Sunday, October 09, 2011

Dai a Antônio o que é de Antônio…

Eis que me vejo fascinada por uma bela moeda de ouro de outros tempos! Isso graças ao meu querido amigo Antônio Carlos Secchin, que entrou para a Academia Carioca de Letras, ficando já não sei quantas vezes acadêmico.  Recebido com um belo discurso, em versos, pela extraordinariamente bela Stella Leonardos, ela fez referência à moeda preciosa de seu nome. E eu, de repente curiosa, fui procurar uma imagem que me revelasse seu valor estético.
Quando pequena fui a feliz proprietária de alguns volumes de um velho Larousse. Num dos volumes, as letras me permitiam verificar "costumes", e eu via os vestidos medievais de nobres e plebeus, passava pelos exageros barrocos, chegava às amplas saias do romantismo, aos rendilhados espartilhados da Belle Époque,  aos cortes masculinizados e sóbrios do pós guerra. Era ali que buscava inspiração para vestir minhas bonecas de papel, uma das minhas brincadeiras favoritas. Em outro volume, podia verificar as moedas, e me espantava com sua variedade. Materiais diversos, tamanhos diferentes, praticamente todas eram redondas (quase, nada de muita precisão nas moedas antigas) Me abismava olhando para os pequenos círculos que deviam ser depositados sobre os olhos dos mortos, ou sob suas línguas). Nem mesmo no outro mundo a gente podia sobreviver sem um dinheirinho! O que faria eu, criança, que não possuía um tostão de meu? Me tranquilizava, dizendo que criança não morria. E caso eu morresse, como a pobre vendedora de fósforos da história, talvez algum escritor tivesse piedade de mim e colocasse uma moedinha entre meus dedos enregelados.
Gostava de ver seus nomes engraçados: Dracmas, Patacas, Pesos, Escudos, Florins, Ducados e Sequins. E minhas preferências recaíam sobre as moedas de ouro, principalmente as brilhosas, polidas e meio gastas pelo manuseio.
De uma peça que vi bem jovem, lá no Teatro Maison de France, e cujo nome e história sequer me lembro, mantenho entesourada a imagem do Paulo Gracindo vivendo o papel de um judeu, apaixonado por suas moedas, que ele acariciava e guardava com volúpia.. Moedas cenográficas, sem dúvida, mas brilhantes, atraentes, aparentemente mais valiosas do que nosso dinheiro, que tinha virado tirinhas de papel sujo, carregando mensagens de amor, algumas, ou orações pedindo a multiplicação das notas, outras.
Nas fantasias de cigana, comuns durante a minha infância, usavam-se colares cheios de moedas, que tilintavam sobre as saias coloridas e emolduravam os rostinhos pintados, presas nos lenços de cabeça. Infelizmente, nunca me fantasiei de cigana. Mas cheguei a ganhar algumas moedinhas de chocolate. Mais uma vez, minhas preferidas eram as douradas, embora o chocolate que as recheavam fossem ruim em qualquer versão. Mas era uma alegria ganhá-las, embora, geralmente, eu as guardasse avaramente, segurando-as na minha mãozinha quente de criança até que elas desmanchassem com o calor e se desfizessem, para minha tristeza.
Uma vez ganhei de presente uma libra de ouro. De verdade, linda e brilhante, minha avó transformou-a num pingente e colocou-a em um cordão de ouro que nunca cheguei a usar. Acho que foi roubado, tal como a pulseira com quinze figas de materiais diferentes que ia ganhando, a cada aniversário, de meu avô. Essa cheguei a usar, e muito lamento a perda. Cada uma das figas tinha uma história, e era um sinal de proteção. Bem que eu gostaria de ter quem me protegesse, agora…
Foi assim que mergulhei no mundo da numismática, no Google. E lá estava a foto, frente e verso, do lindo sequim de ouro. O doge Antônio Venier ajoelhado frente a São Marco, numa imagem cunhada nos idos de 1382.  Como traziam a imagem do doge, também eram chamadas de ducados. E tinham o mesmo valor das moedas florentinas, pois o valor era estabelecido pelo peso e tamanho. Diferenças só nas imagens de umas e de outras e no prestígio, pois em certo momento os banqueiros florentinos  emprestaram aos florins de sua cidade um prestígio que se revelou nas cópias feitas pelo mundo afora. Até no Brasil foram cunhados (creio que os devemos aos holandeses).


Mas vejam se essas belas moedas não merecem minha homenagem, mesclada aos parabéns que desejo a meu amigo e poeta. Confiram as imagens do Zequino e do Florim que pesquei no mar virtual que nos envolve. E que Antônio receba o que é de Antônio.

Friday, October 07, 2011

Ao mestre, com carinho

Mais uma homenagem ao Steve Jobs. Uma macã, com amor, para o mestre.
Ontem, minha amiga Angela Dutra de Meneses reclamou que, em meio a todas as eulogias, ninguém teve coragem de dizer uma das coisas mais óbvias sobre ele: ele foi lindo! Realmente, em meio a todos os nerds e geeks, ele parecia o mais saudável, o mais belo, o mais audacioso. Um pop star da computação. Tanto que todos os comentários o associam mais ao marketing que à computação de dados, como se, para saber computação, o sujeito tivesse que renunciar ao charme. Não sei, só sei dele quando ele aparecia anunciando mais algum produto incrível da Apple, mais um "must have" que a companhia criava. Mas o imagino ainda jovem, com o xará, numa garagem da California, nos primórdios. Que ele devia entender alguma coisa de computador, lá isso devia.
E, mais tarde, com que charme e desenvoltura ele aparecia, cada vez mais magro, perdendo a cabeleira, fazendo brincadeiras com relação aos boatos sobre sua morte. Um moderno gladiador, enfrentando uma luta que não descansava. Um belo exemplo, o cavaleiro negro, predestinado. Suas origens inspiram, suas vitórias inspiram e até mesmo sua morte inspira.
E se ele foi grosso, sarcástico, impiedoso segundo alguns, para outros foi extraordinário, genial, um grande líder. Não o conheci, não li sobre sua vida mais do que algumas poucas linhas em jornal, mas lamento sua partida. Muito cedo. Minhas perdas também ocorreram assim, muito cedo. E eu me pergunto, sem esperar nenhuma resposta, por que é que outros, inúteis ou ridículos, ou mesmo danosos e perigosos, continuam vivendo enquanto essas gemas raras partem tão cedo???? Por que nadas, zeros à esquerda, têm uma saúde de titânio, indestrutível, enquanto outros, geniais, trazem essa limitação genética? O negócio é seguir o conselho do próprio Steve Jobs e ligar os pontos. Pode ser, que em algum momento, essa mixórdia que é a vida faça sentido.

Thursday, October 06, 2011

Pesadelos

Abro o jornal e vejo a foto do Steve Jobs. Morto. O mundo ficou um pouco mais pobre sem ele. Queria saber o porquê dessa sensação de luto que me invadiu com a notícia. Meu contato com ele é só através deste meu Mac, do meu iPhone, meus brinquedinhos de menina grande. E uma grande torcida para que ele se recuperasse, para que ele sobrevivesse a essa doença odiosa, que me parece ter inteligência  própria e zombar de nossos canhestros e agressivos meios de combatê-la. Perdida esta batalha, meus olhos se entristecem e procuram fugir dessa tristeza. Viro a página e outro assombro me assusta: o casamento da duquesa. Existiria um rosto por trás daquela máscara?
Proust, meu querido autor, é chamado por alguns de "especialista em duquesas". Na verdade, elas foram as top models da época, com seu charme, suas jóias, seus salões iluminando as noites da Belle Époque. E, foi a partir de beldades como as que conheceu nos salões que o autor frequentou que o narrador criou sua fascinante e impertinente duquesa de Guermantes, que reinou até sobre as princesas de sangue real. Se ele estivesse vivo, sem dúvida estaria acompanhando as marchas e contramarchas deste casamento da duquesa de Alba. Só o nome já me transporta: espero logo ver um quadro de Goya, com suas cores quentes, com as jóias que enfeitam e aprisionam seus retratados. Nada me prepara para o que vejo: uma face em papier-mâché, moldada por uma criança sem capricho para uma festa de dia das Bruxas. No entanto, minhas leituras de Proust deveriam ter me preparado para essa visão: o baile final a que o narrador comparece revela exatamente a mesma coisa desta foto: pessoas que, somente sabendo viver das aparências e dos valores externos, envelhecem como caricaturas de si mesmas. Incapazes de aceitar a passagem do tempo, de incorporar as mudanças de valores, elas continuam se comportando como há vinte, trinta, cinquenta anos atrás. E dançam flamenco em suas festas de casamento, ou fazem trejeitos considerados charmosos no século passado, ou se enganam com amores tão naturais como flores de plástico.
Resolvo vir escrever, deixar que essa minha incredulidade se escoe e que esses sonhos ruins se afastem. E penso no barbante da Cora: o barbante com que aprendi a fazer tapetes de crochê, que fizeram xales e bolsas, tantos trabalhos manuais ensinados pela minha avó. E no papel de pão, sem cor e sem graça, trazendo o pão nosso de cada dia, frente ao papel cor de rosa, com barbantinho colorido que trazia para nossa casa delícias compradas na cidade pelo vovô. Rissoles, coxinhas, empadinhas que tanto amei e para as quais hoje torço o nariz, achando tudo muito grosseiro, muito engordurado… Eu, que me habituei a comer sushi e ceviche, que peço grelhados e elogio o pobre chuchu, já me horrorizei com a possibilidade de ter de comer peixe cru e bifes sem molho.
Recordar é viver? Ligar os pontos do passado para ver o sentido da presente, seria esta a receita? Ou será melhor, como a duquesa, viver num eterno presente, esquecer o próprio rosto e aprender a se reinventar?
Não há fórmulas, eu sei. Um pouco de cada coisa, talvez seja o melhor, para que a morte não nos pegue de surpresa no meio da festa.

Tuesday, October 04, 2011

De livros e helicópteros

Pena que minha imagem seja pequenina, mas trata-se do edifício de uma biblioteca nos EUA. Não é dos mais criativos, mas é um dos que mais me agradam. Volta e meia recebo essas apresentações que nos mandam pela rede, com coisas curiosas. Recebi, por exemplo, uma série de fotos da flor papagaio, que floresce na Tailandia, segundo me explicaram, apenas uma vez por ano. Uma flor disfarçada em pássaro. Falta-lhe o voo, sem dúvida, mas talvez ela compense essa falta com algum perfume que venha voando até nossas narinas. Não sei.
Já recebi, algumas vezes, essas imagens de edifícios curiosos ou das bibliotecas pelo mundo afora. Gosto de ver uns e outros, assim destacados, imobilizados na tela, com suas cores e silêncios. Pois, por alguma birra, meu computador nunca executa o fundo musical (o que provavelmente pode ser uma bênção)
Ali fico eu, olhando as imagens e revisitando alguns, ou visitando outros. Não conheço esta biblioteca redundante. Mas, sempre que vejo seu retrato, me lembro da biblioteca de NY, com seus dois leões de pedra, Patience and Fortitude. Eles prometem me proteger enquanto eu estiver distraída ali dentro. Posso perambular segura pelas obras, mergulhar no mar de histórias ali represado, pois os leões da entrada velam por mim. Gosto muito deles, do prédio robusto e pesado, das árvores e do parque ao seu redor. Até o burburinho da cidade movimentada me tranquiliza. Todas aquelas obras, lá dentro, existem apesar do caos de fora. Existe salvação para a humanidade!
Mas os barulhos de minha própria cidade me inquietam. Hoje estranhei a presença de um helicóptero insistindo em despertar a todos no Leblon. Eu acordo cedo e não tenho ouvido esse ronco fora de hora, por isso não entendia o que ele anunciava. Foi a TV quem me avisou que aqui, ao meu lado, um bueiro ameaçava explodir, soltando uma fumaça lúgubre bem em frente ao Banco do Brasil. E o helicóptero desempenhava sua função de vigia, olhos bem abertos tomando conta não apenas do trânsito mas de nossas pequenas ou grandes tragédias anunciadas. Depois, quando saí, vi primeiro o Corpo de Bombeiros e mais tarde os funcionários da Light e outro da CEG. Uma equipe abria um buraco do lado de lá da rua, a outra do lado de cá. Indiferentes, os homens nem usavam máscaras, nem proteções especiais, transformando a ameaça em rotina. Voltei para casa e me abriguei na minha própria biblioteca, entre as páginas de um livro. Velando por mim, as miniaturas de Pacience e Fortitude, e o olhar carinhoso dos retratos…

Tuesday, September 27, 2011

O silêncio dos …

Acabo de assistir a um bate-papo mediado pelo Marcelo Moutinho cujo tema era o silêncio dos escritores. Acho divertidas essas reflexões que a gente tem que fazer, tipo falar sobre o silêncio. Até porque, outro dia, estava numa mesa de bar falando sobre os tipos de silêncio. Sincronicidade? Antigamente a gente dizia que era coincidência. Agora tem de analisar. Estamos viciados em interpretação. Mas, voltando aos silêncios: O silêncio no interior, naquelas noites escuras de sertão, é o silêncio mais barulhento que já escutei em minha vida. E até hoje esse silêncio me deixa angustiada e tristonha. E com medo. Nele escuto gritos de animais não identificados, ameaças que não consigo traduzir, zumbidos de insetos que me consideram apetitosa… Fujo desse. Gosto do silêncio à beira mar, que também é barulhento, concedo, mas embala. As ondas quebrando, a gente julga que elas têm um ritmo. Vez por outra uma gaivota grita. Os barcos rangem ou sacodem seus artefatos metálicos ao sabor do vento, e criam música.
Geralmente, ao longe, a gente pode escutar os ruídos abafados de algum jogo de vôlei, ou uma pelada de praia jogada ao entardecer. E tudo isso vem misturado ao cheiro bom de maresia, um cheiro fresco, saudável, mas que a gente renega pois indica a umidade que vai estragar eletrodomésticos e fazer a roupa cheirar a mofo. Mas quem é que pensa nisso, à beira mar, com um bom livro? Ou, se a noite já caiu, quando se passeia, de banho tomado, apreciando a brisa que sopra para secar nossos cabelos com brincadeiras sem fim? Essa me parece a moldura ideal para doces palavras de amor. Melhor ardentes, pontuadas por beijos. Aqui solto um suspiro de saudades.
Mas volto ao silêncio, desta vez dos escritores. Escritor faz silêncio? Sim, enquanto escreve, ele se mantém calado, na escuta das vozes interiores. Mas, como se passa muito tempo em silêncio, na frente de um computador ou de um caderno, quando a gente encontra um público disposto a nos ouvir, falamos muito. E nos esquecemos de que somos muito melhor por escrito. Já escutei muita bobagem por aí, já falei a minha quota de bobagens e vou seguir ouvindo e falando, enquanto der. Mas sempre saio das palestras pensando que poderia melhorar minha "redação". Viver por escrito é mais suave, dá tempo para fazer revisão. Quando silenciamos e escrevemos podemos ouvir a nossa própria respiração, podemos escutar a respiração do outro. Damos asas aos pensamentos, os nossos e os dos outros. E é em silêncio que percebemos uma outra linguagem que se manifesta em gestos, às vezes inconscientes. E é nos silêncio que podemos ler os sorrisos, os olhos revirados, o abanar de cabeça os pequenos sinais que os outros nos dão, e que servem de jangadas nas nossas tempestuosas ondas de palavras.
Perdoem-me então, aqueles que andavam com saudades aqui do blogue. Andei falando demais, escrevendo de menos. Silenciarei para poder usar melhor as palavras. E deixo vocês com ainda um outro tipo de silêncio, esse nosso impossível silêncio urbano, feito de ruídos de trânsito, de gritos de criança, de cantos de alguns pássaros, de marteladas distantes, de motores de helicópteros, de aulas de música. Esse silêncio que nos avisa que pertencemos a uma cidade viva, ainda amável, mas muito bagunceira.

Monday, September 12, 2011

Rua Vermelha, nº 13






Numa pousada literária (Capitães de Areia) passei esses dias de FLIMAR, entre a Praia do Francês e Marechal Deodoro. A pousada é uma graça, a um quarteirão da praia, uma piscininha gostosa que não experimentei, pois sou amiga de mar e o daqui me chama com suas águas quentinhas e transparentes, suas ondas quebrando no recife e formando penachos brancos só para me impedir de ler os livros que carrego comigo para a areia, caso me canse do mar e da paisagem. Isso não acontece, e os livros foram e voltaram, todos os dias, sem serem abertos. Mas de noite, fiel, volto a eles e me entrego à leitura de coisas novas, que fui ganhando por aqui. Desde as Letras do Junco, cidade que virou Sátiro (Dias) por obra de algum político, a poemas e jornais, leituras mais ou menos amenas, conforme o estilo dos autores, mas sempre prazerosas. Pois esta aqui é a terra de Nossa Senhora dos Prazeres, que merece toda a minha devoção. E, como meu maior prazer é a leitura, a esta devoção me entrego com desvelo a cada noite.
Estou aproveitando o pouco tempo de wi-fi que me resta, antes que o motorista venha me buscar.
Termino, portanto, aproveitando para postar algumas fotos, igrejas e casario de Marechal Deodoro e algumas curiosidades que me deliciaram e espero que encantem a vocês também. Reparem na terapia que vim aqui fazer e no vídeo de radicais livres que me deixou intrigadíssima!

Sunday, September 11, 2011

FLIMAR






Acabou-se o que era doce. Vim para cá, Marechal Deodoro, no estado de Alagoas, no dia 7 de setembro. Quem me conhece sabe de meus amores por essa terra deslumbrante. Alagoas tem praias lindas, algumas das mais lindas do mundo. E eu só conheço um pouquinho daqui. Esta foi a quarta vez que vim para cá, e não consigo ir além da praia do Gunga e das falésias que são ali próximas. A primeira vez que visitei Maceió foi com a Helena, que tem amigos por aqui. Depois vim pelo SESC duas vezes e, desta vez, vim pela FLIMAR. Pena que não tive chance de ficar aqui no computador, alimentando esse blog. Tenho tantas coisas para contar! Conheci pessoas maravilhosas, realmente encantadoras. Reencontrei pessoas fantásticas, que adoro, desde tanto tempo (5 anos, já!). Encontrei outros escritores, alguns que ainda não conhecia, outros com quem não tinha tido ainda o prazer de conversar melhor, embora já houvesse uma simpatia e alguma relação de amizade. Estreitar laços, aproveitar abraços carinhosos, conseguir a fã mais fofa da FLIMAR, a Maria, filha do Flávio Carneiro. Foi uma experiência muito gratificante, cheia de alegrias.
A programação da FLIMAR foi variada, com gente boa dando boas palestras. Por enquanto, contentem-se com as fotos das belezas locais, do bichinho preguiça e da sereia da praia.

Thursday, August 25, 2011

Mamutes e jararacas

Reabilitaram as jararacas, cujo veneno virou remédio. Remédio para pressão, remédio para o cérebro, remédio para a gente pensar melhor. Já estava na Bíblia, como diria Nostradamus. Ou ele não diria, mas um leitor do profeta em questão poderia interpretar a serpente do gênesis como uma jararaca que estivesse protegendo o cérebro tão pouco usado de Adão e Eva. Em que os dois se ocupavam, no paraíso? Em dar nome aos bois, é o que diz a Bíblia. Adão ( e eu assumo que Eva também desse seus palpites) tinha como incumbência nomear todos os animais e vegetais. Toda a criação! Haja imaginação. Não admira que alguns nomes tenham saído feios. Mais que feios, horríveis. Querem um exemplo? Xenartros e suas zigapófises. Bem, esse seria um Adão helênico. Tentemos outros: carduça, deputado. Esse adão brasileiro, depois de inventar girassol, borboleta, cascata, papagaio, inventou mijo, rubicundo, catarro, súcubo. Gastou sua imaginação. E, sentindo preguiça, foi criando uns nomes adaptados, tipo "pé de mesa", "braço de cadeira", "cravo de defunto". Aliás, defunto é outra dessas palavras feias. Outras saíram bem legais. Abracadabra, por exemplo. Ao ouvi-la, a gente já espera alguma proeza, pois ser capaz de dizer abracadabra sem trocar nenhuma sílaba já é um prodígio. Em compensação estupro é uma dessas palavras que não precisavam ter sido inventadas. E que são reinventadas a cada vez que são faladas. Tente dizer estuprada num meio de frase, assim meio corrido. Vai sair diferente. E estupefaciente?! É mesmo um golpe que precisa de uma boa jararaca para ser corrigido! Jararaca, cascavel, jiboia, coral, as cobras possuem nomes sonoros como trinados, que aguardavam a reabilitação das peçonhentas (argh!)
Mamute era uma boa palavra. Pesada, sólida como o animal que designou, impunha-se numa frase. Infelizmente fizeram um filme terrível com esse nome, e o estragaram. Agora, ao ouví-la, vou me lembrar do Depardieu, de suas toneladas de nariz, de seus centímetros de braços, de seu rosto suarento e de seus cabelos ensebados (ugh!). Outro dia vi no facebook uma campanha de salvação de palavras. Quais as palavras que você salvaria? Acho que a pessoa estava se propondo a salvar "inconsútil". Eu poderia ficar com balangandã, mas talvez preferisse azul, ou luar, ou rio. Talvez essa última, com sua plurissemia (aiii!) que deixaria minha palavra ora verbo, ora topônimo, ora acidente geográfico. E a imagem de um rio azulado pelo luar se revesa com a do Rio banhado de luar azul… E, ao fundo, uma jararaca se desenrosca preguiçosa, à feição de um rio entre folhagens.

Sunday, August 21, 2011

Melancolia

Escolhi o sábado chuvoso para ver o filme do Lars von Trier. Fui assim meio de pé atrás, receando ficar deprimida, mas o filme não permitiu: lindo, interessante, com imagens e situações inesperadas, sem melodrama, mas com tantos detalhes saborosos!… Para mencionar apenas um, a figura deliciosa do organizador de festas que não quer olhar a noiva e cobre o rosto. Como no velho truque das caixas chinesas (estudei isso na Faculdade de Letras…) uma história repete a outra: um astro rebelde atrapalhando a festa. E ninguém quer ver.
Mesmo na escuridão, na depressão, nos desentendimentos, tudo o que fica é a beleza. Uma beleza nada piegas, mas sempre incompleta. Sem clichês, sem baboseiras, sem lágrimas desnecessárias, com uma boa dose de agressividade e uma excelente dose de silêncio. Com contundência. Saí de lá com a luz de Melancolia brilhando no meu horizonte e me dando vontade de viver num mundo assim. Assim como, ameaçado? Bem, ameaçado nosso mundo está, claro. Mas num mundo em que ainda encontramos pessoas que sabem o valor da vida. Mesmo que em extinção. E que sejam humanos até o último nanossegundo! Um filme que precisa ser visto e depois digerido, comentado e apreciado.
A semana foi de muita correria, de ida a São João de Meriti e de encontro com almas boas, íntegras, corajosas, cheias de esperança. Adorei. E espero que Sant'Anna e São Joaquim sejam felizes para sempre, mesmo que só no palco, sob a direção de Abílio Ramos. E que os poetas que conheci mantenham sua sensibilidade, sua integridade e sua força.
Visitei, pela primeira vez, a minha editora, Record, em suas incrivelmente simples instalações. Livros por toda a parte, fiquei com a impressão de que as divisórias são feitas por livros, e nada mais. Enchi meus olhos com uma coleção de Jabutis para ninguém botar defeito. O troféu não é lá uma beleza, nem brilha mais do que as estrelas. É pequenino, escurinho, quase uma muiraquitã. Mas segurar um, sopesá-lo, ler o que estava escrito em cada pedestal, me deixou com o que os americanos chamam de "longing". Não sei bem como traduzir: anseio, desejo? Admiração desejosa? O fato é que, de todos os prêmios literários no Brasil, o Jabuti é o que mais me encanta, pois tem aquela coisa modernista de "clã do jabuti", de sobrevivência na adversidade, que é a marca do herói totêmico de nossa nacionalidade. Viva o jabuti! Nosso heroi, esperto e desajeitado, meio lento, mas capaz de colar seus caquinhos e seguir em frente. Começo a entender minha identificação com ele…
E me lembro do poema de Drummond, que sempre me comove até às lágrimas, Elefante:

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos moveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,caio

no meu vasto engenho

como um simples papel

A cola se dissolve

e todo seu conteúdo

de perdão, de carícia

de pluma, de algodão,

jorra sobre o tapete

qual mito desmontado.


Amanhã recomeço.

Saturday, August 13, 2011

Cada qual com a madeleine que lhe aprouver…

Leitores de Proust sabem que a madeleine, aquele bolinho em forma de concha e gosto meio alaranjado, é a chave para as "memórias involuntárias", que a Clarice e outros escritores conhecem como "epifanias". Pois o Bloch hoje fala do seu chaveiro de jabulani como uma madeleine, e lá embarca ele num texto sobre roupas, mordidas de cachorro, Botafogo e Proust. E ainda consegue encaixar mais uma ou outra lembrança e uma e outra homenagem à sua ilustríssima família – isso para não mencionar o grande modelo de correção contra o qual se mede: Dapieve. Eita! Parabéns, seu Bloch, assim não precisa mesmo contar caracteres, você já chegou lá, nas merecidas férias!
Escrevo hoje numa reconciliação com o Prosa e Verso: fiquei de bom humor com a comédia da vida intelectual em quadrinhos. O leão de chácara perguntando se o cara tem carterinha de pedante é muito bom. Mas continuar e exigir que ele pague dois ingressos, um para ele, outro para o Ego, é tirada de gênio! E as outras tirinhas também são legais, como têm sido legais as pequenas vinhetas do Gatão de Meia Idade (no Segundo Caderno), falando dos presentes. Numa o Gatão oferece à sua gata, um livro de Proust. Ela agradece, dizendo: Que bom, a letra é bem grande! Noutro ele a presenteia com um disco (foi o que ele disse) de Chopin, e ela: "Dá para dançar? Adoro dançar!" Não preciso mais fazer assinatura dos paulistas! Mantenho minha esperança.
Mas a leitura continua, e me assusto: A matemática da ficção?! Contar histórias por meio de sucessões de máximas, silogismos e figuras geométricas?! A ficção como um objeto estranho "com o qual não saibamos muito bem o que fazer"?! Bem, se é matemática, talvez possamos acertar contas… Quem tem lucro?
Mas o Prosa fala sobre Versos, mesmo que seja à margem. Nas cartas, Vitor, que se apresenta como tradutor da UFRJ, concorda com PH Britto que afirma que no Brasil existem 300 leitores de poesia. Acho que não precisamos entrar na matemática da poesia, pois a ordem de grandeza é mesmo pequena em termos dos nossos 200 milhões de brasileiros… Na outra página, a chamada para uma exposição poética: TeKnósPoiÉsis – Poéticas do oral ao digital: uma experiência para todos os sentidos. Tudo junto e misturado, assim como seus patrocinadores. Fico curiosa, acho que vou acabar indo, mas desta vez telefono primeiro para evitar o barraco do Mia Couto. O evento foi muito procurado, mas a platéia era só de convidados. Os cidadãos do Rio, que financiam a Biblioteca Pública de Botafogo, são cidadãos de segunda classe perante os convidados da Cia das Letras… seria essa a lição? Espero que não. Hoje estou com um espírito muito magnânimo!
Mas aí a última reportagem me faz estremecer: O futuro do ensino de Literatura no país está prestes a sofrer um golpe?! E logo do desmoralizado ENEM(a)?! Resigno-me a embarcar nas estatísticas. Não tem jeito, para quem gosta de ler, a matemática está virando coisa fundamental. Cito:
"Poesia e letra de canção somadas comparecem em 42% das questões; romance, medíocres 12%; conto, apenas 3%; em contraste, histórias em quadrinhos têm gordos 19%".
Cito de novo:
"Drummond é quem mais aparece, 19 vezes; em seguida vem Machado de Assis e Bandeira, 7; depois, nenhum autor aparece mais de 5 vezes. Graciliano Ramos e João Cabral aparecem 3 vezes cada, menos do que Jim Davis (do Garfield) e Bob Thaves (da tira Frank e Ernest), com 4 vezes cada"…
Acho que é mesmo hora de mudar para os domínios da Matemática. Para mim, é um pouco tarde, mas aconselho aos novos escritores que sigam o exemplo do escritor português, e que usem suas letras para fazerem fórmulas algébricas. Misturando isso com uma tinta oriental, turca, árabe ou mesmo um certo ar africano, o sucesso de vocês estará garantido. Pelo menos até a próxima semana.

Friday, August 12, 2011

O drama da idade

Recebi de uma amiga, L, um email com muitos desenhos engraçados mostrando que o tempo passa para todos, até para os personagens de desenho. Vejam, Piupiu fez 60 anos esta semana, e lá aparecia ele sentadinho em seu poleiro, todo enrugadinho. A Barbie com 50, perdeu suas formas e se deliciava com bombons e TV. O Superman exibia seu barrigão de 72, o Thor e o Hulk, aos 48 anos, parecem aqueles coroas que, inconformados com a idade, se vestem como adolescentes. Batman e Robin aos 70, continuam juntos, só que o Robin, careca e encurvado, empurra a cadeira de rodas do Batman. A Mulher Maravilha, já quase aos 70, insiste no maiô, mas já não sidera mais ninguém, nem mesmo o cachorrinho que ela domina com seu chicote. O Spiderman, com mais de 50, envelheceu mal, e está preso ao soro, muito doente. São brincadeirinhas, e a gente ri, mas se inquieta um pouco. Principalmente quando junta isso à notícia da recuperação de Sininho, a hipopótamo que perdeu a mãe que estava com 53 anos. Segundo informava o jornal, a mãe foi sacrificada na sexta passada pois estava muito velha, já passara dos 48, média de vida dos hipos, e cheia de doenças: artrite, problemas respiratórios, úlcera sei lá o que mais. E a Sininho, com 10 anos, entrou em depressão e deixou de comer. A tratadora, entrevistada, disse que ela já tinha voltado a se alimentar, e que ia se recuperar, que era o processo de luto normal. Fiquei pensando que ninguém acha errado sacrificar um animal que sofre, mas todos se levantam contra a eutanásia. Por que será que os humanos estão condenados ao sofrimento? Por que libertamos apenas os animais? Quero ser "posta para dormir" caso as mazelas cheguem a me incapacitar!
Para terminar filosofando mais um pouco sobre idade, falo sobre Rosa, a peça que assisti ontem, e que não é propriamente sobre a velhice, mas sobre a memória. A memória de uma mulher judia, que se confunde com a história de seu povo. Rosa está de luto, mas um luto muito maior do que se possa pensar a princípio, pois está de luto pela humanidade perdida. É um monólogo muito bem sustentado pela atriz, que vai revelando as perdas sucessivas que não a abatem. Em sua trajetória, desamor e perdas, paixão e sobrevivência, Deus e a vida são avaliados com uma dose de humor, resignação, e encantadora vontade de acomodação. "Por outro lado", o que a sustentou e ao seu povo até então, periga de transformar-se num lado mais sombrio e ressentido, de acerto de contas infrutífero. Muito boa peça. E triste, embora seja engraçada. Como diria Rosa, é o "por outro lado"…

Thursday, August 11, 2011

Tempos de minha avó

Saio com a família e o papo é amor. Amor físico, que ontem foi tabu, coisa proibida, e hoje é discutido abertamente nas mesas de restaurantes. Fico escutando, descobrindo novas tecnologias que me fazem rir, graças à maneira que são descritas. Mas hoje, ao sentar aqui para escrever, o que me vem à lembrança são as histórias de minha avó.
Vovó era uma espécie de "terrorista" do sexo, suas conversas eram todas voltadas ao grande perigo de praticá-lo antes do casamento. Era uma história atrás da outra contando dramas familiares solucionados, às vezes, por um bom coquetel de guaraná com formicida. Claro que já existia a pílula anticoncepcional, mas essa ainda não tinha carimbado o passaporte no imaginário da minha avó. E o caso da virgem que engravidara do cunhado, "um sujeito porco, que deixava as toalhas sujas no banheiro!…" era comentado com algumas variações. A porca poderia ser a mulher ou a empregada. Na versão da minha avó, a virgem era sempre uma vítima.
Sua grande aversão era pelas "assanhadas" ou "sirigaitas". Essas eram um horror! Uma sirigaita dessas, apesar da mãe tão cuidadosa, que a acompanhava em todos os lugares, conseguiu "namorar" e engravidar na fila do leite! Era no tempo da guerra, acho eu, quando havia fila para tudo. A mãe devia mandar a filha para a fila bem cedinho, e lá ela encontrou um leiteiro ou outro cliente madrugador e tomou outro tipo de leite.
E haviam histórias terríveis, de moças que se enfaixavam todas para que não se descobrisse que estavam grávidas, e quando os filhos nasciam, estavam deformados porque não tinham podido se desenvolver. Ou histórias engraçadas de mulheres, respeitáveis e respeitosas que, quando grávidas, "enjoavam" do marido e só lhes apeteciam os maridos das vizinhas… Essas eram perdoadas. Afinal, enjoos de gravidez eram coisas que minha avó respeitava.
Uma história atrás da outra, mas agora, relembrando-as, vejo que em nenhuma delas era o sexo o vilão. Não tinha percebido isso, mas seu problema era a gravidez. Já na palestra de ontem, no SESC Tijuca, um dos participantes me contou de seus grupos na Igreja, e dos conselhos do padre: "quando sentirem os sintomas da atração, vocês devem se afastar e rezar até ficarem calmos!" Meu aluno comentou: "nós, com 14 ou 15 anos, se seguíssemos o conselho do padre não pararíamos de rezar!"
Bem, aí a gente fica pensando que, se todos os problemas do mundo fossem a sexualidade dos jovens, estaríamos no paraíso terrestre. O problema começou foi com Deus, ciumento, que não pode admitir aqueles dois adolescentes saudáveis e lindos fazendo aquilo que seus hormônios aconselhavam. Expulsar os dois por conta disso? Uma pequena mordida na maçã?! Mas se é uma maçã gostosa, sumarenta e doce, por que não?
Sábios são os americanos: an apple a day keeps the doctor away. Uma maçã por dia, sem culpas e sem desculpas pode ser o melhor remédio.

Monday, August 08, 2011

Sem prosa nem verso

Desapontamento: espero toda a semana pelo suplemento literário do Globo e, quando ele chega, tudo vem dedicado à cidade. Cadê meus livros? Será que vou ter que assinar jornal de São Paulo? Ôrra, meu!
Desapontamento II: Mia querido Couto fala hoje às 15:30h na Biblioteca de Botafogo. Por que justo no dia e na hora de minha aula? Será que vou ter que brigar com a Cia das Letras?
Desabafos à parte, não vejo razão para brigar com a Cia, que me proporcionou uma beleza de palestra no sábado passado. Alex Ross falando sobre Chacona, comemorando os 25 anos da editora. Ela vai trazer um time de gente boa, e finaliza com o Amos Oz… Acho que por isso tem ventado tanto aqui no Brasil, para anunciar a chegada do Mágico de Oz. Não, não precisam rir, a piada é mesmo boba, mas me permite uma transição de assunto, ao gosto de Machado, embora sem o mesmo talento. Passo para o vento, do vento ao frio, do frio ao nevoeiro, que pode perturbar a aviação mas que torna minha linda cidade misteriosa e desejável como Salomé. Que prazer andar pela praia e ir acompanhando o desvelamento preguiçoso das montanhas! E olhar o mar impetuoso com suas ondas, cercado pelas placas cautelosas : Cuidado, correnteza.
Fico querendo me transformar num barquinho de papel e me deixar flutuar até ver onde essa correnteza pode me levar… Na falta de coragem de mergulhar nas ondas (que devem estar geladas) flutuo nas ondas do pensamento e vejo a imagem do barquinho retirada do filme Persuasion. Adorei. Assisti encantada com umas coisas disparatadas, que não sei por que chamaram a minha atenção: Atores e atrizes fora dos padrões de glamour, mas dentro do espírito da época de Jane Austen – Sem maquiagem, sem tratamento de uniformização dos dentes, sem branqueamento exagerado.
Homens e mulheres suam, suas peles brilham, a gente quase que surpreende um cheiro de suor ao entrar nas casas junto com as câmeras. Os homens fascinam. Sei que ela descreve o universo feminino como ninguém, mas talvez por isso os homens – tão desejados – sejam extremamente fascinantes. Mesmo os que a gente, à primeira vista descartaria como horrorozinhos, logo se mostram encantadores seja pela sensibilidade, seja pelo aprumo com que envergam suas fardas. E que fardas! Dei por mim imaginando como seria difícil resistir àqueles maravilhosos oficiais de marinha, chegados vencedores das guerras napoleônicas, ricos com o botim de guerra, auto estima elevadíssima pela vitória, e estatura ampliada pelo chapéu. Numa das cenas, em que o grupo passeia pelo molhe e é mostrado em silhueta, era quase que um friso grego, não de meros mortais, mas de centauros. Bem, foi assim que os vi: altos, altíssimos, com suas crinas ao vento…
A história? Sim, sempre legal, um mecanismo de compensação de Miss Austen, que amou e foi amada através de suas personagens. Vingou-se das irmãs comedoras de doces, vingou-se das manipuladoras, zombou com simpatia das mães e tias faladeiras e preocupadas apenas com o casamento das herdeiras. Na sua bem educada compostura e na capacidade de observação e reflexão, as mulheres em segundo plano são premiadas em sua constância e equilíbrio. Viva Jane Austen! Estou quase acreditando que o amor acontece desse jeito, e que não se trata de um furacão que nos arrebata para Oz. Nem de um nevoeiro que torna a noite mais fria e que nos embriaga com seu cheiro de maresia… Embora noites assim possam ser ideiais para o amor!

Tuesday, August 02, 2011

Agosto já chegou

Nos tempos romanos, agosto era o mês mais prestigiado do ano: mês de Augusto, que surripiou um dia do meu pequeno fevereiro, pois não podia ficar com menos dias que o mês de Júlio César, que o antecede. É o mês do signo de Leão, mês do Sol e das honras – isso tudo lá no hemisfério norte–. Aqui é o mês do inverno, da volta às aulas e dos ventos. Também é conhecido como o mês de cachorro louco e mês do desgosto. Esse desgosto, que é uma rima e não uma explicação, talvez se deva ao suicídio de Getúlio, que já foi tão importante e hoje poucos sabem quem foi. (Triste o povo que não conhece seu passado, já disse algum filósofo, com outras palavras.)
Como é época de ventos, também é época de soltar pipa, e esses pedaços coloridos de sonhos sempre me encantaram muito. Hoje já quase não se vê alguém soltando pipa na zona sul. Mas domingo, passando pelo centro da cidade, lá estavam cerca de uma dúzia de pessoas se divertindo e mostrando sua perícia. Lindo! Sugiro um show de pipas, para a abertura dos jogos que se aproximam.
Mês de cachorro louco? Não sei por quê. Mas a loucura dos cachorros deve de estar contaminando os políticos do mundo afora, todos eles enlouquecidos disputando um osso do Estado. Não gosto de falar de política, mas olho com apreensão a derrocada dos EUA. Obama não tem coragem de persistir com seu blefe, pois me parece ser um homem de bem, interessado no país. Seus adversários são jogadores profissionais, e a eles só importa a vitória, mesmo que, vencendo, eles destruam o saloon. E observo com tristeza ainda maior o nosso próprio país, onde todo mês é mês de corrupção, onde todo órgão parece já estar sofrendo com a metástase deste câncer…
O mês é de frio (pouco) e de liquidações (muitas). De encontrar os amigos nas salas de aula, de tratar de estudar pois o ano já-já acaba. Imaginem, já entramos no segundo semestre!
Agosto é mês dos pais, mês de muitos aniversários, portanto, mês de muitas festas. Nada de começar dietas em agosto. Setembro já vem, e aí sim podemos experimentar aquelas dietas da lua, da sopa, do leite, do tipo sanguíneo, seja lá qual for a que estiver prometendo um verão com menos gordura.
Ainda dá tempo de tomar mais uma tacinha de vinho! Se esfriar mais um pouco, quem sabe um fondue na Casa da Suíça, ou um cozido farto, fumegante? Hmmmm, que delícia! Aproveitemos o augusto mês de agosto!

Sunday, July 31, 2011

Dia de quê?!

Do orgasmo!
Da pequena morte francesa. Do Big Bang, para alguns. Do vai chegando já passou, para outros. De plus, encore! Do fake: soque o travesseiro e grite, aconselha o jornal de hoje. Mas, os homens gostam de variedade, portanto, aconselham a alternar: grite e só então soque o travesseiro. Eu sugiro simultaneidade: grite enquanto soca o travesseiro. E me postarei à escuta, e ouvirei uma sinfonia orgasmática sacudindo o ar da cidade, do país inteiro. Ou será que o dia do Orgasmo é Mundial? Nesse caso o próprio planeta vai girar mais acelerado, impulsionado pelas ondas sonoras dos gritos e sussurros.
Imaginem só os chineses, tão obedientes, cumprindo a determinação. Mais de um bilhão (quantos serão eles agora? Dois bilhões?), mesmo que, pudicamente, abafem seus gritos, os gemidos uníssonos podem provocar ventos de mais de 100 km por hora. Que se encontram com os ventos causados pelos indianos, – mais um bilhão? –, que não me parecem precisarem ser estimulados a gozar. Afinal, foram eles que escreveram o Kama Sutra, não foram? Talvez aquelas posições complicadas sejam maneiras de evitar os gritos. Experimente se concentrar em plantar bananeira, abrir as pernas, suspender o yoni, alongar o yogi, e ainda gritar? Tudo se desequilibra! Não admira que os deuses hindus sejam azuis: com tanto malabarismo, se esquecem de respirar!…
Mas, supondo que os gritos chineses sejam seguidos pelos indianos, já provocamos um tufão capaz de fazer a Terra sair da rota. Vou parar de me preocupar, no entanto. Acho que aqui no Leblon o dia não "pegou" tudo está silencioso e calmo…
Talvez seja porque as pessoas estejam petrificadas como o sorriso do Brejvik (é assim o nome do coiso?). Mona Lisa? Dever cumprido? Quem sabe Botox? Viro a página e encontro mais um motivo de suspensão de tesão - um filme que se pretende interessante mas que é doentio. E que não merecia todo o estardalhaço que estão fazendo ao redor dele. Deixá-lo morrer no silêncio, no esquecimento, essa teria sido a melhor punição. Os gregos, que sabiam das coisas, quando o crime era muito ruim mesmo, ao invés de condenarem à morte, mandavam para o ostracismo. Ou, como diria meu avô, "Vai morrer longe!" Exílio, abandono, perda de lugar social, isso antigamente era feito fora dos muros da cidade. Agora é mesmo nas ruas, à vista de todos. Quantas pessoas não abandonamos à própria sorte (ou falta de), e passamos por elas sem ver, sem escutar, sem nos preocuparmos?
Talvez por isso, nessa manhã calma, só o que escuto sejam os sinos longínquos e o canto do bentevi. E motores de aviões que hoje já podem circular pelos ares cariocas.
Nas revistas, nenhum consolo. Apenas a frase do psicanalista, atestando que a dor do abandono é sempre proporcional à intensidade do afeto investido…Se nunca houve afeto, a gente se redime, né?
Será?
Talvez, no momento do orgasmo, células afetuosas se procurem e seja este o grande prazer de toda a coisa. Talvez seja melhor estabelecer o dia do Afeto, um pequeno gesto de boa vontade, um mínimo de compreensão, um olhar que se ilumine ao ver o rosto de um Outro. Afeição, pura e simples. Sem precisar de socos nem de gritos.

Tuesday, July 26, 2011

Que luxo!

Todo dia um tempinho para escrever, isso é um luxo!
Obrigada pela informação sobre o dia do escritor, amiga! Vejam nos comentários, por favor.
Hoje fui ao dentista, e, como sempre, fiquei ouvindo sua conversa, me informando. Foi lá que soube que as pessoas que foram assistir ao show da Amy Winehouse aqui no Rio e a viram bebendo, a cada gole, aplaudiam-na, incentivando sua persistência no vício.
Fico achando isso uma maldade: aplaudir a auto-destruição do outro é ter uma atitude mesquinha e sacana (desculpem o termo).
Passei o dia na rua, correndo para cá e para lá, e pensei numa porção de coisas para escrever aqui. Só que esqueci de tudo.
No final do dia, tomei um taxi, cujo motorista, ao contrário de mim, sabia de tu-do! Ele tinha um telefone desses que pegam televisão e estava assistindo o jornal, numa tela tamanho 3X4. E comentava desde a morte da Amy até a falência dos EUA, e ligava com o que tinha escutado na Voz do Brasil, e sempre pontuava com um:"eu não disse?"
O trânsito estava engarrafado e ele me deu uma aula de economia, outra de psicologia, mais uma outra de relações internacionais… Finalmente chegamos a nosso destino, e eu estava infinitamente mais sábia.
E aí fui conversar bobagens com uma amiga, feliz, feliz! É tão bom não saber de tudo… E ainda esquecer o que se soube um dia…

Monday, July 25, 2011

Dia do Escritor!


Parabéns para mim, nesta data querida…
Não sei por que, mas hoje é dia do Escritor. Aceito e comemoro, mas espero que alguém mais sabido que eu me conte o porquê do dia 25 de julho. O que teria acontecido nesta data?
Ontem, no Municipal, um dos Prazeres, o que é maestro da Orquestra da Petrobrás, falou de Prokofiev e de sua morte no mesmo dia da morte de Stalin. E acrescentou: Ele foi enterrado sem flores, pois todas tinham sido compradas para o enterro do ditador. (Bem, acho que ele não disse ditador.) Mas aquilo me deu uma pena enorme. Como se ele tivesse sido usurpado de um direito que era dele, o de ser enterrado com flores. Mas tem gente que não quer flores.
Não vou ficar falando disso aqui, flores ou não no enterro. Mas vou contar o que fiz nesta minha última ida à França. Visitei o túmulo de Rimbaud, em Charleville-Mezières, e também o túmulo de Proust, em Paris, no Père Lachaise. Acho que já até escrevi sobre isso. O túmulo de Rimbaud é de mármore branco e tem uma cruz e um pedido: Rezem por ele. É gêmeo do túmulo de sua irmã, e ficam os dois dentro de um cercadinho, como se estivessem prendendo a alma do poeta, para que ela não saia mais de lá. Em frente, do outro lado do caminho, tem um banco de jardim e fiquei sentada um pouco ali, pensando na incongruência daquele túmulo. E com uma outra preocupação: onde estará enterrada a pena amputada de Rimbaud. Quem assistiu Tomates verdes fritos aprendeu que partes grandes da anatomia humana, quando amputadas, precisam ser enterradas em cemitérios. Mas talvez possam ser doadas para estudos, acho eu. O que teria acontecido com a perna do poeta?
O túmulo de Proust fica meio fora de caminho, todo em mármore negro, seu nome em dourado escrito na campa. E nas laterais, o nome de seus pais, também enterrados ali. E, do outro lado, o de seu irmão e cunhada. Puxa, será que precisava amontoar toda a família no mesmo lugar? Que ele tenha ficado no mesmo túmulo dos pais, tudo bem. Ele ia gostar disso. Mas acho que seu irmão e sua cunhada não tinham ideia de como Marcel era importante para a história literária. Teria sido mais discreto deixarem o irmão brilhando sozinho.
Para terminar falando de flores: No túmulo de Rimbaud, nada. No de Marcel, recados manchados de chuva, e hediondas flores de plástico num vasinho. Uma maluquete passou por lá, leu o recado manchado, não gostou, e jogou-o no lixo. Resmungou algumas coisas para mim e foi-se embora. Não entendi nada. Mas fui até uma loja e comprei umas orquídeas. Queria Catleias, mas não havia. Comprei Wandas brancas e deixei lá sobre o túmulo. Para Rimbaud, levei um arranjo, com uma borboleta. Asas para ele voar. Espero que o tenham levado para longe.

Sunday, July 24, 2011

Boquitas pintadas

Adoro esse romance de Puig. Na verdade, adoro Puig, que cheguei a conhecer nas aulas da Bela Josef, outra que já partiu. Acumulo perdas pela vida afora. Na faculdade, são muitas. Além desses dois, tenho saudades do André Trouche, nosso querido Andrezinho, da Samira, e de outras pessoas que, embora estando vivas, nunca mais vi. Agora, recentemente, estive com o queridíssimo Jorge, que nos apresentou Fiamma, a difícil poeta:
A madeira tem os seus sinais
rumor demais…
Guardei esses versos de memória, mas guardo pouca coisa de memória, só me ficam as sensações de beleza e encantamento.
Por exemplo, tive uma professora, a Socorro, da qual gostava muito. Hoje nem sei que matéria ela ensinava. FundIber? O que seria isso? Tive outra, Maria Arminda, que passou por minha vida um único semestre, mas me deixou um presente para a vida toda: Marcel Proust. Tive uma professora, chatinha, tentando me ensinar complemento nominal. Era de uma sofisticação bizantina, o argumento dela. Mas ensurdeci e continuei sabendo apenas o que o Ivan Alves, o extraordinário professor do cursinho, me ensinou. Aprendi direitinho com ele. E com o Manuel Maurício, mefistofélico, incrivelmente provocador. Eu o adorava. Assim como adorava a Marlene e suas aulas sobre Drummond, a quem, por sua vez, ela adorava. Parecia o próprio poema: Lucinha adorava Marlene que adorava Drummond que estava namorando sei lá quem, o que me deixou chocadíssima o dia que descobri. Era como pegar meu avô em flagrante de adultério! Sofri com isso. Depois perdoei. E mais depois ainda, entendi. Juventude é muito radical e moralista.
Mas chega de divagações. O romance de Puig foi me arrastando por memórias desalinhavadas, quase que me afogando. Volto a ele para dizer que minha teoria da cor do baton e da palidez das ideias só deve ser aplicada nos palcos iluminados da vida. Sempre que alguém se postar num palco e tudo o que se notar for a cor do baton, é sinal de que as ideias são anêmicas, transparentes, minguadas… Na nossa humana experiência, no dia a dia, no cotidiano fugaz, um baton vermelho tem muito a contribuir com nossa realização. Minha querida Helena, a musa dos 90, não sai sem um batonzinho. E insiste para que eu o use, também.
Hoje de manhã, quando saí para caminhar, não passei baton, não. Mas devia de estar com a boca mais vermelha que o costume, pois fui notada. Primeiro uma gracinha – e só os homens que achamos feios e inapelavelmente sem graça soltam gracinhas… Depois olhares. Fiquei meio encucada. Achei que estava com alguma coisa estranha na roupa, ou no rosto. Mas me olhei no espelho e estava normal. Deve ter sido o casaco, fechado até em cima, que me protegia do frio. Depois que abri o casaco, ninguém mais me olhou. Amanhã irei de baton. Vermelhíssimo!

Saturday, July 23, 2011

Quase um mês!

Nossa, quase um mês de abandono de Blog. Será que isso dá demissão por justa causa?
Please, não me demitam! Quero continuar postando minhas historinhas, meus comentários sobre meu cotidiano pequenino e ter, assim, a impressão de que tudo se amplia, que minhas fronteiras não estão aqui no menor quartinho de minha casa, onde coloquei meu escritório.
Neste último mês viajei muito. Fui para a FLIP, assistir o meu ídolo, Antônio Cândido, falar – e muito bem– de outro ídolo: Oswald de Andrade. Foi a Flip Antropofágica, e eu não podia perdê-la, com essa comunhão temática com a tese que defendi no dia 18. O Banquete: uma degustação de textos e imagens.
Em minha cabeça cheguei mesmo a escrever alguns posts, um para defender minha nova e sensacional descoberta: quanto mais forte a cor do baton, mais pálidas são as ideias. Só que isso já passou, ninguém lembra mais de nada que se passou na Flip, só que o mãe quer procriar com o Chico Buarque (ou seria com o Caetano?) E eu embarco numa ficção científica que reescreve músicas: "E agora me pergunto com que útero que eu vou abrigar o espermatozóide que você me confiou"…
Bem, estou de volta. Pouco a pouco desenferrujarei dedos e ideias. Quero voltar a escrever minhas histórias, que me dão tanta alegria.
E, para quem possa estar curioso, sim, a tese foi aprovada! Doutourei-me. Coisa mais esquisita, esse verbo!

Tuesday, June 28, 2011

92 primaveras

Chavão, chavões!… Só que no caso da Helena os chavões ganham uma realidade que os justificam. Ela fez aniversário no domingo passado e ontem fiz um chazinho, com bolo e outras guloseimas para aquecer a tarde fria. Ela chegou no seu manteau vermelho (ainda existem "manteaus", com perdão do mau plural) e foi ela quem nos deu presente.
Reproduzo aqui o verso que ela trouxe para nos ensinar a como viver numa perene primavera:

Pour faire le portrait d'un oiseau

Peidre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger…
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre des longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
La vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom
dans un coin du tableau.

Jacques Prévert

Decididamente, Helena pode assinar o retrato do pássaro que é sua alma.