Saturday, April 30, 2011

Na manhã seguinte

Os sinos já não tocam,
na manhã seguinte.
Os sinais da festa se espalham
pelo chão.
Restos.
Nenhuma trombeta,
nenhum casamento real,
só a vida real.
Real?
Abro os olhos e vejo o céu.
Algumas nuvens se anunciam,
O sol, esquentando, não decide
se acaba com elas com um sopro
ou se deixa que, como gatos,
elas passeiem e adormeçam
em recantos improváveis.
Lá longe
outros olhos bem abertos
piscam ofuscados
com as luzes e as jóias.
O encanto dura até o beijo
de um príncipe.
Aqui meus olhos
procuram notícias de ontem.
A morte da filha do poeta
me assombra.
Aqui, tão perto?
Por quê? O que apagou
teu sorriso?
Sonho ou pesadelo
a vida…
Observamos,
contamos,
elaboramos.
Na manhã seguinte
o sol, indiferente,
não lembra mais
aquilo que testemunhou.
Ele segue,
ou persegue
uma nova promessa
de (in)felicidade.

Sunday, April 24, 2011

Páscoa em NY

A chuva tem me acompanhado nesta viagem, mas nem posso reclamar, pois, vez ou outra, ela fica com dó de mim e se recolhe. E aí volto a experimentar o encanto que é a primavera. Flores que brotam de um dia para outro, tulipas com suas corolas rosas, roxas, vermelhas, os daffodils (cujo nome não aprendo nunca em português), crocuses (outro que nunca sei o que é), narcisos, com seu perfume forte, jacintos, procurando sua imagem no espelho… E as árvores, floridíssimas, nuvens brancas, rosas de todos os tons, belas magnólias, outras árvores brancas, em pequenos ramalhetes, profusões de cores e belezas. Desta vez as flores tardaram a aparecer, mas hoje, domingo de Páscoa, elas estavam por toda a parte. Nas árvores bordejando as ruas, nos vasos de plantas, nos canteiros dos prédios, nos jardins da cidade, nos chapéus da Easter Parade, nas vitrines das lojas, nas próprias lojas de flores.
O sol abriu e todo o mundo saiu para se mostrar, em belas roupas, chapéus extravagantes, criações exclusivas ou massificadas, misturando-se aos protestos contra a homofobia. Durante horas nos divertimos, minha anfitriã, sua filha e eu, olhando cachorros vestidos como gente, gente vestida como flor, flores se agigantando em chapéus que se pretendiam jardins, pontes, cidades inteiras… Aqui e ali coelhos de Páscoa. Aqui e ali, deusas Floras. Aqui e ali figuras do passado, elegantes, distintas, tão elegantes e distintas que pareciam os convidados do casamento real que está por acontecer. No meio de tudo, músicos, marionetes, acrobatas. O ar se enchendo com o cheiro dos cachorros-quentes e dos pretzels. Um policial, a caráter, parecia fazer parte do desfile.
De bom humor, as pessoas desfilavam, paravam, sorriam para fotos. Finalmente, os jardins do Rockfeller Center, com seus coelhos em topiária, suas flores, convidando a um instante de descanso e a mais algumas fotos. Afinal, tudo estava tão bonitinho…
Numa rua lateral, uma senhora exibia suas belíssimas pernas envoltas em meias arrastão. Suponho que ela tenha sido corista da Broadway, quando nova… Duas irmãs, com presumíveis oitenta anos, exibiam elegantes chapéus, sentadas num banco do Central Park, descansando.
No zoológico, os bichos, encalorados, deitavam-se e olhavam a fauna humana que vinha visitá-los, exibindo cores inusitadas e roupas fora do comum. Algumas famílias judaicas circulavam de jaula em jaula, com suas roupas diferentes e seus cachos emoldurando os rostos avermelhados de calor. Um dos homens mais velhos, enorme de gordo, tão gordo que até a parte de cima de sua nuca era gorda, usava, ao invés de calças compridas, calções e meias, e uma espécie de bata de cetim. Sua cabeça estava toda raspada, com exceção dos dois cachos, também gordos, que ladeavam sua face. Era impossível deixar de notá-lo no meio dos outros.
No fim da tarde, a chuva veio dispersar a parada. Já em casa, escutei o temporal caindo, satisfeita de estar bem abrigada, e recordando o dia de ontem, passado com muita chuva, mas dentro de um teatro da Broadway, me divertindo com a Família Addams. NY é muito bom!


Saturday, April 23, 2011

Mais histórias de Chicago

No dia seguinte, fez sol. Um dia lindo, e fomos visitar o Art Institut. Destaques? A linda janela de Chagall, claro, que eu estava doida para ver. Os impressionistas, os Van Gogh, os arlequins de Cézanne e Picasso, lado a lado, e a instalação de Jitish Kallat, Public Notice 3, com as palavras de Vivekananda, em 11 de setembro de 1883, um discurso feito contra o fanatismo religioso. O mais estranho? A exposição de fotos de Peter Fischli e David Weiss, com salsichões e frios. Dejà vu? A expo Kings, Queens and Courtiers, embora, graças à leitura do Meu nome é vermelho, do Pamuk, os manuscritos iluminados tenham adquirido outro interesse para mim. Sempre gostei deles, mas desta vez tentava reconhecer estilos e detalhes, embora as iluminuras pertencessem a uma outra tradição.
Resumindo? Uma manhã de sonho! Além do mais, como o dia estava lindo e o frio (muito) era amenizado pelo sol, deu para ir caminhando e olhando os prédios, cada qual mais lindo. Rapidinho chegamos ao Millennium Park, e nos extasiamos. Ao chegar ao Bean, um feijãozão espelhado que reflete a arquitetura ao seu redor e faz dos passantes parte da obra, nos divertimos, procurando as melhores imagens. Vale mencionar também as fontes, que captam as imagens dos passantes, projetam-nas e fazem da boca de seus retratos a saída do esguicho.
Depois do museu, uma passadinha no Palmer House, arranha céu que abrigou a ourivesaria do Mr. Peacock (pavão). Muito orgulhosamente o Sr. Pavão mandou fazer uns portões com o dito pássaro, e esses portões estão avaliados em milhares de dólares. Hoje em dia o edifício é um Hotel e o Lobby, grandioso, o faz parecer um palácio, com sua decoração meio híbrida, com elementos decô, reminiscências de palácios rococó, uma grande orgia de mais de um milhão de dólares (valor da restauração). Depois? Visita ao escritor João Almino, que é também embaixador, e que está em Chicago. Demos sorte, pois ele estava de partida para a Itália, onde vai fazer uma série de palestras relacionadas a seus livros. João Almino foi absolutamente encantador. Terminamos o dia com um jantar com Susan Harris, editora de Words Without Borders, que é um dínamo, cheia de vitalidade e de ideias. Ela já tem planos para as revistas que vão sair em 2014! E, apesar de todo esse planejamento, ela se mantém muito alerta e aberta às mudanças, pois o mundo vive nos surpreendendo.
Sexta feira amanheceu chuvosa, fria, enevoada. Mas nós tínhamos sido chamadas para o show da Oprah, e lá fomos nós, debaixo de chuva e de frio, para o Harpo Studio. Lá chegando, assinamos um papel que nos comprometia a não revelar nada sobre o show, e que, uma vez assinado, dava a ela o direito de nossa imagem "para sempre" For ever, and ever. Lembrei-me do corvo: Quote the Raven: Never more… Lembrei-me de Fausto. Estaria eu vendendo minha alma ao diabo? E numa sexta-feira santa? Será que estou cometendo um ato ilegal falando sobre isso aqui? Então, vou parando, antes que seja tarde. Aliás, consta, que o Obama não consegue fechar a prisão de Guantánamo porque metade dos prisioneiros de lá é composta por membros da audiência da O. que não respeitaram a cláusula de No Disclosure. Então me calo.

Wednesday, April 20, 2011

Walking on air!

Passei por toda a cidade, num ónibus double decker que quase nos matou de tanto frio. Chicago, disse-nos o guia, é um nome indígena que significa cebolas fedorentas. Na beira do lago Michigan, as cebolas silvestres brotavam e quando chegava o verão, com a humidade e o calor, elas apodreciam e deixavam o ar mal-cheiroso. Mesmo assim, um caçador de peles francês, não se intimidou com o cheiro (afinal, eles têm uns queijos que devem cheirar pior que as cebolas) e aqui montou sua cabana de caça, que era abundante. Esta é a origem da cidade, que depois se transformou na maior cidade de poloneses fora da Polônia. O que será que eles viram aqui? Acho que a oportunidade de trabalharem no Meat Packing Business, que florescia por aqui. Era tanta a matança que o rio Chicago era vermelho e completamente atulhado de carcassas e de gordura, que estava poluindo o lago. Para evitar isso, eles reverteram o curso do rio. Fizeram umas comportas, cavaram o leito tornando-o mais baixo que o lago, et voilà! O rio, agora, ao invés de desaguar no lago, corre para o sul e, através de canais, vai acabar juntando-se ao rio Mississipi, e, portanto, suas águas acabam indo parar no Golfo do México.
Apesar de ventar muito por aqui, a cidade tem seu apelido de Windy City por causa de seus políticos, faladores, que pleiteavam pela localização da World Fair aqui na cidade, concorrendo com outras duas cidades do NE dos EUA. Falaram tanto que acabaram conseguindo que a feira fosse realizada aqui e fizeram do menosprezo de um jornalista novaiorquino, que disse que a cidade era "windy", ou seja, vazia, retórica, o seu próprio slogan: Venham para a Windy City e confiram a World Fair. Bem, estou simplificando tudo porque já está tarde e eu estou cansada, mas preciso contar ainda que o incêndio de Chicago começou na Zona Sul da cidade, que era onde moravam os ricos. No lado norte, moravam os pobres que se juntaram todos na margem norte do rio para apreciar de camarote os ricos se dando mal. Acontece que o vento estava soprando para o norte, e o rio que, supunha-se, ia impedir que o fogo se alastrasse para o lado dos pobres, estava atulhado de carcassas e gordura, acabou pegando fogo. The river is on fire! foi o grito de pavor dos pobres que acabaram sendo as maiores vítimas do incêndio. No lado sul os prejuízos foram pequenos e muita coisa se conservou. No lado norte, apenas duas construções se salvaram, a torre da água e a estação de tratamento. E um grande pedaço da parte norte acabou virando aterro do lago, e criando um novo bairro. Acho que a Torre Hancock está nessa parte aterrada. Se não está, está mesmo ao lado. Não subimos na Hancock porque eu estava determinada a andar no assoalho de vidro lá no 103º andar. Muito alto. Mas lá fui eu, andar no ar. Morri de medo, mas fingi que nem era comigo. Entrei no caixote de vidro dando marcha a ré, quase sem olhar para baixo. Mas depois olhei. E tenho fotos para provar.
Boa noite a todos, vou descansar.

Chicago

Cheguei ontem, debaixo de chuva e nevoeiro e o vento que dá nome à cidade. Primeira impressão? Chicago foi construída numa tentativa de alcançar o céu. Altos e e-nor-mes, os prédios minimizam tudo a seu redor, assim, refleteindo, vejo que o rio à beira do qual fica o meu hotel é muito largo, senão teria sido reduzido a dar a impressão de riacho. Edifícios enormes, avenidas larguíssimas, requerem, sem dúvida, muitos carros para percorre-las. Daí minha segunda impressão: os edifícios garagem que exibem seus carros numa aflitiva ameaça de que todos estão prestes a despencar. Estes edifícios, redondos, não possuem paredes externas e os carros estacionam mesmo na beirada. Deve ser preciso ter nervos de aço para manobrá-los e deixá-los ali, à mercê do vento encanado e da chuva ou eventual neve. Entendo agora a alegria do pessoal de Milwaukee, falando das garagens aquecidas… E lembro ainda da minha alegria ao subir uma escada rolante de lá e descobrir que o corrimão era aquecido. Vibrei de alegria e conforto. Bem, hoje vou aproveitar o dia sem chuva para passear e ver a famosa arquitetura da "cidade ventosa" (fica muito feia essa tradução de windy city). Mas está muito frio, e vou me aquecer no Museu de Artes e no Aquário. São esses os planos, depois conto se dá certo. Só mais uma coisinha para mostrar o gigantismo da cidade: meu hotel ocupa três quarteirões, interligados por passagens subterrâneas e aéreas. Estou na ala oeste, imaginem. Ainda bem que tem entrada separada!

Tuesday, April 19, 2011

Gaivotas

Cada cidade tem sua música e a que me embala aqui em Milwaukee é a dos gritos das gaivotas. Acordo com elas me chamando, voando em frente à minha janela (as minhas janelas, o quarto é tão grande que tem duas!). Preguiçosa, friorenta, abro as cortinas, pego o computador e volto para a cama, quentinha…Mas hoje tenho pouco tempo, daqui a pouco vêm me buscar: café da manhã, mais um passeio pela cidade, pelo menos até a Universidade Marquette, e depois, estação de trem, rumo a Chicago. Venho só para contar a vocês que meus encontros com os estudantes de UWM foi muito legal. Primeiramente fui ao "bate-papo", onde alunos em geral e um ou dois professores de português se reúnem para conversar e praticar o idioma. Muitos são alunos de espanhol, que sentem que o bate-papo é uma maneira de aprenderem sem a obrigação das leituras e dos deveres de casa. Três visitaram o Brasil e se encantaram: Salvador, Florianópolis e Rio, três destinos diferentes, mas igualmente encantadores, segundo eles me garantiram Depois, na sala de aula de português, um encontro com leitores que trabalharam meu conto em sala de aula. Mas o conto tinha sido lido em tradução e a "aula" foi em inglês. Finalmente, no adorável Greene Hall, uma antiga biblioteca que agora é uma espécie de sala de conferências, com uma lareira de uns quatro metros de largura, a primeira leitura em inglês de Borges's Secretary! Ensaiei ontem de manhã, e consegui ler sem me atrapalhar muito. E vi que as pessoas gostaram da história, o que me deixou muito satisfeita. As perguntas, depois, me deixaram um pouco nervosa, mas acho que consegui não parecer uma completa idiota, embora eu saiba muito bem que sou muito melhor escrevendo que falando. Mas deu para o gasto. E depois fomos jantar num elegante e excelente restaurante, ao lado do Calatrava, à beira do lago-mar, que ontem exibia suas ondas. Lauren me contou que no inverno elas congelam, à meio caminho. Impressionante.
Bye, bye, então. Vou fazer as malas. Espero ter internet em Chicago e voltar a contar minha viagem. Acho que vão postar fotos no FB. Eu só posso passar as minhas para o computador quando voltar para o Rio, pois esqueci o adaptador.

Monday, April 18, 2011

Neve!

Acreditem, ontem fez um dia lindo, sol aberto, nem uma nuvem no céu como vocês vão poder ver nas minhas fotos, depois que eu voltar para o Rio. Hoje está tudo branquinho de neve. Queria sair para brincar, mas não trouxe minha botas, bu-huu! Está nevando intensamente. Flocos pequenos, pesados, devem estar virando flurries, que não sei como traduzir. Flurries é uma espécie de neve molhada, que logo se desfaz e custa a acumular. Mas o chão e os telhados estão cobertos de neve, o que significa que ela começou a cair já faz algum tempo, durante a noite, sob a forma normal e agora que o sol saiu, a temperatura está subindo e transformando os flocos em flurries.
Bem, chega de meteorologia! Meu amigo me disse que quando veio para cá, estranhou as conversas ao princípio, pois sempre começavam com o mesmo assunto: "o inverno ainda não chegou" e depois mudaram para "o inverno vai demorar a passar". Agora ele compreende. E até mesmo eu compreendo, saudada com neve em pleno dia 18 de abril!
Ontem fui ao museu, lindo, me deu a impressão de entrar num pterodátilo em repouso, de asas fechadas (pois o vento não permitiu que elas se abrissem). A obra de Calatrava tem uma certa ambiguidade, pois nunca decidimos se estamos numa coisa "viva" ou se estamos, por exemplo, num barco. Numa floresta ou numa catedral. A beleza e a leveza de suas construções são indescritíveis, aquelas toneladas de concreto, ferro, aço e sei lá mais o que, se elevam como se flutuassem no ar. E parecem estar apenas pousadas sobre a terra, impermanentes, prestes a alçar voo. Dentro de suas construções, quem habita é a luz. Em forma direta ou indireta, ela ocupa os espaços, desenha seus caprichos, dona absoluta de todo o interior. Talvez por isso a crítica que li numa revista local: é um museu que não abre espaço para a arte. Aparentemente, a sala de exposição foi uma intervenção de um arquiteto local. Assim como o café e outros espaços "utilitários". Confesso que, ao entrar, só tive olhos para a beleza do museu. Mas não me furtei de examinar o grandioso móbile de Calder, nem a belíssima e coloridíssima peça de vidro de Dale Chihuly (American, b. 1941)
Isola di San Giacomo in Palude Chandelier II, 2000
Blown glass
103 x 86 in. (261.62 x 218.44 cm)
Gift of Suzy B. Ettinger in memory of Sanford J. Ettinger M2001.125
Creio que as obras, para serem expostas ali naquele espaço monumental, precisam de ter dimensões especiais.
Enquanto escrevia, a neve acabou e agora cai uma chuvinha miúda e gelada, que me dá arrepios só de olhar… As ruas já não têm mais sinal de neve, mas os telhados ainda estão brancos (meu quarto fica no décimo andar numa cidade com poucos arranha-ceus)
A exposição de Frank Lloy Wright é linda. Maquetes, desenhos, peças de mobília, alguns vitrais, até tapetes, tudo isso entre fotos e filmes. Vemos sua genialidade, sua incrível capacidade de trabalho, sua evolução para um futurismo desenfreado, sua capacidade de transformar o pesado Art Deco em espaços leves e, sobretudo, habitáveis. As casas mostradas em filmes são todas acolhedoras, apesar de a arquitetura estar presente em todos os detalhes. Vemos como ela ultrapassa os limites dos prédios e incorpora a natureza, seja modificando-a em jardins planejados ou trazendo-a para dentro da casa, não só em imagens, mas em alguns casos, em sons. E julgamos perceber nele alguns traços que desabrocharão em Niemeyer e no próprio Calatrava.
Depois de andar por ali fui visitar o acervo do museu e uma das obras, o quarto do infinito (Stanley Landsman Walk in infinity chamber) me fez sentir uma astronauta. Mas tirei foto de algumas outra obras intrigantes. Depois mostro e conto minhas impressões.
O dia depois foi uma série de passeios de carro, conversas, uma agradável festinha na casa de meus anfitriões, muitas, muitas risadas, uma alegria só. Claro que passei numa livraria e, depois de resistir bravamente e não comprar The three Weismann from Westport (que pretendo encontrar em audiobook), acabei sucumbindo à tentação e comprando um livro Literary Tatoos. Eu e meus fetiches…
Me despeço aqui, por hoje, fazendo uma pequena menção ao Kafka da Colonia penal, a quem pretendi homenagear com minha compra. E agora vou praticar a leitura de Borges's Secretary, para não fazer feio hoje à tarde!
See you!

Saturday, April 16, 2011

Milwaukee

Olá, amigos. Estou de volta ao blog. Andei sumida porque estava preparando as palestras e as viagens e tratando dessa coisa chamada vida real. Estive nos últimos dias em Kentucky, na cidade de Lexington, onde fica a conferência de línguas estrangeiras. Fiquei sabendo que aqui o pessoal conhece essa conferência como um M.L.A. sem inglês. A gente encontra com pessoas de todo o país, troca ideias e ouve muitas coisas interessantes, descobre autores e se informa de pesquisas e, também, infelizmente, fica sabendo de problemas para os professores de português, e em geral. A crise e a ganância andam ameaçando departamentos por aqui, mas o pessoal tem muita garra e sempre consegue resistir. Hoje, por exemplo, no cafezinho, conversei com uma professora de italiano que está há anos tentando conseguir um "major" (não é patente de exército, é tipo conseguir que italiano se torne um curso que dê diploma na universidade dela). Ela ainda não conseguiu, mas lá estava ela, numa fria manhã de sábado, procurando amigos, assistindo palestras e "lutando", quando podia ter ficado mais um tempo na cama quentinha. Ela estava lá e lamentava que nem sequer uma aula de história do renascimento (italiano ou não) estivesse sendo dada no departamento de História. Espero, sinceramente, que ela consiga sucesso.
Assim como espero que as pessoas, que estão preocupadas com o ensino à distância, que as universidades gulosamente estão adotando, na tentativa de conseguirem mais dinheiro, demonstrem aos departamentos financeiros que esta deve ser apenas mais uma opção, e não uma substituição. E como espero que a aluna de pós graduação, que compareceu à conferência rebocando seu bebezinho, veja seus esforços coroados e seus trabalhos devidamente apreciados.
Mas agora estou em Milwaukee, e doida para conhecer a cidade, que tem um deslumbrante museu construído por Calatrava ( e quem acompanha o meu blog sabe que sou fã dele!) Vou colocar mais umas meias, luvas, suéteres e casacos para sair nesta fria primavera de Milwaukee, que ainda parece adormecida, sem produzir flores nem folhas, escondendo-se do vento que faz o museu recolher suas asas (sim, ele tem asas, como um pássaro!) Juro que vou tirar fotos e que colocarei aqui, para serem vistas. E mando a todos meus abraços e minhas saudades, e as promessas de que vou escrever amanhã também.

Monday, March 28, 2011

Jorge Luís Borges: personagem de crônicas e contos brasileiros

O título acima é do trabalho de Isis Milreu e foi apresentado no II Colóquio da Pós-Graduação em Letras, UNESP, Campus de Assis.
Imaginem minha alegria ao me ver "trabalhada". Obrigada Isis, a quem não conheço, mas cujo trabalho me causou grande satisfação. Caso algum de vocês tenha curiosidade, é só clicar no título (espero eu!) Lá vocês lerão sobre as Crônicas de Veríssimo sobre Borges e, além de meu conto, sobre o conto do Fuks.
Estou me sentindo como Alice no País do Espelho. Aliás, é sobre isso que vou falar lá em Kentucky, sobre esse "estranhamento" que é você ler a si mesma pelos olhos de outra pessoa. A traducão e a crítica nos revelam um mundo de imagens inesperadas, mas estou sem tempo para escrever. Volto ao assunto uma outra hora.
Mais uma vez, obrigada, Isis Milreu!

Wednesday, March 16, 2011

Dylan Thomas

Nunca estudei Dylan Thomas, o poeta preferido por nove entre dez estrelas do Rock. Mas minha querida T.T. me fez lembrar de seus versos Do not go gentle…. E aí fui ler algumas outras coisas belas. Acabei selecionando os versos citados pela T.T. e mais os versos de um belo poema "And death shall have no dominion" para levar como contraponto aos versos de Adelaide Crapsey para as proustianas. Graças aos deuses da internet, encontrei traduções para os poemas de Dylan Thomas. Os cinquains e doublets da Adelaide Crapsey tive que eu mesma traduzir. E eu detesto fazer traduções. Mas acho que consegui respeitar forma e conteúdo, e, se não foi brilhantemente, também não foi uma tradução boba e literal.
Depois, atrasadíssima, quis atender ao pedido de minha nova editora, a Escrita Fina, e contar qual foi o meu primeiro livro. Cheguei à conclusão que me era impossível falar de um primeiro livro, como se fala, por exemplo, de um primeiro amor, ou de um primeiro sutiã. Ler é um vício, e suponho que nenhum viciado saiba dizer qual foi a "dose" que o viciou. Teria sido o primeiro trago num baseado? A primeira injeção que despejou, gota a gota, a heroína no sangue? A terceira carreira de pó, a quinta pílula de êxtase? O segundo gole de champanhe? O sétimo cigarro, como um selo que passasse a repetir "para sempre, para sempre"? Que livro fez de mim a leitora em que me transformei? Acabei escrevendo um pequeno texto, tão cheio de reminiscências que não acho que sirva para o blog em questão. Vou mandar, mas acho que não vai sair…
E agora cá estou eu aqui, interrompendo a leitura para assistir ao pouso do helicóptero do Obama. Um barulho fora do normal, um enorme helicóptero pousando aqui a dois passos de casa, a corrida até a varanda e a surpresa da bela Lua, brilhante e redondinha, sobre um manto de nuvens. Meu filho me explica: é uma lua especial pois há 18 anos nosso satélite não se aproximava tanto assim da terra. E, além disso, é o equinócio, e, segundo o Márcio, que faz anos no equinócio, esta é uma época muito poderosa. Devemos, segundo ele, fazer um pedido à Lua por esta ocasião. O que eu peço é fácil de advinhar: inspiração para continuar escrevendo, reconhecimento para os textos já escritos, uma editora que me valorize e leitores, muitos leitores, para minha obra. O que posso fazer se sou sempre múltipla? Se não me conformo em pedir uma única coisa, se não consigo me decidir entre livros, se as histórias se multiplicam em minhas lembranças? Talvez seja este meu protesto dylanesco, mesmo sem perceber, vou esperneando pela vida afora, querendo, desejando, lutando, mesmo quando penso que estou apenas aceitando o inevitável…

Monday, March 14, 2011

Humor negro na Globo

Só pode ser humor negro quando, depois de nos contar sobre as tragédias disseminadas pelo mundo afora, de nos mostrar imagens de destruição, acidentes, caos no trânsito, desorganização e guerras, os repórteres do Bom Dia se despedem com sorrisos e votos de um "excelente dia para vocês!" Sorridentes, para cima, alegrinhos, ou eles são os melhores atores da globo ou não entendem uma palavra daquilo que dizem e mostram.
Vamos ser um pouco mais coerentes? Ou a gente mostra algumas reportagens animadoras, ou não se despede com tanta "positividade". Quem é que pode começar o dia assim feliz, depois de tanta tragédia? É bem verdade que dizem que os gregos estimavam a tal da catarse como algo que lhes preservava a sanidade. Eles iam ao teatro assistir àquelas tragédias gregas e depois de todo mundo se dar mal, eles saíam da arena de alma lavada, felizes porque tudo tinha acontecido com os outros, e não com eles…
(Paro para testemunhar uma ilusão de ótica. Uma ilha caprichosa, das Cagarras, se fantasia de montanha de gelo, vestindo uma capa de nuvens. Impressionante, parece mesmo real, uma outra ilha, com um pico coberto de neve. Graças a isso minha alma se desanuvia um pouco.)
Mas volto ao humor grego – racionais ao extremo, nossos amigos gregos procuravam explicações para as desgraças, e dramatizavam a Hybris, nossa falha. Pois eles acreditavam em causa e efeito, e alguém tinha que ter cometido um engano para romper o "equilíbrio" do mundo. Já não me lembro mais qual é a tragédia, mas uma cena maravilhosa, da volta de Agamemnon ao lar, ilustra isso muito bem. Lá chega ele, se achando o máximo, trazendo Cassandra, a princesa troiana, como despojo de guerra. Os puxa-sacos resolvem estender um tapete vermelho para ele, simples mortal, passar. Ora, tapetes vermelhos eram destinados aos deuses, e embora Cassandra o avise de que, se ele pisasse o tapete, a morte o aguardava, ele está embriagado pelo próprio sucesso e não faz caso ( mas, na verdade, Cassandra era aquela profetiza em quem ninguém acreditava, mas essa é uma outra história). Ele pisa no tapete e sela seu próprio destino: será assassinado no banho por sua mulher, Clitemnestra. Ele errou e foi castigado. Os gregos assistiam a tragédia, internalizavam a lição: "não deixe a fama subir à sua cabeça". Os romanos aprenderam muitas coisas com os gregos. Na época do Império Romano dizem que era costume que os Césares andassem acompanhados por uma espécie de "grilo falante", uma consciência externa, alguém que lhes repetisse a mesma cantilena; "Lembra-te que és mortal"
Talvez os repórteres da Globo estejam cumprindo essa missão: lembrar-nos de que somos mortais e que a vida (a nossa e a do planeta) está por um fio. Tudo bem, continuem com seus avisos, mas não gozem da nossa cara dizendo "Tenham um ótimo dia". Despeçam-se com um pouco mais de honestidade, dizendo: Lembrem-se que hoje pode ser seu último dia. Aproveitem!

Saturday, March 12, 2011

Lucia e a Ciência

Outra vez ciência? Mas o que fazer, se adoro ler estas breves informações científicas no jornal, e passar as noites vendo o Discovery? Por onde começo? Talvez pela espantosa revelação de que o pênis masculino já foi recoberto de espinhos! Reler a Bíblia com essa nova informação me faz sorrir. Penso no Jardim do Éden, com Deus preocupado com seus filhos, e avisando: Este fruto não dá para comer: tem espinhos! Mas, esfomeados, Adão e Eva nunca se importaram muito com essa proibição. Davam um jeito: ralavam, descascavam, espremiam, provavam… E, com tanta perícia, acabou que descobriram que há um jeito para tudo… E, de tanto se ajeitarem, as coisas acabaram se amaciando. Ainda bem!
Termino com uma história assustadora, uma nova (já não tão nova, assim) arma de guerra construída pelos americanos: Uma série de antenas que conseguem aquecer a camada de ozônio. Com isso, o sistema dos ventos é modificado e eles provocam aquecimento excessivo, chuvas exageradas, ou seja: podem matar de fome todo um povo ou impedir o deslocamento de pessoas e exércitos. Isso não é brincadeira nem hipótese: existe e está funcionando! Verdadeiramente aterrorizador, e, se levarmos em consideração as últimas notícias, quem nos garante que essas catástrofes não são provocadas por testes sendo realizados com o novo brinquedinho? Acorda Greenpeace: tem que protestar contra isso!
Brinquedinhos por brinquedinhos, conto uma história de meu passado. Na inocência de meus vinte e poucos anos visitei Nova Iorque pela primeira vez. Eu e o Gui, andando por toda Manhattan, chegamos ao Greenwich Village (era assim que dizíamos na época. Agora, íntimos, é apenas Village) e foi lá que vi, pela primeira vez em minha vida, uma vitrine de sex shop. Fui atraída pela dança do que achei, de longe, que eram bonequinhos. Quando cheguei perto, descobri que eram vibradores, de todas as cores e feitios, que estavam ligados e mostrando os movimentos que eram capazes de fazer. Entre todos eles, havia um cheio de espinhos, parecendo um jiló, ou maxixe, nunca sei qual dos dois tem os espetinhos. E eu me admirei: será que alguém vai comprar isso? Meu marido, rindo, filosofou: "Há gosto para tudo!"
Pois bem, me despeço, então, agradecendo à minha vovó Eva, que gostava de maxixe! Estamos aqui por causa disso! Não vamos deixar que uns "caras de jiló" e suas funestas anteninhas transformem nosso mundo numa lama só!

Monday, March 07, 2011

Aniversários…

Comemorar o aniversário de quem já se foi, tarefa tão difícil. Onde depositar os beijos que ainda guardo? Em que braços me perder, ou dançar, ou me apoiar? No castelo de lembranças, fugazes como nuvens, vejo as mais diversas figuras, todas jovens, tão jovens, tão vivas.
Lá fora, o Carnaval embaralha minhas ideias. A música começa cedo, desafiante. Meus olhos se desviam da alegria, mas os ouvidos são violentados. Violas? Guitarras? Cavaquinhos? Cornetas e trombones? Surdos? Tudo se mistura numa indistinta melodia que se repete, se repete, por horas. Uma angústia me toma por inteiro: como me refugiar? Onde encontrar o silêncio no meio da alegria generalizada?
Vi a notícia de um retiro, patrocinado pela Igreja. Antes retiros eram … bem, na falta de melhor adjetivo, retirados. Distantes, silenciosos, as pessoas se recolhiam e meditavam, não no sentido atual do termo, que tomou coloridos zen budistas, mas no sentido de pensar na vida, de remoer mágoas até que, transformadas numa farinha fina, pudesse ser sacudida, como poeira. Mas o retiro que anunciam é uma festa: cantos, atividades infantis, jogos… saímos de uma agitação e caímos em outra.
Viajar poderia ser uma solução, caso os carnavalescos contumazes não viajassem também. Para onde vamos, encontramos um grupo munido de tamborins e altofalantes que nos incitam a "requebrar as cadeiras" ou "sacudir o popozão". Os refúgios antigos e mais simples, como as livrarias e os cinemas foram tomados por turbas agitadas, cheias de crianças que, temerosas de mascarados, vem expandir sua vitalidade nos corredores de shoppings, entre as mesas de restaurantes, pedindo livros e novas histórias a pais exaustos (alguns até contrariados, por estarem perdendo a festa).
É Carnaval, eu sei. Não reclamo. É o reinado de Momo, da Carne, da Alegria… Mas nem os mortos mais são respeitados. No desfile de ontem, a morte esteve presente, fazendo gracinhas, rebolando como se fosse uma vedete. Levar a morte para a avenida pode ser uma maneira de torná-la menos temível, mas nada há de fazê-la menos definitiva. Não há contorno, nem requebro, nem desvio.
Morte é morte, e nós a carregamos dentro de nós, vamos tecendo nossa mortalha lentamente, amorosamente. Essa é uma das maiores ironias disso a que chamamos de vida. "Viver é morrer um pouco a cada dia", diz o lugar comum. Mas, ao mesmo tempo, como é doce a vida! Como cada gomo dessa fruta nos satisfaz, mesmo quando nos engasga com alguma semente ou com um inesperado dissabor. Só que às vezes nossa vida parece terminar antes do prazo: o corpo se arrasta respirando e andando, ou mesmo entrevado, enquanto a alma que nos habitava se foi, voluntária ou involuntariamente. A gente se sente fechado numa sala de espelhos, se vendo refletido em mil imagens, e sabendo que não é nenhuma delas.
De imagens quero apenas aquelas em que apareço acompanhada, amparada, amada. O que fazer, se agora me vejo sozinha? No meio do bloco, dos cantos, dos risos, dos mais de mil palhaços, solto um grito silencioso de socorro, disfarçado em "feliz aniversário!" Onde você estiver, não deixe que minha tristeza empane seu brilho. Vou me cobrir de purpurina e brilhar também. Brilhar no escuro de mim mesma, sorrindo apesar de tudo, escondendo o rosto numa máscara negra que, apesar de seus esforços, não me mata a saudade.
E, no entanto, a lembrança de que houve um tempo em que esse era o dia mais feliz do ano para mim, me faz sorrir sinceramente. É com esse sorriso que aceno uma bandeira branca e digo, bem baixinho, feliz aniversário, eu peço paz!…

Tuesday, March 01, 2011

Feliz aniversário

Quantas cidades existem com o charme do Rio? Juro que não conheço outra igual. Pelas minhas andanças pelo mundo afora, já visitei muitas cidades à beira mar, e nenhuma se comparou. Nem as de beira rio se compararam. Essa mistura inesperada de mar e montanha, de lagoa e ilha, de jardins e selva de pedra e o sol se derramando compensam a sujeira das ruas, os buracos do asfalto, o engarrafamento nos túneis, etc.
Minha cidade ainda não é velhinha. Em termos de cidade, ela ainda não está nem na meia idade. Espero, no entanto, que ela já tenha ultrapassado a fase do crescimento. Ela já é bem desenvolvida, não precisa exagerar.
Minha cidade é linda em dias de sol, embora faça nossa cabeça ferver e nosso corpo suar. Minha cidade é linda em dias de chuva, apesar de se alagar, desmoronar, enlamear. Em que outro lugar do mundo a gente pode se engarrafar olhando o mar? Em que outros engarrafamentos alguém vai se lembrar de trazer água geladinha ao nosso alcance, e comidinhas para enganar a nossa fome, e espetáculos circenses para distrair nossa impaciência?
Nós, os cariocas, muitas vezes maltratamos nossa cidade, mas ela consegue se reinventar e zombar de si mesma, seja numa marchinha bem humorada, seja num novo modismo. Por exemplo, quando o pier enfeiou a praia de Ipanema, os cariocas transformaram o horror em ícone, e até hoje tem gente que tem saudade do monstrengo.
Não queria deixar passar esse dia sem jogar meus beijos estalados pelos ares da cidade aniversariante. Amo o Rio, e peço a todos que me leem: amem o Rio também. Olhem à sua volta e vejam todas as belezas e os recantos merecedores de carinho, respeito e atenção. Mostrem seu amor não jogando lixo no chão, não estacionando no meio da rua para não atrapalhar o trânsito, não indo de carro quando podem ir à pé, ou de bicicleta, ou de transporte público. Votem em pessoas que também amem a nossa cidade. E sorriam para as pessoas que encontrarem, sejam gentis. Sejamos todos agradecidos a tantas coisas de bom que nossa cidade nos oferece!
FELIZ ANIVERSÁRIO, MEU RIO DE JANEIRO!!!!!

Sunday, February 27, 2011

Scliar

Hoje perdemos uma pessoa admirável, o nosso querido Moacyr Scliar. Gostava de ficar escutando suas histórias, pois ele era um exímio "contador". Ele, modesto, dizia que tinha aprendido isso com o pai. E até contava alguns casos do pai. Mas o que ele contava mesmo bem eram histórias da mãe: sabe como é, mãe judia, em seus extremos amorosos, parece mesmo obra de ficção. E a gente ria, escutando ele contar coisas que deviam remexer o mar de saudades que ele carregava dentro de si. Outras histórias eram sobre o filho, o único filho, que não gosta de ler (segundo ele contava, talvez para fazer graça) e as estratégias que ele inventava para obrigar o filho a ler. Só que eu ficava pensando que, se o Moacyr Scliar fosse meu pai, eu provavelmente não gostaria de ler também, pois quem não quer ficar escutando alguém nos contar histórias e nos divertindo em conjunto ao invés de ir para seu quarto e ler sozinho? Quem tem uma pessoa que conta histórias em sua casa, e conta bem histórias, só passa a ler quando o repertório do contador se esgota. O problema é que, com sua criatividade, as histórias de Scliar iam se multiplicando, sempre novas, sempre saborosas. Compreendo seu filho, e sei que agora ele há de procurar nos livros os ecos de sua voz, e encontrará consolo na leitura.
Vai em paz, Scliar, e que não te faltem histórias para contar e escutar pela eternidade. Nós sentiremos sua falta, mas honraremos sua memória e sua generosidade com nossas lembranças.
Desculpem andar escrevendo pouco aqui no blog, mas estou soterrada de trabalho e meio paralisada de tanta desorganização. Se eu sobreviver, voltarei com força total depois de Abril, o mais cruel dos meses! Quem sabe até pronta para dançar um tango?

Monday, February 14, 2011

FUNK!

Descobri o Funk. Tardiamente, é verdade, ele já anda por aí há um tempão. E eu já tinha ouvido, e reclamado muito dele. Da última vez que fui para Angra, um vizinho montou um quiosque na praia e brindou a todos com suas preferências musicais até altas madrugadas. Detestei, e continuo detestando isso, pessoas que esquecem que os outros podem estar no mood para uma canção romântica, ou para uma daquelas poderosas e catárticas músicas de fossa. Só que agora estou indo para uma aula de ritmos, na minha academia. E dançamos de tudo, de samba a bolero, de axé a funk. Bem, quando digo "dançamos" quero dizer que os outros dançam e eu me atrapalho, mas é divertido, e alegre, e é o único exercício físico para o qual vou bem disposta. Não sei quantas aulas aguentarei, pois fico literalmente exausta. O som é de boa qualidade, até mesmo o funk é legal, assim em pequenas doses, misturadas a outras músicas.
Amanhã o Ari, professor bailarino que, no uniforme da academia, me faz lembrar o cisne negro, vai dar uma aula de ZUMBA, uma novidade, patenteada pelos gringos, que mistura uns ritmos latinos. Ele avisou que a gente pode levar quem quiser, vai ser uma aula aberta ao público: Então convido: TODA A GENTE! Amanhã, dia 15 de fevereiro, às 12:30, na Body tech da Ataulfo de Paiva. É só dizer que é convidado do Ari. Compareçam, embora eu não possa garantir que dançar zumba seja tão divertido como dançar, muito mal, o funk.

Tuesday, February 08, 2011

Um beijo no Jabor

Leio hoje no Jabor, que fala sobre Picasso, a seguinte frase: "A morte acontece, mas não existe. Só existe a vida".
Não resisto e sapeco-lhe um beijo! Um beijo pelas palavras entusiásticas sobre Picasso, um beijo pela frase, verdadeira (se morrer é deixar de ser, então a morte não é). Um beijo que me tire o amargor de não ter ido a Paris ver Basquiat, Monet, Van Gogh…
Mas também lhe aplico um pequeno puxão de orelha: Que esnobismo é esse de não ir a Museus no Brasil?! Corra, menino, vá ao CCBB e veja a exposição de Escher. Você pode ter ido ao museu dele na Europa, pode ter visto retrospectivas suas em NY , mas em nenhum outro país verá seu próprio povo, aquele que não tem como pegar um avião para tomar suas pílulas de cultura, se deliciando e sendo estimulado pelas instigantes criações do mestre. A exibição é dupla: de um lado, os trabalhos, de outro, o público. Se Escher pendurado em paredes brasileiras não lhe interessa, vá e olhe para os rostos de adultos e crianças, absolutamente encantados, divertidos, absortos na contemplação e decifração das ilusões.
Mas, aproveite que já está no centro e dê uma chegadinha no MAM. Tem jovens brasileiros que fazem arte vibrante e empolgante. E visite os outros museus, dê o exemplo, e talvez, assim, um dia a gente não perca mais nosso patrimônio para outros museus e se veja obrigado a conhecer o Brasil no estrangeiro…

Sunday, February 06, 2011

Chá de telômero, creme de sirtuína

Quem me lê com frequência sabe que sou uma cientista frustrada. Estou sempre me maravilhando com a criatividade da ciência! O mundo continua o mesmo, mas os cientistas estão sempre mudando de discurso, né não? E me maravilhando!
Agora saímos do Eldorado e de sua fonte da juventude e passamos à casa de chá onde todos os sonhos se realizam. Imaginem as amigas se reunindo para um chazinho da tarde, um chá de telômero, que o mundo pode ainda não saber, mas está presente nas folhas de uma planta amazônica ainda não catalogada, mas já à venda naquela casa transadinha na fronteira entre Ipanema e Leblon. Nos dias de calor, um sorvetinho cai bem, e é o sabor creme com sirtuína o que virou campeão de vendas da Mil Sabores. E é assim que as cariocas antenadas pretendem manter sua juventude eterna. Algumas começaram a se preocupar com isso mais tarde, já não há muito o que conservar. Outras, ainda na infância, se preservam, evitando que o tempo faça das suas em suas bochechas eternamente infladas e em seus olhos para sempre abertos, contemplando o mundo com o espanto inaugural de cada dia.
Desta vez, no entanto, não foram as notícias científicas que me deixaram boquiaberta, mas um anúncio que me revelou novas possibilidades de beleza: a CAVITAÇÃO! Tinha uma vaga ideia de que o termo se referia a coisas de engenharia e fui correndo para o Aurélio, confirmar.
Cavitação está lá. 1. Fis. Formação de bolhas de vapor ou de gás em líquido por efeito de forças de natureza mecânica, 2. Eng, Ind. Restr. Formação de bolhas de vapor na superfície de um sólido que se move em um líquido. No entanto, a firma que oferece a nova técnica diz que esta é uma alternativa à lipoaspiração. (Troque sua gordura por uma bolha de vapor!) Isso está me cheirando à cavilação!… (Ora! Vão vocês ao dicionário e aproveitem para descobrir o significado de Cazuza, ali pertinho…)
Aí me lembro de que, na sessão de ciência, do jornal, falavam do uso das células-tronco de lipoaspiração para rejuvenecer a face. Se optarmos pela cavitação, perdemos as células-tronco? Volto aos segredos estéticos de minha avó: tutano batido e deixado ao sereno, que servia para… Ih! Esqueci! Só me lembro que era um creme muito fedorento. Mas as células-tronco deviam estar lá. Afinal, tutano não é medula óssea? A danadinha já sabia! Pena que eu não aprendi a cavitar (êpa, isso existe?) a mistura de tutano, que talvez servisse para curar as dores provocadas por um Cazuza. Ah, que sei eu?! Volto às minhas fantasias, à espera que me convidem para o chá, ou o sorvete. Por enquanto, vou tentando o chá verde, mas o que me agrada mesmo é a receita do vinho tinto. Faz bem? Dizem que, para fazer bem, eu precisaria ficar vivendo dentro do barril de vinho. Portanto, tomo meu vinho tinto (no inverno) e chá gelado no verão e fico feliz, mesmo sem resultados. Agora a Elza Soares, acho que foi ela, recomendou o mate. Eu, que não tenho parceiro, não preciso dele para nada, a não ser para me refrescar nos dias de praia. Então vou ficando por aqui, esculpindo, com palavras, minhas máscaras de comédia.
Boa semana para todos. E não deixem de assistir Cisne Negro, um filmaço!

Thursday, January 27, 2011

Mais caricaturas

Antes de escrever, agradeço aos comentários que me deixam aqui no Blog, ou no Facebook. Obrigada, minha gente. Vocês me dão um estímulo danado!
Voltando às caricaturas, lembrei das rainhas da aeróbica. Elas já acordam de manhã cedo com suas roupinhas de ginástica e fazem tudo vestidas assim: levam filhos ao colégio, passam no supermercado, fazem seus exames de sangue, vão aos almoços com as amigas.… Não sei a que horas fazem a aeróbica propriamente dita, mas elas estão sempre em forma, e não cansam de se admirar em qualquer superfície espelhada: vitrines, espelhos, portas de edifícios, elas sempre jogam uma olhadinha para verificarem se seus bumbuns continuam empinados e se as panturrilhas estão bem delineadas. Nas academias, nas aulas de grupo, elas tomam logo os lugares da frente, para poderem acompanhar as suas evoluções no espelho. Sabem o nome e o dia de aniversário de todos os instrutores, e estão a par de suas aventuras amorosas. E como os professores de ginástica têm uma vida amorosa agitada! Escuto os relatos da aluna que "chega junto"; da gata que preferiu o personal ao marido; do marido que, depois de algumas sessões de agachamento com a professora agachou-se com um anel e um pedido de casamento etc. Os caras bombados, bombadíssimos, que falam de mulheres mas lançam olhares invejosos para os torsos masculinos também são comuns nas academias. E os aposentados, em ótima forma física, malhando todos os dias e reclamando das mulheres que não são capazes de arrumar seus armários do jeito que eles querem. Para esses coroas é importantíssimo poderem ser capazes de se vestir no escuro: "Do lado esquerdo ficam as meias pretas, do lado direito as marrons. Se elas mexem nessa ordem, corro o risco de sair com sapatos marrons e meias pretas". E passam mais de hora explicando como está o closet que tem as camisas penduradas em degradé, igualzinho nas lojas. Um dia sugeri que um deles escolhesse, como próxima esposa, uma vendedora da loja preferida dele. Não sei se ele ficou chateado ou se sua expressão traduzia o êxtase de quem acaba de ter uma revelação transcendental. Acontece que, naquele mês, abandonei a academia e não sei como terminou a saga. De vez em quando, passo por ele na rua e vejo que suas roupas continuam combinadas. Ou ele continua solteiro ou casou mesmo com a vendedora. E que todas as nossas manias sejam assim fáceis de contentar!

Wednesday, January 26, 2011

Aniversários

Ontem, 25 de janeiro, foi aniversário de São Paulo. Da cidade, não do santo. Acho que não se tem notícias de quando fosse o aniversário do santo que, antes de ser santo, foi coletor de impostos. Como estou dando aula sobre Guerra do fim do mundo, livro de Vargas Llosa sobre Canudos, lembro que o Conselheiro aceitava em seu povoado todos os tipos de pecadores, menos os ex-coletores de impostos. São Paulo não teria entrado em Canudos, vejam só. Mas São Paulo, a cidade, entra em meu panteão de cidades queridas. Todo o mundo estranha, uma carioca que gosta de Sampa, será que é normal?
Confesso que fui doutrinada por Caetano, com seu lindo hino a São Paulo e deixei que alguma coisa acontecesse em meu coração. Mas não é quando cruzo suas ruas movimentadas e ainda mais sujas que as do Rio. É quando passo pelos parques de SP, pelas ruas arborizadas e ainda cheias de casas, quando passeio pelas ruas chiquérimas, com edifícios rodeados de jardins, altos como babéis. É quando encontro um comércio pequenininho, com jeito humilde, persistindo junto a lojas que chegam a intimidar com seu luxo e grandiosidade. Também me encanta, carioca praiana, o caos labiríntico de uma cidade sem mar. Como é que alguém se orienta em SP? Nem pelas estrelas, há muito tempo invisíveis no céu poluído!
Gosto dos teatrinhos escondidos em ruas residenciais. Amo a sala São Paulo, orgulho da cidade. Gosto dos parques, que criam perspectivas. Gosto (gostava, antes do GPS) de tomar um táxi, dizer meu destino e descobrir que o motorista de táxi não fazia ideia de onde ficava o restaurante que nos haviam recomendado como o melhor da cidade… E rodávamos por umas duas horas, numa excursão pelas ruas escuras e molhadas da cidade. Pois São Paulo é uma cidade escura, deserta, povoada por círculos iluminados onde alguns "fiéis" se reúnem.
São Paulo é uma cidade cheia de códigos: A turma daqui não frequenta a turma dali. Daí que é preciso ter muitos amigos em SP, para podermos visitar vários pontos da cidade. Num dia vamos à praça, noutro à mercearia. Num dia vamos à Itália, noutro vamos ao Japão. Num dia vamos ao museu, outro dia vamos às compras.
Gosto de São Paulo, acho que porque é uma cidade aquariana, como eu. Parabéns, São Paulo!
Mesmo atrasado, aqui fica o meu abraço.