Saturday, June 07, 2008
Às vezes eu acerto...
Deixo o resto para vocês ruminarem. Volto aos meus pensadores, mas antes lembro aqui o nome de um livro: O voo (saudades do acento) da Guará Vermelha, falando de como a leitura liberta. Conheci a autora na Bienal do Livro, em 2007. Freira, trabalhando com pessoas destituídas no interior do Brasil sob a capa da clandestinidade, pois Maria Valéria Resende era perseguida política, ela se dedicou a alfabetizar pessoas e, segundo elas, libertá-las. Esta seria a verdadeira teologia da libertação, pelo que eu entendi. Gostei tanto das palavras dela, e, no entanto, não consegui ainda ler seu livro. Mas hei de lê-lo. Acho que o mano Dré já leu, e gostou. Eu gosto da imagem e das palavras da autora...
E agora, depois de uma última e furtiva olhadinha para o mar, pintadinho de ondas travessas, vou a Benjamin.
Friday, June 06, 2008
Seis e meia dúzia
Resolvo escrever para guardar aqui, e talvez ruminar depois, uma inquietação que plantaram em mim, via TV. Falando do Obama, e aqui aproveito para fazer uma digressão: que diferença faz uma letra! -- o repórter dizia que ele não demonstrava emoção com as grandes vitórias que vinha conseguindo. Um homem que não se emociona será um homem? -- pergunto eu. E o repórter continuava: ninguém sabe o que pode esperar com ele. Um candidato sem programa pode ser levado a sério? -- pergunto eu. Mas porque eu deveria me preocupar com as eleições americanas? Na verdade, não ligo muito, apesar de saber que o que acontece por lá nos afeta aqui. Mas me interessei por algumas razões, e aqui vai uma delas: minha xará me disse que não sabia por que, mas estava torcendo pelo Obama. Outra: essa indiferença olímpica que ele demonstra. Mais uma: o relançamento de O presidente negro, de Monteiro Lobato, livro em que ele fala da disputa entre um negro e uma branca para a presidência dos EUA.
Como disse, deixo aqui as inquietações para ruminar depois. Agora vou voltar para Bauman, para Benjamin, para a difícil tarefa de compreender o presente sem esquecer o passado.
Monday, June 02, 2008
vida líquida
Ontem o mar parecia congelado, uma faixa de gelo próxima ao horizonte, imobilizando ilhas e barcos. Hoje ele amanheceu líquido (e certo). Um navio se equilibra na linha do horizonte e as ilhas se aproximam, curiosas, arrastando suas mantas verdes para secar ao sol.
Meus olhos dançam nas águas enganadoramente calmas. Sei, marinheira que julgo ser, que as diferenças das cores se traduzem em correntezas. Desejo me deixar levar por uma dessas e é isso mesmo que faço, abandonando tarefas e me deixando arrastar pelos pensamentos, ora mergulhando nas ondas, ora embarcando nos navios. Convido. Querem vir comigo? Levantem os olhos, vejam o que está a seu redor. Tudo é tão fugaz. Agora mesmo acaba.
O navio que passava desapareceu de vista. Outro chegou. Mais longínquo, e, no entanto, no mesmo horizonte, agora também distanciado. Este também se vai, mas um outro volta, sustentando meus sonhos.
Boa semana para todos. O azul os acompanhe.
Sunday, June 01, 2008
Junho chegou!
Ontem estive conversando com uma amiga que falava de seus netos, descobrindo o amor: Ela sorria, deslumbrada: Como eles se apaixonam, como sofrem e se emocionam! admirava-se. Eu sorri, também, pensando que chega uma idade em que a gente já não é mais capaz de se apaixonar. Ou será que estou errada? Drummond tem aquele poema em que diz algo como "Na curva dos cinqüenta derrapei neste amor..." Fui conferir no google e vejo que me engano: várias são as confissões de quem, aos cinqüenta, cinquenta e poucos, sessenta, se descobrem amando de novo -- geralmente homens, geralmente apaixonados por alguém na inconseqüente curva dos vinte e poucos. Mas eu me pergunto, desapaixonadamente: será o mesmo clarão? Será a mesma sensação que avassala, nos toma de assalto, retira todas as reservas? Acho difícil, depois que nos ferimos, que adquirimos experiências e passamos por dores e desamores a entrega sem cautela, o mergulho no abismo. E todos os temores que nos assaltam, todos os receios -- como entregar esse corpo já cansado, do qual conhecemos os limites e as falhas, ao olhar e cuidado de pessoas que nunca chegaremos a conhecer bem? Por que aos cinqüenta a gente descobre que nunca se chega a conhecer o outro inteiramente, que passamos uma vida ao lado de desconhecidos íntimos.
Nem sei como embarquei nestas reflexões, talvez porque tenha passado a tarde escutando as angústias de uma jovem que não quer sair pensando se vai ou não beijar a boca de alguém. Sinceramente, nem sei -- e não tive coragem de perguntar -- se esse beijo era eufemismo ou não. Mas me admiro de pensar em pessoas que saem, não se perguntando se vão conhecer alguém interessante, mas em busca de um prazer imediato e perigoso, nestes tempos que não são do cólera, mas de outras pestes. Junto tudo com os dois dedos de filosofia que estou batalhando para aprender, e me ancoro em Baumann, no seu "amor líquido" -- imediatista, egocêntrico, de onde foi banida qualquer possibilidade de compromisso. Descubro, impressionada, que estou antenada com esses tempos pós-modernos, ou líquidos, ou até mais etéreos, tempos em que tudo se desmancha no ar, como fumaça, até a comida que comemos.
Meus dias se desfazem na indefinição de minhas memórias. Não guardo lembranças, pois não quero tê-las mais. Vivo assim, gota a gota, e, mais adiante ainda que esta geração, nem procuro o prazer, que sei fugaz. Só desejo o atordoamento, o vórtice.
Tuesday, May 27, 2008
Prazeres permitidos
Wednesday, May 21, 2008
Duas ou três coisas que não sei deles
Ou as histórias reais que a Eugênia conta e que me maravilham mais do que as novelas de cavalaria maravilhavam ao Quixote! Meu Deus, que vida de sonhos! Quantas aventuras, quantas paixões, quantas confusões! Obrigada, amigos. Aos meus leitores silentes também agradeço. Sei que, volta e meia, M.H, B.G.,R.S.,A.A., aparecem para ler o que publico por aqui. Bem, sei disso não porque tenha alguma armadilha tecnológica escondida, mas porque eles me contam. Eu, incapaz que sou até de fazer pesquisas direito na internet, nunca teria a capacidade de colocar contadores e espiões em meu blog. Podem ficar tranqüilos -- estou aproveitando para me despedir dos tremas, que eu tanto apreciava -- e continuar vindo me visitar sem medo. Eu agradeço e me comovo com seu carinho.
Tuesday, May 20, 2008
Biscoito de coco
Por conta desta reforma ortográfica (com acento? sem acento?) deixei de ter companhia para o almoço hoje. Minha editora tem que reprogramar toda a produção, além de preparar-se para concorrer com editais, sempre apressados. Mas, enquanto a bela Ana Paula sofre, a igualmente bela Isa Pessoa se diverte, almoçando com o Lázaro Ramos. E eu nem sabia que ele era escritor! Aconteceu que, tendo desmarcado o almoço, resolvi me consolar na livraria aqui perto, e lá estavam eles conversando. Tentei não prestar atenção na conversa dos outros, menina bem-educada que sou, mas o Lázaro tem aquela voz de ator que se propaga e vai invadindo a mente dos outros, principalmente a de quem se esforça para ler Benjamin falando sobre Kafka. Aproveitei a primeira distração e embarquei na história que ele contava, sobre uma vila chamada Pati (acho eu) onde os pais dele nasceram. Fiquei sabendo que só se chega lá de canoa, e que as pessoas dependem da boa vontade dos habitantes, pois as canoas não são um serviço público. Se ninguém está a fim de desamarrar sua embarcação e fazer a travessia, a alternativa é nadar. Apesar das dificuldades, o prefeito está construindo um cinema, com um quartinho para hospedar algum escritor que se disponha a ir até lá para dar uma palestra. Como não sei nadar, estava pensando em pegar uma bóia e ir me oferecer para ocupar a acomodação quando a terceira pessoa no grupo, que não sei quem é, perguntou, horrorizada, se não era perigoso, se não havia piranhas na água. Pacientíssimo, ele explicou que só havia caranguejos. E eu fiquei calada, pensando que o caranguejo podia dar uma pinçada na minha possível bóia e eu ficaria na mão. Melhor continuar na segurança de minha cadeirinha, escutando o resto da história. Descobri , então, o que qualquer leitor de revistas Amiga e Caras já deve saber: que o Lázaro escreve contos e que dirige filmes. E ele, generoso e descuidado, contou a história do conto que está filmando. Não precisei enviar meu sorriso de aprovação já que a primeira e a terceira Pessoa fartamente gabaram a história, imaginaram a posição do texto no livro, decidiram todos os detalhes relevantes. Mas o que eu gostei mesmo de saber, e faço questão de contar para todos, foi a iniciativa que este ator, brilhante que é, tomou, e que só eu, que não leio Caras nem Amiga, ainda não sabia: Ele tem um projeto de criar bibliotecas em áreas carentes. Usa o cachê de alguns trabalhos para isso -- comprar livros e estantes e pagar uma graninha para a prima catalogar e organizar os volumes. Parabéns Lázaro Ramos. Muito legal, isso. Desculpe ter ficado escutando sua conversa, mas foi impossível não ouvir. E prometo que não conto para ninguém a história da velhinha que decide voltar à cidade natal. Pelo contrário, não conto e ainda recomendo que comprem o livro do Lázaro, que vai sair pela Objetiva. E que assistam o filme, é claro!
Sunday, May 18, 2008
Beatles forever
Bem, ontem à noite fui à casa de uma amiga, para comemorar o aniversário do marido dela, e quem acabou ganhando presente fui eu: Uma exibição de um filme absolutamente delicioso: Across the Universe. O roteiro foi escrito a partir de músicas dos Beatles e a diretora, que era set designer (cenógrafa?) antes de ser diretora, caprichou nas imagens maravilhosas. Tudo é lindo no filme, e a historinha, uma crônica dos anos 60, é contada de maneira eficiente e lírica. Não guardei o nome dela e como a sessão terminou muito tarde, não quis ficar atrás perguntando e anotando. Depois descubro e conto para vocês. E saí de lá com a impressão de que ela prefere o Paul, pois o inglesinho sugere uma versão anos 00 do Paul...
Foi o fecho ideal para um dia que começou com um outro tipo de presente: uma ida à Escola SESC de Ensino Médio, um oásis de esperança, um lugar que me fez acreditar que o Brasil ainda tem futuro, que vai dar certo apesar de todas as manchetes de jornal. O SESC me faz ter orgulho de ser brasileira, juro! Pessoas idealistas, compartilhando o lado bom dos seres humanos, ensinando que podemos, sim, ser comparáveis aos deuses. A Escola é um show, traz alunos de todo o Brasil para um convívio em excelentes instalações, com professores altamente gabaritados e motivados, e oferecem a eles, além de 5 refeições diárias (coisa que, adolescentes que são, eles parecem apreciar muito) lap tops, video clubes, biblioteca, teatro, música, ballet, um ginásio poli-esportivo de gabarito, estudo dirigido, e, ainda, diversão. É uma utopia posta em prática. Amei ir lá e poder participar, de alguma forma, para a grandeza deste projeto.
Hoje, então, tive que terminar um trabalho acadêmico e, para isso, precisava da informação sobre uma revista onde publiquei um artigo. Como não acho nada do que guardo, fui me procurar no Google. Oh, espanto! Apareceram 109.000 referências, quando digitei Lucia Bettencourt. Desanimei e fui procurar no Yahoo. O número diminuiu, mas, mesmo assim, era exorbitante, umas 67.000 entradas. Logo percebi que eu não estava com essa bola toda: Tenho uma homônima, cantora famosa, que divide comigo essas entradas, e tenho outras homônimas, não tão famosas como a cantora, que estão em diversas páginas açorianas. Bem, descobri o título do meu artigo (nem isso eu lembrava mais) e em que revista foi publicado, mas não consegui os dados bibliográficos. Vejo que, com todas essas mudanças de computador durante minha vida, perdi muitos arquivos de trabalhos passados, que, embora vivos em minha memória, aparecem sem título, sem referências, meras recordações... Acho que não vou poder cumprir minha promessa de mandar meu trabalho sobre Carolina Maria de Jesus para a professora Fernanda, que conheci lá no SESC. Mas, mesmo sem minha colaboração(totalmente dispensável, diga-se de passagem), sei que ela vai brilhar em suas aulas e tese.
Descobri também que a propaganda do prêmio SESC que foi publicada na Veja e no Rascunho, aparece num site chamado Propaganda da Vez. Fui lá, para descobrir porque era da vez, mas não havia nenhum comentário.
E agora bye, bye, pois o dia está lindo e eu resolvi que vou aproveitar um pouco de toda essa beleza lendo na praia
Tuesday, May 13, 2008
Bate outra vez, com esperanças...
Friday, May 09, 2008
Mais coisas boas!
Ontem nasceu o Nicholas, filho de minha amiga Ronize, com 50 cm e 3,460. Um fofo simpático, sorridente, que quis chegar a tempo de dar beijinhos na mamãe, no dia delas.
E, por falar em Dia das Mães, este é o título de meu conto lá no Histórias Possíveis. Não pensem que é um conto bonzinho. Fala de mães más, já que elas estão em todos os jornais.
Mas voltemos às coisas boas: Outro amigo, o Dolino, me manda notícias de seu sucesso pelo mundo. Ele andou expondo seus quadros e recebeu grandes manchetes nos jornais da Costa Rica. Por onde ele passa, sempre faz sucesso, e eu fico feliz por ele.
Outro amigo mereceu, há pouco tempo, uma grande reportagem no ELA, do Globo. Trata-se de Daniel Lannes. Acho bom investirem nele agora, que está começando. Ele ganhou uma bolsa de estudos e vai para Los Angeles, mas os quadros dele estão na Marsiaj, aqui na Gávea.
Querem mais? então aqui vai um poema de Kaváfis
ÍTACA
Constantino Kavafis.
Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.
Constantino Kabvafis (1863-1933)
in: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz.
Acabo de descobrir que há um vídeo no U-Tube. Mas a gripe já está me vencendo, e, com o corpo doído, deixo a quem quiser a missão de ir lá assistir.
Thursday, May 08, 2008
Quantas coisas legais!
Meu amigo Aquino publicou no seu blog uma foto do ateliê do Bacon.
Vejam só a bagunça! Mas eu nem posso falar, pois também sou uma bagunceira incorrigível
Meu amigo André apareceu numa foto do globo on-line, numa reportagem sobre os Amores Expressos, dos quais ele participa. Vejam aqui.
Estou fazendo umas gracinhas, mas não sei se estes links vão dar certo. Tomara que vocês possam ir nestes destinos cibernéticos e que se deliciem. E, como o dia está lindo e eu quero dar um presente a todos os meus leitores, transcrevo aqui um poema, Tecendo a manhã. É um dos meus prediletos, e fala não só da manhã, mas da cultura, como um todo, e é isso que estamos fazendo aqui, entrecruzando nossos fios de luz, nossos encantamentos, ampliando nossas almas. E, com vocês, João Cabral:
Tecendo a manhã
1
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
(A Educação pela Pedra)
Monday, May 05, 2008
Manhã
Naquela manhã cinzenta o mundo não lhe parecia muito interessante. Sem sol, sem vento, sem chuva, o mundo estava como que embalado para mudança, todo algodões e papel de seda, aguardando o transporte.
É assim que ele começa. A mulher senta-se em frente a um computador numa manhã como essa e começa a devanear, pensando sobre o que é a vida, e, ao final, percebendo que a sua vida era aquela que se escrevia. Se algum dia alguém analisar minha obra, acho que vai classificá-lo como literatura "mulherzinha", que é a maneira meio pejorativa, meio afetuosa que algumas pessoas aqui se referem ao que pode ser chamado de literatura feminista. O quanto eu já lutei apaixonadamente pelo respeito à literatura feminista! Até desistir de assistir aulas de H. B., quando estava estudando lá em Yale, desisti, como protesto ao fato de ele ter dito, na sala de aula, que o feminismo não era grande coisa. Isso foi numa outra vida, e já não lembro exatamente das palavras que foram ditas. Só lembro mesmo do meu sentimento de indignação quanto ao que foi dito. Levantei-me e fui embora da sala de aula, como se ele estivesse perdendo alguma coisa com a minha partida. Pretensiosíssima....Ele falou alguma coisa a cerca de mudar o mundo -- literatura capaz de mudar o mundo... Então para terminar com uma homenagem a uma escritora que queria ser recebida sem preconceitos, Cecília Meireles, aqui vai de brinde o Romance LIII ou das Palavras Aéreas
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...
Detrás de grossas paredes,
de leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda,
sem peso de ação nem de hora...
- e estais no bico das penas,
e estais na tinta que as molha,
e estais nas mãos dos juizes,
e sois o ferro que arrocha,
e sois barco para o exílio,
e sois Moçambique e Angola!
Ai, palavras, ai, palavras,
íeis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,
entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto,
promessas que o mundo sopra...
Ai, palavras, ai, palavras,
mirai-vos: que sois, agora?
- Acusações, sentinelas,
bacamarte, algema, escolta;
- o olho ardente da perfídia,
a velar, na noite morta;
- a umidade dos presídios,
- a solidão pavorosa;
- duro ferro de perguntas,
com sangue em cada resposta;
- e a sentença que caminha,
- e a esperança que não volta,
- e o coração que vacila,
- e o castigo que galopa...
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Perdão podíeis ter sido!
- sois madeira que se corta,
- sois vinte degraus de escada,
- sois um pedaço de corda...
- sois povo pelas janelas,
cortejo, bandeiras, tropa...
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem...
Wednesday, April 30, 2008
Louis XIV
Sunday, April 27, 2008
Heróica!
Descubro que um dos inconvenientes de viver sozinha é que a gente não precisa arrumar a casa quando não tem vontade e que depois, quando tem, a desarrumação é maior que qualquer vontade...
Descubro que a gente se acostuma com a solidão e não se importa mais quando o telefone não toca...
Resisto, porém.
Volto aos livros espalhados por toda a parte, procuro realizar um pouco de trabalho e estruturar meu tempo.
Friday, April 25, 2008
Aprendiz de sereia
Friday, April 18, 2008
véspera de viagem
Deixo vocês aguardando notícias, pois não vou levar computador nem celular. Cinco dias desligada de tudo, com alguns livros para ler, e um conto para terminar. É um bom programa, não acham?
Então, até a volta. Vou fazer minha mala, pois até agora só separei os livros e o chapéu. Borbulhas para todos!
Wednesday, April 16, 2008
Conversa de táxi
--Paulo.
Ele logo quis saber se eu tinha certeza, pois já que era ele quem passava sempre por ali, tinha uma espécie de "superioridade", direitos de uso-capião quanto ao nome. E me explicava:
--É Mena Barreto e Paula Barreto.
Geralmente não insisto, afinal, as placas de rua têm uma espécie de vida própria, independente de seus homenageados. Mas, desta vez, decidi lutar pelo meu querido João do Rio, e afirmei minha certeza, e ainda o brindei com o pseudônimo e mais algumas informações adicionais. Vencido, ele capitulou:
--É...pode ser...
Chegamos. Na esquina, a placa não me desmentia, e eu, educadamente, não tripudei. Apenas sorri e separei o dinheiro. Paguei, dispensei o troco, e já fechava a porta quando ele disse:
-- Sã e salva, na Paula Barreto.
Dei de ombros, pensando que o Paulo talvez ficasse mais contente sendo Paula, e imaginando o que o João não escreveria sobre isso.
Saturday, April 12, 2008
Conversa de bar
Wednesday, April 09, 2008
Que atraso!
Ah, esqueci de avisar que Histórias Possíveis está de volta. Não deixem de conferir as nossas historinhas!
Sunday, April 06, 2008
Prêmio SESC
Quando o SESC nos pediu para fazer fotos para essa chamada, o meu "irmão em SESC", o André de Leones, fez uma contra-proposta: um calendário de nus, com o Cremasco na capa. Achei que os ares de Paranaguá e as saudades de casa haviam avariado para sempre os miolos do rapaz, mas, depois, no decorrer da semana, fui assistir a um filme, Irina Palm, que me fez perceber que há gosto para tudo. E, se os homens podem fazer fila para transar com um buraquinho na parede, é porque somos muito mais complexos do que penso.
Aliás, estou lendo muitas coisas ao mesmo tempo que estão me fazendo pensar e refletir muito sobre solidão e sexo, e leitura. Hoje li As avós, de Doris Lessing e Desonra, do Coetzee. Duas amigas que dormem com os filhos uma da outra (essa triangulação aponta para outra coisa, eu sei), mas uma das passagens que me tocou foi quando um dos filhos, na cama com essa mulher mais velha, se recusa a aceitar a pele flácida de seus braços e lhe diz que ela não pode envelhecer com ele. Em Desonra, o professor universitário, pai de uma lésbica, ao falar da amante com a filha sente a luxúria percorrendo seu corpo --- o problema é que ele está sentado na cama da filha, que acabou de ser estuprada por três homens violentos e bárbaros. --- Na verdade, não é só isso que provoca o leitor: é o fato de que ele compara o corpo da amante com o da filha, e que inúmeras vezes ele fala da carne jovem, do corpo de carnes duras, da sensação corporal que o levou a apreciar tanto seu interlúdio amoroso com a jovem estudante.
Vou ter que ruminar muito essas histórias, para entender o que é que as tornaram tão desagradáveis para mim. Acho Coetzee um autor totalmente desagradável -- uma pessoa inconveniente, que insiste em temas que a sociedade prefere silenciar. Até aí tudo bem, isso é instigante, chamar-nos a refletir sobre as facetas escondidas, colocar o holofote sobre as coisas reprimidas de nossas vidas. O problema é que ele não sugere soluções nem caminhos. Na verdade, ele bloqueia as estradas e as soluções que possamos encontrar, e zomba de nós. Nos desmascara e segue indiferente e amoral, iconoclasta.
Barrocamente eu diria que Coetzee é um autor que amo detestar...
Voltando à Doris Lessing, ela é uma chata, que escreve bem. Lá nos EUA ela tem um grande fã clube, mas aposto que os leitores dela nunca aceitarão os livros de Coetzee, e vice-versa. Porque ela não quer fazer ninguém pensar, ou melhor, ela quer que pensem que é muito liberal, mas ela só conta situações, não há nenhuma reflexão. Seus personagens são tão verdadeiros quanto "as garotas-propaganda" de cerveja, de sorrisos, de remédios para emagrecer. New age. A vida dos semi-deuses.
Fiquemos com o Quixote, amigos: ele zomba dos leitores, mas é ele quem chama a atenção de que a aventura da literatura está na leitura, mais do que na escrita.
Tuesday, April 01, 2008
mentiras e verdades
Outro dia disse a um amigo que ele não devia confiar em ninguém com mais de trinta anos (alguém lembra da música?) principalmente se for, como eu, ficcionista. Acho que ele me levou a sério, mesmo eu tendo dito que não confiasse ... ah, essa minha literatura!
Deixo vocês aqui com a dúvida: o que há de verdade no que digo? O que há de verdade no que escutamos? Em quem confiar num mundo sem certezas?
Estamos começando o Quixote, em meu grupo das segundas -- um grande prazer. Este livro que tem dado de beber a tantos leitores, que espanta ainda hoje pela inteligência de sua ambigüidade. Adoro essa armação para a narrativa, a desautoria, e o igualar leitura com loucura. Todo leitor é um Quixote, pois o cavaleiro da Triste Figura é, antes de mais nada, um leitor.
Termino com uma frase de Dostoievski:
"Em Dom Quixote a verdade é salva por uma mentira."
Faz pensar, né?
Sunday, March 30, 2008
outra semana
Este Lunedi dell'Angelo, imagino que fosse, na Itália, o dia de devolver as asinhas angelicais usadas nas procissões de Páscoa. Uma nova procissão pelas ruas, desta vez sem a ordenação e solenidade das procissões santas. Asas de todas as cores se misturando, parando para tomar um sorvete, se já houvesse sol bastante, ou um último chocolate quente antes da primavera começar a aquecer. E, por cima das asinhas, chapéus de palha, com laços e flores, estalando de novos.
Ângelo quer dizer mensageiro. Talvez seja outra a razão deste dia.Talvez os anjos do senhor, ainda estonteados com os acontecimentos do fim de semana anterior, se tenham organizado numa passeata, informando a todos os mortais que a última chance havia sido dada. Agora as coisas, se não tomassem jeito, já não seriam mais responsabilidade do andar de cima...
Devaneios. Devaneios. O trabalho se acumula e eu, apática, devaneio. Meu corpo se rebela, me sinto adoecer. Olho para a folhinha, e sei que depois de amanhã vou ter que mudar a página, mudar o mês. Não quero seguir em frente, mas o sol continua sua marcha, indiferente.
Procuro, no meio dos papéis, uma anotação que tinha feito sobre os zumbis -- descubro que esses mortos-vivos tinham um sentido utilitário: eram chamados de volta à vida para realizar tarefas que ninguém queria realizar, escravizados até após a morte. Perdi. Sobra a lembrança do que li, e a sensação de que..., enfim, acho que estou ficando gripada.
Monday, March 24, 2008
A vida não pára
É, mas isso acabou. Na Bíblia conta-se um único caso de sol parado: no antigo testamento, aquele Deus belicoso resolveu mandar o sol parar para que seu general pudesse ganhar a batalha (Foi Josué, o general?). Nem mesmo a morte de seu único filho mereceu outra parada do sol. Mas nós, humanos, inconformados com a morte, tentamos fazer esse milagre de todos os modos, criando mundos de palavras que nos eternizem ou eternizem algum momento de nossas vidas ou de nossas fantasias. Eu me deleito com as leituras de autores que são capazes, com seus versos ou suas frases, de recriar um mundo que já passou. Estamos terminando A cidade e as serras, de Eça de Queiroz. Meu grupo está adorando a leitura, curtindo os personagens, rindo muito com o humor um pouco grosseiro do Eça. Eu, que já li este romance tantas vezes, ainda me encanto, como da primeira vez. Só que agora saboreio as coisas com mais detalhes, encontro prazeres que não tinha descoberto antes. Uma das coisas que me tem agradado muito nesta leitura é revisitar o mundo de Proust com olhos que, sem dúvida, seriam mais próximos dos meus, se eu tivesse a chance de viver naquele tempo. Rio um riso duplo, pois leio ali nas páginas "tudo o que lá não está", para citar outro de meus portugueses adorados.
A semana recomeça. Tivemos a paixão e a páscoa, hoje banalizada, afogada em chocolate. Tivemos aniversários e mortes, mesmo na festa da ressurreição. Eu continuo acordando cedo, dormindo em frente a TV, caminhando de um cômodo a outro até pousar na frente do computador e dar um pouco de vazão a todos os devaneios -- gosto desse nome pois ele me lembra como os pensamentos são vãos.
Então, ao trabalho. O sol continua sua volta, enviando neutrinos que nos transpassem. Os cientistas um dia descobrirão a função desses neutrinos em nossas vidas, mas nada mudará. Talvez as modas. Talvez nossa imagem nos espelhos. Talvez a vida na Terra se acabe antes que esse conhecimento chegue. Mas o sol, indiferente, vai continuar seu caminho, e continuar se pondo, para o encanto de muitos, nas encostas dos Dois Irmãos.
Friday, March 21, 2008
Nomes de amigos
E agora volto ao trabalho e às obrigações, com todo um séquito de amigos relembrados e muito amados.
Wednesday, March 19, 2008
Dias santos
No Rascunho desse mês, saiu publicado um conto de minha amiga Eugênia. Está lá no site do jornal, na seção Dom Casmurro. Ela escreve sobre Hermíone, filha de Helena de Tróia. Leiam, leiam!
E Marcelo me avisa, no seu blog Pentimento, sobre a Copa de Literatura: uma disputa de livros tão díspares quanto Rakushisha e Lugares que não conheço e Filho eterno. Li os três, e acho que vocês também deviam lê-los.
Aproveitem o feriado e coloquem as leituras em dia. É o que vou tentar fazer.
Sunday, March 16, 2008
Esqueci...
Divago. Ia contar que comecei a ler o Coetzee, apesar de ter tantas outras obrigações mais urgentes. Quem me conhece sabe que sempre fui assim: caio facilmente em tentações, e depois me torturo com prazos e tarefas que nunca deixo de cumprir, pois fui criada pela mais exigente de todas as mulheres: minha avó "vitoriana". Deve ser algum gene do inglês que foi o seu avô. Um inglês engenheiro, que veio construir estradas de ferro -- ou seriam minas? -- e que engendrou uma única filha, que por sua vez engendrou minha avó. Minha vó, de pele tão branca que parecia biscuit, mas tão macia que parecia feita de algodão, e de espírito tão rijo que parecia de ferro! Contrario as psicologias e afirmo, com todas as letras, que meu super-ego não tem uma representação masculina: meu super-ego é uma avó zangada, de sobrolho fechado, que me impede de deixar de fazer o que tenho que fazer. E, como ela já se manifestou aqui nestas palavras, também tomou conta de minha vontade, então largo tudo para cumprir meus deveres. Quando ela cochilar, eu volto.
Friday, March 14, 2008
aulas
É que ontem foi a "primeira aula de literatura da aluna Lúcia de Andrade"... Voltei a estudar, lá vou eu de novo... vocês sabem, aquela música do Chico. Mas não me senti tola, pelo contrário. Me senti bem, onde gosto de estar, com pessoas que amam o mesmo que eu, sentindo como se, após uma longa viagem, estivesse de volta à terra natal. É bem verdade que já não lembro de tudo, que esqueci alguns detalhes: nomes de ruas, lugares interessantes, ou seja, autores e teorias que costumava visitar com freqüência e de quem, depois de tantos anos de separação, já mal distingo as feições. Mas não importa. Folheio esse álbum de velhos retratos e vou reconhecendo os "parentes", e recebo a notícia do nascimento de outros. Foi assim que me falaram de Coetzee, com tanto entusiasmo, que tenho que refrear meus impulsos de ir para a primeira livraria e mergulhar logo na leitura de seus romances. Sossego, então, volto para o piano, e depois, só então, livraria, pois o fim-de-semana se promete chuvoso, propício a leituras.
Rio, baixinho, pensando -- se fosse ensolarado, também seria propício à leitura: quantas vezes já falei de meu prazer em ir ler na praia? Em casa, com chuva; na praia, com sol; no café, em dias nublados; outra vez em casa, nas lembranças dos dias de neve...Ler é bom quando se está sozinha, ou ao lado da pessoa amada. Quando se está triste ou quando estamos felizes. Tranqüiliza-nos quando temos medo, e nos incentiva quando desanimamos. Ler é muito bom, mesmo. E escrever também...
Tuesday, March 11, 2008
Duas leituras
"Uma coisa é aquilo que eu faço como profissão, que é a biologia, que me ocupa nove, dez horas por dia, e outra coisa é aquilo que faço porque acontece quase como uma doença que me ocorre, que me assalta. Não quero manter essa relação integral com a escrita. Não quero ser um escritor. Não sou daqueles escritores que dizem que se deixar de escrever, deixa de respirar, de viver. O que é vital para mim é ter uma relação criativa com as coisas, com os outros e posso fazer isso com várias outras coisas além da literatura."
Oh, céus! Entendo, compreendo e aplaudo, ao mesmo tempo que me assusto, me revolto, me indigno. Um dos melhores escritores em língua portuguesa dizendo que não quer ser um escritor! Como? Eu sei, a palavra escritor aí adquire outra conotação, mais para ofício que para aptidão, mas com que indiferença ele afirma que pode estabelecer uma relação criativa com as coisas sem ser através da literatura... Pode não, Mia. Pois aí você vai se transformar na pereira que quer frutificar em laranja... Não é este o teu destino!
Por falar em talento, a outra leitura é do primeiro romance do Flávio Izhaki, De cabeça baixa. Rio de Janeiro: Guarda-chuva, 2008.
Já falei aqui no romance, no trailer em que o próprio Flávio aparece de cabeça baixa, mas agora transcrevo aqui uma frase, pois acabo de ler o romance e quero compartilhar as delícias do cuidado com o texto e as imagens.
"Andar por aquelas ruas era como abrir arquivos de lembranças no cérebro. Um banco de concreto, uma história; uma esquina, um assalto que vira quando criança; um poste, duas mãos entrelaçadas que precisaram se separar por segundos, a sua mão e a de Luana."
Elegante e sucinto, em duas pinceladas conta-se uma história e acendem-se as dores das lembranças. O livro é muito bem escrito, e ousa escrever-se e ler-se ao mesmo tempo, num virtuosismo implacavelmente irônico.
Dia 25 de março, lançamento na Argumento. Todo mundo lá!
Monday, March 10, 2008
Medo de voar
Medo de voar
Lúcia Bettencourt
A curva jogou-a de encontro à janela do ônibus e ela estremeceu, olhando para a rua lá embaixo. O viaduto nunca lhe parecera tão alto.
O motorista continuava acelerando, aos arrancos, o motor ganindo, os freios rangendo a cada pisadela que impedia que o veículo se precipitasse sobre outros, igualmente impacientes, também disputando os espaços com agressividade.
Foi com alívio que viu a parada chegar e saltou do ônibus com pressa, antes mesmo de seu destino. Ainda era cedo, tinha tempo, podia andar, sentindo-se presa ao solo, sem a ameaça dos abismos e da velocidade. Atravessou a praça, esquivando-se entre as pessoas que hesitavam entre apressar-se para os empregos ou usufruir por mais alguns momentos a luz do sol, o frescor da manhã.
Todos ali, em suas roupas simples, dirigiam-se a trabalhos em cubículos fechados, em salas mal ventiladas. Poucos eram os felizardos que se encaminhavam para escritórios refrigerados. A maioria era como ela, trabalhando em antigos sobrados adaptados em oficinas, em depósitos, em pensões baratas, que enchiam o ar com seus odores de comida frita em óleo requentado, ou com seus cheiros químicos de solda, de desinfetante, de produtos vencidos.
Deu uma última olhada na praça mal cuidada. Uma flor raquítica resistia bravamente à poeira e ao calor. Flores e borboletas eram seus desenhos prediletos. Na fábrica de bijuterias onde trabalhava, escolhia sempre as miçangas e as contas mais coloridas, combinando-as de acordo com as lembranças de seus livros infantis. Borboletas de asas abertas, com desenhos repetidos de um lado e de outro, como imagens no espelho. Flores com sua simetria simples, pétalas que se repetiam iguais, como seus dias.
Subindo a escada de madeira, os rangidos embalavam seus pensamentos. Um dia, ela havia prometido ao pai, um dia ela teria o seu próprio jardim. Um dia , as flores que ela mesma semeasse seriam tão belas que atrairiam as borboletas, os besouros, os pássaros. O seu jardim seria uma festa de flores, pássaros e insetos voando, pousando apenas quando quisessem um novo alento para voar ainda mais alto.
Abriu a porta carregando um resto de sorriso no rosto sonhador. O patrão já estava curvado sobre a mesa, arames, fechos, instrumentos reluzindo sobre a mesa escura e manchada. O cheiro de poeira e química invadiu suas narinas e ela espirrou. Os colegas resmungaram suas saudações, se acomodando. O mais velho já enfiava as contas num fio longo, longo como o tempo. Uma mulher se dirigiu ao banheiro, encardido, no fundo da sala, e fechou a porta com estrondo.
No silêncio que se seguiu ela escutou um zumbido. Era uma borboleta, pequenina e ínfima, quase sem cor. Agoniada, ela se debatia contra a vidraça empoeirada. Suas asas não tinham desenhos, era uma simples borboleta amarela, desbotada e infeliz. Seu desejo era escapar-se dali e voar. Sair do sobrado sufocante e aventurar-se, à procura de uma flor, que poderia ser humilde e esquálida como ela, mas que seria seu destino.
Vencendo o medo de altura, Fabiana se aproximou da janela. Estava no quinto andar. Dois lances abaixo, o toldo mofado da pensão diminuía a sensação de altura que a deixava imobilizada sempre que chegava próximo a uma janela. Somente a piedade que sentia pela borboleta descorada é que a levou até a janela emperrada e a colocou de pé, braços abertos, forçando madeiras e vidraças, como se estivesse pronta para voar.
Escutou o ruído do maçarico sendo aceso. O trabalho começava mais cedo naquela manhã, pois ainda não eram oito horas. A vidraça cedeu e a borboleta lançou-se no ar, sem titubear. Fabiana sentiu-se enternizar naquela postura. Os braços abertos acima da cabeça, esticados como os de uma mergulhadora, o corpo projetando-se para a frente. Ela não entendia como estava no ar, fora do sobrado, voando. À sua frente, a borboleta fazia acrobacias, demonstrando perícia e habilidade. Seus olhos se abriam, desmesurados, para o espaço. Quis soltar um grito, mas a voz ficou presa na garganta, e pelos seus lábios só saiu um gemido, como nos pesadelos. Mesmo que tivesse gritado, ninguém a escutaria, os sons abafados pelo barulho de uma explosão, e pelo crepitar do fogo que queimava, indiferente, madeira e carne, plástico e vida.
Ficou ainda um instante sobre o toldo que interrompera sua queda. Aos poucos ligou o som do maçarico, o barulho da explosão, seu vôo, e a borboleta. Uma chuva de fuligem começava a cair. Fabiana se levantou, arrastou-se como pode até escapar dali. Na rua, seu rosto sujo molhou-se de lágrimas. Foi abraçada por estranhos, beijada por conhecidos. Alguém lhe ofereceu um pouco d’água num copo de plástico tão fino que tinha dificuldade em manter sua forma de copo. Ela tomou-o nas mãos e foi para o meio da praça. Despejou-o no canteiro, ao redor da flor, visitando-a como uma borboleta às avessas.
Nunca mais teria medo de voar.
Igrejas, tintas e devaneios
Igreja é coisa de rico, que pode pagar para os artistas comporem músicas, esculpirem imagens, pintarem telas e tetos, encontrar os artesãos para cobrir com folhas de ouro os entalhes de madeira e transformar o terrestre em divino, ou seja, o possível em impossível. Entrar numa Igreja deve provocar duas reações: a do rico deve ser a admiração e o desejo urgente de associar seu nome a uma nova maravilha nem que para isso tenha que se separar de seus preciosos milhões; a do pobre deve ser de tal encantamento que passem a encarar seus males como secundários. Quando o pobre vai à Igreja imbuído de sentido prático -- para comer, se abrigar da chuva ou raspar um pouco das folhinhas de ouro para pagar uma consulta médica, aí começa a revolução e o declínio daquela beleza.
Mas, o que eu ia mesmo falar era outra coisa: antes de ir à Igreja, li o jornal, e nele encontrei um anúncio de uma tinta corporal, feita com chocolate. É a segunda vez que me deparo com essa tinta. A primeira vez foi em Londres, pilhas e pilhas arrumadas na entrada da Harrod's, banhadas pela luz que deixava aquela tentação dupla ainda mais apetecível. Não comprei. E, lógico, me arrependi de ter deixado toda aquela maravilha para uma pessoa mais ousada e livre que eu desfrutar. Agora também não vou comprar, por mero desinteresse. Mas não deixo de pensar na arte corporal, muito mais suave que a agressiva tatuagem, que poderá alegrar os compradores da tinta. Conclamo os escritores e os artistas plásticos a não deixarem passar esta oportunidade. Talvez seja esta a chance de criar sua obra-prima. Experimentem. Renovem suas catedrais...
Saturday, March 08, 2008
Passou
--Já passou. Obrigada.
Friday, March 07, 2008
Tire o seu sorriso do caminho....
O dia hoje é difícil, dificílimo.
Já foi o dia mais feliz do ano, eu costumava acordar entusiasmada, querendo ser a primeira a dar os parabéns ao meu amor. E ria, sem entender a contrariedade dele, tão relutante em envelhecer. E ele nunca chegou a envelhecer. Quando ele se foi, mantinha ainda um jeito de garoto, os cabelos intatos, e fazia planos para o futuro.
Mas outras pessoas sorriem em meu caminho, uma delas é o Flávio, que está lançando seu primeiro romance. Vejam em:www.decabecabaixa.wordpress.com
Um trailer de livro, vejam só que bacana. Vejam o trailer e comprem o livro!
Monday, March 03, 2008
Eça de Queiroz
" Ia viajar!...Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes subi derreadamente, atrás dum criado, a escadaria desconhecida dum hotel e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, de onde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mesas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-à-la-mode, já frio, com molho coalhado -- e que o copeiro me trouxesse uma garrafa de bordéus que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta salas revestidas até aos tectos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, nudezes, sombrias manchas de betume, tristeza das formas imóveis!... E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do Bom Sucesso, e as Limas da Boa Vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado."
Não é uma maravilha? Caricatural, mas, quantas vezes a gente não tem a impressão de que a viagem é só o desconforto, os dissabores e as confusões de muitas coisas vistas em pouco tempo, confundindo-se em nossas lembranças e fazendo, das mais belas princesas e ninfas, novas demoiselles d'Avignon?
Boa noite, my sweet readers. Não invejem minha solidão -- povoada de angústia. Não se "enjacintem" e desanimem. Riam um pouco comigo, zombem um tiquinho de si mesmos -- é preciso não nos levarmos sempre a sério. Mas sonhem, com o ontem ou com o amanhã, com o agora, o aqui, com o instante que passa.
Sunday, March 02, 2008
Sozinha, numa ilha...
Foi bom? Não achei não. Eu me angustiava, sem saber o que estava acontecendo com o mundo lá fora. Pois o mundo, descobri nestes últimos dias, o mundo não é aquele que nos chega pelas notícias de jornais, que não nos têm como destinatários: essas notícias se entregam a qualquer um, notícias fáceis, indiferentes, esquecidas no dia seguinte. O mundo que nos faz falta é aquele da criança doente, da amiga festeira, do amigo que espera nossa opinião, da amiga que providenciava um ingresso para um concerto muito desejado, é aquele mundinho que não aparece nos jornais, mas que nos alimenta de novidades, que nos faz sentir queridos, que nos conta alegrias e tristezas que serão só nossas, ou de poucas pessoas mais.
Nossos corações e mentes precisam de seus ecos, de seus compassos, e vamos alimentando e sendo alimentados e assim sobrevivemos.
É verdade que consegui manter a vida e o juízo nestes dias de "desterro", mas agora estou muito mais feliz, de volta ao blog, lendo as coisas deliciosas que escreveram só para mim, ou para umas poucas pessoas que compartilham algum gosto comigo.
Obrigada a todos que me mandaram seus textos deliciosos, seja pelo humor, seja pela reflexão ou pela sinceridade. Obrigada a todos que quiseram me ver, me rever, escutar minha voz e nem entenderam essa mudez, preocupando-se com meu sumiço. Desculpas a todos os que me procuraram, contando com um afago, um gesto de compreensão e se surpreenderam com minha aparente indiferença. Agora estou de volta, mando meu coração a todos, confesso publicamente minhas saudades e espero que isso não se repita mais.
Na minha caixa de mensagem, o pedido de um amigo querido e talentoso -- ir conhecer o blog que ele edita. Fui e adorei. Lindo, bem paginado, gostoso de ler e mais ainda de ver. Aqui vai a informação, para que todos possam compartilhar:
http://ardotempo.blogs.sapo.pt/
Até breve.