Saturday, November 28, 2009

África e Brasil

Ontem fui à Travessa (quando é que não vou à Travessa, ou à Argumento? – fica meio estranha essa crase na frente de palavra feminina, mas subentendam "livraria") Bem, mas fui lá para escutar dois escritores a quem muito aprecio: Mia Couto e Agualusa. Antes de falar qualquer coisa, divago sobre os nomes portugueses: como são especiais! Morei em Portugal por alguns anos e lá aprendi, com meu marido, a gostar de hockey. Pois o goleiro do time chamava-se Ramalhete. Não é o máximo? Tenho um amigo cujo nome de família é Telhado. Há um jogador de futebol chamado Pato. Dentre os escritores os nomes também continuam esta tradição: Mesmo aqueles que nos parecem comuns devido ao costume, como Eça e Pessoa, não têm nada de comuns. Alguém conhece outro Eça? E algum Pessoa mais ironicamente multidão que o poeta? E o que dizer do Saramago? Do Luandino? E dos ditos Mia e Agualusa? Impressionante, não? 
Voltando a meu ponto de partida, fiquei encantada com o bate-papo dos dois. Desta vez a estrela era Agualusa, que lançava um livro: Barroco tropical. Eu não ia comprar, pois pensei que era um estudo sobre o barroco e não quero estudar mais nada, mas aí descobri que era um romance. Acabei comprando, claro. Gosto do Agualusa desde muito tempo, quando li O vendedor de passados. Depois tive uma crise de ciúmes, quando li um conto dele chamado "O inferno de Borges". É que na época  eu ainda não tinha publicado minha secretária, e ficava com medo de "gastarem" meu Borges. Ontem achei graca na veemência com que ele defendeu sua Osga, contra as comuns Lagartixas. Talvez por estar ao lado de um biólogo, ele fizesse tanta questão das singularidades de sua criatura. Agora vou ter que descobrir quais as diferenças entre osga e lagartixa, que ele afirma serem tão diferentes quanto ele e Mia Couto, embora todos os confundam. 
Mas, é claro, aquilo que eu queria ouvir, não me faltou: histórias. Mia conta histórias como ninguém, ele quase que fala em parábolas, e suas histórias são absolutamente encantadoras. Dou um exemplo: a história da cobra que invadiu uma repartição pública e que, além de matar algumas pessoas, ainda cantava o hino nacional durante a noite. Numa terra em que ninguém sabe a letra completa do hino, a cobra não errava nem sequer uma concordância… Pois acaba que um biólogo, chamado para resolver a situação, vê a cobra ser morta e atesta que era uma cobra comum e que não tinha nada de especial. E mostra o cadáver da cobra para os populares, com a pergunta: E então, é esta a cobra? Ao que a resposta do povo foi: Quase…
Há sempre um quase que liga nossa realidade a um mundo muito mais interessante que o nosso. Este quase, esta pitada que nos falta no real, é o que se pode encontrar nos livros do Mia. 
Deixo para falar do Brasil no próximo post, pois agora tenho que atender à porta.
Até breve.

Friday, November 27, 2009

I could've blogged all night…

Fui no Vale Open Air, assistir Julie/Julia, ou o contrário, sei lá. Gracinha de história (e eu sou fã da Nora Ephrom e seus filmes mulherzinha) e uma ótima atriz (Meryl Streep) me fizeram ficar sonhando em ser descoberta através do meu bloguinho… Bah! Até parece que os filmes mostram o caminho das pedras. Mas uma sensação é verdadeira: a de que a gente escreve para um vazio, que não existem leitores do outro lado. A gente sabe que alguns amigos nos lêem, mas é só. Imaginar que outros leitores desconhecidos venham a descobrir o nosso blog – é muito pensamento positivo. Mas, o que aconteceu depois, foi o show de frevo que foi sen-sa-ci-o-nal!
Pena que não houvesse muito público, mas foi difícil deixar de ensaiar uns passinhos de frevo  e impossível não lembrar de meus amigos do Recife. Meu coração vai pairar por sobre a cidade esta noite, subir e descer as ladeiras de Olinda, sem acelerar seu ritmo para não descompassar as cirandas e as outras danças arretadas. Saudades de meus queridos amigos de lá. Fico aqui mandando cheiros, profundos, para todo o povo do Recife. Cantarolando as modinhas alegres, ecoando as risadas gostosas, e lembrando de "Grace Kelly", ou seria outro o nome do carrinho branquinho que me levava para cima e para baixo, em labirintos que não consegui desvendar?
Para quem ainda não foi visitar a edição comemorativa dos dois anos de Histórias Possíveis, aqui vai o endereço, para facilitar. Está parecendo "almanaque do Mickey", cheio de histórias, muito legal. Dê uma passadinha em: historias possíveis

Tuesday, November 24, 2009

Um aviário…

Bem, hoje estive com o grupo da UFF, o Nação/Narração. Na volta, viemos falando abobrinhas, mas abobrinhas sérias, muito literárias. Comecei contando a dita história da galinha, que muito me impressionou e comentamos como galinha é coisa literária: Clarice e João Cabral, Guimarães Rosa, mais barroco, optando pelo peru, garanto que se pesquisarmos encontraremos um galinheiro completo cacarejando nas estantes. É que, se pensarmos bem, galinha é mesmo um bicho que parece feito para servir de assunto – uma ave que não voa, cujo canto não passa de um cacarejo, que passa a vida ciscando o chão, que divide um galo com não sei quantas outras galinhas, e que ainda põe ovo e dá canja… E são feiosas, pouco inteligentes, mas têm os filhotes mais lindinhos. Quem é que não se encanta com os pintinhos amarelinhos, aqueles que eram vendidos na feira e que, nos tempos de Clarice, eram levados para casa para servir de brinquedo a criancinhas que se transformavam, graças às avezinhas, em aprendizes de sádicos? As galinhas emprestam seu nome para mulheres assanhadas, embora, em sua aparência, lembrem senhoras mães de família, gorduchas e protetoras.  Hoje povoam os sonhos de qualquer pepsi, peladas, untuosas, fazendo pole dancing nas grelhas de padaria. 
Há uns 15 anos atrás, encontrei uma mulher que tinha, em seu apartamento, um galo de estimação. Encontrei-a na sala de espera de um veterinário, levando seu galo numa coleira. Tratava-se de um galo garnizé, ela me explicou, por isso ele era pequenininho. Perguntei-lhe se o galo não cantava, e ela me garantiu que cantava, que todas as manhãs ele saudava o nascer do sol em alto e bom som. Perguntei-lhe o que é que os vizinhos achavam dessa cantoria, e ela ofendeu-se, mas respondeu a verdade, que eles não gostavam, mas ela não estava nem aí para o que os vizinhos pensavam. Nessa época eu nunca tinha sido acordada pelo cantar dos galos, mas já conhecia o poema de João Cabral, que adoro. Fiquei solidária com a mulher e com seu galo puxado pela coleira, imaginando os esforços dele para tecer uma manhã em meio aos ruídos da cidade.
O tempo passou e fui para Tiradentes, fora de estação. No hotel, só eu e Guilherme, num quarto gelado e escuro como breu. E, no meio daquela escuridão, os galos começaram a cantar. O sol estava longe de nascer, mas os galos começaram com sua melodia rouca, soltando seu grito enferrujado. Nós dois acordamos, friorentos, sem entender o que era aquilo. Os galos insistiam. Primeiro era só um, que repetia seu refrão. Pouco a pouco ele foi persuadindo outros a soltarem seus cantos. Cada qual tinha sua voz, mas todas eram roucas. Uns soavam bem ao longe, outros pareciam próximos, vizinhos de porta. Tampávamos os ouvidos, cobríamos a cabeça com nossos travesseiros, mas os galos e seus cantos penetravam todas as barreiras, nos tiravam o sono. Comecei a recitar os versos de Cabral, os poucos pedaços que sei do poema Tecendo a manhã. Um galo sozinho não tece uma manhã, ele precisará de outros galos que cruzem os fios de sol de seus cantos… até que a manhã, teia, tecido, se eleve, luz balão. Tudo truncado, eu sei, nunca decoro nada certo. Por fim, estávamos apaziguados, sorrindo no escuro e vendo nossa manhã se entretecendo em nossos risos, uma manhã que se iluminava dentro de nós, como um sonho, trazida pela voz rouca do tear dos galos. E, para que todos possam conhecer ou lembrar do poema de João Cabral, copio ele abaixo, em sua beleza. Muito mais do que uma manhã, trata-se de uma utopia. 

Um galo sozinho não tece uma manhã: 

ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele 
e o lance a outro; de um outro galo 
que apanhe o grito de um galo antes 
e o lance a outro; e de outros galos 
que com muitos outros galos se cruzem 
os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, 
se vá tecendo, entre todos os galos.


2


E se encorpando em tela, entre todos, 
se erguendo tenda, onde entrem todos, 
se entretendendo para todos, no toldo 
(a manhã) que plana livre de armação. 
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo 
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 


Antes de me despedir, me deslumbro pensando na incrível paciência do Guilherme. Ele adorava dormir, mas casou-se com uma maluca que sempre achou que dormir é perder tempo. Para mim, esse acordar no meio da madrugada para ficar recitando poesia era (e ainda é) um verdadeiro deleite. Para ele, só pode ter sido sinal de muito amor. Então fico aqui, repetindo os versos e repassando lembranças que, entretecidas, se elevam e me levam de volta aos fios de sol de seus braços: meu casulo, meu ninho.

Galinha abnegada

É impressionante como o jornal alimenta minha mente com bobagens importantíssimas! Acabo de ler a notícia (de 50 anos atrás, é bem verdade) de uma galinha de Catanduva que pôs um ovo de 250 gramas. Eles não mencionam tamanho, mas suponho que um ovo de 250 gr. seja alentado. Principalmente porque o recorde mundial anterior estava em 150 gramas. Pobre galinha! Ninguém comenta se a pobre ave sobreviveu a esse esforço que lhe garantiu pelo menos duas manchetes em 5o anos. O que será que aconteceu a essa galinha? Será que, seguindo o destino inexorável das galinhas, acabou num suculento prato de canja? Imagino seu dono, sorvendo o líquido com lágrimas nos olhos, pensando na omelete de um só ovo que ela lhe proporcionava todas as manhãs… 
O que desejo mesmo é inspiração para um conto de Natal, que preciso escrever. Na verdade, já escrevi dois, mas ambos tão tristes que nem tenho coragem de mandar para o editor. Procuro inspirações para um terceiro, alguma coisa alegre e brejeira como o do ano passado. Só que este ano, com os apagões, minha escrita está sombria, tenebrosa. 
À parte esta inspiração, ainda preciso terminar meu conto sobre Dante. Que Inferno! Comecei um que estava saindo tão lindinho, tipo uma carta de amor. Só que fui ler algumas coisas sobre a vida do poeta e descobri que provavelmente sua mulher não o acompanhou no exílio. Droga! Comecei outro, também lindinho, um delírio oscilando entre Gema e Bice, mas precisei parar e agora não encontro mais aquela voz… E, no meio do caminho, uma idéia aqui, outra ali, uma resenha feita, outra por começar, uma proposição de palestra, sonhos de viagem…
Volto à galinha: creio que deveria ficar no choco, esperando esse ovo de Colombo, mas a possibilidade me amedronta e fujo dos deveres. Assim sendo, programo coisas imediatas para fazer, como ir assistir aos filmes e shows do Valeopenair, escutar Mia Couto, ir a espetáculos de ballet e a sessões de vídeo com amigos.  Abnegação comigo não! E penso no dia de Ação de Graças (Thanksgiving) que cai depois de amanhã, penso em dezembro que já começa na semana que vem… Outro ano termina. Menos um.

Sunday, November 22, 2009

Palavras horribilis

Existem algumas palavras verdadeiramente horríveis em português. Vejam, por exemplo, a palavra "meditabunda"; ou, outro exemplo, a palavra "putativa". Numa frase, digamos:
A mãe putativa estava meditabunda, a gente nem consegue entender o que está dito, tanto que as palavras nos provocam o riso ou a repugnância. Há coisas que não consigo pedir num restaurante por considerar altamente impróprias.  Um espaguete a putanesca, não é estranho? Ou aquele outro prato ainda mais inapropriado: punheta de bacalhau… Tenho vergonha até de dizer em voz alta o nome dos pratos. E, não sei se por sugestão ou por verdadeira ojeriza, não gosto nem de um nem de outro. Também não gosto de penne alla arrabiata. Nem mesmo na versão nacional, goela de pato. Penne ou goela de pato, não sou eu que vou pedir uma coisa dessas para mim. Mudando de idioma, há, em Paris e na Bélgica, um prato muito apreciado e, portanto, sempre apregoado nas tabuletas de restaurantes "Mules frites". Abrasileirando (eu sei que são mexilhões com fritas) mas sempre me dá a impressão de que iria pedir mula frita, se acaso eu optasse pelo prato. O que me faz lembrar um almoço para o qual me convidaram, numa praia nos EUA, num restaurante especializado em mariscos. Eu sou meio esquisita com comida, mas sou bem educada e tento disfarçar meu desprazer com esses tais de frutos do mar. Os anfitriões, orgulhosíssimos, nos oferecendo a especialidade do lugar, uma espécie de clam (vieiras?) absolutamente indecorosas, pareciam vulvas (e é daí mesmo que vem o nome). Não sei se a gente merece o céu por esse tipo de sacrifício, mas tive presença de espírito e pretextei uma alergia. Escapei. Mas até hoje me lembro da insólita situação de ver aquela profusão de vulvas sendo sorvidas à mesa, por pessoas seriíssimas, educadíssimas, e muito formais. Pior que isso, só um outro marisco, português, chamado Percebes. Parece um dedo negro, como se fosse de uma pata de réptil, com uma unha também negra na ponta. Me arrepio só de pensar nesta degustação insólita. Outra comida das mais estranhas é a tal de lichia. Parece um globo ocular, uma coisa aflitiva. Porém, se me servem a lichia já cortadinha e sem os caroços, adoro! E se for em forma de caipisakê de lichia, tal como é feito no Sawasdee, restaurante que adoro, entro em êxtase! 
Cada idéia, que me vem à cabeça!… Isso tudo é por preguiça de ir à praia: calor demais, companhia de menos, fico aqui no ar condicionado, escrevendo bobagens, lembrando de besteiras. E imaginando viagens. Estou quase me convencendo a ir para o Egito e a Jordânia. Uma vontade louca! Quem sabe não embarco nessa?

Tuesday, November 17, 2009

Bitches and diamonds are forever!

Tenho andado preguiçosa, escrevendo pouco, e os amigos começam a reclamar (bom sinal!) Hoje aproveito a dica do Guido, com sua historinha da Madona (vejam o comentário ao post anterior) para dar dois dedinhos de prosa. 
Começo por uma auto-gozação: uma amiga, que me conhece, superficialmente, há muitos anos, me disse que sempre fui "construtora de sentido". Fiquei saboreando a frase, até descobrir o famoso sentido. Acho que ela quis dizer que eu sempre fui dada a invencionices. Pois quem conhece meu cotidiano parco deve estranhar tanto assunto como eu arranjo. Minha vida é pequena, já disse que vivo pequenininho, mas penso grande. As coisas que eu faço podem parecer desinteressantíssimas para os outros: Um cineminha, uma palestra, idas sem conta a livrarias (um verdadeiro vício), uma caminhada na praia. Viagens, todas as que posso. Muitas horas na frente de um computador, que, na maioria das vezes se escoam em partidas intermináveis de paciência. Pouca TV, leitura, sempre. Não saio muito, mas gosto de sair. Não convivo muito, mas gosto de conviver. Não falo muito, pois gosto de escutar. E, no entanto, estou sempre com algum pensamento pronto para compartilhar. Quando é que penso assim? Não sei. Talvez enquanto jogo paciência. E, então, começo a contar meu fim de semana, por exemplo, e me empolgo. Falo de um livro que li e meus olhos brilham (é o que me dizem), comento uma notícia de jornal com muita paixão. Dou aulas com entusiasmo, tenho coisas pessoais para dizer, ao invés de repetir opiniões, pura e simplesmente. Isso é o que me dizem. Pois eu até me surpreendo por fazer tanto esforço para pensar o que outros andam pensando também. E estou convencida de que, se me entusiasmo, é graças às sementes que os livros plantam em minha sensibilidade: quem pode ler Ana Karenina sem se entusiasmar com a força descritiva de Tolstói? Meu grupinho de leitura está terminando o romance. Mais umas duas aulas, no máximo três, e teremos terminado de ler o livro, que vai nos deixar saudades. Minha proposta de continuação foi um livro de história "As seis mulheres de Henrique VIII" da Antonia Fraser. Bem, dei muitas opções, e elas votaram neste livro. Vai ser minha primeira leitura "não-literária" com elas, e acho que vou gostar da experiência. Pois agora, ao invés de comentar o texto, vamos comentar o contexto. Mas, talvez seja a grande oportunidade de mostrar para elas (e para mim mesma) as diferenças de estratégia de "construção de sentido". Voltamos, então, ao título do post – bitches and diamonds are forever. Enquanto alguns privilegiam os fatos concretos (os diamantes) outros realçam os modos de ser (as pestes). Na união destas duas percepções é que se consegue ter uma idéia de como era uma época anterior à nossa (ou como será uma época vindoura, no caso, por exemplo, de um romance como 1984, que hoje nos parece quase que profético.) Tomara que a leitura deste novo livro seja tão proveitosa quanto as outras já foram.

Tuesday, November 10, 2009

Deveres cumpridos

Aos poucos vou-me organizando, desbastando o mar de tarefas que me ameaça (ainda, ainda!) impiedoso. Tenho sido heróica, acordando cedo, me disciplinando, e até me divertindo um pouco no meio de tudo isso. Pós-moderna, me sinto multifuncional, fragmentada: vou à praia com texto acadêmico, enfrento a "canícula", como diz o Alvaro Costa e Silva, escutando palestras verdadeiramente deliciosas numa biblioteca tranquilinha em Botafogo. Caminho pela areia, molhando os pés nas águas tépidas e razoavelmente limpas do Leblon. Fujo para tomar um sorvete, com uma xerox de artigo para ler. Invento histórias (possíveis ou não), começo os contos e os abandono, dizendo –Depois! E nem me assusto com a possibilidade de o depois nunca chegar. Se acaso não chegar, não será problema meu, convenço-me. Amanhã tenho SESC. Depois de amanhã também. Vou fazer uma coisa que me agrada: ler um de meus contos em voz alta. Acho isso muito gratificante. No princípio não gostava, ficava meio envergonhada, achava que estava sendo "exibida", como diria minha avó, tão furiosamente mineira e vitoriana, desconfiada de todo tipo de "se mostração", coisa que menina bem educada não fazia. Finalmente me dou conta de que não preciso ser tão rígida comigo mesma. Assim sendo, vou feliz falar com o pessoal do SESC, a quem tanto respeito em seu trabalho pelo Brasil afora, quase que um sacerdócio. E me comovo nos eventos que ficam pequenininhos em dias de sol como os do fim de semana passado, quando o Paixão de Ler, tão legal, estava acontecendo. Pequenininhos mas verdadeiros, intensos, belos. Adorei os dois dias que pude assistir. Vibrei, ri muito (escritor quase sempre sabe ser engraçado), descobri coisas. De quebra, ainda assisti a um lindo Ballet: Dom Quixote. Um encanto a transposição do texto para o movimento. E que movimentos! Uma companhia de ballet para ninguém botar defeito. Viva o corpo brasileiro, que sabe os segredos do ritmo e a beleza dos gestos! E palmas também para os figurinos, tão bonitos. O único senão é o local onde o ballet estava sendo encenado – Como aquele Vivo Rio é feioso e desorganizado! Na saída, sempre um tumulto. Faltam táxis, falta praticidade no vallet, falta paciência. 
Para terminar, só para deixar vocês impressionados, ontem a Madona veio me visitar. Com seus batedores, trazendo Jesus a tiracolo (ela é muito chic, tem um personnal god), ela veio para minha esquininha, alimentar seu corpo sarado e dar de comer aos olhos esfomeados dos curiosos. Mas, Leblon é Leblon. Nem com todos os batedores ela conseguiu atrair mais gente do que a que costuma se aglomerar na frente do restaurante à espera de lugar. Alguns fotógrafos, alguns cachorros curiosos, que contemplavam o movimento com atenção, e um trânsito um pouco mais lento que o costume. Nada que fosse fora do comum. Fechar o trânsito mesmo só no dia do incêndio, bem aqui em frente, que exigiu exibição de perícia por parte do operador da escada magirus. Isso foi na semana passada, ainda na época das chuvas, e numa era pré Madona.
E agora, que jea coloquei o papo em dia, volto ao trabalho, encompridando os olhos para o mar, e avaliando a possibilidade de adiantar as leituras da tese na praia. Será que dá?

Thursday, November 05, 2009

Da necessidade de boa redação

Tentaram me aplicar um golpe, ontem. Bem aqui, na Rainha Guilhermina, um homem e uma mulher acharam que podiam, com sua história mal-redigida, me levar no bico. A atuação estava bem feita, o casting era estupendo, mas o texto deixou a desejar. Muito. Overdose de clichês. Por isso dizem que menos é mais. Eu conto. Não sei se está escrito no meu rosto que sou louca por histórias, talvez esteja. E, como eu vivo repetindo, tenho o coração mole, escuto as aflições dos pobres de rua, mesmo quando finjo que não vejo. Ontem um carinha me abordou, perguntando um endereço de uma loja de roupas. Eu não sabia, e já ia continuando a andar quando a outra artista se aproximou. Uma mulher falante, de roupa de ginástica, toda decidida, parecendo tentar ajudar ao cara, ao mesmo tempo conversando comigo todo o tempo. Ele se fazia de ignorante, perdido na cidade grande, ingênuo. Ela era toda urbana, bem de vida, generosa e de boa educação. Resumindo o longo golpe, que só foi esboçado, mas não foi concretizado, o suposto comerciante queria ficar com o prêmio da Mega Sena que o tal caseiro de "políticos lá de Brasília", tinha recebido, no valor de mais de 4 milhões de reais. Ele queria me dar cem mil reais se eu o ajudasse, mas eu disse que não cobro por ajuda, mas que queria escrever a história dele… Aí eles perceberam que eu não estava acreditando, e ele disse que queria desistir de ir até a Caixa e que ia voltar para sua Teresópolis e buscar sua mãe, tão analfabeta quanto ele. A mulher tentou continuar comigo, e eu, muito educada, falei para ela que infelizmente não podia ficar e que tinha compromisso, percebendo que ela estava dando cobertura para que o homem sumisse de vista. Ela tinha carro, e ficaria mais fácil desaparecer. Esse golpe é velho, mas eles nunca chegaram a me propor nada (além de o homem querer me dar cem mil e querer beijar minhas mãos, imagine!) e eu vou ter que imaginar um pouco mais a história que vou contar, claro. Como não sou "con-artist" – é assim que chamam os golpistas em inglês, e com razão, pois são verdadeiros atores  – não imagino bem o objetivo deles. Me sequestrar? Me propor comprar o bilhete premiado pelo valor que eu tivesse no banco?  Descobrir meus dados para depois virem me assaltar? Depois escolho. Acho que, para fins de conto, dá mais caldo um sequestro, claro.  Mas depois isso me entristeceu demais! Pois o que eu gostaria mesmo é que a história fosse outra. Que alguém tivesse parado para ajudar uma pessoa que parecia necessitada e descobrisse que o outro era, na verdade, um afortunado. O que eu gostaria era de ter participado de um milagre de alegria, e não de mais uma dessas pequenas misérias humanas. 
Para terminar, revelo como descobri, logo de cara, que se tratava de um golpe: o uso dos clichês. Tudo o que o homem falava estava sobrecarregado de vícios de má-redação, mas não havia erros gramaticais. Um analfabeto que não errava o português mas que não sabia o nome de "táxi", falando nos "carrinhos amarelinhos que podem me levar de volta para minha mãezinha", e em guardar seu dinheiro "debaixo do colchão", e ser capaz de dizer 35 mil "reais", com plural corretíssimo e usando reais, ao invés de "conto" (ou mesmo contos, seria mais fácil de engolir), são pequenas incoerências que sinalizaram, para mim, que aquilo se tratava de um texto de um mau escritor. Nunca se deve explicitar muito as marcas, isso é dramaturgia exagerada de comédia, de caricatura. Para dramas realistas, aconselho menos exageros. Tentem assistir um pouco menos de Fallabela, pois ele pode ser bom, mas morreria de fome como golpista. Dou os conselhos, mas espero que os dois não estejam me lendo!

Tuesday, November 03, 2009

O fantasma do Chacrinha


Não sou grande fã de TV, e não assistia o Chacrinha. Só que fui ver o filme e me lembrei por que não via o programa: era cruel. Se hoje me emociono com aqueles aspirantes a cantores, imagine quando era pequenina, com o coração ainda mais mole do que é agora… 
O que me impressionou é que o Chacrinha tinha um bordão: o programa que acaba quando termina. E fico pensando na verdade que isso é. Ninguém parece ter melhorado de vida graças ao programa. Os desdentados continuam desdentados, os desafinados continuam desafinados, as chacretes viraram cozinheiras ou faxineiras já que perderam o rebolado. Os gagos continuam gagos. E os bobos estão cada vez mais bobos. O programa terminou e os participantes estão todos acabados. Triste isso.  
Para levantar o astral, uma foto (troféu abacaxi?) que tirei no lançamento do livro do Edney Silvestre.  Grande sucesso. Mil amigos, dois dedinhos de papo, depois a ansiedade de defender o projeto amanhã me atacou e tive de vir para casa. Melhor assim: vou aproveitar para ler o livro, cuja leitura do trecho feita pelo Tiago (Thiago?) Lacerda não assisti. Aproveitei para me despedir da Tatiana, que parte para a Fliporto e em seguida para o Porto, ou seria Lisboa? Ou para a Gafeira? Para algum lugar na Corte, como disse a Luciana. Bons ventos a levem e depois a tragam de volta, sã e salva. 

Saturday, October 31, 2009

Blog de amigo

Vez por outra coloco aqui no texto o nome de um blog que acompanho, mas que não consigo acrescentar na listinha do lado porque esqueci como é que se faz isso. Hoje falo do blog do Marcio e da Brenda
A-DO-RO!
Márcio há tempos que mandava as imagens para os amigos, e agora, mais recentemente, junto com a Brenda, formaram um blog sempre interessante, sempre de bom gosto. A Brenda tem uma galeria ali no Horto, que ainda não visitei (Que vergonha!) mas que muito recomendo, pois sei que só pode ser legal. Há coisas assim, você não precisa ver para crer, nem para amar, pois já sabe, de antemão, que foi criada na mesma sintonia em que você funciona. 
Escritores, por exemplo, alguns posso comprar mesmo sem folhear o livro, pois sei que vou gostar. Posso até estar cansada de seu estilo mais particular, ou mais difícil, mas. ao começar a ler, o texto estabelece uma ligação comigo em profundidade, em simpatia, em humanidade.
Agora peço um socorro ao meu amigo Guido: você por acaso se lembra de um artigo interessantíssimo que você me mandou, sobre leitura? Aquele que falava dos novos modos de leitura e como hoje nosso cérebro está desenvolvendo novas sinapses que mudaram nosso relacionamento com o texto? O artigo era longo, e em inglês, e eu adorei e não paro de falar nele com todos os meus amigos, mas quero mandar para eles e não sei onde foi que o guardei. Será que você podia me mandar de novo? E, caso você me mande aqui pelo blog, já vou avisando a todos os leitores que saibam inglês que vocês pre-ci-sam lê-lo. É excelente, e muito esclarecedor, importante para quem escreve e para quem publica, pois descreve um passo da evolução humana. Há gente que discute o termo evolução,  e eu aceito esse questionamento. Muitas vezes não progredimos, mas mudamos, pura e simplesmente. E até pioramos, eu acho.
Essa nova maneira de ler acontece, e não sei aonde vai nos levar, e é bom chamar a atenção sobre isso e compreender nossas novas aptidões e possibilidades.
Hoje vou gazetear e fugir para ir ao cinema. Preciso ler, preciso trabalhar, mas estou morrendo de dor de garganta, então vou ser boazinha comigo mesma e me dar um prazerzinho. Os pequenos prazeres possíveis, como disse num cartãozinho para minha queridíssima aniversariante de outubro, Stella.  Como já disse aqui antes, sou muito feliz por ter os amigos que tenho, tão especiais!

Friday, October 30, 2009

Detesto imeio edificante!

Não sei quem acha que gosto de receber daqueles imeios que supostamente nos "inspiram" e nos dão motivação. Na verdade, aquelas imagens de pobres sorridentes e abnegados, ou aquelas frases mal escritas me deixam irritada. Será que meus amigos me conhecem tão pouco? Vivo dizendo que não gosto de livro de auto-ajuda, que não leio Paulo Coelho e que não gostei de Perdas e ganhos, ou seja lá qual é o nome daquele livro chato da Lia Luft. Gosto, com muita moderação, de imagens belas, ou de arte, ou de gente. Rio com piadas, mesmo aquelas requentadas, que já recebi muitas vezes. Acho graça em coisas mordazes, um pouco ácidas, pois, como sou de temperamento mansinho e doce, necessito de uma dose de crueldade para me equilibrar. E, graças a essa necessidade é que achei muita graça no filme do Tarantino. Incensado como uma obra prima, ele aguçou minha curiosidade e, como a ocasião faz – não o ladrão– mas a espectadora, outro dia passei na porta do cinema e entrei, e assisti e, sim, gostei. Na verdade, adorei o vilão do Tarantino, um alemão poliglota, educado, refinado. Aliás, todos os alemães eram assim, civilizados. Só o Hitler dele é que continuou estereotipado. Em compensação, os americanos, chefiados pelo Brad Pitt, eram o cúmulo da rusticidade, da barbaridade, em todos os sentidos, até no sentido original do termo: "barbarophonoi". Era assim que os gregos classificavam os Outros, gente que usava uma linguagem que doía em seus ouvidos habituados à musicalidade do seu idioma. E era assim que o Brad Pitt soava, com um sotaque atroz, mesmo para ouvidos americanos. Com eles não havia retórica, não havia sutileza. Eram iguais a robots, programados para uma ação, uma única ação que desempenhavam com eficiência mecânica. E, sintomaticamente, o que o chefe desses autômatos não podia suportar era a falta de rótulo nos outros. Daí a marca. Só assim ele saberia quem era o inimigo, e poderia continuar atacando. Gente, será que o Tarantino é mesmo assim tão esperto? Mas, e isso é certo, ele entende de narrativa, e de cinema. Conta bem suas histórias, mesmo aquelas que não me agradam. Viva o filme, que devia ter sido traduzido com o erro , pois o erro é fundamental. Sei lá, Bastardos Ingrórios, teria sido mais fiel que a pomposidade sem comentário de Bastardos Inglórios. Mas, de tudo, o que mais me fez sentir aquela fagulhinha de felicidade que a gente tem face a algumas coisas que se sobressaem e nos surpreendem, foi a tranquilidade dele em mudar a História em história, assinando o texto. Isso era uma coisa que Hollywood sempre fez, mas dentro de um limite para não acordar a descrença no espectador.  Mudavam tudo, de acordo com a interpretação de quem estava narrando, mas mantinham a moldura que sustentava a verossimilhança. Mas, no filme tarantinesco, Hitler morre no atentado, e com esse detalhe tudo se subverte. Temos que reavaliar a guerra, a bomba, todo o resto. Ou apenas rompemos nosso vínculo com a história, e vemos a narrativa como texto a ser analisado, a ser entendido com a inteligência e não com a crença. Valeu, cara! Me edifiquei muito mais com essa tarde no cinema do que lendo a comovente mensagem de que, enquanto eu me queixo de dor na perna, tem gente sem perna que está jogando futebol… Minha única queixa é quanto à qualidade do meu cérebro, mas, segundo esses imeios, eu devia me dar por satisfeita, pois tem muita gente sem cérebro convencida de que pode ajudar os outros a pensar…
 Vixe! Tou braba, hoje. Deve ser coisa do signo de Escorpião, que está nos regendo.

Tuesday, October 27, 2009

Vampiros

Passei a noite assistindo a um programa sobre vampiros. Claro que hoje, por falta de uma boa noite de sono, me sinto sem energia, uma legítima vítima dos vampiros noturnos… O que mais me impressionou (tirando os detalhes nojentos de larvas e líquidos) foi o bispo inglês que hoje ainda acredita em vampiros. Lá estava ele, dando entrevistas, com suas suíças enormes, lembrando da vítima que havia salvo nos anos 60 ou 70, sei lá. Ela aparece, ainda novinha, ao lado do namorado, um cabeludo charmoso. Não mostram a moça hoje em dia, mas fiquei com a certeza de que a verdadeira vítima do vampiro não foi ela, e sim o namorado. O rapaz virou um velho mirrado, de cara chupada. A cabeleira continuou comprida, mas ficou ralinha e grisalha, começando no meio do cocoruto, fazendo seu rosto ainda mais comprido, mais desolado. Enquanto isso, o bispo ficou com cara de personagem de Dickens. Mais encorpado, demodé, bizarro. E a moça? Não apareceu. Mas eles garantem que ela foi salva. Ninguém mais apareceu para morder seu pescoço durante a noite, nem para deixá-la amanhecer exausta, com olheiras e corpo lânguido. Coitada. Será que ela foi mesmo salva ou apenas se transformou numa inglesa de meia idade, perdeu sua flexibilidade, os seus olhos escuros e líquidos, e agora ostenta um respeitável e horroroso chapéu, esconde o olhar atrás das grossas lentes dos óculos, e firma seu corpo sólido sobre sapatos abotinados, sensatos? Tenho pena dela e da saudade que deve sentir de suas noites de violentos combates contra o "mal"…
Depois fico pensando em Bram Stocker e em Mary Shelley. Suas criaturas tão poderosas ignoram seus criadores e vivem por aí, em filmes e historinhas bobocas, em documentários, em reinterpretações. Ninguém fala sobre os dois autores. Muita gente nem sabe que foram invenções. Já outros personagens criaram seus autores. Ulisses engendrou Homero, o Quixote presenteou Cervantes com uma provável biografia… 
Enquanto isso, bocejo, me espreguiço, e lembro do conselho que a especialista em concursos públicos nos deu esta manhã: caminhe para oxigenar o cérebro. Será que vou? Nada! Vou ler os artigos que selecionei para me preparar para a defesa de meu projeto. Duby, ou Norberto Elias, ou Labriola, ou … 
Fui!

Monday, October 26, 2009

Tempos escolares

Às voltas com comemorações escolares, lá fui eu ao YouTube, mais uma vez. Adoro esse tal de YouTube. Como não uso mais a aparelhagem de som desde a morte do Gui, é assim que escuto alguma música, e que consigo enlouquecer os vizinhos, repetindo-as mais de dez vezes, quando estou "in the mood".
Desta vez fui procurar as letras das canções que ouvi: Father and Son, do ex-Cat Stevens, que virou muçulmano e mudou de nome para Yussuf alguma coisa. Eu não sabia disso, ou, se sabia, já tinha esquecido. Aliás, eu nem sabia direito quem era o Cat Stevens, eu com minha mania de não prestar atenção na autoria, só na obra. A música eu já tinha ouvido, depois parei de ouvir, e, agora, escutei uma semana seguida, em ensaios e performances. A velha discussão entre experiência e acomodação, e juventude e aventura. O pai quer que o filho fique na mediocridade, não quer dar a ele a permissão para se aventurar e mudar. O que o Cat Yussuf não entende é que mudança com permissão não é nada. Não implica em desafio, portanto, não confere vitória. Ou talvez entenda, mas não muito bem, daí a canção se arrastar nesta baladinha repetitiva tararã, tararã, tararã. Nada muda. Mas, ao fim e ao cabo, nada muda mesmo. A gente pensa que sim, mas as mudanças são apenas aparentes, só revelam os mecanismos por baixo dos vernizes idealizadores. De um modo ou de outro a gente acaba settling down, e, no dia seguinte, os sonhos mudaram mas o sujeito permaneceu no mesmo lugar, só alguns quilos mais gordo ou mais magro. Mas, num determinado momento, é bom mesmo avisar aos pais, que podem ter se esquecido, que os filhos precisam partir. They have to go away.
Outra musiquinha foi "Se a gente grande soubesse", do Billy Blanco, e talvez do Jobim, não entendi direito os créditos. Uma palavra mansa faz milagres, diz a canção. E as crianças aprendem a dizer não com os pais, avisa. Num dia em que as manchetes tristes dos jornais falam da luta de um pai contra o vício do crack de seu filho, que, drogado, matou a namorada, me questiono se a educação pode ser uma coisa suave e permissiva. Acho bom o NÃO. Acho boa a frustração, pois a vida também tem dessas coisas e a gente não pode ficar achando que protege o filho de tudo com carinho. Eu cresci assim, no meio da delicadeza, e fiquei sem carapaça que me protejesse. São Piaget e Santa Montessori que me perdoem, mas é muito mais difícil construir essas carapaças mais tarde na vida. Toda hora desanimo. Mas o SIM também é uma maravilha. Ter alguém que sirva de wind beneath your wings, que lhe permita alçar voo e alcançar o céu. Só que, sem o NÃO, ficamos sem consciência crítica, e achamos que sempre merecemos o paraíso, daí que as pessoas vão baixando os padrões, até chegar nessa nossa falta de tudo, com todos se achando no direito de tomar o que é dos outros…
Para terminar, lembrei de uma que não escutei, mas que amei quando era garota: To Sir with love. Tá nesse endereço aqui
Se eu fosse mais espertinha, ao invés do link colocaria aqui o vídeo, mas … Vou me dar um tapinha nas costas e dizer a mim mesma que sou um prodígio, autodidata em gracinhas cibernéticas, usuária de i-phone, YouTube, GPS e que isso tudo está muito bom e que eu não preciso aprender a baixar os sons para o ipod que nunca consegui usar, com a desculpa de que odeio os tais de head phones. Mas odeio mesmo, e se quisesse muito escutar música já teria aprendido, pelo menos aquele básico que me permite ser funcional e medíocre nas gracinhas que uso.

Sunday, October 25, 2009

Literatura e internet

Ontem fui a uma palestra no EDEM, colégio em Laranjeiras, organizada pelo Miguel Conde e da qual participaram o Cesar, o Henrique e o Marcelo. Todos são meus amigos e me sinto orgulhosa disso. O César é dos tempos da UFRJ, Henrique, Marcelo e Miguel são mais recentes, mas nem por isso menos queridos. 
Esse tema tem andado presente nos corações e mentes das pessoas que conheço: Na universidade, viraram tema de aula, assunto de pesquisa. Nas conversas de bar, são referências. Na minha vida, percebo aos poucos, são uma presença, cada vez mais constante. Uso a internet há muito tempo, pois entrei em contato com ela lá em Yale. Não era essa coisa assim tão fácil, mas já facilitava a vida e a pesquisa. Agora, vejo nos jornais e escuto nas reclamações de amigos, ficou tão fácil que se tornou uma ameaça, pois o plágio se difunde. Essa noção de plágio surge tardiamente. Só quando a arte passa a ser mercadoria é que se defende a propriedade. E, mesmo com a valorização da "assinatura", no princípio a cópia –plágio sem intenção de lucro – era um instrumento de ensino. As crianças copiavam. Os artistas copiavam. Os músicos copiavam. Era uma maneira de aprender e também de disseminar e de homenagear os autores.
Mas saio de meu assunto.  A relação Literatura e internet tem sido, basicamente, interpretada como literatura feita em blogs ou copiada em blogs. Já reparei que escritores mais famosos e mais estabelecidos usam essa publicação virtual como uma maneira de se safarem da penosa súplica por ajuda para publicação. Os conferencistas X, Y, Z ao receberem as avalanches de poemas e textos que ainda não encontraram editor, se saem com essa: "Hoje em dia o melhor meio para se começar a publicar é postando as obras na internet." Mas, e isso parece ser uma regra, mal o autor iniciante consegue ser publicado, ele para de publicar seus textos na rede, cioso de sua obra. Eu sou uma autora meio híbrida. Tenho livros-objetos e livros-virtuais. E ainda tenho livros na gaveta (metáfora para arquivos de computador, pois já não escrevo mais em papel há muitos anos). Os livros na gaveta são de poemas. Os livros objetos são de contos. Os virtuais também, mas, de um modo geral, são mais humorísticos, ou, pelo menos, acho que trabalho com mais humor quando escrevo para Histórias Possíveis. Mesmo que seja humor negro e cruel. No meio de tudo isso ainda tenho "livros em andamento", contos e romance, ensaios acadêmicos, tudo isso que consome meus dias e meus pensamentos.
No blog, converso. E converso, quase sempre, sobre literatura, arte, e minhas reflexões. No Facebook e no Twitter, tento me manter ligada aos amigos que se espalham pelo mundo. Confesso, no entanto, que estes dois são mais negligenciados, ficando sempre em último lugar na minha lista de prioridades. 
Esse post já está muito longo. Volto ao assunto outra hora. Agora vou "viver de verdade", ver gente de carne e osso, conviver.

Monday, October 19, 2009

Despedidas

Meu fim de semana foi de frio e chuva. Tanto frio que mal nos animamos a sair do hotel (horrorozinho) em que ficamos. A cidade me chamava, com seus encantos. A dois passos do Central Park, nao consegui ir ate la passear, pois minha amiga nao resistiria. Tambem nao fui mais a nenhum museu, acabei indo para o indefectivel Macy's, onde comprei um casaco que agasalhasse, pois os meus so tapeavam. Para escapar do frio, cinema, a dois quarteiroes do hotel (Coco antes de Chanel). E, para merecer o paraiso, o purgatorio da espera na loja da Apple, que nao consertou meu computador. Para desenfastiar, Rockfeller Center e todos os turistas do mundo. Ficar olhando os patinadores no gelo e sempre divertido. Agora, aqui do aeroporto, contemplo um lindo amanhecer. Hoje a chuva parou e as temperaturas devem subir. Deixamos NY em toda sua beleza e seducao. Desculpem a falta de acentos e etc. Obrigada pelos comentarios, que sempre me estimulam. No Rio escrevo mais.

Friday, October 16, 2009

Cecília e Nova Iorque

Cecília Meireles era linda. As suas fotos, os desenhos de sua face longa e aristocrática, seus olhos verdes de gata, tudo me encanta. Seus poemas também. Gosto deles, da sonoridade de seus versos, dos temas abordados. Me orgulho de seu trabalho onde posso detectar tenacidade, perseverança, dedicação. Mas, neste Congresso, descobri um lado seu que não gosto: seu lado de educadora. Não me levem a mal: acho muita dedicação de sua parte a criação de bibliotecas infantis, e também gosto de seus livros para criança. O que não aguento são as idéias "quadradinhas", formais, "bem comportadas". Imaginem que ela não gostava dos personagens de Lobato, achava-os crianças malcriadas. Fiquei ofendida, quando descobri isto. Acho que cresci influenciada pela irreverência libertária da Emília. Não me identificava com a Narizinho, que, no entanto, era minha xará. Achava que ela era meio boboca. Mas a Emília! A senhora Marquesa de Rabicó, que nunca deu bola para aquele marido que lhe arranjaram, e cujo affair com o Visconde de Sabugosa sempre me impressionou, era meu ídolo. Um de meus primeiros sonhos impossíveis foi esse de ser boneca.
O dia de ontem foi chuvoso e frio. Muito chuvoso e muito frio. Não deu para passear, embora eu tivesse que voltar para o hotel a pé desde lá da BEA, pois não consegui táxi. De noite, fomos a um musical: South Pacific. Antigo, sim, mas seu principal personagem masculino era interpretado por um brasileiro, Paulo Szot, um barítono maravilhoso, que também tem uma bela figura. Gostei. Sobretudo, gostei do teatro, que faz parte do Lincoln Center (Vivian something, esqueci o nome), e que é tão bem construído que a gente quase que se sente dentro do palco. Moderno e bem confortável, dá gosto ir lá.
Hoje foi o último dia do Congresso, que, aliás, pode ser assistido no YouTube. Eu ainda não vi, mas é porque meu computador está no conserto, e estou usando um emprestado, só quando dá… Por isso mesmo termino por aqui, pois tenho que devolver este computador a seu dono. E deixo para falar outra hora na Neue Galeria, onde fui hoje pela manhã, ver os expressionistas, na exposição de Klimt a Klee. Adoro esse pequenino museu, uma casa na esquina da 86 com Quinta Avenida, e sua coleção deslumbrante de Schiele, de Klimt, de Kokotscha. O dia esteve frio, mas quase não choveu. E eu passeei, depois do fim da conferência, em Times Square, para saudar as luzes de NY. Depois conto mais.

Thursday, October 15, 2009

Isamu Nogushi- Water Stone

Volto à pedra. Essa escultura realmente me fascina, e não sei porque não aprendi de cor o nome de seu criador. Mas me lembro que esta sua escultura foi uma de suas últimas obras, talvez tenha sido a derradeira, mesmo. Ele já estava velhinho quando fez essa maravilha. Ontem falei da pedra principal, mas deixei de lado os seixos rolados onde ela repousa. E disse que ela feita de granito, em minha ignorância geológica. Na verdade, ela é feita de basalto, aquela pedrinha preta das calçadas do Rio. Um de seus lados conserva a aparência exterior, aquela carinha de pedra comum, dessas que a gente encontra pela natureza.
Mas quero falar de gente e de suas falas. Uma das coisas que mais me surpreende no meio acadêmico americano é a sua capacidade de pesquisa. Sendo assim, não é de estranhar que muitas vezes algumas escritoras brasileiras sejam mais populares aqui que no Brasil. Creio que seja o caso de Nísia Floresta, uma escritora feminista do século XIX. Nunca tinha ouvido falar de Nísia no Brasil, embora pelo menos uma professora brasileira, de Minas Gerais tenha uma extensa obra sobre ela. Aqui descubro que ela fascina, e com muita razão, as imaginações de muita gente, e que é estudada seriamente até na Inglaterra. Seus livros foram sucesso na França, onde ela morou, e mereceram várias edições. Ela é natural do Rio Grande do Norte, fundou um colégio no Rio de Janeiro, escreveu em jornais, fez comícios pró-abolição, mas seu trabalho de educadora foi duramente criticado no Brasil. Que se há de fazer?
Ontem o dia do Congresso foi dedicado a ela, mas antes de começarem as palestras, a convidada de honra, Ana Maria Machado, fez uma magnífica conferência. Ela é brilhante, firme, segura de si, mas muito simpática, extraordinariamente afável e acolhedora.
No meio do dia, uma sessão com tradutores. O legendário Gregory Rabassa lá estava, falou sobre suas traduções, contou algumas piadas e emocionou a platéia.
Agora preciso terminar a conversa. Vou me preparar para o dia de hoje, dedicado à Cecília Meireles. Quando puder, conto mais.

Manhattan

Cheguei a Manhattan bem no dia de Colombo, e fui recebida com uma parada muito chocha na Quinta Avenida. Não sei se estava desanimada porque já era o final da programação, ou se era mesmo assim sem graça e solene como o desfile dos floats que assisti em Nova Orleans. Esse tal desfile de Carnaval era uma chatura. Não sei como as pessoas ficam aguardando pela chegada dos carros alegóricos sem samba, nem mesmo um bom grupo de jazz. Alguns homens de blazer e colares, algumas louras disfarçadas de sereias, algumas flores douradas enfeitando tudo, carros exageradamente grandes e pesados, desfilando lentamente, sonolentamente, esta é a lembrança que guardei. De noite, as ruas apinhadas de bêbados e bêbadas, os mesmos homens de blazer, que haviam desfilado de manhã nos carros alegóricos, apenas com seus narizes mais vermelhos por causa da bebida, aparecendo nas sacadas e jogando colares para as louras de peitos descobertos, molhados de cerveja, balouçantes... Isso lá em Nova Orleans. Aqui em Nova Iorque, senhores solenes em pé nos carros, com estadartes das sociedades "colombianas", acenando para famílias desatentas e para turistas desinteressados. Mas o desfile não empanou o brilho e beleza da cidade. O sol frio brincando entre as nuvens provocava desenhos nas vidraças dos prédios, ou sombras nas fachadas elaboradas dos prédios mais antigos. Atravessei a parada e mergulhei no cubo de cristal da loja da Apple, para consertar meu computador. Quando saí de lá o dia já tinha acabado. Só me restava jantar e descansar. No dia seguinte, o sol se abriu, glorioso. Depois de fazer uma caminhada pela Quinta Avenida (estou pertinho dela), fui ao Metropolitan para ver os Vermeer. Preciso dizer o quanto eu adoro este Museu? Eles sabem o que fazem, e a exposição, apesar de pequena, era interessantíssima. Adorei ver os quadros que foram contextualizados entre outros quadros da época, entre outros quadros da mesma temática, e aprendi coisas que nem suspeitava. Minha "Françoise", pois sempre penso estar vendo a personagem de Proust no quadro de Vermeer, me fascinou com sua calma e suas sutilezas, todas explicadas e colocadas em primeiro plano.
Mais uma vez fui visitar minha "pedra do sono", a escultura de um japonês cujo nome sempre me esqueço, e que é uma das minhas favoritas. O nome da escultura não é esse, eu é que lhe dou esse nome. Imaginem um cubo de granito, quase perfeito, com uma excavação na parte superior, coberto por água que dá a impressão de estar absolutamente parada, mas que corre e cai, sem que vejamos seu movimento. Sabemos que a água escorre porque escutamos o rumor que ela faz, mas não podemos perceber seu movimento. Minha impressão é a de que poderia me sentar em frente a ela para sempre, me deixar ficar ali fascinada por aquela calma aparente, por aquela pedra viva, linda em sua simplicidade, absolutamente complexa em sua invisível dinâmica.
Para terminar a visita, uma chegada no terraço para ver Maelstrom, uma escultura de um raio que ocupa todo o espaço do terraço. À volta, as copas das árvores, ainda não totalmente amareladas. Mais ao longe, o perfil dos prédios, sentinelas zelosas do parque e do museu. Quanta beleza dá para carregar em nossos corações? Tinha vontade de fechar os olhos para não deixar meu encantamento se desfazer, ao olhar para outras coisas. Agora que estou aqui escrevendo, me lembrei da história que contam de Proust, absorto na contemplação de uma flor, tentando guardar sua imagem para depois usá-la em seu texto. Quem me dera a intensidade daquele olhar! O meu, vadio e indisciplinado, logo logo estava se deliciando com detalhes de caixinhas de rapé, frascos de perfume, leques franceses. E meu corpo, rebelde, exigia descanso.
Hoje foi o primeiro dia do Congresso do qual estou participando. No caminho para a NY Film Academy, onde foi a abertura, a cidade foi revelando recantos que eu ainda não conhecia, ou ponde em evidência prédios que amo, pelo seu valor simbólico ou por seu traçado elegante. O desenho arquitetônico maciço e sólido das construções mais antigas parece ainda mais concreto ao se contrapor à leveza dos prédios mais novos, que abusam das transparências e de espaços vazios. Mas já escrevi demais, a hora se adianta e amanhã tenho um dia cheio. Se conseguir amanhã escrevo mais, contando os detalhes do Congresso.

Sunday, October 11, 2009

Visitas

Passo rapidamente pelos blogs dos amigos. É como uma visita caladinha, cheia de saudades, uma espécie de passeio. Vou até Israel, no blog do André, depois velejo até Alagoas, com o Guilherme. Me embrenho por museus, acompanhando o Márcio, e por aí vai… Enquanto isso, fisicamente, me divirto com a visita que estou fazendo aqui na casa do Tom e da Margaret. E eles também recebem visitas: do Brasil, como eu, de Washington, de Stamford, do Maine. Conversamos, escutamos música, comemos, bebemos, trocamos confidências e admirações. Passo um dia cheio e eu, desacostumada de falar, termino a jornada com a garganta doendo, mas com a boca em sorriso, feliz. E deixo aqui um beijo, aos amigos que visitam meu blog.

Friday, October 09, 2009

Saudades de vocês

Minha nossa! O tempo passou e eu nem notei. Tantas correrias, e agora aqui estou em Nova Iorque, com amigos do passado, revendo primeiro Connecticut e, depois do dia 12, me hospedando mesmo na grande maçã, onde participarei do I Congresso Brasileiro em NY. Se tiverem curiosidade,  o site é: www.brasilianendowment.org Lá vocês podem ver o programa completo do Congresso. 
O que dizer desse retorno? Nem sei. Esse comecinho de outubro, com as árvores mudando de cor, e as folhas bailarinas que nos saúdam com seus vestidos de festa é realmente deslumbrante. As árvores ainda não estão no auge da mudança de cor, mas já estão lindas, algumas parecem flamejantes, outras ainda só têm uma pincelada de amarelo, ou de vermelho. 
E uma palavrinha a respeito do céu: eu tinha me esquecido do espetáculo do céu!. No Rio, ele aparece entre montanhas, não tem o mesmo apelo dramático dos céus daqui, onde as nuvens fazem verdadeiras coreografias. E os pássaros também desenham quadros – as revoadas de pássaros que, ao mudarem de direção, mudam de cores, parecem quadros abstratos, dinâmicos, apaixonantes. É bom estar aqui, nas ruas desertas e muito limpas, no ritmo educado das pessoas que aguardam que você atravesse a rua sem ficar acelerando ameaçadoramente…
Desculpem a demora em escrever. Vou procurar compensar. Obrigada, Amauri, pelo puxão de orelha, pois foi o estímulo de que eu precisava para voltar ao nadanonada.

Thursday, September 24, 2009

Quase livre

De repente, neste dia tão cinzento e tempestuoso, vislumbro um raio de sol: liberdade? Ainda não, mas um passo já foi dado. Entreguei textos, agora tenho que me dedicar a formatar os capítulos. Depois, três cópias. Depois, não sei. Mas começo a olhar a tese como algo que será feito. Vejo as páginas cobertas de letras, imagens e sou capaz de escutar música (tantos clássicos, tantos boleros, tantos devaneios de jazz que se inscrevem por entre as linhas!) Queria uma casa de chá onde pudesse me sentar com Cortazar e Carpentier, Callado e Oswald, Machado e Proust. Nas paredes, muitos quadros coloridos. Eu tomaria um uísque (apesar de não gostar), ou tomaria duas taças de champanhe rosé, porque sou fresca e gosto de bebidas cor de rosa. Ou tomaria um chá de capim limão e escutaria, calada e sorridente, e ficaria embevecida, escutando a algaravia das conversas desencontradas. Depois, já um pouco tontinha, deixaria esses sábios para lá e voltaria para casa, para ler um pouco. Ler alguém que ainda não conhecesse, sem compromisso, como uma criança descobrindo um livro de histórias. Ou para escrever a história de Mariana, tadinha, abandonada, mas não esquecida. 
Por enquanto, fico só nesses pensamentos. E reviso as normas, para poder revisar os trabalhos. Amanhã recomeço.

Thursday, September 17, 2009

Aniversários e o canto das sereias

Só pra descansar um pouco desta minha faina…
Hoje é aniversário da Tania, amiga dos tempos de colégio que nunca mais vi. Se você estiver me lendo, parabéns, saiba que não esqueço de você.
Amanhã é o aniversário da Rachel Jardim. Estou sorrindo, pensando nestas amigas que transformam dias comuns em dias especiais. Que bom que vocês nasceram, que bom que são (ou um dia foram) minhas amigas.
Hoje também foi o dia que me mudei para Portugal, há tanto tempo atrás. Lá conheci o Guilherme, lá mesmo me casei, no mosteiro dos Jerônimos, num lindo dia de julho  (Vejam como a vida da gente muda rápido: em setembro estava chegando numa terra estrangeira, sem conhecer ninguém, meses depois conheci, namorei, noivei e casei!). 
E, já que falamos de paixões avassaladoras, as sereias brasileiras estão seduzindo os escritores de Portugal e Moçambique! Esses descendentes de Ulisses (diz o mito que Lisboa é a cidade fundada por Ulisses –Ulissiponense) não seguiram o exemplo do herói, e sucumbiram aos encantos das sereias de cá. O Mia Couto, como é moçambicano, não deveria estar incluído nesta categoria, mas, como ele criou uma sereia para uso pessoal, caiu nas malhas e derrapou nas curvas brasileiras também. Arre! E suas Penélopes? Como ficam? Será que estão chorosas e tecendo suas teias ou raivosas planejam vinganças e cobram pensões? Mas esqueçam as preteridas e pensem nas preferidas, que, estas sim, estão sendo seduzidas pelas palavras desses grandes contadores de história. Imaginem as jovens cavalgando as ondas generosas de seus amados, embaladas pela declaração sussurrada, com sotaque: Amo-te, amo-te! Tomara que não enjoem!

Seminário

Bem, a quem acompanhou meus trabalhos de parto nestas últimas postagens, quero que saibam que o seminário foi um sucesso. Tudo correu bem, desde as adoráveis e elegantíssimas monitoras, atentas e eficientes, até as palestras que foram interessantíssimas e que se encadearam, formaram um corpo de pensamento que revela, em suas manifestações de loucura e rebeldia, os "desassossegos" da Lúcia Helena e do Pessoa.
Só que minha gestação é de gêmeos, e o outro bebê ainda não veio à luz. Volto ao trabalho, dando forma concreta ao pensamento para o exame de qualificação.
Fui.
Mas antes de desaparecer no espaço cibernético, um deslumbramento guloso: as contribuições para os lanchinhos do seminário fizeram do evento intelectual, o banquete de idéias, uma festa dos sentidos, um banquete literal. Vejam como literatura e comida se juntam para provar minha tese sobre o banquete! Volto a escrever sobre o assunto, mas agora com imagens de chuviscos de Campos, bolos de fubá, cafezinho da roça, e outras delícias twittando como passarinhos a meu redor. 
Agora me levanto desta mesa para me sentar em outra.

Tuesday, September 15, 2009

Trapaças da sorte

Sempre que estou trabalhando em minha tese tenho acidentes. Ontem aquele tal de "chupa cabra", o tal negocinho que a gente pluga no computador para fazer um backup, se recusou a copiar meu arquivo porque estava cheio. Tentei retirar algumas velharias, de que já não necessitava e ele me respondeu, muito petulante, que eu não podia fazer isso. E, sem que eu fizesse mais nada, pois humildemente desisti dos meus intentos e quis ejetar o negocinho, o safado se apagou! Nem tive coragem de tirar o vampirinho do computador, esperando que meu filho apareça por aqui para poder salvar alguma coisa. Eu, hein, Rosa! (Isso é o que meu avô dizia, em 1900 e antigamente)
Amanhã tem Seminário na UFF. Começa com um Workshop às 10:00h, e, depois do almoço, teremos uma mesa de conferências e duas mesas de palestras, essas três abertas ao público em geral. Os debates girarão em torno do tema: Literatura:pesquisa & atualidade. Jornal, cinema,crise, política, alteridade, a solidão moderna e o desassossego da ficção, tudo isso sublinhado pelo papel da pesquisa que indica novas direções e que detecta os caminhos que vão reinventando a nossa nação. O site está aqui:
Bem, por hoje é só esse convite e o lamento de quem vai ter que se reinventar para não quebrar o computador, jogar tudo pela janela e se mudar para o Himalaia, para ver se lá consegue esfriar a cabeça.
Vejo vocês na UFF.

Monday, September 14, 2009

Rapidinha

Semana difícil a minha, com muito trabalho, mas queria registrar aqui minha tristeza pela morte do Norman Borlaug, "pai da Revolução Verde", ganhador do Nobel da Paz em 1970 por seus trabalhos que ajudaram a alimentar o mundo. No entanto, como o ser humano tem um gene defeituoso (Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, dizem, mas esse negócio de transferência de tecnologia é perigoso, avisem ao Lula!, a tecnologia pode vir contaminada), as safras viraram objeto de especulação financeira, ao invés de serem obrigatoriamente divididas e distribuídas pelo mundo. Quem me dera um mundo sem fome, um mundo em que a gente olhasse o sofrimento dos outros e se compadecesse, ao invés de se congratular pela boa sorte que teve, ou de dizer aquela frase odiosa: "antes ele do que eu". Bem, tenho um gene Madre Teresa, mas é recessivo e preguiçoso. Nunca vocês me verão à frente de campanhas e movimentos, criando fomes-zeros pelo mundo afora. Mas procuro educar minha família, na esperança que um deles venha a fazer alguma diferença. Mas cumpro os pequenos gestos: Procuro não desperdiçar, procuro reciclar, cuido com carinho das limpezas das ruas e praias que frequento. Meu grande crime ambiental é a quantidade exagerada de livros que compro, mas agora já tenho um kindle, e os livros em inglês vou comprá-los desta maneira eletrônica. Não gosto muito, mas devo estar salvando alguma árvore, com esse esforço de ler na maquininha. 
Guido me mandou mais um link, tudo o que ele me manda é interessante, e agradeço. Ele também tem um blog, de fractais, que um dia serei capaz de listar aqui no meu blog. Vocês, que acompanham meu blog há mais tempo, já tiveram a chance de ver a beleza desses fractais, pois ele já me mandou imagens que reproduzi aqui.
Hoje o caderno de tecnologia do Globo diz que twitter emburrece, mas facebook não. Ora vejam só! E eu que achava que era exatamente o contrário, pois o FB está cheio de coisinhas engraçadinhas que nos fazem perder um tempo louco, ao invés de fazer algo sério. Recebo mil e um convites para saber coisas do tipo: que bairro eu sou? que escritor eu sou? que música eu sou? que pintor eu sou? que cor eu sou? No início, respondi a uns questionários, mas logo percebi que era tudo uma roubada. Minha cor é azul, cor que escolhi, que amo e que faço constar em quase tudo o que escrevo, mas se eu tiver que ser uma cor, preferia ser o arco-iris, algo assim matizado, variável, ligando um mundo a outro. Vocês sabem porque o arco de cores se chama Iris, não? Porque Iris era a mensageira dos deuses, e sempre que estes tinham algo a comunicar ao "cerumano" (li isso outro dia e adorei, mas me esqueci onde foi) mandavam a bela deusa até nós e esse era o caminho da deusa. Meu amor nasceu numa ilha cheia de arco-iris, uma ilha perdida no meio do Atlântico Norte, muito verdinha, onde as cercas são feitas por hortências, brancas, azuis e cor-de-rosa. Essas hortências são tão abundantes por lá que chegam a parecer cascatas, quando as contemplamos ao longe, descendo as encostas das montanhas. Juro que não fantasio, que a ilha é assim mesmo. Mas seus habitantes nem ligam para toda essa beleza. Reclamam da chuva, que cai a toda hora, sem perceberem que essa é a condição para o aparecimento das cores no céu. E consideram as flores uma praga, de tempos em tempos os tratores arrancam os arbustos, sem piedade. Nunca uma dona de casa de lá enfeitou a casa com hortências, até o dia em que saí da casa de minha sogra munida com uma tesoura e voltei com braçadas de flores (azuis, claro) e fui colocando em todos os vasos da casa. Minha sogra já não estava mais lá, e a casa andava meio triste, sem os arranjos de flores que ela gostava de fazer. Meu sogro, que me olhou com espanto quando me viu entrar, quando viu a casa toda florida se admirou:" Nunca tinha notado que essas flores fossem tão bonitas! ", ele me agradeceu. E, da vez seguinte que veio ao Brasil, me trouxe um quadro onde as hortências apareciam em primeiro plano. Não são lindas, as minhas histórias? Será que no futuro terei mais histórias de beleza igual? Ou vou ter que ficar para sempre recorrendo a esse estoque, que já vai ficando antigo?
Vejam como sou: saí do FB e fui parar nos Açores (Ilha Terceira, para os mais curiosos). E agora vou correr atrás do tempo perdido, pois, como li na crônica do JFS, "o relógio maaaarrrca…" São os últimos momentos para meus trabalhos na UFF!

Sunday, September 13, 2009

Feiura e finais

Sempre que visito o blog dos amigos me sinto humilhada. Vejam o blog de minha amiga e agente, Valeria Martins www.pausadotempo.blogspot.com. Lindo, arrumadinho, elegante… tudo aquilo que o meu queria ser e não é. Só sei mesmo é ficar falando minhas abobrinhas, pensando em voz alta. Nem sequer colocar a lista dos blogs dos amigos sei fazer. Geralmente conto com meu filho, que nasceu com um computador acoplado no cérebro. Mas ele não se liga em blogs e twitters.Daí que nunca vou progredir nestas ferramentas, acho. Quem me iniciou nestas coisas de blog foi meu mano André de Leones, outro blogueiro competente,www.rechavia.wordpress.com Aliás, vocês devem procurar o JB e ler a resenha que ele fez de Suíte dama da noite, no caderno Idéias deste sábado. Eu também escrevi uma resenha publicada neste sábado, sobre Compaixão. Pensei se ia contar ou não que adoro esta palavra, não no sentido que ela habitualmente tem de "peninha", mas no sentido (errado) de compartilhamento de paixão. E não vou continuar no assunto, a não ser para relembrar meu queridíssimo poeta pernambucano, Marco Polo Guimarães, com quem amenizei o longe de Triunfo saboreando palavras. André e Breno também estavam na van, cuja refrigeração não era páreo para o calor sertanejo. Quantas saudades desta viagem, quanta saudades destes amigos! Preciso de meio Lexotan, hein Breno? E de muitas risadas cristalinas, de caminhadas para ver, ao longe, a Paraíba. De palavras doce-amargas proferidas na modorra de Caruaru… Delícia, tão boa quanto o gosto do doce de laranja que não consigo esquecer. Ah, pára com isso! (E nem se atreva a perguntar se tem ou não acento!)
Vim escrever por duas razões: a primeira, para agradecer ao Guido pelo link que adorei. Vou usar no meu trabalho, sim. E avisar que recebi pelo blog, claro!
A outra é para sugerir um outro final para a Ivone (Yvonne?). Confesso que fiquei fisgadinha por esse final de novela, e que acompanhei muitos capítulos, embora tenha sido uma relação Norminha/Abel. Eu fui infiel como a Norminha, mas fazia coro com o Abel e dizia: você não vale nada, mas eu gosto de você. E paro por aí, não quero saber o por quê, pois o bom do amor ou do gostar é esse mesmo, a gente gosta e ponto. E se examina demais, deixa de gostar.
Voltando ao final: desde sexta que só ouço gente reclamando e dando seus finais, ou leio twits comentando as cenas, essas coisas. O que eu acho mesmo é que todo mundo queria era prolongar um pouco mais as histórias e seu encantamento. Mas, já que os palpites estão por toda a parte, aqui vai o meu: Se eu fosse a autora, a Ivone não fugiria. Golpista do jeito que ela é, e lendo sobre o que acontece nas penitenciárias, ela se "converteria" e terminaria "bispa". Grande golpe, não?  
Bem, não percam seu tempo aqui comigo, o dia está lindo, a praia nos chama. Vamos todos caminhar pelo Leblon antes que comece a nova novela e a gente passe a tropeçar nos famosos por aqui. E aí vocês podem me perguntar: e não é para a gente tropeçar nos famosos, que vai ao Leblon? Não. A gente também curte bater longos papos na esquina do Zona Sul, cumprimentar os lojistas que nos conhecem e até sabem o nome do pessoal lá em casa. A gente curte o jornaleiro que nos entrega o jornal favorito antes mesmo que peçamos (e olha que é só aos sábados que a gente vai lá!) A gente detesta o cara que circula com seu megafone comprando tudo velho, adora o vendedor de brinquedo artesanal que aparece aos domingos, se deixa tentar pela empada apregoada com voz tão forte que chega até aos andares mais altos dos prédios, sorri para os rostos que, de tão vistos, se tornam conhecidos. Curte o nascimento de Maria Eduarda, e celebra a volta de sua mãe ao Celeiro. Lamenta a falta das coxinhas do bar da esquina, fechado para reformas. Se arruma só para dar uma voltinha, chegar até a praia e voltar, tomando um picolé de limão. Se admira com o surgimento de mais uma novidade em termos de restaurante, gasta mais do que pode na livraria, e, quando o que se quer não está nessa, vai na outra, um pouco mais longe, e acaba indo até ao teatro! A gente conhece os cachorros que desfilam seus últimos modelitos de tênis, óculos e viseiras. Ri com o Beethoven saltitante, conta as embaixadinhas na esquina do Cafeína, e imagina histórias para o atleta… Adora saber que tudo está a uma distância facilmente transposta pelas suas próprias pernas, e que só precisa de carro para as longas excursões até as terras estrangeiras de Búzios, Itaipava ou Angra.
E chega! Vou para a rua, provar de tudo o que recomendo.

Friday, September 11, 2009

Literatura, twitter e otras cositas más

Passei o dia hoje preparando uma comunicação que vou fazer num seminário da UFF. Acabei perdendo a noção do tempo, coisa que às vezes me acontece quando fico muito enfronhada no que estou escrevendo. Enquanto isso o dia 11 de setembro passou e eu quase nem notei. Só agora, e fiquei arrependida de não ter lembrado nem um pouquinho do trauma que foi esse dia. Me lembro que foi o Guilherme quem me avisou do que estava acontecendo. Eu estava no carro, voltando para casa (sim, eu sei, eram nove e pouco, mas eu já tinha feito mil coisas, antigamente eu era uma mulher muito ativa.) e o Gui ligou, querendo saber melhor o que estava acontecendo. Eu não entendi nada, achei que um avião da ponte aérea tinha batido no prédio redondo lá perto do Santos Dumont. E ele me corrigia, dizendo que tinha sido em NY. Bem, sei que voltei para casa e fiquei de olhos grudados na TV, vi os prédios em chama, um avião sendo perseguido, o pentágono, os prédios desmoronando. Num primeiro momento, aquele prédio ferido ali em Manhattan, nem me dei conta da tragédia, nem da grande nem das milhares pequenas tragédias individuais, as mortes, os medos, os atos de bravura e os de mesquinharia. Hoje quando penso nas torres gêmeas, penso no amigo que perdi, nos filhos dele e na mulher. Penso nas pessoas tentando se salvar, descendo escadas intermináveis, mas acabando todos esmagados entre escombros. Penso no filho de uma amiga, vendo tudo aquilo pela janela, e depois correndo pelas ruas, sem saber para onde. E, hoje, fico pensando que, se já houvesse twitter, teríamos uma obra coletiva monumental. Em que estariam pensando aquelas milhares de pessoas, as envolvidas na catástrofe e as que nem sabiam do assunto? O twitter chegou tarde para esse grande colapso, mas talvez esteja aí no dia do Juízo Final. Que, pelo menos aqui no Brasil parece cada vez mais próximo. Com os tornados que agora resolveram devastar o sul do país, as enchentes fora de época, deslizamentos de terra, e o discurso belicista de Lula, nosso guia atrapalhado que nos leva às cegas para o colapso final. Com tanto discurso eleitoreiro, a realidade virou retórica, e tem tanta importância como uma notícia de jornal. Por falar em notícia, volto ao twitter, desta vez para comentar a Cora Rónai que postou algo assim: "deslizamentos de terra no Haiti matam uma pessoa" – e isso é notícia? 
Ai, Cora,bem sei que você não está menosprezando a vida desaparecida, mas ficou feio, esse post. Melhor fazer como seu amigo Millor, o mais perfeito autor de twits que já li. Tudo o que o Millor twita nos faz sorrir e pensar, os 140 caracteres dele equivalem a um livro de 140 páginas.
Para terminar, só quero dizer que o Amauri, meu fiel e querido leitor, tem toda razão. Os mortos não nos perturbam, os vivos é que nos exasperam. O que falei foi algo que tirei de uma conversa com uma amiga espírita. Bem que eu gostaria de acreditar nessas coisas de almas, no poder desses "trabalhos" e das "orações". Iria de bom grado visitar uma dessas mães-joanas que prometem trazer a pessoa amada em três dias, se eu acreditasse um pouquinho.  E, como sou incrédula, também não consigo acreditar no Nelsinho Piquet.  Daqui a um tempo, a Cora vai postar: "Brasileiro mente e prejudica economia mundial" – e isso é notícia?
Nós tamos ficando tão desmoralizados…

Wednesday, September 09, 2009

nove de setembro!

Antes que o dia acabe, aqui vão minhas impressões sobre data tão … tão o que, mesmo? Era para ser alguma coisa diferente?
Comecei quase esquecendo o dia nove do nove do nove, mas a TV Globo não deixou que a data passasse em branco: fizeram uma reportagem sobre a fila de casamentos lá na China, já que "em mandarim o dia de hoje quer dizer eternidade". Juro que isso foi o que disseram. E aí falaram da excessão aberta hoje, em que ampliaram o número de casamentos e informaram que cada cerimônia de casamento estava levando uma média de 3 minutos, incluindo as fotos. Agora fiquei curiosa: se uma hora tem 60 minutos, eles estavam fazendo 20 casamentos por hora. Supondo que o expediente dos cartórios, ou templos, ou seja lá onde eles se casam "em mandarim", seja 8 horas, teríamos 160 casamentos. Mas, já que eles adoram o número 9, digamos que eles tenham ampliado também o expediente para 9 horas – teremos, então 180 casamentos – isso se só puderem se casar num único estabelecimento. Mas, supondo que sejam nove … dá o quê? 1720? Ihh, mas aí a soma dos números já não vai mais dar 9: 1+7+2+0=10. Cortem-se 10 casais deste grupo de candidatos ao amor eterno, então! E daí? Pelo mundo a fora, outros milhares de casais estarão casando hoje, mas tenho a certeza de que nem todos terão garantido o amor eterno. Que eles tenham ao menos aquele que Vinícius cantou, o infinito (enquanto dure).
Mais tarde a Globo (sempre ela) me ilustrou ainda mais, entrevistando um numerólogo, que me informou que o número 9 significa mudança. E a novela me ensinou que o luto indiano dura 11 dias, tempo necessário para o morto descobrir que está mesmo morto. Aliás, ontem, conversando com uma amiga, ela me falou sobre isso: alguns mortos não percebem que já estão mortos e em vez de "partir para outra" ficam perdidos aqui no mundo, perturbando a vida dos que continuam vivos. 
Por que será que acham que os mortos não sabem que morreram? A gente não sabe quando acordou? Claro que sabe! Bem, acordar não é exatamente o mesmo que morrer, concordo. Mas acho que é mais provável que os vivos não aceitem a morte de alguém querido que o pobre morto não aceitar sua condição mortal.
Nossa! Que papo mais chato! Vamos aproveitar que o nove significa mudança, e mudar logo da fala sem interesse para o silêncio significativo.
Então, até outro dia.

Monday, September 07, 2009

Sete de setembro, onze de setembro,…

 Setembro virou um mês de muita importância. Temos o sete, que se comemora por aqui com desfiles tradicionais, coreografias militares, armas e barões axincalhados, e, pelo mundo afora, com festas alegres e espontâneas – alegria, oba-oba e mulheres melancias.  Falo nessas pois hoje fui verificar quais os blogs que estão concorrendo para virar livro. Num dos concorrentes (no setor cultural, pasmem!) estavam publicadas as piores fotos postadas no Orkut. Uma mulher fantasiada de havaiana, usando como sutiã duas metades de melancia, entreabria a saia de palha e se masturbava. Essa era apenas uma das fotos. Eu me pergunto: por que será que as pessoas colocam suas fotos constrangedoras na rede? Por que será que tiram essas fotos constrangedoras? Por que será que esses otários fazem um apanhado dessas fotos e colocam em seus blogs? Por que será que esses blogs chegam a ter picos de 50 000 acessos num único dia, e viram concorrentes para virar livro? Por que será que concorrem na categoria "arte e cultura"?  E por que será que alguém publica as instruções para fazer sexo oral, em duas versões, a masculina e a feminina? Ah, que saudades de Drummond, que dizia que amar se aprende amando. Mas essas coisas de sexo sempre foram meio complicadas, Freud que o diga!
Como vocês já sabem, fui assistir o Despertar da primavera, que trata exatamente disso: a descoberta do sexo, e as decorrentes angústias da puberdade. Escrita em 1891, continua atual. A montagem foi feita com bom gosto e bons atores, as cenas mais fortes não são constrangedoras, embora as letras das canções empreguem termos que a imprensa ainda não está publicando. O que não me impediu de sair cantarolando a melhor canção da peça, Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, vá se f…! A gente pensa que já avançou muito nessas coisas, mas o sexo, assim como a maconha, precisa de ser descriminalizado. Enquanto houver esse aspecto de proibição, de venda ilegal, de baixaria, nossa juventude continuará sofrendo as consequências dessas abordagens infelizes. E um bando de bobocas continuará confundindo cultura com 
cu ltura (desculpem o trocadilho infame). 
Chega de digressões: depois do sete, o onze. Tantas teorias para explicar o porque da escolha da data! Mas ninguém sabe ao certo a razão da escolha. Por exemplo, por que foi em 14 de julho que a Bastilha caiu? Por que escolheram o 1º de maio como dia do Trabalho? Por que a festa de Iemanjá é no dia 2 de fevereiro? Por que? Mas, entre uma e outra data, temos o nove. E fico aqui esperando o que vai acontecer nessa data tão engraçadinha: 09/09/09. E me pergunto: o que terá acontecido no dia 9 de setembro de 1909? Mas isso fica para outro dia. Quem sabe dia 9 volto ao assunto?
Para terminar com as datas, hoje, essa história de votação me fez descobrir que existe um "blog day" e que cai no dia 31/08. Mas essa data é motivada. Arranjando os números de forma correta descendo bem o 8, 3108 forma a palavra BlOg. Só soube hoje, por isso não comemorei, indicando o blog dos amigos. Mas vou fazer uma lista e publicar com atraso.  E fui!

Saturday, September 05, 2009

Névoa densa

A vida às vezes se torna opaca, densa como uma névoa que esconde e distancia as coisas a nosso redor. Estou atravessando um período de nevoeiro, e me sinto desorientada. Entretanto, vez por outra escuto um sininho de bóia, e descubro que não estou tão fora do rumo. Ultimamente as amigas têm me levado ao teatro. Fui assistir In on it, uma ótima peça, na outra semana fui assistir a Clarice interpretada pela Beth Goulart e esta semana fui ver o Despertar da primavera e também Um estranho casal. Overdose? Não, carinho das amigas, preocupadas com meu "universo em desencanto". De todas, a que mais gostei foi In on it, e recomendo a todos. 
Esta semana, com feriado e tudo o mais, reservo para o trabalho: tenho que adiantar a tese, preparar seminários, essas coisas. Não pretendo sair, até porque estou com uma crise de coluna, ou seja lá o que for, que tem me obrigado a pensar cada movimento que faço. Existe coisa mais chata que isso, essa consciência de nosso próprio corpo? Bem, perdoem-me, então, por não escrever mais. Antes de me despedir, porém, uma propaganda: Dia 16 de outubro, na UFF, o seminário do Grupo de estudos da professora Lúcia Helena. Vejam o programa no site, e compareçam, acho que as palestras vão ser muito interessantes. E vai ter lançamento de livro, Ficções do desassossego: fragmentos da solidão contemporânea – da professora Lúcia Helena. Vale a pena conferir.

Sunday, August 30, 2009

Efemérides

Há palavras que nascem assim, feias e desajeitadas. "Efemérides" é uma delas. Parece que vai numa direção, guina para outra pior ainda e termina. Insatisfatória. Aprendi a usá-la num dos muitos cursos inúteis que frequentei: astrologia. Diplomei-me na confecção de mapas astrais, depois de aprender a usar o termo efeméride, com louvor. Perdi minha vida fazendo cursos que nunca viraram percursos, mas isso é assunto para outro post, hoje me concentro nas datas que acabaram de passar. Dia 27 de agosto, dia de Nossa Senhora dos Prazeres, padroeira de Maceió, por exemplo. Queria me tornar devota da santa, mas fui pelas Igrejas a sua procura e só encontrei a das Dores. Dores maiúsculas, nem essa santa quer minha devocão: se a ela me dirijo, contando os meus males, ela logo vem comparando com os seus. "Isso não é nada, minha filha. Imagina se você se visse grávida, numa sociedade machista, tendo que se casar com um velho para não ser apedrejada na esquina. Sabe a dor de uma pedrada?" Eu, que uma vez fui atingida por uma faísca de brita que escorregou de uma obra e atingiu meu nariz, reconheço que deve doer muito a tal de lapidação (outra palavra com a qual implico). Mas ela continua: "Um velho, cabeça branca, espinha curvada, suado, mãos ásperas, e eu mal tinha entrado na puberdade! Você nem pode imaginar o que é isso. E, depois, ainda ter que parir sozinha, pois ao invés de me levar a uma parteira, ele me levou a um estábulo, e eu tive que me virar, no meio de bosta de vaca e de mijo de jumento, correndo o maior risco de pegar uma doença." Nessas alturas, eu já estou me levantando, disposta a ir embora da Igreja, mas a pobre santa ainda reclama: "E o filho, que eu tive que criar sozinha, só me deu trabalho. Com o jeito que tinha para curar pessoas, podia ter sido um médico famoso, mas foi se meter com uns subversivos e acabou na cadeia. E depois, ainda me envergonhou, sendo crucificado no meio de ladrões…" Eu saio. Volto para casa. E descubro que sábado teria sido o aniversário de São Michael Jackson. Que foi assassinado. Que foi/não foi pedófilo. Que era doido de pedra, mas, como ficou muito rico e famoso, preferiam dizer que ele era excêntrico. E aqui estou eu, no domingo de sol, sem nenhuma data a comemorar nem a deplorar, pensando nas coisas menores que aconteceram durante a semana, como, por exemplo, uma ida ao teatro, para assistir a Beth Goulart interpretando Clarice Lispector. Ela e o Michael tinham muito em comum, talento, por exemplo. (Vocês pensaram que eu ia dizer loucura, e, como não quero frustrar ninguém, está dito.) Uma das coisas ditas na peça ficaram ecoando na minha cabeça: ela queria que o público a achasse bonita. Há uma outra escritora, despontando, que deseja a mesma coisa, que se envaidece por ser considerada a "mais bela". Há alguma coisa de errado em não ser bela? Alguma coisa que nos obrigue a fazer operações plásticas para corrigir nossos narizes, a barriga excessiva, o peito caído, os cabelos ralos? Por que devemos ser belos? Nós, a espécie animal mais sem graça, segundo nos ensinam os índios, que precisamos roubar dos outros animais as suas belezas – penas, peles, dentes – para nos enfeitarmos, por que é que valorizamos a beleza acima de tudo? Talvez porque a beleza de um domingo de sol nos leve ao êxtase, ao prazer, a uma sensação de bem estar. Então, prezado leitor, querida leitora, não perca tempo aqui na frente da telinha do computador. Corra lá para fora e mergulhe seus olhos no azul do mar. Ou, se for de noite, procure encontrar o desenho secreto de Deus entre as estrelas curiosas. Sim, o outro diz que Deus é um delírio, eu sei. Então procure apenas identificar qual, dentre tantas luzes, corresponde a um satélite artificial prestes a cair. Ocupe-se com sonhos, filosofias ou recordações. Teça suas próprias dores, ou encontre seus próprios prazeres. E não use nunca a palavra "efeméride" em seus textos. Poupe-nos de mais essa dor.

Monday, August 24, 2009

segunda-feira

Às vezes a gente perde o senso de direção, e parece que o tempo fica meio confuso, dando voltas na nossa cabeça. Isso costuma me acontecer nas segundas-feiras. Não é que aconteça ao pé da letra, nada que me impeça de funcionar, é mais uma sensação secundária, que persiste às vezes durante toda a manhã, enquanto eu acordo, providencio a vida, decido a semana, inicio projetos, finalizo pendências. Lá no fundo uma sensação de deja-vu, uma falta de propósito, a certeza de que, se não fizer o que tenho para fazer, o mundo não vai parar.  Acho que isso acontece porque reflito muito sobre a morte. To die, to sleep, no more – diz o Hamlet, numa equação que ele mesmo põe em dúvida. Não estou pensando na morte do ponto de vista pessoal, ou seja, em minha morte. Mas na morte cotidiana, na morte corriqueira, na morte de quem morre de morte morrida ou matada, a cada dia. Um interrupção na imagem, uma peça mal feita em que os personagens saem de cena sem resolverem suas questões. Um dia, a Glória Perez do mundo se cansa de um Gopal qualquer e lá desaparece ele, com ou sem bigode, e nem por isso os Ramiros deixarão de receber seus copos de água geladinhos nem seus cafés quentinhos. Delmiras ou Vanderleis, Robertos ou Susanas, todos se vão, uma hora estão ao nosso lado, outra hora não mais. No entanto, a vida se acomoda. As contas que a Delmira pagava passarão a ser pagas pelo Sérgio. As aulas que o Antônio dava serão dadas pelo Joaquim. A carteira que Dulcinéia ocupava passará a ser ocupada por Robson. Algumas pessoas ainda se lembram do Carlos, outras se espantam: Quem?! Um marido relembra os carinhos da mulher, outros passeiam ao lado de novas companheiras, de cabelos molhados, sorridentes.  Sei que sairei de cena e que meu papel será feito por outra pessoa: alguém decidirá que fruta comprar, outro alguém ferverá a água para o café, fulano passará no banco, beltrano escolherá o presente para o aniversário. Segundas-feiras me deixam assim, pensativa. Caminho pela praia, e noto que reconheço alguns rostos. Se amanhã não estiverem lá, quem sentirá falta deles?

Friday, August 21, 2009

Achei a letra

Spring was never waiting for us, girl
It ran one step ahead
As we followed in the dance
Between the parted pages and were pressed
In love's hot, fevered iron
Like a striped pair of pants
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
I recall the yellow cotton dress
Foaming like a wave
On the ground around your knees
The birds, like tender babies in your hands
And the old men playing checkers by the trees
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
[break]
There will be another song for me
For I will sing it
There will be another dream for me
Someone will bring it
I will drink the wine while it is warm
And never let you catch me looking at the sun
And after all the loves of my life
After all the loves of my life
You'll still be the one
I will take my life into my hands and I will use it
I will win the worship in their eyes and I will lose it
I will have the things that I desire
And my passion flow like rivers through the sky
And after all the loves of my life
After all the loves of my life
I'll be thinking of you
And wondering why
[extended break]
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
Oh, no
No, no
Oh no!!

Volver…

Descubro que estou sofrendo de uma doença que não tinha antes: nostalgia. Meu amor me perguntava se eu não tinha saudade de meus 18 anos, de meus 28 anos e eu me horrorizava e respondia: Voltar atrás?! De jeito nenhum! Tá tão bom agora! Agora me descubro querendo viver o ontem, o muito tempo atrás, não por causa de voltar à juventude, mas para voltar à companhia dele. Faço um teste e vou para o YouTube, procurando músicas antigas. Meu amor era fã de jazz e eu, para agradar a ele, procurava uns discos que me agradassem também, e descobria as coisas mais maravilhosas, na maioria das vezes por acaso. Uma vez estava passando pela Rua Souza Lima onde existia uma lojinha de discos muito fraquinha. Mas o vendedor tinha colocado um CD maravilhoso e foi assim que descobri John Coltrane. Comprei o CD de presente para ele, claro, para juntar à sua enorme coleção de jazz, que nunca mais toquei. Mas hoje fui ao YouTube procurando um velho Caetano, que outro dia tentei cantarolar e não consegui: Uma tigreza de unhas negras e iris cor de mel… Dali, fui dando voltas, passei para Ella, e de Ella a Amy Winehouse foi um pulo. Só não sei como passei de Amy para Petula Clark. Se existem opostos perfeitos em música, devem ser essas duas. Pois minha jornada ainda não tinha terminado. De Petula passei para The Mamas and The Papas. (Alguém me disse um dia que a Michelle Pfeiffer é filha de uma das Mamas, será verdade?) E foi então que me curei da nostalgia: alguém que escute a orquestração de California Dreaming hoje só pode ficar feliz por viver em nosso tempo. Aquele som de banda evangélica era uma tristeza… e o pior é que gostávamos disso!… Quero ficar nos meus dias de hoje, mesmo, escutando, na pior das hipóteses, as músicas da novela das oito, "Salame - Uísque, salame, salame…". Mas, de vez em quando, não custa dar uma espiada no You Tube. Acho que vou voltar para lá, e ver como é que resisto à xaropada do MacArthur's park, melting in the dark. Que letra! Someone left  the cake out in the rain, I don't think that I can take it, 'cause it took so long to bake it.... E o pessoal reclama de rap. É por que a memória é curta.

Saturday, August 15, 2009

Notícias do SPA

Ainda não sei como, mas no meio da semana acabei aterrissando num Spa em Itaipava. Vim na doce esperança de um sossego, de tempo para escrever os trabalhos para a UFF, essas coisas. Mas, chegando aqui, me vi aprisionada num universo paralelo onde a vida se desenvolve de um modo peculiar e muito diferente do meu mundinho sempre tão igual. Um Spa reúne as pessoas mais diferentes e com os objetivos mais exdrúxulos (adoro esta palavra). Todo mundo parece animado por uma pilha inesgotável, e se reúne em rituais estranhos, em volta de mesas sempre com comida insuficiente, mas onde não se fala de outra coisa que não seja comida em abundância. Esses seres famintos se deslocam como zumbis de um recanto a outro do Spa, e se animam ao som de músicas cheias de batidas ritmadas, se submetem a rituais de pesagem, como cavalinhos no Jockey, escutam as palavras de sabedoria proferidas pela nutricionista, mergulham em piscinas aquecidas, suam as camisas apesar do frio insano, e, à noite, ainda se exibem em infindáveis Karaokes, com músicas de uns 20 anos atrás… Deve ser alguma coisa que põem nos chás diuréticos, única coisa que os hóspedes podem tomar à vontade! 
Vendo que não ia dar mesmo para fazer o meu trabalho atrasado, graças às dores musculares que adquiri logo no primeiro exercício que fiz, isso para não falar na sensação de vazio no estômago, decidi me dedicar à única atividade razoavelmente prazerosa que encontrei:  as sessões de massagens redutoras. Em resumo, aqui estou eu, com fome, dores musculares, diversos hematomas distribuídos pelo corpo, escutando, ao longe, o animado Karaoke. Mas, o que mais me divertiu aqui foi a variedade de tipos humanos que encontrei. Os hóspedes não variam muito, claro, alguns são mais inconvenientes que outros, como a senhora que insiste em documentar todas as atividades com sua câmera, invadindo a privacidade de todos. Já os funcionários, cada qual tem um perfil, e servem de inspiração para muitas histórias que se podem imaginar. Não vou contar nenhuma aqui – falta-me apetite (rá!) e tenho sono. Mas, um dia, quem sabe? Posso, por exemplo, casar o rapaz gordinho (sou muito delicada) com a jovem garçonete sonhadora. Agora, faço como Machado e me despeço com um "boas noites".

Sunday, August 09, 2009

Pensando na Ceia

Querem coisa mais linda que dizer que a gente está pensando na "Ceia"? Ceia é uma refeição vestida de festa, com ares literários e coisa e tal, fumaças religiosas, que tem, ao mesmo tempo, uma conotação frugal (afinal, é ceia, uma refeição logo antes de dormir, não dá para a pessoa comer muito) e luxuosa, de excesso (pois o cara já jantou, comer a ceia significa que a casa é farta, que o conviva ficou acordado até tarde, já teve tempo até de digerir a refeição servida no final do dia. Querem saber o oposto de ceia? É "lanche", aquela história de que "lá em casa abolimos o jantar, a gente só faz um lanche"… Que tristeza, aquela mesa de toalha encardida, com louça desbeiçada servindo um café com leite na companhia de um pão com manteiga que não satisfaz a ninguém, mas que deixa uma sensação de estômago cheio graças ao fermento… E pensar que, quando eu era criança, minha refeição favorita era o lanche. Lanche reforçado, com prato de sonhos, queijo de minas, presunto. Ou com sanduíches de carne assada, ou pastéis acabados de fritar… Os lanches de minha infância só aconteciam aos domingos, dias de "ajantarado", aqueles almoços que saíam depois da hora e nos encontravam a todos famintos pelas iguarias fora do comum, e nem sempre apreciadas. Por exemplo: angu a baiana, que me deixava absolutamente indiferente e até mesmo frustrada, pois era um prato do qual eu não gostava de nada. No dia de mocotó, que eu também não gostava, eu me salvava com o pirão. Era o que eu comida. Dia de rabada, sempre era a batata o que me agradava (depois passei a gostar de agrião). Dia de angu era o fim do mundo. Morta de fome, vendo todo o mundo comer, e eu tendo que embromar até a hora da sobremesa. O pior era quando, de sobremesa, faziam torta de banana. Tudo aquilo que eu não gostava. Bons mesmos eram os dias dos assados: pernil, lagarto, frango, fosse o que fosse, na companhia de uma farofinha generosa, de maionese, de batatinhas coradas…
E a ceia. Sempre festiva, nas noites de Natal e de Ano Novo. Muitas opções. Direito a coca-cola, bebida mais rara que champanhe, em minha casa. Hoje, ceia para mim tem outra conotação. Tantos anos estudando a Ceia de Leonardo da Vinci, já virei conviva. Nesta ceia, só idéias, além de pão e de vinho. E ecos do passado, planos de futuro.

Thursday, August 06, 2009

Peixes e pescados

Os falantes nativos de espanhol diferenciam os peixes dos pescados. Nossos hermanos jamais comeram um peixe, mas sempre comem pescados. Hoje, lendo o artigo da Cora, lembrei-me disso, numa telepática tentativa de consolá-la por ter comido a carne de um esperto "peixe-gato", um fóssil vivo, mas isso na sua versão pescado. Lembrei também de uma coisa que me fascina e me encanta: as cores dos peixes: observados debaixo d'água, enquanto nadam e também nos observam, curiosos, os peixes possuem tons lindos, nuances maravilhosas, uma espécie de alma exterior (Machado a encontrava até nos humanos). No entanto, mal são retirados do reino das águas claras (pois nesse é que sou capaz de observá-los) essas cores desaparecem, se perdem num acinzentado, desmaiam em subtons, se é que isso existe. Um dourado, por exemplo. Exposto num balcão faz que os fregueses se perguntem por que lhe deram esse nome. Os vermelhos empalidecem. As pintas dos namorados desmaiam. Listras e cores, pintas e manchas todas procuram o tom metálico do cinza, os pastéis do desânimo. Talvez porque o que nos interesse, ao contemplar o pescado, não seja mais sua beleza, mas a cor de sua carne depois de preparada. Quantas vezes escuto a freguesa perguntando ao feirante: Esse peixe é bem branquinho? -- e se justifica: É que meu marido (ou filho, ou sogra) só come peixe quando é bem branquinho. Ou então, mais sofisticada, ela questiona o comerciante sobre o tom pálido do salmão: Gente, mas que salmão mais anêmico!
Sou uma devota consumidora de peixes, desde que não me venham inteiros para o prato. Um filé de linguado, uma tranche de cherne, um belo filé de vermelho, preparados de maneira simples, basta grelhar, me encantam. Restaurantes há que só me veem pedir um único prato, como por exemplo o salmão ao molho de mostarda e dill, com pequenos pedacinhos de banana, do Guimas. Ah, que delícia! No entanto, passei um jantar (na França, meus amigos!) em jejum pois o pedido da amiga que estava sentada em frente a mim foi uma truta, que veio inteira, nadadeiras abertas, mandíbulas ferozes abocanhando o próprio rabo, olhos cegos de raiva que, não obstante minha inocência, despejavam sobre mim a violência da interrupção de sua vida. Nem gosto de lembrar…
E, como sempre retornamos ao assunto essencial, a vida, que seja bem vindo ao mundo o pequeno Lorenzo, que ele chegue para ser príncipe e magnífico, como o encantador florentino que tanto incentivou as artes. Mas que ele não tenha a vida marcada por batalhas, que seu caminho seja de paz, que a terra floresça à sua passagem, que as mulheres lhe sorriam e os homens lhe respeitem, que os livros o encantem e lhe ensinem seus tesouros. Lorenzo e sua irmã, a bela Sofia, sua primeira e devotada súdita sou eu!
Assim como saúdo a chegada de um príncipe, dou um adeus à mãe de minha xará, que partiu quando eu estava viajando e só agora soube de sua ida. Tão frágil, a castelã de Petrópolis descansa agora em paragens ainda mais altas que a serra, velando por toda sua família e amigos. Suspiro um até breve, saudosa do meu amado…

Monday, August 03, 2009

Despedidas

Uma semana que se inicia melancólica: no domingo, despedida da filha, que voltou para os US; hoje, despedida definitiva de uma amiga, DEDEI, depois de um longo sofrimento. Saudades novas que se juntam a saudades antigas, ainda tão dolorosas…
Em compensação, reencontro meu cantinho, de onde o mar me consola com seus azuis. O céu aparece velado de malva, misterioso, mas amigável. Ainda saboreio a resenha que fiz sobre o livro do Mia Couto, e que foi publicada no JB-Idéias, de sábado. O livro, Antes de nascer o mundo, é um dos melhores dele. Foi um prazer escrever a resenha. Agora hei de me dedicar ao trabalho da UFF, que já começa a me preocupar. Preciso produzir muito para a faculdade, pois quero terminar logo o doutorado. Tenho pressa de embarcar em novas aventuras. Sonho com mudanças, com mais viagens. Me imagino tomando um carro e viajando em linha reta, sempre, sem que nada me detenha… Mas quero é ficar aqui mesmo, batendo papo com vocês, curtindo o silêncio da minha casa, meio reclusa, meio livre numa indefinição que me permita criar minhas histórias e meus textos. Li sobre um cara que fala que não acha graça em escritores, que largam da vida para ficar escrevendo sobre ela. Mas, na verdade, esta é uma forma de vida tão saborosa quanto a vida de ação e aventuras. É que somos estruturados de uma maneira diferente, vivemos através de palavras, não de ações. Custei para entender isso, mas agora já não invejo mais as amigas e os amigos que "vivem" de outra maneira. Eu também vivo, e minha vida é tão válida quanto a daqueles que estão saltando de bungee-jump, ou que passam a noite nas raves, ou que amam fisicamente. E que a vida desses outros é tão válida quanto a de uma vaca pacífica, ou de uma leoa selvagem. Ou a vida de uma barata. A vida é um fenômeno que se manifesta de diferentes maneiras e que nos maravilha, quando a contemplamos, seja do ponto Aleph ou do ponto mais subjetivo e egoísta. Escritores, bailarinos, cineastas e contadores, fiscais do imposto de renda, polícia e ladrão, macacos e pulgas, cobrimos a terra com nossos comportamentos aparentemente tão diversificados e que, no entanto, são apenas manifestações de um mesmo fato, e que, tão inesperadamente, pode desaparecer. Aproveitemos. Carpe diem, diziam os antigos, significando que devíamos lamentar a passagem de cada dia. O que vale é que traduzimos de uma maneira muito mais positiva, e dizemos: aproveitemos o momento, vivamos.