Thursday, January 27, 2011

Mais caricaturas

Antes de escrever, agradeço aos comentários que me deixam aqui no Blog, ou no Facebook. Obrigada, minha gente. Vocês me dão um estímulo danado!
Voltando às caricaturas, lembrei das rainhas da aeróbica. Elas já acordam de manhã cedo com suas roupinhas de ginástica e fazem tudo vestidas assim: levam filhos ao colégio, passam no supermercado, fazem seus exames de sangue, vão aos almoços com as amigas.… Não sei a que horas fazem a aeróbica propriamente dita, mas elas estão sempre em forma, e não cansam de se admirar em qualquer superfície espelhada: vitrines, espelhos, portas de edifícios, elas sempre jogam uma olhadinha para verificarem se seus bumbuns continuam empinados e se as panturrilhas estão bem delineadas. Nas academias, nas aulas de grupo, elas tomam logo os lugares da frente, para poderem acompanhar as suas evoluções no espelho. Sabem o nome e o dia de aniversário de todos os instrutores, e estão a par de suas aventuras amorosas. E como os professores de ginástica têm uma vida amorosa agitada! Escuto os relatos da aluna que "chega junto"; da gata que preferiu o personal ao marido; do marido que, depois de algumas sessões de agachamento com a professora agachou-se com um anel e um pedido de casamento etc. Os caras bombados, bombadíssimos, que falam de mulheres mas lançam olhares invejosos para os torsos masculinos também são comuns nas academias. E os aposentados, em ótima forma física, malhando todos os dias e reclamando das mulheres que não são capazes de arrumar seus armários do jeito que eles querem. Para esses coroas é importantíssimo poderem ser capazes de se vestir no escuro: "Do lado esquerdo ficam as meias pretas, do lado direito as marrons. Se elas mexem nessa ordem, corro o risco de sair com sapatos marrons e meias pretas". E passam mais de hora explicando como está o closet que tem as camisas penduradas em degradé, igualzinho nas lojas. Um dia sugeri que um deles escolhesse, como próxima esposa, uma vendedora da loja preferida dele. Não sei se ele ficou chateado ou se sua expressão traduzia o êxtase de quem acaba de ter uma revelação transcendental. Acontece que, naquele mês, abandonei a academia e não sei como terminou a saga. De vez em quando, passo por ele na rua e vejo que suas roupas continuam combinadas. Ou ele continua solteiro ou casou mesmo com a vendedora. E que todas as nossas manias sejam assim fáceis de contentar!

Wednesday, January 26, 2011

Aniversários

Ontem, 25 de janeiro, foi aniversário de São Paulo. Da cidade, não do santo. Acho que não se tem notícias de quando fosse o aniversário do santo que, antes de ser santo, foi coletor de impostos. Como estou dando aula sobre Guerra do fim do mundo, livro de Vargas Llosa sobre Canudos, lembro que o Conselheiro aceitava em seu povoado todos os tipos de pecadores, menos os ex-coletores de impostos. São Paulo não teria entrado em Canudos, vejam só. Mas São Paulo, a cidade, entra em meu panteão de cidades queridas. Todo o mundo estranha, uma carioca que gosta de Sampa, será que é normal?
Confesso que fui doutrinada por Caetano, com seu lindo hino a São Paulo e deixei que alguma coisa acontecesse em meu coração. Mas não é quando cruzo suas ruas movimentadas e ainda mais sujas que as do Rio. É quando passo pelos parques de SP, pelas ruas arborizadas e ainda cheias de casas, quando passeio pelas ruas chiquérimas, com edifícios rodeados de jardins, altos como babéis. É quando encontro um comércio pequenininho, com jeito humilde, persistindo junto a lojas que chegam a intimidar com seu luxo e grandiosidade. Também me encanta, carioca praiana, o caos labiríntico de uma cidade sem mar. Como é que alguém se orienta em SP? Nem pelas estrelas, há muito tempo invisíveis no céu poluído!
Gosto dos teatrinhos escondidos em ruas residenciais. Amo a sala São Paulo, orgulho da cidade. Gosto dos parques, que criam perspectivas. Gosto (gostava, antes do GPS) de tomar um táxi, dizer meu destino e descobrir que o motorista de táxi não fazia ideia de onde ficava o restaurante que nos haviam recomendado como o melhor da cidade… E rodávamos por umas duas horas, numa excursão pelas ruas escuras e molhadas da cidade. Pois São Paulo é uma cidade escura, deserta, povoada por círculos iluminados onde alguns "fiéis" se reúnem.
São Paulo é uma cidade cheia de códigos: A turma daqui não frequenta a turma dali. Daí que é preciso ter muitos amigos em SP, para podermos visitar vários pontos da cidade. Num dia vamos à praça, noutro à mercearia. Num dia vamos à Itália, noutro vamos ao Japão. Num dia vamos ao museu, outro dia vamos às compras.
Gosto de São Paulo, acho que porque é uma cidade aquariana, como eu. Parabéns, São Paulo!
Mesmo atrasado, aqui fica o meu abraço.

Tuesday, January 25, 2011

Maravilhas da ciência

Sou fascinada pelas notícias científicas que aparecem no jornal. A de hoje, por exemplo, me deixou esperançosa: nunca o quilo foi tão leve quanto hoje em dia. Aleluia, senhor! Só assim nossa luta contra a balança não parece tão vã. Fui ler, para saber quanto eu havia emagrecido e me decepcionei: O quê? Um grão de areia em cada quilo? Me pareceu muito pouco. Tão pouco que nem merecia ter sido noticiado. Mas, continuando a leitura, o artigo insistia que isso era importante pois tínhamos que pensar nas toneladas. Grande coisa. Ao invés de um grão de areia, mil grãos de areia. Coisa que cabe num punho de criança e que a gente dispensa assim, liberalmente, enfeitando castelos criados na beira da praia, sacudindo um chinelo, coisas triviais.
Mas aí lembrei de Canudos. Quatro anos de guerra porque os adeptos do Conselheiro não conseguiam se ajustar ao sistema métrico. Como é que transformavam "passos" e "braças" numa coisa estranha e abstrata, uma vareta de metro? Quem estava por trás dessa novidade? O anticristo, que, desprezando a criação de Deus, que nos dava pernas e braços para medir nosso espaço, inventava uma vareta e dizia que era esta nossa certeza absoluta. Vejam só. O metro diminuiu, o segundo encurtou, o quilo emagreceu. O anticristo solapou até mesmo sua própria certeza. E nos deixa neste mundo, cada vez mais conscientes de sua precariedade, de sua transitoriedade.
Na viagem que fiz à Verona, estive na praça onde estavam marcadas as medidas para o comércio. Era ali, no trono do príncipe, que estavam as medidas. Em caso de dúvida, era só dar alguns passos e conferir. O punhado de lenha, o comprimento do tecido, o peso do sal, naquele tempo distante estava tudo determinado, às claras. E a ninguém ocorria verificar se a medida estava dentro das medidas. Agora, aquele quilo safado, enclausurado em quartos e redomas, perde sua substância – perde sua alma. E todos ficamos desorientados, sem saber o que foi que aconteceu. Talvez seja melhor colocarmos nossos valores em público e deixar que todos nós cuidemos deles. Quem sabe? Talvez assim, no consenso, se encontre o verdadeiro peso das coisas.

Monday, January 17, 2011

171

Hoje, 17 de janeiro, dia do 171, me revolto contra um tipo de pessoa que surge nesta época de desolação: os descrentes de tudo. A gente escuta essas pessoas reclamando que não vão fazer doação em espécie porque algum espertalhão vai ficar com o dinheiro. Depois ainda nos dizem que não tem certeza de que as doações de roupas e alimentos vão ser encaminhadas "para lá", pode ser que fiquem no caminho, alegam. E isso ainda não é o bastante. Dizem que vão entregar pessoalmente a alguma pessoa conhecida, mas não vão comprar absolutamente nada para dar, pois só vão doar as coisas que já tem em casa. Na verdade, essas pessoas são nocivas, mesmo pensando que são generosas, elas estão levantando calúnias sobre a espécie humana. Se elas desconfiam da distribuição, guardem isso para si, e vão trabalhar como voluntárias. Se suspeitam que as pessoas não vão receber seu auxílio de coisas em desuso (na verdade me parece que estão pretendendo fazer uma limpeza em seus armários, ao invés de doarem qualquer coisa), que doem seu tempo e sua honestidade para ir pessoalmente verificar as entregas. Afinal, não estão doando para o Haiti, mas para Petrópolis, lugar que fica pertinho.
Ser solidário não é uma obrigação, tem pessoas que não o são. Mas, por favor, não desmereçam as belezas que estamos vendo e das quais estamos sendo informadas. Não desprezem a filha, que, ao procurar a mãe, acaba se envolvendo na preparação e distribuição de alimentos. Não façam pouco do rapaz que cava, com as próprias mãos, o barro e a lama, na esperança de resgatar alguém. Não voltem as costas para quem está nesta situação, dando uma de Cigarra e Formiga: "quem mandou construir onde não devia?"
Se não pode dar, não diminua o donativo dos outros. Pode ser que aquela chupeta oferecida por uma criança a outra seja tudo o que a desfavorecida precisasse para se acalmar e conseguir dormir. Deixem que seus corações batam no compasso dos outros, mas, se lhes for impossível isso, ao menos não enxovalhem os esforços dos outros!

Sunday, January 16, 2011

Caricaturas

Às vezes tenho vontade de fazer umas croniquetas, tipo os "retratos inesquecíveis" da New Yorker, mas, ao invés de retratos, fazendo caricaturas de mulheres e homens que observo pelas ruas. Poderia falar, por exemplo, da "atrasadinha". Não daquela que chega atrasada aos lugares, mas daquela que só vê as coisas depois de ocorridas. Aquela que é doida para arrumar um namorado, mas que só vê que o cara estava de olho nela depois que a amiga avisa: "Pô, Fulana, você não viu que ele não tirava os olhos de você?" Ela não tinha visto, e agora era tarde. Com torcicolo, de tanto virar para olhá-la, o cara já está indo embora da festa. Ou, pior ainda, já cruzou o olhar com aquela "auto-estimosa", que acha que todos os olhares lançados são para ela. O velhinho que estiver tendo um derrame e olhar para ela pedindo socorro, vai ganhar um sorriso e um cartãozinho com o celular dela. "Me liga outro dia, gato! Hoje estou acompanhada, não vai dar. Mas… que é isso? Não fique tristinho, não precisa dar uma de Cazuza e se jogar aos meus pés! O que é isso, homem de Deus? Eu, hein?!Gente, socorro, acode aqui, o carinha foi flechado por Cupido e teve um piripaque!"
O contrário desta é aquela mulher que se acha um horror, e acredita que todo o mundo está olhando para ela, de zombaria. "Aquele casal que chegou, viu só como eles riram da minha cara? Devem estar imaginando o que uma baleia como eu está fazendo encalhada nesta praia de bacanas!" Pior do que essa é a "simpática". Ela pega suas vítimas nas filas, nas salas de espera, nos bancos de ônibus. Sorridente, faz uma pergunta qualquer, óbvia: "Esta fila é do cinema?" "Este ônibus passa em Copacabana?" "A doutora está atrasada?" e logo embala num monólogo sobre o horror das enchentes. Ela deve ter preparado cuidadosamente esse monólogo, pois relembra todas as enchentes ocorridas naquela região. "Sabe, em 1902, a imprensa nacional já tinha categorizado a região como área de risco. A mortandade foi grande e o resgate se estendeu durante seis meses, pois naquela época não havia ainda os recursos de hoje. Nada de helicóptero, nem de retroescavadeiras. Algumas pessoas foram resgatadas de balão. Já imaginou? De balão?!" Essa leva qualquer um à total anestesia intelectual. Mas às vezes ela encontra um adversário à altura, o "sabetudo". Esse se dedica a corrigir os detalhes das informações da simpática: "No tsunami morreram quase um milhão de pessoas, e tudo por falta de um sistema de alerta!", proclama esta. Mas o sabetudo corrige: "Na verdade, morreram apenas 825.193 pessoas. Desaparecidas ficaram 932 crianças, 643 turistas alemães, 196 idosos e 47 mergulhadores. Os feridos ultrapassaram a casa do milhão, mas esta é uma estimativa, porque nos hospitais foram atendidos 987.789 pessoas. O problema é que milhares de pessoas sofreram ferimentos leves, que não foram tratados nos hospitais…" A conversa se estende, para desesperos dos apressadinhos: "Será que ainda vai demorar muito para abrir?" "Porque será que eles nos deixam aqui fora, neste calor? Isso é desumano, lá dentro tem ar condicionado" Mas, uma vez abertas as portas, quando todos estão no ar condicionado, começa a fala da descontente; "Será que só eu estou sentido frio? Não dá para abaixar a temperatura?" Que logo é corrigida pela mulher do sabetudo: "Aumentar a temperatura. Sai um tremendo bateboca, mas deixo vocês escaparem deste suplício. Volto outro dia, com outras caricaturas.
P.S. Tenho um bocadinho de cada uma dessas pessoas. Mas, quando noto, me corrijo.

Monday, January 10, 2011

Dando carona na cama

Quem leu o Joaquim Ferreira dos Santos hoje sabe que tirei meu título de sua crônica. Ele nos brinda com lições sobre "escrever" e eu fico horrorizada ao perceber que desrespeito quase todas as regras estabelecidas no texto (com ou sem ironia). Na verdade, o que ele faz é uma jogada meio manjada: faça o que eu digo mas não faça o que eu faço! O texto de JFS se notabiliza (e olha que eu podia escrever destaca e evitar este parênteses!) por lugares comuns revisitados, por gírias malandras recuperadas do fundo do baú das memórias. Sem medo da breguice e do popularesco, ele mergulha em temas e formas que muitas vezes estão ultrapassadas para trazê-las de volta com um detalhe novo, que as atualiza. JFS é um fashionista, um daqueles caras que ama pegar as velharias do passado, encostadas no sótão desde o tempo de nossas avós, e combinar polainas com minissaias e bermudas de surfista com camisas de frufru. Mas não vim aqui discutir esses detalhes, e sim comentar duas de suas frases: "Escrever é dar carona", "escrever é desarrumar a cama".
Adoro a primeira. O escritor dá carona na sua sensibilidade, na sua visão, nas suas veredas. É como um guia, que pega o leitor pela mão e diz: vem que vou te mostrar a vista linda (ou horrível, ou atemorizante, ou perversa) que descobri! Vemos com os olhos dos outros, sentimos com as emoções dos outros e desfrutamos nossa própria sensibilidade sem o perigo de embotá-la em sofrimentos e emoções reais.
Da segunda, não sei se gosto. Compreendo, mas faço objeções. Em que situações desarrumar a cama é bom, me pergunto? E o que significa mesmo desarrumar a cama? Há uma desarrumação que ocorre no "torvelinho das paixões" –eita!– outra que acontece nos "espasmos da febre"; há desarrumações sem fim, em diversas gradações, e o pior é que suspeito de que a gente só se sente confortável mesmo depois que re-arruma a cama. Não sei se vocês, meus queridos leitores, concordam com isso. Talvez a frase me incomode por dar muita importância à cama, lugar sagrado. Meu amado Proust escreveu toda sua obra deitado numa cama, com tinteiros ameaçando a limpeza dos lençóis, almofadas em excesso, xales e mantas protegendo-o do frio do quarto sem aquecimento. Sua fiel Celeste, porém, estava a postos, tirando as migalhas do croissant, esticando lençóis, prendendo as pontas soltas, substituindo, lavando, engomando. Sabemos, por ela, que ele não tolerava nada que não fosse da mais alta qualidade. E ao lermos o texto saído de entre esses lençóis, ficamos certos de que ela não mentiu: Proust era perfeccionista, obsessivo, detalhista. Então me lembro de uma modalidade de corrida, onde os veículos precisam ser não-convencionais. Acho que vi isso pela TV. Os participantes corriam dentro de barris, em carrinhos de rolimã, em bicicletas aladas, em banheiras e em camas. Recordo bem do sujeito, vestido com um camisolão e uma touca de dormir, numa cama sobre rodas correndo desabalada pela rua. Não me perguntem quem ganhou a corrida. Só sei que torci pela cama. Na verdade, a cama, que nos leva aos sonhos, é o veículo mais possante que conhecemos. Por isso, pego carona nesta cama e lá vou eu, aproveitando a deixa da partida.

Friday, January 07, 2011

Maioridade!

Ia escrever sobre amizades no Facebook, mas aí percebi que já tive mais de 21 mil hits. Hurra!
Hurra é antigo demais, não acham? E eu, todo início de ano, me divido entre o futuro e o passado, atraída pelo novo mas temerosa em deixar tudo o que for "velho conhecido". Para mim, nunca funcionam esses propósitos de tudo novo no Ano Novo. Por exemplo, se tenho que limpar o armário, separando o que for velho para passar adiante, esta é a pior época possível. Preciso aguardar uma daquelas manhãs em que acordo absolutamente esvaziada de reflexões e lembranças. Aí, irrefletidamente, tiro tudo do guarda-roupa e dou, sem nenhum problema. Na verdade, sou uma pessoa bem generosa. Gosto de dividir, de oferecer, de acolher. Se gostam das coisas que tenho (se não tiverem sido presentes e adquirido, com isso, um valor sentimental) eu ofereço. Empresto roupas de festa (emprestava, é melhor, uma vez que depois que o Guilherme morreu não tive mais ocasião de comprar roupas de festa), dou roupas de lã para amigas que viajam para o frio, passo adiante sapatos e bolsas… Dou canetas e lápis, trago presentinhos para minhas alunas e colegas proustianas sempre que viajo. Compro livros para uns e outros porque sei que uns e outros vão adorar os tais livros… Uma vez, ainda garota, fui viajar e fiquei sem dinheiro no final do passeio. Não havia problema, pois tudo estava pago, esse dinheiro que me faltou era apenas para comprar coisas. E eu já tinha comprado os presentes que ia trazer para a família. Daí que o pai de uma amiga com quem eu estava viajando fez questão de me emprestar um dinheirinho, para eu não ficar a nenhum. Era coisa pouca, mas era um dinheirinho. Aceitei feliz, saí para passear pelas ruas de Roma e me vi frente a uma linda barraca de flores. Estávamos no inverno, e aquelas flores coloridas me deixaram de tal maneira eufórica que comprei um buquê e levei de presente para a amiga cujo pai, pouco tempo antes, fizera questão de me emprestar a quantia. Eu estava tão feliz entregando as flores para sua filha que ele nem teve coragem de zangar comigo. Ela sim, falou que eu era inconsequente. Guardei o resto do dinheiro e não gastei mais nem um centavo, até chegarmos ao Brasil. Muito responsável, depois do sermão de minha amiga.
Quando me casei, vivia de mesada (éramos dois garotos, estudantes, sem emprego e sem noção). A do Gui chegava todo fim de mês. A minha, como era remessa internacional, atrasava e chegava lá pelo dia 15 ou depois. Nós pagávamos as contas com a mesada do Gui, e vivíamos frugalmente durante todo o mês. Mas, no dia em que chegava a minha mesada, tínhamos um dia de festa. Íamos ao melhor restaurante, assistíamos a um show ou a uma peça de teatro, fazíamos uma loucura que acabava com praticamente tudo o que eu recebia. No dia seguinte, voltávamos ao nosso cotidiano pobrezinho e humilde, mas com alegria. Estávamos renovados.
E assim volto eu ao tema do novo: novos tempos, novos pensamentos, novas amizades. Tenho andado fugindo do Facebook. Descobri que não sei administrar esse novo tipo de amizade. Com muita frequencia recebo pedidos de amizade no FB. Fico feliz, gosto de ter amigos, mas agora estou ficando angustiada: Como ser amiga de tanta gente? Agora no final do ano, por exemplo, meu desejo era ter mandado uma mensagem individual para cada um dos amigos da lista. Mas onde encontrar tempo para fazê-lo? Juro a vocês que sou boa amiga: eu gosto de gente. Gosto mesmo, tenho prazer em escutar as histórias das pessoas, gosto de trocar sorrisos e olhares, me agrada estar com elas em seus programas, mesmo naqueles que não são meus preferidos, só para desfrutar da companhia. Gosto de estar atenta aos seus sucessos e de me congratular com elas. Fico feliz pensando em uns e outros, admirada com a sorte que tenho de ter merecido suas amizades e gestos de carinho. Tenho saudade dos amigos distantes, compartilho da dor dos amigos que sofrem, vibro quando descubro que um deles gostou do livro que recomendei e que outro só foi assistir ao filme porque insisti, e adorou. Lamento quando indico um programa que desagrada aos amigos... chega! vocês já entenderam o que quero dizer. O problema é que com o FB não sou capaz de fazer nada disso. Nem entendo direito qual a "etiqueta", qual a regra de comportamento. Venho aqui para fazer uma espécie de ato de contrição: lamento se não estou sendo a "amiga" ideal. Mas amiga virtual é um conceito que ainda não entendi direito. Mandem-me dicas! Ensinem-me! Quero aprender a ser amiga nos tempos modernos. Saibam que me sinto feliz em receber tantas solicitações de amizade, e que só quero é ser capaz de retribuir à altura. Beijos a todos.

Tuesday, January 04, 2011

Memórias…

Minha querida T.T. continua sendo minha leitora fiel. Graças à ela, que me posta alguns comentários, me vejo obrigada a voltar aos meus "posts", pois, não sei por quê, o blog ativou uma função de moderação que me dá o direito de publicar ou não os comentários. Tecnologia não é mesmo minha praia, embora eu adore um brinquedinho novo!
Pois foi assim que voltei ao dia 24 de fevereiro de 2009, ou 2010, nem prestei atenção e reli o que tinha escrito no dia. Eu mesma me surpreendi. Algumas daquelas lembranças só me ocorreram, sem dúvida, graças a alguma associação de pensamentos impossível de recuperar. E me despertaram outras. Por exemplo, o locutor Leo Batista era amigo do meu avô. Mas, naqueles tempos prehistóricos, a TV era em preto e branco. Daí que era com muito orgulho que sabíamos que o cabelo do Leo era vermelhíssimo. Ele foi o primeiro ruivo de minhas relações. Depois tive (ainda tenho!) uma amiga ruivinha, mas com o passar do tempo seus cabelos mudaram de cor. Mas ela continua especial, só que muito distante. A sortuda vive em Paris!
Eu mesma nasci ruiva, como me contavam. Mas isso não dá para ver nos retratos, os terríveis retratos em preto e branco, instantâneos desfocados que mal me permitem reconhecer minha silhueta. Mais tarde meus cabelos ficaram louríssimos. Esses posso ver nas fotos, e nas mechas que cortavam e guardavam em envelopes. Depois foram escurecendo, mas sempre ficaram saudosos de seus reflexos dourados: qualquer sol que eu tomasse eles abriam mechas. No verão eu era mais bonita que no resto do ano.
Volto outra hora, com mais recordações. Hoje o horário está apertado.

Friday, December 17, 2010

Conto de Natal


Já há alguns anos que tenho feito um conto de Natal para a Histórias Possíveis, revista virtual com a qual contribuo desde que surgiu. Este ano, não vamos ter especial de Natal. Mas resolvi escrever meu conto natalino e publico aqui, com votos de que meus leitores queridos tenham Boas Festas e um excelente 2011, de boas leituras e muitas realizações.
Peço também desculpas pelo sumiço, mas fiquei doente na pior altura do ano: às vésperas das festas e da chegada da família.
E aqui vai meu conto, com carinho, para todos:

A árvore

Lúcia Bettencourt

Montar a árvore era coisa que se fazia no dia 1 de dezembro. Era preciso arranjar tempo, depois do trabalho, do trânsito engarrafado que alongava a cada tarde seu caminho de volta. De manhã, a correria do dia a dia não permitia. Era acordar e já começar com a lide: dar uma esticada na cama, correr para o banheiro antes que os outros acordassem e, depois do banho corrido, com o corpo quase úmido, vestir a roupa que já começava a grudar no corpo, pois o calor principiava logo aos primeiros raios de sol.

O trabalho era extenuante. Chefe novo, desejoso de mostrar serviço, não permitia nem mesmo que alguém sentasse um pouco nos banquinhos que serviam como escada para se chegar aos brinquedos pendurados nas paredes. Seus pés inchavam, com o calor e as longas horas de pé. Suas costas doíam, como se alguém, durante o dia, tivesse se entretido em enfiar agulhas em seus rins. A comida engolida às pressas aumentava sua sensação de desconforto, provocando-lhe gases e azia. Talvez o que mais incomodasse, porém, fosse a sede. Sem água gelada, era obrigada a engolir aqueles copos mornos e sempre insuficientes, isso quando já estava quase sem saliva, com os lábios ressecados. Mas era preciso racionar os líquidos, pois, se bebesse demais, precisaria usar o banheiro, o que fatalmente desgostaria o chefe, que anotava cada ida ao banheiro.

Este ano o dia 1º caía numa quarta-feira. Era o pior dia da semana. Depois de trabalhar segunda e terça, já cansada, ela nem sequer conseguia imaginar o descanso semanal de domingo, ainda tão distante que parecia uma miragem. Na volta para casa, não conseguiu lugar sentada na condução. Seus pés ardiam como se tivessem pisado em brasas. Os últimos passos até a casa quase lhe pareceram uma impossibilidade. Foi arrastando as pernas e os pés que conseguiu chegar ao portão, onde se apoiou para vasculhar a bolsa à procura da chave, nervosamente, assustada com a solidão escura da rua, um chamariz para assaltantes.

Finalmente em casa, atirou-se na cadeira meio bamba, descalçou os sapatos e esticou as pernas por alguns momentos. Depois, com os sapatos na mão, foi tratar de preparar uma comida: macarrão com sardinha, outra vez. Não tinha tempo nem ânimo para outra coisa. A toalha de plástico sobre a mesa de Fórmica, os pratos desirmanados, talheres, copos de geléia. No entanto, hoje aquilo não lhe parecia tão lúgubre como de costume. No congelador havia gelo, o que a entusiasmou a preparar uma limonada. Quando o marido chegou, a comida estava pronta, a limonada suava os copos de geléia, e o jantar, com a TV ligada mostrando cenas de novela em que até os pobres como ela ousavam sonhar e se divertir, alimentou seu corpo e sua fantasia.

Mas era preciso armar a árvore. Subir na cadeira meio bamba e buscar a caixa guardada na parte mais alta do armário. Lá estava ela, com seus tesouros de papel e brilhos, as bolas frágeis de seu tempo de menina, acondicionadas em algodão, para não se partirem. A árvore, esquálida, estendia braços quase pelados, sobre os quais ela acomodou o algodão em rama, já muito usado e encardido. Dosou as poucas bolas que lhe sobravam de uma infância mais próspera. Amarrou os laços que ia juntando, no decorrer dos anos, sempre que ganhava um presente mais bem arrumado. Aos pés da árvore o papai Noel de pelúcia, barbas amareladas pelo tempo, ficou sorrindo sem direção. Dois pássaros que ela tentou equilibrar nos galhos em posições naturais, mas que, desequilibrados, enfiavam os bicos no algodão. No ninho, dois ovinhos quebrados, que ela havia laboriosamente colado, mas que revelavam suas cicatrizes. A árvore estava pronta. Agora só faltavam as luzes e a estrela do topo. Mas a estrela estava partida. E as luzes não acenderam.

Desapontada, seus olhos se encheram de lágrimas. Aquela árvore era tão importante, era o que transformava o mês de dezembro numa época mágica. Os sonhos que acalentava avivavam suas cores iluminados pelas pequenas lâmpadas acendendo e apagando ao ritmo de seu coração. Como reabastecer sua esperança na vida, sem sua árvore? De ombros curvados e rosto desapontado, foi escovar os dentes e trocar a camisola. A casa às escuras, ela seguiu tateando até o banheiro.

Ao abrir o armário em busca da pasta de dentes, viu um vulto na sala. Assustada, virou-se e viu seu marido, que se levantava, o corpo banhado por luzes coloridas, um sorriso raro no rosto que a barba crescida sombreava.

Você esqueceu de ligar as luzes, – ele disse, como se se desculpasse. – Fica bonita a árvore assim, iluminada. Você não quer sentar aqui na sala um pouco, antes de dormir? Está entrando uma brisa. E a gente podia conversar um pouco.

Era Natal. Era preciso acreditar em milagres.

Thursday, December 02, 2010

O bestseller do momento

Nestes tempos de questionamento à literatura, vejo-me com apetites mudados: estou comprando meus presentes de amigo oculto e como sempre achei que livros são os melhores presentes do mundo, tenho andado à caça de alguns. Mas, acreditem, a única coisa que me apetece ler, no momento, são as cartas que aparecem nas mãos da polícia e dos repórteres da TV. Quantas folhas, quantos desabafos, quantas denúncias. Creio que ali se encontra um tesouro para as editoras que, unindo-as, mesclando-as, editando-as, poderão fornecer o livro mais importante para o conhecimento dessa Terceira Margem do Rio a que foram forçadas tantas pessoas. Caladas, entre tráfico e a sociedade civil, esmagadas entre descaso e violência, essas pessoas conseguiram resistir e agora escrevem longas cartas, ou curtos bilhetes, onde cada palavra possui o peso das toneladas que a todos admiram.
Ler essas cartas, analisá-las, classificá-las, isso talvez nos ensine alguma coisa a respeito de nós mesmos. A mim, o que está ensinando, no momento, é que a escrita é aquilo que nos mantém humanos, quando tudo e todos tentam nos provar que não somos nada. Uma folha de papel escrita com maior ou menor clareza, um depoimento cheio de esperança, um grito de socorro.
Que a gente nunca se esqueça destas mãos que traduziram dor, medo e revolta. E que a gente respeite e leia com unção as cartas que um dia nos chegarem aos olhos!

Saturday, November 27, 2010

Apolíneos e dionisíacos

Quem, como eu, cursou a Faculdade de Letras, está familiarizado com os conceitos do título. Resumindo, muito brevemente, existem artistas ligados ao equilíbrio e racionalidade do deus Apolo e outros ligados à desordem e instinto do deus Dioníso. Este era um deus importado da Ásia, o deus do vinho, e tinha como séquito fiéis inebriados pela "seiva da terra". Apolo era o deus da Luz, que para os gregos era sinônimo de conhecimento, inventor da poesia, e, com sua lira, dava sentido ao mundo.
Estou me dividindo entre ídolos apolíneos e dionisíacos desde que julguei ter entendido os conceitos. Ora sou totalmente fascinada pelo lado apolíneo de Cabral e de Drummond, ora me deixo embarcar na embriaguês condoreira de Castro Alves. Seja eu apaixonada por Vieira ou por Machado, fique eu sob o domínio de Oswald ou de João do Rio, acontece que sou sempre inconstante e gulosa, ansiando pela ordem na desordem ou pela paixão na lucidez.
Esta semana foi interessante, já que consegui, acidentalmente, reunir as duas "pontas da vida". Segunda feira, munida de um livro de Rimbaud, embarquei para São Paulo, para assistir ao show do Paul McCartney. Confesso: foi meu primeiro show. Nunca tinha ido assistir a nada do gênero, nunca fui ao Maracanã para ver Rolling Stones, nem ao Circo Voador para assistir Cazuza. Sou tímida. Tenho uma leve sensação de pânico em locais onde se concentram muitas pessoas. Mas era Paul McCartney, ele tinha sido um dos Beatles, e eu de repente me descobri menina e inconsequente. Lá fui eu. Na enorme e incompreensível cidade, que se recusa a desvelar sua geografia a uma carioca que se orienta pelo mar, lá estava eu, com frio, debaixo de chuva, esperando um táxi que me levasse para o Morumbi. Consertei o frio, comprando um casaco. Afinal, meu hotel era na Oscar Freire. Mas a chuva e a falta de táxis pareciam mais difíceis de resolver. Contei com a sorte, e graças a ela consegui táxi e uma hedionda capinha de chuva, daquela vendidas em sinal. Depois, já no estádio, sentada em minha cadeirinha azul, vi a chuva cessar, o estádio se encher de gente e de vendedores ambulantes que me ofereceram todos os tipos de churros. Churros? É, churros, recheados de chocolate e de doce de leite, envoltos em açúcar e canela, churros gorduchos e melados cuja visão me provocava engulhos. Cestas e mais cestas desciam as escadarias repletas e voltavam vazias, testemunhando a preferência paulista pela iguaria. Até o show começar, porém, eu me perguntava se haveria paulistas ali naquela plateia. No avião que fui para SP as camisas estampavam o rosto de Paul, sozinho ou acompanhado por seus ex parceiros. Estariam eles comendo churros?
Quando o show começou, percebi que Paul deve ser o único roqueiro apolíneo que conheço. Impecável, arrumadinho, simpático e inteligente, ele comandou o show com eficiência matemática. Cantou o que quis, como quis, fez as homenagens que julgou devidas, tirou o paletó e lá ficou ele com sua camisa branca, suas calças seguras por um suspensório, sua peculiar maneira de marcar o ritmo com as pernas juntas. Regeu a platéia em improvisos, revelou uma forma física invejável para sua idade. Aguentou uns quinze minutos de palco sozinho, com um violão e sua voz. Pirotecnia? Teve aqueles manjados fogos de artifício quando ele cantou Live and let die. Digo que são manjados porque até em kick-off de empresa eles são utilizados. Mas fazem efeito, sobretudo numa noite paulista.
A plateia me convenceu de que era mesmo paulista. Ao meu lado, ninguém dançou, ninguém deu gritos histéricos e os que cantaram, estavam um pouco mais afastados. Resultado: encabulada, eu também não dancei, não perdi a voz gritando nem mesmo cantando. Cantarolei baixinho, sorri muito para minha vizinha, Vera, que me perguntou se eu tinha assistido o outro show que ele tinha feito no Pacaembu. Eu nem sabia desse show, confessei. Ela me consolou, dizendo que eu era muito novinha para saber. Tive que concordar. Como vocês já sabem, eu estava ali com onze anos de idade apenas.
Não tenho termos de comparação, uma vez que esse era meu primeiro show de rock. Mas nada do que eu esperava aconteceu. Nenhum excesso. Nenhuma confusão. Tudo absolutamente ordenado e era o próprio deus Apolo que cantava com suas muitas liras no palco. Nunca vi tanta guitarra junta. Era a tradicional, que parece um violino de cabo comprido. Era uma com florzinha. Era outra de duas cores, era violão, era triangular… perdi as contas. Teve piano. Teve teclado psicodélico. E imagens, muitas imagens projetadas no telão, para que alguém pudesse ver alguma coisa dele. E para que todos pudessem relembrar os instantes de loucura do passado. A distância deixava todos (e tudo) minúsculos.
Mas adorei o show. Pode parecer que não, devido à minha perplexidade com essa ordenação toda. No entanto, adorei.
Só que, não esqueçam: fui para SP com um livro de Rimbaud. E existe poeta mais dionisíaco que Rimbaud? Apregoando o desregramento total de todos os sentidos, desafiando tudo e todos, o adolescente Rimbaud me fascina, principalmente por seu contraste com o Rimbaud posterior, o comerciante taciturno, o doente terminal sofrendo dores atrozes, mergulhando mais uma vez na paz da morfina. Altos e baixos. De um lado o "príncipe feliz", de outro "o mais infeliz dos poetas". Sangro com Arthur, o jovem cujo talento só foi reconhecido tarde demais. Sofro com o envelhecido Rimbaud, amargo e seco, cuja vida se extinguiu em meio a tantos sofrimentos. E escuto a voz forte e educada de Paul McCartney, me maravilho com sua musicalidade, com sua disciplina, e me pergunto: a quem pertence o mundo, afinal? Apolo ou Dioniso? Devemos embarcar com um ou alçar voo nas asas do outro?
Mas, será que precisamos escolher?

Saturday, November 20, 2010

Raios de sol

Um sábado (quase) de sol, que alegria! O Rio fica tão mais lindo, com sol, parece outra cidade. Perdão por repetir chavões, mas é impossível resistir. Comparo o Rio chuvoso e o Rio ensolarado com a TV, preto e branco e colorida. Se existe charme e encanto em assistirmos alguns filmes em preto e branco, olhar diariamente para o mundo sem cor acaba nos cansando.
Mas não vim escrever sobre isso, e sim sobre raios de sol metafóricos, que invadem nossas vidas e nos iluminam e aquecem. Hoje, por exemplo, vibrei de alegria ao ver que o livro Ficções do Desassossego, da Lucia Helena, foi resenhado no Prosa e Verso. Essas resenhas são "certificados de batismo" dos livros que escrevemos. Muitos seguem seus caminhos pagãos, outros são abertamente muçulmanos ou judeus, ou até budistas. Na verdade, nenhum livro depende dessas "certidões" para desenvolverem suas vidas saudáveis e longas, ou breves e fúteis. Mas que pai, ou mãe, não vibra com a cerimônia de batismo, de apresentação ao templo, de seja lá qual for o rito de pajelança, budista, taoísta, de candomblé, muçulmano ou judaico de sua tradição? É uma festa, mais ou menos modesta, mais ou menos concorrida, e é sempre uma alegria. Parabéns à autora e à sua resenhista.
Mais raios de sol? São muitos para comentar. Ontem fui ao lançamento do livro do Claufe Rodrigues e me diverti com a brincadeira que ele propôs: fomos gravados, usando adereços e fantasias, lendo um poema de seu livro. Um garotinho, de peruca black power e óculos metálicos, leu, tropeçando um pouco, um dos poemas do amigo da mãe. Esta, com uma peruca chanel rosa shocking e óculos de estrela, sem esquecer de uma tiara de princesa, leu o seu poema revelando uma voz educada e treinada, coisa de artista. Cada qual com sua fantasia: um poeta colocou um chapéu de cowboy dourado (suponho que pertencesse – o chapéu – ao set de Brokeback Mountain). Uma romancista apelou para longos cabelos cor de rosa. Eu optei por um boá vermelho. Os óculos são os meus, obrigada que sou a usá-los. Depois fui embora, pois as amigas queriam conversar e lá no estúdio improvisado era proibido.
Muitas manifestações de carinho e de saudade, um jantar embalado por conversas interessantes, foi uma noite de raios de sol refletidos na bela lua que enfeitava o céu.
Mas, ainda tem mais. Segunda-feira vou a SP, ver o show do Paul McCartney. Consegui o ingresso, comprei passagem de ida e volta e… mais nada. Ontem me dei conta de que vou precisar de um hotel para pernoitar. Claro que, nos que ficam próximos ao estádio, não consegui lugar. Vou, após o show, atravessar toda a cidade de SP. Isso se conseguir um táxi. Ou ônibus. A pé sei que não chegarei lá. Fui ver no google a distância e percebi que precisaria de uns dois dias e meio para chegar ao meu destino, por isso rumarei, caso não consiga condução, diretamente para o aeroporto. Mas acham que me preocupo? Quem vai ver show de Paul McCartney tem a idade mental de seu encantamento. Na segunda voltarei aos meus tenros 11 anos. Duvido que ele cante She loves you yeah, yeah, yeah, mas, seja lá o que ele cantar, eu saberei a letra. Foi assim que aprendi inglês, me esforçando para aprender as letras dos Beatles. Infelizmente, não vi o grupo junto. Mas verei o Paul, que espero não apareça no palco numa cadeirinha de rodas. Verei o Paul com os meus olhos de 11, de 12, de 18 anos. Foi um longo amor. 8 anos de devoção, de procura por recortes em revistas nacionais e estrangeiras que terminou com a violência por parte de minha mãe, que aproveitou uma viagem minha e esvaziou o armário. Lá se foram discos e recortes dos Beatles, meus livros do Príncipe Valente e a coleção de histórias que ganhei num prêmio de redação na escola. Até hoje sangro ao falar nisso. Imaginem, todos os seus tesouros roubados! Mas eia! Os raios de sol bailam no meu pensamento, e ainda tenho mais coisas iluminando meu fim de semana: Woody Allen e Lanternas Vermelhas. Amigas e família acompanhando. E uma história se desenvolvendo no computador, me entusiasmando.
Para terminar, ouvir uma amiga, falando de seu romance, me divertindo já que mostrava a ficção se construindo face à realidade. Obrigada. Estou ansiosa para lê-lo. Assim que sair, aviso a vocês, meus queridos leitores.

Sunday, November 14, 2010

Pequeno Nicolau, grande Saramago

Sessão dupla de cinema, na Laura Alvim. O pequeno Nicolau, que me provocou algumas boas risadas e me fez lembrar Mon Oncle, de que o Guilherme tanto gostava. E depois, José e Pilar, o documentário sobre a "quase" viagem de Saramago. O que mais me surpreendeu? a casa em Lanzarote. A própria ilha de Lanzarote. Varrida pelos ventos, coberta de nuvens, aparentemente desabitada, com aquela casa tão angulosa, tão despida, tão diferente da linguagem quase barroca do Saramago. Aquela casa é muito mais Pilar que José. Ou talvez muito mais um projeto para depois da "viagem". As patas do elefante.
Mas há belos momentos no filme, sobretudo quando a câmera nos oferece close-ups dos olhos de Saramago: uma mistura de medo e de sonho. Inteligentes, os dois cônjuges nem sempre nos encantam pelas suas tiradas. Na verdade, as palavras "inteligentes" o são muito pouco. Quando a gente fala com a emoção – e Doña Pilar que me perdôe – diz coisas mais belas, mais relevantes. Pode ser que mais piegas também, admito. Mas é muito mais relevante assistir a emoção de um autor vendo seu filme ser exibido e se emocionando com isso que assistir a senhora consorte a reclamar para si a palavra presidenta. Falta-lhe um pouco de sensibilidade linguística… Imaginem termos que passar a dizer a amanta, ao invés de a amante. Perde-se a tesão e o único resquício do particípio presente, o que tiraria a constância desse amor. Por isso humildemente me oponho a essa violência linguística. E isso para não falar nada da sua defesa da Hilary, e das pequenas grandes faltas de delicadeza que ela esbanja pelo filme.
Quem cresce ali é o Saramago. Em sua derrocada, ele vai crescendo, demonstrando uma força e uma elegância que nos admiram. E sua grande compaixão, qualidade que julgo encontrar nos escritores que mais admiro. O respeito pelo leitor e pela verdade que julgamos descobrir nos detalhes insuspeitados. Foi uma bela tarde.

Friday, November 12, 2010

Veredas…



De volta ao Rio, com fotos e novidades:
Começo com as fotos ao lado, tiradas no dia 10, pouco antes de meu embarque de volta ao Rio. Passear no Central Park no outono, num dia como anteontem pode ser uma das melhores coisas a se fazer em NY. A beleza das árvores, o contraste com os prédios, o friozinho que nos deixa meio elétricas, exigindo que nos movimentemos para aquecer um pouco, é um prazer que se sente com corações e mentes. Mas, principalmente, depois de ter, na noite anterior, tido o prazer de assistir Al Pacino no palco, representando o Shylock de Mercador de Veneza. Um grande ator (não em tamanho, que ele era o segundo mais baixo no elenco) exibindo, sem frescuras nem grandiloquências, sua arte. Ele estava tão perfeito que, por muitas vezes, me perguntei se ele não seria mesmo judeu. A expressão corporal era impressionante, ele parecia traduzir no corpo a essência do judaísmo. E era tão humano, seu "pathos" era tão legítimo, que fez que todos os outros personagens se tornassem artificiais, vazios, irritantes. Senti, com ele, as dores do preconceito, a raiva e o desespero, o desprezo. Seu último gesto na peça, depois de ser batizado à força, é levantar sua Kipah (como é que se escreve o nome do chapeuzinho usado pelos homens?) e, depois de limpá-la, recolocá-la em sua cabeça, não sem antes lançar um olhar expressivo, para os homens que se afastam, achando-se "os vencedores". Neste olhar havia tanta dor, tanta revolta, tanto orgulho, tanta sinceridade que, por mais que eu escreva aqui falando sobre ele, não conseguirei dizer tudo. Foi um pequeno flash, ele estava cabisbaixo, amparado por seus amigos, apenas recolheu a kipah (perdoem-se se escrevo errado) sacudiu-a e, ao levantar a cabeça para colocá-la de volta, olhou para os "bully" que se afastavam. Era o olhar de uma vítima de estupro. Foi impressionante. E depois ele saiu do palco e a peça continuou com o brilho das frases de Shakespeare, mas senti uma impaciência, era como se, depois de um drama, estivesse sendo obrigada a ver uma peça de jardim de infância onde nenhuma das crianças fosse minha conhecida. Acho que esse meu sentimento foi compartilhado. As pessoas na platéia se entreolhavam, como se se perguntassem: que erro foi esse de Shakespeare, continuar a peça depois que ela se acabou? Pois, na verdade, o Antônio se acaba ali naquele julgamento e a bela Porcia, tão inteligente, mostra que bem merece seu Bassanio: são dois fúteis! São visões do futuro, esses dois personagens, gente que se preocupa com fama e riqueza, e nada mais. O amor entre eles é muita atração sexual e cálculo, sentimento Zero!
Mas nem só de Broadway se faz uma NY, embora eu tenha feito a quase proeza de assistir 3 espetáculos desta vez: Além do Pacino, fui assistir Rain, o musical dos Beatles, que me fez regressar a um tempo em que todos os sonhos pareciam possíveis. E também Fella, sobre o líder africano do mesmo nome, com impressionantes danças negras que mostram as afinidades entre Bahia e África. Rita, baiana, ao meu lado, curtiu muito toda a coreografia.
Os museus foram apenas 3: Metropolitan, Natural History e o Discovery Center, onde estava a exibição de Tut Ankh Amun. Decomponho o nome na tentativa de recordar os significados que aprendi no cartucho, mas, de cabeça, só lembro do Ankh, o símbolo da imortalidade, quase irónico num faraó que morreu aos 19 anos de idade. Cheio de artefatos e de filmes, a exposição consegue criar a mesma expectativa da época, com a abertura da tumba do Rei Tut. Vamos sendo levados pelo Egito e acompanhamos os passos da descoberta da tumba: o jovem carregador de água que, ao cavar um buraco na areia dá com os degraus que levam à tumba, o encontro da primeira câmara, Lord Carnavon e sua filha correndo para o local, para a abertura da última câmara, o brilho da parede de ouro, que tira nossa respiração, a imensa presença do sarcófago e os seguintes, que acabam por revelar a extraordinária máscara de ouro do rei. Finalmente, a reprodução, em bronze, da múmia, a única no Egito que permanece em seu túmulo, que foi preparado cientificamente para preservá-la. E o filme da extração do DNA do faraó, que tem respondido a tantas questões da história. Para finalizar, um filme em 3D sobre Ramsés II, sua vida e o processo de mumificação. Adorei. Sem falar no convite para passar a mão no crânio do rapaz, também reproduzido em bronze.
São muitas as histórias. Ficam para depois.
Agora só falo do prazer de pegar o jornal de hoje e ler as notícias da parte científica: a leitura modificando nosso cérebro, o pensamento que pode nos levar à infelicidade, a impagável foto do Obama: ainda é muito bom ler o jornal em papel! E ler os livros em papel, também… Pois não resisti e comprei um monte ( na verdade, só uns quatro) E mais dois audiobooks, para escutar no carro (adoro!) Em resumo, a gente pensa que as viagens nos modificam, mas elas só nos tornam mais iguais a nós mesmos. Aqui estou de volta, mais Lúcia do que nunca!

Saturday, October 30, 2010

Encontros e desencontros

Roubo o título da cineasta para falar de meus últimos dias: fui e voltei e já estou indo outra vez. Fui: para Ribeirão Preto e Araraquara. Terras quentes e férteis, com gente solar, agradável. Fui recebida com carinho e atenções delicadas. Mas a viagem teve um custo alto: presa num avião com uma sinfonia de espirros e tosses, cheguei em Ribeirão carregada dos vírus que colhi no caminho e que espero não ter espalhado por aí. A agenda de entrevistas teria me deixado até algum tempo livre para explorar as cidades que visitei, mas a febre me tirou o ânimo e não cheguei a ver o "Salto Grande", nem sequer dei uma volta pelos arredores de Ribeirão. Mas o céu, enorme, azul, e os campos cultivados com capricho me encantaram. E o canto dos pássaros, em Araraquara, fizeram a minha delícia. A UNESP fica dentro de um bosque, e eu tinha vontade de sair, como louca, cantando estrofes do hino nacional: nossos bosques… Mais flores…Mais vida…nossos encantos, patria amada salve, salve! Ainda bem que não cantei. Até porque a voz que tinha se acabou de tanto falar, não sei de quê! Em Ribeirão, respondi a muitas perguntas. Em Araraquara, falei, assim, meio sem compromisso, inspirada, talvez, pelos passarinhos, pulando de galho em galho de assunto. Nos dois lugares conheci gente interessantíssima, adorei os papos públicos e privados. E, vou ter de falar, pois me sinto ainda com o peito estufado de orgulho: fui entrevistada na chácara onde Mário de Andrade escreveu Macunaíma! Com que emoção entrei ali, com que cuidado pisei naquele chão… Agora, finalmente entendo a letra do samba "pisar nesse chão devagarinho". Estava entrando no que, para mim, é um santuário. E, como meu adorado e adorável Mário tinha que ser diferente, foram logo me apresentar a banheira onde – diz-se – ele escreveu sua obra prima.
Ainda estou com a cabeça recheada de algodão, por causa da gripe, e nem posso transmitir direito minha emoção. Mas, amanhã já vou bater asas outra vez. Um pouco de NY, um pouco de Dallas. Sempre a caminho, numa tentativa de me encontrar (ou, no melhor dos casos, de me perder). Se a gripe permitir, vou a teatros e museus. Se estiver mal, pelo menos vejo amigos queridos. Então, até breve.

Wednesday, October 20, 2010

Vergonha

Às vezes me envergonho de sangrar tão fácil.
Estou me despedindo de Rimbaud, terminando com minhas alunas a leitura de Rimbaud, o filho de Pierre Michon. Um livrinho curtinho e denso que nos serviu de base para explorar a poesia e a vida do poeta. Por conta disso, fui ler as cartas que ele escreveu e que estão publicadas pela Topbooks, na tentativa, tantas vezes ensaiada por tanta gente boa e má, de compreender seu inexplicável silêncio. Claro que não faço ideia da razão de seu silêncio. E lendo suas cartas, escritas de seu "exílio" na África me admiro: por que escrever cartas depois de escrever os poemas que tinha escrito? Por que voltar a ser homem depois de ser um semideus? Mas, aquele que escreve poemas e palavras geniais pode ser considerado outra coisa que não um ser humano comum? Não precisa ele viver num corpo de carne e osso, tendo que alimentá-lo, banhá-lo, vesti-lo de maneira adequada? Poeta e gênio, não precisa ele de ganhar a vida, de manter a vida, de pensar na velhice, ou preocupar-se em aprender uma nova língua, em sobreviver entre pessoas que são regidas por leis tão diferentes das que o governam?
Cartas discutindo o preço, pleiteando pagamentos, tentando escapar de prejuízos e regularizar situações me incomodaram. Mas o que me fez escrever aqui no blog é ler suas últimas cartas, nas quais descreve os males que o afligiram e o levaram à morte.
Sangro fácil, qualquer coisa me fere, mas eu não sou Rimbaud. Imagino, então, esse alguém, com uma sensibilidade tão maior que a minha, sofrendo provações tão superiores às minhas. Medos, injustiças, dores insuportáveis e a necessidade de se aceitar como um ser vivo. Sua última viagem pelo deserto, carregado numa liteira que ele mesmo teve que desenhar, donde não pode sair nem para ir ao banheiro. Depois, já com a perna amputada, seu desespero com as muletas, seu medo de ser derrubado por alguma pessoa descuidada… Só lendo as cartas!
Abandonar a última esperança, abdicar dos últimos sonhos. Fazer a vontade da irmã carola e confessar-se, e talvez até crer, com a intensidade com que fez tudo na vida.
Tenho vergonha de sangrar tão fácil! Minhas dores me transpassam como as espadas que atravessam a imagem de N. S. das Dores e provocam sangramentos hemofílicos que não estancam, que me debilitam. Mas talvez a minha dor seja, afinal, comparável com a de Rimbaud, e com a de todos os outros sofredores: é a dor de estar viva.

Thursday, October 14, 2010

Luto

Acabo de ler O tempo envelhece depressa, de Antonio Tabucchi. Na epígrafe, a frase " Seguindo a sombra, o tempo envelhece depressa", retirada de um fragmento dos pré-socráticos.
Vou fazer uma resenha, mas meu tempo está solidificado numa pedra, que pesa sobre meu coração, há cinco anos. Minhas mãos estranham a ausência das mãos que com elas se mediam. Perdidos, tempo e afeto, só as memórias. Mas as memórias são sempre mais novas, são sempre de um tempo mais novo…
Uma citação: " Sentiu-se como aquele menino que de repente se via com um balão vazio nas mãos, como se alguém o tivesse roubado, mas não, o balão ainda estava lá, tinham somente retirado o ar de dentro."
Na minha infância aprendi muito com os balões: inflados, eles ansiavam por subir, e era necessário mantê-los à força, amarrados com nós bem dados, seguros por dedos firmes e sempre atentos. Ao menor descuido, eles se iam, sem nem ao menos se despedir. Por algum tempo era possível ficar olhando-os subir, ainda dava para se distinguir, no céu cada vez mais imenso, o pontinho de cor. Depois, era apenas um sinal, a cor contraída num ponto negro e dolorido. E, apesar dos esforços, até esse ponto desaparecia, só nos sobrava a memória da dor.
Havia outros que mantínhamos por mais tempo junto a nós. Mas esses também iam escapando devagar. Já sem forças para libertarem-se, seu voo era apenas uma afirmação de leveza, e eles exibiam seus rostos tristes e enrugados, sua superfície cada vez mais opaca, cada vez mais próximos de nossas mãos. Até que murchavam, amarrados a uma corda que era, para os balões apagados, sua condecoração.
Balões eram tristes, na sua beleza efêmera. Mas a gente só sabia que eles eram tristes no momento da perda. A gente não sabe da vida a metade…

Friday, October 08, 2010

Boas lembranças

Há alguns livros que são inesquecíveis. Talvez uns o sejam pelo conteúdo, outros pelo elevado de suas mensagens, e outros porque tenham sido presentes de uma pessoa amada. Há livros cujas ilustrações nos transportam a um mundo paralelo, livros que nos comovem até às lágrimas, livros que nos fazem rir. Tenho recordações de muitos, em todas essas categorias. Mas preciso confessar meu encantamento com alguns livros de Mário Vargas Llosa.
Começo por um que me deslumbra, embora talvez não seja a melhor coisa que o autor escreveu: Pantaleão e as visitadoras. Muito antigo, já não me lembro bem de quando ele é. Mas só sei que saiu ainda muito próximo dos tenebrosos anos da censura, em que até o Ballet de Moscou foi censurado. Imaginem, censurar um ballet. Imaginem, censurar! Pois eis que vem a prelo um livro em que os militares (os peruanos, é verdade) são alvo de zombaria e irreverência. Mas uma zombaria e irreverência de tal maneira construída que nos provocava risadas, muitas risadas. Quem não leu, corra para encontrar o romance, todo escrito em cartas e memorandos, numa variedade de "discursos" que esbanja conhecimentos de retórica e cuja "seriedade" e excelente performance de seu protagonista, tão certinho, na desordem da selva, no Carnaval do sexo e nos desvairios da religião nos divertem até às lágrimas.
Fizeram um filme, chatinho... Mas o romance é nota dez! Com certeza não foi este o romance que deu o Nobel ao Mário, mas que ajudou, lá isso ajudou.
Gosto também de um outro, picante que só ele, e que não lembro se são Os cadernos de Dom Rigoberto ou se se trata de Elogio à Madrasta. Cheio de erotismo, descreve quadros entre Dom Rigoberto e sua amada, jogos sexuais em que encontramos perversão, malícia e sensualidade. (Olhando para trás, julgo reconhecer neles alguma coisa de meu bem amado Felisberto Hernández, que quase ninguém conhece no Brasil, e que merecia ser traduzido. Las Horténsias é uma obra prima!)
Gostei de tudo o que li de Vargas Llosa - coisa que nem sempre acontece. Nem Virginia Woolf, nem mesmo Proust escapam de minhas críticas. Mas, Vargas Llosa, por diferentes que sejam seus romances, todos os que li me agradaram. Até do opúsculo que ele escreveu, dando conselhos a um escritor, gostei. Mas, até hoje não consegui ler as Travessuras da menina má, livro que vive se escondendo de mim. Comprei-o antes mesmo que fosse traduzido, em español, lá na Argentina. Pois coloquei-o na mala, e não pude continuar a leitura que tinha iniciado ainda no hotel. E, ao chegar aqui, o livro foi direto para a estante, e se perdeu na indisciplina de minha biblioteca. Tenho esperanças de que agora, com ela domesticada por meu Dédalus/Guilherme, o poeta das classificações, o livro seja facilmente alcancável. O que me falta agora é tempo.
Volto então para o Rimbaud, de quem pretendo falar na segunda. Preparo minhas aulas com carinho, e renuncio ao prazer da leitura de nosso querido premiado. Renúncia que não é custosa, pois deixo de ler um mestre da prosa para mergulhar na embriaguês dos barcos-poema, que me transportam ao encantamento.
Então, feliz prêmio Nobel para todos: os que já o receberam, os que agora são premiados e os que sonham com ele, no futuro…

Friday, October 01, 2010

Jabuti Silvestre

E eis que um amigo ganha o prêmio Jabuti.
Suponho que o nome do prêmio tenha sido escolhido em homenagem ao livro de Mário de Andrade, Clã do Jabuti, que resultou de sua viagem de "descoberta" do país. Pois o Brasil é um país que ainda está por se descobrir, se conhecer. Somos 300, somos 350, múltiplos, diversos, espalhados e antagônicos, solidários e individualistas. O que nos une? Um "certo instinto de nacionalidade", que o bruxo do Cosme Velho percebeu mas não soube explicitar. Mas é esta coisa que se acende dentro de nós e nos aquece na torcida, seja de Copa do Mundo, seja de premiação.
Na lista de finalista de romance, suponho que dez ótimos livros. Não li todos, mas os que li confirmam minha suposição. Livros de autores admirados, livros de amigos queridos, livros de pessoas a descobrir. Torci, queria que os amigos ganhassem, é claro, mas o que todos desejamos sempre, a cada ano, é que o prêmio mantenha seu prestígio e descubra nosso talento, afirmando-o com orgulho.
Quem vence o Jabuti tem uma responsabilidade com nossas letras, a responsabilidade de zelar pela nossa cultura, sem demagogias nem estrelismos, mas reconhecendo e ensinando nosso valor cultural. Quem vence o Jabuti, na verdade, somos nós, os leitores, que todos os anos vemos a grande produção cultural de nosso país receber a atenção e reconhecimento. Quem vence o Jabuti representa, entre tantos irmãos, nosso esforço e dedicação às letras, ao pensamento, à invenção de uma nação.