Friday, June 01, 2012

De amores e de amigos

Estranho a nova aparência de meu blog. Quando tiver um tempo e aprender mais um pouquinho, mudo tudo!
Por hoje quero apenas comentar a linda noite de lançamento de O amor acontece. Só que já parece que faz um ano que aconteceu e, no entanto, foi só anteontem! Os dias parecem correr mais depressa, e eu me espanto com tanta velocidade. Creio que funciono melhor no tal do tempo psicológico, que encolhe e estica de acordo com as emoções. Quero prolongar os momentos felizes, mas eles passam rápidos demais. Mas os momentos de tristeza, ultimamente, também andam se atropelando e eu me sinto como nas aulas de piano, incapaz de acompanhar o ritmo indicado.
Estou de novo martelando as teclas e os ouvidos pacientes de meus vizinhos. Estou na terceira aula, a caminho da quarta. Para comemorar, comprei dois métodos de piano e dois livros com musiquinhas que executarei sem dó nem piedade! As cinco notas da mão direita já estão aprendidas. As da mão esquerda… quase. Dó, si, lá, sol, fá. Difícil encontrá-las na pauta, embora nas teclas não seja tão mau. Mas vejam a minha ambição: parcamente alfabetizada, já vou em busca de livros e me encanto quando toco alguma coisa parcamente identificável!
E, se isso acontece na música, imaginem no meu lado escritor: mal acabo de publicar O amor acontece já estou fazendo planos para O amor acaba. Pode parecer o oposto, mas não é. Também é um livro muito alto astral, com muito humor, só que trabalhando uma angústia feminina, a de perder o companheiro no momento em que o relógio biológico se acelera! Passando do desespero ao bom humor, minha heroína dá a volta por cima e é assim que o amor acaba…bem!
Isso tudo enquanto escrevo um trabalho sobre Jorge Amado, que vou apresentar em Lisboa e no Cairo, preparo aulas sobre Proust e termino o romance sobre Rimbaud! Não admira que eu anseie por um relógio mais camarada.

Vou, então, à prática do piano. Depois, às leituras. Mas aqui fica uma foto do amor acontecendo na Livraria Argumento.

Monday, May 21, 2012

Amor à leitura

Passei a semana providenciando detalhes para o lançamento de O amor acontece. Mas encontrei tempo para ir até Monte Alto, em São Paulo, onde participei do projeto Caminhos da Leitura.
Tenho fotos da cidade lindinha e bem cuidada, bem como dos fósseis de Titanossauros que habitavam aquela região. Imaginem que lá no Centro Cívico da cidade está localizado um interessante Museu Paleológico, fiquei fascinada.  Adorei as pessoas com quem tive a chance de interagir, e mando meu abraço a todos do Projeto Guri, e das escolas que participaram do primeiro dia do projeto. Que ele tenha muito sucesso e repercussão.

Saturday, May 12, 2012

Estive ali!

Hoje no jornal aparece um lindo apartamento na Toscana, e eu estive lá! Numa de minhas andanças pelo mundo afora, fui visitar a mãe da dona do apartamento, que mora em Siena, por conta de uma história de amor que é das mais românticas. Dessas histórias de amor que sempre acontece com os outros, mas nunca com a gente mesmo. Uma mulher madura, depois de quase morrer, acaba por encontrar seu amor na internet e, aventureira, vai ao encontro de seu Romeu, em Siena. A família desaprova, mas ela insiste e, depois de algum tempo, a filha não só aceita o novo casamento da mãe como escolhe a cidade de Siena como seu ponto de apoio na Europa.  Pois bem, estive lá e o apartamento ainda não estava terminado, mas tudo o que ali está retratado já estava pronto. Os móveis, os quadros, o enorme relógio na parede de tijolinhos, os sofás todos recobertos de plástico, pois ainda estavam pintando a sala, e a poeira se espalhava por cima da enorme mesa de jantar, cujas cadeiras estavam completamente embaladas, para não se estragarem. Tenho fotos na varanda que tem essa vista lindíssima, e de onde podemos escutar os sinos das Igrejas deslumbrantes. Passeei pela cidade com a mãe e seu Romeu, um gentilíssimo italiano que nos levou à volta da muralha para conhecer as sete portas da cidade. Nossa guia leva uma vida meio retirada, seu ninho de amor fica perto da fazenda onde foi filmada aquela novela da Globo que tinha um Tony Ramos meio boboca, que foi enganado por uma mulher mais nova.
Bem, aproveito aqui para mandar um beijo para nossa anfitriã, que deixou saudades em nós duas, Helena e eu. Para quem não sabe, Helena, aos 92 anos, é uma amiga animada, que me acompanha em viagens e leituras, e me serve de inspiração.

Monday, May 07, 2012

Mudou tudo, nada mudou.

Apertei algum outro botão, e tudo mudou. Já não reconheço mais o blog, mas, ao menos, aqueles erros que todo mundo via ao abrir esta página foram para o espaço. Não tenho mais capinhas de livros repetidas equivocadamente para mostrar, não aparecem mais os blogs dos amigos (alguns até desativados, mas eu não sabia como tirar dali). Agora são só palavras. Nem cor mais… Quando tiver tempo, vou ver se melhoro alguma coisa, prometo.
Mudou também o governante da França. Eles agora têm o seu Chico, que pode não ser Buarque, mas é de Hollande. Torço para que a festa de ontem dure 5 anos. E que minha douce France continue uma terra encantada.
Tudo mudou. Mas nadanonada continua sobrenadando minha incompetência. Agradeço a vocês, meus leitores, que me incentivam a continuar. Obrigada!

Sunday, May 06, 2012

Detalhes da escrita

Abro o jornal hoje e leio o Ubaldo falando de como seus assuntos se desviam, apesar de sua vontade. Quem já me ouviu falar nas oficinas e palestras que andei fazendo por aí, sabe que, como escritora, minha autonomia é cerceada pela própria história. A palavra escrita tem uma lógica própria, e nos faz entrar em descaminhos, em divagações, em retornos inesperados. Navegamos na página sem GPS, guiados por estrelas que mudam de constelações, rindo de nossos astrolábios. Concordo com o querido João Ubaldo, e fico pensando quanto dessa nossa pena insubmissa se deve às lições dos livros amados? Pois dois mestres muito queridos, pelo menos esses dois, tenho certeza de que compartilhamos: Machado e Homero. O velho Borges, que não é meu mestre, mas que muito me fascina, bate com sua bengala para me chamar a atenção, e avisa: "não se esqueça das Mil e uma noites!" Faço que sim com a cabeça, mas o coração discorda. Minha paixão por Machado e por Homero são coisas da adolescência, época em que já temos discernimento suficiente para apreciar as leituras com corações e mentes.  Minhas mil e uma noites foram puro encantamento infantil, como aquela coleção adorada dos Melhores Contos de Fada de… e cada livro se dedicava a um país. Podia ser Hungria, França, Rússia, Portugal. Sei que aprendi muito com eles. Li coisas que depois descobri que eram clássicos medievais, como o Roman de Renard. Por mais que me esforce, meu amante alemão me proibe de lembrar o nome da tradução infantil, para o livro. Provavelmente "As histórias de Renard, a raposa", na corte deliciosa em que o leão era rei, coroado e tudo o mais, e o grande vilão era o Lobo, mas onde os Mastins também eram maus e violentos. O outros bichos apareciam e formavam uma sociedade complexa, rica, onde as vítimas eram sempre as Galinhas. Não digo que somos regidos por uma lógica diferente da nossa? Lá ia eu explorando um assunto e agora me vejo aqui, falando de uma história da qual nem sequer me lembro direito, mas que deseja ser reconhecida entre meus farrapos de memória.
Volto a Machado e Homero, os dois reis das digressões. Homero resgata o mundo a partir das histórias de Odisseus. Sei que o Ubaldo prefere a Ilíada, mas sou fã da Odisseia, que acredito ser a "mãe" de todas as narrativas. Não vou dizer porquê. Nem saberia, num blog, explicar minha tese. Seria necessário escrever outra tese, e nessa não me meto. Prefiro ser borboleta de um jardim de muitas flores que jardineira de uma única espécie. Portanto, lá vou eu em nova digressão, falando das histórias de Odisseus, que nos ensinaram desde geografia a história, que exemplificaram a criação do mundo, o sagrado e o profano, desvendaram o reino dos mortos, revelaram os perigos da sedução e os ardis da arte, e, no final, nos levaram a bom porto! Tudo isso pela boca de um mentiroso, que é a jogada mais genial de toda a Odisseia. Quem conta as histórias é reconhecidamente um grande embusteiro. Deixe a musa encantar o Ubaldo, e cantar a cólera do semideus Aquiles. Eu fico com as mentiras de Odisseus, humano como eu!
E, naturalmente, com Machado, o esperto Machado. Com ardileza, ele nos leva a pensar aquilo que ele deseja que pensemos: estratégia do fraco esperto, que aprendi – e agora se explica a intromissão – nas histórias de Renard, a raposa. Vamos e voltamos, e nunca saímos do lugar – e isto é a Odisseia… Navegamos num mar de leituras e aí venho a falar da Marta Medeiros que hoje comenta que prefere ler aqueles que são melhores do que ela. Sim, dona Marta. É sempre mais edificante lermos o que foi escrito pelos grandes mestres. Mas também é bom lermos nossos pares, e até mesmo aqueles que nem parecem dominar ainda a arte da escrita. Se olharmos sempre para cima, ficaremos com torcicolo e nos achando incompetentes. É preciso nos avaliarmos também com jogadores do mesmo nível e até mesmo bater uma bolinha com outros que ainda não nos alcançaram. Esses são os diálogos que nos reasseguram e reforçam nossa autoestima. Mas nada de abuso, se ela começar a crescer demais, corramos para os clássicos, para os excelentes, para os divinos: eles nos revelarão nossa justa medida!

Wednesday, May 02, 2012

Livros

Há muito não falo de minhas leituras. Mas continuo lendo muito, embora já não leia tanto quanto no passado, por culpa dos óculos. Adorava ler na cama, mas agora já não consigo mais. Os óculos saem do lugar, e acabo me chateando e desistindo. Mas leio por "devoção" e por distração. Minha diversão é ler, meu hobby é a leitura, meu prazer é, basicamente, lido. Leio os livros dos amigos, e muitos lançaram livros, ultimamente. Tenho uma filinha de livros de amigos. No momento estou terminando o do Molica, que fala sobre a vida de seu bisavô, o compositor Julio Reis. Já li o da Angela Dutra de Meneses, O incrível geneticista chinês, livro cômico, sobre o Dr. Wang, imaginário inventor da cura da chatice e da obesidade. Exílio, da Marcela Tagliaferi também aguarda. Por devoção, isto é, trabalho, li Regente Plutão, da Cleusa Maria, para fazer uma resenha. E, por mera curiosidade e desejo, li Livro, de um português chamado José Luís Peixoto. E estou lendo The Lady in Gold, a história do quadro de Klimt que retrata Adele Bloch-Bauer e que foi arrematado pelo herdeiro da Estée Lauder, depois de ter sido devolvido à família de quem havia sido confiscado pelos nazistas. O livro conta a história do quadro e da batalha jurídica para recuperá-lo. Mas também conta a história da Viena da Belle Époque, conta da sociedade que se desenvolveu na cidade que já foi o centro da Europa e que hoje, ainda linda, já não tem mais a importância de outrora. Incrível a quantidade de pessoas interessantíssimas que viveram em Viena no fim do século dezenove. Ainda não penetrei muito na leitura, mas já estou deliciada com as histórias de Klimt e seu irmão Ernst, morto tão jovem. E com vontade de fazer as malas e voltar a caminhar pela Ringstrasse, de ir tomar cafés nas "Colombos" de lá, de escutar música nos seus cafés concertos e nos teatros…
Bem, volto à leitura. Só fiz esse post para deixar vocês com água na boca!

Monday, April 30, 2012

Nada mudou?

Nada! Ou melhor, mudou meu retratinho do perfil e a maneira que aparece a tela aqui para eu digitar. De resto, o nadanonada continua igualzinho a antes. Tudo bem. As coisas aqui na terrinha também não mudam desde o Brasil colônia. E, o pouco que muda é para pior. Então, continuemos mais um pouco, até que outro botão me tente mais uma vez. Bem, a não ser que um Mandarim lá na China tenha caído fulminado, mas ninguém me avisou nada. Até porque, com tantos chineses, é bem provável que um tenha caído duro no exato momento em que cliquei meu botão. Mas isso seria uma mera coincidência. Ou não, conforme diriam Caetano e Jung.
Fui ver o filme sobre Freud, Jung e Sabina Spielrein. Gostei? Não muito. Logo de cara, fiquei apavorada com as caretas da bela Kyra Knightley. Será que o diretor mandou que ela fizesse todos aqueles esgares? Não gosto muito dela como atriz, embora ache que ela é bonita. Aliás, todos no filme são muito bonitos. E as locações e figurinos são maravilhosos. Mas achei que a questão do nascimento da psicanálise, ou psicoanálise, como Freud preferia que dissessem, se apequenou no filme que tornou a todos "demasiadamente humanos". E as preferências sexuais de Fraulein só entusiasmaram mesmo o Jung, que caiu em tentação. E por falar em cair, estou elaborando uma teoria, para uso próprio: a Terra anda rateando, está dando umas travadinhas, como aquelas freadas inesperadas e rapidinhas que os motoristas de ônibus costumam dar, para "arrumar" os passageiros. Tenho reparado num número enorme de pessoas com algum tipo de imobilização, ou muletas, ou bengalas que andam pelas ruas do Rio. Aonde quer que eu vá encontro um rapaz de perna imobilizada, uma senhora com o braço na tipóia, uma criança com alguma marca de queda. De todas as idades, atléticos ou sedentários, fortes ou fracos, estamos vivendo no "vale dos caídos". Primeiro andei culpando a cidade e suas calçadas e ruas mal cuidadas. Depois percebi que devia ser algo cósmico: a Terra está de motores engasgados, rateando, derrubando a nós, humanos, e outras espécies também. Ontem à noite tive a confirmação: enquanto tomava um suco no Bibi, um morcego caiu da árvore em frente. Depois de vagar um pouco desnorteado, acabou pousando no chão, no canteiro do outro lado da rua. Só mesmo por conta de uma travadinha da rotação! Mas talvez uma blogueira lá na China tenha clicado um botão, e fulminado o morcego daqui, por falta de mandarins…

Saturday, April 28, 2012

Mudanças e comparações

Mudei o perfil, agora sou google +, espero não me arrepender. Depois de tanto tempo escrevendo daquele jeitinho de sempre, sem mudar nada porque nem sequer sabia mudar nada (afinal, trata-se de nadanonada, né?)  resolvi tentar me modernizar um pouco. Em verdade, esses brinquedos vão ficando cada vez mais fáceis, pensando em pessoas atoladas como eu, que persistem nas formas antigas, eles nos tentam, com um único clique e sucumbimos. Cliquei. Vamos ver no que é que dá.
Será que alguém aí se lembra do conto do Eça, O mandarim? Tem semelhanças com a minha tentação: basta apertar um botão, vamos apertar? Você não vai sentir nada, mas haverá uma consequência. No meu caso, mudo o meu blog. No caso do conto, morre um mandarim. Qual é a tentação? Por que sucumbimos? Talvez eu tenha me condenado aos remorsos eternos que suponho que o executor do mandarim deve de ter sentido. O caso dele era mais grave, uma questão ética. O meu caso é banal, mera curiosidade. Mas as tentações existem para que a gente sucumba a elas. Só assim podemos criar os paraísos perdidos e lidar com realidades que preferiríamos não ter que lidar. Vejam hoje, no jornal, a pequena notícia no Ancelmo que revela a contratação, pelo prefeito de Niterói, de médicos, serventes e coveiros  pelo salário de R$622,00. Salários iguais para todos. Não acredito que os coveiros tenham a mesma necessidade de especialização dos médicos, mas, ao fim e ao cabo, do jeito que anda vergonhosa a nossa Saúde e também a nossa Educação, vai ver que existe uma lógica. O problema é  que, no mesmo Diário Oficial, o prefeito  Sessim (devia se chamar Senão) contratou shows para a festa de aniversário da cidade, pagando 185 MIL reais para o Zezé e Luciano e 135 MIL reais para o Jota Quest.  Esse prefeito não entendeu o preceito romano de panis et circenses. Dê o circo, tudo bem, mas dê dinheiro aos trabalhadores para comprarem seu pão!  Esses músicos vão ganhar num show de duas horas, eu suponho, aquilo que os médicos e os coveiros terão que passar umas 30 MIL horas trabalhando para ganhar. Matemática não é o meu forte, aconselho vocês a fazerem suas próprias contas!!!!
Amanhã eu volto, se o botão que cliquei não decidiu a extinção deste nadanonada.

Thursday, April 19, 2012

Dia do índio

Dia 19 de abril, porque será que escolheram essa data para dia do índio?Talvez porque logo em seguida, nos idos de 1500, aportou por aqui a frota de Cabral e eles deixaram de ter sossego. Seria? É bem plausível. Por falar em índios, fui ver Xingu, e fiquei com uma vontade doida de ver Kuarup. Se o filme de agora tem qualidade e excelentes atores, e se baseia na vida de pessoas admiráveis como os irmãos Villas Boas, o outro tem a seu favor a obra literária e seus insights, que, de certa maneira, o tornam mais profundo que a realidade filmada pode ser. Sei lá, aprendo mais através da ficção que da vida real. Mas, admito, às vezes a vida real é uma boa ficção. Esta madrugada, o Discovery Channel estava mostrando um programa sobre relógios que me deixou fascinada: a origem do relógio se deve à necessidade de regulação da vida sexual de um remoto imperador chinês. Pensei que, com uma legião de mulheres e concubinas ele precisasse de dividir o tempo destinado a passar com elas de maneira justa. Mas não era nada disso. Para os chineses, o horóscopo de uma pessoa se deve ao momento da fecundação, e não ao do nascimento. Por isso eles precisavam organizar as visitas das mulheres do imperador de maneira que no momento mais propício para o surgimento de um herdeiro ele estivesse com a Primeira Esposa… Um sábio inventou um mecanismo que marcava horas, dias e fases lunares, garantindo assim os melhores sucessores para seu imperador. Claro que fiquei fisgada pelo programa, e assim aprendi também a origem da Clepsidra. Clepsidra era o nome de uma prostituta popular entre os gregos de uma cidade cujo nome não fixei. Ela percebeu que alguns de seus clientes eram rapidinhos, outros mais demorados, e para não ficar em desvantagem, criou uma espécie de taxímetro. Numa bacia cheia d'água ela colocava um recipiente com um pequeno furinho no fundo, pelo qual ia entrando a água até que o recipiente afundasse e fizesse glub! A cada glub correspondia uma tarifa, e Clepsidra só não patenteou sua invenção porque o instituto de patentes ainda não tinha sido inventado. Mas ficou rica, suponho. E deu seu nome aos relógios de água. Gosto muito de ampulhetas: seu desenho elegante, a pressa de suas areias, capturadas entre dois mundos, a sugestão de secura, de frágil inutilidade me fascinam. Mas elas precisam ser observadas com atenção: quando será que o tempo que marcam acontece? Basta desviarmos o olhar por um instante e puf! Ficamos sem saber exatamente quanto tempo decorreu. Lembro-me, então, da crueldade da marcação do tempo no Brasil Colônia: alguns senhores de escravos amarravam um de seus negros e colocavam, sobre sua cabeça raspada, uma vela acesa. Quando o negro gritasse de dor é porque a vela tinha derretido toda e estava queimando sua pele. Terrível, não? Eu, pequenina, acreditando no Negrinho do Pastoreio, achava que ele se ocupava em soprar as velas que acendiam na cabeça de seus protegidos. Pobre Negrinho. Pobres escravos. A história de nosso país está mesmo cheia de casos tristes e um dos mais tristes que conheço é a história de uma tribo que, removida de sua região e confinada numa reserva, se suicidou inteira da maneira mais simbólica possível: comendo terra. Com saudades de sua terra, eles comiam a terra do exílio, uma terra fatal. Afinal, aprendo muito com a realidade. Mas é porque sempre coloco, junto aos fatos, um grãozinho de imaginação, que me faz vivenciar estes episódios. O conhecimento que não apropriamos, não nos traz crescimento. Mantém-se superficial, informativo, e acabamos por esquecê-lo. Aquilo que experimentamos, nem que seja no faz de conta, torna-se uma lição para toda a vida. Portanto, o Tuatuari que vi em Xingu, nunca será o Tuatuari que conheci em Kuarup, e amei a partir dos sons onomatopaicos das aguinhas correndo ligeiras. Preciso mesmo de ver Kuarup, para complementar esse Xingu!

Tuesday, April 17, 2012

O amor acontece

Vem  chegando um livro novo e eu começo a ficar impaciente, doida para vê-lo logo impresso, à venda nas livrarias. Todo mundo compara lançamento de livro a parto, e é com razão. Chega num ponto que a gente não aguenta mais esperar para ver a "carinha", examinar os detalhes, curtir tudo aquilo que a nossos olhos parecem perfeições.
Aprovei a capa, que achei bem do jeitinho do livro, mas agora fico aqui roendo as unhas imaginando se o tom é esse mesmo ou se vai se modificar na capa, se as pessoas vão gostar. Daí que passo para qual será a recepção que ele terá. Será que o público vai gostar? Será que vão comprar? Será que a imprensa vai comentar? Lógico que penso também no dia do lançamento: será que vai aparecer alguém? E minhas idéias de brindes, será que são boas? E o local do lançamento, será apropriado? E a época? Ah, quanta ansiedade.
Para tentar me acalmar, resolvi criar uma página para ele no Facebook. Agora estou na dúvida se fiz o trabalho direito. Será? Acho que isso só me provoca mais ansiedade.  Ah, desculpem. Estou assim, sem conseguir funcionar direito, só vejo o lançamento na minha frente. O pior, ou o melhor, é que tenho lançamento na semana que vem, na FNLIJ. No dia 24, sai o livro da Laura Sandroni, Contos para jovens de todas as idades, do qual participo com um conto chamado "Seduções", onde misturo Gonçalves Dias com Tabela Periódica para contar uma história da descoberta do amor por um adolescente… Eu adoro este continho, espero que ele seja bem recebido. No dia 25, lançamento duplo de A cobra e a corda e de Botas e bolas, meus dois infantis, com ilustração da Fernanda Moraes. E, ainda sem data marcada, mas já pintando no horizonte, o lançamento, em Juiz de Fora, de Erratas pensantes, em colaboração com a Rachel Jardim. Este livro é decorrência de uma palestra que fizemos no ano passado e a Universidade Federal de Juiz de Fora resolveu publicar. Mais um filho querido! Isso sem esquecer O livro branco dos Beatles, antologia que será lançada em 18 de junho (provavelmente), na qual tenho o conto "Ticket to write". Como sou beatlemaníaca (ou fui, agora já não tenho mania de nada) também estou ansiosa por esse, esperando que seja muito bem recebido.
Esses sonhos de mother to be… sempre os mesmos, sempre cheios de esperança, vão me ocupando e me tirando o sono. Acho que ainda voltarei ao assunto.


Saturday, April 14, 2012

Hello, stranger!

Acho que posso cumprimentar o blog e meus leitores com esta saudação, já faz tanto tempo que ando sumida… Falava de perdas: Chico, Tabucchi, Millor, e acho que me perdi a mim mesma. Fiquei deprimida, acreditem ou não. Depois fui melhorando aos pouquinhos, o fim de semana de Páscoa, com a família, ajudou, e depois entrei numa roda-viva de atividades que me deixaram tão cansada que ontem acabei ficando de cama. Ontem não consegui sair de casa, por mais que tivesse vontade. O bom foi que fiz umas coisas que há muito não fazia: ler revistas, por exemplo. Li a Piauí e a Veja, e de quebra uma revista bonita que vem dentro do Globo, mais propaganda que outra coisa, visto que é Magazine Casashopping, ou seja, uma vitrine para o estabelecimento. Aliás, por falar em revista, fiquei sabendo que o condomínio Península mantém uma revista. Isso me alegrou: se existem revistas, é porque existem leitores. Outra coisa que me alegrou, foi que a Globo está com uma nova atitude nas novelas – as personagens lêem! Achei fantástico, outro dia, ver o Tufão, um jogador de futebol (que deve estar aposentado, pois nunca o vi treinando nem mesmo jogando), lendo Kafka na cama! Que máximo. E ele comentava com a mulher aquilo que lia, falando com admiração do homem que acorda e se vê transformado numa barata. Imaginem se o autor, para minha sorte, resolva fazer a mulher retrucar que está lendo a história de uma mulher que vê uma barata se transformar em homem, mas, apesar de se sentir um pouco responsável, acaba desistindo do projeto de humanização do outro… Huummm… muito complicado. Acho que meu conto, O inseto, não vai ter vez na TV Globo, não… Brincadeiras à parte, vejo que a ex-catadora de lixo também gosta de ler, e fico torcendo para que ela faça o ex-Batata (e quem sabe neste apelido não esteja a explicação para ela ter virado chef) se tornar um leitor. No núcleo doa bacanas, ninguém lê. Pelo menos eu ainda não vi ninguém lendo, mas sou uma noveleira infiel. Acho que foi por puro acaso que esta me pegou, combinando minha depressão com os bons desempenhos dos dois capítulos iniciais. Depois já perdi alguns (muitos) capítulos, ou porque me esqueço, já que não tenho hábito de assistir novelas, ou porque estou na rua, em lançamentos, em exposições, em jantares, em compras. Eu disse, tive uma semana muito agitada. E as próximas duas prometem ser ainda mais movimentadas do que esta que passou.  Quarta, quinta e sexta feira da outra semana vou falar para meus leitores infantis. Na quarta, estarei na FNLIJ, na quinta e na sexta em duas sedes de uma mesma escola, a Aldeia. Aliás, eu mesmo preciso anotar: Quarta-feira, às 14horas, é o lançamento de meus dois livros infantis: A cobra e a corda e Botas e Bolas, no FNLIJ. Estarei no estande, acompanhada pela minha fabulosa ilustradora, a Fernanda Moraes. E no dia anterior, no mesmo horário, temos o lançamento do livro da Laura Sandroni, Contos para jovens de todas as idades, do qual participo com um conto, "Seduções".
Puxa, queria escrever sobre coisas menos circunstanciais, mas quando vi, fiz uma espécie de agenda on line. Desculpem-me. Amanhã volto, espero eu, com algum texto reflexivo. Este foi só para desenferrujar.

Monday, March 26, 2012

Lá vai o Tabucchi

Quantas perdas!
Chega um ponto na vida da gente que temos mais amigos do "outro lado" que a nosso lado. Eu, então, que comecei cedo a perder parentes e amigos, já me sinto quase lá. Ainda era menina quando comecei a frequentar o São João Batista. Meu bisavô, minha bisavó, pai, avó, mãe, avô, tio, entremeados de amigos mortos em acidentes, e das incontáveis histórias de parentes que não cheguei a conhecer, mortos de tísica, ou de amor (o famoso e popular suicídio de veneno com guaraná). Depois foram amigos mortos no 9-11, um num dos aviões, outro na Torre. Minha sensação de imortalidade foi abalada bem cedo, de repente comecei a ver a possibilidade da morte em casa episódio da minha vida. Crianças amadas, levadas depois de sofrimentos inimagináveis. Bichinhos de estimação, madrinha e padrinhos queridos, amigos novos estupidamente levados por tumores fulminantes, amigas mais velhas que se foram depois de doenças mais ou menos longas. Meu marido adorado, cuja perda me fez entender que podemos morrer em vida.
Agora lá se vai o Tabucchi, o italiano que quis ser português, por entender como ninguém o sentimento de um povo que amo sem entender muito bem.
Não quero ficar contando os que estão encantados, como diz o Guimarães Rosa. Também não quero contar os que continuam me encantando, por uma questão de superstição. Mas tenho a certeza de uma coisa: quando eu for, terei um céu povoado de pessoas maravilhosas, que me acolherão e nem vão reparar no quanto mudei. Pois mudei, mudamos todos, a cada dia. Mas serei reconhecida pelos olhos do amor que nos uniu.
Mas, lembrando meu padrinho, talvez nos vejamos todos no Inferno, destino que ele tinha certeza de que seria o seu. Grande apreciador de mulheres, bebidas e da boa vida da praia, ele brincava dizendo que só seria castigado indo para o céu, onde não conhecia ninguém. O inferno era a pasárgada deste bon vivant.  Para onde for que esteja carimbado o meu bilhete, espero que seja ao lado do Guilherme pois, com ele, qualquer lugar sempre foi o paraíso.

Saturday, March 24, 2012

Lá vai o Chico.

Olho para o céu e, numa clareira entre as nuvens, vejo uma estrelinha que parece passar pelo céu. Imagino que seja o Chico, presença tão constante na TV, que encantou muitas das minhas noites com seu humor e sua criatividade aparentemente inesgotável. Agora, nestes últimos meses, sempre que falávamos no Chico eu descobria alguma coisa que preferia não saber: vícios, mau humor, etc. Eu desligava. Tecia alguma desculpa e preferia pensar no Chico que amava as mulheres, que teve filhos brilhantes, que deu emprego a tantos amigos, que criou personagens que ainda vivem. Como esquecer? Passei minha vida inteira vendo o Chico, só quando os programas pararam de ser exibidos na Globo é que parei de assisti-lo. Bem, confesso que não gostava da Escolinha. Mas gostava do professor Raimundo. E das incontáveis personagens que ele fazia. Como não gostar de Coalhada, do Bozó, do Alberto Roberto? Do Baiano? E da Salomé, do Pantaleão, de Painho? Daquele latin lover cujo nome esqueci e sua "Biscoito"? Do Bento Carneiro, o vampiro desdentado e desnutrido? Não sou boa de nomes, mas me lembro de muitas outras, arremedando políticos, artistas, figuras populares. Eram tantos, tão variados, sempre engraçados. A maquiagem era primária, as perucas horríveis, mas tudo isso compunha de tal maneira a personagem que aceitávamos sem questionar. Chico foi a Meryl Streep do humor. Capaz de convencer, de mudar de voz e sotaque, de representar, arte pouco conhecida entre nossos atores.
Fico aqui, no meu canto, sem vontade de sair de casa. Vontade até tenho, mas me assusto ao ver que os cinemas estão cheios demais, que ora faz muito calor, ora chove muito. Fico em casa, desencorajada. E tento trabalhar, mas vou daqui para ali, e não faço muita coisa. Leio o jornal, penso em alugar um quarto para um dos participantes do Rio + 20. Eu não! Esbarrar com alguém dentro de casa me faz sentir ameaçada. Acostumei com o silêncio, com a mesmice. E, além do mais, minha casa está cheia de livros, amigos que pedem um pouco de tranquilidade para serem curtidos. Ando, rodeio, computo, leio, penso, sonho, e, quando vejo, o dia acabou. Não fiz muita coisa. Mas não custou tanto assim a passar. Já posso voltar para a cama, pensando: amanhã faço mais.

Friday, March 23, 2012

Mudanças

Nós, os brasileiros, não somos um povo muito afeito a mudanças. Geralmente ficamos pela cidade onde nascemos, ou naquela que elegemos. Quando morei nos EUA, descobri a "impermanência", essa mudança a cada dois anos para cidades e países distantes; a ida dos filhos para universidades no outro lado do país; a troca de residência por ocasião da aposentadoria; costumes que nos parecem, ainda hoje, um pouco estranhos. Mas cada vez mais precisamos nos adaptar. Eu mesma já mudei mais de dez vezes, mudanças nacionais e internacionais. Tenho um cartão de cliente preferencial em guarda-móveis, se é que esses cartões existem. Porque aqui as pessoas não se desfazem de seus cacarecos a cada mudança. Lá nos EUA mobiliei as três casas em que vivi com móveis comprados em Tag Sales. Geralmente acontecem no verão, as famílias em mudança abrem as portas de suas casas e vendem tudo, até as roupas! Confesso que algumas até comprei: aqueles casacos de neve que as crianças usam por duas semanas e perdem antes mesmo de terminar a estação, foi assim que agasalhei meus filhos ao chegar lá. Isso porque eles chegaram doidos para ver neve, brincar na neve, esquiar, andar de sleds, coisas que cariocas só conhecem de ouvir falar. E, temerosos, queriam todos os casacos do mundo. Logo descobriram que ali onde morávamos dava para esquiar de calça jeans, pois o exercício aquece, e os casacos e calças atrapalham os movimentos. Eu, que nunca consegui aprender a esquiar, ficava na base da montanha encarregada de segurar os casacos descartados, que as crianças tinham trazido por muita insistência minha, mãe protetora e preocupada. Com o tempo, relaxei. Cuidava apenas de recebê-los com muito chocolate quente e minha afamada sopa de cebola. E não ia mais para os lodges, ficava em casa, lendo e operando a máquina de lavar e secar, equipamento dos mais importantes em estações de esqui e em casas de praia…
Apesar de ser uma especialista em mudanças, isso ainda me desestabiliza. Ter que mudar ou ajudar a família a mudar é exaustivo física e psicologicamente falando. Um misto de esperança e temor, uma grande dose de desencanto: a cada mudança nossos móveis parecem envelhecer décadas. Um sofá que na casa X parecia novo entra num caminhão de mudança e revela toda sua idade e uso ao chegar na nova casa. Mas o que tornou essa última mudança particularmente difícil foi a sensação de retorno. Regressar a um lar que abandonamos é tão difícil como dirigir em marcha a ré. Temos que fazê-lo com cautela, para não deixar que nossas lembranças nos atropelem.

Wednesday, March 21, 2012

Quanto vale?

Quanto vale a vida humana? Outro dia falei nos trabalhadores do edifício ao lado. Hoje acordo com mais uma reportagem sobre o jovem brasileiro morto na Austrália, suspeito de ter roubado um pacote de biscoito. E jornais, TV's e internet continuam falando das mortes – gratuitas – em Toulouse. E a imprensa daqui explora e vai continuar explorando o acidente envolvendo o jovem rico e o ciclista ferrado. E finalmente prendem o rapaz (tão bonitinho, meu Deus!) que, ainda menor, foi um dos que arrastaram o pobre menino preso pelo cinto de segurança, e que agora, aos 21 anos, tinha virado empresário e empregava outros menores no tráfico de drogas. Essas reportagens ensombreceram meu dia, e agora, de tarde, cheguei em casa tão triste, tão deprimida, pensando que não existe muito motivo de alegria em viver em tempos como os que correm. Será que pioramos? Ou temos melhorado e eu estou sendo pessimista? Ontem fui assistir, na ABL, uma palestra chamada Pensar a Humanidade. O douto professor Gianotti e seu anfitrião, o doutíssimo Marco Lucchesi, foram, sem dúvida, brilhantes. Mas não consegui acompanhar o alto voo de suas mentes privilegiadas. Tendo saído do Logos para o Ratio, e do Ratio para a Trindade, eu ia, de sobressalto em sobressalto, fazendo essas piruetas filosóficas quando, sem que eu esperasse o golpe, fui abatida pela crise da matemática. Os números, capitaneados pelo zero, tornaram impossível o pensamento tradicional! Caí no abismo, sem rede de proteção nem paraquedas! O danado do Pi destruiu o raciocínio?! Mas como é que, existindo desde a amena Grécia, só no século 19 ele provocou essa destruição? Talvez pela sua combinação com o zero? Ou teria sido a impossibilidade da unidade? Sim, Marco Lucchesi me deu a entender que não se pode pensar a unidade pois ela deixaria de ser unidade uma vez que seria o Um mais o conceito de Um. Saí da Academia e vi um dos acadêmicos, acabrunhado, sentando-se no fuleiro barzinho ao lado, com certeza tão desconcertado como eu. Pois a alta filosofia, jogada assim no colo de mortais e imortais, pode deixar a plateia fora de combate. Vi o olhar perdido no Nada que o Imortal ostentava. Um Nada muito mais ameaçador que o meu nada, pois eu, mortal, não vou precisar me preocupar com isso por toda a eternidade. Resolvi imitá-lo e fui tomar uma caipirinha, em outro bar, perto de minha casa. Hoje, em crise, penso no nada que é o valor de nossa vida. Nem a leitura me consolou. Sofrendo, desabafo aqui neste nadanonada –cujo nome não poderia ser mais apropriado – Quanto vale a vida? Vale o que não pesa.

Monday, March 19, 2012

Dor no coração

Moro num andar alto. De minha janela posso ver vários telhados e é num desses telhados, de um prédio não tão alto quanto o meu  (mas que deve de ter uns 12 andares) que desde sexta feira estou sendo sistematicamente torturada por alguns trabalhadores que se movimentam sem nenhum tipo de equipamento de segurança. Na primeira tarde, um cara, solitário, se debruçava para chamar um outro, que nunca lhe respondeu. Pelo que posso ver, os homens no telhado são jovens, entre 20 e poucos e 30 e poucos anos. Têm uma vida inteira pela frente. Mas são completamente indiferentes a isso. O solitário andarilho do telhado da semana passada hoje tem um companheiro nas suas lides. Agora há pouco, os dois se movimentavam no parapeito, andando de um lado para o outro, sem nenhuma corda, cinto ou rede de segurança.
Na sexta feira, a cada chamado, meu coração se encolhia todo e doía, apavorado. Tinha vontade de gritar para ele tomar cuidado, mas estava com medo que o meu grito o assustasse e ele despencasse lá embaixo. Vesti-me e fui para a rua. Sábado e domingo eles não trabalharam, mas hoje lá estão eles. Não sei o que faça. Vou sair de novo, e pedir ao meu porteiro que avise o síndico do prédio ao lado. Ficar aqui em casa vendo esses dois desafiando a sorte faz meu coração doer. Literalmente.
Só mais uma coisa:
Hoje fui ao centro da cidade e ao saltar do ônibus, em frente ao Fórum, me vi arrastada por uma multidão que ia em direção à Igreja de São José. Hoje é dia de São José, e eu coloco aqui meu salve a todos os pais de família. Um santo simpático, o pobre carpinteiro, que acolheu a jovem grávida e, devotado, criou seu filho da melhor maneira possível. O que me deixou contente foi ver aquela simples crença popular, uma devoção feita de flores e santinhos, de idas à Igreja e portas abertas, acolhendo a todos. Hoje, que lastimo ver as Igrejas se cercando de grades, de portas semicerradas, horários restritos, ver aquela festa me deixou alegre, com vontade de participar e de rezar um tantinho. Rezo em público pelos pais de família que me fazem tanta falta, e desejo que meus filhos possam amparar e orientar suas famílias com carinho e compreensão. Ofereço-lhe uma flor, metafórica que seja, acendo-lhe uma vela, virtualmente, e relembro, com saudade, o colo que me falta, o olhar de aprovação, o semblante severo que vigiava meus caminhos, para que eu não me desviasse. Agora sigo por minha conta. E pensar nisso me provoca mais dor no coração. Literalmente.

Sunday, March 11, 2012

Fidelidade

Não sei se sou fiel ou se sou apenas chata. Nunca troquei de marido, por exemplo. Enquanto o Guilherme viveu, fui sempre fiel e apaixonada, companheira, parceira, cúmplice. E depois que ele morreu permaneço fiel a esse amor que ainda me habita, apesar da ausência física do amado. Sou fiel a coisas básicas. Posso tomar o mesmo café da manhã todos os dias do ano, sem cansar: mamão, de preferência com algumas gotinhas de limão, café puro, queijo e presunto. Tenho uma amiga que varia seu café da manhã todos os dias. Passei uns dias hospedada em sua casa e me admirei com ela, porta do congelador aberta, absorta em contemplação, sem saber o que escolher para o café. Estávamos nos EUA, onde receio que isso seja mais comum do que eu pensava. Os pais perguntam aos filhos o que vão querer de café da manhã. E cozinham ovos, preparam french-toasts, oferecem três ou mais tipos de cereais (eles devem de ter uns 150 tipos diferentes em oferta, nos mercados), preparam bolinhos, torram fatias de pão, cortam frutas, misturam geléias nos iogurtes criando novos sabores que um dia aparecerão industrializados nas gôndolas… Tanta oferta e as crianças dão duas bicadas no leite, comem metade ou um terço de sua escolha e são obrigadas a deixar tudo para trás pois vão perder a hora. E lá se vai toda a comidaria para o lixo. Não admira que algumas mães engordem tanto depois de terem filhos. Vai ver que, com pena de jogar tanta comida no lixo, elas comam todas as sobras das duas, ou três crianças. O pote de cheerios de um, o lucky charm de outra, o bagel com cream cheese do marido, o ovo que ela havia preparado para si mesma, na tentativa de "cortar os carbs", como eles dizem todas as vezes que entram em dieta.  Acho que aqui no Brasil ainda é mais fácil. Café com leite, pão com manteiga me parece ainda dominar nas mesas. Mas, aí, abriram estes restaurantes que servem cafés da manhã monumentais. O sujeito acorda no fim de semana e não dá mais aquela paradinha na padaria, no caminho da banca de jornal. Ainda se vê um ou outro freguês encostado no balcão, tomando média no copo (ih, é proibido, mas é tão gostoso…) e comendo um pão canoa, com a manteiga derretendo. Agora o pessoal acorda e já vai enfrentar a fila para conseguir uma mesa e tomar aqueles cafés que incluem sucos, ovos, cesta de pães, salada de frutas, iogurtes, geléias, requeijão, cereal, fatias de queijo branco e de presunto de peru (assim fica light, eles pensam). Para as criancinhas, um super milkshake e um queijo quente. Mas, saí completamente do meu assunto, que era a fidelidade! Volto a ele.
Sou fiel até a hábitos. Antes de preparar meu café, vou em busca do jornal, por exemplo. Por isso agora, que o jornal tem subido atrasado, tenho que me refrear para não pegar o interfone e reclamar com a portaria. Na verdade, por que é que preciso de ler o jornal tão cedo? Não preciso. Na verdade, hoje em dia a gente nem precisa ler o jornal. As notícias se repetem, regulares, mudando apenas os protagonistas. Eu, que não sou detalhista, não consigo ver a diferença entre a corrupção de João e de José.  E os países, hoje a Coreia, amanhã o Irã, depois de amanhã – ou teria sido no passado – Cartago, se alternam como ameaças iminentes à paz mundial. O que quero mesmo é ler meus amigos cronistas. Como sou avoada, nunca sei em que dia eles escrevem. Veríssimo, Ubaldo, Jabor, Francisco Bosco, Wisnik, Joaquim, Xexéu, geralmente fico alegre (e surpresa) quando os reencontro. Leio-os, fielmente, há anos. Sendo assim, não abro mão da minha assinatura. Antes assinava o JB também. Depois que ele acabou em papel, deixou de existir para mim. Sou capaz de ler livros digitais, mas jornal digital nem sequer quando viajo! Fico danada com aquelas armadilhas colocadas ao lado da notícia, por exemplo, dos 60 anos de reinado da Elizabeth, que nos oferece as fotos do Harry na comunidade do Alemão em que sempre acabo caindo e me perdendo para sempre. Vou de armadilha em armadilha e, quando vejo, estou lendo sobre as próteses de silicone da atriz fulana que vai se casar com o… Chega! Isso me faz lembrar de minhas idas ao dicionário. Nunca me restrinjo à palavra que busco. Digamos que eu vá ao dicionário em busca de restringir. Afinal, é um verbo pouco usado. Como não tenho dons mediúnicos, nem meu dicionário tem linguetinhas com as letras, abro-o ao acaso e caio, por exemplo, na página que é encabeçada pela palavra Toé. Toé? Nunca ouvi falar, e minha curiosidade se aguça. Leio a definição: que fala de solanáceas e infundibuliformes e até escopolamina. Simplifico: planta que dá barato. Descubro que a página em que caí é uma armadilha. Vejam só outros exemplos: Tola, que revela que nossa tolice não tem limites, uma vez que tola é um outro nome para a nossa cabeça, e também sinônimo de juízo. Mas não para aí. Existe uma tola que é uma espécie de torquês de madeira usada pelos penteeiros… Desisto. Deixo para os leitores o prazer de ir ao dicionário descobrir que penteeiro é quem fabrica …pentes, claro! Mas, estimulada pela recente polêmica em torno da palavra cigano, lá vou eu ver o que está escrito no meu dicionário, um vestuto Aurélio, já meio desmilinguido, de tanto uso.  "Povo que tem um código ético próprio". Politicamente correto, é verdade. Mas, em seguida, lá vem: indivíduo trapaceiro, trampolineiro, velhaco. E termina com: Ladino, astuto, trapaceiro. E agora? vamos queimar o dicionário porque a palavra já foi usada com esses sentidos agora ressentidos? Lá me  perdi de novo de meus assuntos! Volto à fidelidade, dizendo que sou fiel aos meus amigos, e coleciono alguns de muitos e muitos anos de convivência. De um deles, recebi um cartão enigmático: Prolfaças pelo genetlíaco! Deixo a vocês o prazer de procurar o significado, mas já adianto: está escrito em vernáculo!

Thursday, March 08, 2012

Dia internacional da Mulher

A feminilidade é como uma pluma:
não pesa, mas confere beleza e elegância.
Aconchega, protege,
e a gente pode até escrever nossa história com ela.


Wednesday, February 29, 2012

Carolina, Manzano e Vik Muniz


Recebi o pedido de uma amiga, aqui está a palestra feita por mim em Kentucky, em abril de 2011.
Bom proveito, Danielle. Sucesso com seu trabalho.
Carolina de Jesus, Juan Francisco Manzano e Vik Muniz: subtextos e subversões.
Negra, mulher e favelada foram os adjetivos que pautaram a campanha de uma candidata ao governo do Rio de Janeiro, há alguns anos atrás. Um slogan político forte, que lhe deu a vitória. Estas palavras, no entanto, já haviam servido como identificadoras de uma autora, Carolina Maria de Jesus, que teve suas memórias publicadas sob o título de Quarto de despejo, nos idos de 1960.
Seu livro, trabalhado pelo jornalista Audálio Dantas, causou um enorme interesse e foi sucesso de público e de crítica. Como, afinal de contas, numa sociedade como a brasileira, onde as mulheres dependiam do casamento para alcançarem legitimidade social, e quando eram poucas aquelas que “trabalhavam fora”, como, repito, sobrevivia esta mãe  solteira, de pele negra, sem outra fonte de renda que a obtida catando papel?
Um refugo da sociedade, vivendo num quarto de despejo e sobrevivendo do lixo teria direito a ter sua própria voz? A originalidade de uma catadora de papel, semi alfabetizada, que escrevia suas memórias nos pedaços de papelão que reunia, chamou a atenção do jornalista que editou o diário de Carolina para transformá-lo num livro. Esta obra mereceu a atenção de toda a sociedade brasileira e foi traduzida em mais de uma dúzia de idiomas, tendo provocado o exame crítico de acadêmicos de diversas nacionalidades. Segundo as informações de Robert M. Levine and José Carlos Sebe Bom Meihy publicadas em The Life and Death of Carolina Maria de Jesus (Albuquerque, University of New Mexico Press, 1995.) Carolina foi “descoberta”  por Audálio Dantas que, ao fazer uma reportagem sobre um parque público, ouviu a catadora de papel brigar com arruaceiros e bêbados, ameaçando que os colocaria em seu “livro” caso não se comportassem. A palavra “livro” despertou o interesse do jornalista que descobriu os escritos de Carolina e conseguiu a publicação de seu diário. Apesar de todo o sucesso alcançado por sua obra de estreia, as publicações seguintes não tiveram êxito {Casa de Alvenaria (1961), Provérbios e Pedaços da Fome (1963) e Diário de Bitita (1982 - edição póstuma pela casa editora francesa A. M. Métailié)}. Carolina Maria de Jesus caiu no esquecimento. Pobre, morreu na casa em que morava com o filho mais velho, no bairro de Parelheiros, em São Paulo, no dia 13 de fevereiro de 1977.
Seu livro chama a atenção para a fome e a miséria. Dia após dia listam-se as parcas refeições, os choros frustrados das crianças, seus filhos, que precisam ir para a cama sem comer. Apesar de brutalizada pelas condições de vida, a autora, porém, consegue manter um lado de humanidade que dá ao texto um encanto que os relatos sociológicos jamais poderiam revelar. Carolina manteve sua humanidade. Era mulher e, como tal, mantinha sua vaidade, seus sonhos. Feia, maltratada, ela “não se enxergava” como tal. E, como se não bastasse, ainda tinha a coragem de fazer ouvir sua voz.
O sucesso transformou Carolina numa “estrela”. Ela foi exibida como uma curiosidade. Foi recebida em palácio pelos presidentes brasileiro e uruguaio. Foi levada a recepções. Deu entrevistas a jornalistas estrangeiros, através de intérpretes. E, para cada um destes compromissos, foi paramentada, enfeitada, tendo recebido, –dados ou emprestados –, vestidos, sapatos e jóias. Seus cabelos foram penteados, suas mãos manicuradas, seus pés tratados. Como uma boneca, Carolina foi exibida nas recepções, fotografada nos eventos. Num perverso movimento, a sociedade que a rejeitara e marginalizara, ao ver que ela tomava voz e surgia como pessoa, tratou de transformá-la através de sua “bondade” (o termo é de Carolina). As mulheres da sociedade, “tão boas”, fizeram dela um manequim e conseguiram,insidiosamente, mais uma vez, relegá-la à margem. Depois de brincarem com sua boneca nova, abandonaram-na e foi assim que, outra vez na miséria, Maryvonne Lapouge e Clélia Pisa a foram encontrar, quase totalmente esquecida, para uma entrevista pouco antes de sua morte. Carolina, que, nos seus dias de glória tinha sido assunto em destaque nos principais periódicos do mundo, tais como Paris Match e Realité, além de revistas e jornais nacionais, vivia afastada, cheia de memórias amargas e de algumas desilusões, sem conseguir editor para sua produção, que se acumulava em cadernos escolares guardados em caixas de papelão com cheiro de mofo, conforme nos informam suas entrevistadoras. (Uma caixa contendo trinta e sete cadernos, com mais de cinco mil páginas com sua letra característica. Ali, Carolina deixou poemas, contos, quatro romances e três peças de teatro, conforme foi levantado posteriormente)
Esta mulher, em seus escritos, desenvolveu estratégias narrativas que davam vozes aos “afônicos” – outro termo usado por ela, que, apesar de poucos estudos e de uma falta de consciência política, podia perceber que havia uma camada enorme da sociedade brasileira que não tinha direitos e, portanto, não  tinha voz. Mesmo através da filtragem da edição, seus textos ainda levantam aspectos que merecem reflexão, e é por isso que propomos uma releitura de sua obra para resgatar sua legitimidade e seu direito de representação. Fazendo uma “cartografia de espaços degradados, relacionados a restos, a desordem, a coisas que ninguém mais quer.” (Site Itau Cultural) Carolina representa sua experiência de vida através do reaproveitamento do lixo, do refugo da nossa sociedade que cada vez se baseia mais no insaciável “ter” do que no “ser”. Ao fazer isso, uma crítica se revela: ao reaproveitar o que um grupo social considera “imprestável”, é possível criticar esta sociedade e revelar que, em seus “refugos” existe toda uma economia que apenas começa a ser reconhecida embora ainda não esteja sendo valorizada integralmente. Ao usar os restos, as coisas que ninguém mais quer como materia prima, elabora-se uma (sub)versão da sociedade que descarta, sem piedade, coisas que possuem algum tipo de valor mas que o consumo desenfreado descarta e destrói.
Recentemente, Vik Muniz, artista nascido no Brasil, mas radicado nos EUA, “descobriu” o Aterro de Gramacho, o maior aterro sanitário do mundo. Nesta área de dimensões ciclópicas, há uma multidão de pessoas que passam seus dias em condições insalubres, fazendo do lixo seu meio de vida. Trabalhando e se alimentando no que é conhecido como “lixão”, estas pessoas estão esquecidas e sem assistência. Descartadas. Até bem pouco tempo, menores de idade também trabalhavam ali, em permanente perigo para sua saúde e integridade física. São Carolinas modernas, mais degradadas ainda que a favelada dos anos 60.
Vik chegou com uma proposta interessante: recriar, com lixo, obras canônicas da história da arte. Os próprios catadores seriam envolvidos na coleta e montagem de materiais: cada um seria fotografado de acordo com a obra de arte escolhida; em seguida, num galpão, uma monumental colagem seria feita pelos próprios retratados; finalmente, essa recriação seria fotografada por Vik e o resultado seria exposto em museus e leiloado em benefício dos catadores. Tudo isso foi realizado, com inegável sucesso. Além das exposições, um livro e um documentário também foram feitos, ampliando ainda mais o alcance desta ideia, que repercutiu em vários países.
Sete foram as obras de arte escolhidas para a recriação:
Atlas, Guercino, 1646, Palazzo Mezzi Bardini, oleo sobre tela, 127x101cm. Personificado por Carlão.
Portadora de oferenda, c.1981-1975 a.C., The Metropolitam Museum of Art, Madeira, gesso  e tinta. 112x16,50x46,50 cm. Interpretada por Irma. (A carregadora)
Mulher passando roupa, Pablo Picasso, 1904, Guggenheim NY, oleo sobre tela, 116,20x73cm. Personificada por Ísis.
Albanesa, Camille Corot, 1872, Brooklyn Museum, oleo sobre tela, 74,10x65,60cm. Interpretada por Magna.  (Cigana)
Marat assassinado, Jacques Louis David, 1793, Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique, oleo sobre tela, 165x128cm. Personificado por Tião.
Madonna com criança, Giovanni Bellini, 1510, Pinacoteca de Brera, oleo sobre tela, 85x118cm. Interpretada por Suellen (Mãe e filhos)
O semeador, Jean François Millet, c.1865, coleção particular, pastel e lapis sobre papel, 36x43cm. Personificado por Zumbi.
Não estão explícitas as razões que levaram à escolha destas determinadas obras, assim como não se revela o critério de seleção das sete pessoas em questão, dentre um universo de cinco mil catadores. Acontece que a adequação do modelo à obra, uma vez escolhidos uns e outras, se revela muito apropriada. A enormidade do saco que obriga Carlão a uma posição recurvada, e sua expressão de olhos enviezados, desafiadores, o aproximam do titã castigado, carregando o mundo sobre os ombros. A força e a firmeza de Irma, com sua cesta sobre a cabeça, seu rosto sereno e escultural, refletem a tranquila posição da estatueta egípcia, oriunda de um mundo quase mítico, de tão distante. A fragilidade de Isis, que, no entanto, não desanima e pressiona o ferro de passar com o peso de seu próprio corpo, para que aquilo que faz não saia de seu controle, expressa sua feminilidade que, ao invés de se expandir, a deixa acabrunhada sobre o trabalho. Já Magna, orgulhosa, levanta o rosto e olha confiante e desafiadoramente, tal como a albanesa atraente de Corot. Sebastião, o Tião, que lidera a organização dos catadores, por sua própria atividade política aproxima-se de Marat, mas, se este se mostra exangue, o brasileiro conserva sua vitalidade, mesmo quando surpreendido num momento de abandono, como se fosse o descanso do guerreiro. A jovem Suellen, retratada com seus filhos como se fosse uma Madonna, é aquela que se vê “aceitando” sua posição de indefesa. Ela se define pela maternidade, e pela submissão àos designios impostos a ela por uma vontade externa (Faça-se em mim segundo a sua vontade…). Finalmente Zumbi, o semeador, é aquele cujo sonho é a construção de uma biblioteca. Ele é quem salva os livros do lixo e os acumula e compartilha, semeando ideias e sonhos.
O livro publicado, Lixo extraordinário, se apresenta também como uma releitura: a de Os sertões, de Euclides da Cunha. Dividido em partes intituladas A terra, O homem e A luta, ele acrescenta mais um aspecto a esses: A arte. Se Euclides escreveu seu grande livro numa tentativa de compreender e explicitar a estrutura da recente república brasileira, Vik Muniz e Alexei Bueno se debruçam sobre as condições dos brasileiros, dos terceiromundistas, frente a um mundo onde as fronteiras e sentimentos nacionais se encontram cada vez mais diluídos graças aos interesses da sociedade capitalista que se dissemina pelos quatro cantos do globo. Na seção O homem, Alexei chama a atenção para “a lógica normal do capitalismo num país de Terceiro Mundo, no qual a desqualificação empurra o indivíduo a situações extremas para sobreviver”.  O tempo passado entre Carolina e os personagens de Vik Muniz não amenizou o alarmante abandono a que pessoas sem qualificações podem ser relegadas numa sociedade capitalista cada vez mais selvagem. Mas a consciência moderna procura refletir sobre este descarte. O lixo gerado no mundo conta a história da destruição do próprio mundo. A (sub)versão que a arte cria ao examinar os detritos e resgatá-los aponta para um subtexto que é a história dos próprios participantes do projeto.
Encontrando esses indivíduos “desfocados” no meio de tanto detrito, Vik Muniz consegue resgatar a individualidade de alguns, destacando-os e monumentalizando-os em imagens enormes, imponentes.  Ao mesmo tempo que ele “eleva” esses indivíduos, ele dessacraliza obras canônicas, ao reconstruí-las com lixo. Mas, tal como ele pensa, “preconceito e arte não combinam, visto que a experimentação deve ser plena”.  Recriando as obras icônicas a partir do lixo, e dando a esses catadores um perfil reconhecido e admirado, ele está funcionando como  “uma espécie de filtro, de tradutor do mundo”.
Nesta alquimia que transforma lixo em luxo (arte) envolvem-se vários aspectos dignos de nota. Podemos começar mencionando a questão do tempo: o lixo, o aterro sanitário, é um local onde o tempo precisa ser interpretado de maneira diferente da usual. Ao invés de passagem de tempo, temos ali a presentificação (degradada) do passado. Como o artista ressalta, neste local, onde todo o lixo da cidade do Rio de Janeiro se acumula há quatro décadas, uma pessoa de quarenta anos, ao fazer um corte no aterro, corre o risco de encontrar suas próprias fraldas! Mas existe, também, uma questão de linguagem, pois surpreende-se uma impossibilidade de definição. Tudo, todas as coisas estão quebradas, mas nada daquilo está integrado ao que normalmente consideramos “substância”, revela o artista. Tudo se descaracteriza e se reduz resistindo a ser apreendido como “Natural”. Ao mesmo tempo, a percepção se desenvolve de modo fora do usual, uma vez que “tudo é simultaneamente focal e periférico, enquanto somos bombardeados por cheiros, gostos, temperaturas insuportáveis, durante todo o tempo em que ali permanecemos”.
Refletindo sobre seu projeto, Vik Muniz revela que o que mais o sensibilizou foi “o tamanho do nosso preconceito”, mas, esperançoso e otimista, ele afirma que “a arte muda as pessoas, não só pelo convívio, mas também pelo engajamento, pela produção”.
O mundo que acolheu e depois rejeitou Carolina Maria de Jesus teria se transformado? Inegavelmente, existe uma tomada de consciência e uma busca de cidadania entre estes ‘habitantes do planeta lixo’. Lutando para se organizarem como classe; conscientes da existência do preconceito que os marginaliza até mesmo entre os outros desfavorecidos, repugnados pelo odor que se impregna em suas pessoas; eles recuperam sua dignidade através de sua capacidade de conhecer-nos ‘pelo avesso’, pelo nosso excesso. Tudo aquilo que nos sobra e que consideramos inservível, ao chegar às suas mãos, se vê insuflado de valor e significação. Capazes de ler o lixo como um texto, eles comentam as vidas miseráveis de mulheres solitárias e de homens sozinhos, cuja fome de amor se sacia nos cuidados com o próprio corpo ou com a contemplação de revistas eróticas. Eles conhecem o que está por trás da imagem cultivada pela sociedade de consumo, veem o vazio de nossas embalagens fúteis e nos leem por aquilo que realmente produzimos: excesso e futilidade. Mas, ao contemplar a obra de Vik Muniz, procuramos conhecê-los um pouco melhor. O que será destes indivíduos que se singularizaram em obras de arte, que foram convidados a espaços de cultura, como museus e casas de leilão, mas cuja realidade não mudou, ou, pior ainda, está com data marcada para desaparecer? (Gramacho está com os dias contados e o próximo aterro sanitário não permitirá a presença de catadores em suas instalações). Numa espécie de auto crítica, durante o documentário, ao ser provocado por uma colaboradora, que lhe indaga se seu projeto não é apenas uma tentativa de abafar sua “má consciência”, Vik Muniz responde que  se ele estivesse numa situação de extrema penúria e alguém lhe desse a oportunidade de sair desse ambiente e viver dias de Cinderela, mesmo com um prazo de validade curto, ele preferiria ter a chance de viver esse sonho do que passar a vida sem conhecer “o outro lado”.  Numa crônica que publiquei na revista Continente, concordo com isso. Acho que todos nós optaríamos por ter nosso momento Cinderela, ao invés de passarmos a vida como meras Borralheiras. Concretizar um sonho, mesmo fugazmente, ainda assim é uma realização.
É importante notarmos, porém, que essas subversões criadas por Carolina e por Vik têm uma vida própria. Mesmo sem se manter nos lugares mais destacados e festejados, o livro de Carolina segue até hoje sendo lido e estudado. Existem celebrações de sua memória, adaptações para o teatro, exposições, seminários voltados para sua obra que acabou sendo publicada após sua morte, em diversas edições. A “afônica” transformou-se em arauto, e é inegável que hoje seus livros têm relevância nacional e servem de paradigma para estudos específicos. Cremos que a obra de Vik Muniz encontrará o mesmo tipo de permanência, e que a subversão que ele propõe encontrará reverberações em muitos trabalhos. Para começar, essa interpretação “pós-moderna” de obras consagradas, reconstruídas através do lixo (extraordinário ou não), começa por propor a questão do valor do cânon, da dessacralização da obra, do simulacro. São muitos os aspectos a serem explorados nesta série, que ainda precisa ser acompanhada de forma social e política. O lixo que expressa uma civilização e que a traduz, cria uma voz dissonante que se junta ao coro dos afônicos, num apelo de mudança e de revalorização ética e material. Olhando para seu trabalho, somos chamados por um apelo ético, que já existia em Carolina, mas que ficou amordaçado por uma sociedade que priorizava o desenvolvimento material em detrimento do humano. Estávamos na época dos “slogans” cinqüenta anos em cinco, e coisas do gênero, queríamos o desenvolvimento econômico, desejávamos abandonar a pecha de subdesenvolvidos, e o caminho era chegar à sociedade de consumo, mesmo que para isso fosse necessário consumir os próprios seres humanos. Hoje, já cientes de que o consumo desenfreado nos destrói, examinamos aquilo que deixamos para trás, nosso lixo, nosso refugo, e questionamos até a própria arte, consumida como um bem, precificada, comercializada em bolsas e leilões.
Os caminhos aqui apontados são o início de um questionamento, ao qual gostaríamos de acrescentar o trabalho de Juan Francisco Manzano, o escravo que escreveu sua autobiografia (Autobiografia de un esclavo) e contribuiu para a causa de seu “protetor”, o poeta abolicionista Domingos Del Monte. Seu texto revelava o lado “sem voz” da sociedade escravocrata. Curiosamente, sem estar ainda dentro de uma sociedade de consumo, o escravo era um bem de consumo, um objeto, e é revolucionar o gênero autobiográfico dar o direito de ser sujeito a quem se vê forçado a ser objeto.  Propomos que, ao escrever, Carolina e Manzano se apropriram de um sujeito, mesmo que apenas gramatical, e com isso conseguiram se resgatar mesmo que por tempo limitado, durante um período de suas vidas. Foram silenciados e descartados, após terem sido oferecidos em espetáculo pelo mundo afora. Apos sua morte, no entanto, seus textos foram redescobertos e revalorizados, num processo semelhante ao de reciclagem, poderíamos dizer…
Refletindo sobre as narrativas dos “afônicos” (“Os pobres têm que ser afônicos” – Carolina, 1986, p. 201) e procurando aquilo que foi silenciado dentro de seus textos podemos ensaiar mostrar como esses silêncios permitem a construção de uma obra que, ao mesmo tempo, desconstrói aqueles que tentam se constituir como sujeitos. Os catadores de Vik, também “afônicos”,  conseguem, através da justaposição de suas imagens sobre imagens sacralizadas e veneradas, revelar um espaço critico que é de responsabilidade do artista plástico. No entanto, com a perspectiva educativa que existe em todos os casos aqui citados, é possível acreditar que a “releitura” dos descartados pode ainda nos levar a uma sociedade mais justa, inclusiva, e consciente.

Sunday, February 26, 2012

Horário de verão

Acabou o horário de verão e eu me sinto um pouquinho triste. Sou uma das pessoas que adoram esse horário que nos prolonga o dia em tardes claras, que permite que se passeie à beira mar depois do trabalho, refrescando cabeças e corpos. Hoje fui me despedir do entardecer. De agora em diante ele vai acontecer cada vez mais cedo e eu vou me amortalhar no escuro e ficar angustiada como a criança nervosa do romance de Proust, esperando o beijo de boa noite que já não mereço mais. O tempo passa, amortece as dores, mas elas continuam vivas, na expectativa, para nos atacarem ao primeiro descuido. Outro dia, conversando com o Breno, meu querido e distante amigo, ele me falou de sua "alegria morna". Entendo perfeitamente, pois minhas alegrias, minhas emoções, estão todas assim. Sinto que nunca mais serei genuinamente feliz. Nada mais me deixa radiante, nem mesmo o reencontro com uma amiga de anos, de quem sempre gostei muito, mas que já não via há décadas. Na hora, sim, me alegro, fico entusiasmada. Mas, aí, volto para a casa e sei que não tenho ninguém a quem contar a novidade. Minha vida ficou assim, pela metade. Só posso me alegrar no instante do fato. Depois, a não ser que fique como a maluquinha da Margaret Thatcher, não tenho com quem comentar e relembrar coisas. Já que mencionei a personagem, comento o filme, do qual gostei muito. Mesmo pintando a todo-poderosa agora em sua doença, eles não a ridicularizaram, não roubaram a sua dignidade. E eu morri de inveja daquela loucura que trazia o marido morto para o seu lado, com suas tiradas engraçadas, com seu apoio, e até mesmo com suas recriminações. Pois estas são muito necessárias. Não tenho mais ninguém para me puxar as orelhas quando fico horas jogando paciência ou fazendo quebra-cabeças. Não tenho mais ninguém para me distrair a atenção de algum problema que me parece insolúvel e que me angustia até as lágrimas. Não tenho alguém para me tirar para dançar, ou para me dar um abraço reconfortante, que faz o mundo parecer um lugar seguro e confortável. Estou cansada. Estou triste. Mas sigo em frente, e com um sorriso. Não reclamo não. É só o sentimento do irrecuperável que me deixa assim, de farol baixo…

Friday, February 24, 2012

Vida de Balzac

Estive em Angra, meu paraíso particular. Cada um tem o paraíso que merece, e o meu ainda precisa de alguns ajustes, para não ficar como o conto do Agualusa. Na história dele, Borges morre e vai para o paraíso, mas acontece algum engano e ele se descobre no paraíso de Jorge Amado, entre palmeiras e mulatas, sol e Carnaval. O que para Amado era o Paraíso, para ele era um Inferno. Meu paraíso fica a meio termo entre Borges e Amado. Quero sol, palmeiras, dispenso as mulatas e o samba. Mas quero livros, telefone e internet. E TV, para assistir a DVD's. Por enquanto, meu paraíso está meio estropiado nas comunicações, mas em breve darei um jeito nisso.  Os livros eu levo comigo. Levo o computador e o celular, na esperança que…Mas não tenho linha, creio que devido à minha operadora, pois os telefones dos outros funcionam. Internet? Nem pensar! Já tenho TV, e portanto, pude assistir a Vida de Balzac, que levei comigo, estrelada pelo Gerard Depardieu e pela Fanny Ardant e Jeanne Moreau. Chego à conclusão que as pessoas que filmam as biografias dos escritores para a TV não são muito amigas dos biografados. Ou é mesmo uma tarefa difícil fazer a vida de um escritor virar um assunto interessante. O que é que a gente faz, afinal? Escreve. Enquanto um vai ser terrorista e bombardeia as Torres Gêmeas, a gente fica em casa e escreve sobre o episódio. Enquanto uns vão percorrer o mundo para encontrar os caminhos para as Índias, o que é que um escritor faz? Fica em casa e escreve sobre essa aventura. Sejam escritores atuais ou imortais, são raríssimos os que fizeram alguma coisa emocionante na vida. Escreveram coisas emocionantes, sem dúvida.  Mas sentados em suas casa, batucando em suas máquinas, lambuzando os dedos de tinta nas suas penas antiquadas, ou queimando os olhos na frente de um computador, a vida do escritor é isso mesmo: uma sucessão de páginas, de cadeiras mais ou menos confortáveis, de devaneios. Como contar isso? Balzac, Hugo, Eugène Sue e Stendhal (Henri Beyle?) desfilam nesta mini-série sem muito o que mostrar. Sue se limita a mostrar que não aprecia Balzac, pois este parece sujo, glutão, grosseirão. Hugo, magnânimo, reconhece o gênio do escritor da Comédie Humaine, desde o príncípio. Balzac aprecia o gênio de Stendhal, que se lamenta que sua Chartreuse e seu Le Rouge et Le Noir não tiveram mais que cem leitores. Para dar uma gracinha à vida de Balzac, só mesmo recorrendo às mulheres de sua vida. Sua amante mais velha, Mme. Laure de Berny, representada por uma ainda lindíssima Virna Lisi, volteia a seu redor, carinhosamente, como uma borboleta. Enquanto isso, Balzac, que no filme parece um ogro, se gaba de ser capaz de conquistar as mulheres graças à sua habilidade de derrubar os quadros das paredes, com sua risada. Com um mau gosto atroz, vestido como um bufão, ele se dedica à conquista de Laure Junot, duquesa de Abrantes, que, o filme nos dá a entender, havia dormido com toda a corte napoleônica. Mas as duas principais femmes fatales do filme são Mme Hanska, com quem ele acaba se casando depois de mais de 20 anos de, digamos, namoro, e sua mãe, Charlotte Laure, que nunca lhe deu amor suficiente.  Um duelo entre as duas grandes atrizes, que se cruzam numa única cena e trocam olhares de tamanho ódio que a gente sente que aquilo ultrapassa a própria tela. Fanny Ardant, e Jeanne Moreau, sem dúvida excelentes. Assisti uma peça com a Fanny, em que ela representava Sarah Bernhardt. Acho que a beleza da Fanny prejudica sua atuação. E, aliás, acho que ela nem estava tentando atuar muito. Ela só desfilou a beleza, madura, mas sem os sinais de decadência que o papel exigia: por exemplo, a personagem reclamava de sua artrite, mas Fanny corria, flexível, pelas planícies cobertas de neve, demonstrando um desembaraço que me fez pedir a Deus que, se um dia me fizer sofrer de reumatismo, que seja deste tipo! E a Jeanne Moreau, com sua voz rouca, seu olhar queixoso, sua elegância e firmeza, manteve-se todo o tempo fria e distante, mas, na cena final, faz uma declaração de amor ao filho, arrependida… Acho que a direção do seriado foi muito fraquinha, sinceramente. Dos romances, a gente não aprende muita coisa. Quem conhece a obra de Balzac, reconhece os títulos mencionados, mas a impressão que se tem é a de que ele era um escritor prolixo, muito interessado em dinheiro, muito vulgar, muito despreparado e cuja principal atividade foi fugir do cobrador que lhe batia em todas as portas como um inexorável Javert. Será que foi assim que Victor Hugo encontrou sua inspiração?
O que eu mais gostei do filme? A ideia, não sei se do próprio Balzac, ou se uma liberdade tomada pela ficção, de, na falta de quadros, desenhar espaços vazios na parede e anunciar : Aqui um quadro de Rembrandt, aqui um David, etc. Posso fazer isso: escolho e escrevo na parede: Ceci n'est pas un Manet (penso nos aspargos, proustianos até dizer chega!); Ceci n'est pas un Picasso (aquele Arlequim azul, que tanto cobiço). Já tive posters de Matisse, de Modigliani, de Miro espalhados nas paredes de minha casa, nos EUA. Mas não favoreço muito esse tipo de coisa. Gostei mais da ideia do Balzac. O espaço demarcado preenchido por palavras e sonhos. Quadros de escritor…

Friday, February 17, 2012

Uma cesta de café da manhã!

Vejam que maravilha! Acordei e logo em seguida entregaram aqui em casa uma linda cesta de café da manhã. Gulodices maravilhosas do Talho Capixaba, fartura e beleza, mas… nenhum cartão! Minha primeira reação foi achar que não era para mim. Depois de hesitar um pouco, lembrando do aniversário que se aproxima, achei que era minha sim, e venho aqui agradecer em coletivo, pois não sei bem que príncipe ou princesa terá mandado este presente tão carinhoso e inesperado. Obrigada!
Ontem à noite meus filhos me levaram num restaurante do Claude Troisgros, onde comemos um "menu confiance". Coisa boa, deixar a responsabilidade da escolha para o chef e comer coisas gostosas que nos surpreendem, como numa verdadeira festa. Vou contar o menu, para meus leitores ficarem com água na boca, e começo pelo couvert. Biscoitinho polvilho (sabor pimenta!), pão e manteiga. Um amuse-bouche de rocambole de salmão com caviar de tapioca. A entrada fria era salada de peras, endívias e nozes, com um caramelizado de balsâmico. Camarão empanado com creme de castanha de caju foi a entrada quente. Um prato de peixe perfeito: pargo, com uma crostinha fina e crocante de pão sobre tomates confit. (Fiquei me perguntando de onde foi que tirei a ideia de que comer sashimi é bom - a perfeição do cozimento do peixe, os sabores delicados do tempero, isso é que é bom!). O prato de carne foi um filé ao ponto com mini legumes e um creme de marron glacê e feijão branco. Uma festança, ç'est vrai! Mas as porções não eram grandes, e foi possível comer tudo sem a sensação de estar comendo demais. Alguns ainda tiveram ânimo de atacar a sobremesa. Eu não. Mas vieram tantas delícias para acompanhar o café, que não resisti. Eram "patifarias" como dizia a Mira, minha querida amiga. Crocantes de chocolate, salame de chocolate, maria mole com coco queimado, suspiro com nozes. Tudo perfeito. Marcello escolheu o vinho que tomamos, Bourgone, Pinot Noir, suave como gosto. Se harmonizou perfeitamente com o que comemos? Não faço ideia, mas eu gostei. E acho que isso é o importante. Dou nota dez a esse jantar. Foi o máximo!

Thursday, February 16, 2012

Divagando…

Quase Carnaval, e eu aqui divagando. Olho o mar, de longe, e penso como seria bom estar mergulhando nas águas que de longe parecem perfeitas. Muito calminho, ele hoje não rodeia as ilhas com um friso de espuma, está ali, com seu tracejado impressionista, exibindo, para meu deleite, uma traineirinha que se desloca colorida e feliz.
O céu também se mostra calmo, com nuvens difusas, esfumadas. Tudo me parece pintura. Até o desenho das sombras das varandas do edifício em frente, desenhadas com perfeita geometria. No outro, que se apresenta ensacado, a luz se reflete, sem piedade. Uma tela em branco, um pintor sem inspiração…
Penso em coisas que podem ser feitas, enquanto sentamos numa poltrona. Ler. Escrever. Assistir a filmes ou peças teatrais. Comer. Conversar. Bordar. Ouvir música. Mandar e receber mensagens. Pintar. Dormir. Namorar. Ver a vida passar.
Lembro-me do apartamento que não comprei. Um ótimo apartamento, onde um velhinho, aparentemente muito doente, se sentava a uma janela, vendo o mar. Os filhos estavam vendendo o imóvel e iam colocar o velhinho num asilo.
Não comprei o apartamento. Não pude suportar a ideia de contribuir para tirar o velhinho da sua janela.
Penso na mãe de uma única filha que foi convencida pela mesma a sair de seu lindo apartamento e a ir para um asilo longe do mar, e meu coração perde um compasso, assustado. Não quero o exílio, não quero o silêncio e o barulho dos grilos. Não quero a solidão.
Digo isso, mas, no entanto, sou uma especialista em viagens ao fim do mundo. Volta e meia estou indo a algum lugar denominado "fim do mundo". Já fui ao Nord Kap. Já fui à Patagônia. Já fui a Finisterra. Já cheguei a muitos extremos norte, sul, leste e oeste. Em todos esses lugares, um impressionante sentido de solidão nos envolve. Mesmo no meio de excursões, com muitos ou poucos amigos, em dia de sol radiante ou envolta na neblina mais espessa, a solidão aperta nosso coração, e a nossa alma aflita nos faz olhar ao longe, procurando algo, alguém, no vazio.
Uma vez, em Búzios, peguei uma boia dessas que voltaram à moda, feita de câmara de ar de caminhão e, deitada, me deixei levar pelas águas, de olhos fechados. Era bem cedinho, o sol não maltratava, e a água transparente parecia benfazeja. Não queria saber para onde estava indo, me entreguei ao embalo das ondas e me deixei levar. Naquele momento não senti solidão. Foi um momento de beleza, de encantamento, de harmonia como talvez nunca mais chegue a experimentar. Acho que, na hora, não pensei no verso de Drummond que agora sempre acompanha esta minha lembrança: "o silêncio pânico do mundo"… Pânico, de Pan, aquele deus grego tocador de flauta, que representa o "homem natural".
Talvez sentado, olhando o mar, envolto nas brumas da doença, aquele velhinho estivesse ali usufruindo o prazer de ainda continuar respirando, de ainda poder olhar o azul, e nele se perder. Talvez ele não estivesse procurando algo, nem ninguém. Estava encontrando a si mesmo, indiferente a tudo o mais.
Nestas divagações melancólicas, o sol se esconde entre as nuvens e deixa o dia menos nítido, mais poético. Os limites perdem sua nitidez. E a alegre traineira foi substituída pela vela de um barquinho lento, sem pressa, totalmente entregue aos caprichos do mar.

Sunday, February 12, 2012

horóscopo chinês

Transmitimos a nossos filhos muito mais do que suspeitam as vãs filosofia e genética. Também legamos simpatias e superstições; preferências; manias, coisas que não pretendíamos transmitir, mas que vão passando sem que a gente atente nas próprias fraquezas ou qualidades.
No meu caso, passei o legado de minha simpatia pelo horóscopo chinês. Descobri o tal horóscopo com uma amiga meio mística, que me deu um livrinho de presente com as previsões de um ano longínquo. Me achei muito parecida com o perfil do meu signo chinês, e guardei o livrinho, que depois me foi "emprestado" quando morava nos EUA, por uma outra amiga mística. Fui viajar para a China, uma viagem inesquecível, e lá descobri a história dos 12 animaizinhos convidados para a festa no céu. Num livro para crianças, me encantei com os desenhos lindos, com a alegria e espontaneidade dos animais, com suas qualidades, suas interpretações. Lembrei-me de meu livrinho sumido e senti saudades. Muitos anos depois encontrei o mesmo livrinho num sebo aqui no Brasil. O exemplar estava mais cuidado que o meu, que tinha sido muito manuseado, e não resisti ao apelo de todos aqueles bichinhos rococó, embolando-se numa roda alegre, de festa. Embora o ano já estivesse longínquo, comprei o livro assim mesmo, e de vez em quando o abro, curiosa. Só que eu acreditava que essa minha simpatia era coisa disfarçada, dissimulada pela minha cultura e racionalidade. Rá! Estava era enganada, e descobri isso ontem quando minha filha, na Travessa, em vez de comprar um livro daqueles imperdíveis comprou foi o de horóscopo chinês. A partir da compra, já não tivemos mais a companhia dela, embrenhada na leitura das previsões para este ano do dragão. Gosto dos animais desse horóscopo. Cães e ratos, porcos e cabritos, o imponente búfalo, na sua domesticidade e alegria todos eles estão representados na minha família; o tigre de Borges –pelo menos eu o considero borgiano –, a sábia serpente, podem ser assustadores em tese, mas estão entre meus amigos dos mais carinhosos e atentos. Macaquinhos e cavalos também estão entre os amigos. Talvez eu tenha algum galo, ou coelho conhecido mas assim de cabeça não consigo lembrar. Meu predileto, porém, é o mitológico dragão. Destaca-se, no horóscopo, por ser o único animal mitológico,  o que vive na fantasia, e não no mundo real. Claro que tinha que ter minha preferência. E estamos no ano do Dragão, o mais festejado na China.
Ocidentais, consideramos o dragão um bicho assustador, sinônimo mesmo de feiúra. Na China o dragão é considerado uma beleza: forte, protetor, brilhante, um encanto. Fico com esse Dragão sinuoso. Ou com o gentil dragão da história infantil, The Neverending Story. Ou com o sapeca dragãozinho lilás de Epcot, o Figment, simbolizando a criatividade.
Minha filha comprou o horóscopo chinês, e vou entrar na fila para descobrir o que o dragão de 2012 traz para mim. Mas, talvez na esperança de estar gravando, subliminarmente, outra mensagem na mente dela, comprei para mim um livro do Oswald, contando suas memórias. Quem sabe, daqui a tempos, quando eu já nem estiver mais aqui, ela não encontre um livro de Oswald e o compre, lembrando de sua mãe?

Sunday, February 05, 2012

E aí?

Biquini novo, chapéu novo, filtro solar, toda pronta para a praia e a pessoa vem para cá, para a frente do computador… Pode? Deve poder, pois aqui estou eu, preferindo contemplar minha nesguinha de azul, de longe, a suar em pleno sol. Já fui mais animada, mas acho que sofri tanto com as proibições de sair que acabei me convertendo, genuinamente, à vida contemplativa. No entanto, admiro essas pessoas que levam a vida fora de casa, ativas, incansáveis, numa animação a toda prova. Vejam os exemplos com que me deparei ontem: depois de ir almoçar com uma amiga, fiquei com pena de voltar para casa, num dia tão lindo e…fui para o cinema! Claro, ia fazer o que, na rua, sozinha? Me enfiei, com a sessão começando, no cinema geladinho e fui escutar e ver Tom Jobim. No final, depois de todos os créditos lidos, pois eu ignorava ou não lembrava quem eram aqueles cantores todos que apareciam na tela e os diretores não acharam que deviam identificá-los durante o filme, vou saindo quando vejo uma senhora, não aparentando muita idade, mas com uma dificuldade enorme de locomoção, sendo ajudada pela acompanhante para sair do cinema. Aquilo mexeu comigo, me fez valorizar a capacidade de caminhar e a benção que é ter independência. Até porque o pé, que ainda me doi um pouquinho, me deixa mais sensível a estas coisas. Pois vinha refletindo sobre isto quando me encontro com um fiapo de bloco, na esquina de Ataulfo com Artigas. Alguns músicos, uma bailarina em pé naquelas inexplicáveis bolinhas colocadas na passagem de quem pretende atravessar a rua, chamando com gestos os passantes para dançar e… animadíssima, uma senhora toda fantasiada se agitando numa cadeira de rodas, feliz com a festa! De tão admirada com ela, nem reparei em quem a empurrava, se homem ou mulher, filha ou empregada. Só sei que devia ser uma pessoa animada também, pois ia coreografando ziguezagues pela calçada.  Voltei para casa, e escutei um grupo de rapazes falando sobre um concurso que pretendiam fazer. Um deles, em voz mais alta do que teria se a cerveja que estivesse na mão ainda fosse a primeira, dizia que era preciso dar o "c*". "Tem que dar o c*!", ele bradava, e parecia que estava fazendo um manifesto. Não fosse o sinal estar vermelho, eu teria ficado com a impressão de que era isso mesmo, um aficcionado conclamando, tal como a bailarina da outra esquina,  as massas para compartilharem de seu prazer.
Se eu fosse subir num palanque para conclamar alguém a fazer alguma coisa, acho que minha opção seria um convite à leitura. Leiam! Entreguem-se a este prazer que também vicia (qual o prazer que não vicia? perguntem aos ratinhos da experiência!), mas que alimenta e dá um maior carinho pelo mundo. Pois a leitura nos leva à compaixão (no sentido de compartilhamento de emoções) e à empatia (capacidade de entender o ponto de vista alheio). E também nos devia tornar mais atentos ao mundo que nos cerca, mas ando cada vez mais desatenta. Somente hoje viro a página da folhinha, que este ano tem quadros de Van Gogh. O que ilustra o mês de fevereiro, que costumo chamar de meu, pois é o mês de meu aniversário, retrata um par de botinas velhas. Um sentimento contraditório me invade: acho pouco apropriado, mas, depois, reflito que são mais apropriadas do que podem parecer. Ainda estou sob o signo do pé machucado, por exemplo. Botinas é o nome de um antigo paraíso particular, que agora abandonei por conta de estar sendo muito frequentado, as ilhas lá de Angra, adoráveis. Escrevo sobre Rimbaud e falo sobre suas botinas constantemente, alternando com suas sandálias de vento. E existe sapato mais confortável que aquele velhinho, já acomodado a nossos pés, amaciado, domesticado, que nos leva, sem reclamar, aonde precisarmos de ir?
Portanto, vivam as botinas de fevereiro! Que elas me levem longe!

Thursday, February 02, 2012

Leitura de mentes

O jornal me encanta com essa novidade: pesquisas para realizar a leitura de mentes e possibilitar a comunicação com quem sofreu algum acidente que o impeça de falar. Este sempre foi um fantasma que me assustou: a síndrome do encarceramento, como um dia foi chamada, e que está magistralmente registrada no livro O escafandro e a borboleta. Na verdade, não li o livro, só vi o filme, mas dou sempre preferência ao texto – talvez por vício do ofício. E assim me lembro da coluna do meu querido Francisco Bosco que ontem falava sobre adaptações. Proust é inadaptável, diz ele, e, no entanto, não são poucos os cineastas ambiciosos que voltam suas câmeras para esse extraordinário romance. Ele mesmo citou o filme do Ruiz, que tem momentos geniais e citações a outro filme (pelo menos é o que eu acho), nunca realizado, mas longamente acalentado pelo Visconti, que chegou a escrever o roteiro. E possuo cópias de Um amor de Swann, um filme antigo de Volker Schöndorff, com Alain Delon e Jeremy Irons, de uma adaptação de A prisioneira, La captive, da diretora Chantal Akerman. Também vi num festival um filme cujo título original em italiano era Le intermittenze del cuore (Fabio Carpi, 2003), uma das seções do livro e que tratava de um cineasta (ainda Visconti?) que planejava filmar o romance proustiano mas que morre (?) ou tem um ataque cardíaco antes  de conseguir realizar seu intento. E agora mesmo não vi, pois não tenho TV5, a adaptação mais recente, para a televisão, feita em dois "capítulos", mas uma amiga tem uma tia que prometeu que ia gravá-los, portanto ainda tenho a esperança de ver a mini-série. Voltando ao filme do Ruiz, um amigo meu, Luis Miranda, fez um documentário genial sobre o lendário argentino que fez a iluminação do filme em questão. Ricardo Aronovich (?) avec mes yeaux de dinossaure. O cineasta foi professor dele e o documentário é simplesmente excelente, nos ensina muito sobre essa arte que nos parece secundária, mas que tem importância fundamental para a narrativa cinematográfica. A iluminação explica, realça, valoriza, é preciso assistir ao documentário para entender melhor o que digo. E para rever algumas cenas do Tempo Redescoberto, coisa que sempre vale a pena. Para terminar, ouso dizer que os iluminadores (os bons, é claro) já faziam essa leitura de mentes, captavam nuances e as transformavam em imagens que podemos decodificar sem o uso de palavras. Sensibilidade, arte e, agora, o computador, cada vez mais a mente vai revelando seus segredos. E eu me pergunto: o que faria Freud com todos esses novos recursos para o conhecimento da mente? E quanto devemos a ele, para chegarmos a essas novas "narrativas"?