Friday, August 21, 2009

Achei a letra

Spring was never waiting for us, girl
It ran one step ahead
As we followed in the dance
Between the parted pages and were pressed
In love's hot, fevered iron
Like a striped pair of pants
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
I recall the yellow cotton dress
Foaming like a wave
On the ground around your knees
The birds, like tender babies in your hands
And the old men playing checkers by the trees
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
[break]
There will be another song for me
For I will sing it
There will be another dream for me
Someone will bring it
I will drink the wine while it is warm
And never let you catch me looking at the sun
And after all the loves of my life
After all the loves of my life
You'll still be the one
I will take my life into my hands and I will use it
I will win the worship in their eyes and I will lose it
I will have the things that I desire
And my passion flow like rivers through the sky
And after all the loves of my life
After all the loves of my life
I'll be thinking of you
And wondering why
[extended break]
MacArthur's Park is melting in the dark
All the sweet, green icing flowing down
Someone left the cake out in the rain
I don't think that I can take it
'Cause it took so long to bake it
And I'll never have that recipe again
Oh, no!
Oh, no
No, no
Oh no!!

Volver…

Descubro que estou sofrendo de uma doença que não tinha antes: nostalgia. Meu amor me perguntava se eu não tinha saudade de meus 18 anos, de meus 28 anos e eu me horrorizava e respondia: Voltar atrás?! De jeito nenhum! Tá tão bom agora! Agora me descubro querendo viver o ontem, o muito tempo atrás, não por causa de voltar à juventude, mas para voltar à companhia dele. Faço um teste e vou para o YouTube, procurando músicas antigas. Meu amor era fã de jazz e eu, para agradar a ele, procurava uns discos que me agradassem também, e descobria as coisas mais maravilhosas, na maioria das vezes por acaso. Uma vez estava passando pela Rua Souza Lima onde existia uma lojinha de discos muito fraquinha. Mas o vendedor tinha colocado um CD maravilhoso e foi assim que descobri John Coltrane. Comprei o CD de presente para ele, claro, para juntar à sua enorme coleção de jazz, que nunca mais toquei. Mas hoje fui ao YouTube procurando um velho Caetano, que outro dia tentei cantarolar e não consegui: Uma tigreza de unhas negras e iris cor de mel… Dali, fui dando voltas, passei para Ella, e de Ella a Amy Winehouse foi um pulo. Só não sei como passei de Amy para Petula Clark. Se existem opostos perfeitos em música, devem ser essas duas. Pois minha jornada ainda não tinha terminado. De Petula passei para The Mamas and The Papas. (Alguém me disse um dia que a Michelle Pfeiffer é filha de uma das Mamas, será verdade?) E foi então que me curei da nostalgia: alguém que escute a orquestração de California Dreaming hoje só pode ficar feliz por viver em nosso tempo. Aquele som de banda evangélica era uma tristeza… e o pior é que gostávamos disso!… Quero ficar nos meus dias de hoje, mesmo, escutando, na pior das hipóteses, as músicas da novela das oito, "Salame - Uísque, salame, salame…". Mas, de vez em quando, não custa dar uma espiada no You Tube. Acho que vou voltar para lá, e ver como é que resisto à xaropada do MacArthur's park, melting in the dark. Que letra! Someone left  the cake out in the rain, I don't think that I can take it, 'cause it took so long to bake it.... E o pessoal reclama de rap. É por que a memória é curta.

Saturday, August 15, 2009

Notícias do SPA

Ainda não sei como, mas no meio da semana acabei aterrissando num Spa em Itaipava. Vim na doce esperança de um sossego, de tempo para escrever os trabalhos para a UFF, essas coisas. Mas, chegando aqui, me vi aprisionada num universo paralelo onde a vida se desenvolve de um modo peculiar e muito diferente do meu mundinho sempre tão igual. Um Spa reúne as pessoas mais diferentes e com os objetivos mais exdrúxulos (adoro esta palavra). Todo mundo parece animado por uma pilha inesgotável, e se reúne em rituais estranhos, em volta de mesas sempre com comida insuficiente, mas onde não se fala de outra coisa que não seja comida em abundância. Esses seres famintos se deslocam como zumbis de um recanto a outro do Spa, e se animam ao som de músicas cheias de batidas ritmadas, se submetem a rituais de pesagem, como cavalinhos no Jockey, escutam as palavras de sabedoria proferidas pela nutricionista, mergulham em piscinas aquecidas, suam as camisas apesar do frio insano, e, à noite, ainda se exibem em infindáveis Karaokes, com músicas de uns 20 anos atrás… Deve ser alguma coisa que põem nos chás diuréticos, única coisa que os hóspedes podem tomar à vontade! 
Vendo que não ia dar mesmo para fazer o meu trabalho atrasado, graças às dores musculares que adquiri logo no primeiro exercício que fiz, isso para não falar na sensação de vazio no estômago, decidi me dedicar à única atividade razoavelmente prazerosa que encontrei:  as sessões de massagens redutoras. Em resumo, aqui estou eu, com fome, dores musculares, diversos hematomas distribuídos pelo corpo, escutando, ao longe, o animado Karaoke. Mas, o que mais me divertiu aqui foi a variedade de tipos humanos que encontrei. Os hóspedes não variam muito, claro, alguns são mais inconvenientes que outros, como a senhora que insiste em documentar todas as atividades com sua câmera, invadindo a privacidade de todos. Já os funcionários, cada qual tem um perfil, e servem de inspiração para muitas histórias que se podem imaginar. Não vou contar nenhuma aqui – falta-me apetite (rá!) e tenho sono. Mas, um dia, quem sabe? Posso, por exemplo, casar o rapaz gordinho (sou muito delicada) com a jovem garçonete sonhadora. Agora, faço como Machado e me despeço com um "boas noites".

Sunday, August 09, 2009

Pensando na Ceia

Querem coisa mais linda que dizer que a gente está pensando na "Ceia"? Ceia é uma refeição vestida de festa, com ares literários e coisa e tal, fumaças religiosas, que tem, ao mesmo tempo, uma conotação frugal (afinal, é ceia, uma refeição logo antes de dormir, não dá para a pessoa comer muito) e luxuosa, de excesso (pois o cara já jantou, comer a ceia significa que a casa é farta, que o conviva ficou acordado até tarde, já teve tempo até de digerir a refeição servida no final do dia. Querem saber o oposto de ceia? É "lanche", aquela história de que "lá em casa abolimos o jantar, a gente só faz um lanche"… Que tristeza, aquela mesa de toalha encardida, com louça desbeiçada servindo um café com leite na companhia de um pão com manteiga que não satisfaz a ninguém, mas que deixa uma sensação de estômago cheio graças ao fermento… E pensar que, quando eu era criança, minha refeição favorita era o lanche. Lanche reforçado, com prato de sonhos, queijo de minas, presunto. Ou com sanduíches de carne assada, ou pastéis acabados de fritar… Os lanches de minha infância só aconteciam aos domingos, dias de "ajantarado", aqueles almoços que saíam depois da hora e nos encontravam a todos famintos pelas iguarias fora do comum, e nem sempre apreciadas. Por exemplo: angu a baiana, que me deixava absolutamente indiferente e até mesmo frustrada, pois era um prato do qual eu não gostava de nada. No dia de mocotó, que eu também não gostava, eu me salvava com o pirão. Era o que eu comida. Dia de rabada, sempre era a batata o que me agradava (depois passei a gostar de agrião). Dia de angu era o fim do mundo. Morta de fome, vendo todo o mundo comer, e eu tendo que embromar até a hora da sobremesa. O pior era quando, de sobremesa, faziam torta de banana. Tudo aquilo que eu não gostava. Bons mesmos eram os dias dos assados: pernil, lagarto, frango, fosse o que fosse, na companhia de uma farofinha generosa, de maionese, de batatinhas coradas…
E a ceia. Sempre festiva, nas noites de Natal e de Ano Novo. Muitas opções. Direito a coca-cola, bebida mais rara que champanhe, em minha casa. Hoje, ceia para mim tem outra conotação. Tantos anos estudando a Ceia de Leonardo da Vinci, já virei conviva. Nesta ceia, só idéias, além de pão e de vinho. E ecos do passado, planos de futuro.

Thursday, August 06, 2009

Peixes e pescados

Os falantes nativos de espanhol diferenciam os peixes dos pescados. Nossos hermanos jamais comeram um peixe, mas sempre comem pescados. Hoje, lendo o artigo da Cora, lembrei-me disso, numa telepática tentativa de consolá-la por ter comido a carne de um esperto "peixe-gato", um fóssil vivo, mas isso na sua versão pescado. Lembrei também de uma coisa que me fascina e me encanta: as cores dos peixes: observados debaixo d'água, enquanto nadam e também nos observam, curiosos, os peixes possuem tons lindos, nuances maravilhosas, uma espécie de alma exterior (Machado a encontrava até nos humanos). No entanto, mal são retirados do reino das águas claras (pois nesse é que sou capaz de observá-los) essas cores desaparecem, se perdem num acinzentado, desmaiam em subtons, se é que isso existe. Um dourado, por exemplo. Exposto num balcão faz que os fregueses se perguntem por que lhe deram esse nome. Os vermelhos empalidecem. As pintas dos namorados desmaiam. Listras e cores, pintas e manchas todas procuram o tom metálico do cinza, os pastéis do desânimo. Talvez porque o que nos interesse, ao contemplar o pescado, não seja mais sua beleza, mas a cor de sua carne depois de preparada. Quantas vezes escuto a freguesa perguntando ao feirante: Esse peixe é bem branquinho? -- e se justifica: É que meu marido (ou filho, ou sogra) só come peixe quando é bem branquinho. Ou então, mais sofisticada, ela questiona o comerciante sobre o tom pálido do salmão: Gente, mas que salmão mais anêmico!
Sou uma devota consumidora de peixes, desde que não me venham inteiros para o prato. Um filé de linguado, uma tranche de cherne, um belo filé de vermelho, preparados de maneira simples, basta grelhar, me encantam. Restaurantes há que só me veem pedir um único prato, como por exemplo o salmão ao molho de mostarda e dill, com pequenos pedacinhos de banana, do Guimas. Ah, que delícia! No entanto, passei um jantar (na França, meus amigos!) em jejum pois o pedido da amiga que estava sentada em frente a mim foi uma truta, que veio inteira, nadadeiras abertas, mandíbulas ferozes abocanhando o próprio rabo, olhos cegos de raiva que, não obstante minha inocência, despejavam sobre mim a violência da interrupção de sua vida. Nem gosto de lembrar…
E, como sempre retornamos ao assunto essencial, a vida, que seja bem vindo ao mundo o pequeno Lorenzo, que ele chegue para ser príncipe e magnífico, como o encantador florentino que tanto incentivou as artes. Mas que ele não tenha a vida marcada por batalhas, que seu caminho seja de paz, que a terra floresça à sua passagem, que as mulheres lhe sorriam e os homens lhe respeitem, que os livros o encantem e lhe ensinem seus tesouros. Lorenzo e sua irmã, a bela Sofia, sua primeira e devotada súdita sou eu!
Assim como saúdo a chegada de um príncipe, dou um adeus à mãe de minha xará, que partiu quando eu estava viajando e só agora soube de sua ida. Tão frágil, a castelã de Petrópolis descansa agora em paragens ainda mais altas que a serra, velando por toda sua família e amigos. Suspiro um até breve, saudosa do meu amado…

Monday, August 03, 2009

Despedidas

Uma semana que se inicia melancólica: no domingo, despedida da filha, que voltou para os US; hoje, despedida definitiva de uma amiga, DEDEI, depois de um longo sofrimento. Saudades novas que se juntam a saudades antigas, ainda tão dolorosas…
Em compensação, reencontro meu cantinho, de onde o mar me consola com seus azuis. O céu aparece velado de malva, misterioso, mas amigável. Ainda saboreio a resenha que fiz sobre o livro do Mia Couto, e que foi publicada no JB-Idéias, de sábado. O livro, Antes de nascer o mundo, é um dos melhores dele. Foi um prazer escrever a resenha. Agora hei de me dedicar ao trabalho da UFF, que já começa a me preocupar. Preciso produzir muito para a faculdade, pois quero terminar logo o doutorado. Tenho pressa de embarcar em novas aventuras. Sonho com mudanças, com mais viagens. Me imagino tomando um carro e viajando em linha reta, sempre, sem que nada me detenha… Mas quero é ficar aqui mesmo, batendo papo com vocês, curtindo o silêncio da minha casa, meio reclusa, meio livre numa indefinição que me permita criar minhas histórias e meus textos. Li sobre um cara que fala que não acha graça em escritores, que largam da vida para ficar escrevendo sobre ela. Mas, na verdade, esta é uma forma de vida tão saborosa quanto a vida de ação e aventuras. É que somos estruturados de uma maneira diferente, vivemos através de palavras, não de ações. Custei para entender isso, mas agora já não invejo mais as amigas e os amigos que "vivem" de outra maneira. Eu também vivo, e minha vida é tão válida quanto a daqueles que estão saltando de bungee-jump, ou que passam a noite nas raves, ou que amam fisicamente. E que a vida desses outros é tão válida quanto a de uma vaca pacífica, ou de uma leoa selvagem. Ou a vida de uma barata. A vida é um fenômeno que se manifesta de diferentes maneiras e que nos maravilha, quando a contemplamos, seja do ponto Aleph ou do ponto mais subjetivo e egoísta. Escritores, bailarinos, cineastas e contadores, fiscais do imposto de renda, polícia e ladrão, macacos e pulgas, cobrimos a terra com nossos comportamentos aparentemente tão diversificados e que, no entanto, são apenas manifestações de um mesmo fato, e que, tão inesperadamente, pode desaparecer. Aproveitemos. Carpe diem, diziam os antigos, significando que devíamos lamentar a passagem de cada dia. O que vale é que traduzimos de uma maneira muito mais positiva, e dizemos: aproveitemos o momento, vivamos.

Tuesday, July 28, 2009

De volta

Cá estou eu no meu cantinho outra vez. Os ventos uivantes que não encontrei na Argentina estavam à minha espera aqui na minha torre, trazendo arrepios e cheiros do mar. Qual é o bom de chegar? Encontrar a casa com seus cheiros e objetos familiares. Olhar pela janela e encontrar as paisagens já conhecidas, mesmo que desconhecendo o agreste vento. Poder usar uma roupa recém tirada do armário, e não de uma mala. Usar o computador que, dócil, não se recusa a abrir páginas de internet. Qual é o triste de chegar? É a saudade do novo, do inesperado. É a síndrome de abstinência que nos ataca quando nos vemos na casa vazia. É a realidade que nos morde com mil dentes nas correspondências, nas faltas nos armários da cozinha, nas chaves extraviadas, nas providências a tomar.
Mas, pouco a pouco, a gente se sente aconchegada nos abraços dos amigos, nos sossegos da rotina, no cheiro de café, no sabor da comida preparada em casa. Isso para não falar de nosso prazer em escutar nossa própria língua, na TV, nas ruas, em casa.
Chego e já penso em partir, no entanto. Irei, talvez essa semana mesmo, talvez na próxima. Com certeza em setembro, para a Itália. E, no entretempo, vou escrevendo, visitando o país das maravilhas, das lembranças, do espelho. Isso enquanto o sorriso da lua me faz pensar em Alice, enquanto o pessoal das Histórias Possíveis me chama de volta das férias, enquanto passeio pela cidade e encontro mudanças de cenário. 
Agora vou descansar o corpo moído de carregar malas e de passar horas em aeroportos e em pequenos aviões fabricados em Liliput. Por falar nisso, semana que vem os Houyhnhnms estarão atraindo todas as atenções da cidade. Athina, a imperatriz, traz seus súditos para a Hípica e todos nós vamos nos tornar especialistas em cavalos, graças à mídia. Taí, vou gostar de aprender. Mas, agora, descanso.

Saturday, July 25, 2009

Don't cry for me , Argentina

Como é linda essa região da Argentina. O lago Nahuel Huapi (Nahuel=jaguar;huapi=ilha) emoldurado pelas montanhas de picos nevados (estavam nevados quando chegamos, agora estão sem seu disfarce), o sol que prateia as águas, o vento que empurra as nuvens e provoca mil pequenas ondas, é, realmente, de dar gritos! Adoro o sol que aqui sempre me parece obliquo, como os olhos de Capitu, adoro o frio que mordisca meu nariz até deixá-lo vermelho. Adoro os passeios procurando a neve que se esconde, fugaz e passageira. Bariloche, San Carlos de Bariloche, com suas incontáveis fábricas de chocolate, ruas cheias de gente, mesmo com a ameaça da gripe suína, e os cafés onde, ao invés de me comportar, sucumbo à tentação de un chocolate caliente.
A família se divide: uns anseiam pela neve e suas emoções, outros adoecem com o frio, eu finalizo as resenhas, tento adiantar o trabalho final do curso, luto com a falta de sinal para a internet, a falta de adaptador para carregar os eletronicos do qual dependemos…
A TV me faz companhia, mas também me impacienta. As massagens oferecidas pelo hotel me tentam, mas não sucumbo à tentação. Li mais dois livros de Mia Couto, e assim que consegir carregar meu brinquedo novo, o Kindle, lerei o que nele se esconde. Amanhã parto para Buenos Aires, com a informação de que em breve vai estrear um filme sobre os últimos anos de vida de Borges.  Curiosa, tenho que me aguentar, pois ainda é cedo para vê-lo.
E, desde já, começo as despedidas, cantando, com Evita, que the truth is I never left you. 

Friday, July 17, 2009

O passado silenciado

Estou fazendo, quase que simultaneamente, as resenhas de dois livros apaixonantes. O primeiro é um amor antigo, obra prima de José Cardoso Pires, O Delfim. O segundo é amor novo, ainda brilhante como moedinha nova, apaixonante: Antes de nascer o mundo, do Mia Couto. As duas histórias são tão bem urdidas que o leitor corre o risco de esquecer a verdadeira história, que sublinha nos silêncios (olha o Mia aí, minha gente!) o verdadeiro conto. Mas os danadinhos não deixam. Na hora que a gente podia se perder para sempre na narrativa, eles dão uma puxadinha nas rédeas e nossa imaginação estaca, intrigada: o que é que estamos lendo, mesmo? Podemos desvendar, ou não desvendar nada, mas sabemos que ali, naquele silêncio, a máquina do mundo se desvela. Será que poderemos enxergar além das sombras? 

Tuesday, July 14, 2009

Deu no Globo…

Um conselho que dou a escritores que possam estar sofrendo de "writer's block" (existe um termo consagrado em português? Bloqueio criativo? Síndrome da página em branco?): Leiam as manchetes do jornal, que não lhe faltarão assuntos. Não falo, obviamente, dos escândalos da política nem das mortes violentas. Essas já viraram lugar comum e só inspiram os cineastas. Falo das coisas inusitadas como a possibilidade de um Harry Potter in drags! Quem poderia imaginar que o bruxinho ia crescer e que seu maior desejo seria virar travesti? Bem sucedido, milionário e baixinho, o seu desejo expresso nas páginas do jornal é se vestir de mulher por causa das roupas! A culpada deve ser a danada da Hermione, que fica desfilando todos aqueles modelitos Channel que ganha de presente e rouba os flashes nas estréias. Naughty, naughty, tanto um quanto a outra.
Querem ver mais? Pois leiam o poema de amor do jovem de 17 anos, publicado na quarta capa do Megazine. "Ela é minha mulher, corpo quente/e sexo farto."
Sexo farto? Mas a amada ainda possui "…língua/ culta de conhecimentos sem fim." e "cantarola Vinícius na velha zona/sul boêmia." Essa mudança de linha amplia a significação e me deixa com um título de conto já pronto: Vinícius na zona! Fantastique! (pois estamos no 14 juillet, Vive la France!)
Para terminar, uma de reforma ortográfica: O Brasil vai pagar mais caro pelos submarinos que comprou porque a França vai repassar tecnologia. Se nos lembrarmos da piada da construção da ponte, aquela que diz que a cidade pediu três orçamentos para a construção de uma ponte, e que os alemães cobraram um milhão, os americanos cobraram dois milhões, mas ofereceram cobertura e ar condicionado para toda a ponte, e os brasileiros cobraram três milhões. A cidade, curiosa quanto aos melhoramentos, que não foram mencionados, chamou os brasileiros para conversar. Eles disseram que era isso mesmo: cobrariam três milhões, chamariam os alemães para construírem a ponte, ficariam com um milhão e o outro milhão iria para o prefeito. Daí que, na reforma ortográfica, a gíria grana por fora passou a ser grafada tecnologia.
Agora chega de jornal, e aqui vai minha homenagem ao Theatro Municipal, que sempre amei, assim, com h e tudo o mais, e que merecia um poema tão verdadeiro quanto o do jovem aluno do Pedro II, citado antes. Esse theatro está preso às minhas lembranças mais antigas, de aluninha de ballet do Professor Pierre (Klimon? Climont?) De minhas apresentações como Outono ainda na minhamais tenra Primavera… As lembranças são confusas, mas lembro-me de me perder por uns subterrâneos cheios de praticáveis e de poeira, numa deliciosa brincadeira de esconde-esconde. Lembro de uma montagem espetacular de Sonho de uma noite de verão, com a Lucélia Santos. Lembro do último baile de Carnaval do Municipal, que graças a Deus (que a ciência prova que não existe, Dawkins, eu sei, mas que continua sendo uma ótima expressão de alívio) foi eliminado. Das óperas extraordinárias que assisti, dos ballets que me deslumbraram com sua beleza, dos incontáveis concertos da Dell'Arte ou dos convites para as frisas do Bradesco, quando Guilherme ainda era o "senhor presidente". Não houve nem uma vez que eu tivesse entrado no Municipal sem me emocionar com a beleza do prédio. E sempre me sinto uma espécie de princesa lá dentro, mesmo quando só consigo um lugar na torrinha lateral e passo o tempo todo com a sensação que, se não fosse pelo insustentável aperto das poltronas que imprensam nossas pernas de encontro à mureta da frente, poderia me distrair e despencar lá de cima. Amo o Municipal, amo o Assirius, que já foi um excelente restaurante e que impressionou os gringos que meu marido recepcionou com um almoço no local, e às mulheres dos gerentes de todo o Brasil a quem, ao invés de oferecer um dia de shopping, ofereci um almoço ali seguido de uma visita à Biblioteca Nacional, quase em frente.
Então, viva ao Theatro Municipal! Que ele ofereça mais 100 anos de magia, e mais outros 100 ainda multiplicados por 100.
E que o nosso 14 de julho seja comemorado sempre com a construção de uma coisa boa, não com a queda de uma coisa ruim. Mas que tenhamos todos a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, belas palavras, embora filhas do Terror com a Guilhotina… 

Monday, July 13, 2009

Desculpem nossa falha!

Voltei de Paraty gripadíssima. Se era suíno ou não o vírus que me atacou, não sei. Só sei que era chatíssimo, exigente, e que me dominou enquanto não cedi e fiz repouso. O que valeu é que, enquanto estive lá em Paraty (um erro de digitação me fez perceber que o nome da cidade já carrega em si a festa - party) ele não me incomodou. Fui e voltei bem, dirigi sem problemas, deixei os amigos no aeroporto, voltei para casa e… dormi! Mau sinal, todas as vezes que durmo de tarde significa que estou para adoecer. No entanto, achei que estava apenas muito cansada, depois de tantas atividades, muita alegria e companhia todo o tempo – eu, que agora passo dias inteiros sem falar, por falta de interlocutor, me vi numa interminável conversa, deliciosa e variada, como uma borboleta num jardim florido. Bem, vou poupá-los da descrição minuciosa dos sintomas. Também não vejo mais como falar de FLIP, assunto mais que requentado em mil postagens pela internet, em artigos de jornal, em folhetos, em revistas. Quem ainda quer saber do Chico? Quem, se não a vovozinha, ainda se lembra do Lobo? Quem guardou na memória o teor da palestra do Dawkins, as emoções do Domingos, as verdades do Talese? Quem ainda lembra que eu falei na OFF FLIP? Os livros que trouxe, ganhados ou comprados, não puderam ser abertos, muito menos lidos. Aqui em casa se juntaram aos manuscritos do Cremasco, aos livros enviados pelo Maurício, ao manuscrito do Altamir. Desculpem amigos, mas ainda vou demorar: terminadas as aulas, tenho que fazer o trabalho final do semestre. Mas, para complicar minha agenda de trabalho, tiro alguns dias para paparicar a família, que se reúne toda na próxima semana, numa viagem para os picos nevados do Cerro Catedral. Gripe outra vez? Por que me amedrontar? Irei, iremos de avião. Passaremos pela Linha Vermelha. Colocaremos nos pés umas tabuinhas velozes e nos despencaremos pelas encostas da montanha, numa velocidade absurda. Tudo isso é risco. Viver é muito perigoso, nos ensina Guimarães Rosa. Mas, enquanto viva, contemplo minha nesguinha de mar, sorvo o azul pelos olhos, encho o peito de maresia até provocar a tosse, e continuo o descanso, agora frente ao computador, já com mais ânimo. Prometo que escrevo, que volto a ler, que tentarei cumprir os prazos, que não deixarei esses azuis que me encantam passarem outro dia sem minhas homenagens!

Friday, July 03, 2009

Fliperama II e III e !V...

Atrasada, eu sei, mas como me dividir entre o computador, na pousada, e as mesas e os amigos e os divertidos almoços e jantares? Meu computador, já no limite, cansado, cada vez me parece mais lento: estou há mais de 10 min. convencendo-o a colaborar comigo.Então, sem mais demora, vamos às notícias: A mesa das verdades inventadas foi muito boa. Muito bem dirigida, todos broilharam, Bloch, Tatiana e Sérgio tinham muito em comum e destaco algumas frases.
Da Tatiana:
A solidão da escrita é procurar, no próprio corpo, o que poderia ser narrado.
Do Sérgio:
A realidade não existe. Só existe no momento em que a organizamos num discurso.
Do Bloch:
A biografia definitiva é uma falácia.

Claro que eles disseram muito mais, eu é que sou fraca de anotações.
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A grande mesa da Flip, até agora, foi a do Dawkins. O Boccanera foi super profissional e não deixou a peteca cair nem quando houve problemas com o som. O Dawkins foi super simpático, inteligente, divertido, simples de entender. Ouvindo-o, percebemos que ele lê muito, conhece bem literatura inglesa, ou pelo menos, os clássicos da literatura inglesa. Tudo o que ele falou foi interessante, mas não anotei nada -- perdi a caneta, vejam só! E, além do mais, nem sou repórter, sou apenas uma deslumbrada, felicíssima de estar aqui escutando tantas coisas, aprendendo tantas outras.Muito bom.

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A noite? Foi uma loucura portenha. Depois de tanto saber, a euforia das conversas e dos cérebros super estimulados, trocando risadas e lembranças, cantando El dia en que me quieras num restaurante argentino, voltando para a pousada cantando Garota de Ipanema em espanhol, na expectativa de uma sexta-feira de muitas outras atividades.

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Fora das mesas principais, começamos a sexta pela divertidíssima mesa sobre o acordo ortográfico, mediada pelo Marcelo Moutinho, e estrelada pelo Marcelino Freire e o Ondjake. A exuberância do Marcelino, propondo um acordo pornográfico para que todos aprendam a usar bem a língua, foi secundada pela elegante contenção do Ondjake que começou por citar Fernando Pessoa (Minha pátria é a língua portuguesa). Em seguida, ele revelou que Mia Couto oferece uma atualização do pensamento de Pessoa ao dizer "Minha pátria é minha língua portuguesa", para terminar com um amigo, provavelmente imaginário, que diz: "Minha pátria é minha língua numa portuguesa". No entanto, longe de se esvaziar nesta brincadeira, a mesa cresceu, levantou-se a questão da oralidade, da falta de solicitação popular para essa unificação da ortografia, dos aspectos comerciais que estão por tras da reforma, da resistência por parte dos portugueses. E aí, meio que sem querer, o humor voltou a imperar nas longas "colocações" da platéia, quase todas feitas por portugueses ou angolanos ou moçambicanos. Só que não vou comentar aqui, para vocês não pensarem que estou contando piadas de português.


A off-flip também está crescendo.O público comparece e gosta da programação. Ontem foi o Ruffato, debaixo de chuva, e mesmo assim bem assistido. Hoje houve uma homenagem a Bandeira. O Secchin, num novo visual que o deixou muito mais charmoso, fez uma excelente análise de Profundamente. Depois, o pessoal da Fliporto continuou com o mesmo tema, mas ressaltando a pernambucanice (será que dá para usar essa palavra?) do poeta.

Voltando às mesas oficiais, Tezza e Bellatin, concorridíssima, infelizmente foi prejudicada pela passeata das comunidades tradicionais, que organizaram uma demonstração barulhenta e com um estribilho antipático: Queremos perturbar! Eles têm razão de sobra para protestar, mas o estribilho foi muito infeliz.

Depois, a tão esperada mesa de Hatoum e Chico. O mediador, intimidado com a tarefa sobrehumana (?) travou. Hatoum e Chico foram simpáticos, mas, apesar da imensa multidão que arrastaram, que levou o pessoal a barrar até o Gay Talese e alguns credenciados (que depois conseguiram entrar, graças a um supervisor mais atilado) a mesa foi meio borocochô. O Chico, o Hatoum e o mediador confessaram que tinham combinado como ia ser, e essa combinação tirou a espontaneidade que, nas outras mesas, deu tão certo. Preparar-se para uma mesa é muito bom, mas combinar as jogadas torna o jogo sem graça.

E agora vou dormir.

Thursday, July 02, 2009

Fliperama I

Este é o curioso mosaico feito de livros, que forma o retrato de Manuel Bandeira, poeta homenageado. Curioso porque a imagem, a olho nu, quase que não se revela, mas na oto até que dá para reconhecer.
Aqui vão algumas frases pinçadas durante a sessão das 11:45
Domingos de Oliveira:
Não existe banalidade.
Estou convencido de que existe uma "terra dos romances prontos", o escritor deve ser capaz trnar-se leve para chegar lá.
O segredo da produtividade é acabar tudo o que se começa.
Meu amor não é meu, dou para quem quiser.
Toda obra de arte boa é de auto-ajuda. Se eu vejo um filme e ele não me ensina nada, é um mau filme.

Tuesday, June 30, 2009

FLIP, revisited

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada. 
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. 
Anseio com uma angústia de fome de carne 
O que não sei que seja - 
Definidamente pelo indefinido... 
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto 
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. 
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua. 
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. 
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota. 
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. 
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos; 
Escrevo por lapsos de cansaço; 
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia. 
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme; 
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago; 
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma... 
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei, 
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa 
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas), 
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas 
Onde supus o meu ser, 
Fogem desmantelados, últimos restos 
Da ilusão final, 
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido, 
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo, 
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida... 
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, 
E aqui tornei a voltar, e a voltar. 
E aqui de novo tornei a voltar? 
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, 
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória, 
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo, 
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -, 
Transeunte inútil de ti e de mim, 
Estrangeiro aqui como em toda a parte, 
Casual na vida como na alma, 
Fantasma a errar em salas de recordações, 
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem 
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo, 
Sombra que passa através das sombras, e brilha 
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida, 
E entra na noite como um rastro de barco se perde 
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo, 
Mas, ai, a mim não me revejo! 
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico, 
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim - 

Um bocado de ti e de mim!...

Será que alguém ainda se lembra de Fernando Pessoa e seus poemas Lisbon revisited? Tecnicamente, Alvaro de Campos é quem os assina. 
Não posso deixar de meio que "plagiá-los" agora que estou de partida para Paraty, onde tantas vezes perambulei pelas calçadas incertas, me apoiando nos braços de quem me amparou também nas calçadas de Lisboa.  A quem será que revejo nas tendas e nas vielas? Qual a voz que me chama no vento das praias? Que imagem é essa que projeto, através dos livros?
Ih, melhor guardar esse papo cabeça para a hora do bate-papo na Flip. Beijos, partindo.

Monday, June 29, 2009

A morte e o sonho

Uma coisa assim, repentina, e minha dor aparece fingindo que é para um alguém que nem conheço. E eu rememoro uma fase da vida que me pareceu tão agitada, espremo uma lágrima que quer escorrer no cantinho do olho esquerdo, do coração. Pegue essa bandida!, ordeno à minha mão. Rápido, antes que ela escorra! E, obedecida, mantenho meu ar de indiferente doçura perante a agitação da turba. Sinto inveja. De quê? Talvez dos aplausos, ao se fechar a cortina…
E eis que outra morte, e mais outra, dão o tom melancólico ao fim de semana. Morre o festejado cantor, a bela atriz e o corajoso jurista. Arte e inteligência parecem não ter vez nesse mundo. Falam muito do cantor: uma figura estranha. Falam pouco da atriz, já quase esquecida, bela e imitada em sua glória, depois, em seu sofrimento, amada por quem uma vez tinha sido seu parceiro. Morre o jurista e esse, que devia ser tão celebrado e comentado, a quem se deve, no país, um exemplo de cidadania, fica quase que limitado a uns poucos comentários, quase sem imagens. Um morto sem séquito para mostrar na TV. Talvez o povo esteja lá, talvez tenha acorrido, agradecido pela carta que um dia recebeu, querendo retribuir seu interesse. Mas as equipes de TV, essas, embarcaram para Los Angeles e estão entrevistando a torto e a direito umas figuras que agora possuem o prestígio da proximidade. Alguém que um dia apertou a mão do cantor. Outro que tocou tambor a seu lado. A cozinheira que preparava pratos vegetarianos há mais de 20 anos. A babá, despedida, que denuncia defeitos. A família, implacável, que deseja os despojos. A mãe dos filhos, a ex-mulher, o ex-médico, a enfermeira.
Ninguém abriu espaço para o documentário dos últimos dias da atriz cancerosa.  Ninguém quer saber do conteúdo da carta aos brasileiros. Queremos glitter. Dança. Morte misteriosa e declarações bombásticas que nos façam esquecer as vergonhas intestinas do país. Para ajudar, bons jogos de basquete, conquista do ambicionado título de futebol numa batalha árdua que nem parecia estar sendo travada contra os EUA, mas contra a incompetência do próprio time.  Vuvuzelas impiedosas nos impedindo de pensar, de sentir outra coisa que não seja a insensibilidade dos remédios para a dor de viver.
Mas a morte é assunto que os vivos não esgotam. Viver e morrer, já ensinava o filósofo, são coisas que se excluem. Será? Mas não vou discutir isso agora, pois me dedico a satisfazer o pedido do amigo Guilherme Ramos, em seu blog Prosopoética. Ele quer saber de meus sonhos, oito deles. Ah, Guilherme, se você soubesse o quanto procuro sonhar, sem conseguir… Mas não vou ser freudiana, e vou ficar com os sonhos na acepção de "desejo", aquilo que os americanos chamam de daydreaming, e nisso até que sou boa. Todos os dias sonho alguma coisa, olhando para o mar, sonho alguma coisa, lendo os livros do Mia Couto, sonho alguma coisa, e por aí vai.
O que mais queria era o meu amor de volta, mas isso não vale, então vamos aos sonhos possíveis (sem prioridades, apenas à medida que vão surgindo em minha imaginação):
1 Sonho em ser uma escritora de sucesso: e aí me questiono – sucesso significa o que? Muitas vendas? Entrevistas nos jornais? Reconhecimento nas universidades? Teses publicadas a cerca de minha obra? Acho que o sucesso que desejo é mais humildezinho – um tratamento mais deferente por parte da minha Editora, que deixa meus imeios sem resposta, que nem se lembra de fazer uma propagandazinha de meus livros, nem de organizar um ciclo de palestras para divulgar os autores nacionais sem "exposição midiática".
2 Sonho em poder me sustentar com o produto de meu trabalho: meus livros e minhas palestras e aulas.
3 Sonho em viajar pelo mundo (e isso até que faço), só que voando em primeira classe, para não chegar nos lugares tão desoladamente desconfortável e cansada. 
4 Sonho em ser professora visitante na Sorbonne. Queria ter a chance de viver por uns tempos em Paris, transformando essa cidade numa paisagem interna, quase que orgânica. Paris é a cidade mais lógica que conheço, cartesiana, apesar de que essa lógica se impõe sobre uma cidade viva, que se modifica e se rebela. Numa das vezes em que estava na cidade, surpreendi uma noite em que o trânsito parou nas redondezas do meu "feudo" (entre o Jardim de Luxembourg e a Université) e as ruas foram invadidas pelas bicicletas, que foram, aos milhares, percorrendo os caminhos cinzentos com suas cores e suas campainhas alegres, numa espécie de festa. E o caos não se instaurou na cidade, como aconteceria aqui se tivessem feito uma festa dessas num final de dia de semana.
5 Sonho em ser magra e flexível, um corpo adolescente que não reclame das canseiras a que possa obrigá-lo.
6 Sonho em ter uma mente ágil e criativa, sempre disposta a aprender e a assimilar novidades.
7 Sonho em abraçar o mundo, oferecer paz e conforto a todos a quem eu possa encontrar.
8 Sonho em romper o casulo de minha solidão.
Aí está, Guilherme. E, de bônus, mais um sonho: mergulhar nas águas das praias azul-esverdeadas de Alagoas, e deixar-me dissolver de prazer!

Monday, June 22, 2009

Brecht.com

Fui ao teatro, fui ao cinema, matei o concerto (menina má), pois preferi ir ao lançamento do livro de minha amiga Adriana Lisboa (boa menina). O filme? Assim, assim. Bom para coroas sonhadoras e para jovens atores e atrizes, que podem ver dois grandes atores transformando uma historinha gasta num passatempo regular. A peça? Ingênua. Nosso mundo está muito mais sofisticado que o de Brecht, mais cínico. Duvido que a platéia tire as conclusões pedidas pelo elenco, ninguém vai dar bola para aquela divindade, nem para o conflito da jovem prostituta que acredita em amor, nem se impressionar com o aguadeiro que se mutila para ganhar uma pensão– tudo dejà vu, infelizmente. O livro da amiga? É infantil, e estou guardando para ler acompanhada por uma criança. Mas é lindo, ilustrado pelo fantástico Rui Oliveira.
Hoje entreguei minha resenha para o Rascunho. Falo sobre o Frenesi polissilábico, do Nick Hornby, mas acho que falo mesmo é sobre o Rascunho – esse jornal idealista que se mantém graças ao Rogério Pereira, um dínamo, todo coração e energia, sonho e realização. 
Agora vou aos textos para a UFF. E ainda darei aula, hoje. Mas estou me sentindo melhor (passei o fim de semana meio adoentada) e com muita alegria por ter cumprido meus prazos. E por ter internet, ora viva!

Sunday, June 21, 2009

Horóscopo

Acordo e leio o jornal (isso quer dizer: leio o horóscopo) que me aconselha a olhar alguma bela paisagem. E lá começo eu o dia, pensando o que devo privilegiar? Contemplarei o mar ou a montanha? A Lagoa, talvez? Uma floresta urbana? Que sorte a minha viver numa cidade de tantas belezas, onde se torna difícil escolher para que lado me voltar, quando me recomendam olhar uma bela paisagem. De acordo com minha preferência habitual, corro a olhar o mar, que hoje se funde com o céu numa comunhão mítica, geradora de vida. Adoro quando a linha do horizonte se desfaz nesta imprecisão de contornos e nos deixa vivendo num mundo em que tudo se torna possível. É possível que eu hoje tenha um dia produtivo, mas meus planos são outros. Quero ir ao cinema. Quero ir a dois cinemas e a um teatro. Tenho ingresso para um concerto, mas acho que vou faltar. No entanto, me lembro que o horóscopo me avisa: não deixe de escutar boa música. Começo a duvidar de mim mesma. Será possível que essas recomendações sejam tão precisas? E, ao serem precisas, serão necessárias? Rebelo-me. Hoje quero ter a liberdade de sonhar, de fazer as coisas que decidir no último momento, sem planejamentos. No entanto, olhos as ilhas que enfeitam minha nesguinha de mar, como a me relembrar que os limites estão ali, embora eu não os veja. Decido que ainda é muito cedo para decidir. Talvez eu saia agora, para usufruir o mar, tão próximo, mas o mais provável é ficar por aqui, tentar colocar em dia a correspondência e os trabalhos. A leitura nunca ficará em dia, já sei. Mas sei que irei ao cinema, atrás de alguma ilusão romântica. E talvez vá ao concerto. Afinal, adoro música. Só me entristece é a Sala Cecília Meirelles, que tem me parecido escura e triste.
Peço desculpa ao Guilherme, que me mandou uma tarefa e ainda não consegui cumprir: mescla de internet pisca-pisca e preguiça. Mas irei sonhar com você, em breve. Peço desculpa a Cris, e a todos os amigos que tenho deixado sem resposta, mas é que tem sido mesmo difícil fazer alguma coisa com essas limitações tecnológicas e mais uma cirurgia dentária e um inexplicável mal-estar (talvez do antiinflamatório?) que tem drenado minhas energias. Hoje tenho internet, mas tenho também o horóscopo que me dá olhos para ver e ouvidos para ouvir. Então, com sua licença, meus amigos, mergulho meus olhos no mar e aguardo o momento de submergir nas ondas sonoras. Ciao.

Friday, June 12, 2009

Espaço aberto - Literatura

Acabo de me assistir na TV – Que experiência mais estranha! O que valeu é que o programa ficou mesmo muito legal, com uma edição onde os textos de Borges, com a leitura do sempre grande Othon Bastos (meu eterno Paulo Honório, do filme São Bernardo) e as imagens do autor tão bem escolhidas, valorizaram os comentários que fizemos a respeito de seus textos. Fico pensando em como a TV é impactante: falamos de Borges e, como por um milagre, ele apareceu ali entre nossas falas, corroborou o que dissemos, dialogou conosco. O que eu gostaria é saber que alguém, por virtude de assistir esse programa, se sinta tentado a ler algum conto de Borges, algum de seus poemas, ou ler suas entrevistas, sempre tão finamente irônicas e inteligentes. Ou ler seus ensaios, cuja concisão nos deixa enganosamente levados a pensar que são textos simples, fáceis de preparar. Me lembro de uma aula que tive em Yale, com a professora Shoshana Felman. Era um Faculty Seminar, o que quer dizer que era aula para professores, e era uma grande honra para mim ter permissão de assistir as sessões com chefes de departamento, juízes da Suprema Corte, e especialistas nas diversas áreas que tinham a ver com a pesquisa dela na época, que era a questão de testemunhar (witnessing) e de prestar testemunho (testimony), em situações ligadas ao Trauma. A cada semana tínhamos uma leitura prévia, que preparávamos e debatíamos em sala de aula. Os textos podiam ser capítulos ou livros inteiros. No caso em questão, a leitura era apenas um conto de Borges. El testigo. Apenas uma página. Nem sequer uma página completa, dois parágrafos, quase nada. Negligenciamos a leitura. Lemos,é verdade, mas fizemos uma leitura rápida, lemos sem nos deter. Nenhum de nós preparou o texto com a devida atenção. Em menos de dois minutos ela percebeu que não tínhamos dado ao texto o mesmo cuidado que havíamos dado a outros que, pela extensão, nos pareciam muito mais complexos. Ela foi de um a um, e todos foram se calando. E ela, como Júpiter, revelou-se em toda sua ira, mostrou que tínhamos sido omissos e preconceituosos e que, com isso, tínhamos perdido a chance de ter uma aula brilhante (como eram todas as aulas dela, extraordinárias!) Até hoje, pelo menos uma vez por ano releio El testigo. É uma lição de humildade que me dou. Leio como penitência, procurando sozinha o que poderia ter encontrado através da experiência de um grupo tão especial como aquele. E penso no privilégio que tive de, por uns poucos anos, conviver com pessoas que realmente fazem a diferença na maneira em que podemos compreender o mundo. E, cada vez que leio aqueles dois parágrafos, percebo a lição extraordinária do valor de cada um de nós. Todo o sentido da vida parece estar contido naquele pequeno texto.

Carne Trêmula e outros celulóides

Acordei pensando em cinema, talvez porque tenha ido ao cinema ontem de noite, depois de um longo jejum. Fui ver A partida, um filme sobre os rituais da morte, da despedida. Claro que isso mexe comigo, ainda mais nas vésperas de um dia como hoje, todinho dedicado ao "amor".  Aí, depois de muito tempo com essa minha internet pisca-pisca, descobri que hoje ela estava funcionando, e aproveitei para ver mensagens, facebook, blog… que saudade de meus amigos. André, no Rechavia, tem escrito muito e eu tenho muito que ler. Ana Cristina, Leila,Guilherme Ramos, Valéria, MM, alguns de meus amigos blogueiros desculpem, mas não sei se vou conseguir ler todo o passado. É uma pena, mas hoje a gente, quando perde um dia, perde mesmo, pois o mundo está cada vez mais intensamente "escrito", interpretado, comentado.
Bem, para não perder mais tempo, vouu ficando por aqui, logo depois de explicar o porquê de carne trêmula –nada a ver com a história de Almodovar, apenas aproveito o título dele para brincar com o meu nervosismo por aparecer hoje no Espaço Aberto Literatura, numa conversa sobre Borges, com o Edney e o Antônio Fernando Borges. O mais engraçado foi descobrir que uma amiga minha foi namorada dele. Como falei sobre isso, o Edney lembrou que só existem 6 graus de separação entre nós, e lá embarquei eu, pensando no filme de temática tão borgeana, pois Borges era fascinado pela definição da identidade, e das fronteiras entre real e imaginário. E, afinal, o que será mais importante? Qual a identidade que mais vale: a que nos é imposta pelo nascimento ou a que construímos com os nossos próprios sonhos? Por falar em construção de sonhos, passo a uma pessoa que conheci ontem, um livreiro do cyberespaço, como ele se define e que, sozinho, dirige uma empresa com N funcionários virtuais, com sede mundial no "Catumbi". Ele, outro borgeano, claro, queria me convencer a vender meus livros para ele. E fez os cálculos matemáticos de quantos livros eu conseguirei ler, ao final de 60 anos, lendo um livro por semana, para provar que eu já tinha em casa muito mais livros do que jamais conseguirei terminar de ler. Desprezei os cálculos dele, pouco mais de três mil, dizendo que leio mais do que um livro por semana, e assim defendi minha biblioteca! E, numa cruzada insana, saí e comprei mais um livro, desafiadora. E ele, muito simpático, ainda me deu um livro de presente, do Blaise Cendrars. Entrincheirada entre estantes, me despeço, com votos de que todos assistam ao programa do Edney, nem que seja só para ver o ex da minha amiga!

Wednesday, June 10, 2009

Espaço aberto - Literatura

Hoje fui toda feliz gravar um programa na Livraria da Travessa do Leblon. Coisa de realização de desejos ocultos: entrar num shopping antes do horário, passar por galerias e áreas reservadas, entrar pela porta de serviço da livraria e ter todos aqueles livros ali, estremunhados de sono, deitadinhos, indefesos… 
Fiquei entusiasmadíssima! Cheguei na hora que marcaram, 8:30, mas o Claufe Rodrigues estranhou: Chegou cedo! A gente geralmente marca às 15 para as 9. Bem, eu sou pontual, aprendi isso nos 5 anos em que vivi nos EUA. Mas a produção do programa, pensando em termos brasileiros, em que os horários são apenas sugestões, deve ter se precavido. Eu aproveitei para me sentar naquela poltrona de salto alto, – quem frequenta a Travessa conhece bem – e me envolvi com um livrinho de tal maneira que nem vi o Edney chegar, nem o Borges (o outro Borges). Depois, quando íamos começar a gravação o cameraman achou que eu podia tirar um pouco do brilho de meu rosto. "Você não tem aquelas coisas de mulher aí?" Tive vontade de responder que de mulher eu tinha o DNA.  E fiquei achando que o meu devia ter vindo defeituoso, pois não chegava atrasada, nem andava com pó de arroz (será que é isso que ainda se usa?) na bolsa. Mas, em compensação, na minha bolsa tinha livros, papéis com anotações, um ticket usado de metrô parisiense, uma entrada de teatro de uma peça tão ruinzinha cujo nome nem vou mencionar, algumas moedas, a carteira e o celular. Em resumo: Não se assustem se virem meu rosto brilhando no programa. 
Será que ficou legal? O Edney me deixou super tranquila, descontraída. Em alguns momentos cheguei a esquecer a câmera. Mas aí lembrava do "brilho" e não sabia se devia enxugar o rosto, passar a mão no "bigode", que foi como o cameraman chamou o meu "discretíssimo buço".
Adorei escutar as coisas que o Antônio Fernando Borges tinha para contar. Ele tem uma memória muito melhor que a minha, e contava as coisas dizendo onde elas estavam. Eu nunca lembro o nome dos contos – só lembro das historinhas. Mas o outro Borges sabia a que contos eu me referia e foi completando as minhas lacunas. Esqueci de falar uma coisa que eu queria muito dizer: a opinião de Borges sobre Kafka. Borges gostava tanto do que Kafka tinha produzido que dizia que sua vida (de Borges) era supérflua. Isso ficou muito mal-redigido, mas tenho que deixar assim como está e seguir adiante com as minhas obrigações. Vou ler o livro que meu amigo MM organizou, o Dicionário amoroso. O livro está lindo. Depois eu conto.

Tuesday, June 09, 2009

Rent

O musical Rent tem uma música que adoro, que divide o ano em horas ou minutos, sei lá. (Os que me conhecem sabem que nunca sei as letras das músicas, ou só sei as letras e não a melodia – sou dos extremos, sou do laraiá ou das palavras) Antes de continuar, talvez seja bom fazer mais um parênteses: sou louca por musicais! Outro dia fui visitar uma amiga e lá encontrei um cara que tinha acabado de voltar de NY, onde tinha assistido às novas versões de musicais. Nossa, passei a noite inteira conversando com o cara, me deliciando com o que ele me contava. Nem senti o tempo passar. 
Voltemos então ao assunto principal: meu fim de semana sem internet foi medido assim, como na canção de Rent, segundo a segundo, que gotejaram sobre a testa da minha paciência, me enlouquecendo. Sempre que me sento frente ao computador, vou dar uma olhadinha nos "imeios". E fico pulando de um lado para o outro: pesquisa na internet, texto, imeio, e um pouquinho de paciência, enquanto organizo as idéias, ou espero que alguma chegue. Bem, claro que, sem internet, fiqui presa no laço, tentando, tentando sem parar, me irritando, saindo da cadeira e da frente da minha nesguinha de mar, que tanto encanta os meus olhos.
Azul, azul, azul… minha cor querida, cheia de significados. Cor amorosa e violenta, suave e agressiva, essa cor viva que o mar e o céu podem oferecer.
Paliativo? Nenhum. nem mesmo um bom filme, pois o último que assisti foi O falsário, muito bom, mas fugido, no meio da semana. No sábado e domingo fiquei naquela loucura do "preciso trabalhar, preciso ler, preciso escrever" que sempre me ataca nos finais de semana. 
Pontos altos destes dias sem comunicação? A LUA! Gente, quando ela se mostrava por entre as nuvens eu me sentia tão alegre que nem sei! Mais ponto alto? A leitura da declaração de amor de Levine a Kitty, em Anna Karenina. Baseada na própria experiência, ele consegue trazer para o texto toda a emoção vivenciada. Foi bom de gritar! EU AMO LITERATURA! AMO LER! É tão bom que nem sei explicar. Mais outro ponto alto? Livros que comprei – não paro com o vício! Não consigo ler tudo, mas é tão bom olhar para eles aqui em casa, esperando docilmente que eu abra suas páginas e … daí tudo muda: eles se tornam vivos, me tomam pelos olhos e logo por toda a mente e, quando vejo, estou em outro lugar, tomada, em transe, vencida! Booommm…
Então, tá. 
Ah, não esqueçam de ir lá nas Histórias Possíveis, que, sob nova direção, continua sendo o máximo!
Aos meus leitores: obrigada pelos comentários e carinho. Fico feliz quando alguma coisa que posto aqui serve a alguém. E adoro as contribuições que vocês me dão!

Saturday, June 06, 2009

balanço quase geral

Uma semana triste, que começa com o sumiço de um avião, com a partida de um amigo, com a venda de uma velha TV... Alguém pode estranhar meu luto por uma TV, mas é que, depois de vendê-la, lembrei-me de que é uma coisa a menos de minha outra vida. Porque eu me sinto vivendo uma vida que não é mais a minha, de verdade. Uma vida a que, legitimamente, não tenho direito. Então, a cada vez que tenho notícias da morte de alguém, conhecido ou não, me sinto culpada: com que direito continuo por aqui? Que sacrifício esotérico terei feito, que pacto com o anjo da morte? Pergunto isso porque hoje, assistindo uma entrevista do Fernando Morais com o Edney Silvestre, ele falou das loucuras do Paulo Coelho, que estava convencido de ter feito um acordo com o anjo da morte, por ocasião de uma tentativa de suicídio não completada. Mas as loucuras não são apenas dos magos. As diversas teorias que escutei a respeito do voo 447 da Air France me fazem pensar em Simão Bacamarte: ou tenho que sair por aí prendendo lunáticos ou eu mesma devo me encerrar num asilo. Do deslocamento do Triângulo da Bermudas à ascenção dos crentes dos últimos dias, abduções por alienígenas e outras coisas igualmente improváveis, as versões vão se multiplicando desavergonhadamente, tal como os desmentidos.
Será que algum dia saberemos o que aconteceu? Precisamos de fatos, de provas, de alguma explicação que contente nossa lógica -- ou falta de!
Bem, enquanto isso, vou escrevendo, lendo o que posso, testando os meus limites para não deixar nenhum prato chinês cair no chão. Preciso dar uma escovada no Borges -- fui convidada a falar sobre ele. O que tenho para dizer sobre ele? Muito pouco, quase nada. Autor difícil, mas que nos engana com uma aparente simplicidade. Em sua longa vida escreveu muitas coisas interessantes, mas o interesse maior parece-me se concentrar no jogo de ambivalência entre realidade e ficção. A literatura, em Borges, é determinante para a vida -- uma inversão do que geralmente se admite. Talvez por isso a gente se sinta tão tentado a responder-lhe uma ou duas coisinhas. Para terminar, um dedinho de Nick Hornby. É sobre ele que devo escrever neste mês, para o Rascunho. Um amigão, do mesmo gênero do Manguel, é a impressão que tenho dele.Um cara com quem gostaria de trocar figurinhas, mas as figurinhas dele são, na sua maioria anglo-saxãs. As minhas são, bem, "ecléticas". E nunca fui sistemática o bastante para dizer que conheço "tudo" sobre algum autor. Mas conheço o bastante para dialogar um pouco com ele, antes de sair divagando sobre outras coisas. Coisas como a inconstância da internet em minha casa. Que mistério essas coisas, hein? Um pisca-pisca de conexão, que nme deixa absolutamente insegura!
Bem, aproveito agora que ela está on para postar esse texto.Qem sabe quando vou voltar a conseguir me conectar de novo?

Saturday, May 30, 2009

Juiz de Dentro (do meu coração)

Acabo de voltar de Juiz de Fora, onde descobri amigos novos, encontrei amigos antigos, e vibrei ouvindo falar de literatura. Gente, como gosto disso! Seminários, seminários, seminários... Passava o dia inteiro no auditório, e, quando terminava, uma sessão ainda mais divertida começava: os seminários no bar. Aquela mistura de receitas com filosofia, de moda com cinema, de fofoca com ciência. Ia dormir sem vontade, acordava sem precisar de despertador, sorridente, me sentindo parte de uma humanidade perfeita, de gente que sonha e analisa, que desmonta e constrói, que reparte leituras e mundos com uma generosidade onde o altruísmo se mescla com uma boa pitada de narcisismo. Conheci a Prisca, velha amiga do HP a quem nunca tinha visto. Ela se desculpou de não estar colaborando com o site, mas claro que não era preciso. Nossos momentos são, infelizmente, contados. Temos uma parca ração de tempo. Prisca investe na carreira, eu já estou, há muito, desencaminhada. Sem carreira a seguir, persigo sonhos. E vou acumulando saudades de tudo. Viva a UFJF!

Tuesday, May 26, 2009

Um café e a conta

Não fui entrevistar ninguém, nem mesmo ser entrevistada. Só me sentei ali porque havia uma mesa vazia e eu tinha tempo e um livro para ler. Pedi o café. Junto veio uma história, um sujeito apaixonado, reclamando de sua amada pelo celular. Depois de separados por um ano, um ano e meio (essa imprecisão me enlouquece, não funcionaria num conto!)  Ela topa sair de novo com ele. Foram jantar. Ele pensava em levá-la para cama (juro que tudo isso eu ouvi, e não tinha como não ouvir, ele falava alto, no celular, e sua cadeira estava ao lado da minha). Ela "conversou legal", mas de repente, danou de falar de um outro, o tal que ela namorou durante a separação. Mas ele não desistiu, queria levá-la para casa, transar com ela, pois era natural, depois dessa separação, afinal, ela o procurara, aceitara sair numa sexta à noite. Mas aí ela tomou dois copos de vinho e apagou. A mulher do outro lado, pois agora ele já tinha dito o nome da interlocutora, deve ter querido saber o que ele queria dizer com "apagou" e ele repetia, "apagou, apagou, passou a falar coisas desconexas, os olhos ficaram vidrados, apagou!" Mas ele não se conformou. Propôs saírem outra vez e a amada aceitou, mas no dia D disse que não tinha com quem deixar a filha. Mas o apaixonado reclamava: "Como é que ela aceitou sair e não fez planos para deixar a filha com alguém? Ela aceitou, e no dia quis desconversar, quis arrumar uma desculpa…"
Eu estava completamente fisgada pela história. O homem já era bem maduro, mais de sessenta, ele aparentava, mas se conservava, os cabelos estavam todos lá numa farta cabeleira grisalha, as mãos eram bem tratadas. Não vi seu rosto todo, só o perfil. Fiquei pensando que a mulher tinha que ser bem mais nova, para ter uma filha que precisasse deixar com alguém. Será? Mas aí ele disse que ela, naquela idade, não ia arrumar mais ninguém. Ou melhor, ia, sim, mas um tipo de gigolô que lhe tirasse o pouco que ela ainda tinha. 
Ele continuou falando e reclamando, querendo aquela mulher de volta. Estava claro que ele dizia tudo aquilo para que a amiga fosse intermediar, fazer as pazes dos dois. Mas eu sabia que não ia dar mais. Que mesmo que ela fosse para a cama com ele, ia ser só por cansaço, por desalento. Não era ele quem acendia suas pupilas, pelo contrário, ele as apagava. E, na verdade, quem é que ia querer um homem que ficava assim no celular, contando tudo o que se passara entre eles, deixando que uma bisbilhoteira ficasse acompanhando a história feito novela? Paguei minha conta e vim para casa, escrever. Ele continuou, se queixando, insistindo. Eu aposto que a amiga, do outro lado do celular, já estava quase apagando!

Monday, May 25, 2009

Twitting

Cara, entrei no twitter! Não aguentava mais saber que todo o mundo andava brincando com uma coisinha nova, menos eu.  Consegui entrar, consegui colocar uma foto e já tenho até seguidores. UAU! Agora, a pergunta que não quer calar: será que vou brincar muito com isso? Até que tenho dado as caras no facebook, mas essas coisas tomam muito tempo da gente. Tempo que me falta para ler e escrever e ir ao teatro e ao cinema, essas coisinhas básicas. Bem, fui ao cinema, ver Desejo e perigo. Bom filme, com uma história tão bem urdida que a gente não se desliga dela nem mesmo nas tórridas cenas de sexo. (Comentário que ouvi de uma amiga: "A Fulana disse que tinha posições que ela não conhecia… acho que ela está pensando que faz sexo, mas faz é outra coisa!")
Fui ao teatro assistir a peça da Susana Fuentes, que ela escreveu e ela mesma representa. Fiquei impressionada! Bem montada, com um texto poético e engraçado, e recursos teatrais explorados com muita elegância. Fiquei amiga do sumido Ramón, da vaidosa Rodinha e do Balão das lembranças. Me encantou a música tocada no acordeão, com seus gemidos que soam tão franceses, românticos. E ela também toca flauta, improvisa uma banda de circo com a platéia, envolve a todos com a magia do palco. Foi uma ótima noite. Prelúdios, chama-se a peça, e ontem foi o último dia, mas vamos torcer para ela ir para outro local, encantar mais gente!
Também li o livro do Leandro Resende, finalmente! Estava comigo há meses, mas entre viagens e trabalhos atrasados, ia adiando, certa de que ele compreenderia a demora. Agora li, e adorei. Meu companheiro de Histórias Possíveis, alguns dos contos eu já conhecia de lá. Mas os que ainda não tinha lido me surpreenderam com suas inovações, o caráter telegráfico de textos que vão sendo lançados de um lado a outro, construindo um painel que os ultrapassa, tudo muito legal. Estou muito contente por ele. Adoro meus amigos!
Para terminar, um poema de Chico Buarque de Hollanda, Soneto. É uma letra de música, mas vale sozinha, assim, e espero que inspire a semana de todos.

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio

Saturday, May 23, 2009

Aviso aos navegantes

Gente, recebi uma coisa incrível da Gerusa, amiga de Pernambuco (Ah, Recife, cidade dos meus amores…) e coloco aqui o link para vocês poderem imaginar;
Trata-se do I leilão de manuscritos. Quem dá mais? Eu dava tudo para poder estar lá assistindo. Infelizmente, não tenho manuscritos. Não escrevo a mão. Meus originais estão nos arquivos de GZK (sabe a brincadeira do Kubrik? HAL era o nome do computador revoltado, que tinha sido batizado com as letras anteriores a I-B-M, daí que, supondo que o alfabeto forme uma roda contínua, o meu computador imaginário se chama GZK, letras anteriores a H-A-L). Voltando aos manuscritos – lindos, pessoais, verdadeiros quadros – acho que devia copiar meus livros a mão, em folhas soltas, de boa qualidade, e depois… não sei, talvez forrar as paredes com elas. Isso é um projeto para depois, um dia que me sobre tempo. Ou que me falte inspiração. Por enquanto corro atrás das tarefas, que abandono de vez em quando para escrever historinhas novas. Daí que na quarta-feira, dia 27 de maio, o blog do Prosa vai postar (acho que não cabe publicar, mas talvez caiba) um conto meu: Lorelei. Escrevi especialmente para o Prosa, me sentindo muito feliz e completamente "prosa" pela chance de participar do espaço.
Aqui vai o link, para vocês já colocarem nos favoritos e irem sempre até lá:

Thursday, May 21, 2009

Vãos pensamentos, dores igualmente vãs

http://www.youtube.com/watch?v=XwrDPucMO4k

Quem clicou já pode ver o meu estado de ânimo nesta manhã de maio. Creio que estou ficando cliclotímica ( não é esse o novo nome para bi-polar?) Um dia, eufórica ( bem, nem tanto) com as notícias da brasiliana, outro deprimida e desanimada.  Bem, mas hoje é meu dia de UFF, preciso funcionar, daí que vou à luta.

Wednesday, May 20, 2009

Brasiliana, José Mindlin e Zezinho

Não sei do que falar primeiro: Dr. Mindlin e  sua incrível simpatia e paixão compartilhada? A Brasiliana, orgulho de nosso país, apresentada ao mundo todo? Ou o Zezinho, esse incrível robot, criado para ler livros e compartilhá-los? Acho que fico com o Zezinho, que eu aperfeiçoaria e já o conectaria com um chip na minha cabeça, e me alimentaria, incessantemente, com páginas de histórias e Histórias, de sabedoria e diversão.  Quero o Zezinho! Mas, será que o prazer da leitura poderia ser substituído pelos implantes de chips? O processo de decodificação dos textos não seria a fonte de todo o prazer de ler? O que nos atrai na leitura, o ato de ler ou o conhecimento da história? Acho que é da combinação das duas coisas que nasce esse prazer (como, talvez, todos os prazeres – estímulo e estimulado). Daí que meu pensamento-borboleta já se dirige a outra flor colhida no jornal da manhã: o movimento dos sem-namorados. Combino-o com a entrevista que assisti, outro dia, a uma médica que se dedicou a estudar o cérebro dos apaixonados, e traduz paixão em dopamina, serotonina e outros "inas". Ela escaneia cérebros de pessoas apaixonadas e tira suas conclusões a partir das partes dos cérebros que se iluminam. Fico pensando (estou muito cibernética, hoje) num novo cartão para o dia dos namorados, onde apareça o catscan do remetente e as palavras: meu cérebro se ilumina quando te vê, ou quando pensa em você ( a versão visual é para os remetentes do sexo masculino, a outra é para os remetentes do sexo feminino, pois, no estudo, a Dra. descobriu que as mulheres amam através da memória, e os homens através da visão). O mais incrível de tudo é que ela gosta de poesia, essa doutora, diz ser uma apaixonada leitora de poesia. Voltamos, assim, ao Dr. Mindlin, que, enquanto sua esposa foi viva  e ele ainda enxergou, todas as noites lia poesia para ela. Na sua simplicidade, ele dizia: ela gostava de escutar poesia, e eu de ler poesia em voz alta, era um casamento perfeito. Ah, Dr. Mindlin, o senhor nem pode imaginar como o meu cérebro se ilumina ao falar do senhor. Pois não deve ser só a paixão que provoca belas cores em nosso catscan, mas a amizade e a admiração também devem ter as suas luzes especiais. Gosto do senhor e da sua família, adoro um dos livros da sua filha Betti, Muqueca de maridos, imperdível recompilação dos mitos de origem do ponto de vista feminino (a Betti é antropóloga). E deixo aqui, para meu publiquinho pequeno, mas fiel, e que tem se ampliado com a adesão do David e de outros recém-chegados cujos nomes ainda não decorei, mas que são muito benvindos, o agradecimento pela Brasiliana.

Sunday, May 17, 2009

Domingos de sol

Adoro essas manhãs preguiçosas de domingo, quando o sol nos convida a um passeio, mas o corpo, preguiçosamente, se recusa a sair. Ficamos, então, passeando apenas em pensamento, o olhar comprido mergulhado no azul, nos azuis que competem em beleza entre si. Meus leitores devem ter percebido o quanto me agrada a cor azul. Agrada tanto que não titubeio em pintar de azul os olhos de meus personagens. Volta e meia aparece um de olhos azuis, o que não significa que a cor imaginada seja mesmo azul. É o espírito de alguns olhos que são azuis. Meu amor tinha olhos azuis, embora os dele fossem castanhos, escuros. Mas ele tinha essa qualidade de olhar, olhos que, ao olharmos dentro deles, nos mostram surpresas, abismos, liberdade e sonho. São olhos que nos convidam a aventuras, ao mundo. Não hesitamos em aparelhar nossas naus e partir. Ou, mais impacientes, largamos tudo e mergulhamos, em ondas que nos sustentam e nos trazem, sãos e salvos, para a praia.
Passeio no barco que tivemos juntos e ancoro, mais uma vez, entre as Cagarras. De lá julgo me ver aqui nesta torre, prisioneira, desejando quem já partiu. Vejo-me a me contemplar, e me pergunto se algum dia alguma lágrima desceu pelas minhas faces salgadas, apiedada. Mas sei que não. Ao lado dele, julgava que o que via era uma miragem, impossível de acontecer. Nas minhas faces apenas os seus lábios deixavam traços doces, desenhando um mapa de meus prazeres.
Imagino beijos, borboletas, pássaros e nuvens se desfazendo no azul. Sonho com o nada. Azul.

Friday, May 15, 2009

Frases que ando lendo - o retorno

"No 'homem cordial', a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência".
Todo mundo conhece o termo, mas acho que poucas pessoas leram o excelente Raízes do Brasil, do pai do filho famoso, Chico. É engraçado ver como gerações diferentes identificam as pessoas de maneiras diferentes. Tenho amigas mais velhas que falam daquele menino, o filho do Sérgio, ou, até mesmo, o filho da Maria Amélia. Para consumo atual, temos que falar no cara que é pai do Chico Buarque. 
O Sérgio ( e aqui se manifesta minha cordialidade, afastando o nome de família) não é o pai do termo, cunhado por Ribeiro Couto. Mas é o pai do homem menos cordial da história do Brasil: seu filho preserva sua intimidade, é polido, civilizado como um japonês, pouco expansivo nos seus atos - embora seja dos mais expansivos nas suas obras. Somente as palavras do Chico são cordiais, e nos aproximam de seu coração dele. (Essa construção meio arrevezada, tirei do José de Alencar, não é erro, não.) De uma certa maneira, também é pai do "My man cordial", já que foi um dos fundadores do PT, e o PT floresceu em Lula, personificação mais perfeita do homem cordial tal como explicado por Buarque de Holanda. Essa sacação da cordialidade do Lula não é minha, é de Lívia Reis, minha orientadora e amiga de toda a vida.
Voltando às amigas mais velhas, uma delas contou um comentário de D. Maria Amélia (que já vai chegando aos 100) sobre o filho: "Ainda bem que ele não entrou em decadência." O que será que ela quis dizer com isso? Eu agora vou me labirintar com Borges, lá no TELEZOOM. Bye!

Wednesday, May 13, 2009

Fotos no facebook

Oi, Turma.
Consegui. Postei algumas fotos no Facebook. Vou ver se consigo postar outras. E depois vou ver se descubro como vocês podem ir até esse tal de Facebook, se é que vocês ainda não sabem.

Frases que li hoje

Hoje estava lendo A Prisioneira, de Proust, e ele descreve Albertine como um ser em fuga, uma amante que lhe escapa entre os dedos e que por isso mesmo ainda se torna mais desejável. Aí está o cerne do amor e do ciúme em Proust: a incapacidade de se possuir o que se deseja, pois só se pode desejar aquilo que não se possui. Os amores serão sempre infelizes, em Proust, e desencontrados. Uma gangorra amorosa, pois quando um deseja o outro se escapa, e quando o outro deseja, o um já não o pode amar…
Outra descrição digna de nota são os "olhos fragmentados". Fiquei lembrando de Machado. Num, o perigo, noutro, a desconstrução, quase pós-moderna. Olhos fragmentados: uma escolha vocabular tão inesperada, que nos obriga a pensar que, afinal, Picasso já estava pintando e fazendo sucesso nesta época. Quando foi que o mundo passou a ser visto como um caleidoscópio? O impressionismo, o fauvismo, o cinemascópio, tudo isso revelava uma nova maneira de olhar, que nos afastaria cada vez mais da UNIDADE. Um mundo que se desfaz, visto por olhos fragmentados. Impossível harmonia, como diria Alejo Carpentier, anos mais tarde, em seu Concerto Barroco.
Bem, depois de amanhã tem mais um encontro no Telezoom. Mais labirintos, desta vez, espero, com o powerpoint funcionando direitinho. Meus slides estão bem bonitos. Os contos que escolhi para comentar são excelentes. Tomara que tudo dê certo.
 Agora vou a Mariátegui, a Sérgio Buarque de Holanda, a Nélida Piñon. Mistura de UFF e Rascunho que vai ampliando a fragmentação de meu olhar.Pois, foi com Mário de Andrade que aprendi que é preciso ser trezentos, ser trezentos e cinquenta.

Tuesday, May 12, 2009

Beleza pura

Tanto trabalho, tantas leituras, mas não resisto: não tenho tempo para escrever, mas coloco aqui um mimo, como diriam Marco Polo, Breno, José Manoel e meus amigos de Recife:
O que eu queria mesmo era já colocar o vídeo, para vocês já irem se deliciando, mas vale o link, que é a única coisa que sei postar.
Deleitem-se. Escutem em pensem  nos amores de suas vidas. E ofereçam para quem merecer. Eu ofereço a vocês, meus leitores, com emoção.

Saturday, May 09, 2009

Facebook, dia das mães, idéias desconexas

No meu proverbial desajuste internético e computadorial, vou levando uma vidinha não de todo desconectada. Capenga e surpreendente, decerto, mas muito melhor do que a alternativa:
Escrever à mão, por exemplo, para mim é uma dificuldade: minha letra pequena (mínima, dizem alguns) e pouco caprichada se torna ininteligível até mesmo para mim. E tenho a mania de só escrever com lapiseira 0,5 mm, com mão leve, delicada, sem deixar marca no papel (me corrigiram muito para que isso acontecesse). Resultado: o pouco que consigo ler, em breve torna-se apagado e desaparece.
Escrever à máquina também não me serve. Meus dedos fracotinhos, que nunca conseguiram aprender a arte da datilografia, se intrometem entre as teclas e se ferem. Houve um tempo em que eu ostentava band-aid em quase todos os dedos da mão direita ( o polegar escapava) e no indicador e dedo médio da mão esquerda. 
Tenho um caso de amor com computadores, mas é um amor mal-correspondido. Eu o amo, tento seduzir, ofereço o que tenho de melhor, mas ele me maltrata, indiferente aos meus carinhos. No entanto, malandro, me dá sempre o suficiente para que eu não abra mão de nosso caso.
De vez em quando troco de "amante", mas eles todos são da mesma laia. Esse agora, um Apple, tem a vantagem de ser lindo. Artístico! Me dá vontade de experimentar com um monte de coisas para as quais não tenho tempo (nem talento, diga-se de passagem). Ele brinca comigo, oferece coisas que não pedi, mas que são fáceis de usar, então acabo indo na dele. Mas, na hora do trabalho, ele às vezes, me prega uns sustos, mudando de tela, num jogo de esconde-esconde. Como estou falando de Borges em seus labirintos, penso que também estou num labirinto e que ajo como uma Ariadne louca, sem amarras, mas também sem Minotauro que me apavore. Me deixo encurralar em alguns becos, mas depois, com calma, encontro o caminho a seguir…
Bem, quero comunicar a todos que entrei para o Facebook. E para o Plaxo. Legal? Não faço a menor idéia. Durante anos tive (acho que ainda tenho) um Orkut, mas não sei o que fazer com ele. Linkei o Plaxo e o Facebook. Para quê? Também não sei. Tinha essa opção, e achei que seria legal. Deixo o Facebook vigiando o Plaxo e vice-versa. Meus amigos devem achar que vou usar isso à beça. Bem que eu gostaria.
Num dos dois, já esqueci qual, aparece meu estado civil. Não havia a opção viúva, daí que apareço como solteira, com um coraçãozinho vermelho vibrante do lado. Se houvesse a opção viúva, será que apareceria um coração partido? 
Voltando ao Facebook, parece que todo o mundo se comunica por ele e pelo tal do twitter, que desconheço. Acho que estou lascada. Mandam fotos, informações, trocam juras de amor, enviam documentos, e eu mal consigo manipular meu imeio. Como é que vai ser? Onde vou arranjar tempo para ler tanta coisa, escrever, publicar, encontrar URLs, fazer uploads, inserir filmes, etc, etc? Aprendo uma coisa e já me soterram com novas necessidades.
O pior é que as necessidades do passado não desaparecem. Daí que não vou poder celebrar o dia das mães pela internet. Vamos celebrar ao vivo e a cores, em duas reuniões, sábado e domingo. Em compensação, já coloquei todas as fotos no computador, graças a um "chupa-cabra" que descobri e adquiri, feliz por não precisar mais do meu filho para isso. Gosto de autonomia. Agora só preciso descobrir como colocar as fotos do Pantanal e da Chapada no Facebook. Aí terei colocado, finalmente, meu pé no século XXI!
Para terminar, coloquei minha foto, tanto no Facebook quanto no Plaxo. Numa estou me escondendo atrás de meu livro emblemático. Noutro estou sendo atacada pela natureza em fúria, personificada pelo Chico, uma macaquinho safado, que queria roubar meus óculos de leitura. E roubou! Tive que fazer mil acrobacias e trapaças para conseguir de volta os meus olhos.
Bem, se algum de meus leitores souber como utilizar essas duas maravilhas internéticas e quiser me ensinar (sem muitas complicações) para que servem, agradeço.
Feliz dia das mães, para quem o for, para quem as tiver, para quem não está nem aí, mas quiser curtir um belo domingo.

Friday, May 08, 2009

Dendrolatria


Tinha uma lista de coisas sobre as quais queria escrever, mas o tempo não estica e eu, indo de um lado para o outro no espaço, só me desloco num único sentido no tempo (isso foi tema de minha aula hoje no Espaço Telezoom: Labririntos de Borges).  Como o tempo não estica e se desloca num único vetor e eu estava no carro ou pelas calçadas do Leblon, não anotei as coisas e acabei me esquecendo delas. Uma, porém, consegui gravar, pois munida do celular e de meu inepto talento para as fotos, registrei em imagem que agora compartilho com vocês, queridos e desconhecidos leitores: 
Ao parar para atravessar uma rua en

contrei uma árvore florida, bela em sua singela oferta de cores e vida a uma rua do Leblon.
Quem saberá me esclarecer dos mistérios da internet?
Estou desde ontem tentando postar esta foto, e agora que consigo, tudo muda.
Estou escrevendo da direita para a esquerda, as letras saem numa cor que não escolhi, acho melhor parar e continuar em outro post.
Bye.

Thursday, May 07, 2009

Lady Frankenstein

Vejo uma imagem e as idéias me assaltam. Estamos presenciando a criação de Mary Shelley nos vídeos do mundo afora. Costurar, colar, unir pedaços de gente que já se foi, e pedaços de gente que por aqui ainda anda. E essas colchas de retalhos falam, nos emocionam, nos assustam e nos empolgam. Mary, será que ao lermos tua história hoje em dia ainda nos assustaremos? Ainda sentiremos algum arrepio na nuca? 
Penso numa época em que a esfera era sinônimo da perfeição. Como tal, era sagrada. Falar do círculo ou da esfera era falar de Deus. Com o tempo, o divino foi perdendo sua substância, até que Aristófanes, o engraçadinho grego, fez piada com isso, cortou-os ao meio, combinou-os por gêneros, explicou amor e homossexualidade com essas imperfeições marcadas pela sua cicatriz.
Agora explicamos a vida toda através da cicatriz. O monstruoso torna-se assombroso, e nem mesmo isso: engenhoso, apenas. Olhamos por alguns segundos, e já pensamos em outras coisas, em enchentes, em secas, em aviões que caem, em países que desmoronam. Nem lembramos do nome do criador nem da criatura. Mary, acho que já ninguém compreenderá o susto que tua história gerou. Hoje tua criação é pasto para possiveis engraçadinhos pós-modernos. Mas a pós-modernidade não sabe rir de si mesma. Leva-se muito a sério, sem sonhos nem delírios. Exibe a realidade e a fragmenta, como criança entediada que após construir a torre de Lego a desfaz, procurando uma nova distração. Em algum lugar de minha lembrança, tão fugaz, grava-se a lembrança desta Lady Frankenstein. Dizem que ela sorri, testemunham sua fala e seu júbilo. Eu não vi nada disso. Vi a cicatriz. Olhei os olhos de um ser solitário, criado pela mão humana, após ter sido destruído por mão desumana. Vi uma solidão. Que se multiplica em outros assombros, em mais antigas engenhosidades. Pergunto-me: para quem Mary Shelley contaria sua história nos dias de hoje?

Tuesday, May 05, 2009

Paris e a plástica

Pronto! E essa agora? Acabo de saber que estão pensando em mudar a cara de Paris… Fiquei sem saber o que pensar, e então resolvi filosofar sobre cirurgia plástica. Conheço dois tipos de mulheres muito bonitas: aquelas que estão sempre pensando em melhorar um pouquinho, submetendo-se a todo tipo de cirurgia e tratamento, e outras que dizem que não suportam a idéia de deixar que alguém corte e costure seus rostos. Achei que Paris era deste último tipo, daquelas madames que juram que não fizeram plástica mas que, nas encolhas, deram uma suspendidinha aqui, uma esticadinha ali, tudo muito discreto, com elas cheias de medo de que alguma coisa não dê certo, mas sem resisitir a tentar manter sua beleza. Agora vejo que Madame quer se submeter a uma cirurgia radical, a famosa cirurgia macacão, da qual não escapa nada.  Uma reurbanização. Isso porque, na meia idade, bem, ali pelo século XIX, Madame, na época casada com Napoleão III, não resistiu e contratou o famoso cirurgião urbano, Barão de Haussmann, para lhe fazer uma plástica radical. Suas irmãs, pelo mundo afora, seguiram seu exemplo. Aqui no Rio, o cirurgião contratado foi o Pereira Passos. Confesso, tanto Paris quanto o Rio ficaram lindas, mas Paris conservou o trabalho de seu cirurgião, enquanto o Rio danou-se de fazer modernizações e a bela Avenida Central desapareceu. Hoje, a Rio Branco, praticamente não tem mais nenhum dos prédios do início deste século. Sobrados pelas redondezas caem ou se incendeiam, ou são dilapidados pelo descuido de seus proprietários. Quando a gente vê esforços como os do pessoal da Rua do Lavradio, até se admira. 
Semana passada fui a um prazeroso encontro na R. Sá Ferreira, na Casa Vuillot (acho que é este o nome), uma casa construída por Virzi, o mesmo arquiteto da Mansão Martinelli. Confesso que, embora tenha sido moradora do posto 6 por muitos anos, não conhecia a casa, nunca tinha notado aquela construção esdrúxula, que se projeta em ângulo, como uma ponta de seta agressiva. Hoje, graças à Prefeitura, a casa foi toda reformada e virou uma biblioteca. Somente ao entrar reconheci o encanto que a construção possui. Misteriosa, submarina, com cantos e recantos em ângulos agudos ou retos, mas nem porisso menos evocadora de um útero (um útero projetado por um engenheiro, pode ser), oferecendo a possibilidade de vida, de um renascimento, que agora se concretiza ao ser transformada em biblioteca. Foi um presente que minha querida Rachel nos ofertou, mais um tesouro escondido dos muitos que ela possui, e que divide, generosa, com seu grupo.
E, no entanto, apesar de meu aparente saudosismo, também gosto de apreciar as novas construções. Toda semana, quando vou a Niterói, me maravilho com o perfil dos prédios no centro da cidade. Passando pela Perimetral (pois assim visito todas as belezas da orla), sempre me encanto com o contraste entre o moderno e o antigo, no reflexo do prédio antigo nos espelhos do arranha céu a seu lado. Olho para o mosteiro, escondido ali sobre seu pequeno monte, e imagino o que não pensam aquelas paredes que viram a cidade crescer. Parece um avozinho, maravilhado com netos altos e fortes, que já nem falam mais a mesma língua…
Não quero me estender muito mais, porém recordo um tempo em que a enseada de Botafogo e o próprio Aterro eram circundados por cartazes luminosos, que amenizavam os longos engarrafamentos dentro de ônibus calorentos. Eu lia e relia as manchetes de um jornal luminoso, precursor da internet, informando-nos das últimas novidades, exasperando-nos com a temperatura, e mostrando, implacável, a passagem do tempo. Ou me distraía olhando o balé das cores das lâmpadas que se acendiam e apagavam, ora azuis, ora vermelhas, ou verdes, ou brancas, ou amarelas, nos cartazes de tantas empresas desaparecidas.
Mas chega de saudade. Deixo de lado a lenda do palacete Martinelli, já abandonado, quando eu passava por ali. E outras memórias, mais modestas, dos mosaicos das calçadas, dos vendedores de cataventos coloridos, dos parques com fontes em que se podia matar a sede... Fico aqui no meu Leblon, que já foi só de casas, no alto de minha torre, olhando minha nesguinha de mar. Hoje água e céus estão prateados, tão diferentes do colorido de ontem que até posso acreditar em gênios que, durante a noite, transportam cidades inteiras para lugares bem distantes. Estou, talvez, às margens do Sena, na nova Paris…

Sunday, May 03, 2009

uma notícia triste

Leio no jornal sobre a morte do Boal, o criador do Teatro do Oprimido. Quantos sonhos morrem quando morre uma pessoa? Boal, creio eu, levou esperança e compreensão a tanta gente, aqui e pelo mundo. Iluminou um pouco a minha juventude, deu esperanças ao meu idealismo, `a minha vontade de fazer algo pelos nossos irmãos – só em nome, infelizmente.
Nos dias assim tão lindos a morte nos parece tão distante, que é difícil acreditar que haja gente morrendo. Principalmente Gente assim, com maiúscula, que tocou corações e mentes e que eu gostaria que nunca fosse esquecida.
Como diria Drummond, ele (e nesse pronome cabe tanta gente!) agora é apenas um retrato na parede. Mas como dói!

O tempo passou na janela...













Caraca, mano! Há quanto tempo não escrevo. Já estamos em maio, o mês mais cruel já passou (T.S. Eliot), chegamos ao mês das noivas, das mães, de Maria, e eu num silêncio beneditino, trabalhando em coisas de literatura, me preparando para as aulas da UFF que assisto sem passividade, e para as aulas que dou para meus grupos queridos.
Falei em tempo passando na janela e olhei para fora, para ver o dia lindo, espetacular, um verdadeiro dia de maio, com sua luminosidade especial. Mas, enquanto vejo coisas belas, penso nos e-mails com que meu amigo Márcio F. me presenteia todos os domingos: e-mails de arte, sempre com belas imagens e informações interessantes. Hoje, a propósito do dia, ele me mandou as gravuras que roubei para ilustrar minha postagem. Três de maio, chamam-se as pinturas acima. Um dia tão violento, que marcou a imaginação de três grandes pintores, mas que hoje se apresenta numa versão calma e suave, cheia de beleza e, me parece, aqui do alto de minha torre de concreto, de paz.
Estou sumida do mundo, mas não deixo de amar meus amigos, em silêncio. Neste post homenageio a todos os que não têm recebido uma palavrinha minha, mas que não saem de meu coração: Para umas, o caraca, mano, private joke. Para outros, as imagens, para mais algumas, o Eliot. Para o meu amor, a lembrança de outros dias de maio, cheios de menções a Baudelaire... Para meus leitores, meu coração, que bate sem esperanças, mas que não se cansa de contemplar o jardim!
Só para terminar, mais uma bela imagem de uma fotógrafa inepta, mas sortuda: