Thursday, June 24, 2010

Explicação da insônia

Ando abatida. Tenho dormido pouco, sempre atarefada, confundindo horas. Começou com uma tristeza, da qual nem ia falar, mas hoje a Cora me estimulou. Minha primeira noite sem dormir foi a do malfadado incêndio, que me fez passar a noite literalmente em claro. Em claro, mas na mais profunda treva de ansiedade. A sensação de impotência é a pior coisa. Ou talvez seja a segunda pior coisa, pois o que mais me incomodava é que eu — em segurança, claro— não conseguia deixar de ver a beleza fascinante das chamas. Pois aquele clarão na noite era lindo e letal. Talvez mais lindo por que letal, vá-se lá entender a alma humana. Mas a angústia da destruição me provocava engulhos e lágrimas. Foi uma noite de "Crime e castigo". De raiva e fascínio. Resultado: os dias subsequentes vão se passando numa roda viva de trabalho e alheamento, do sono que ainda não recuperei. Pois se o fogo me tirou o sono, agora são as águas que me tiram a paz. Leio sobre as enchentes em Pernambuco e Alagoas e meu coração dói. Amo esses estados, onde tive a oportunidade de encontrar bons amigos e muito acolhimento. Ouço nomes tão ligados à literatura, e sofro. Terra de meus amigos, castigada desta maneira, as imagens me fazem sofrer. Quem quiser colaborar," O Corpo de Bombeiros oferece duas contas para doações em dinheiro: Banco do Brasil, agência 3557-2, conta corrente 5241-8, e na Caixa Econômica Federal, agência 2735, operação 006, conta 955/6.", me avisa a amiga Lícia Souza. Pensem em Graciliano e mandem suas contribuições. Pensem nas pessoas amáveis e generosas, que mesmo com pouco nos recebem entre sorrisos e carinhos, e mandem suas contribuições. Pensem em suas camas limpas e cheirosas, na água corrente em suas casas, no teto sem goteiras sobre suas cabeças e mandem suas contribuições. Não fiquem indiferentes, não se desumanizem!
Depois de todas essas coisas sérias, é impossível falar sobre a bobagem da Copa, que também me tira o sono. Desejo a vitória do Brasil, mas parece que o clima é de receio. Portugal, agora, virou um bicho-papão. O jogo, que poderia ser um amistoso, já que as duas seleções já se classificaram, virou um desafio. Cristiano Ronaldo vai ser o mais bonito em campo, uma vez que o Cacá vai estar longe do jogo — É essa a vitória. Mas, o que era pra ser um jogo entre irmãos, um jogo para reunir a família em torno de um bom bacalhau, trocando-se piadas de português pelas de brasileiro, virou um jogo para disputar saldo de gols, colocação, sei lá o que mais. Virou mais um dos jogos medíocres da copa, onde ninguém brilha, todos se apagam e se amesquinham. E ainda temos a ameaça do Maradona. Se a seleção argentina ganhar, ao invés de prêmio seremos castigados com uma nudez não requisitada! Quem quer ver o Maradona peladão, montado no obelisco da 9 de julho? Sinceramente, minha amiga Halime tem uma seleção que deixaria a todos muito mais contentes se algum prometesse aparecer nos trajes de festa de Adão. De vez em quando ela nos brinda, no FB, com fotos de lindos jogadores, daqui e dali. Vamos combinar, Mará. Se a Argentina vencer, pede para a Halime escolher quem tira a camisa suada e mostra a jabulani para a gente!
E VIVA SÃO JOÃO!!!!

Thursday, June 17, 2010

Passados.

Pois é. Passou. O dia dos namorados. O dia de Santo Antônio. O jogo do Brasil. Os jogos da Copa.
Tudo passou, em branco, pelo menos para mim. Mas, desde ontem, recomeço a sair de minha toca. Ontem foi o Bloomsday. Não que eu ligue para isso, Joyce não me fala ao coração. Dou, de vez em quando, umas bicadas enfastiadas no seu Ulisses. Curto os Dubliners. Mas me encanto mais com sua vida que com suas obras. Pai de uma Lucia, imagino sua relação com ela, volta e meia. Uma relação complicada, sem dúvida.
Mas saí de casa, e tanto que não dei conta de todos os compromissos adiados para "depois do prazo". Hoje já li, estou cozinhando, e vou ao Municipal. E, se roubo um tempinho das panelas para vir aqui escrever é em agradecimento à minha T.T., que me mandou palavras tão alegres comentando minha barraquinha. Saudades dos seus olhos verdes, colorindo a vida a seu redor! Irei, com prazer, tomar a limonada, como, uma vez, há tanto tempo, fui comer romã em seu jardim, lembra? Era minha primeira romã, anêmica (descobri depois), mas especial na sua qualidade de fruta colhida no pé. E acompanhada por canções francesas. Au clair de la lune, mon ami Pierrot … Quanto às pimentas, não sei. Mas não digo não.
Agora volto às panelas e às páginas do meu livrinho.

Saturday, June 12, 2010

O quê? Já é sábado?!


Pois é… de repente, uma semana toda se passou e eu nem sei onde foi que ela se meteu! Entre as páginas de dois trabalhos, atrasadíssimos, sem dúvida. Só hoje percebo que não saio de casa há um tempão! E, se saí na segunda, na quarta e na quinta, foi apenas como uma teleguiada, sem me dar conta do que estava fazendo. Segunda é meu dia de aula, dia de alegria! E, depois da viagem, foi um prazer reencontrar alunas e amigas, voltar a discutir a vida do Henrique VIII e tentar entender suas ações. Ele, por enquanto, resiste bem. Já reparamos como — nas devidas proporções — ele parece um homem moderno, na sua fúria de rolo compressor na hora dos divórcios e separações. Nenhuma de nós concorda com suas atitudes, mas, aos poucos, compreendemos um pouco seu absurdo desinteresse, depois de mais de 3 anos de ansioso namoro, pela Ana Bolena. Mas, cada vez mais admiramos a inteligência de suas mulheres. Ele não se casou com nenhuma boba. Talvez só a Catarina Howard merecesse esse nome, se é que mereceu. E todas elas, mal ou bem, reconheceram que ele também era um homem excepcional. Até agora, estávamos lendo sobre o jovem Harry, o mais belo príncipe da cristandade, o mais formidável. Agora vamos entrar no seu declínio e conhecer o gordo, doente, impotente, mas ainda extraordinário rei.
As outras duas rápidas saídas também foram verdadeiros voos de abelha: direta em direção ao mel, e de volta para a casa, sem me distrair. Fui ao grupo das proustianas, contar um pouco das impressões de viagem e escutar muito de Proust, de Rachel, de New York, por onde andou Mag e seu olhar crítico. Na quinta, um pouco mais de liberdade: lançamento da Paula Cajaty e assinatura de contrato de um novo livro onde estou colaborando. Mas revi amigos, conversei um pouquinho, me deu até vontade de continuar saindo e me divertindo!
Mas voltei. Meus companheiros mais constantes da semana foram ensaios, romances de Carpentier, mais ensaios, reflexões sobre a leitura e sobre os intercâmbios entre pessoas e livros. Mas também tive meus momentos de TV, olhos distraídos acompanhando jogos que não chegaram a me interessar.
As viagens, portanto, são coisas do passado. Vou ver se consigo colocar mais alguma foto no FB, vai depender de minha sorte, pois nem sempre o botão "compartilhar no facebook" aparece como opção. Para vocês, uma barraquinha "porta fortuna", com tantos limões e belas pimentas, uma das muitas que encontrei pelo caminho.

Sunday, June 06, 2010

Caminhos


Acordo hoje e me perco em indagações: onde estava eu no domingo passado? Sem o bendito caderninho, já me parece impossível lembrar do que fiz. Foram tantas as cidades, tantos os caminhos… Mas antes mesmo de ir verificar, consegui me lembrar — acordei em Brescia. Mas, como lembrei do caderninho, vou transcrever aqui alguns trechos:
"Se Paris vale uma missa, Brescia nos valeu uma espécie de réquiem. A cidade não nos foi mostrada, e viemos parar direto num hotel (aliás, muito bom) ao lado da estação. Infelizmente, de manhã, um roubo: Um casal de velhinhos teve sua bolsa roubada no restaurante do hotel. Ninguém percebeu. O restaurante cheio, com o nosso grupo e mais os jovens da sinfônica de Seoul, e alguém se apossa de uma bolsa de turista, onde há passaporte e $$$, calmamente, sem testemunhos, sem que ninguém se aperceba."
Se o início do dia não foi dos melhores, sua continuação foi melhorando. O ônibus nos levou a Sirmeone, no lago de Garda, o mais bonito de todos. Quando chegamos, já que íamos tomar um barco, a Lei de Murphy se manifestou mais uma vez, e, enquanto estivemos embarcados, choveu e fez frio. Mal atracamos o sol abriu. C'est la vie!
Sirmeone fica numa ilha, na ponta de uma península estreita e compridinha. Nesta ilha, um castelo e as lembranças romanas: oliveiras de mais de 700 anos e as Termas de Catulo, uma das maiores da antiguidade, aproveitando as fontes de águas quentes, uma das quais ainda alimenta o lago, e se revela em borbulhas que sobem, alegres, até a superfície.
Mais um trecho do caderninho:
"Pelas ruas, uma impressionante quantidade de gente e de carros luxuosos, vê-se que é um lugar de turismo elegante, mas também popular. Nas lojas, uma quantidade absurda de sorvetes, paninis e pizzas nos tira a fome. E, na saída, a descoberta da Termas Fonte Boiola."
O caderninho continua, falando da região e de sua produção agrícola, tudo informação prestada pelo Gian Luca, nosso guia que se dizia apenas acompanhante. E menção aos ciclistas, que estavam por toda a parte. Enquanto isso, o motorista, Simone, nos levava até Riva de Garda, no outro extremo do lago, próxima da Áustria e, por isso mesmo, cheia de tradições austríacas. Comemos uma comida típica alemã, a tal da carne salada, uma espécie de carpaccio com essa carne salgada, bem gostosinha.
Depois fomos para Verona, onde estava acontecendo o fim do Giro d'Italia. Impressionante a quantidade de público que compareceu à cidade para ver o vencedor do torneio de ciclismo mais importante do país.
Um último trecho do caderninho:
"Agora viajamos entre montanhas, acompanhando um rio que se faz prateado entre os vinhedos. Ele brinca, ora à direita, ora à esquerda da estrada. O sol se filtra por entre as névoas que cobrem as partes mais altas das montanhas e de suas escarpas. Continuamos, e as montanhas vão se afastando cada vez mais, até que são apenas sentinelas distantes, ostentando nos cimos um pouco de neve."
Em tempo, a foto é de Riva de Garda.

Thursday, June 03, 2010

A fotógrafa subiu no telhado


Enfim, em casa. Pretendia atualizar o blog pelo caminho, mas foi impossível. Num dos lugares em que pernoitei, o acesso à internet me sairia a 35 centavos de Euro por minuto… Impraticável!
Anotei tudo num caderninho de viagem, caneta e papel nunca sairão de moda, eu acho. Nem o livro de papel, dos quais trouxe mais uma leva para enlouquecer meu querido bibliotecário de Babel – mais um Guilherme a sofrer, tentando colocar ordem nos meus livros!
Agora vou tentar fazer das minhas gracinhas, ou seja, publicar as espetaculares fotos que, por mero acaso, consegui ir tirando pelo caminho. Com elas poderei ir re-contando a história da viagem. Nesta foto ao lado, escolhida aleatoriamente, está a lembrança de minha visita ao Duomo. No primeiro dia, tendo chegado já à tardinha, passeamos só pelo chão, sem nos aventurarmos nas alturas do Duomo. Percorremos as ruas que nos levaram do hotel (Cavour) até a galeria Vittorio Emanuelle. Lá, aconselhada por Barbara, a Bela, condessa de Milano, dei as usuais voltinhas com o calcanhar encaixado aonde, um dia, estavam representados os testículos do touro. Dizem que dá sorte, e eu não quis desperdiçar esta chance. Afinal, quem não precisa de sorte? No dia seguinte foi meu dia de andar nas nuvens: primeiro, subi ao telhado do Duomo, depois fui ao Teatro alla Scala. Mas já falei sobre meu encantamento com a  ópera, e não vou me repetir aqui. O que não falei foi sobre os passeios em Paris, minhas impressões sobre as exposições maravilhosas e sobre a cidade encantadora, sempre interessante e cheias de coisas para fazer. Mas deixo para depois. Como ontem dormi o dia inteiro, por causa do jet lag que me pegou de jeito, desta vez, hoje tenho que fazer tudo o que pretendia fazer ontem, ou seja, colocar a vida em dia. Até breve, então!

Thursday, May 27, 2010

Extase!

Como foi formidàvel a òpera ontem à noite! Daniel Barenboim regendo O ouro do Reno. Uma cenografia das mais espetaculares, com o palco inundado, cantores e bailarinos dentro d'agua, vozes lindissimas, efeitos espetaculares com pouquissimo material, uso sobretudo das luzes e de imagens projetadas. E o teatro, por dentro, é lindissimo, todo em veludo vermelho e dourados, seis andares de Loggias, ou camarotes, um camarote imperial grandioso para receber alguém tao grande quanto Napoleao, que mandou construir o Teatro. Flora e eu num camarote com tres alemaes, eu podia sentir a vibraçao deles com a beleza do libreto e da musica. Bem, com a musica eu ate concordo, quanto ao libreto terei que ficar na impressao, pois do meu lugar nao consegui ler as legendas. Quando terminou o espetaculo, que foi apresentado sem intervalo, o publico saiu em estado de graça, desconhecidos falando uns com os outros, compartilhando seus sentimentos pois era muita emoçao para sentirmos calados! Lindo! Emocionante! Com todos os pontos de exclamaçao que puder usar.

Wednesday, May 26, 2010

Paris é uma festa (ainda)

Sim, Hemmingway tinha razao, e o computador nao tem til. Mas Paris é uma festa em dias de sol, encantadores e coloridos. Tantas coisas para fazer em pouco tempo. Sò com relaçao a Proust havia duas exposiçoes! Uma no museu de letras e manuscritos, em St. Germain, e outra no Marmottan, um palàcio lindo na Porte de la Muette. Munch, Lucien Freud, Sainte Russie, Turner e Picasso, Crime et Chatiment (Crime e castigo) e muitas mais. Optei por Munch e por La Sainte Russie porque eram os museus que estavam abertos nos dias que pude ir. No domingo fui visitar a casa e os jardins de Monet, em Giverny. Nao podia ter escolhido um dia melhor. Assim que puder, publicarei algumas das fotos escandalosamente lindas que tirei, e de antemao peço desculpas, pois os jardins possuem um fundo musical de canto de passarinhos e também é acompanhado pelos mais variados perfumes de flores e isso nao se consegue reproduzir. Havia uma multidao, une foule, por toda a parte. Tanto em Giverny quanto em Paris, era bom parar e olhar o mundo se reunindo em paz e sorrisos. Além dos 4 museus, ainda fui ver uma peça de teatro. La maison de poupée, com a Audrey Tautou, nossa querida Amélie Poulain. Que continua fazendo carinhas de Amélie Poulain, mas que até consegue representar bem direitinho. O teatro de la Madeleine é que é muito lindo por dentro, mas mais apertado que os teatros brasileiros. Os joelhos ficam roçando na cadeira da frente, parecia que eu estava no teatro do Fashion Mall.
Foi tudo o que deu para fazer. Entre um programa e outro, livros, livros e mais livros! E um vestido e duas blusas, para me livrar do calor que ia me matando. A vontade era de andar de canga, mas nao dava... Ontem vim para Milano! Com as dicas da Barbara Càssara, estou fazendo os passeios mais lindos, me deliciando. Hoje vou ao Scala, que me surpreendeu por ser tao pequenino. Mais tarde vou ve-lo por dentro, depois conto. E, como nao tenho muito tempo aqui no computador do hotel, deixo para contar os detalhes depois, quando form me lembrando, no Brasil.

Thursday, May 20, 2010

Travel light

Será que algum dia viajei assim, "light", quase sem bagagem, sem expectativas, sem amarras? Essa é uma arte que às vezes domino. Uma roupa para sair à noite, dois pares de calça, algumas blusas, casaco, se esfriar – está pronta a mala! Mas, desta vez, errei a mão: fiz a mala cedo demais, e nos três dias em que ela ficou aberta a meu lado, fui colocando mais coisas de que fui lembrando: cachecol, luva, cintos, meias, bijoux, escova para o cabelo. E livros. E um caderno. E o computador. A máquina fotográfica. Os quinhentos carregadores a que nossa modernidade nos obriga. E as notícias das amigas, avisando que está frio. Ou que está quente, agora está parecendo verão! Resultado, saio daqui com a mala cheia, com casacos demais, com a sensação de que vou levando roupas demais para dias de menos. Mas agora não vou mexer mais na mala. Vou assim mesmo. E com uma malinha de mão, com uma muda de roupa, em caso de extravio de bagagem. Ah, que importa? Vou feliz!

Saturday, May 15, 2010

Descobertas de uma manhã de outono

Minha casa se desfaz: aparelhos que quebram, portas que não abrem, os vestígios do tempo… Mas faz tão pouco tempo que estou aqui! Talvez seja minha insistência nas coisas voláteis da modernidade, que aprendi a amar com o Gui.
Fui criada cultuando o passado. Em minha casa valorizávamos o tapete velho, o lustre antigo a poltrona usada. Aquele tinha sido o tinteiro do bisavô. Este era o castiçal da vovó. Minha casa parecia e ainda parece um museu, não de coisas valiosas, mas de pequenos objetos que talvez ainda guardem um pouco dos desaparecidos. Quando viemos para o Brasil, absolutamente sem dinheiro, "herdamos" os móveis velhos de tios e amigos. Não sei como conseguimos dar uma aparência de casa bonitinha e decorada com tantos retalhos díspares. O sofá de veludo vermelho gasto que herdamos de minha mãe milagrosamente combinava com as poltronas amarelas de com braços puídos, que ganhei da madrinha. Para disfarçar os buracos, fiz capinhas de crochê, com barbante, já que era o material mais barato. Essa era eu. Mas o Gui era apaixonado pela novidade. Ele estava sempre antenado com maquininhas, objetos que eu encarava com absoluta indiferença, enquanto ele se extasiava com sua modernidade. Aos poucos fui me convertendo: passei a apreciar, mesmo sem entender e sem me esforçar para aprender a usar todo o potencial das novas aparelhagens de som, dos controles remotos que controlavam tudo, menos minha capacidade de usá-los, até por que, quando eu finalmente conseguia dominar uma novidade, esta já havia se tornado obsoleta e estava na hora de trocá-la. Passei a achar muito natural trocarmos um computador que me parecia absolutamente maravilhoso, por um outro que me parecia hostil, mas que me garantiam ser muito melhor. Agora, sozinha, tendo que administrar as novidades, percebo que elas são efêmeras por natureza. A fechadura é o máximo, mas tem vida breve, assim como o telefone celular pelo qual tenho um verdadeiro encantamento, mas que me tenta com mais uma novidade que só posso obter se trocá-lo por um modelo mais moderno.
E cá estou eu às voltas com o Kindle (que já troquei duas vezes), com a TV, com o DVD, as máquinas que perdem seus fios e se tornam inúteis tão rapidamente.
E olho meu retrato, sendo abraçada pelo Guilherme e percebo que sou supérflua, sou quase imaterial nesta foto, que tanto me agrada. A solidez do Gui, de seu braço me envolvendo, de sua mão que parece segurar uma quimera, é isso que se destaca nesta foto, além dos sorrisos absolutamente felizes.
Essa é minha descoberta nesta manhã de outono. Minha fluidez. Não tenho "substância", por isso me apeguei a coisas do passado e depois me fascinei por modernidades. Mas, eu, mesma, qual seria a minha preferência? Agora, sozinha, o que escolheria? Acho que minha única escolha própria são os livros. Nem sequer os livros em si, mas as histórias contidas nestes livros. As quimeras.

Thursday, May 13, 2010

Perdi o Baudelaire

Tanto que eu quis publicar um texto que li, de Baudelaire falando sobre arte e fotografia, mas a incompetência cibernética me impediu. Agora não sei mais onde anda o Baudelaire. Por aí, pelo espaço. E eu perdi a vontade de falar sobre arte, perdi a vontade de falar do Baudelaire, estou meio blasée. Tem épocas que acho que o mundo conspira contra mim: Procuro uma revista no jornaleiro e não acho. Leio textos e não os compreendo. Vejo meus prazos se esgotarem, e não reajo. Sei lá. 
O vento lá fora canta, e isso me deixa inquieta. O vento agora me sussurra coisas que não consigo mais entender. Houve um tempo em que eu adorava os dias de vento. Em minha casa sem ar condicionado, qualquer corrente de ar era bem vinda. E eu adorava andar na rua nos dias ventosos, cabelos me chicoteando o rosto, e eu andando contra ou a favor do vento, as roupas se agitando e se enfunando a meu redor, como velas prontas a me levar para outros portos. Um dia, parti. Mas parti com destino, e no novo porto encontrei abrigo e âncora firme. Agora minhas velas estão rotas, perdi minha âncora, qualquer ventinho me faz rodopiar. E, por falar em rodopiar, me lembro de um outro dia de vento, distante no tempo, e eu, na janela, vendo as coisas mais disparatadas passarem em frente a ela: roupas, flores, brinquedos, papéis, sapatos, Tudo desfilando em frente ao sexto andar, subindo e descendo num balé sem coreografia, rodopiando loucamente por breves instantes, ameaçando cair e depois subindo, se elevando até andares ainda mais altos. Espantada, acompanhava com os olhos aquele espetáculo, sem me dar conta do perigo que representava. Mesas e cadeiras de plástico passaram voando, colchonetes, guarda-chuvas revirados, expondo seus esqueletos.  Quando se passou isso? Já não sei. As lembranças agora se misturam, se combinam, se perfeccionam em matéria de sonhos ainda não sonhados. Houve um dia de vento que testemunhei. Talvez Baudelaire tenha passado voando em frente aos meus olhos, naquela data. Talvez essa seja a data de seu desaparecimento. Talvez tenha sido aquele o dia em que o conheci. Hoje ele se foi, então, num vento muito mais brando. Mas não há como segurá-lo, as raízes não se fincam na areia das ampulhetas. Baudelaire, Drummond, Rimbaud, Bandeira, Verlaine, João Cabral, Anna Akmahtova, Paul Celan, Secchin, Adrienne Rich, magos de palavras que sopram pela minha vida e me inquietam, desfilando horrores e imprecisões, bisturis e lucidez… Olhando o turbilhão não percebo os perigos e me mantenho, fascinada, à janela, sonhando em criar asas.

Sunday, May 09, 2010

Dia das mães

Destesto dia em que a gente se sente na obrigação de ser feliz! Sempre impliquei com essas obrigações: estar apaixonado no dia dos namorados, se sentir livre no Carnaval, honrar pai e mãe nos dias respectivos, dar um exagero de presentes no Natal, achar que tudo vai mudar no Ano Novo, e por aí vai… O pior de tudo é que cada vez sinto mais patente essa tradução de amor e carinho em $$$$. Fulano ama tanto sua mãe que lhe dá um carro, mas Sicrana supera seu amor, pois lhe dá um apartamento. E o filho da mendiga? O quanto ele sofre e se sente inferiorizado porque ao invés de dar um conjunto estofado da casa Bahia só pode dar para sua mãe a bala que estava guardando há tanto tempo, e que já está até melada? Pois, para mim, tem mais valor o taxista que me trouxe ontem para a casa, que me confessou que gostaria muito de ir ver as acrobacias aéreas, mas não ia poder, pois era dia das Mães. "Prefiro ficar com ela", foi a frase despretensiosa que ouvi, de um homem jovem, bem apessoado, que não estava querendo impressionar ninguém e que, por delicadeza, talvez nem comente seu desejo de ver os aviõezinhos se arriscando enquanto riscam os ares. E aí eu penso: E estes pilotos, será que eles não têm mães? Qual a mãe que vê seu filho fazendo essas maluquices sem sentir as garras do temor em volta de seu coração? Me lembro da amiga que ganhou de presente, de seus filhos, o filme dos dois se atirando de Bungee-Jump. Ao invés de uma declaração de amor piegas e melosa dos filhos distantes, ela vê o que lhe parece uma tentativa de suicídio! Ficou mal, chorou, mas os filhos riram dela e a chamaram de boba. "Mamãe exagera", foi o que eles me disseram, quando os encontrei. O pior é que a gente se controla, amarra um sorriso, diz com voz um pouco trêmula "Meu filho, tome cuidado!". E fica tentando se convencer de que o importante é que nossos filhos vivam felizes; que nós não devemos impedi-los; que eles sabem o que estão fazendo e que mais vale uma vida bem vivida que a pusilanimidade.
Passamos a vida fingindo que está tudo bem, quando, na verdade, a vida é uma sucessão de perdas primordiais que vamos tentando preencher com nossos atos. Nascemos e somos, imediatamente, mutilados: cortam nosso cordão umbilical, até então nosso suprimento de tudo o que necessitávamos. Temos que começar a respirar, sugar, chorar, comunicar, exigir, lutar. E nossa testemunha, desde o início, é nossa mãe. E é por que ela se comove com nossa fragilidade, por que ela se esforça para nos compreender, porque traduz nossos vagidos, é por ela ser quem é que sobrevivemos. E aí, chega um dia, e a gente pensa que pode, com um anel de brilhante, agradecer o que ela fez por nós. Um abraço, beijos, um presente e logo partimos para nossa própria satisfação, para nossas obrigações, para longe… E nem guardamos na lembrança o rosto que, de ano para ano, se apaga um pouco mais…
Hoje estou muito argumentativa! Só estou solidária com aqueles filhos que, como o Chico Buarque, passam seu primeiro dia das mães de órfãos. Estes, acredito, devem estar refletindo no verdadeiro valor de suas mães. Liberados do presentinho, que depende de seus bolsos, podem pensar em suas mães com seus corações vulneráveis pela ferida recente.
Mãe, seu colo, seu silêncio, suas implicâncias, os instantes de prazer e alegria que passamos a seu lado e depois os instantes em que nos alegrávamos por não mais precisarmos de sua presença e ajuda. Mãe com seus ralhos e implicâncias, com suas impaciências e seus transbordamentos. Mãe.

Thursday, May 06, 2010

Tirado da Gazeta do Povo 05.05.10

Leitura sem piedade
Em meados da década, o antropólogo Felipe Lindoso – um dos virtuosos do mercado editorial brasileiro – publicou um estudo nanico, porém revolucionário, intitulado O Brasil pode se tornar um país de leitores? Deu o que falar. A pergunta, propositalmente com jeito de “e por falar nisso”, teve o efeito de um beliscão de mãe. Há muito se reza a ladainha de que só o ensino e a leitura podem salvar a nação do fogo do inferno. Virou um argumento messiânico. Mas ninguém tinha ousado duvidar da possibilidade de a gente dar um jeitinho de se salvar. Pois é. O risco existe e ao insinuá-lo Lindoso deixa o leitor com a mão no queixo. Ponto para ele. É dessa insegurança que o pesquisador tira proveito para chamar atenção sobre suas teses, tirando da boca do público a velha resposta pronta para as mazelas nacionais. E a mais importante de suas teses é que só se vai vencer a batalha do livro e da leitura com estratégias agressivas e certeiras, semelhante às dedicadas ao agronegócio ou ao setor de energia.

A tática de guerra é a seguinte. Sabe-se que os índices de leitura se movem, para cima, a cada vez que a economia aquece. Os êxitos do Plano Cruzado e do Real fizeram com que mais livros fossem retirados das prateleiras, para alegria geral da nação. Mas tolo o país que se fiúza apenas no sobe e desce do mercado para
avaliar seu desempenho de leitura. Seria o mesmo que dizer que o aumento nas vendas de barras de chocolate representa que as pessoas aprenderam mais sobre boa alimentação. Para ser um país de homens e mulheres com livros às mancheias é preciso articular três itens: os avanços na educação, a melhoria de renda e o tempo dedicado ao esporte de juntar letrinhas. Eis a questão. Tempo é prioridade, cultura, atividade humana. Não é um índice do IBGE. E fazer com que as pessoas dediquem algumas horas do seu dia ao silêncio da leitura implica dizer que essa prática é tão importante quanto pilotar iPods, ir ao cinema ou gozar das delícias urbanas, para citar algumas donatárias dos relógios contemporâneos.

É assunto complicado, mexe com a alma e a alma é o segredo do negócio. Daí a tentação de confundir bom desempenho com o sucesso dos livros da moda, a exemplo de O Código Da Vinci, de Dan Brown, ou com a saúde financeira das editoras cristãs, às voltas com a piedade e com autoajuda. A essa altura, alguém pode dizer que se volta ao ponto – é tudo uma questão de educação. E é. Não há nada mais educativo do que promover na sociedade a proliferação de agentes de leitura. Que eles sejam tantos quanto os garis, os agentes de saúde e os
professores da rede pública. E que agentes de leitura sejam inclusive esses todos. Caso existam, aos borbotões, esses operários da leitura vão se ocupar de ensinar a ler, a ter boa luz em casa e um lugar adequado para abrir o livro. Mais do que isso. Vão vigiar os currículos es colares, para que privilegiem a leitura. Pro moverão a leitura em voz alta – essa lição de antigamente, caída em desuso nas salas apinhadas das de alunos. Os agentes irão às ruas exigir programas de redução do preço dos livros.

De quebra, farão campanhas em favor do livro que mobilizarão mundos em fundos, tanto as que são feitas para evitar as DSTs, os acidentes de trânsito, a homofobia. Nos palanques, hão de pedir que as verbas de incentivo à cultura não privilegiem tanto os artistas esquecendo-se, sem piedade, dos seus consumidores. Parece um manual de utopia dos anos 60, editado para os anos 2000. E talvez o seja, porque este de fato é uma libido reprimida do Brasil – ser um país de leitores. Chega de lágrimas: é possível, se houver políticas continuadas, se superarmos a marca vergonhosa de 25% dos municípios, apenas, com bibliotecas. Se o livro se tornar importante. Do contrário, a resposta à pergunta de Lindoso será “não”. E não veremos país nenhum.

Thursday, April 29, 2010

Insisto, em Z

Z era a cidade que Percy Fawcett procurava no interior do Brasil. Como cheguei a Fawcett? Através de Callado e de sua reportagem O esqueleto na Lagoa Verde e também de minha amiga Kim que, ao vir visitar o Pantanal, trouxe o livro de Graham contando sobre o tresloucado Coronel. Um sonhador, Fawcett nem sequer coronel era. Corrigiu as injustiças do exército britânico promovendo-se no nome. Com uma natureza de "semideus", ele se embrenhou pelas matas brasileiras procurando uma cidade grandiosa a que chamava de Z. A cidade nunca apareceu e Fawcett desapareceu, talvez por tê-la encontrado numa outra dimensão. Muitos procuraram por ele e os ossos, encontrados na mata à beira de uma lagoa, dizem os ingleses que não são dele (Callado até reclama do fato de terem levado os ossos para serem examinados na Inglaterra). Se fossem, o mito se esfumaçaria, como o desejo de descobrir essas cidades perdidas se esfumaçou. Nas ironias da vida, quem descobriu uma magnífica cidade perdida foi um concorrente, Hiram Bingham, a quem se honra como descobridor de Machu Picchu. Quantas paixões e vaidades nestas expedições! E quantas paixões e vaidades nestas guerras de festas modernas, quando, na falta de cidades a serem descobertas, palácios são construídos para durarem apenas uma noite. E, no entanto, às vezes é possível fazer uma construção muito mais duradoura com um bolo cheiroso e brindes de guaraná. Ontem alguns amigos se reuniram para comemorar o aniversário do Edney Silvestre, e foi ele quem falou na magia de seus aniversários de menino pobre. Nossa festa não foi nada pobre. Generosos, os amigos lhe ofertaram bolo, docinhos, espumante e presentes. E cada qual lhe ofereceu o melhor sorriso, o abraço mais quente, o beijo mais delicado. Bolo e guaraná. Afeto e emoção. O que procuramos em Z, em Machu Picchu, em Shangrilá e Eldorado é esse momento em que bolo e guaraná nos foram oferecidos e que nós nos sentimos perfeitamente amados e queridos…

Tuesday, April 27, 2010

Eldorado

Eldorado era a cidade que exploradores procuravam no interior da Amazônia. Aliás, o rio Amazonas deve seu nome a um explorador (não me peçam nomes, há muito que os nomes que conhecia foram parar no arquivo morto do Alzheimer) que disse ter encontrado as descendentes da rainha Hipólita por aqui pelas margens do rio. Se considerarmos que os cavalos não existiam no Novo Mundo, e que deve ser muito difícil andar a cavalo no meio de uma floresta densa, levando, a toda hora, uma lambada de galho de árvore e um tropeção em alguma raiz, a gente logo ri dessa visão. O que será que a teria motivado? As Sereias avistadas por Colombo sei que foram as interpretações da solidão combinadas com a visão das gentis fêmeas de Manatee, o nosso Peixe Boi (que não é um peixe, e sim mamífero) enquanto exibiam suas tetas para os marinheiros. Na carta, Colombo diz que as Sereias de cara não tinham formosura, mas que seus corpos não eram de todo feios… (tenho uma amiga que, depois de um mês de dieta rigorosa, foi à feira e achou que umas sandálias penduradas em uma barraca eram apetitosas linguiças! Só ao chegar perto constatou o engano. Será que o Almirante descobriu seu engano?)
El Dorado era o nome do rei de uma cidade grandiosa escondida nas selvas. Conta a lenda que, todos os dias, esse rei postava-se nu e que seus súditos se encarregavam de soprar ouro em pó sobre seu corpo até que este ficasse totalmente dourado, daí seu nome. Ao final do dia, esse rei banhava-se no rio que por ali passava, deixando evidente que a abundância de ouro era tamanha que o metal podia ser desperdiçado. Isso inflamava a imaginação dos europeus, cujo interesse pelo ouro era maior que o bom senso. Junto a essa lenda, de riqueza, surgiu uma outra, de que a fonte da juventude estaria localizada nessa cidade. Ora, se existe uma coisa que faça o homem se separar de seu ouro, esta é a promessa de eterna juventude! Daí que as expedições se multiplicaram e muitos perderam a vida e a sanidade nestes descaminhos.
Mas, será que cessamos de procurar por esses mitos? Acho que não: No fim de semana, as fotos de Angelique Chartouny, no JB, me mostraram uma ardente expedicionária à fonte da juventude, que ela julga estar situada entre as mãos de um cirurgião plástico e as de um dermatologista. Com suas ampolas de botox e restylane, ela se unge, talvez a cada manhã, e constrói sua imagem congelada de mito. Nas festas feéricas (de fadas) seu sorriso imperturbável derrama-se por sobre os diamantes e esmeraldas, e ela brinda, com champagne, as outras súditas de seu reino de ouro e ilusão. Enquanto isso, nós, pobres mortais, com nossas rugas de espanto e perplexidade, vamos aos cinemas em 3D, ver outros tipos de delírio, histórias lisérgicas que apresentam heroínas cada vez menos humanas e mais deformadas.
Voltarei ao assunto.

Monday, April 26, 2010

Eldorado Vs. Z

Fui a um casamento que parecia um conto de fadas. Deslumbre, foi o que senti ao sair da banalidade da noite, no lado de fora, e entrar num céu estrelado cobrindo uma extraordinária disposição de flores, mesas, objetos, tudo surgido como se por artes de uma varinha de condão.
Quando foi que nos transformamos em especialistas em festas de sonho? Não faz muito tempo, a gente afastava os móveis da sala, preparava sanduiches de pão de forma que víamos sendo cortados, na hora, na padaria, numas maquininhas perigosas mas que deixavam as fatias fininhas e sem cascas. Todos colaboravam, uns enchiam bolas, outros enrolavam brigadeiros, alguém emprestava bandejas, os mais elegantes contratavam garçons, que ao fim da festa estavam caindo de bêbados, intoxicados de tantos "restinhos" surripiados.
Os dotes culinários de cada família eram exibidos orgulhosamente. Falava-se da torta de D. Fulana e do Bobó de Sicrana, e todos balançavam as cabeças, concordando e salivando, ou tímidamente oferecendo um comentário que dizia que o de Beltrana não ficava atrás. Um dia as coisas mudaram. Para fazer uma festa tínhamos que contratar buffês ou banqueteiras. Depois passamos a ter que alugar mesas, e contratar cerimoniais, que por sua vez contratam RP's e Valet's, seguranças particulares, vigilantes para os banheiros, etc. Para darmos uma festa precisamos virar empresas, ou capitulamos e vamos a uma casa de festa que se encarregará de todos os detalhes, desde que possamos pagar por eles. Dos cajuzinhos e brigadeiros, dos bem casados e beijinhos de coco, já só conhecemos a memória. Os doces, irreconhecíveis em seus disfarces de flores, de bonecos, de animais, de cartões de visita, de carrinhos, instrumentos musicais, xícaras, permanecem como enigmas a serem decifrados pelas bocas gulosas. Mordemos um retratinho do bebê e descobrimos que foi feito com um doce de abacaxi e gotas de chocolate. Cravamos os dentes num fradinho barrigudo e provamos um doce de banana recheado de ovos moles. As flores nos entregam, entre suas pétalas, doces de ovos sem ovos e bombons de nozes sem as mesmas, preocupados que estão, nossos anfitriões, em manter nossa saúde. Por isso mesmo, as frituras foram banidas dos coquetéis: barquetes de pepino recheados de ricota, canapés de aipo com passas e wraps de tomate seco desfilam, elegantes, entre as bandejas de mini comidinhas. Num copinho de cachaça nos dão um aperitivo de feijoada, enquanto que nos bares, que se multiplicam, nos afogam em mil sabores de caipirinhas feitas com vodka, sakê, tequila, vinho do porto ou seja lá o que mais inventarem.
Falei tanto que fiquei com saudade dos almoços em que serviam o velho e hoje desprestigiado "arroz de forno". Ninguém nem sabe mais o que é isso! Sei até de um caso (verídico) de que a empregada pediu as contas depois que a patroa lhe pediu para fazer um arroz de forno.
"Que absurdo! Contratam a gente pedindo trivial e depois querem que a gente faça desses pratos complicados! Se ela ainda quisesse um risoto, dava para fazer, mas um arroz de forno! É exploração!"
Mas o post já está muito longo. Depois volto ao assunto.

Friday, April 23, 2010

Transações imobiliárias

Escrevi um imeio agora a um amigo querido e, por caminhos e descaminhos de minha imaginação, fiquei pensando que poderia publicar um anúncio do gênero:" troco apartamento no Leblon por outro no Paraíso, com vista para o Rio". Missão cumprida no mundo, sem muito o que fazer por aqui, posso me mudar a qualquer momento, mas não quero perder minha cidade nem tão maravilhosa de vista. Vestida numa túnica confortável, com uma lira absolutamente inútil nas mãos, pois desisti de minhas lições musicais, eu me debruçaria para olhar o mar e as montanhas, abstraindo trânsito, sujeira, todos os desconfortos do Rio. Ajustaria a imagem para não ver a poluição avançando resoluta pelas águas do mar e dos rios embutidos que antes enfeitavam a cidade. Quando cansasse disso, iria para as aulas de voo, e me divertiria pegando correntes de ar, como surfistas pegam onda. Nos dias de chuva, para não molhar as asinhas, ficaria lá por cima e voejaria como mosca em volta dos santos filósofos, para ver se eles me deixariam ler um pouquinho. Depois, cansada de tanta eternidade, iria começar a me desfiar, como uma nuvem, cada vez mais transparente e tênue, até me misturar para sempre no azul do céu. Alguém tem um condomínio lá pelo alto?

Wednesday, April 21, 2010

Os passos perdidos

Qual será o animal que deixou esta pegada indo para o Student Center da University of Kentucky? Um Puma? Um Leão? Algum felino, com as garras recolhidas, gentil com os amigos, que foi me mostrando os caminhos a serem seguidos lá pela Universidade.
Já disse, e volto a repetir, que adorei o Campus e que a Conferência foi muito especial. Tudo me interessou, os trabalhos, as pessoas, os livros comentados, as novidades, as estratégias, a colaboração… Eu acordava de manhã com vontade de ir logo para lá, de chegar cedinho para conversar um pouquinho mais. E tanto entusiasmo foi bom, pois me permitiu escapar das "trapaças" que o transporte tentou fazer. Cada dia o ônibus me deixou num lugar diferente. O caso mais engraçado foi no segundo dia. O primeiro, como eu ignorava tudo, fui perguntando e cheguei no lugar certo. No segundo, achei que já era veterana. O ônibus parou num prédio estranho e todos saltaram e lá fui eu seguindo aquela turma, cujos rostos ainda não me eram familiares. Entramos num edifício e lá estava servido um lauto café da manhã, com frutas e bolinhos e café e outras delícias. E lá fui eu ficando por ali, todo mundo se servindo e eu atrás, uma caneca de café cheiroso numa das mãos, um prato de frutas na outra, sem conseguir encontrar ninguém da minha turma. E lá não encontraria mesmo, pois estava num café da manhã de outro encontro, da área médica. Disfarcei, terminei minha fatia de abacaxi, e fui carregando minha canequinha descartável em direção à porta, até que consegui deslizar para fora e me encaminhar para o lugar correto. Que mico, como diriam aqui. Lá contei para o pessoal, que achou muita graça, não sei se do meu embaraço ou da minha cara de pau. Bem, tentei colocar um albinho de fotos aqui, mas não consegui. Vou tentar fazê-lo no FB, mas só amanhã. Agora quero ler um pouco.

Monday, April 19, 2010

abraços de cá e de lá

Pois é. Ontem lá estava eu sob o sol (frio) de Kentucky. Hoje cá estou no sol (ameno) do Rio. Me despedi da cidade com um abraço. Free hugs, anunciava um casal na esquina em frente ao meu hotel, e pareciam pedir desculpas pela oferta de carinho. Eu estava na companhia de outra "panelista" — adoro essas nomenclaturas meio inusitadas — e abraçamos aqueles moradores de lá, e em nosso abraço estava o agradecimento por um fim de semana tão pleno, que se fechava numa nota gentil e carinhosa. Agora que chego em casa, encontro abraços virtuais, abraços da família, dos amigos. Coisa boa, começar assim esta semana, no dia de Santo Expedito, que mostra urgência em espalhar seus afetos pela cidade.
Assim que me organizar, colocarei as fotos da Conferência, muito mal tiradas com meu celular, e falarei de todas as boas lembranças que gaurdo de lá.
Mas agora, descanso um pouco. Mereço, andei tanto de avião!…

Saturday, April 17, 2010

Despedidas

Hoje foi o ultimo dia da conferencia e agora aqui estou eu, escrevendo num computador estranho, sem saber onde encontrar os acentos. Perdao. Deixei o Campus florido com saudade, mas a turma mais animadinha resolveu ir junta para tomar cocktails no "SkyBar", e, depois do cocktail, os remanescentes foram atras de um restaurante. As conversas ainda estao acontecendo, mas eu comecei a sentir muito frio, e resolvi voltar para o hotel. Um pouco arrependida, pois bem que gostaria de continuar na companhia do pessoal, tao simpatico, mas tambem contente de voltar e ter um tempinho para arrumar minhas coisas, e quem sabe ate escrever um pouco. Vou abreviar este post, dizendo que Kentucky agora tem um significado de alegria e de prazer para mim. Mas eu saoube isso desde que vi o Campus pela primeira vez. Afinal, a cor da Universidade e azul, minha cor favorita. Portanto, me despeco aqui com o grito de guerra do pessoal: SEE BLUE!