Sunday, July 29, 2007

Spinning em Dallas

Uau! Primeira vez numa aula de spinning, e logo aqui, numa língua estranha. Porque não adianta saber falar inglês, o inglês de academia de ginástica é um dialeto só para iniciados. Mas a gente pega logo, olhando para os lados e vendo o que os outros estão fazendo, aparentemente com a maior facilidade e com muita graça. Só eu que parecia sentir a hostilidade da bicicleta de spinning, que se revoltava contra meu declarado sedentarismo e tentava torcer meus tornozelos e quebrar minhas pernas, sempre que eu me atrevia a copiar a leveza dos companheiros de classe, que se levantavam dos assentos, pedalavam em pé, ou deitados sobre o volante, todos eles suando, mas parecendo dançar sobre os selins. Eu nem sequer conseguia respirar -- respirar e pedalar é mais difícil que assobiar e chupar cana! O assento, apesar de protegido por uma capinha de gel, doía em todos os lugares em que tocava o meu corpo, e eu ficava pensando, distraída: como será que os homens conseguem pedalar? O que será que eles fazem para não se machucar? Ou então, olhava para os vídeos que estavam sendo exibidos: Giro d'Italia. Centenas de pessoas pedalando, subindo e descendo montanhas e uma multidão, que certamente já participou de uma aula de spinning, acompanhando, correndo ao lado dos atletas, incentivando-os. Eu precisava daquele incentivo. Olhava para os rostos animados da torcida e dava ainda mais uma pedalada, embora minhas coxas já estivessem parecendo feitas de uma massa sem músculos nem ossos, só nervos estirados. Ao final de cinqüenta minutos, eu já não podia mais, mas a classe, desfeita em suor, continuava subindo montanhas virtuais, materializadas com simples torções de botões. Parei. Enxuguei as duas únicas gotas de suor que tinha conseguido expremer de meu corpo, e obriguei minhas pernas a me levarem para longe dali, para uma poltrona confortável onde pudesse acomodar meu dolorido assento e ler. Fiquei me recompondo uma hora inteirinha, o que me permitiu ler duas revistas de fofocas e me informar sobre a vida feliz e produtiva que a Katie, mulher do Tom Cruise, está levando com a filha Suri. E sobre a outra, cujo nome esqueci, que agora carrega um bracelete que analisa o seu suor e avisa da presença de álcool em seu organismo ( será que ela bebe sem perceber, e precisa de ser avisada?). Também soube que uma fulana já perdeu não sei quantos quilos depois da gravidez. Que a Julia Roberts saiu para comprar livros infantis dois meses após ter seu terceiro filho (ou filha, em inglês não dá para saber). E ainda que uma apresentadora de TV é muito mais feliz com sua obesidade -- já está usando tamanho 20, o que deve ser equivalente a manequim 58, no Brasil, calculo eu.
Pois, é. Lembrei que, nos vídeos do Giro d'Italia, as pistas estavam cheias de cartazes com anúncios de sorvetes, refrigerantes, pães e massas... O que será que importa mais para aqueles atletas? O exercício ou a permissão para atacar todas as gulodices do mundo? Já estava na hora do almoço. Na lanchonete do Spa, diversas pessoas comiam sanduíches e engoliam litros de refrigerantes. Fiquei com medo de tanta mastigação, e vim para casa ruminar...

Wednesday, July 25, 2007

Questionário para comemorar o dia do escritor.

Esse negócio de dia sempre me grila. Me lembro da música: todo dia era dia de índio... Agora para lembrarmo-ns deles, é só no 19 de abril. Espero que esse negócio de dia do Escritor não indique que estamos em extinção. Meu amigo/irmão em SESC me passou esse questionário, que vai rolando pelos blogs. Vejam no site dele o que ele respondeu (André de Leones)
Eu respondo aqui:
1. Que livro você está lendo?
O cavalo perdido e outras histórias de Felisberto Hernández
2. Lembra do seu primeiro livro?
Não. Só me lembro de uma cartilha onde aprendi a ler. No dia que me dei conta que já sabia ler, fui contar para a minha avó, que achou que eu tinha decorado a história. Quando ela percebeu que eu sabia ler mesmo, fez a maior festa.
3. No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?
Leio pelo menos quatro, ou seja, um por semana. Mas, quando o livro é fininho, leio mais de um por semana. Li o livro da Carola Saavedra e o da Verônica Stigger cada um numa tarde. Mas demorei uns dois ou três dias para ler o do Ian McEwan, Na praia.
4. Você tem um gênero favorito? Qual?
Todos. Só não gosto de auto-ajuda. Mas leio até livros científicos, tipo aquele do Hawkings. Acho que a preferência depende do dia, da situação e da motivação.
5. Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como "seres superiores" por alguns leitores. Você em ídolos escritores? Quais?
Na verdade, todos os escritores que admiro muito tiveram vidas muito chatas .Vejam, por exemplo, Proust. O cara nunca fez nada de interessante na vida, mas observou o que os outros faziam e isso lhe deu assunto para preencher os anos que passou de cama, doente, escrevendo. Virginia Woolf era doida de carteirinha, Clarice também era meio complicada. Drummond e Machado eram dois funcionários públicos certinhos. Se eu tivesse que admirá-los pelo que foram, não ia ter por onde. Mas o que eles escreveram...Prefiro ter como ídolos alguns personagens. Teve uma época que eu queria ser a Sanseverina, prá citar uma preferência adolescente.
6. Você distingue o escritor pelo gênero -- poesia, conto, romance, etc -- ou acredita que escritor é escritor e ponto.
Escritor é escritor e ponto. Mas alguns se dão melhor em alguns gêneros...
7. A internet pode se transformar em uma ameaça para a leitura de livros?
Tadinha da internet... Tão doidos prá botar alguma culpa nela. Ela ameaça a leitura, estimula a pornografia, aumenta o desemprego, dá unha encravada. Mas ela é uma ferramenta sem a qual já não sabemos mais viver. Adoro internet.
8. Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?
Por decreto, para ser bem rápido!
9. José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre os seus valores, ou pode mudar de opinião?
Quando a gente não consegue mais aceitar as coisas novas e as mudanças é sinal de que começou a se anquilosar a a envelhecer. O cérebro vivo está sempre aprendendo e mudando, fazendo novas analogias. Não pode continuar sempre parado na mesma opinião. Já valores são coisas diferentes: têm a ver com a ética. Podemos "estar"comunistas, mas temos que "ser" honestos.
10. Uma frase para o Dia do Escritor:
Leia um livro!

Bem. É isso. Espero que minhas respostas não tenham matado os leitores de tédio.

Friday, July 20, 2007

Putz Grila!

Mutatis Mutantes...

Eu sei que a expressão é mutatis mutandis, mas quis fazer um trocadilho. Adoro trocadilho, devem ser aqueles anos todos que passei estudando Derrida e Lacan. Estudei, estudei, e tudo o que consegui guardar foi o gosto pelos trocadilhos. De Lacan fiquei com muita inveja: ele era genial. Ao Derrida fiquei indiferente. Acho que não entendi nada do que li.
Mas, depois de tanta digressão, volto aos Mutantes: eu sempre adorei esse grupo e nada pode me deixar mais contente do que essa comparação Rita Lee e os mutantes /Lucia Li e os inventantes...
Ando meio desligada... Fiz dessa frase meu leitmotif. Sempre andei meio desligada, foi uma maneira de me proteger. Como estar sempre ligada -- e sempre sofrendo? Porque há sempre uma porção de razões para sofrer, quando a gente se liga. E basta ligar a tv para começar o martírio. Quem não sofreu com esse acidente terrível, com jeitinho de atentado? Que horror, um inferno se instalando ali, do outro lado da rua, do outro lado da tela, e a gente olhando, sem poder fazer nada?
Um dos meus queridos inventantes, o Henrique, mandou um emocionado poema sobre esse desastre. Estou copiando abaixo, leiam e confiram.
De resto, vou mudar de lugar por uns tempos. Lá vou eu de novo para Dallas. Escrevo de lá.

CHÃO DE ÍCARO

E subiram sobre a largura da terra,
e cercaram o arraial dos santos e a cidade querida;
mas desceu fogo do céu, e os devorou. (Apocalipse 20:9)

Eu mergulhei na noite e suas sendas trespassadas,
Com a sensação da liberdade sobre os meus martírios.
E tudo o quanto já nos coube nas vivências terrenas
Rendeu-se à travessia vitoriosa para além destes domínios.

Daí que os céus sucumbiram ao clamor da minha angústia
E conquistei-os como um bardo que entoa docemente o seu canto
Tendo a sedução insidiosa com seus sorrisos de lírios.

Abandonei a lua – tão tímida e opaca –, outrora metafórica,
Ao mesmo tempo em que soube das estrelas todas mortas.
E então que essa soberba aniquilou meus infinitos
Enquanto a nódoa mitigava qualquer perfeição dos sonhos.

Porém, no claustro ardeu o grito denso das fatalidades
Por meio de um véu espesso, oriundo da madrugada,
Que me lembrou o peso espesso dessas mãos de chagas.

As vestes nuas sobre o céu cobriram o instantâneo,
Num grunhido de fantasmagoria sobre o jardim esquecido
(À revelia da inocência silenciosa daquelas pétalas,
Em cuja fronte jamais repousaria novamente o orvalho.)

Perdi o vão do tempo e a largura absurda dos espaços:
Na ostentação viril de suplantar o céu longínquo,
Sequer notei que a chuva demasiado fria dessa noite
No espanto desordenado queimou todas as nossas asas.

Tuesday, July 17, 2007

Vã guarda

Gente, será que virei vã guarda?
Nunca esteve nos meus planos sair na frente, agitando bandeiras, como a Marianne (aquela que é símbolo da República Frencesa). Mas, de repente, não mais que de repente, estou aqui como signatária do manifesto 00.
Para vocês saberem do que se trata, leiam abaixo. E riam, pois acho que é o único remédio.

MANIFESTO 00

A literatura nos une. O humor nos desune.

Todas as vozes. Todas as particularidades. Todos os estilos. Todas as ausências de estilos. Somos o que nos falta. Somos o que falta ao outro. Somos o que falta à falta.

Abaixo os manifestos.

Pela despapelização das idéias e pela idealização dos papéis

Não julgue o poeta pela métrica ou pela ausência de métrica.

Pelo silêncio que antecedeu o Big Bang.

Abaixo os romances narrados e/ou protagonizados por répteis, aves, cães, padres, poetas, assassinos em série e afins.

Vá às escolas e fale sobre livros e autores; aprenda e seja apreendido.

Deus não existe.

O futuro a Deus pertence. O futuro, adeus.

Trate o leitor com respeito suficiente para não subestimá-lo – ou superestimá-lo.

Não trate a imprensa com condescendência. Não aceite ser tratado com condescendência pela imprensa.

Incorpore a merda e o sangue derramados. Mas com amplos significados, é claro. E com sutileza, por favor.

Não critique quem aceitar trabalhos sob encomenda.

Aceite encomendas e torne-as algo seu.

Abaixo os bons sentimentos. Bons sentimentos causam câncer.

Abaixo as boas intenções. Boas intenções causam câncer.

A boa literatura é amoral. E o bom escritor, imoral.

Não menospreze qualquer vencedor de concurso, ainda mais se você tiver participado – e perdido.

Não supervalorize qualquer vencedor de concurso, ainda mais se você tiver participado – e vencido.

Em literatura, o acaso não existe. Você descobrirá isso um dia, por acaso.

Chame as coisas pelos nomes. Especialmente quando tratar de sexo.

Abaixo toda e qualquer metafísica.

Contra a metaforização excessiva.

Realidade: menos metafórica, mais metadêntrica.

Abaixo os nefelibatas alcoólicos, os crentes de uma suposta superioridade dos escrevinhadores e literatos, os que se fiam em transes e inspirações divinas ou demoníacas ou lisérgicas ou político-partidárias.

O diabo não existe. Karl Marx está morto.

Não à demagogia travestida de "consciência social", à incivilidade, à barbárie travestida de "contestação", ao movimento dos não-alinhados, aos suicidas frustrados, à invasão das salsichas gigantes, à terceira via, às balas perdidas, à literatura engajada.

Não a quaisquer bairrismos.

Unamo-nos todos na suruba dos diametralmente opostos.


Por ANDRÉ DE LEONES, HENRIQUE RODRIGUES, VANDRÉ ABREU, LÚCIA BETTENCOURT e WESLEY PERES.


Sunday, July 08, 2007

Saudades e saudações

A FLIP acaba hoje, e eu não estive lá. Não ouvi as palestras, não participei das rodinhas de conversa fiada nas filas (tão longas) dos bares e restaurantes. Não exercitei meu voyerismo e minha curiosidade espreitando os autores mais queridos e os mais badalados. Mas sei que meus amigos vão me contar coisas quando voltarem. E, pela minha experiência, as coisas contadas são inevitavelmente mais saborosas do que as coisas vividas. Um bom contador de histórias não precisa mentir para fazer suas experiências reluzirem no texto: é só saber escolher (editar) alguns aspectos e vesti-los com as palavras corretas. Tcharã! Cinderela virou princesa. É simples assim. Já um não-contador de histórias não consegue editar nada, daí que seus relatos são sempre longos demais. E ele, ou ela, se perdem em risadas provocadas pela sua experiência, que não conseguem transmitir, repetem: "você precisava estar lá", ou então, "só vendo pra entender", ou ainda o pior de todos, "não dá para explicar". Enchem nossos ouvidos com desimportâncias, choram e se indignam com fatos que ficam sem sustentação, e partem, nos deixando cheios de fragmentos.

A última vez que estive na FLIP foi há dois anos, com o Guilherme. Encontramos muita gente querida, e outra gente que se tornou querida por lá. Passeamos pelas ruas da cidade com aquele jeito de turistas com um propósito, e fomos a todos os lugares recomendados, nos deixamos seduzir por todas as exposições, paramos em frente aos camelôs que nos maravilharam com suas artesanias e seus bonecos contadores de histórias. Chovia, e nós saltavamos as poças que se criavam entre as pedras irregulares da rua. Às vezes não havia como escapar da lama, que se tornava uma lagoa, mas nós olhávamos os cachos floridíssimos dos buganviles e esquecíamos os pés molhados. Acho que estou evitando voltar a Paraty para não substituir essas lembranças.

Passei uma semana muito ocupada, mas continuo as leituras. Vou devagar e sempre na Nadine Gordimer (The House Gun), livro denso. Fui de um só fôlego na Verônica Stigger, a promissora. Já tinha lido Toda terça, da Carola Saavedra. Agora me deu vontade de ler toda essa galera, inclusive o Galera, de quem já li Mãos de Cavalo. Quero conhecer o jacaré do Mastigando humanos, quero ler alguma coisa além das reclamações de Berlim da Cecília. Mas preciso de arranjar tempo para isso. Estou na fase final da obra, meio que paralisada com a mudança (ô que coisa mais amendrontadora, meu Deus!) e com um conto começado pelo qual estou particularmente fascinada. Chama-se Nove sultanas. Não é lindo o nome? Pois é. Quero lê-los, mas isso não quer dizer que eu os admire. Mas quero entendê-los, ou malentendê-los, antes de falar neles.

Despeço-me com um poema.

Caneta tinteiro

Uso minha caneta tinteiro

como se fosse um falo.

Acaricio, aperto, estreito,

não deixo que desfaleça

antes que em minhas mãos estremeça

e seu espesso sumo exploda sobre o papel:

estrela, gota, poema

É meu, apesar de eu sempre dizer que não escrevo a mão. Mas, na verdade, tenho um verdadeiro fetiche por canetas, lápis, lapiseiras e todas essas coisas de papelaria. E por hoje é só.

Sunday, July 01, 2007

De viagens e resenhas

Viajei. Fui para Vitória, e conheci gente muito legal. Palestrei, ouvi palestras, bati-papo com gente bamba. Só que, sempre que viajo, meu computador parece que fica com ciúmes e dá tilt. Desta vez, cheguei e ele não queria mais se conectar com a Internet.
Agora ele voltou, que bom, que não sei mais viver sem este vício.
Em Vitória, falei sobre essa nova ferramenta (ferramenta? uma coisa tão sutil, tão diferente dos camartelos parnasianos, como posso chamar meu computador de ferramenta?) e de como essa invenção facilitou a minha escrita. Adoro escrever na frente da telinha. Adoro preparar aulas na frente da telinha. Resenhar, nem se fala. Pesquiso, abro páginas, vejo o que há de novidade por aí. Leio esses blogs literários que são ótimos e variados, vejo fotos...
Amanhã e depois estarei no SESC, ali no Flamengo, escutando as boas falas dos amigos e reencontrando um pessoal que adorei conhecer nas viagens pelo Brasil. Vou encontrar também o pessoal da Editora, com quem já não encontro desde o final do ano passado. Vou estar com o Mussa e o Antônio Torres, vou estar com o Wesley e o Nereu, os novos vencedores do prêmio SESC. Vou estar com o pessoal do SESC de Pernambuco, de Manaus, do Paraná, do Rio Grande do Sul e do Espírito Santo.
Há um ano atrás eu estava lá na ABL, olhando pela primeira vez meu livro (enquanto objeto) e muito atordoada para poder saborear melhor o momento. Amigos e família estavam presentes, me acarinhando, e eu agradeço muito, embora no dia eu só tivesse a aguda sensação da falta do Guilherme. Esse livro e suas badalações me ajudaram a suportar esse ano. Esse prêmio me abriu uma porta na frente da qual eu hesitava: a publicação. Ano que vem sai meu novo livro de contos: Linha de sombra, também pela Record. Enquanto espero, uma ou outra coisa que escrevo tem sido publicada. Dois contos e três resenhas. E aqui no blog vou publicando um ou outro poema.
E é isso.
Volto quando o computador me permitir.

Sunday, June 17, 2007

Dias nublados

Domingo de preguiças e lembranças... Há dias que a gente acorda assim, devagar, se deixando ficar um pouco mais entre os lençóis, e depois saindo da cama arrastando chinelos, cabelos sem pentear, com preguiça de ler as mesmas notícias dos jornais. Depois fica procurando o que fazer entre as páginas de algum livro, mas a cabeça parte em devaneios, inquieta. Cada frase, cada letra é um desvio. Lembramo-nos de músicas antigas, italianas, com suas exageradas declarações de amor - coisa de cantores como o Wando, que está em alta, depois de ter seu dito machista repercutido em todos os jornais. Acho a ministra um horror, seu "relaxa e goza" pior ainda, mas acho infinitamente mais pobre essa reação que as pessoas ainda admiram no Brasil - uma tirada machista. O Wando vai me perdoar, mas duvido que ele conheça alguma bem-amada, pois amante machista não sabe amar bem. Como é que se ama? Quando é que se ama? Quem sou eu para responder essas questões transcendentais, que todos os dias me assombram! Vivo formulando perguntas, tenho a sensação de que sou habitante de uma charada. O mundo é tão cheio de enigmas! E eu me pergunto, mas nem sequer espero pela resposta, vou logo perguntando outra coisa, e mais outra, e ainda outra... E, no entanto, sou daquelas que acreditam em muitas "certezas". Vivo tendo pequenas epifanias que se esvaem tão logo eu tente formular em palavras essas visitas do espírito (santo?) São sensações, de repente todo o mundo faz sentido e me perpassa. Se tivesse à mão meu livro de Drummond, transcreveria A máquina do mundo. Por um breve instante nos é dado vislumbrar o funcionamento dessa máquina. Por uma instantânea eternidade visitamos o Aleph. E depois, continuamos, para o final trágico, edipiano. Nada do que Freud ensina como edipiano, antes com a idéia de destino, de nosso inevitável destino. E daí, num salto epistemológico permitido nos domingos nublados, saltamos ao Egito e à bela deusa Nut, com suas asas douradas abertas sobre nós. Pena que eu seja tão despreparada e preguiçosa, se não colocaria aqui uma imagem da deusa, como ela aparece em alguns sarcófagos: Sobre a cabeça e entre as pernas um disco, representação do sol, nascendo e se pondo, no eterno retorno, apogeu e ocaso, voltando para o mesmo útero e recriando-se de novo.
Agora me pergunto: como foi que cheguei até aqui? Quando tudo o que queria era agradecer os comentários e o carinho da EZ e da VH?
Antes de me despedir, só mais uma coisa: estou encantada com a idéia de energia. É, energia, coisa que eu nem sei explicar direito, mas que os cientistas vivem esmiuçando: energia, que, segundo entendi, é imortal. Se é imortal, e nós somos feitos de energia, só preciso de mais uma epifaniazinha para compreender como recuperar a forma que essa energia adotou um dia.
Acho que era mais simples quando eu ficava sonhadoramente repetindo que somos "poeira de estrelas"... E somos! E convido a todos a ler Calvino.

Saturday, June 16, 2007

Ne me quitte pas

Estou com saudades de meus leitores. Andei pensando em dois blogueiros que de vez em quando me visitavam, e que eu visitava de volta, para minha alegria. Por onde andas, helderpoeta, dos belos versos e de um bom gosto incrível para escolher ilustrações para seus posts. E você, Wagner, tão delicado, que volta e meia me deixava uma mensagem pequenina, só anunciando sua visita? Onde anda Daniela Mendes com seu talento, seus contos e insights sempre interessantes e surpreendentes? Por onde anda Vera Helena, sábia e perspicaz? Por onde anda o Amauri dono de palavras gentis? E a Thalita e seus sonhos? Por onde andam os comentários do enigmático Desejo, solto, sem rosto nem nome, um legítimo filho de Vênus? E Berthe, nom de plume de uma amiga de sorriso amplo e idéias grandiosas? E aqueles de visitas únicas, que nunca mais voltaram? Por que partiram?
Não seria bom se os blogs tivessem identificador de chamadas e a gente pudesse, nos agudos ataques de solidão, lançar apelos a todos os que, um dia, tiveram a curiosidade de nos ler? Outros passaram pelos posts do nadanonada, e, tímidos ou desdenhosos, não deixaram rastros. Outros, amigos, mandaram comentários pelo e-mail pessoal da autora. Outros amigos visitam sempre: meu mano mentor André de Leones, com seu canissapiens que já se profissionalizou nos blogs e noutras literaturas. Outros enrolados com teses e prêmios, andam sumidos, como o Wesley. Estou com saudades desta turma, ne me quittez pas! Quem lembra desta música, lamento tão triste, um atrás da porta francês?

Wednesday, June 13, 2007

Ítaca

Há um pequeno livro de poemas no mercado que parece uma jóia preciosa: Poemas, de Konstantinos Kaváfis, publicado pela José Olympio. O tradutor é José Paulo Paes, que faz uma longa apresentação. O poeta é ótimo. Quem gosta de poesia e ainda não o conhece, tem que correr "em busca do tempo perdido". Como estou dirigindo um grupo de estudos que está examinando A Odisséia, fui checar o poema Ítaca, na tradução acima e na de Marguerite Yourcenar, ambas excelentes, só que a da MY é em prosa.
De presente para meus leitores, transcrevo Ítaca, pois o que é belo tem que ser compartilhado.

Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
As muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar,
mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho,
mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Ave Sangria

Li uma entrevista de Marco Polo Guimarães no site Interpoética e adorei. Primeiro porque fiquei conhecendo um pouquinho mais este amigo que conheci há um ano apenas, e a quem vi apenas duas vezes, e no entanto, estimo como se fosse uma "estrela da vida inteira". Não vou dizer mais nada sobre ele. Leiam lá no site a entrevista, e vejam que pessoa mais interessante e que excelente poeta ele é. Mas vou perguntar se alguém aí no espaço tem as músicas do Ave Sangria, grupo do qual ele foi o vocalista. Fiquei morrendo de vontade de escutar esses roqueiros arretados portadores de peixeira, irreverentes seixos rolados nordestinos que ousaram desafiar os cabras da peste. Queria colocar aqui um retrato do grupo, que achei na net, mas não soube reduzir o tamanho da foto. Ah, como me identifico com Macunaíma! Sei que posso aprender, mas digo, ai, que preguiça, e deixo para depois. Então, aqui vai o blog sem foto, mas quem quiser conhecer os meninos, é só googlar, que eles têm página. E feliz dia de Santo Antônio para todos!

Friday, June 01, 2007

Um pouco de poesia

Há quanto tempo não venho aqui! Quanta saudade de jogar conversa no cyber espaço, para ver quem é que me escuta...
Há muito tempo que não coloco nada literário aqui neste blog, porisso hoje vamos de poesia, para começar bem este mês de junho.

Vênus

O olhar de tranqüila indiferença

o sorriso levemente zombeteiro

entre as espumas do mar

Uma cabeleira

de algas douradas

pernas esguias

quase enguias

sobre uma concha

talvez algumas flores

ou dedos feito anêmonas

sublinhem

a beleza de quem

desconhece o belo

o olhar

tranqüilamente

indiferente

e o sorriso

abertamente

zombeteiro

cabelos

membros

espumas fúteis

beleza

na sinuosidade

da concha

Saturday, May 19, 2007

Paris, Texas....

Pois é. Quem se lembra do filme? Mas não vou falar sobre ele, e sim sobre essa minha divisão entre Paris, Texas e Rio de Janeiro. Só comecei a gostar de Paris depois que o Guilherme me ensinou a amar a cidade. Antes eu via Paris sob uma lente cinzenta, hostil. Foi o Guilherme quem me levou para lá nos dias de sol, quem me fez ver a beleza da cidade e de suas flores, quem me revelou seus encantos. Paris e seus vitrais, a luz filtrada invadindo igrejas. Paris e seus espelhos, onde todos nos sentimos mais belos. Paris e suas canções, embalando sonhos e realidades.
Texas, será que algum dia vou aprender a amar suas imensidões? As dimensões das coisas aqui parecem fantásticas, desproporcionais para a minha vida, tão pequenina... As notícias da TV mostram o muro que estão construindo, numa tentativa de separarem-se do México. Texas, que já pertenceu ao México, e que agora vira as costas a essa origem. Será que o muro vai adiantar alguma coisa? Será que as leis contra imigração, vão surtir algum resultado positivo? Porque negativo acho que já começaram a ter: separação, dissenção, estranhamento. Cidades que não mais permitem que as suas casas sejam alugadas a imigrantes... Uma xenofobia inquietante.
Rio de Janeiro, com sua beleza desmazelada, seu trânsito insuportável, cujo jeito acolhedor só sobrevive nas lembranças de quem já viveu um pouco. Agora só tiroteios, balas perdidas (ou encontradas por quem não devia), desencanto. Acho que um muro invisível foi sendo construído ao longo dos anos e, como um cancer, foi destruindo a cidade. Agora já não sabemos mais onde começar a endireitar as coisas. Mas, é só olhar para os contornos da cidade para sabermos que ainda é possível mudar nosso olhar, tal como o meu mudou com relação a Paris. Há, no Rio, muito a ser resgatado.

Friday, May 18, 2007

Allen, Texas

Estava no no blog do André de Leones, um canis sapiens de cara nova. Muito bem organizado, cheinho de coisas boas, parecendo ovo de Páscoa recheado. Fiquei com vontade de fazer um diário de viagem meu, também. Falar sobre o lugar onde estou: Allen, ao lado de Dallas, no coração do estado do Texas. Ninguém tinha ouvido falar de Allen antes porque a cidade simplesmente não existia. É uma coisa americana, um dia, ranchos, no dia seguinte, buldozers, caminhões, mexicanos por toda a parte construindo uma cidade que, no sexto dia fica pronta para que todos possam ir às descomunais igrejas no sétimo.
Não sei sobre o que falar primeiro: o tamanho das Igrejas, por exemplo, é coisa digna de nota. São tão grandes, que parecem estádios. Os estacionamentos são divididos em setores, os edifícios têm uma ordem de ocupação, pessoas que se dedicam a orientar os frequentadores, day-care para crianças pequenas, fábricas de hóstias, achados e perdidos, tudo o que se possa imaginar. Padres, músicos, administradores, eletricistas, marceneiros, são tantas as pessoas que dependem da Igreja (das igrejas, porque são inúmeras) que a gente se admira de tanta fé.
A fé remove montanhas, diz o ditado. Aqui à volta, como não há montanhas para remover, acho que a fé se dedica a construir casas e auto-estradas. Já falei antes, mas volto a repetir: auto- estradas com diversos andares -- no caso, cinco. Só vendo para ter uma idéia do que seja uma rampa de acesso numa dessas auto-estradas. É de dar medo nos dias de mais vento.
As casa, todas enormes, são uma representação de um paraíso socialista: todas iguais. Todas têm as mesmas cores ( ou falta de cores) tons de terra e pedra, acinzentadas. Neste clima seco, os novos habitantes se preocupam em modificar a paisagem, criando lagos. Lagos e mais lagos, lagos em todos os condomínios, com fontes e repuxos, patos, cisnes, gansos. Tudo isso rodeado de gramados e de árvores, que são vendidas em imensos tonéis, já crescidas, pois quem é que tem tempo para ver uma árvore crescer?
Ao contrério do que se faz aí na minha terra, há previsão para tudo. As estradas são largas, com várias pistas de ida e volta, e uma separação no meio que dá para, no futuro, se necessário, aumentar mais umas oito pistas. Tudo é extravagante. O centro cultural que só vai ficar pronto daqui a dois anos, (com suas estradas, estacionamentos, jardins, etc.) já tem a sua própria orquestra. Os músicos foram selecionados, já estão ensaiando, fazem apresentações para, quando o dia chegar, já ser conhecida como uma grande orquestra. Não me admiro nada se já estiverem providenciando gravações de cds e dvds.
Por falar em dvd, provavelmente todo o mundo já sabe, menos eu, porém existe um novo tipo de dvd, com altíssima definição, imagens espetaculares. Qualquer dia ninguém vai suportar olhar a realidade. Tudo vai ficar muito blah, sem alta-definição.
Porém, numa única coisa ainda somos melhores: nossa rede de telefonia celular funciona melhor que a deles. Pelo menos por enquanto...

Monday, May 14, 2007

Em busca do tempo perdido

Sim, por onde andei todo este tempo?
Andei por obras, casas de material de construção, ruínas de apartamento, projetos de banheiro e cozinha...
Hoje, quando me apercebi, vi que estava muito atrasada, sem postar nada há mais de uma semana. O triste é que ninguém reclamou. E aí, dezessete leitores? Eu sumo e vocês não dizem nada?
Hoje li uma coisa que me deixou rindo até agora: Meu irmão em SESC, o André, está escrevendo um romance para o projeto Amores Expressos. Não sei se posso cometer essa inconfidência, mas como é um pedacinho mínimo da história, acho que ele vai me desculpar se eu contar aqui o que me deixou com o riso inextinguível dos deuses. Ele compôs uma cena de sexo entre dois septuagenários, mas isso não tem nada de engraçado. O amor e o sexo não têm idade, ele pode nem saber disso, mas um dia ele chega lá e descobre. O engraçado é que o homem é viúvo e a amante, ao ir para a casa dele, pensa que poderia até encontrar a defunta sentada na biblioteca, lendo Em busca do tempo perdido, com o ar exausto de quem já está cansada de ser eterna...
Bem, depois volto a isso. Ler ou não ler Proust, eis a questão...

Sunday, May 06, 2007

Falta de vontade...

Isso, para não dizer preguiça. Fim de semana com muita movimentação. Casamento, numa tarde linda, num lugar lindo, amigos de tantos anos, roupas, conversas e lembranças. Tudo muito bom. Voltar para casa, com sono, mas já pensando no dia seguinte, e no passeio de bicicleta combinado. Mais um lindo dia, uma voltinha, um almoço em família, tarde de teatro com as crianças, muita zoeira e balas. Tudo muito bom.
Pensar na aula de amanhã, no aniversário da amiga, abrir o correio eletrônico, pensar em escrever, mas com vontade é de terminar o dia vendo TV, na cama, ar condicionado geladinho. E é isso mesmo que vou fazer. Meus amigos que me desculpem, mas nem vou dar a passadinha costumeira nos blogs. Vou fazer a vontade do corpo, que reclama descanso e ficar por aqui.

Wednesday, May 02, 2007

Dia do trabalho

Primeiro de maio, dia do trabalho.
Milhares (milhões?) de cariocas insistindo em levar uma vida normal, vida em que cabem os feriados e as comemorações, os passeios, os restaurantes, a brincadeira com as crianças, a leitura.
Enquanto isso, indiferentes à opinião da população, uma guerra se amplia. Violência, mortes, batalhas que seguem a estratégia alemã das blitzkrieg, ataques relâmpagos e inesperados (!) na cidade sempre de pé atrás. Conversando com uma amiga, outro dia, rimos porque, ao escutarem um estouro na rua as pessoas procuram abrigo, automaticamente, calejadas pelas balas perdidas. Depois, me envergonhei: carioca é assim, acha graça até onde não é para achar.
Lembrei, agora, do excelente romance de Lúcio Cardoso, Crônica da casa assassinada. Até porque encontrei a Norma Benguell, uma Nina inesquecível, na ABL. Pois é. Estamos assistindo à Crônica da cidade assassinada, obra coletiva, e ninguém consegue parar este despropósito.
Mas, maio chegou. É o mês de Maria, mês das mães, quem sabe há alguma esperança?

Sunday, April 29, 2007

Passagem do tempo

Já estamos no final de abril... Abril, o mais cruel dos meses, como disse o poeta. Poetas gostam de classificar. Classificam meses, pessoas, flores e cores. Os leitores, encantados com os epítetos, vão repetindo para sempre as frases melodiosas, sem se perguntar por quê. Outro dia, recebi uma ligação de uma amiga e xará. Indo viajar, ela se deparou com uma paisagem de por-do-sol, onde nuvens róseas se alongavam perto do horizonte. Dias antes, lendo a Odisséia, nós havíamos nos deparado com a Aurora de dedos cor-de-rosa, e eu lhes falei da metáfora da deusa que, ao amanhecer, vem, com seus dedos rosados, levantar o manto que a noite estende sobre o mundo. Todo mundo adorou, lembrou já ter visto nuvens assim. Minha amiga, quando as viu no por-do-sol, me ligou, gentil, como se eu tivesse sido a autora da maravilha que ela estava vendo. Fiquei pensando que as belezas não se concentram apenas nos momentos inaugurais -- os finais também podem ser belos, apesar de sua inevitável melancolia. Não contei para as minhas alunas a parte triste da história de Aurora: ela se apaixonou por um mortal chamado Trítono e, contra todos os deuses, deu a ele o dom da imortalidade e casou-se com ele. Só que esqueceu que precisava dar também o dom da eterna juventude, e é assim que a bela deusa inaugural se encontra casada, para sempre, com um velhinho decrépito, com todas as mazelas da velhice... Ah, os gregos! Tão poéticos e tão sarcásticos. Tudo para eles tinha um outro lado, um castigo pela desmedida... Poesia e pés no chão!
Vamos então olhar a passagem do tempo e aproveitar o que temos agora. Abril pode ter sido o mais cruel dos meses para um poeta mas estes dois últimos dias de abril ainda estão desabrochando, são o nosso presente. Não permitam que o tempo passe desapercebidamente. Quantas vezes nos assustamos, dizendo: Mas já é maio? O que aconteceu com o verão? Já é Natal? Mas ainda ontem estávamos no dia das crianças... Ano novo, de novo?
O tempo passa, sim. E nós passamos com ele, mas nada nos impede de olhar as nuvens, e as flores, e as estrelas, enquanto passamos.

Thursday, April 26, 2007

Recomendações

Estou acompanhando o desenrolar dos "amores expressos" - o controverso projeto de mandar escritores pelo mundo afora para escreverem histórias de amor que poderão ser filmadas e cujo processo de escrita poderá se transformar em documentário. Acompanho porque tem gente que eu conheço (e gente muito legal) envolvida nisso. E também porque me fascina essa "linha de produção", essa "literatura fabril" que vai surgindo nestes projetos editoriais. Tudo se cria e tudo se transforma, como numa empresa.
Passei tantos anos casada com um grande executivo, que julgo reconhecer nestes amores, um projeto de negócio digno de um desses laboratórios universitários. Vejam se não é isso: O projeto é internacional, pois já abre as portas da mídia em outros países -- com isso, o interesse por traduções pode surgir, e o mercado para as histórias se ampliar. Além disso, tudo é aproveitado: Enquanto escrevem suas histórias, os autores mantêm um blog, com seus diários de viagem, suas impressões, e no blog pode ser vendido espaço para propaganda. Eles também carregam suas câmeras e gravadores, e lá vão eles glauberizando sua experiência. Os escritores mais "midiáticos" terão um cinegrafista, pelo que eu entendo, registrando seus processos criativos. As histórias poderão ser transformadas em roteiros e transformadas em curtas. Ou mixadas e transformadas num longa. Se o projeto se sustentar, o "formato" poderá ser vendido para outras editoras, locais ou estrangeiras, que pagarão royalties, tal como a Globo faz com a Endemol (é esse mesmo o nome dos inventores do big brother?) Podem vender documentários separados, fazer uma caixinha para empresas distribuirem como brinde no final do ano, vender conferências em universidades estrangeiras, mil possibilidades. Será que estou viajando? Ou será que é isso mesmo?
De qualquer forma, isso só me interessa porque estou desfrutando do produto: Não só me correspondo com um dos autores, como estou me divertindo com o blog que eles criaram, e que está muito bom, mesmo. Espero que os meus leitores (dezessete?) se animem e visitem o endereço:
www.amoresexpressos.com.br

E depois, comprem os livros. Precisamos aumentar o mercado literário.

Outra recomendação, importantíssima:
Comprem o Rascunho. Aposto que já conhecem o site, mas o jornal em si, bem diagramado, com fotos e desenhos e resenhas interessantes, com páginas bastante para não ser aquela coisa exígua dos cadernos literários perdidos em nossos sábados é uma jóia. Coisa para se ler devagar, saboreando, e para depois recortar e guardar nas pastas sobre nossos escritores prediletos. Fala dos consagrados e dos consagráveis, dos que apenas despontam e dos que fazem sucesso há décadas, e ainda publica textos inéditos, e poemas... Ah, que delícia. Tem até textos polêmicos.
E a assinatura anual é de apenas R$50,00. É menos que um real por semana! Imperdível!

Wednesday, April 25, 2007

Vingança

Madrugada insone dá nisso: assistir filmes antigos na TV.
Peguei esse já começado, não prestei atenção no nome. Mas era com Jeremy Irons e Anette Benning, e fui ficando, vendo a trama se desenrolar. Uma atriz madura, com um casamento "liberal", se apaixona por um rapaz, quase da idade de seu filho. Por sua vez, o rapaz se apaixona por uma jovem aspirante a atriz e deseja usar sua proximidade com a mulher mais velha para promover a jovem. Sofrendo, a mulher percebe que a outra não só se relacionava com o rapaz, mas tinha partido para abocanhar seu marido também. Ela arquiteta uma vingança, mas não contra os dois homens infiéis. Ela se vinga da Outra! Será que só eu acho o filme anti-feminista? Ou minha insatisfação se deve à noite mal dormida?

Sunday, April 22, 2007

Penélope, a impaciente

Talvez Freud tivesse em mente a figura de Penélope, quando emitiu sua famosa pergunta: O que querem as mulheres?
O que queria Penélope? Deixada em Ítaca, com um filho pequeno, sem a paciência e a criatividade de Odisseu, que tanto a reconfortava, teve que aprender a lidar com o sogro e, sobretudo, a sogra, mulher de personalidade forte e dominadora, temida pelo marido. Com a morte desta, e o afastamento de Laertes, ela assume a primeira posição na ilha e torna-se alvo do desejo de inúmeros pretendentes, homens que a cobiçavam pela posição que ela poderia garantir-lhes.
Sua fidelidade a Odisseu foi antes a fidelidade a si mesma, e a seu filho. Os anos se haviam passado, as lembranças de Odisseu se apagavam e se transformavam, conforme o interesse de quem o evocasse.Ninguém mais tinha a certeza de como o homem se comportaria, pois já ninguém se lembrava exatamente de como ele havia se comportado. Euricléia, a ama, Eubeu, o amigo de infância, eram poucos os que ainda se lembravam do antigo rei com benevolência. Penélope já nem lembrava da paciência de Odisseu em torná-la sua, nem do cheiro de seu corpo quando voltava suado das amenas caçadas aos pequenos animais da ilha. A brisa marinha lhe despertava lembranças de jogos à beira mar, quando, após dirigir as escravas nas tarefas de lavagem da roupa, era surpreendida por um marido vigoroso, estimulado pelo sol e pelos banhos de mar. Mas essa lembranças estavam cada vez mais indistintas, e seu corpo cada vez mais silenciado, pela constatação de que, satisfazê-lo, significaria colocar em perigo o futuro de seu único filho. Durante anos Telêmaco foi sua única fonte de carinho. Era ele que compartilhava seu leito, os braços do menino rodeavam-lhe o pescoço quando ela sucumbia às frustrações, e soluçava baixinho, até dormir. O menino assustado sussurava-lhe: não chore, mamãe. E ela, para tranquilizá-lo, engolia as lágrimas e endurecia o coração.
Aos poucos acostumou-se a mandar. Tomou as rédeas da casa, dos campos. Determinava as tarefas e as partilhas, organizou sua casa e começou a sentir o prazer decorrente da autonomia e do cumprimento do dever. Quando os pretendentes começaram a chegar, deixou-se envolver pelos jogos de sedução e conquista, até compreender que casar-se de novo seria abdicar da liberdade que gozava. Utilizou os mesmos jogos para conservar o poder: encorajando a todos, não encorajava a nenhum. As pressões aumentaram, ela encontrou um estratagema: enredou a todos numa teia, ganhando mais três anos de relativo sossego. Quando seu ardil foi descoberto, o filho já estava quase adulto, já tinha chances de se defender a si mesmo. Mas, para sua surpresa, ele parte e ela descobre que as mães são seres tão facilmente descartáveis quanto as recem-casadas. Olha-se no espelho, e vê-se não mais como era, mas como se havia tornado: uma mulher madura, sem muitas ilusões, independente demais numa sociedade que não permitia nem às suas deusas tamanha autonomia. Seu casamento já não frutificaria mais, seria apenas a confirmação da passagem do poder para um estranho. Mas, se ela demorasse mais, sua capitulação seria vã, pois nem sequer conseguiria atrair o novo marido para negociações na cama. Quando seu filho volta, suas esperanças retornam. Ele havia sobrevivido, tinha experimentado as asas, não sucumbiria facilmente às armadilhas. Casar-se significava conseguir um aliado para o filho. E ela anuncia sua resolução de casar com quem melhor manejasse as armas de Odisseu. Um anúncio que não deixa de ser ambíguo.
Para sua surpresa, o velhote alquebrado que acabava de chegar à ilha é o vencedor do torneio, e se revela o próprio Odisseu. Penélope o encara com os olhos da memória, e o vê belo como um deus. Mas logo o sortilégio se desfaz. O homem que retorna ao lar não é o mesmo que partiu. As lembranças de Odisseu não são as suas, eles compartilham muito pouco. Vinte anos se passaram, e eles nem se conhecem mais. Quando Odisseu anuncia que vai partir, a rainha o encara com indiferença e algum alívio. Quando ele embarca e desfralda a vela, manobrando para sair do porto, ela sente alguma ternura. Podia amar o marido ausente, o homem de suas memórias. O que não podia suportar era o homem de carne e osso, com cicatrizes que ela não ajudara a curar e atitudes amorosas que não tinha aprendido com ela.
Podemos não saber o que deseja Penélope. Mas sabemos que ela não deseja Odisseu.