Thursday, August 25, 2011

Mamutes e jararacas

Reabilitaram as jararacas, cujo veneno virou remédio. Remédio para pressão, remédio para o cérebro, remédio para a gente pensar melhor. Já estava na Bíblia, como diria Nostradamus. Ou ele não diria, mas um leitor do profeta em questão poderia interpretar a serpente do gênesis como uma jararaca que estivesse protegendo o cérebro tão pouco usado de Adão e Eva. Em que os dois se ocupavam, no paraíso? Em dar nome aos bois, é o que diz a Bíblia. Adão ( e eu assumo que Eva também desse seus palpites) tinha como incumbência nomear todos os animais e vegetais. Toda a criação! Haja imaginação. Não admira que alguns nomes tenham saído feios. Mais que feios, horríveis. Querem um exemplo? Xenartros e suas zigapófises. Bem, esse seria um Adão helênico. Tentemos outros: carduça, deputado. Esse adão brasileiro, depois de inventar girassol, borboleta, cascata, papagaio, inventou mijo, rubicundo, catarro, súcubo. Gastou sua imaginação. E, sentindo preguiça, foi criando uns nomes adaptados, tipo "pé de mesa", "braço de cadeira", "cravo de defunto". Aliás, defunto é outra dessas palavras feias. Outras saíram bem legais. Abracadabra, por exemplo. Ao ouvi-la, a gente já espera alguma proeza, pois ser capaz de dizer abracadabra sem trocar nenhuma sílaba já é um prodígio. Em compensação estupro é uma dessas palavras que não precisavam ter sido inventadas. E que são reinventadas a cada vez que são faladas. Tente dizer estuprada num meio de frase, assim meio corrido. Vai sair diferente. E estupefaciente?! É mesmo um golpe que precisa de uma boa jararaca para ser corrigido! Jararaca, cascavel, jiboia, coral, as cobras possuem nomes sonoros como trinados, que aguardavam a reabilitação das peçonhentas (argh!)
Mamute era uma boa palavra. Pesada, sólida como o animal que designou, impunha-se numa frase. Infelizmente fizeram um filme terrível com esse nome, e o estragaram. Agora, ao ouví-la, vou me lembrar do Depardieu, de suas toneladas de nariz, de seus centímetros de braços, de seu rosto suarento e de seus cabelos ensebados (ugh!). Outro dia vi no facebook uma campanha de salvação de palavras. Quais as palavras que você salvaria? Acho que a pessoa estava se propondo a salvar "inconsútil". Eu poderia ficar com balangandã, mas talvez preferisse azul, ou luar, ou rio. Talvez essa última, com sua plurissemia (aiii!) que deixaria minha palavra ora verbo, ora topônimo, ora acidente geográfico. E a imagem de um rio azulado pelo luar se revesa com a do Rio banhado de luar azul… E, ao fundo, uma jararaca se desenrosca preguiçosa, à feição de um rio entre folhagens.

Sunday, August 21, 2011

Melancolia

Escolhi o sábado chuvoso para ver o filme do Lars von Trier. Fui assim meio de pé atrás, receando ficar deprimida, mas o filme não permitiu: lindo, interessante, com imagens e situações inesperadas, sem melodrama, mas com tantos detalhes saborosos!… Para mencionar apenas um, a figura deliciosa do organizador de festas que não quer olhar a noiva e cobre o rosto. Como no velho truque das caixas chinesas (estudei isso na Faculdade de Letras…) uma história repete a outra: um astro rebelde atrapalhando a festa. E ninguém quer ver.
Mesmo na escuridão, na depressão, nos desentendimentos, tudo o que fica é a beleza. Uma beleza nada piegas, mas sempre incompleta. Sem clichês, sem baboseiras, sem lágrimas desnecessárias, com uma boa dose de agressividade e uma excelente dose de silêncio. Com contundência. Saí de lá com a luz de Melancolia brilhando no meu horizonte e me dando vontade de viver num mundo assim. Assim como, ameaçado? Bem, ameaçado nosso mundo está, claro. Mas num mundo em que ainda encontramos pessoas que sabem o valor da vida. Mesmo que em extinção. E que sejam humanos até o último nanossegundo! Um filme que precisa ser visto e depois digerido, comentado e apreciado.
A semana foi de muita correria, de ida a São João de Meriti e de encontro com almas boas, íntegras, corajosas, cheias de esperança. Adorei. E espero que Sant'Anna e São Joaquim sejam felizes para sempre, mesmo que só no palco, sob a direção de Abílio Ramos. E que os poetas que conheci mantenham sua sensibilidade, sua integridade e sua força.
Visitei, pela primeira vez, a minha editora, Record, em suas incrivelmente simples instalações. Livros por toda a parte, fiquei com a impressão de que as divisórias são feitas por livros, e nada mais. Enchi meus olhos com uma coleção de Jabutis para ninguém botar defeito. O troféu não é lá uma beleza, nem brilha mais do que as estrelas. É pequenino, escurinho, quase uma muiraquitã. Mas segurar um, sopesá-lo, ler o que estava escrito em cada pedestal, me deixou com o que os americanos chamam de "longing". Não sei bem como traduzir: anseio, desejo? Admiração desejosa? O fato é que, de todos os prêmios literários no Brasil, o Jabuti é o que mais me encanta, pois tem aquela coisa modernista de "clã do jabuti", de sobrevivência na adversidade, que é a marca do herói totêmico de nossa nacionalidade. Viva o jabuti! Nosso heroi, esperto e desajeitado, meio lento, mas capaz de colar seus caquinhos e seguir em frente. Começo a entender minha identificação com ele…
E me lembro do poema de Drummond, que sempre me comove até às lágrimas, Elefante:

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos moveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,caio

no meu vasto engenho

como um simples papel

A cola se dissolve

e todo seu conteúdo

de perdão, de carícia

de pluma, de algodão,

jorra sobre o tapete

qual mito desmontado.


Amanhã recomeço.

Saturday, August 13, 2011

Cada qual com a madeleine que lhe aprouver…

Leitores de Proust sabem que a madeleine, aquele bolinho em forma de concha e gosto meio alaranjado, é a chave para as "memórias involuntárias", que a Clarice e outros escritores conhecem como "epifanias". Pois o Bloch hoje fala do seu chaveiro de jabulani como uma madeleine, e lá embarca ele num texto sobre roupas, mordidas de cachorro, Botafogo e Proust. E ainda consegue encaixar mais uma ou outra lembrança e uma e outra homenagem à sua ilustríssima família – isso para não mencionar o grande modelo de correção contra o qual se mede: Dapieve. Eita! Parabéns, seu Bloch, assim não precisa mesmo contar caracteres, você já chegou lá, nas merecidas férias!
Escrevo hoje numa reconciliação com o Prosa e Verso: fiquei de bom humor com a comédia da vida intelectual em quadrinhos. O leão de chácara perguntando se o cara tem carterinha de pedante é muito bom. Mas continuar e exigir que ele pague dois ingressos, um para ele, outro para o Ego, é tirada de gênio! E as outras tirinhas também são legais, como têm sido legais as pequenas vinhetas do Gatão de Meia Idade (no Segundo Caderno), falando dos presentes. Numa o Gatão oferece à sua gata, um livro de Proust. Ela agradece, dizendo: Que bom, a letra é bem grande! Noutro ele a presenteia com um disco (foi o que ele disse) de Chopin, e ela: "Dá para dançar? Adoro dançar!" Não preciso mais fazer assinatura dos paulistas! Mantenho minha esperança.
Mas a leitura continua, e me assusto: A matemática da ficção?! Contar histórias por meio de sucessões de máximas, silogismos e figuras geométricas?! A ficção como um objeto estranho "com o qual não saibamos muito bem o que fazer"?! Bem, se é matemática, talvez possamos acertar contas… Quem tem lucro?
Mas o Prosa fala sobre Versos, mesmo que seja à margem. Nas cartas, Vitor, que se apresenta como tradutor da UFRJ, concorda com PH Britto que afirma que no Brasil existem 300 leitores de poesia. Acho que não precisamos entrar na matemática da poesia, pois a ordem de grandeza é mesmo pequena em termos dos nossos 200 milhões de brasileiros… Na outra página, a chamada para uma exposição poética: TeKnósPoiÉsis – Poéticas do oral ao digital: uma experiência para todos os sentidos. Tudo junto e misturado, assim como seus patrocinadores. Fico curiosa, acho que vou acabar indo, mas desta vez telefono primeiro para evitar o barraco do Mia Couto. O evento foi muito procurado, mas a platéia era só de convidados. Os cidadãos do Rio, que financiam a Biblioteca Pública de Botafogo, são cidadãos de segunda classe perante os convidados da Cia das Letras… seria essa a lição? Espero que não. Hoje estou com um espírito muito magnânimo!
Mas aí a última reportagem me faz estremecer: O futuro do ensino de Literatura no país está prestes a sofrer um golpe?! E logo do desmoralizado ENEM(a)?! Resigno-me a embarcar nas estatísticas. Não tem jeito, para quem gosta de ler, a matemática está virando coisa fundamental. Cito:
"Poesia e letra de canção somadas comparecem em 42% das questões; romance, medíocres 12%; conto, apenas 3%; em contraste, histórias em quadrinhos têm gordos 19%".
Cito de novo:
"Drummond é quem mais aparece, 19 vezes; em seguida vem Machado de Assis e Bandeira, 7; depois, nenhum autor aparece mais de 5 vezes. Graciliano Ramos e João Cabral aparecem 3 vezes cada, menos do que Jim Davis (do Garfield) e Bob Thaves (da tira Frank e Ernest), com 4 vezes cada"…
Acho que é mesmo hora de mudar para os domínios da Matemática. Para mim, é um pouco tarde, mas aconselho aos novos escritores que sigam o exemplo do escritor português, e que usem suas letras para fazerem fórmulas algébricas. Misturando isso com uma tinta oriental, turca, árabe ou mesmo um certo ar africano, o sucesso de vocês estará garantido. Pelo menos até a próxima semana.

Friday, August 12, 2011

O drama da idade

Recebi de uma amiga, L, um email com muitos desenhos engraçados mostrando que o tempo passa para todos, até para os personagens de desenho. Vejam, Piupiu fez 60 anos esta semana, e lá aparecia ele sentadinho em seu poleiro, todo enrugadinho. A Barbie com 50, perdeu suas formas e se deliciava com bombons e TV. O Superman exibia seu barrigão de 72, o Thor e o Hulk, aos 48 anos, parecem aqueles coroas que, inconformados com a idade, se vestem como adolescentes. Batman e Robin aos 70, continuam juntos, só que o Robin, careca e encurvado, empurra a cadeira de rodas do Batman. A Mulher Maravilha, já quase aos 70, insiste no maiô, mas já não sidera mais ninguém, nem mesmo o cachorrinho que ela domina com seu chicote. O Spiderman, com mais de 50, envelheceu mal, e está preso ao soro, muito doente. São brincadeirinhas, e a gente ri, mas se inquieta um pouco. Principalmente quando junta isso à notícia da recuperação de Sininho, a hipopótamo que perdeu a mãe que estava com 53 anos. Segundo informava o jornal, a mãe foi sacrificada na sexta passada pois estava muito velha, já passara dos 48, média de vida dos hipos, e cheia de doenças: artrite, problemas respiratórios, úlcera sei lá o que mais. E a Sininho, com 10 anos, entrou em depressão e deixou de comer. A tratadora, entrevistada, disse que ela já tinha voltado a se alimentar, e que ia se recuperar, que era o processo de luto normal. Fiquei pensando que ninguém acha errado sacrificar um animal que sofre, mas todos se levantam contra a eutanásia. Por que será que os humanos estão condenados ao sofrimento? Por que libertamos apenas os animais? Quero ser "posta para dormir" caso as mazelas cheguem a me incapacitar!
Para terminar filosofando mais um pouco sobre idade, falo sobre Rosa, a peça que assisti ontem, e que não é propriamente sobre a velhice, mas sobre a memória. A memória de uma mulher judia, que se confunde com a história de seu povo. Rosa está de luto, mas um luto muito maior do que se possa pensar a princípio, pois está de luto pela humanidade perdida. É um monólogo muito bem sustentado pela atriz, que vai revelando as perdas sucessivas que não a abatem. Em sua trajetória, desamor e perdas, paixão e sobrevivência, Deus e a vida são avaliados com uma dose de humor, resignação, e encantadora vontade de acomodação. "Por outro lado", o que a sustentou e ao seu povo até então, periga de transformar-se num lado mais sombrio e ressentido, de acerto de contas infrutífero. Muito boa peça. E triste, embora seja engraçada. Como diria Rosa, é o "por outro lado"…

Thursday, August 11, 2011

Tempos de minha avó

Saio com a família e o papo é amor. Amor físico, que ontem foi tabu, coisa proibida, e hoje é discutido abertamente nas mesas de restaurantes. Fico escutando, descobrindo novas tecnologias que me fazem rir, graças à maneira que são descritas. Mas hoje, ao sentar aqui para escrever, o que me vem à lembrança são as histórias de minha avó.
Vovó era uma espécie de "terrorista" do sexo, suas conversas eram todas voltadas ao grande perigo de praticá-lo antes do casamento. Era uma história atrás da outra contando dramas familiares solucionados, às vezes, por um bom coquetel de guaraná com formicida. Claro que já existia a pílula anticoncepcional, mas essa ainda não tinha carimbado o passaporte no imaginário da minha avó. E o caso da virgem que engravidara do cunhado, "um sujeito porco, que deixava as toalhas sujas no banheiro!…" era comentado com algumas variações. A porca poderia ser a mulher ou a empregada. Na versão da minha avó, a virgem era sempre uma vítima.
Sua grande aversão era pelas "assanhadas" ou "sirigaitas". Essas eram um horror! Uma sirigaita dessas, apesar da mãe tão cuidadosa, que a acompanhava em todos os lugares, conseguiu "namorar" e engravidar na fila do leite! Era no tempo da guerra, acho eu, quando havia fila para tudo. A mãe devia mandar a filha para a fila bem cedinho, e lá ela encontrou um leiteiro ou outro cliente madrugador e tomou outro tipo de leite.
E haviam histórias terríveis, de moças que se enfaixavam todas para que não se descobrisse que estavam grávidas, e quando os filhos nasciam, estavam deformados porque não tinham podido se desenvolver. Ou histórias engraçadas de mulheres, respeitáveis e respeitosas que, quando grávidas, "enjoavam" do marido e só lhes apeteciam os maridos das vizinhas… Essas eram perdoadas. Afinal, enjoos de gravidez eram coisas que minha avó respeitava.
Uma história atrás da outra, mas agora, relembrando-as, vejo que em nenhuma delas era o sexo o vilão. Não tinha percebido isso, mas seu problema era a gravidez. Já na palestra de ontem, no SESC Tijuca, um dos participantes me contou de seus grupos na Igreja, e dos conselhos do padre: "quando sentirem os sintomas da atração, vocês devem se afastar e rezar até ficarem calmos!" Meu aluno comentou: "nós, com 14 ou 15 anos, se seguíssemos o conselho do padre não pararíamos de rezar!"
Bem, aí a gente fica pensando que, se todos os problemas do mundo fossem a sexualidade dos jovens, estaríamos no paraíso terrestre. O problema começou foi com Deus, ciumento, que não pode admitir aqueles dois adolescentes saudáveis e lindos fazendo aquilo que seus hormônios aconselhavam. Expulsar os dois por conta disso? Uma pequena mordida na maçã?! Mas se é uma maçã gostosa, sumarenta e doce, por que não?
Sábios são os americanos: an apple a day keeps the doctor away. Uma maçã por dia, sem culpas e sem desculpas pode ser o melhor remédio.

Monday, August 08, 2011

Sem prosa nem verso

Desapontamento: espero toda a semana pelo suplemento literário do Globo e, quando ele chega, tudo vem dedicado à cidade. Cadê meus livros? Será que vou ter que assinar jornal de São Paulo? Ôrra, meu!
Desapontamento II: Mia querido Couto fala hoje às 15:30h na Biblioteca de Botafogo. Por que justo no dia e na hora de minha aula? Será que vou ter que brigar com a Cia das Letras?
Desabafos à parte, não vejo razão para brigar com a Cia, que me proporcionou uma beleza de palestra no sábado passado. Alex Ross falando sobre Chacona, comemorando os 25 anos da editora. Ela vai trazer um time de gente boa, e finaliza com o Amos Oz… Acho que por isso tem ventado tanto aqui no Brasil, para anunciar a chegada do Mágico de Oz. Não, não precisam rir, a piada é mesmo boba, mas me permite uma transição de assunto, ao gosto de Machado, embora sem o mesmo talento. Passo para o vento, do vento ao frio, do frio ao nevoeiro, que pode perturbar a aviação mas que torna minha linda cidade misteriosa e desejável como Salomé. Que prazer andar pela praia e ir acompanhando o desvelamento preguiçoso das montanhas! E olhar o mar impetuoso com suas ondas, cercado pelas placas cautelosas : Cuidado, correnteza.
Fico querendo me transformar num barquinho de papel e me deixar flutuar até ver onde essa correnteza pode me levar… Na falta de coragem de mergulhar nas ondas (que devem estar geladas) flutuo nas ondas do pensamento e vejo a imagem do barquinho retirada do filme Persuasion. Adorei. Assisti encantada com umas coisas disparatadas, que não sei por que chamaram a minha atenção: Atores e atrizes fora dos padrões de glamour, mas dentro do espírito da época de Jane Austen – Sem maquiagem, sem tratamento de uniformização dos dentes, sem branqueamento exagerado.
Homens e mulheres suam, suas peles brilham, a gente quase que surpreende um cheiro de suor ao entrar nas casas junto com as câmeras. Os homens fascinam. Sei que ela descreve o universo feminino como ninguém, mas talvez por isso os homens – tão desejados – sejam extremamente fascinantes. Mesmo os que a gente, à primeira vista descartaria como horrorozinhos, logo se mostram encantadores seja pela sensibilidade, seja pelo aprumo com que envergam suas fardas. E que fardas! Dei por mim imaginando como seria difícil resistir àqueles maravilhosos oficiais de marinha, chegados vencedores das guerras napoleônicas, ricos com o botim de guerra, auto estima elevadíssima pela vitória, e estatura ampliada pelo chapéu. Numa das cenas, em que o grupo passeia pelo molhe e é mostrado em silhueta, era quase que um friso grego, não de meros mortais, mas de centauros. Bem, foi assim que os vi: altos, altíssimos, com suas crinas ao vento…
A história? Sim, sempre legal, um mecanismo de compensação de Miss Austen, que amou e foi amada através de suas personagens. Vingou-se das irmãs comedoras de doces, vingou-se das manipuladoras, zombou com simpatia das mães e tias faladeiras e preocupadas apenas com o casamento das herdeiras. Na sua bem educada compostura e na capacidade de observação e reflexão, as mulheres em segundo plano são premiadas em sua constância e equilíbrio. Viva Jane Austen! Estou quase acreditando que o amor acontece desse jeito, e que não se trata de um furacão que nos arrebata para Oz. Nem de um nevoeiro que torna a noite mais fria e que nos embriaga com seu cheiro de maresia… Embora noites assim possam ser ideiais para o amor!

Tuesday, August 02, 2011

Agosto já chegou

Nos tempos romanos, agosto era o mês mais prestigiado do ano: mês de Augusto, que surripiou um dia do meu pequeno fevereiro, pois não podia ficar com menos dias que o mês de Júlio César, que o antecede. É o mês do signo de Leão, mês do Sol e das honras – isso tudo lá no hemisfério norte–. Aqui é o mês do inverno, da volta às aulas e dos ventos. Também é conhecido como o mês de cachorro louco e mês do desgosto. Esse desgosto, que é uma rima e não uma explicação, talvez se deva ao suicídio de Getúlio, que já foi tão importante e hoje poucos sabem quem foi. (Triste o povo que não conhece seu passado, já disse algum filósofo, com outras palavras.)
Como é época de ventos, também é época de soltar pipa, e esses pedaços coloridos de sonhos sempre me encantaram muito. Hoje já quase não se vê alguém soltando pipa na zona sul. Mas domingo, passando pelo centro da cidade, lá estavam cerca de uma dúzia de pessoas se divertindo e mostrando sua perícia. Lindo! Sugiro um show de pipas, para a abertura dos jogos que se aproximam.
Mês de cachorro louco? Não sei por quê. Mas a loucura dos cachorros deve de estar contaminando os políticos do mundo afora, todos eles enlouquecidos disputando um osso do Estado. Não gosto de falar de política, mas olho com apreensão a derrocada dos EUA. Obama não tem coragem de persistir com seu blefe, pois me parece ser um homem de bem, interessado no país. Seus adversários são jogadores profissionais, e a eles só importa a vitória, mesmo que, vencendo, eles destruam o saloon. E observo com tristeza ainda maior o nosso próprio país, onde todo mês é mês de corrupção, onde todo órgão parece já estar sofrendo com a metástase deste câncer…
O mês é de frio (pouco) e de liquidações (muitas). De encontrar os amigos nas salas de aula, de tratar de estudar pois o ano já-já acaba. Imaginem, já entramos no segundo semestre!
Agosto é mês dos pais, mês de muitos aniversários, portanto, mês de muitas festas. Nada de começar dietas em agosto. Setembro já vem, e aí sim podemos experimentar aquelas dietas da lua, da sopa, do leite, do tipo sanguíneo, seja lá qual for a que estiver prometendo um verão com menos gordura.
Ainda dá tempo de tomar mais uma tacinha de vinho! Se esfriar mais um pouco, quem sabe um fondue na Casa da Suíça, ou um cozido farto, fumegante? Hmmmm, que delícia! Aproveitemos o augusto mês de agosto!

Sunday, July 31, 2011

Dia de quê?!

Do orgasmo!
Da pequena morte francesa. Do Big Bang, para alguns. Do vai chegando já passou, para outros. De plus, encore! Do fake: soque o travesseiro e grite, aconselha o jornal de hoje. Mas, os homens gostam de variedade, portanto, aconselham a alternar: grite e só então soque o travesseiro. Eu sugiro simultaneidade: grite enquanto soca o travesseiro. E me postarei à escuta, e ouvirei uma sinfonia orgasmática sacudindo o ar da cidade, do país inteiro. Ou será que o dia do Orgasmo é Mundial? Nesse caso o próprio planeta vai girar mais acelerado, impulsionado pelas ondas sonoras dos gritos e sussurros.
Imaginem só os chineses, tão obedientes, cumprindo a determinação. Mais de um bilhão (quantos serão eles agora? Dois bilhões?), mesmo que, pudicamente, abafem seus gritos, os gemidos uníssonos podem provocar ventos de mais de 100 km por hora. Que se encontram com os ventos causados pelos indianos, – mais um bilhão? –, que não me parecem precisarem ser estimulados a gozar. Afinal, foram eles que escreveram o Kama Sutra, não foram? Talvez aquelas posições complicadas sejam maneiras de evitar os gritos. Experimente se concentrar em plantar bananeira, abrir as pernas, suspender o yoni, alongar o yogi, e ainda gritar? Tudo se desequilibra! Não admira que os deuses hindus sejam azuis: com tanto malabarismo, se esquecem de respirar!…
Mas, supondo que os gritos chineses sejam seguidos pelos indianos, já provocamos um tufão capaz de fazer a Terra sair da rota. Vou parar de me preocupar, no entanto. Acho que aqui no Leblon o dia não "pegou" tudo está silencioso e calmo…
Talvez seja porque as pessoas estejam petrificadas como o sorriso do Brejvik (é assim o nome do coiso?). Mona Lisa? Dever cumprido? Quem sabe Botox? Viro a página e encontro mais um motivo de suspensão de tesão - um filme que se pretende interessante mas que é doentio. E que não merecia todo o estardalhaço que estão fazendo ao redor dele. Deixá-lo morrer no silêncio, no esquecimento, essa teria sido a melhor punição. Os gregos, que sabiam das coisas, quando o crime era muito ruim mesmo, ao invés de condenarem à morte, mandavam para o ostracismo. Ou, como diria meu avô, "Vai morrer longe!" Exílio, abandono, perda de lugar social, isso antigamente era feito fora dos muros da cidade. Agora é mesmo nas ruas, à vista de todos. Quantas pessoas não abandonamos à própria sorte (ou falta de), e passamos por elas sem ver, sem escutar, sem nos preocuparmos?
Talvez por isso, nessa manhã calma, só o que escuto sejam os sinos longínquos e o canto do bentevi. E motores de aviões que hoje já podem circular pelos ares cariocas.
Nas revistas, nenhum consolo. Apenas a frase do psicanalista, atestando que a dor do abandono é sempre proporcional à intensidade do afeto investido…Se nunca houve afeto, a gente se redime, né?
Será?
Talvez, no momento do orgasmo, células afetuosas se procurem e seja este o grande prazer de toda a coisa. Talvez seja melhor estabelecer o dia do Afeto, um pequeno gesto de boa vontade, um mínimo de compreensão, um olhar que se ilumine ao ver o rosto de um Outro. Afeição, pura e simples. Sem precisar de socos nem de gritos.

Tuesday, July 26, 2011

Que luxo!

Todo dia um tempinho para escrever, isso é um luxo!
Obrigada pela informação sobre o dia do escritor, amiga! Vejam nos comentários, por favor.
Hoje fui ao dentista, e, como sempre, fiquei ouvindo sua conversa, me informando. Foi lá que soube que as pessoas que foram assistir ao show da Amy Winehouse aqui no Rio e a viram bebendo, a cada gole, aplaudiam-na, incentivando sua persistência no vício.
Fico achando isso uma maldade: aplaudir a auto-destruição do outro é ter uma atitude mesquinha e sacana (desculpem o termo).
Passei o dia na rua, correndo para cá e para lá, e pensei numa porção de coisas para escrever aqui. Só que esqueci de tudo.
No final do dia, tomei um taxi, cujo motorista, ao contrário de mim, sabia de tu-do! Ele tinha um telefone desses que pegam televisão e estava assistindo o jornal, numa tela tamanho 3X4. E comentava desde a morte da Amy até a falência dos EUA, e ligava com o que tinha escutado na Voz do Brasil, e sempre pontuava com um:"eu não disse?"
O trânsito estava engarrafado e ele me deu uma aula de economia, outra de psicologia, mais uma outra de relações internacionais… Finalmente chegamos a nosso destino, e eu estava infinitamente mais sábia.
E aí fui conversar bobagens com uma amiga, feliz, feliz! É tão bom não saber de tudo… E ainda esquecer o que se soube um dia…

Monday, July 25, 2011

Dia do Escritor!


Parabéns para mim, nesta data querida…
Não sei por que, mas hoje é dia do Escritor. Aceito e comemoro, mas espero que alguém mais sabido que eu me conte o porquê do dia 25 de julho. O que teria acontecido nesta data?
Ontem, no Municipal, um dos Prazeres, o que é maestro da Orquestra da Petrobrás, falou de Prokofiev e de sua morte no mesmo dia da morte de Stalin. E acrescentou: Ele foi enterrado sem flores, pois todas tinham sido compradas para o enterro do ditador. (Bem, acho que ele não disse ditador.) Mas aquilo me deu uma pena enorme. Como se ele tivesse sido usurpado de um direito que era dele, o de ser enterrado com flores. Mas tem gente que não quer flores.
Não vou ficar falando disso aqui, flores ou não no enterro. Mas vou contar o que fiz nesta minha última ida à França. Visitei o túmulo de Rimbaud, em Charleville-Mezières, e também o túmulo de Proust, em Paris, no Père Lachaise. Acho que já até escrevi sobre isso. O túmulo de Rimbaud é de mármore branco e tem uma cruz e um pedido: Rezem por ele. É gêmeo do túmulo de sua irmã, e ficam os dois dentro de um cercadinho, como se estivessem prendendo a alma do poeta, para que ela não saia mais de lá. Em frente, do outro lado do caminho, tem um banco de jardim e fiquei sentada um pouco ali, pensando na incongruência daquele túmulo. E com uma outra preocupação: onde estará enterrada a pena amputada de Rimbaud. Quem assistiu Tomates verdes fritos aprendeu que partes grandes da anatomia humana, quando amputadas, precisam ser enterradas em cemitérios. Mas talvez possam ser doadas para estudos, acho eu. O que teria acontecido com a perna do poeta?
O túmulo de Proust fica meio fora de caminho, todo em mármore negro, seu nome em dourado escrito na campa. E nas laterais, o nome de seus pais, também enterrados ali. E, do outro lado, o de seu irmão e cunhada. Puxa, será que precisava amontoar toda a família no mesmo lugar? Que ele tenha ficado no mesmo túmulo dos pais, tudo bem. Ele ia gostar disso. Mas acho que seu irmão e sua cunhada não tinham ideia de como Marcel era importante para a história literária. Teria sido mais discreto deixarem o irmão brilhando sozinho.
Para terminar falando de flores: No túmulo de Rimbaud, nada. No de Marcel, recados manchados de chuva, e hediondas flores de plástico num vasinho. Uma maluquete passou por lá, leu o recado manchado, não gostou, e jogou-o no lixo. Resmungou algumas coisas para mim e foi-se embora. Não entendi nada. Mas fui até uma loja e comprei umas orquídeas. Queria Catleias, mas não havia. Comprei Wandas brancas e deixei lá sobre o túmulo. Para Rimbaud, levei um arranjo, com uma borboleta. Asas para ele voar. Espero que o tenham levado para longe.

Sunday, July 24, 2011

Boquitas pintadas

Adoro esse romance de Puig. Na verdade, adoro Puig, que cheguei a conhecer nas aulas da Bela Josef, outra que já partiu. Acumulo perdas pela vida afora. Na faculdade, são muitas. Além desses dois, tenho saudades do André Trouche, nosso querido Andrezinho, da Samira, e de outras pessoas que, embora estando vivas, nunca mais vi. Agora, recentemente, estive com o queridíssimo Jorge, que nos apresentou Fiamma, a difícil poeta:
A madeira tem os seus sinais
rumor demais…
Guardei esses versos de memória, mas guardo pouca coisa de memória, só me ficam as sensações de beleza e encantamento.
Por exemplo, tive uma professora, a Socorro, da qual gostava muito. Hoje nem sei que matéria ela ensinava. FundIber? O que seria isso? Tive outra, Maria Arminda, que passou por minha vida um único semestre, mas me deixou um presente para a vida toda: Marcel Proust. Tive uma professora, chatinha, tentando me ensinar complemento nominal. Era de uma sofisticação bizantina, o argumento dela. Mas ensurdeci e continuei sabendo apenas o que o Ivan Alves, o extraordinário professor do cursinho, me ensinou. Aprendi direitinho com ele. E com o Manuel Maurício, mefistofélico, incrivelmente provocador. Eu o adorava. Assim como adorava a Marlene e suas aulas sobre Drummond, a quem, por sua vez, ela adorava. Parecia o próprio poema: Lucinha adorava Marlene que adorava Drummond que estava namorando sei lá quem, o que me deixou chocadíssima o dia que descobri. Era como pegar meu avô em flagrante de adultério! Sofri com isso. Depois perdoei. E mais depois ainda, entendi. Juventude é muito radical e moralista.
Mas chega de divagações. O romance de Puig foi me arrastando por memórias desalinhavadas, quase que me afogando. Volto a ele para dizer que minha teoria da cor do baton e da palidez das ideias só deve ser aplicada nos palcos iluminados da vida. Sempre que alguém se postar num palco e tudo o que se notar for a cor do baton, é sinal de que as ideias são anêmicas, transparentes, minguadas… Na nossa humana experiência, no dia a dia, no cotidiano fugaz, um baton vermelho tem muito a contribuir com nossa realização. Minha querida Helena, a musa dos 90, não sai sem um batonzinho. E insiste para que eu o use, também.
Hoje de manhã, quando saí para caminhar, não passei baton, não. Mas devia de estar com a boca mais vermelha que o costume, pois fui notada. Primeiro uma gracinha – e só os homens que achamos feios e inapelavelmente sem graça soltam gracinhas… Depois olhares. Fiquei meio encucada. Achei que estava com alguma coisa estranha na roupa, ou no rosto. Mas me olhei no espelho e estava normal. Deve ter sido o casaco, fechado até em cima, que me protegia do frio. Depois que abri o casaco, ninguém mais me olhou. Amanhã irei de baton. Vermelhíssimo!

Saturday, July 23, 2011

Quase um mês!

Nossa, quase um mês de abandono de Blog. Será que isso dá demissão por justa causa?
Please, não me demitam! Quero continuar postando minhas historinhas, meus comentários sobre meu cotidiano pequenino e ter, assim, a impressão de que tudo se amplia, que minhas fronteiras não estão aqui no menor quartinho de minha casa, onde coloquei meu escritório.
Neste último mês viajei muito. Fui para a FLIP, assistir o meu ídolo, Antônio Cândido, falar – e muito bem– de outro ídolo: Oswald de Andrade. Foi a Flip Antropofágica, e eu não podia perdê-la, com essa comunhão temática com a tese que defendi no dia 18. O Banquete: uma degustação de textos e imagens.
Em minha cabeça cheguei mesmo a escrever alguns posts, um para defender minha nova e sensacional descoberta: quanto mais forte a cor do baton, mais pálidas são as ideias. Só que isso já passou, ninguém lembra mais de nada que se passou na Flip, só que o mãe quer procriar com o Chico Buarque (ou seria com o Caetano?) E eu embarco numa ficção científica que reescreve músicas: "E agora me pergunto com que útero que eu vou abrigar o espermatozóide que você me confiou"…
Bem, estou de volta. Pouco a pouco desenferrujarei dedos e ideias. Quero voltar a escrever minhas histórias, que me dão tanta alegria.
E, para quem possa estar curioso, sim, a tese foi aprovada! Doutourei-me. Coisa mais esquisita, esse verbo!

Tuesday, June 28, 2011

92 primaveras

Chavão, chavões!… Só que no caso da Helena os chavões ganham uma realidade que os justificam. Ela fez aniversário no domingo passado e ontem fiz um chazinho, com bolo e outras guloseimas para aquecer a tarde fria. Ela chegou no seu manteau vermelho (ainda existem "manteaus", com perdão do mau plural) e foi ela quem nos deu presente.
Reproduzo aqui o verso que ela trouxe para nos ensinar a como viver numa perene primavera:

Pour faire le portrait d'un oiseau

Peidre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger…
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre des longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
La vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom
dans un coin du tableau.

Jacques Prévert

Decididamente, Helena pode assinar o retrato do pássaro que é sua alma.

Monday, June 27, 2011

Violência e paixão

Estou abusando dos títulos de filmes aqui no blog. Mas é uma espécie de homenagem que presto. O filme do Woody Allen me agradou, mas foi num nível superficial, num nível de reencontro com amigos numa festa. A gente fica feliz de ter encontrado com eles, mas o papo não é profundo, não existe uma verdadeira satisfação intelectual. Mas é tão bom, que a gente fica querendo ir outra vez à festa, para começar tudo de novo. Portanto, assumo que gostei do Minuit e que quero voltar a vê-lo mais uma vez e que, depois, sempre que o reencontrar por acaso numa tv da vida terei prazer em assisti-lo. E por isso escrevi um conto (está no Histórias Possíveis) chamado Paris, meio dia. Também é um passeio carinhoso, cheio de saudades recentes.
Violência e paixão, do Visconti, é um daqueles filmes que nos atropelam e nos deixam estonteados na beira da estrada, sem sabermos bem o que nos nocauteou. Visconti tem uma característica encantadora: seu detalhismo. A gente pode reassistir seus filmes vezes sem conta, e decidir: hoje vou prestar atenção na trilha sonora, ou no vestuário, ou nos cenários, ou nos diálogos, ou na iluminação, ou… Seja lá o aspecto que escolhermos, vamos ter muito para digerir, e pensar, e nos encantar. Meu favorito de todos os tempos é O Leopardo, onde tudo é perfeito. Me contaram que, dentro das gavetas das cômodas do palácio, Visconti tinha guardado roupas de época que sua produção penou para encontrar. Eram não apenas vestidos e fraques e uniformes verdadeiros, mas roupa de cama, bordada e brasonada, rendas, toalhas de mesa, roupas de baixo, tudo como se o palácio estivesse habitado. Um dos produtores, exasperado com as buscas, desabafou: Para que isso? Afinal, quem vai saber o que está dentro das gavetas? Elas não vão ser abertas! E o Visconti, impávido: Eu saberei!
Ele sabia e nós é que lucramos. A gente quase que pode sentir o fedor do corpo em decomposição, perturbando a reza daqueles nobres em sua hora de angústia. É preciso que tudo mude para continuar a mesma coisa (essa é minha paráfrase), a frase com que Salinas instrui Tancredi é de um cinismo e de uma sabedoria inesgotável. A gente quase que pode escrever um tratado a partir daí.
Este Violência e paixão tem uma outra proposta. Tem um encantamento e uma doçura que tornam a violência ainda mais contundente. Tem essa coisa indefinível que não consigo nunca exprimir bem o bastante, que é o olhar meio alheado do intelectual, que olha de fora mas deseja o que vê, e não percebe que faz parte daquilo tudo. Ele se julga alheio e não percebe que é uma das partes fundamentais do jogo do poder. Acha que sua mente e seu julgamento estético, ou sua racionalização e imparcialidade o protegem. Ledo engano! Ele está envolvido até o âmago, e é cúmplice de tudo. Mesmo quando se retira.
Ao contrário do Il gattopardo, os cenários não são naturalistas: Cada vez que a janela se abre a paisagem mostrada é exagerada, os detalhes barrocos se transformam em monstruosidades góticas e diminuem as dimensões humanas – joguetes. A cópia restaurada, segundo o anúncio do jornal, "resgata a música da iluminação" - frase de efeito meio boba, em minha modesta opinião, mas que serviu para que eu tentasse observar algo sobre a mesma. Confesso que não tenho sensibilidade para tanto. Olho mais o andamento lento da câmera, que contempla amorosamente rostos e corpos, mas passeia rápida e fugazmente sobre os livros e obras de arte colecionadas pelo protagonista. Percebo a proximidade com que ela passeia dentro dos aposentos do professor, e sua distância teatral no belíssimo apartamento moderno e claríssimo da duquesa. Escuto as explosões, repetidas e realçadas, e perco os acordes das músicas clássicas, perturbadas pelas canções modernas. Invejo roupas, tão lindas, meu Deus! Me admiro com os olhares, límpidos ou amorosos, ou absolutamente terríveis. Sinto o gosto do sangue derramado…
Não sou crítica de cinema, mas adoro assistir coisas boas. Esse é um dos filmes mais lindos de Visconti. Tão lindo que não consegui assistir outro durante todo o fim de semana prolongado. Sinceramente, não dá para rever Minuit depois desse. Ontem à noite, dei uma olhada num do telecine, A missão. Belo. Mas parei de me interessar ainda no início. Ainda preciso de tempo para voltar a ver outros filmes…

Monday, June 13, 2011

Minuit à Paris

Não vou falar do filme, vou falar dessa minha passagem para o último dia, e minha ansiedade em determinar o que fazer nas últimas horinhas. Bem, de manhã, vou precisar arrumar os livros. Sim, os livros, pois vim com uma malinha de mão de roupas e volto com a mesma malinha de mão de roupas. Em compensação, tenho um saco daqueles enormes cheios de livros. E de um jogo de cama, pois assim poderei "dormir em Paris" quando desejar. Espertinha, né? Meu quarto vai ficar lindo, muito parisiense! Vou borrifar o ar com um cheirinho de lavanda e pronto! Sonharei que estou em Paris. No entanto, já contei e já repeti que não sonho. Eu sei, sonho, mas não lembro, portanto é como se não sonhasse.
Depois, já decidi: Vou passear pela Île St. Louis e pelos Champs Elysées. Ainda não consegui passar pelo Rond Point, para checar as flores! Depois volto para pegar as malas e vou para o aeroporto. O voo sai tarde, acho que 11:20 da noite. Vou ter que jantar no próprio aeroporto. Se eu tivesse um remédio para dormir, eu tomaria, para ver se consigo dormir. Mas não tenho. Vamos ver se consigo descansar um pouco. Sinceramente, prefiro os voos diurnos. Leio, vejo filmes, converso, escrevo e, ao chegar em casa, posso ir dormir numa posição confortável, deitada, banhada, cheirosa e vestida com roupa de dormir. Um luxo!
Bem, agora que já decidi, vou ver se consigo dormir.
A gente volta a se falar no Brasil.

E viva Santo Antônio!

Esqueci de comemorar o santo, que de tão poderoso virou o "santo casamenteiro"! Mas, como diz minha querida amiga Cris Nadruz, bom mesmo é São Gonçalo do Amarante, que não arranja marido e sim…amante.

E lá se vão os dias…

Os dias passam, mas a chuva não. Ela vai, mas volta e, quando cai, é gelada. Não tem jeito, o verão em Paris é muito frio, mesmo! Nisso os dias vão passando. Ir a museus, desistir de ir a museus por causa das filas extraordinárias, caminhar pelo Marais e ver o incessante vai e vem de pessoas, ficar sem coragem de passear pelos Champs Elysées, imaginando "la foule", passear pela beira do Sena, passar e repassar pela Tour Eiffel, que acaba se tornando um objeto de reflexão. Quando a gente se aproxima dela, suas proporções impressionam, as torções impressionam, as fundações enormes nos obrigam a pensar: como é que construíram isso pensando que seria provisória? A ideia desses homens do passado era diferente da nossa, ou o tempo era diferente do nosso, de outra qualidade, mais denso. Estou como Clarice, sem saber como dizer as coisas, tateando. Ontem, passei em frente à Trinité. Enorme, com sua torre central, escadarias, jardins, estátuas, nichos, decorações, e, surpreendentemente construída em 1860 - o que a faz muito nova em comparação com as outras igrejas de Paris. As dimensões impressionantes a aproximam da Torre, que foi construída unas décadas depois. Mas essa é a época da Paris que nos impressiona: Haussmann, derrubando tudo e abrindo largas avenidas e boulevares, nos lugares das antigas muralhas. Napoleão, com seus arcos de triunfo e os obeliscos trazidos de "souvenir" do Egito. Acho que mais de metade das ruas de Paris (é um chute exagerado) tem nomes de batalhas: Iéna, Marengo, Austerlitz, sei lá que mais. Ou de generais, os herois do tempo de Napoleão. O Champs de Mars, com sua Escola Militar, enorme, rodeada de praças e de bistrots ( dos oficiais, da escola, da batalha etc). Paris se sustenta entre a luta e a fé. Existe a Sorbonne, é verdade, que nasceu católica. Mas a Sorbonne não tem a monumentalidade dessas outras construções, está imprensada entre as ruelas do passado medieval, vestígios da mais antiga Paris, quase que ainda de Lutèce. Esta parte de Paris, labirintica, é parecida com Roma. E aí a gente vê um contraste: a monumentalidade em Roma está na antiguidade, na Roma Imperial. Aqui a monumentalidade também se deve ao Império, só que este ocorreu no século XIX. Não que não houvesse construções magníficas e monumentais em outra época, claro. Notre Dame, o Louvre, outras igrejas e palacetes, mas elas não possuem uma perspectiva, um espaço que convide o povo a se admirar delas. Só Versailles, que não está em Paris, no entanto. E o Louvre, que ganhou sua perspectiva a partir do eixo dos Arcos triunfais.
Bem, seja nos parques, seja nas ruelas, Paris e Roma nos encantam e surpreendem, e nos fazem pensar nos caminhos e desvios da História.

Friday, June 10, 2011

Frio e chuva

Frio e chuva não tornam Paris menos apetecível. Esta é uma dessas cidades que o gris torna mais atraente, mais definida. As ruas, molhadas, ganham um brilho de aço, cortante, e os instantes de sol (afinal, o verão já está aí, batendo à porta) fazem as pessoas levantarem seus rostos, de olhos fechados, se entregando, amorosos, às promessas de bom tempo. As árvores sacodem gotas geladas sobre os passantes, os garçons entram e saem com suas cadeiras, a cada mudança de tempo. Os turistas, em hordas, invadem as lojas de quinquilharias, ou desfilam seus hediondos ponchos de plástico por entre os monumentos da cidade. Aproveitei para ir ao cinema, mais uma vez. Fui ver o documentário do Wim Wenders sobre Pina Bausch. Que linda homenagem! Que pessoa interessante ela foi, e que companhia excepcional ela criou. Deve ter sido uma experiência muito intensa trabalhar com ela, que nunca dizia aos outros o que fazer. Num dos depoimentos, a dançarina fala isso, e depois diz: Ela só dizia que eu precisava continuar tentando! E conclui: e assim eu continuei tentando, sem saber para onde estava indo, nem se estava indo na direção certa. Bem, devia estar indo. Afinal, ela continuou com a Pina por mais de 20 anos. Isso é uma outra coisa que chama a atenção: os bailarinos passaram a vida juntos. Uma delas nasceu praticamente no palco, filha de dois deles. Quando ela fala, diz: Não sei o que é a vida sem a Pina. Outra diz: Por 22 anos Pina sentou-se naquela mesa e me olhou atentamente. Ela me conhece mais do que os meus pais.
Como se fosse uma força da natureza, Pina usava terra e água em seus espetáculos. Às vezes o resultado era lírico, forte e vital. Às vezes era violento, muito violento. E os objetos que ela usava poderiam se transformar ora em obstáculos ora em ferramentas para a liberdade. Outra coisa, eram as repetições, os mesmos gestos se repetindo obsessivamente, como se estivessem criando uma linguagem nova, ou num outro extremo, como se estivessem aprisionando as pessoas.
Bem, agora vou ler. O hotel em que estou hospedada está sendo reformado e o cheiro de tinta me deixa inquieta, impaciente. Vou ver se a leitura me distrai.

Thursday, June 09, 2011

Paris, encore

Ontem escrevi um post, publiquei fotos, e, de repente, Zut! Tudo sumiu. Seria um sonho? Agora não tenho tempo para escrever, nem para colocar as fotos de novo. As máquinas estão se rebelando contra mim: meu telefone celular há dias que resolveu parar de funcionar. E agora?Hoje chove e faz muito frio em Paris. Mas o hotel está em reforma e prefiro a chuva e o frio ao cheiro de tinta. Vou passear, e mais tarde, quando voltar ao hotel, vejo se consigo escrever mais um pouco.
Au revoir!

Tuesday, June 07, 2011

Recantos


Alguns recantos escondidos de Paris me deixam encantada. A gente vê uma porta aberta e encontra um pátio, ou uma escada curvando-se suavemente para ambientes que a gente não conhece, mas que sonha que são magníficos.
No meu primeiro dia em Paris, tirei a foto desta escada. Um pátio, que levava a uma lojinha de curiosidades, já não me lembro bem de que era a loja, mas tinha a ver com cozinha… Desculpem. logo à esquerda esta escada, cuja suavidade dos degraus e da sua curva nos convidam a subir. Ao fundo do pátio, uma árvore carregadinha de nêsperas, e, embaixo da árvore, uma estátua de bronze de um viado. Tirei foto de tudo, mas o blog não aguenta tanta imagem. Fiquei com a da escada, que nos eleva.
No dia seguinte, lá fui eu flanar perto da Notre Dame. Tinha até escolhido uma imagem dela, de um ângulo mais inusitado. Mas acabei optando por um poço abandonado ao lado da igreja de Saint Julien Le Pauvre..
Repito: ao lado de St. Julien Le Pauvre. Mesmo abandonado, um poço ainda é uma promessa de água, para nos dar vida e sustento. Fiquei com estas simbologias tão positivas e imagens que adorei.
Gosto destas lembranças assim, só minhas. Vou pela cidade, lembrando: aqui recebi um telefonema de uma amiga, que não sabia que eu estava viajando, aqui senti pena de uma mendiga cujo cheiro forte me impediu de examinar o mapa do ônibus. Ali sentei para descansar, e fiquei conversando com o Gui sobre o que se come no paraíso. E por aí vai. Beber água numa determinada fonte, marcar com alguém para se encontrar num determinado lugar, preferir um determinado cinema a outro, são essas pequenas coisas que fazem das cidades e dos lugares alheios, recantos cheios de lembrança. Criamos uma geografia sentimental que se superpõe aos mapas e gps. A gente sabe ir a tal lugar porque passa por uma árvore que sempre está florida nesta época do ano. E come em tal restaurante porque era ali que seu amor gostava de comer uma sobremesa especial. E dá a volta no quarteirão só para ver um portãozinho de ferro batido que você acha lindo. Por isso volto a Paris, e cada vez que volto entesouro mais coisas que farão da Paris de todos, uma Paris toda minha, especial.