Domingo de preguiças e lembranças... Há dias que a gente acorda assim, devagar, se deixando ficar um pouco mais entre os lençóis, e depois saindo da cama arrastando chinelos, cabelos sem pentear, com preguiça de ler as mesmas notícias dos jornais. Depois fica procurando o que fazer entre as páginas de algum livro, mas a cabeça parte em devaneios, inquieta. Cada frase, cada letra é um desvio. Lembramo-nos de músicas antigas, italianas, com suas exageradas declarações de amor - coisa de cantores como o Wando, que está em alta, depois de ter seu dito machista repercutido em todos os jornais. Acho a ministra um horror, seu "relaxa e goza" pior ainda, mas acho infinitamente mais pobre essa reação que as pessoas ainda admiram no Brasil - uma tirada machista. O Wando vai me perdoar, mas duvido que ele conheça alguma bem-amada, pois amante machista não sabe amar bem. Como é que se ama? Quando é que se ama? Quem sou eu para responder essas questões transcendentais, que todos os dias me assombram! Vivo formulando perguntas, tenho a sensação de que sou habitante de uma charada. O mundo é tão cheio de enigmas! E eu me pergunto, mas nem sequer espero pela resposta, vou logo perguntando outra coisa, e mais outra, e ainda outra... E, no entanto, sou daquelas que acreditam em muitas "certezas". Vivo tendo pequenas epifanias que se esvaem tão logo eu tente formular em palavras essas visitas do espírito (santo?) São sensações, de repente todo o mundo faz sentido e me perpassa. Se tivesse à mão meu livro de Drummond, transcreveria A máquina do mundo. Por um breve instante nos é dado vislumbrar o funcionamento dessa máquina. Por uma instantânea eternidade visitamos o Aleph. E depois, continuamos, para o final trágico, edipiano. Nada do que Freud ensina como edipiano, antes com a idéia de destino, de nosso inevitável destino. E daí, num salto epistemológico permitido nos domingos nublados, saltamos ao Egito e à bela deusa Nut, com suas asas douradas abertas sobre nós. Pena que eu seja tão despreparada e preguiçosa, se não colocaria aqui uma imagem da deusa, como ela aparece em alguns sarcófagos: Sobre a cabeça e entre as pernas um disco, representação do sol, nascendo e se pondo, no eterno retorno, apogeu e ocaso, voltando para o mesmo útero e recriando-se de novo.
Agora me pergunto: como foi que cheguei até aqui? Quando tudo o que queria era agradecer os comentários e o carinho da EZ e da VH?
Antes de me despedir, só mais uma coisa: estou encantada com a idéia de energia. É, energia, coisa que eu nem sei explicar direito, mas que os cientistas vivem esmiuçando: energia, que, segundo entendi, é imortal. Se é imortal, e nós somos feitos de energia, só preciso de mais uma epifaniazinha para compreender como recuperar a forma que essa energia adotou um dia.
Acho que era mais simples quando eu ficava sonhadoramente repetindo que somos "poeira de estrelas"... E somos! E convido a todos a ler Calvino.
Sunday, June 17, 2007
Saturday, June 16, 2007
Ne me quitte pas
Estou com saudades de meus leitores. Andei pensando em dois blogueiros que de vez em quando me visitavam, e que eu visitava de volta, para minha alegria. Por onde andas, helderpoeta, dos belos versos e de um bom gosto incrível para escolher ilustrações para seus posts. E você, Wagner, tão delicado, que volta e meia me deixava uma mensagem pequenina, só anunciando sua visita? Onde anda Daniela Mendes com seu talento, seus contos e insights sempre interessantes e surpreendentes? Por onde anda Vera Helena, sábia e perspicaz? Por onde anda o Amauri dono de palavras gentis? E a Thalita e seus sonhos? Por onde andam os comentários do enigmático Desejo, solto, sem rosto nem nome, um legítimo filho de Vênus? E Berthe, nom de plume de uma amiga de sorriso amplo e idéias grandiosas? E aqueles de visitas únicas, que nunca mais voltaram? Por que partiram?
Não seria bom se os blogs tivessem identificador de chamadas e a gente pudesse, nos agudos ataques de solidão, lançar apelos a todos os que, um dia, tiveram a curiosidade de nos ler? Outros passaram pelos posts do nadanonada, e, tímidos ou desdenhosos, não deixaram rastros. Outros, amigos, mandaram comentários pelo e-mail pessoal da autora. Outros amigos visitam sempre: meu mano mentor André de Leones, com seu canissapiens que já se profissionalizou nos blogs e noutras literaturas. Outros enrolados com teses e prêmios, andam sumidos, como o Wesley. Estou com saudades desta turma, ne me quittez pas! Quem lembra desta música, lamento tão triste, um atrás da porta francês?
Não seria bom se os blogs tivessem identificador de chamadas e a gente pudesse, nos agudos ataques de solidão, lançar apelos a todos os que, um dia, tiveram a curiosidade de nos ler? Outros passaram pelos posts do nadanonada, e, tímidos ou desdenhosos, não deixaram rastros. Outros, amigos, mandaram comentários pelo e-mail pessoal da autora. Outros amigos visitam sempre: meu mano mentor André de Leones, com seu canissapiens que já se profissionalizou nos blogs e noutras literaturas. Outros enrolados com teses e prêmios, andam sumidos, como o Wesley. Estou com saudades desta turma, ne me quittez pas! Quem lembra desta música, lamento tão triste, um atrás da porta francês?
Wednesday, June 13, 2007
Ítaca
Há um pequeno livro de poemas no mercado que parece uma jóia preciosa: Poemas, de Konstantinos Kaváfis, publicado pela José Olympio. O tradutor é José Paulo Paes, que faz uma longa apresentação. O poeta é ótimo. Quem gosta de poesia e ainda não o conhece, tem que correr "em busca do tempo perdido". Como estou dirigindo um grupo de estudos que está examinando A Odisséia, fui checar o poema Ítaca, na tradução acima e na de Marguerite Yourcenar, ambas excelentes, só que a da MY é em prosa.
De presente para meus leitores, transcrevo Ítaca, pois o que é belo tem que ser compartilhado.
Ítaca
Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
As muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar,
mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho,
mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.
De presente para meus leitores, transcrevo Ítaca, pois o que é belo tem que ser compartilhado.
Ítaca
Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
As muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar,
mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho,
mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.
Ave Sangria
Li uma entrevista de Marco Polo Guimarães no site Interpoética e adorei. Primeiro porque fiquei conhecendo um pouquinho mais este amigo que conheci há um ano apenas, e a quem vi apenas duas vezes, e no entanto, estimo como se fosse uma "estrela da vida inteira". Não vou dizer mais nada sobre ele. Leiam lá no site a entrevista, e vejam que pessoa mais interessante e que excelente poeta ele é. Mas vou perguntar se alguém aí no espaço tem as músicas do Ave Sangria, grupo do qual ele foi o vocalista. Fiquei morrendo de vontade de escutar esses roqueiros arretados portadores de peixeira, irreverentes seixos rolados nordestinos que ousaram desafiar os cabras da peste. Queria colocar aqui um retrato do grupo, que achei na net, mas não soube reduzir o tamanho da foto. Ah, como me identifico com Macunaíma! Sei que posso aprender, mas digo, ai, que preguiça, e deixo para depois. Então, aqui vai o blog sem foto, mas quem quiser conhecer os meninos, é só googlar, que eles têm página. E feliz dia de Santo Antônio para todos!
Friday, June 01, 2007
Um pouco de poesia
Há quanto tempo não venho aqui! Quanta saudade de jogar conversa no cyber espaço, para ver quem é que me escuta...
Há muito tempo que não coloco nada literário aqui neste blog, porisso hoje vamos de poesia, para começar bem este mês de junho.
Há muito tempo que não coloco nada literário aqui neste blog, porisso hoje vamos de poesia, para começar bem este mês de junho.
Vênus
O olhar de tranqüila indiferença
o sorriso levemente zombeteiro
entre as espumas do mar
Uma cabeleira
de algas douradas
pernas esguias
quase enguias
sobre uma concha
talvez algumas flores
ou dedos feito anêmonas
sublinhem
a beleza de quem
desconhece o belo
o olhar
tranqüilamente
indiferente
e o sorriso
abertamente
zombeteiro
cabelos
membros
espumas fúteis
beleza
na sinuosidade
da concha
Saturday, May 19, 2007
Paris, Texas....
Pois é. Quem se lembra do filme? Mas não vou falar sobre ele, e sim sobre essa minha divisão entre Paris, Texas e Rio de Janeiro. Só comecei a gostar de Paris depois que o Guilherme me ensinou a amar a cidade. Antes eu via Paris sob uma lente cinzenta, hostil. Foi o Guilherme quem me levou para lá nos dias de sol, quem me fez ver a beleza da cidade e de suas flores, quem me revelou seus encantos. Paris e seus vitrais, a luz filtrada invadindo igrejas. Paris e seus espelhos, onde todos nos sentimos mais belos. Paris e suas canções, embalando sonhos e realidades.
Texas, será que algum dia vou aprender a amar suas imensidões? As dimensões das coisas aqui parecem fantásticas, desproporcionais para a minha vida, tão pequenina... As notícias da TV mostram o muro que estão construindo, numa tentativa de separarem-se do México. Texas, que já pertenceu ao México, e que agora vira as costas a essa origem. Será que o muro vai adiantar alguma coisa? Será que as leis contra imigração, vão surtir algum resultado positivo? Porque negativo acho que já começaram a ter: separação, dissenção, estranhamento. Cidades que não mais permitem que as suas casas sejam alugadas a imigrantes... Uma xenofobia inquietante.
Rio de Janeiro, com sua beleza desmazelada, seu trânsito insuportável, cujo jeito acolhedor só sobrevive nas lembranças de quem já viveu um pouco. Agora só tiroteios, balas perdidas (ou encontradas por quem não devia), desencanto. Acho que um muro invisível foi sendo construído ao longo dos anos e, como um cancer, foi destruindo a cidade. Agora já não sabemos mais onde começar a endireitar as coisas. Mas, é só olhar para os contornos da cidade para sabermos que ainda é possível mudar nosso olhar, tal como o meu mudou com relação a Paris. Há, no Rio, muito a ser resgatado.
Texas, será que algum dia vou aprender a amar suas imensidões? As dimensões das coisas aqui parecem fantásticas, desproporcionais para a minha vida, tão pequenina... As notícias da TV mostram o muro que estão construindo, numa tentativa de separarem-se do México. Texas, que já pertenceu ao México, e que agora vira as costas a essa origem. Será que o muro vai adiantar alguma coisa? Será que as leis contra imigração, vão surtir algum resultado positivo? Porque negativo acho que já começaram a ter: separação, dissenção, estranhamento. Cidades que não mais permitem que as suas casas sejam alugadas a imigrantes... Uma xenofobia inquietante.
Rio de Janeiro, com sua beleza desmazelada, seu trânsito insuportável, cujo jeito acolhedor só sobrevive nas lembranças de quem já viveu um pouco. Agora só tiroteios, balas perdidas (ou encontradas por quem não devia), desencanto. Acho que um muro invisível foi sendo construído ao longo dos anos e, como um cancer, foi destruindo a cidade. Agora já não sabemos mais onde começar a endireitar as coisas. Mas, é só olhar para os contornos da cidade para sabermos que ainda é possível mudar nosso olhar, tal como o meu mudou com relação a Paris. Há, no Rio, muito a ser resgatado.
Friday, May 18, 2007
Allen, Texas
Estava no no blog do André de Leones, um canis sapiens de cara nova. Muito bem organizado, cheinho de coisas boas, parecendo ovo de Páscoa recheado. Fiquei com vontade de fazer um diário de viagem meu, também. Falar sobre o lugar onde estou: Allen, ao lado de Dallas, no coração do estado do Texas. Ninguém tinha ouvido falar de Allen antes porque a cidade simplesmente não existia. É uma coisa americana, um dia, ranchos, no dia seguinte, buldozers, caminhões, mexicanos por toda a parte construindo uma cidade que, no sexto dia fica pronta para que todos possam ir às descomunais igrejas no sétimo.
Não sei sobre o que falar primeiro: o tamanho das Igrejas, por exemplo, é coisa digna de nota. São tão grandes, que parecem estádios. Os estacionamentos são divididos em setores, os edifícios têm uma ordem de ocupação, pessoas que se dedicam a orientar os frequentadores, day-care para crianças pequenas, fábricas de hóstias, achados e perdidos, tudo o que se possa imaginar. Padres, músicos, administradores, eletricistas, marceneiros, são tantas as pessoas que dependem da Igreja (das igrejas, porque são inúmeras) que a gente se admira de tanta fé.
A fé remove montanhas, diz o ditado. Aqui à volta, como não há montanhas para remover, acho que a fé se dedica a construir casas e auto-estradas. Já falei antes, mas volto a repetir: auto- estradas com diversos andares -- no caso, cinco. Só vendo para ter uma idéia do que seja uma rampa de acesso numa dessas auto-estradas. É de dar medo nos dias de mais vento.
As casa, todas enormes, são uma representação de um paraíso socialista: todas iguais. Todas têm as mesmas cores ( ou falta de cores) tons de terra e pedra, acinzentadas. Neste clima seco, os novos habitantes se preocupam em modificar a paisagem, criando lagos. Lagos e mais lagos, lagos em todos os condomínios, com fontes e repuxos, patos, cisnes, gansos. Tudo isso rodeado de gramados e de árvores, que são vendidas em imensos tonéis, já crescidas, pois quem é que tem tempo para ver uma árvore crescer?
Ao contrério do que se faz aí na minha terra, há previsão para tudo. As estradas são largas, com várias pistas de ida e volta, e uma separação no meio que dá para, no futuro, se necessário, aumentar mais umas oito pistas. Tudo é extravagante. O centro cultural que só vai ficar pronto daqui a dois anos, (com suas estradas, estacionamentos, jardins, etc.) já tem a sua própria orquestra. Os músicos foram selecionados, já estão ensaiando, fazem apresentações para, quando o dia chegar, já ser conhecida como uma grande orquestra. Não me admiro nada se já estiverem providenciando gravações de cds e dvds.
Por falar em dvd, provavelmente todo o mundo já sabe, menos eu, porém existe um novo tipo de dvd, com altíssima definição, imagens espetaculares. Qualquer dia ninguém vai suportar olhar a realidade. Tudo vai ficar muito blah, sem alta-definição.
Porém, numa única coisa ainda somos melhores: nossa rede de telefonia celular funciona melhor que a deles. Pelo menos por enquanto...
Não sei sobre o que falar primeiro: o tamanho das Igrejas, por exemplo, é coisa digna de nota. São tão grandes, que parecem estádios. Os estacionamentos são divididos em setores, os edifícios têm uma ordem de ocupação, pessoas que se dedicam a orientar os frequentadores, day-care para crianças pequenas, fábricas de hóstias, achados e perdidos, tudo o que se possa imaginar. Padres, músicos, administradores, eletricistas, marceneiros, são tantas as pessoas que dependem da Igreja (das igrejas, porque são inúmeras) que a gente se admira de tanta fé.
A fé remove montanhas, diz o ditado. Aqui à volta, como não há montanhas para remover, acho que a fé se dedica a construir casas e auto-estradas. Já falei antes, mas volto a repetir: auto- estradas com diversos andares -- no caso, cinco. Só vendo para ter uma idéia do que seja uma rampa de acesso numa dessas auto-estradas. É de dar medo nos dias de mais vento.
As casa, todas enormes, são uma representação de um paraíso socialista: todas iguais. Todas têm as mesmas cores ( ou falta de cores) tons de terra e pedra, acinzentadas. Neste clima seco, os novos habitantes se preocupam em modificar a paisagem, criando lagos. Lagos e mais lagos, lagos em todos os condomínios, com fontes e repuxos, patos, cisnes, gansos. Tudo isso rodeado de gramados e de árvores, que são vendidas em imensos tonéis, já crescidas, pois quem é que tem tempo para ver uma árvore crescer?
Ao contrério do que se faz aí na minha terra, há previsão para tudo. As estradas são largas, com várias pistas de ida e volta, e uma separação no meio que dá para, no futuro, se necessário, aumentar mais umas oito pistas. Tudo é extravagante. O centro cultural que só vai ficar pronto daqui a dois anos, (com suas estradas, estacionamentos, jardins, etc.) já tem a sua própria orquestra. Os músicos foram selecionados, já estão ensaiando, fazem apresentações para, quando o dia chegar, já ser conhecida como uma grande orquestra. Não me admiro nada se já estiverem providenciando gravações de cds e dvds.
Por falar em dvd, provavelmente todo o mundo já sabe, menos eu, porém existe um novo tipo de dvd, com altíssima definição, imagens espetaculares. Qualquer dia ninguém vai suportar olhar a realidade. Tudo vai ficar muito blah, sem alta-definição.
Porém, numa única coisa ainda somos melhores: nossa rede de telefonia celular funciona melhor que a deles. Pelo menos por enquanto...
Monday, May 14, 2007
Em busca do tempo perdido
Sim, por onde andei todo este tempo?
Andei por obras, casas de material de construção, ruínas de apartamento, projetos de banheiro e cozinha...
Hoje, quando me apercebi, vi que estava muito atrasada, sem postar nada há mais de uma semana. O triste é que ninguém reclamou. E aí, dezessete leitores? Eu sumo e vocês não dizem nada?
Hoje li uma coisa que me deixou rindo até agora: Meu irmão em SESC, o André, está escrevendo um romance para o projeto Amores Expressos. Não sei se posso cometer essa inconfidência, mas como é um pedacinho mínimo da história, acho que ele vai me desculpar se eu contar aqui o que me deixou com o riso inextinguível dos deuses. Ele compôs uma cena de sexo entre dois septuagenários, mas isso não tem nada de engraçado. O amor e o sexo não têm idade, ele pode nem saber disso, mas um dia ele chega lá e descobre. O engraçado é que o homem é viúvo e a amante, ao ir para a casa dele, pensa que poderia até encontrar a defunta sentada na biblioteca, lendo Em busca do tempo perdido, com o ar exausto de quem já está cansada de ser eterna...
Bem, depois volto a isso. Ler ou não ler Proust, eis a questão...
Andei por obras, casas de material de construção, ruínas de apartamento, projetos de banheiro e cozinha...
Hoje, quando me apercebi, vi que estava muito atrasada, sem postar nada há mais de uma semana. O triste é que ninguém reclamou. E aí, dezessete leitores? Eu sumo e vocês não dizem nada?
Hoje li uma coisa que me deixou rindo até agora: Meu irmão em SESC, o André, está escrevendo um romance para o projeto Amores Expressos. Não sei se posso cometer essa inconfidência, mas como é um pedacinho mínimo da história, acho que ele vai me desculpar se eu contar aqui o que me deixou com o riso inextinguível dos deuses. Ele compôs uma cena de sexo entre dois septuagenários, mas isso não tem nada de engraçado. O amor e o sexo não têm idade, ele pode nem saber disso, mas um dia ele chega lá e descobre. O engraçado é que o homem é viúvo e a amante, ao ir para a casa dele, pensa que poderia até encontrar a defunta sentada na biblioteca, lendo Em busca do tempo perdido, com o ar exausto de quem já está cansada de ser eterna...
Bem, depois volto a isso. Ler ou não ler Proust, eis a questão...
Sunday, May 06, 2007
Falta de vontade...
Isso, para não dizer preguiça. Fim de semana com muita movimentação. Casamento, numa tarde linda, num lugar lindo, amigos de tantos anos, roupas, conversas e lembranças. Tudo muito bom. Voltar para casa, com sono, mas já pensando no dia seguinte, e no passeio de bicicleta combinado. Mais um lindo dia, uma voltinha, um almoço em família, tarde de teatro com as crianças, muita zoeira e balas. Tudo muito bom.
Pensar na aula de amanhã, no aniversário da amiga, abrir o correio eletrônico, pensar em escrever, mas com vontade é de terminar o dia vendo TV, na cama, ar condicionado geladinho. E é isso mesmo que vou fazer. Meus amigos que me desculpem, mas nem vou dar a passadinha costumeira nos blogs. Vou fazer a vontade do corpo, que reclama descanso e ficar por aqui.
Pensar na aula de amanhã, no aniversário da amiga, abrir o correio eletrônico, pensar em escrever, mas com vontade é de terminar o dia vendo TV, na cama, ar condicionado geladinho. E é isso mesmo que vou fazer. Meus amigos que me desculpem, mas nem vou dar a passadinha costumeira nos blogs. Vou fazer a vontade do corpo, que reclama descanso e ficar por aqui.
Wednesday, May 02, 2007
Dia do trabalho
Primeiro de maio, dia do trabalho.
Milhares (milhões?) de cariocas insistindo em levar uma vida normal, vida em que cabem os feriados e as comemorações, os passeios, os restaurantes, a brincadeira com as crianças, a leitura.
Enquanto isso, indiferentes à opinião da população, uma guerra se amplia. Violência, mortes, batalhas que seguem a estratégia alemã das blitzkrieg, ataques relâmpagos e inesperados (!) na cidade sempre de pé atrás. Conversando com uma amiga, outro dia, rimos porque, ao escutarem um estouro na rua as pessoas procuram abrigo, automaticamente, calejadas pelas balas perdidas. Depois, me envergonhei: carioca é assim, acha graça até onde não é para achar.
Lembrei, agora, do excelente romance de Lúcio Cardoso, Crônica da casa assassinada. Até porque encontrei a Norma Benguell, uma Nina inesquecível, na ABL. Pois é. Estamos assistindo à Crônica da cidade assassinada, obra coletiva, e ninguém consegue parar este despropósito.
Mas, maio chegou. É o mês de Maria, mês das mães, quem sabe há alguma esperança?
Milhares (milhões?) de cariocas insistindo em levar uma vida normal, vida em que cabem os feriados e as comemorações, os passeios, os restaurantes, a brincadeira com as crianças, a leitura.
Enquanto isso, indiferentes à opinião da população, uma guerra se amplia. Violência, mortes, batalhas que seguem a estratégia alemã das blitzkrieg, ataques relâmpagos e inesperados (!) na cidade sempre de pé atrás. Conversando com uma amiga, outro dia, rimos porque, ao escutarem um estouro na rua as pessoas procuram abrigo, automaticamente, calejadas pelas balas perdidas. Depois, me envergonhei: carioca é assim, acha graça até onde não é para achar.
Lembrei, agora, do excelente romance de Lúcio Cardoso, Crônica da casa assassinada. Até porque encontrei a Norma Benguell, uma Nina inesquecível, na ABL. Pois é. Estamos assistindo à Crônica da cidade assassinada, obra coletiva, e ninguém consegue parar este despropósito.
Mas, maio chegou. É o mês de Maria, mês das mães, quem sabe há alguma esperança?
Sunday, April 29, 2007
Passagem do tempo
Já estamos no final de abril... Abril, o mais cruel dos meses, como disse o poeta. Poetas gostam de classificar. Classificam meses, pessoas, flores e cores. Os leitores, encantados com os epítetos, vão repetindo para sempre as frases melodiosas, sem se perguntar por quê. Outro dia, recebi uma ligação de uma amiga e xará. Indo viajar, ela se deparou com uma paisagem de por-do-sol, onde nuvens róseas se alongavam perto do horizonte. Dias antes, lendo a Odisséia, nós havíamos nos deparado com a Aurora de dedos cor-de-rosa, e eu lhes falei da metáfora da deusa que, ao amanhecer, vem, com seus dedos rosados, levantar o manto que a noite estende sobre o mundo. Todo mundo adorou, lembrou já ter visto nuvens assim. Minha amiga, quando as viu no por-do-sol, me ligou, gentil, como se eu tivesse sido a autora da maravilha que ela estava vendo. Fiquei pensando que as belezas não se concentram apenas nos momentos inaugurais -- os finais também podem ser belos, apesar de sua inevitável melancolia. Não contei para as minhas alunas a parte triste da história de Aurora: ela se apaixonou por um mortal chamado Trítono e, contra todos os deuses, deu a ele o dom da imortalidade e casou-se com ele. Só que esqueceu que precisava dar também o dom da eterna juventude, e é assim que a bela deusa inaugural se encontra casada, para sempre, com um velhinho decrépito, com todas as mazelas da velhice... Ah, os gregos! Tão poéticos e tão sarcásticos. Tudo para eles tinha um outro lado, um castigo pela desmedida... Poesia e pés no chão!
Vamos então olhar a passagem do tempo e aproveitar o que temos agora. Abril pode ter sido o mais cruel dos meses para um poeta mas estes dois últimos dias de abril ainda estão desabrochando, são o nosso presente. Não permitam que o tempo passe desapercebidamente. Quantas vezes nos assustamos, dizendo: Mas já é maio? O que aconteceu com o verão? Já é Natal? Mas ainda ontem estávamos no dia das crianças... Ano novo, de novo?
O tempo passa, sim. E nós passamos com ele, mas nada nos impede de olhar as nuvens, e as flores, e as estrelas, enquanto passamos.
Vamos então olhar a passagem do tempo e aproveitar o que temos agora. Abril pode ter sido o mais cruel dos meses para um poeta mas estes dois últimos dias de abril ainda estão desabrochando, são o nosso presente. Não permitam que o tempo passe desapercebidamente. Quantas vezes nos assustamos, dizendo: Mas já é maio? O que aconteceu com o verão? Já é Natal? Mas ainda ontem estávamos no dia das crianças... Ano novo, de novo?
O tempo passa, sim. E nós passamos com ele, mas nada nos impede de olhar as nuvens, e as flores, e as estrelas, enquanto passamos.
Thursday, April 26, 2007
Recomendações
Estou acompanhando o desenrolar dos "amores expressos" - o controverso projeto de mandar escritores pelo mundo afora para escreverem histórias de amor que poderão ser filmadas e cujo processo de escrita poderá se transformar em documentário. Acompanho porque tem gente que eu conheço (e gente muito legal) envolvida nisso. E também porque me fascina essa "linha de produção", essa "literatura fabril" que vai surgindo nestes projetos editoriais. Tudo se cria e tudo se transforma, como numa empresa.
Passei tantos anos casada com um grande executivo, que julgo reconhecer nestes amores, um projeto de negócio digno de um desses laboratórios universitários. Vejam se não é isso: O projeto é internacional, pois já abre as portas da mídia em outros países -- com isso, o interesse por traduções pode surgir, e o mercado para as histórias se ampliar. Além disso, tudo é aproveitado: Enquanto escrevem suas histórias, os autores mantêm um blog, com seus diários de viagem, suas impressões, e no blog pode ser vendido espaço para propaganda. Eles também carregam suas câmeras e gravadores, e lá vão eles glauberizando sua experiência. Os escritores mais "midiáticos" terão um cinegrafista, pelo que eu entendo, registrando seus processos criativos. As histórias poderão ser transformadas em roteiros e transformadas em curtas. Ou mixadas e transformadas num longa. Se o projeto se sustentar, o "formato" poderá ser vendido para outras editoras, locais ou estrangeiras, que pagarão royalties, tal como a Globo faz com a Endemol (é esse mesmo o nome dos inventores do big brother?) Podem vender documentários separados, fazer uma caixinha para empresas distribuirem como brinde no final do ano, vender conferências em universidades estrangeiras, mil possibilidades. Será que estou viajando? Ou será que é isso mesmo?
De qualquer forma, isso só me interessa porque estou desfrutando do produto: Não só me correspondo com um dos autores, como estou me divertindo com o blog que eles criaram, e que está muito bom, mesmo. Espero que os meus leitores (dezessete?) se animem e visitem o endereço:
www.amoresexpressos.com.br
E depois, comprem os livros. Precisamos aumentar o mercado literário.
Outra recomendação, importantíssima:
Comprem o Rascunho. Aposto que já conhecem o site, mas o jornal em si, bem diagramado, com fotos e desenhos e resenhas interessantes, com páginas bastante para não ser aquela coisa exígua dos cadernos literários perdidos em nossos sábados é uma jóia. Coisa para se ler devagar, saboreando, e para depois recortar e guardar nas pastas sobre nossos escritores prediletos. Fala dos consagrados e dos consagráveis, dos que apenas despontam e dos que fazem sucesso há décadas, e ainda publica textos inéditos, e poemas... Ah, que delícia. Tem até textos polêmicos.
E a assinatura anual é de apenas R$50,00. É menos que um real por semana! Imperdível!
Passei tantos anos casada com um grande executivo, que julgo reconhecer nestes amores, um projeto de negócio digno de um desses laboratórios universitários. Vejam se não é isso: O projeto é internacional, pois já abre as portas da mídia em outros países -- com isso, o interesse por traduções pode surgir, e o mercado para as histórias se ampliar. Além disso, tudo é aproveitado: Enquanto escrevem suas histórias, os autores mantêm um blog, com seus diários de viagem, suas impressões, e no blog pode ser vendido espaço para propaganda. Eles também carregam suas câmeras e gravadores, e lá vão eles glauberizando sua experiência. Os escritores mais "midiáticos" terão um cinegrafista, pelo que eu entendo, registrando seus processos criativos. As histórias poderão ser transformadas em roteiros e transformadas em curtas. Ou mixadas e transformadas num longa. Se o projeto se sustentar, o "formato" poderá ser vendido para outras editoras, locais ou estrangeiras, que pagarão royalties, tal como a Globo faz com a Endemol (é esse mesmo o nome dos inventores do big brother?) Podem vender documentários separados, fazer uma caixinha para empresas distribuirem como brinde no final do ano, vender conferências em universidades estrangeiras, mil possibilidades. Será que estou viajando? Ou será que é isso mesmo?
De qualquer forma, isso só me interessa porque estou desfrutando do produto: Não só me correspondo com um dos autores, como estou me divertindo com o blog que eles criaram, e que está muito bom, mesmo. Espero que os meus leitores (dezessete?) se animem e visitem o endereço:
www.amoresexpressos.com.br
E depois, comprem os livros. Precisamos aumentar o mercado literário.
Outra recomendação, importantíssima:
Comprem o Rascunho. Aposto que já conhecem o site, mas o jornal em si, bem diagramado, com fotos e desenhos e resenhas interessantes, com páginas bastante para não ser aquela coisa exígua dos cadernos literários perdidos em nossos sábados é uma jóia. Coisa para se ler devagar, saboreando, e para depois recortar e guardar nas pastas sobre nossos escritores prediletos. Fala dos consagrados e dos consagráveis, dos que apenas despontam e dos que fazem sucesso há décadas, e ainda publica textos inéditos, e poemas... Ah, que delícia. Tem até textos polêmicos.
E a assinatura anual é de apenas R$50,00. É menos que um real por semana! Imperdível!
Wednesday, April 25, 2007
Vingança
Madrugada insone dá nisso: assistir filmes antigos na TV.
Peguei esse já começado, não prestei atenção no nome. Mas era com Jeremy Irons e Anette Benning, e fui ficando, vendo a trama se desenrolar. Uma atriz madura, com um casamento "liberal", se apaixona por um rapaz, quase da idade de seu filho. Por sua vez, o rapaz se apaixona por uma jovem aspirante a atriz e deseja usar sua proximidade com a mulher mais velha para promover a jovem. Sofrendo, a mulher percebe que a outra não só se relacionava com o rapaz, mas tinha partido para abocanhar seu marido também. Ela arquiteta uma vingança, mas não contra os dois homens infiéis. Ela se vinga da Outra! Será que só eu acho o filme anti-feminista? Ou minha insatisfação se deve à noite mal dormida?
Peguei esse já começado, não prestei atenção no nome. Mas era com Jeremy Irons e Anette Benning, e fui ficando, vendo a trama se desenrolar. Uma atriz madura, com um casamento "liberal", se apaixona por um rapaz, quase da idade de seu filho. Por sua vez, o rapaz se apaixona por uma jovem aspirante a atriz e deseja usar sua proximidade com a mulher mais velha para promover a jovem. Sofrendo, a mulher percebe que a outra não só se relacionava com o rapaz, mas tinha partido para abocanhar seu marido também. Ela arquiteta uma vingança, mas não contra os dois homens infiéis. Ela se vinga da Outra! Será que só eu acho o filme anti-feminista? Ou minha insatisfação se deve à noite mal dormida?
Sunday, April 22, 2007
Penélope, a impaciente
Talvez Freud tivesse em mente a figura de Penélope, quando emitiu sua famosa pergunta: O que querem as mulheres?
O que queria Penélope? Deixada em Ítaca, com um filho pequeno, sem a paciência e a criatividade de Odisseu, que tanto a reconfortava, teve que aprender a lidar com o sogro e, sobretudo, a sogra, mulher de personalidade forte e dominadora, temida pelo marido. Com a morte desta, e o afastamento de Laertes, ela assume a primeira posição na ilha e torna-se alvo do desejo de inúmeros pretendentes, homens que a cobiçavam pela posição que ela poderia garantir-lhes.
Sua fidelidade a Odisseu foi antes a fidelidade a si mesma, e a seu filho. Os anos se haviam passado, as lembranças de Odisseu se apagavam e se transformavam, conforme o interesse de quem o evocasse.Ninguém mais tinha a certeza de como o homem se comportaria, pois já ninguém se lembrava exatamente de como ele havia se comportado. Euricléia, a ama, Eubeu, o amigo de infância, eram poucos os que ainda se lembravam do antigo rei com benevolência. Penélope já nem lembrava da paciência de Odisseu em torná-la sua, nem do cheiro de seu corpo quando voltava suado das amenas caçadas aos pequenos animais da ilha. A brisa marinha lhe despertava lembranças de jogos à beira mar, quando, após dirigir as escravas nas tarefas de lavagem da roupa, era surpreendida por um marido vigoroso, estimulado pelo sol e pelos banhos de mar. Mas essa lembranças estavam cada vez mais indistintas, e seu corpo cada vez mais silenciado, pela constatação de que, satisfazê-lo, significaria colocar em perigo o futuro de seu único filho. Durante anos Telêmaco foi sua única fonte de carinho. Era ele que compartilhava seu leito, os braços do menino rodeavam-lhe o pescoço quando ela sucumbia às frustrações, e soluçava baixinho, até dormir. O menino assustado sussurava-lhe: não chore, mamãe. E ela, para tranquilizá-lo, engolia as lágrimas e endurecia o coração.
Aos poucos acostumou-se a mandar. Tomou as rédeas da casa, dos campos. Determinava as tarefas e as partilhas, organizou sua casa e começou a sentir o prazer decorrente da autonomia e do cumprimento do dever. Quando os pretendentes começaram a chegar, deixou-se envolver pelos jogos de sedução e conquista, até compreender que casar-se de novo seria abdicar da liberdade que gozava. Utilizou os mesmos jogos para conservar o poder: encorajando a todos, não encorajava a nenhum. As pressões aumentaram, ela encontrou um estratagema: enredou a todos numa teia, ganhando mais três anos de relativo sossego. Quando seu ardil foi descoberto, o filho já estava quase adulto, já tinha chances de se defender a si mesmo. Mas, para sua surpresa, ele parte e ela descobre que as mães são seres tão facilmente descartáveis quanto as recem-casadas. Olha-se no espelho, e vê-se não mais como era, mas como se havia tornado: uma mulher madura, sem muitas ilusões, independente demais numa sociedade que não permitia nem às suas deusas tamanha autonomia. Seu casamento já não frutificaria mais, seria apenas a confirmação da passagem do poder para um estranho. Mas, se ela demorasse mais, sua capitulação seria vã, pois nem sequer conseguiria atrair o novo marido para negociações na cama. Quando seu filho volta, suas esperanças retornam. Ele havia sobrevivido, tinha experimentado as asas, não sucumbiria facilmente às armadilhas. Casar-se significava conseguir um aliado para o filho. E ela anuncia sua resolução de casar com quem melhor manejasse as armas de Odisseu. Um anúncio que não deixa de ser ambíguo.
Para sua surpresa, o velhote alquebrado que acabava de chegar à ilha é o vencedor do torneio, e se revela o próprio Odisseu. Penélope o encara com os olhos da memória, e o vê belo como um deus. Mas logo o sortilégio se desfaz. O homem que retorna ao lar não é o mesmo que partiu. As lembranças de Odisseu não são as suas, eles compartilham muito pouco. Vinte anos se passaram, e eles nem se conhecem mais. Quando Odisseu anuncia que vai partir, a rainha o encara com indiferença e algum alívio. Quando ele embarca e desfralda a vela, manobrando para sair do porto, ela sente alguma ternura. Podia amar o marido ausente, o homem de suas memórias. O que não podia suportar era o homem de carne e osso, com cicatrizes que ela não ajudara a curar e atitudes amorosas que não tinha aprendido com ela.
Podemos não saber o que deseja Penélope. Mas sabemos que ela não deseja Odisseu.
O que queria Penélope? Deixada em Ítaca, com um filho pequeno, sem a paciência e a criatividade de Odisseu, que tanto a reconfortava, teve que aprender a lidar com o sogro e, sobretudo, a sogra, mulher de personalidade forte e dominadora, temida pelo marido. Com a morte desta, e o afastamento de Laertes, ela assume a primeira posição na ilha e torna-se alvo do desejo de inúmeros pretendentes, homens que a cobiçavam pela posição que ela poderia garantir-lhes.
Sua fidelidade a Odisseu foi antes a fidelidade a si mesma, e a seu filho. Os anos se haviam passado, as lembranças de Odisseu se apagavam e se transformavam, conforme o interesse de quem o evocasse.Ninguém mais tinha a certeza de como o homem se comportaria, pois já ninguém se lembrava exatamente de como ele havia se comportado. Euricléia, a ama, Eubeu, o amigo de infância, eram poucos os que ainda se lembravam do antigo rei com benevolência. Penélope já nem lembrava da paciência de Odisseu em torná-la sua, nem do cheiro de seu corpo quando voltava suado das amenas caçadas aos pequenos animais da ilha. A brisa marinha lhe despertava lembranças de jogos à beira mar, quando, após dirigir as escravas nas tarefas de lavagem da roupa, era surpreendida por um marido vigoroso, estimulado pelo sol e pelos banhos de mar. Mas essa lembranças estavam cada vez mais indistintas, e seu corpo cada vez mais silenciado, pela constatação de que, satisfazê-lo, significaria colocar em perigo o futuro de seu único filho. Durante anos Telêmaco foi sua única fonte de carinho. Era ele que compartilhava seu leito, os braços do menino rodeavam-lhe o pescoço quando ela sucumbia às frustrações, e soluçava baixinho, até dormir. O menino assustado sussurava-lhe: não chore, mamãe. E ela, para tranquilizá-lo, engolia as lágrimas e endurecia o coração.
Aos poucos acostumou-se a mandar. Tomou as rédeas da casa, dos campos. Determinava as tarefas e as partilhas, organizou sua casa e começou a sentir o prazer decorrente da autonomia e do cumprimento do dever. Quando os pretendentes começaram a chegar, deixou-se envolver pelos jogos de sedução e conquista, até compreender que casar-se de novo seria abdicar da liberdade que gozava. Utilizou os mesmos jogos para conservar o poder: encorajando a todos, não encorajava a nenhum. As pressões aumentaram, ela encontrou um estratagema: enredou a todos numa teia, ganhando mais três anos de relativo sossego. Quando seu ardil foi descoberto, o filho já estava quase adulto, já tinha chances de se defender a si mesmo. Mas, para sua surpresa, ele parte e ela descobre que as mães são seres tão facilmente descartáveis quanto as recem-casadas. Olha-se no espelho, e vê-se não mais como era, mas como se havia tornado: uma mulher madura, sem muitas ilusões, independente demais numa sociedade que não permitia nem às suas deusas tamanha autonomia. Seu casamento já não frutificaria mais, seria apenas a confirmação da passagem do poder para um estranho. Mas, se ela demorasse mais, sua capitulação seria vã, pois nem sequer conseguiria atrair o novo marido para negociações na cama. Quando seu filho volta, suas esperanças retornam. Ele havia sobrevivido, tinha experimentado as asas, não sucumbiria facilmente às armadilhas. Casar-se significava conseguir um aliado para o filho. E ela anuncia sua resolução de casar com quem melhor manejasse as armas de Odisseu. Um anúncio que não deixa de ser ambíguo.
Para sua surpresa, o velhote alquebrado que acabava de chegar à ilha é o vencedor do torneio, e se revela o próprio Odisseu. Penélope o encara com os olhos da memória, e o vê belo como um deus. Mas logo o sortilégio se desfaz. O homem que retorna ao lar não é o mesmo que partiu. As lembranças de Odisseu não são as suas, eles compartilham muito pouco. Vinte anos se passaram, e eles nem se conhecem mais. Quando Odisseu anuncia que vai partir, a rainha o encara com indiferença e algum alívio. Quando ele embarca e desfralda a vela, manobrando para sair do porto, ela sente alguma ternura. Podia amar o marido ausente, o homem de suas memórias. O que não podia suportar era o homem de carne e osso, com cicatrizes que ela não ajudara a curar e atitudes amorosas que não tinha aprendido com ela.
Podemos não saber o que deseja Penélope. Mas sabemos que ela não deseja Odisseu.
Wednesday, April 18, 2007
solidão, solitude
Como é difícil administrar a solidão. Quando tomamos consciência de que somos sós, que por mais que a vida nos ofereça companheiros, nós só podemos contar com nós mesmos, somos tomados por uma angústia que volta e meia nos submerge.
Estou, com meu querido grupinho, lendo a Odisséia. Chegamos até a Rapsódia VI. Odisseu sai da ilha de Calipso, esperançoso. Ele já não tem mais nenhum dos companheiros do início da viagem. Está só, numa jangada, mas persiste. Ao avistar terra, vê -se, de novo, mercê das intempéries. Sua jangada se desfaz e ele está outra vez náufrago, desvalido.
Qual a importância dessa viagem de Ulisses? O que faz dessa obra um marco de tanta importância que os séculos passam e ela continua viva? Como nos relacionamos com essa viagem? A impressão que tenho é que os autores estão quase sempre tentando responder às mesmas perguntas, resolver as mesmas inquietações. Muitas são as obras que poderíamos agrupar dialógicamente em torno da Odisséia. A mais óbvia é Ulisses, de Joyce. Mas são numerosos os exemplos, mais ou menos próximos do modelo. Há obras que são matrizes, estão sempre dando filhotes, e, a cada nova leitura, a matriz se nutre e se amplia.
Odisséia - A divina comédia - Fausto, quantas e quantas vezes essas obras não foram atualizadas por novas tramas plenas de originalidade, ao mesmo tempo que imbricadas profundamente nos veios nutrientes desses textos placentários?
O mais triste é a confirmação de nossa solidão. Estamos sós. Nossa jangada é frágil, construída a pressa; nossa bagagem se perde, tragada pelas ondas; nossa direção oscila à nossa revelia, impelida pelos ventos. É mais fácil descer aos infernos que chegar à Itaca, nosso destino, de onde nos arrancaram à nossa revelia.
Hoje estou náufraga. O mar amargo escorre pelos meus olhos e eu sossobro. Para voltar a ser gente, preciso de uma platéia, que escute minhas histórias. Onde encontrá-la?
Estou, com meu querido grupinho, lendo a Odisséia. Chegamos até a Rapsódia VI. Odisseu sai da ilha de Calipso, esperançoso. Ele já não tem mais nenhum dos companheiros do início da viagem. Está só, numa jangada, mas persiste. Ao avistar terra, vê -se, de novo, mercê das intempéries. Sua jangada se desfaz e ele está outra vez náufrago, desvalido.
Qual a importância dessa viagem de Ulisses? O que faz dessa obra um marco de tanta importância que os séculos passam e ela continua viva? Como nos relacionamos com essa viagem? A impressão que tenho é que os autores estão quase sempre tentando responder às mesmas perguntas, resolver as mesmas inquietações. Muitas são as obras que poderíamos agrupar dialógicamente em torno da Odisséia. A mais óbvia é Ulisses, de Joyce. Mas são numerosos os exemplos, mais ou menos próximos do modelo. Há obras que são matrizes, estão sempre dando filhotes, e, a cada nova leitura, a matriz se nutre e se amplia.
Odisséia - A divina comédia - Fausto, quantas e quantas vezes essas obras não foram atualizadas por novas tramas plenas de originalidade, ao mesmo tempo que imbricadas profundamente nos veios nutrientes desses textos placentários?
O mais triste é a confirmação de nossa solidão. Estamos sós. Nossa jangada é frágil, construída a pressa; nossa bagagem se perde, tragada pelas ondas; nossa direção oscila à nossa revelia, impelida pelos ventos. É mais fácil descer aos infernos que chegar à Itaca, nosso destino, de onde nos arrancaram à nossa revelia.
Hoje estou náufraga. O mar amargo escorre pelos meus olhos e eu sossobro. Para voltar a ser gente, preciso de uma platéia, que escute minhas histórias. Onde encontrá-la?
Sunday, April 15, 2007
Filosofia e tatuagem
Conheci um filósofo.
Não foi lendo um livro ou um artigo. Conheci, de apertar a mão e dar beijinho, como se faz aqui no Rio. Esse aqui é o fulano (não entendi bem o nome, e fiquei com vergonha de perguntar). Olhei para ele e o que me chamou a atenção foi o braço todo tatuado e a pele vermelha de tanto sol. Forte, não muito alto, com um saudável apetite por aipim frito e chope, ele tinha cara de tudo, menos de filósofo. Mas qual é a cara de um filósofo?
Não sou muito chegada à Filosofia. Já li uma ou outra coisa, em péssimas e pomposas traduções, que me desestimularam. Um pouco de Platão, eu li. Estudei um pouco dos gregos, e também um pouco de Nietzsche e de Spinoza, um Schopenhauer de segunda mão, uma pitadinha de outros cujos nomes já nem sei mais soletrar. Outros, mais amenos, ou com melhores traduções, até me divertiram: Erasmo e Thomas Moore, por exemplo. Fiquei com a idéia de que os filósofos eram figuras excêntricas, com roupas, modos e hábitos peculiares. Por isso me admirei tanto com esse filósofo mais novo do que eu, vendendo saúde, com uma aparência que podia ser a de qualquer vendedor de loja de material de construção, discutindo detalhes de seu próximo casamento.
Onde a caspa? Onde os óculos de garrafa? Onde os livros e o mau-humor?
Só flores tatuadas no braço, cabelos ainda úmidos do banho recém-tomado, uma fome de pós-praia e um grande interesse pelos diferentes tipos de papéis usados em convites de casamento. Mora na filosofia?
Não foi lendo um livro ou um artigo. Conheci, de apertar a mão e dar beijinho, como se faz aqui no Rio. Esse aqui é o fulano (não entendi bem o nome, e fiquei com vergonha de perguntar). Olhei para ele e o que me chamou a atenção foi o braço todo tatuado e a pele vermelha de tanto sol. Forte, não muito alto, com um saudável apetite por aipim frito e chope, ele tinha cara de tudo, menos de filósofo. Mas qual é a cara de um filósofo?
Não sou muito chegada à Filosofia. Já li uma ou outra coisa, em péssimas e pomposas traduções, que me desestimularam. Um pouco de Platão, eu li. Estudei um pouco dos gregos, e também um pouco de Nietzsche e de Spinoza, um Schopenhauer de segunda mão, uma pitadinha de outros cujos nomes já nem sei mais soletrar. Outros, mais amenos, ou com melhores traduções, até me divertiram: Erasmo e Thomas Moore, por exemplo. Fiquei com a idéia de que os filósofos eram figuras excêntricas, com roupas, modos e hábitos peculiares. Por isso me admirei tanto com esse filósofo mais novo do que eu, vendendo saúde, com uma aparência que podia ser a de qualquer vendedor de loja de material de construção, discutindo detalhes de seu próximo casamento.
Onde a caspa? Onde os óculos de garrafa? Onde os livros e o mau-humor?
Só flores tatuadas no braço, cabelos ainda úmidos do banho recém-tomado, uma fome de pós-praia e um grande interesse pelos diferentes tipos de papéis usados em convites de casamento. Mora na filosofia?
Saturday, April 14, 2007
Novidades
Coisa boa. Hoje recebi notícias de pessoas que andavam meio sumidas. Uma dessas pessoas foi o Marcelo Moutinho, me anunciando o seu novo site: www.marcelomoutinho.com.br
Claro que fui lá conferir, e fiquei impressionada com o lay out elegante e a variedade de coisas interessantes para fazer. Cliquem no endereço e confiram por si mesmos.
Ontem fui a um casamento, hoje vou a um chá de panela: 2007, apesar de ímpar, tem vocação de casamenteiro. Se bem que essa coisa de casamento é meio cíclica. Quando atingimos certas faixas etárias, parece que todo mundo se casa -- por exemplo: quando estamos terminando a faculdade e todos os nossos amigos parecem se casar por esta época. Uns doze anos depois, metade daquela turma está se casando de novo. Passam-se mais doze, e é a vez dos filhos daqueles primeiros casamentos...Gosto muito de casamentos, talvez porque tenha sido tão feliz no meu. Acho muita graça nas produções elaboradas, as roupas (geralmente) lindas das noivas, e das roupas tristemente calorentas dos noivos. Gosto de observar a disputa velada entre as sogras, de quem exibe mais elegância. Me comovo com a palidez dos noivos, com a emoção das noivas, sobretudo as mais novinhas ou as mais coroas. Me lembro do casamento, há muitos anos atrás, de uma senhora conhecida, de mais de 50, ainda virgem, que, de tão emocionada, mal conseguia atravessar a nave. Todas as suas amigas, algumas até avós, estavam emocionadas com a situação. Foi bonito, ela atravessou a igreja sozinha, trêmula, trôpega, e, ao chegar no altar, explodiu num choro emocionado que levou todo o mundo às lágrimas. Acho que até Santo Antônio chorou, aquele dia. Eu ainda era uma garota, mas não me esqueço desta cerimônia tão cheia de emoções. E do desfecho, que em nada combina com a história. O casamento tão ansiado não foi feliz, eles se separaram, brigaram muito, e quando terminaram de brigar, ele morreu. Triste, não? Mas tenho a certeza de que os desse ano vão ser todos muito felizes. Seja em abril, em maio, em julho ou em outubro (são esses os que vou esse ano) ou nos outros meses restantes, estou com um palpite que todos vão durar e ser muito felizes.
Claro que fui lá conferir, e fiquei impressionada com o lay out elegante e a variedade de coisas interessantes para fazer. Cliquem no endereço e confiram por si mesmos.
Ontem fui a um casamento, hoje vou a um chá de panela: 2007, apesar de ímpar, tem vocação de casamenteiro. Se bem que essa coisa de casamento é meio cíclica. Quando atingimos certas faixas etárias, parece que todo mundo se casa -- por exemplo: quando estamos terminando a faculdade e todos os nossos amigos parecem se casar por esta época. Uns doze anos depois, metade daquela turma está se casando de novo. Passam-se mais doze, e é a vez dos filhos daqueles primeiros casamentos...Gosto muito de casamentos, talvez porque tenha sido tão feliz no meu. Acho muita graça nas produções elaboradas, as roupas (geralmente) lindas das noivas, e das roupas tristemente calorentas dos noivos. Gosto de observar a disputa velada entre as sogras, de quem exibe mais elegância. Me comovo com a palidez dos noivos, com a emoção das noivas, sobretudo as mais novinhas ou as mais coroas. Me lembro do casamento, há muitos anos atrás, de uma senhora conhecida, de mais de 50, ainda virgem, que, de tão emocionada, mal conseguia atravessar a nave. Todas as suas amigas, algumas até avós, estavam emocionadas com a situação. Foi bonito, ela atravessou a igreja sozinha, trêmula, trôpega, e, ao chegar no altar, explodiu num choro emocionado que levou todo o mundo às lágrimas. Acho que até Santo Antônio chorou, aquele dia. Eu ainda era uma garota, mas não me esqueço desta cerimônia tão cheia de emoções. E do desfecho, que em nada combina com a história. O casamento tão ansiado não foi feliz, eles se separaram, brigaram muito, e quando terminaram de brigar, ele morreu. Triste, não? Mas tenho a certeza de que os desse ano vão ser todos muito felizes. Seja em abril, em maio, em julho ou em outubro (são esses os que vou esse ano) ou nos outros meses restantes, estou com um palpite que todos vão durar e ser muito felizes.
Friday, April 13, 2007
Sexta-feira 13
Arruda! Canela! Sal grosso! Trevo de quatro folhas! Ferradura!
Se eu tivesse nos arquivos alguma dessas imagens, estaria ilustrando o post com elas. As notícias de hoje porém, são as melhores possíveis: Nascimento de Adriana -- Bem vinda ao mundo, uma texana de coração bem brasileiro! Leitura de Paul Celan no blog de Vera Helena, o Palimpsesto. Quis deixar um comentário, mostrando meu entusiasmo, mas não acertei a senha! Acho mais fácil acertar a mega-sena do que as senhas que se interpõem em meu caminho... Penso que se Drummond fosse escrever seu poema hoje, substituiria pedra por senha.
Meu cérebro irriquieto lembrou que pedra e senha se combinam na história de Ali Babá. Teria sido ele o primeiro hacker da história (ou das histórias)? Afinal, ele é um ladrão de senha - Abre-te, Sézamo! A segunda é a princesa (ou seria camponesa?) de Rumpelstiltskin, juntamente com o príncipe de Rapunzel: Rapunzel, joga as tuas tranças! Hoje, nenhuma dessas senhas nos serviria. Estamos limitados a oito caracteres alfanuméricos que não devem lembrar nada pessoal. Não devemos utilizar telefones, datas de nascimento, nomes de conhecidos. Não devemos utilizar a mesma senha para vários sites, devemos trocar de senha com frequência, e não devemos anotá-las para que um possível ladrão não se apodere delas... Estamos em guerra, e cada um de nós é sua própria central de codificação. Ah, quanta complicação.
Queria viver num mundo de portas abertas, fronteiras abertas, sites livres. Estou cansada de tanta proteção, tantas grades, tantas barreiras. Por isso é que gosto dos livros. Suas páginas se abrem, oferecidas; seus códigos pertencem a muitos e deviam pertencer a todos, pois ler e escrever é um direito de todos e não um privilégio de alguns. Detesto essas capas de celofane ou plástico, tentativas de impedir a entrega das páginas aos olhos ávidos. E dou graças por não venderem mais aqueles livros de páginas por rasgar, que me obrigavam a estratégias de leitura que me deixavam de olhos tortos. Nunca tinha comigo algum instrumento cortante e abrir as páginas com os dedos era garantia de rasgar o papel em lugares indevidos.
Vera Helena, o comentário que não deixei em seu blog era a explosão de minha alegria ao descobrir que você também gosta de Paul Celan, o poeta mais vertiginosamente triste e docemente melancólico que conheço. Que bom que a gente se descobriu! Visitem o Palimpsesto, meus queridos leitores. Vocês vão adorar.
Se eu tivesse nos arquivos alguma dessas imagens, estaria ilustrando o post com elas. As notícias de hoje porém, são as melhores possíveis: Nascimento de Adriana -- Bem vinda ao mundo, uma texana de coração bem brasileiro! Leitura de Paul Celan no blog de Vera Helena, o Palimpsesto. Quis deixar um comentário, mostrando meu entusiasmo, mas não acertei a senha! Acho mais fácil acertar a mega-sena do que as senhas que se interpõem em meu caminho... Penso que se Drummond fosse escrever seu poema hoje, substituiria pedra por senha.
Meu cérebro irriquieto lembrou que pedra e senha se combinam na história de Ali Babá. Teria sido ele o primeiro hacker da história (ou das histórias)? Afinal, ele é um ladrão de senha - Abre-te, Sézamo! A segunda é a princesa (ou seria camponesa?) de Rumpelstiltskin, juntamente com o príncipe de Rapunzel: Rapunzel, joga as tuas tranças! Hoje, nenhuma dessas senhas nos serviria. Estamos limitados a oito caracteres alfanuméricos que não devem lembrar nada pessoal. Não devemos utilizar telefones, datas de nascimento, nomes de conhecidos. Não devemos utilizar a mesma senha para vários sites, devemos trocar de senha com frequência, e não devemos anotá-las para que um possível ladrão não se apodere delas... Estamos em guerra, e cada um de nós é sua própria central de codificação. Ah, quanta complicação.
Queria viver num mundo de portas abertas, fronteiras abertas, sites livres. Estou cansada de tanta proteção, tantas grades, tantas barreiras. Por isso é que gosto dos livros. Suas páginas se abrem, oferecidas; seus códigos pertencem a muitos e deviam pertencer a todos, pois ler e escrever é um direito de todos e não um privilégio de alguns. Detesto essas capas de celofane ou plástico, tentativas de impedir a entrega das páginas aos olhos ávidos. E dou graças por não venderem mais aqueles livros de páginas por rasgar, que me obrigavam a estratégias de leitura que me deixavam de olhos tortos. Nunca tinha comigo algum instrumento cortante e abrir as páginas com os dedos era garantia de rasgar o papel em lugares indevidos.
Vera Helena, o comentário que não deixei em seu blog era a explosão de minha alegria ao descobrir que você também gosta de Paul Celan, o poeta mais vertiginosamente triste e docemente melancólico que conheço. Que bom que a gente se descobriu! Visitem o Palimpsesto, meus queridos leitores. Vocês vão adorar.
Sunday, April 08, 2007
Novo blog
Nossa! Estou há dias tentando migrar de uma versão para outra do blog, sem sucesso. Mais uma vez, obrigada, André, por salvar meu bloguinho.
Acho que foi até auspicioso conseguir esta migração hoje, domingo de Páscoa. Afinal, trata-se de renovação, de nova vida. Não quero cometer nenhum sacrilégio e falar em ressurreição, mas isto talvez seja o mais próximo que a gente consiga chegar disso. A internet e seus recursos, que se modificam, nos dão uma onipresença e uma sensação, falsa, de onisciência.
Hoje estou fora de casa, num computador estranho, por isso escrevo pouquinho, só para não passar o dia em branco, pois a semana foi toda fora do ar. Amanhã, quando voltar para casa, escrevo mais. Deixo aqui meus votos de Feliz Páscoa a todos os leitores: Amauri, André, Berthe, Helder, Rosana, Talitha,Vera Helena, Wagner os anônimos e aqueles que nunca deixaram mensagem mas que já me disseram que leram, como Maria Helena e Cecília e Breno e Flora. Talvez eu até já tenha alcançado os dezessete leitores. Espero que vocês não cansem de mim e de minhas palavras.
Acho que foi até auspicioso conseguir esta migração hoje, domingo de Páscoa. Afinal, trata-se de renovação, de nova vida. Não quero cometer nenhum sacrilégio e falar em ressurreição, mas isto talvez seja o mais próximo que a gente consiga chegar disso. A internet e seus recursos, que se modificam, nos dão uma onipresença e uma sensação, falsa, de onisciência.
Hoje estou fora de casa, num computador estranho, por isso escrevo pouquinho, só para não passar o dia em branco, pois a semana foi toda fora do ar. Amanhã, quando voltar para casa, escrevo mais. Deixo aqui meus votos de Feliz Páscoa a todos os leitores: Amauri, André, Berthe, Helder, Rosana, Talitha,Vera Helena, Wagner os anônimos e aqueles que nunca deixaram mensagem mas que já me disseram que leram, como Maria Helena e Cecília e Breno e Flora. Talvez eu até já tenha alcançado os dezessete leitores. Espero que vocês não cansem de mim e de minhas palavras.
Saturday, March 31, 2007
Ballet (outros quadros)
Passei a manhã organizando os arquivos de meu novo livro, Linha de sombra. No meio do caminho, baguncei tudo, mas um filho, o mais novo, veio me socorrer. Agora tenho um arquivo direitinho, não preciso mais imprimir texto por texto.
Agora, então, posso me dedicar a comentar mais quadros do ballet de Roland Petit. Vamos aos três últimos quadros do primeiro ato do ballet.
Quinto quadro - As raparigas em flor. Ao fundo uma paisagem marinha, de cores impressionistas. As bailarinas, jovens vestidas de branco, dançam nesta praia encantada demonstrando sua juventude e seus sonhos. Em alguns momentos, elas se juntam, e, com suas saias enfunadas, figuram barcos partindo para horizontes de sonho. A música, apropriadamente, é La mer, de Debussy.
No sexto quadro, as meninas saem e deixam apenas duas em cena, Albertine e Andrée. Sob o título "a prisão das dúvidas" as duas dançam ao som de Syrinx pour flûte seule e deixam no ar uma tensão voluptuosa, que não chega a se desenvolver plenamente, mas que persiste, como um eco distante.
O último quadro do primeiro ato é uma obra prima.A cena se inicia toda negra, apenas com uma enorme cortina de seda branca à esquerda, derramando-se sobre o que parece ser um leito, onde dorme Albertine. No quarto, um jovem Proust, de colete, a admira. Ela acorda e a dança vai se tornando um ballet cada vez mais sufocante para a bailarina, que tem seus movimentos tolhidos e cortados pelo parceiro até que ela, cada vez mais apática, se enrijece, como uma morta. O bailarino, ternamente, deposita-a com cuidado sobre a cama cenográfica, que se revela um alçapão. A bailarina some e a cortina, que parecia um facho de luz sobre o leito, se desprende e cai como uma nuvem que se desfaz pelo efeito do vento. Foi tão lindo o efeito que toda a platéia gritava emocionada: Bravo! As palmas soaram como os trovões repentinos de uma chuva de verão.
Ah, que lindo! O mais triste foi não ter com quem compartilhar minha emoção, já disse isso. Ensaiei duas palavras com a vizinha do lado, e me calei, sem saber mais o que dizer. Examinei todos os detalhes do teatro -- o teto pintado por Chagall; as inúmeras esculturas em talhas douradas - o que seriam? anjos? violinos? partituras?; o fechamento do palco por um painel imitando uma cortina desalinhada; os lustres de cristal; as cadeiras forradas e confortáveis, que não rangem e se colocam a uma distância confortável umas das outras. Examinei também os camarotes. Qual seria o da duqueza? Em que cadeira o autor se teria sentado para sonhar as apresentações da Berma?
Olhei em volta, as pessoas retornavam a seus lugares e todas estavam bem-vestidas, elegantes, e em seus rostos havia uma espécie de luz despertada pelo prazer do espetáculo.
Em outro post conto do segundo ato. Assim podemos todos respirar e refletir.
Agora, então, posso me dedicar a comentar mais quadros do ballet de Roland Petit. Vamos aos três últimos quadros do primeiro ato do ballet.
Quinto quadro - As raparigas em flor. Ao fundo uma paisagem marinha, de cores impressionistas. As bailarinas, jovens vestidas de branco, dançam nesta praia encantada demonstrando sua juventude e seus sonhos. Em alguns momentos, elas se juntam, e, com suas saias enfunadas, figuram barcos partindo para horizontes de sonho. A música, apropriadamente, é La mer, de Debussy.
No sexto quadro, as meninas saem e deixam apenas duas em cena, Albertine e Andrée. Sob o título "a prisão das dúvidas" as duas dançam ao som de Syrinx pour flûte seule e deixam no ar uma tensão voluptuosa, que não chega a se desenvolver plenamente, mas que persiste, como um eco distante.
O último quadro do primeiro ato é uma obra prima.A cena se inicia toda negra, apenas com uma enorme cortina de seda branca à esquerda, derramando-se sobre o que parece ser um leito, onde dorme Albertine. No quarto, um jovem Proust, de colete, a admira. Ela acorda e a dança vai se tornando um ballet cada vez mais sufocante para a bailarina, que tem seus movimentos tolhidos e cortados pelo parceiro até que ela, cada vez mais apática, se enrijece, como uma morta. O bailarino, ternamente, deposita-a com cuidado sobre a cama cenográfica, que se revela um alçapão. A bailarina some e a cortina, que parecia um facho de luz sobre o leito, se desprende e cai como uma nuvem que se desfaz pelo efeito do vento. Foi tão lindo o efeito que toda a platéia gritava emocionada: Bravo! As palmas soaram como os trovões repentinos de uma chuva de verão.
Ah, que lindo! O mais triste foi não ter com quem compartilhar minha emoção, já disse isso. Ensaiei duas palavras com a vizinha do lado, e me calei, sem saber mais o que dizer. Examinei todos os detalhes do teatro -- o teto pintado por Chagall; as inúmeras esculturas em talhas douradas - o que seriam? anjos? violinos? partituras?; o fechamento do palco por um painel imitando uma cortina desalinhada; os lustres de cristal; as cadeiras forradas e confortáveis, que não rangem e se colocam a uma distância confortável umas das outras. Examinei também os camarotes. Qual seria o da duqueza? Em que cadeira o autor se teria sentado para sonhar as apresentações da Berma?
Olhei em volta, as pessoas retornavam a seus lugares e todas estavam bem-vestidas, elegantes, e em seus rostos havia uma espécie de luz despertada pelo prazer do espetáculo.
Em outro post conto do segundo ato. Assim podemos todos respirar e refletir.
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