém ferverá a água para o café, fulano passará no banco, beltrano escolherá o presente para o aniversário. Segundas-feiras me deixam assim, pensativa. Caminho pela praia, e noto que reconheço alguns rostos. Se amanhã não estiverem lá, quem sentirá falta deles?

Friday, August 21, 2009

Achei a letra

Spring was never waiting for us, girl
It ran one step ahead
As we followed in the dance
Between the parted pages and were pressed
In love's hot, fevered iron
Like a striped pair of pants
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
I recall the yellow cotton dress
Foaming like a wave
On the ground around your knees
The birds, like tender babies in your hands
And the old men playing checkers by the trees
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
[break]
There will be another song for me
For I will sing it
There will be another dream for me
Someone will bring it
I will drink the wine while it is warm
And never let you catch me looking at the sun
And after all the loves of my life
After all the loves of my life
You'll still be the one
I will take my life into my hands and I will use it
I will win the worship in their eyes and I will lose it
I will have the things that I desire
And my passion flow like rivers through the sky
And after all the loves of my life
After all the loves of my life
I'll be thinking of you
And wondering why
[extended break]
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
Oh, no
No, no
Oh no!!

Volver…

Descubro que estou sofrendo de uma doença que não tinha antes: nostalgia. Meu amor me perguntava se eu não tinha saudade de meus 18 anos, de meus 28 anos e eu me horrorizava e respondia: Voltar atrás?! De jeito nenhum! Tá tão bom agora! Agora me descubro querendo viver o ontem, o muito tempo atrás, não por causa de voltar à juventude, mas para voltar à companhia dele. Faço um teste e vou para o YouTube, procurando músicas antigas. Meu amor era fã de jazz e eu, para agradar a ele, procurava uns discos que me agradassem também, e descobria as coisas mais maravilhosas, na maioria das vezes por acaso. Uma vez estava passando pela Rua Souza Lima onde existia uma lojinha de discos muito fraquinha. Mas o vendedor tinha colocado um CD maravilhoso e foi assim que descobri John Coltrane. Comprei o CD de presente para ele, claro, para juntar à sua enorme coleção de jazz, que nunca mais toquei. Mas hoje fui ao YouTube procurando um velho Caetano, que outro dia tentei cantarolar e não consegui: Uma tigreza de unhas negras e iris cor de mel… Dali, fui dando voltas, passei para Ella, e de Ella a Amy Winehouse foi um pulo. Só não sei como passei de Amy para Petula Clark. Se existem opostos perfeitos em música, devem ser essas duas. Pois minha jornada ainda não tinha terminado. De Petula passei para The Mamas and The Papas. (Alguém me disse um dia que a Michelle Pfeiffer é filha de uma das Mamas, será verdade?) E foi então que me curei da nostalgia: alguém que escute a orquestração de California Dreaming hoje só pode ficar feliz por viver em nosso tempo. Aquele som de banda evangélica era uma tristeza… e o pior é que gostávamos disso!… Quero ficar nos meus dias de hoje, mesmo, escutando, na pior das hipóteses, as músicas da novela das oito, "Salame - Uísque, salame, salame…". Mas, de vez em quando, não custa dar uma espiada no You Tube. Acho que vou voltar para lá, e ver como é que resisto à xaropada do MacArthur's park, melting in the dark. Que letra! Someone left  the cake out in the rain, I don't think that I can take it, 'cause it took so long to bake it.... E o pessoal reclama de rap. É por que a memória é curta.

Saturday, August 15, 2009

Notícias do SPA

Ainda não sei como, mas no meio da semana acabei aterrissando num Spa em Itaipava. Vim na doce esperança de um sossego, de tempo para escrever os trabalhos para a UFF, essas coisas. Mas, chegando aqui, me vi aprisionada num universo paralelo onde a vida se desenvolve de um modo peculiar e muito diferente do meu mundinho sempre tão igual. Um Spa reúne as pessoas mais diferentes e com os objetivos mais exdrúxulos (adoro esta palavra). Todo mundo parece animado por uma pilha inesgotável, e se reúne em rituais estranhos, em volta de mesas sempre com comida insuficiente, mas onde não se fala de outra coisa que não seja comida em abundância. Esses seres famintos se deslocam como zumbis de um recanto a outro do Spa, e se animam ao som de músicas cheias de batidas ritmadas, se submetem a rituais de pesagem, como cavalinhos no Jockey, escutam as palavras de sabedoria proferidas pela nutricionista, mergulham em piscinas aquecidas, suam as camisas apesar do frio insano, e, à noite, ainda se exibem em infindáveis Karaokes, com músicas de uns 20 anos atrás… Deve ser alguma coisa que põem nos chás diuréticos, única coisa que os hóspedes podem tomar à vontade! 
Vendo que não ia dar mesmo para fazer o meu trabalho atrasado, graças às dores musculares que adquiri logo no primeiro exercício que fiz, isso para não falar na sensação de vazio no estômago, decidi me dedicar à única atividade razoavelmente prazerosa que encontrei:  as sessões de massagens redutoras. Em resumo, aqui estou eu, com fome, dores musculares, diversos hematomas distribuídos pelo corpo, escutando, ao longe, o animado Karaoke. Mas, o que mais me divertiu aqui foi a variedade de tipos humanos que encontrei. Os hóspedes não variam muito, claro, alguns são mais inconvenientes que outros, como a senhora que insiste em documentar todas as atividades com sua câmera, invadindo a privacidade de todos. Já os funcionários, cada qual tem um perfil, e servem de inspiração para muitas histórias que se podem imaginar. Não vou contar nenhuma aqui – falta-me apetite (rá!) e tenho sono. Mas, um dia, quem sabe? Posso, por exemplo, casar o rapaz gordinho (sou muito delicada) com a jovem garçonete sonhadora. Agora, faço como Machado e me despeço com um "boas noites".

Sunday, August 09, 2009

Pensando na Ceia

Querem coisa mais linda que dizer que a gente está pensando na "Ceia"? Ceia é uma refeição vestida de festa, com ares literários e coisa e tal, fumaças religiosas, que tem, ao mesmo tempo, uma conotação frugal (afinal, é ceia, uma refeição logo antes de dormir, não dá para a pessoa comer muito) e luxuosa, de excesso (pois o cara já jantou, comer a ceia significa que a casa é farta, que o conviva ficou acordado até tarde, já teve tempo até de digerir a refeição servida no final do dia. Querem saber o oposto de ceia? É "lanche", aquela história de que "lá em casa abolimos o jantar, a gente só faz um lanche"… Que tristeza, aquela mesa de toalha encardida, com louça desbeiçada servindo um café com leite na companhia de um pão com manteiga que não satisfaz a ninguém, mas que deixa uma sensação de estômago cheio graças ao fermento… E pensar que, quando eu era criança, minha refeição favorita era o lanche. Lanche reforçado, com prato de sonhos, queijo de minas, presunto. Ou com sanduíches de carne assada, ou pastéis acabados de fritar… Os lanches de minha infância só aconteciam aos domingos, dias de "ajantarado", aqueles almoços que saíam depois da hora e nos encontravam a todos famintos pelas iguarias fora do comum, e nem sempre apreciadas. Por exemplo: angu a baiana, que me deixava absolutamente indiferente e até mesmo frustrada, pois era um prato do qual eu não gostava de nada. No dia de mocotó, que eu também não gostava, eu me salvava com o pirão. Era o que eu comida. Dia de rabada, sempre era a batata o que me agradava (depois passei a gostar de agrião). Dia de angu era o fim do mundo. Morta de fome, vendo todo o mundo comer, e eu tendo que embromar até a hora da sobremesa. O pior era quando, de sobremesa, faziam torta de banana. Tudo aquilo que eu não gostava. Bons mesmos eram os dias dos assados: pernil, lagarto, frango, fosse o que fosse, na companhia de uma farofinha generosa, de maionese, de batatinhas coradas…
E a ceia. Sempre festiva, nas noites de Natal e de Ano Novo. Muitas opções. Direito a coca-cola, bebida mais rara que champanhe, em minha casa. Hoje, ceia para mim tem outra conotação. Tantos anos estudando a Ceia de Leonardo da Vinci, já virei conviva. Nesta ceia, só idéias, além de pão e de vinho. E ecos do passado, planos de futuro.

Thursday, August 06, 2009

Peixes e pescados

Os falantes nativos de espanhol diferenciam os peixes dos pescados. Nossos hermanos jamais comeram um peixe, mas sempre comem pescados. Hoje, lendo o artigo da Cora, lembrei-me disso, numa telepática tentativa de consolá-la por ter comido a carne de um esperto "peixe-gato", um fóssil vivo, mas isso na sua versão pescado. Lembrei também de uma coisa que me fascina e me encanta: as cores dos peixes: observados debaixo d'água, enquanto nadam e também nos observam, curiosos, os peixes possuem tons lindos, nuances maravilhosas, uma espécie de alma exterior (Machado a encontrava até nos humanos). No entanto, mal são retirados do reino das águas claras (pois nesse é que sou capaz de observá-los) essas cores desaparecem, se perdem num acinzentado, desmaiam em subtons, se é que isso existe. Um dourado, por exemplo. Exposto num balcão faz que os fregueses se perguntem por que lhe deram esse nome. Os vermelhos empalidecem. As pintas dos namorados desmaiam. Listras e cores, pintas e manchas todas procuram o tom metálico do cinza, os pastéis do desânimo. Talvez porque o que nos interesse, ao contemplar o pescado, não seja mais sua beleza, mas a cor de sua carne depois de preparada. Quantas vezes escuto a freguesa perguntando ao feirante: Esse peixe é bem branquinho? -- e se justifica: É que meu marido (ou filho, ou sogra) só come peixe quando é bem branquinho. Ou então, mais sofisticada, ela questiona o comerciante sobre o tom pálido do salmão: Gente, mas que salmão mais anêmico!
Sou uma devota consumidora de peixes, desde que não me venham inteiros para o prato. Um filé de linguado, uma tranche de cherne, um belo filé de vermelho, preparados de maneira simples, basta grelhar, me encantam. Restaurantes há que só me veem pedir um único prato, como por exemplo o salmão ao molho de mostarda e dill, com pequenos pedacinhos de banana, do Guimas. Ah, que delícia! No entanto, passei um jantar (na França, meus amigos!) em jejum pois o pedido da amiga que estava sentada em frente a mim foi uma truta, que veio inteira, nadadeiras abertas, mandíbulas ferozes abocanhando o próprio rabo, olhos cegos de raiva que, não obstante minha inocência, despejavam sobre mim a violência da interrupção de sua vida. Nem gosto de lembrar…
E, como sempre retornamos ao assunto essencial, a vida, que seja bem vindo ao mundo o pequeno Lorenzo, que ele chegue para ser príncipe e magnífico, como o encantador florentino que tanto incentivou as artes. Mas que ele não tenha a vida marcada por batalhas, que seu caminho seja de paz, que a terra floresça à sua passagem, que as mulheres lhe sorriam e os homens lhe respeitem, que os livros o encantem e lhe ensinem seus tesouros. Lorenzo e sua irmã, a bela Sofia, sua primeira e devotada súdita sou eu!
Assim como saúdo a chegada de um príncipe, dou um adeus à mãe de minha xará, que partiu quando eu estava viajando e só agora soube de sua ida. Tão frágil, a castelã de Petrópolis descansa agora em paragens ainda mais altas que a serra, velando por toda sua família e amigos. Suspiro um até breve, saudosa do meu amado…

Monday, August 03, 2009

Despedidas

Uma semana que se inicia melancólica: no domingo, despedida da filha, que voltou para os US; hoje, despedida definitiva de uma amiga, DEDEI, depois de um longo sofrimento. Saudades novas que se juntam a saudades antigas, ainda tão dolorosas…
Em compensação, reencontro meu cantinho, de onde o mar me consola com seus azuis. O céu aparece velado de malva, misterioso, mas amigável. Ainda saboreio a resenha que fiz sobre o livro do Mia Couto, e que foi publicada no JB-Idéias, de sábado. O livro, Antes de nascer o mundo, é um dos melhores dele. Foi um prazer escrever a resenha. Agora hei de me dedicar ao trabalho da UFF, que já começa a me preocupar. Preciso produzir muito para a faculdade, pois quero terminar logo o doutorado. Tenho pressa de embarcar em novas aventuras. Sonho com mudanças, com mais viagens. Me imagino tomando um carro e viajando em linha reta, sempre, sem que nada me detenha… Mas quero é ficar aqui mesmo, batendo papo com vocês, curtindo o silêncio da minha casa, meio reclusa, meio livre numa indefinição que me permita criar minhas histórias e meus textos. Li sobre um cara que fala que não acha graça em escritores, que largam da vida para ficar escrevendo sobre ela. Mas, na verdade, esta é uma forma de vida tão saborosa quanto a vida de ação e aventuras. É que somos estruturados de uma maneira diferente, vivemos através de palavras, não de ações. Custei para entender isso, mas agora já não invejo mais as amigas e os amigos que "vivem" de outra maneira. Eu também vivo, e minha vida é tão válida quanto a daqueles que estão saltando de bungee-jump, ou que passam a noite nas raves, ou que amam fisicamente. E que a vida desses outros é tão válida quanto a de uma vaca pacífica, ou de uma leoa selvagem. Ou a vida de uma barata. A vida é um fenômeno que se manifesta de diferentes maneiras e que nos maravilha, quando a contemplamos, seja do ponto Aleph ou do ponto mais subjetivo e egoísta. Escritores, bailarinos, cineastas e contadores, fiscais do imposto de renda, polícia e ladrão, macacos e pulgas, cobrimos a terra com nossos comportamentos aparentemente tão diversificados e que, no entanto, são apenas manifestações de um mesmo fato, e que, tão inesperadamente, pode desaparecer. Aproveitemos. Carpe diem, diziam os antigos, significando que devíamos lamentar a passagem de cada dia. O que vale é que traduzimos de uma maneira muito mais positiva, e dizemos: aproveitemos o momento, vivamos.

Tuesday, July 28, 2009

De volta

Cá estou eu no meu cantinho outra vez. Os ventos uivantes que não encontrei na Argentina estavam à minha espera aqui na minha torre, trazendo arrepios e cheiros do mar. Qual é o bom de chegar? Encontrar a casa com seus cheiros e objetos familiares. Olhar pela janela e encontrar as paisagens já conhecidas, mesmo que desconhecendo o agreste vento. Poder usar uma roupa recém tirada do armário, e não de uma mala. Usar o computador que, dócil, não se recusa a abrir páginas de internet. Qual é o triste de chegar? É a saudade do novo, do inesperado. É a síndrome de abstinência que nos ataca quando nos vemos na casa vazia. É a realidade que nos morde com mil dentes nas correspondências, nas faltas nos armários da cozinha, nas chaves extraviadas, nas providências a tomar.
Mas, pouco a pouco, a gente se sente aconchegada nos abraços dos amigos, nos sossegos da rotina, no cheiro de café, no sabor da comida preparada em casa. Isso para não falar de nosso prazer em escutar nossa própria língua, na TV, nas ruas, em casa.
Chego e já penso em partir, no entanto. Irei, talvez essa semana mesmo, talvez na próxima. Com certeza em setembro, para a Itália. E, no entretempo, vou escrevendo, visitando o país das maravilhas, das lembranças, do espelho. Isso enquanto o sorriso da lua me faz pensar em Alice, enquanto o pessoal das Histórias Possíveis me chama de volta das férias, enquanto passeio pela cidade e encontro mudanças de cenário. 
Agora vou descansar o corpo moído de carregar malas e de passar horas em aeroportos e em pequenos aviões fabricados em Liliput. Por falar nisso, semana que vem os Houyhnhnms estarão atraindo todas as atenções da cidade. Athina, a imperatriz, traz seus súditos para a Hípica e todos nós vamos nos tornar especialistas em cavalos, graças à mídia. Taí, vou gostar de aprender. Mas, agora, descanso.

Saturday, July 25, 2009

Don't cry for me , Argentina

Como é linda essa região da Argentina. O lago Nahuel Huapi (Nahuel=jaguar;huapi=ilha) emoldurado pelas montanhas de picos nevados (estavam nevados quando chegamos, agora estão sem seu disfarce), o sol que prateia as águas, o vento que empurra as nuvens e provoca mil pequenas ondas, é, realmente, de dar gritos! Adoro o sol que aqui sempre me parece obliquo, como os olhos de Capitu, adoro o frio que mordisca meu nariz até deixá-lo vermelho. Adoro os passeios procurando a neve que se esconde, fugaz e passageira. Bariloche, San Carlos de Bariloche, com suas incontáveis fábricas de chocolate, ruas cheias de gente, mesmo com a ameaça da gripe suína, e os cafés onde, ao invés de me comportar, sucumbo à tentação de un chocolate caliente.
A família se divide: uns anseiam pela neve e suas emoções, outros adoecem com o frio, eu finalizo as resenhas, tento adiantar o trabalho final do curso, luto com a falta de sinal para a internet, a falta de adaptador para carregar os eletronicos do qual dependemos…
A TV me faz companhia, mas também me impacienta. As massagens oferecidas pelo hotel me tentam, mas não sucumbo à tentação. Li mais dois livros de Mia Couto, e assim que consegir carregar meu brinquedo novo, o Kindle, lerei o que nele se esconde. Amanhã parto para Buenos Aires, com a informação de que em breve vai estrear um filme sobre os últimos anos de vida de Borges.  Curiosa, tenho que me aguentar, pois ainda é cedo para vê-lo.
E, desde já, começo as despedidas, cantando, com Evita, que the truth is I never left you. 

Friday, July 17, 2009

O passado silenciado

Estou fazendo, quase que simultaneamente, as resenhas de dois livros apaixonantes. O primeiro é um amor antigo, obra prima de José Cardoso Pires, O Delfim. O segundo é amor novo, ainda brilhante como moedinha nova, apaixonante: Antes de nascer o mundo, do Mia Couto. As duas histórias são tão bem urdidas que o leitor corre o risco de esquecer a verdadeira história, que sublinha nos silêncios (olha o Mia aí, minha gente!) o verdadeiro conto. Mas os danadinhos não deixam. Na hora que a gente podia se perder para sempre na narrativa, eles dão uma puxadinha nas rédeas e nossa imaginação estaca, intrigada: o que é que estamos lendo, mesmo? Podemos desvendar, ou não desvendar nada, mas sabemos que ali, naquele silêncio, a máquina do mundo se desvela. Será que poderemos enxergar além das sombras? 

Tuesday, July 14, 2009

Deu no Globo…

Um conselho que dou a escritores que possam estar sofrendo de "writer's block" (existe um termo consagrado em português? Bloqueio criativo? Síndrome da página em branco?): Leiam as manchetes do jornal, que não lhe faltarão assuntos. Não falo, obviamente, dos escândalos da política nem das mortes violentas. Essas já viraram lugar comum e só inspiram os cineastas. Falo das coisas inusitadas como a possibilidade de um Harry Potter in drags! Quem poderia imaginar que o bruxinho ia crescer e que seu maior desejo seria virar travesti? Bem sucedido, milionário e baixinho, o seu desejo expresso nas páginas do jornal é se vestir de mulher por causa das roupas! A culpada deve ser a danada da Hermione, que fica desfilando todos aqueles modelitos Channel que ganha de presente e rouba os flashes nas estréias. Naughty, naughty, tanto um quanto a outra.
Querem ver mais? Pois leiam o poema de amor do jovem de 17 anos, publicado na quarta capa do Megazine. "Ela é minha mulher, corpo quente/e sexo farto."
Sexo farto? Mas a amada ainda possui "…língua/ culta de conhecimentos sem fim." e "cantarola Vinícius na velha zona/sul boêmia." Essa mudança de linha amplia a significação e me deixa com um título de conto já pronto: Vinícius na zona! Fantastique! (pois estamos no 14 juillet, Vive la France!)
Para terminar, uma de reforma ortográfica: O Brasil vai pagar mais caro pelos submarinos que comprou porque a França vai repassar tecnologia. Se nos lembrarmos da piada da construção da ponte, aquela que diz que a cidade pediu três orçamentos para a construção de uma ponte, e que os alemães cobraram um milhão, os americanos cobraram dois milhões, mas ofereceram cobertura e ar condicionado para toda a ponte, e os brasileiros cobraram três milhões. A cidade, curiosa quanto aos melhoramentos, que não foram mencionados, chamou os brasileiros para conversar. Eles disseram que era isso mesmo: cobrariam três milhões, chamariam os alemães para construírem a ponte, ficariam com um milhão e o outro milhão iria para o prefeito. Daí que, na reforma ortográfica, a gíria grana por fora passou a ser grafada tecnologia.
Agora chega de jornal, e aqui vai minha homenagem ao Theatro Municipal, que sempre amei, assim, com h e tudo o mais, e que merecia um poema tão verdadeiro quanto o do jovem aluno do Pedro II, citado antes. Esse theatro está preso às minhas lembranças mais antigas, de aluninha de ballet do Professor Pierre (Klimon? Climont?) De minhas apresentações como Outono ainda na minhamais tenra Primavera… As lembranças são confusas, mas lembro-me de me perder por uns subterrâneos cheios de praticáveis e de poeira, numa deliciosa brincadeira de esconde-esconde. Lembro de uma montagem espetacular de Sonho de uma noite de verão, com a Lucélia Santos. Lembro do último baile de Carnaval do Municipal, que graças a Deus (que a ciência prova que não existe, Dawkins, eu sei, mas que continua sendo uma ótima expressão de alívio) foi eliminado. Das óperas extraordinárias que assisti, dos ballets que me deslumbraram com sua beleza, dos incontáveis concertos da Dell'Arte ou dos convites para as frisas do Bradesco, quando Guilherme ainda era o "senhor presidente". Não houve nem uma vez que eu tivesse entrado no Municipal sem me emocionar com a beleza do prédio. E sempre me sinto uma espécie de princesa lá dentro, mesmo quando só consigo um lugar na torrinha lateral e passo o tempo todo com a sensação que, se não fosse pelo insustentável aperto das poltronas que imprensam nossas pernas de encontro à mureta da frente, poderia me distrair e despencar lá de cima. Amo o Municipal, amo o Assirius, que já foi um excelente restaurante e que impressionou os gringos que meu marido recepcionou com um almoço no local, e às mulheres dos gerentes de todo o Brasil a quem, ao invés de oferecer um dia de shopping, ofereci um almoço ali seguido de uma visita à Biblioteca Nacional, quase em frente.
Então, viva ao Theatro Municipal! Que ele ofereça mais 100 anos de magia, e mais outros 100 ainda multiplicados por 100.
E que o nosso 14 de julho seja comemorado sempre com a construção de uma coisa boa, não com a queda de uma coisa ruim. Mas que tenhamos todos a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, belas palavras, embora filhas do Terror com a Guilhotina… 

Monday, July 13, 2009

Desculpem nossa falha!

Voltei de Paraty gripadíssima. Se era suíno ou não o vírus que me atacou, não sei. Só sei que era chatíssimo, exigente, e que me dominou enquanto não cedi e fiz repouso. O que valeu é que, enquanto estive lá em Paraty (um erro de digitação me fez perceber que o nome da cidade já carrega em si a festa - party) ele não me incomodou. Fui e voltei bem, dirigi sem problemas, deixei os amigos no aeroporto, voltei para casa e… dormi! Mau sinal, todas as vezes que durmo de tarde significa que estou para adoecer. No entanto, achei que estava apenas muito cansada, depois de tantas atividades, muita alegria e companhia todo o tempo – eu, que agora passo dias inteiros sem falar, por falta de interlocutor, me vi numa interminável conversa, deliciosa e variada, como uma borboleta num jardim florido. Bem, vou poupá-los da descrição minuciosa dos sintomas. Também não vejo mais como falar de FLIP, assunto mais que requentado em mil postagens pela internet, em artigos de jornal, em folhetos, em revistas. Quem ainda quer saber do Chico? Quem, se não a vovozinha, ainda se lembra do Lobo? Quem guardou na memória o teor da palestra do Dawkins, as emoções do Domingos, as verdades do Talese? Quem ainda lembra que eu falei na OFF FLIP? Os livros que trouxe, ganhados ou comprados, não puderam ser abertos, muito menos lidos. Aqui em casa se juntaram aos manuscritos do Cremasco, aos livros enviados pelo Maurício, ao manuscrito do Altamir. Desculpem amigos, mas ainda vou demorar: terminadas as aulas, tenho que fazer o trabalho final do semestre. Mas, para complicar minha agenda de trabalho, tiro alguns dias para paparicar a família, que se reúne toda na próxima semana, numa viagem para os picos nevados do Cerro Catedral. Gripe outra vez? Por que me amedrontar? Irei, iremos de avião. Passaremos pela Linha Vermelha. Colocaremos nos pés umas tabuinhas velozes e nos despencaremos pelas encostas da montanha, numa velocidade absurda. Tudo isso é risco. Viver é muito perigoso, nos ensina Guimarães Rosa. Mas, enquanto viva, contemplo minha nesguinha de mar, sorvo o azul pelos olhos, encho o peito de maresia até provocar a tosse, e continuo o descanso, agora frente ao computador, já com mais ânimo. Prometo que escrevo, que volto a ler, que tentarei cumprir os prazos, que não deixarei esses azuis que me encantam passarem outro dia sem minhas homenagens!

Friday, July 03, 2009

Fliperama II e III e !V...

Atrasada, eu sei, mas como me dividir entre o computador, na pousada, e as mesas e os amigos e os divertidos almoços e jantares? Meu computador, já no limite, cansado, cada vez me parece mais lento: estou há mais de 10 min. convencendo-o a colaborar comigo.Então, sem mais demora, vamos às notícias: A mesa das verdades inventadas foi muito boa. Muito bem dirigida, todos broilharam, Bloch, Tatiana e Sérgio tinham muito em comum e destaco algumas frases.
Da Tatiana:
A solidão da escrita é procurar, no próprio corpo, o que poderia ser narrado.
Do Sérgio:
A realidade não existe. Só existe no momento em que a organizamos num discurso.
Do Bloch:
A biografia definitiva é uma falácia.

Claro que eles disseram muito mais, eu é que sou fraca de anotações.
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A grande mesa da Flip, até agora, foi a do Dawkins. O Boccanera foi super profissional e não deixou a peteca cair nem quando houve problemas com o som. O Dawkins foi super simpático, inteligente, divertido, simples de entender. Ouvindo-o, percebemos que ele lê muito, conhece bem literatura inglesa, ou pelo menos, os clássicos da literatura inglesa. Tudo o que ele falou foi interessante, mas não anotei nada -- perdi a caneta, vejam só! E, além do mais, nem sou repórter, sou apenas uma deslumbrada, felicíssima de estar aqui escutando tantas coisas, aprendendo tantas outras.Muito bom.

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A noite? Foi uma loucura portenha. Depois de tanto saber, a euforia das conversas e dos cérebros super estimulados, trocando risadas e lembranças, cantando El dia en que me quieras num restaurante argentino, voltando para a pousada cantando Garota de Ipanema em espanhol, na expectativa de uma sexta-feira de muitas outras atividades.

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Fora das mesas principais, começamos a sexta pela divertidíssima mesa sobre o acordo ortográfico, mediada pelo Marcelo Moutinho, e estrelada pelo Marcelino Freire e o Ondjake. A exuberância do Marcelino, propondo um acordo pornográfico para que todos aprendam a usar bem a língua, foi secundada pela elegante contenção do Ondjake que começou por citar Fernando Pessoa (Minha pátria é a língua portuguesa). Em seguida, ele revelou que Mia Couto oferece uma atualização do pensamento de Pessoa ao dizer "Minha pátria é minha língua portuguesa", para terminar com um amigo, provavelmente imaginário, que diz: "Minha pátria é minha língua numa portuguesa". No entanto, longe de se esvaziar nesta brincadeira, a mesa cresceu, levantou-se a questão da oralidade, da falta de solicitação popular para essa unificação da ortografia, dos aspectos comerciais que estão por tras da reforma, da resistência por parte dos portugueses. E aí, meio que sem querer, o humor voltou a imperar nas longas "colocações" da platéia, quase todas feitas por portugueses ou angolanos ou moçambicanos. Só que não vou comentar aqui, para vocês não pensarem que estou contando piadas de português.


A off-flip também está crescendo.O público comparece e gosta da programação. Ontem foi o Ruffato, debaixo de chuva, e mesmo assim bem assistido. Hoje houve uma homenagem a Bandeira. O Secchin, num novo visual que o deixou muito mais charmoso, fez uma excelente análise de Profundamente. Depois, o pessoal da Fliporto continuou com o mesmo tema, mas ressaltando a pernambucanice (será que dá para usar essa palavra?) do poeta.

Voltando às mesas oficiais, Tezza e Bellatin, concorridíssima, infelizmente foi prejudicada pela passeata das comunidades tradicionais, que organizaram uma demonstração barulhenta e com um estribilho antipático: Queremos perturbar! Eles têm razão de sobra para protestar, mas o estribilho foi muito infeliz.

Depois, a tão esperada mesa de Hatoum e Chico. O mediador, intimidado com a tarefa sobrehumana (?) travou. Hatoum e Chico foram simpáticos, mas, apesar da imensa multidão que arrastaram, que levou o pessoal a barrar até o Gay Talese e alguns credenciados (que depois conseguiram entrar, graças a um supervisor mais atilado) a mesa foi meio borocochô. O Chico, o Hatoum e o mediador confessaram que tinham combinado como ia ser, e essa combinação tirou a espontaneidade que, nas outras mesas, deu tão certo. Preparar-se para uma mesa é muito bom, mas combinar as jogadas torna o jogo sem graça.

E agora vou dormir.

Thursday, July 02, 2009

Fliperama I

Este é o curioso mosaico feito de livros, que forma o retrato de Manuel Bandeira, poeta homenageado. Curioso porque a imagem, a olho nu, quase que não se revela, mas na oto até que dá para reconhecer.
Aqui vão algumas frases pinçadas durante a sessão das 11:45
Domingos de Oliveira:
Não existe banalidade.
Estou convencido de que existe uma "terra dos romances prontos", o escritor deve ser capaz trnar-se leve para chegar lá.
O segredo da produtividade é acabar tudo o que se começa.
Meu amor não é meu, dou para quem quiser.
Toda obra de arte boa é de auto-ajuda. Se eu vejo um filme e ele não me ensina nada, é um mau filme.

Tuesday, June 30, 2009

FLIP, revisited

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada. 
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. 
Anseio com uma angústia de fome de carne 
O que não sei que seja - 
Definidamente pelo indefinido... 
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto 
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. 
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua. 
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. 
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota. 
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. 
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos; 
Escrevo por lapsos de cansaço; 
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia. 
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme; 
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago; 
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma... 
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei, 
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa 
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas), 
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas 
Onde supus o meu ser, 
Fogem desmantelados, últimos restos 
Da ilusão final, 
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido, 
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo, 
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida... 
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, 
E aqui tornei a voltar, e a voltar. 
E aqui de novo tornei a voltar? 
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, 
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória, 
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo, 
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -, 
Transeunte inútil de ti e de mim, 
Estrangeiro aqui como em toda a parte, 
Casual na vida como na alma, 
Fantasma a errar em salas de recordações, 
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem 
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo, 
Sombra que passa através das sombras, e brilha 
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida, 
E entra na noite como um rastro de barco se perde 
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo, 
Mas, ai, a mim não me revejo! 
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico, 
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim - 

Um bocado de ti e de mim!...

Será que alguém ainda se lembra de Fernando Pessoa e seus poemas Lisbon revisited? Tecnicamente, Alvaro de Campos é quem os assina. 
Não posso deixar de meio que "plagiá-los" agora que estou de partida para Paraty, onde tantas vezes perambulei pelas calçadas incertas, me apoiando nos braços de quem me amparou também nas calçadas de Lisboa.  A quem será que revejo nas tendas e nas vielas? Qual a voz que me chama no vento das praias? Que imagem é essa que projeto, através dos livros?
Ih, melhor guardar esse papo cabeça para a hora do bate-papo na Flip. Beijos, partindo.

Monday, June 29, 2009

A morte e o sonho

Uma coisa assim, repentina, e minha dor aparece fingindo que é para um alguém que nem conheço. E eu rememoro uma fase da vida que me pareceu tão agitada, espremo uma lágrima que quer escorrer no cantinho do olho esquerdo, do coração. Pegue essa bandida!, ordeno à minha mão. Rápido, antes que ela escorra! E, obedecida, mantenho meu ar de indiferente doçura perante a agitação da turba. Sinto inveja. De quê? Talvez dos aplausos, ao se fechar a cortina…
E eis que outra morte, e mais outra, dão o tom melancólico ao fim de semana. Morre o festejado cantor, a bela atriz e o corajoso jurista. Arte e inteligência parecem não ter vez nesse mundo. Falam muito do cantor: uma figura estranha. Falam pouco da atriz, já quase esquecida, bela e imitada em sua glória, depois, em seu sofrimento, amada por quem uma vez tinha sido seu parceiro. Morre o jurista e esse, que devia ser tão celebrado e comentado, a quem se deve, no país, um exemplo de cidadania, fica quase que limitado a uns poucos comentários, quase sem imagens. Um morto sem séquito para mostrar na TV. Talvez o povo esteja lá, talvez tenha acorrido, agradecido pela carta que um dia recebeu, querendo retribuir seu interesse. Mas as equipes de TV, essas, embarcaram para Los Angeles e estão entrevistando a torto e a direito umas figuras que agora possuem o prestígio da proximidade. Alguém que um dia apertou a mão do cantor. Outro que tocou tambor a seu lado. A cozinheira que preparava pratos vegetarianos há mais de 20 anos. A babá, despedida, que denuncia defeitos. A família, implacável, que deseja os despojos. A mãe dos filhos, a ex-mulher, o ex-médico, a enfermeira.
Ninguém abriu espaço para o documentário dos últimos dias da atriz cancerosa.  Ninguém quer saber do conteúdo da carta aos brasileiros. Queremos glitter. Dança. Morte misteriosa e declarações bombásticas que nos façam esquecer as vergonhas intestinas do país. Para ajudar, bons jogos de basquete, conquista do ambicionado título de futebol numa batalha árdua que nem parecia estar sendo travada contra os EUA, mas contra a incompetência do próprio time.  Vuvuzelas impiedosas nos impedindo de pensar, de sentir outra coisa que não seja a insensibilidade dos remédios para a dor de viver.
Mas a morte é assunto que os vivos não esgotam. Viver e morrer, já ensinava o filósofo, são coisas que se excluem. Será? Mas não vou discutir isso agora, pois me dedico a satisfazer o pedido do amigo Guilherme Ramos, em seu blog Prosopoética. Ele quer saber de meus sonhos, oito deles. Ah, Guilherme, se você soubesse o quanto procuro sonhar, sem conseguir… Mas não vou ser freudiana, e vou ficar com os sonhos na acepção de "desejo", aquilo que os americanos chamam de daydreaming, e nisso até que sou boa. Todos os dias sonho alguma coisa, olhando para o mar, sonho alguma coisa, lendo os livros do Mia Couto, sonho alguma coisa, e por aí vai.
O que mais queria era o meu amor de volta, mas isso não vale, então vamos aos sonhos possíveis (sem prioridades, apenas à medida que vão surgindo em minha imaginação):
1 Sonho em ser uma escritora de sucesso: e aí me questiono – sucesso significa o que? Muitas vendas? Entrevistas nos jornais? Reconhecimento nas universidades? Teses publicadas a cerca de minha obra? Acho que o sucesso que desejo é mais humildezinho – um tratamento mais deferente por parte da minha Editora, que deixa meus imeios sem resposta, que nem se lembra de fazer uma propagandazinha de meus livros, nem de organizar um ciclo de palestras para divulgar os autores nacionais sem "exposição midiática".
2 Sonho em poder me sustentar com o produto de meu trabalho: meus livros e minhas palestras e aulas.
3 Sonho em viajar pelo mundo (e isso até que faço), só que voando em primeira classe, para não chegar nos lugares tão desoladamente desconfortável e cansada. 
4 Sonho em ser professora visitante na Sorbonne. Queria ter a chance de viver por uns tempos em Paris, transformando essa cidade numa paisagem interna, quase que orgânica. Paris é a cidade mais lógica que conheço, cartesiana, apesar de que essa lógica se impõe sobre uma cidade viva, que se modifica e se rebela. Numa das vezes em que estava na cidade, surpreendi uma noite em que o trânsito parou nas redondezas do meu "feudo" (entre o Jardim de Luxembourg e a Université) e as ruas foram invadidas pelas bicicletas, que foram, aos milhares, percorrendo os caminhos cinzentos com suas cores e suas campainhas alegres, numa espécie de festa. E o caos não se instaurou na cidade, como aconteceria aqui se tivessem feito uma festa dessas num final de dia de semana.
5 Sonho em ser magra e flexível, um corpo adolescente que não reclame das canseiras a que possa obrigá-lo.
6 Sonho em ter uma mente ágil e criativa, sempre disposta a aprender e a assimilar novidades.
7 Sonho em abraçar o mundo, oferecer paz e conforto a todos a quem eu possa encontrar.
8 Sonho em romper o casulo de minha solidão.
Aí está, Guilherme. E, de bônus, mais um sonho: mergulhar nas águas das praias azul-esverdeadas de Alagoas, e deixar-me dissolver de prazer!

Monday, June 22, 2009

Brecht.com

Fui ao teatro, fui ao cinema, matei o concerto (menina má), pois preferi ir ao lançamento do livro de minha amiga Adriana Lisboa (boa menina). O filme? Assim, assim. Bom para coroas sonhadoras e para jovens atores e atrizes, que podem ver dois grandes atores transformando uma historinha gasta num passatempo regular. A peça? Ingênua. Nosso mundo está muito mais sofisticado que o de Brecht, mais cínico. Duvido que a platéia tire as conclusões pedidas pelo elenco, ninguém vai dar bola para aquela divindade, nem para o conflito da jovem prostituta que acredita em amor, nem se impressionar com o aguadeiro que se mutila para ganhar uma pensão– tudo dejà vu, infelizmente. O livro da amiga? É infantil, e estou guardando para ler acompanhada por uma criança. Mas é lindo, ilustrado pelo fantástico Rui Oliveira.
Hoje entreguei minha resenha para o Rascunho. Falo sobre o Frenesi polissilábico, do Nick Hornby, mas acho que falo mesmo é sobre o Rascunho – esse jornal idealista que se mantém graças ao Rogério Pereira, um dínamo, todo coração e energia, sonho e realização. 
Agora vou aos textos para a UFF. E ainda darei aula, hoje. Mas estou me sentindo melhor (passei o fim de semana meio adoentada) e com muita alegria por ter cumprido meus prazos. E por ter internet, ora viva!

Sunday, June 21, 2009

Horóscopo

Acordo e leio o jornal (isso quer dizer: leio o horóscopo) que me aconselha a olhar alguma bela paisagem. E lá começo eu o dia, pensando o que devo privilegiar? Contemplarei o mar ou a montanha? A Lagoa, talvez? Uma floresta urbana? Que sorte a minha viver numa cidade de tantas belezas, onde se torna difícil escolher para que lado me voltar, quando me recomendam olhar uma bela paisagem. De acordo com minha preferência habitual, corro a olhar o mar, que hoje se funde com o céu numa comunhão mítica, geradora de vida. Adoro quando a linha do horizonte se desfaz nesta imprecisão de contornos e nos deixa vivendo num mundo em que tudo se torna possível. É possível que eu hoje tenha um dia produtivo, mas meus planos são outros. Quero ir ao cinema. Quero ir a dois cinemas e a um teatro. Tenho ingresso para um concerto, mas acho que vou faltar. No entanto, me lembro que o horóscopo me avisa: não deixe de escutar boa música. Começo a duvidar de mim mesma. Será possível que essas recomendações sejam tão precisas? E, ao serem precisas, serão necessárias? Rebelo-me. Hoje quero ter a liberdade de sonhar, de fazer as coisas que decidir no último momento, sem planejamentos. No entanto, olhos as ilhas que enfeitam minha nesguinha de mar, como a me relembrar que os limites estão ali, embora eu não os veja. Decido que ainda é muito cedo para decidir. Talvez eu saia agora, para usufruir o mar, tão próximo, mas o mais provável é ficar por aqui, tentar colocar em dia a correspondência e os trabalhos. A leitura nunca ficará em dia, já sei. Mas sei que irei ao cinema, atrás de alguma ilusão romântica. E talvez vá ao concerto. Afinal, adoro música. Só me entristece é a Sala Cecília Meirelles, que tem me parecido escura e triste.
Peço desculpa ao Guilherme, que me mandou uma tarefa e ainda não consegui cumprir: mescla de internet pisca-pisca e preguiça. Mas irei sonhar com você, em breve. Peço desculpa a Cris, e a todos os amigos que tenho deixado sem resposta, mas é que tem sido mesmo difícil fazer alguma coisa com essas limitações tecnológicas e mais uma cirurgia dentária e um inexplicável mal-estar (talvez do antiinflamatório?) que tem drenado minhas energias. Hoje tenho internet, mas tenho também o horóscopo que me dá olhos para ver e ouvidos para ouvir. Então, com sua licença, meus amigos, mergulho meus olhos no mar e aguardo o momento de submergir nas ondas sonoras. Ciao.

Friday, June 12, 2009

Espaço aberto - Literatura

Acabo de me assistir na TV – Que experiência mais estranha! O que valeu é que o programa ficou mesmo muito legal, com uma edição onde os textos de Borges, com a leitura do sempre grande Othon Bastos (meu eterno Paulo Honório, do filme São Bernardo) e as imagens do autor tão bem escolhidas, valorizaram os comentários que fizemos a respeito de seus textos. Fico pensando em como a TV é impactante: falamos de Borges e, como por um milagre, ele apareceu ali entre nossas falas, corroborou o que dissemos, dialogou conosco. O que eu gostaria é saber que alguém, por virtude de assistir esse programa, se sinta tentado a ler algum conto de Borges, algum de seus poemas, ou ler suas entrevistas, sempre tão finamente irônicas e inteligentes. Ou ler seus ensaios, cuja concisão nos deixa enganosamente levados a pensar que são textos simples, fáceis de preparar. Me lembro de uma aula que tive em Yale, com a professora Shoshana Felman. Era um Faculty Seminar, o que quer dizer que era aula para professores, e era uma grande honra para mim ter permissão de assistir as sessões com chefes de departamento, juízes da Suprema Corte, e especialistas nas diversas áreas que tinham a ver com a pesquisa dela na época, que era a questão de testemunhar (witnessing) e de prestar testemunho (testimony), em situações ligadas ao Trauma. A cada semana tínhamos uma leitura prévia, que preparávamos e debatíamos em sala de aula. Os textos podiam ser capítulos ou livros inteiros. No caso em questão, a leitura era apenas um conto de Borges. El testigo. Apenas uma página. Nem sequer uma página completa, dois parágrafos, quase nada. Negligenciamos a leitura. Lemos,é verdade, mas fizemos uma leitura rápida, lemos sem nos deter. Nenhum de nós preparou o texto com a devida atenção. Em menos de dois minutos ela percebeu que não tínhamos dado ao texto o mesmo cuidado que havíamos dado a outros que, pela extensão, nos pareciam muito mais complexos. Ela foi de um a um, e todos foram se calando. E ela, como Júpiter, revelou-se em toda sua ira, mostrou que tínhamos sido omissos e preconceituosos e que, com isso, tínhamos perdido a chance de ter uma aula brilhante (como eram todas as aulas dela, extraordinárias!) Até hoje, pelo menos uma vez por ano releio El testigo. É uma lição de humildade que me dou. Leio como penitência, procurando sozinha o que poderia ter encontrado através da experiência de um grupo tão especial como aquele. E penso no privilégio que tive de, por uns poucos anos, conviver com pessoas que realmente fazem a diferença na maneira em que podemos compreender o mundo. E, cada vez que leio aqueles dois parágrafos, percebo a lição extraordinária do valor de cada um de nós. Todo o sentido da vida parece estar contido naquele pequeno texto.