Thursday, May 27, 2010

Extase!

Como foi formidàvel a òpera ontem à noite! Daniel Barenboim regendo O ouro do Reno. Uma cenografia das mais espetaculares, com o palco inundado, cantores e bailarinos dentro d'agua, vozes lindissimas, efeitos espetaculares com pouquissimo material, uso sobretudo das luzes e de imagens projetadas. E o teatro, por dentro, é lindissimo, todo em veludo vermelho e dourados, seis andares de Loggias, ou camarotes, um camarote imperial grandioso para receber alguém tao grande quanto Napoleao, que mandou construir o Teatro. Flora e eu num camarote com tres alemaes, eu podia sentir a vibraçao deles com a beleza do libreto e da musica. Bem, com a musica eu ate concordo, quanto ao libreto terei que ficar na impressao, pois do meu lugar nao consegui ler as legendas. Quando terminou o espetaculo, que foi apresentado sem intervalo, o publico saiu em estado de graça, desconhecidos falando uns com os outros, compartilhando seus sentimentos pois era muita emoçao para sentirmos calados! Lindo! Emocionante! Com todos os pontos de exclamaçao que puder usar.

Wednesday, May 26, 2010

Paris é uma festa (ainda)

Sim, Hemmingway tinha razao, e o computador nao tem til. Mas Paris é uma festa em dias de sol, encantadores e coloridos. Tantas coisas para fazer em pouco tempo. Sò com relaçao a Proust havia duas exposiçoes! Uma no museu de letras e manuscritos, em St. Germain, e outra no Marmottan, um palàcio lindo na Porte de la Muette. Munch, Lucien Freud, Sainte Russie, Turner e Picasso, Crime et Chatiment (Crime e castigo) e muitas mais. Optei por Munch e por La Sainte Russie porque eram os museus que estavam abertos nos dias que pude ir. No domingo fui visitar a casa e os jardins de Monet, em Giverny. Nao podia ter escolhido um dia melhor. Assim que puder, publicarei algumas das fotos escandalosamente lindas que tirei, e de antemao peço desculpas, pois os jardins possuem um fundo musical de canto de passarinhos e também é acompanhado pelos mais variados perfumes de flores e isso nao se consegue reproduzir. Havia uma multidao, une foule, por toda a parte. Tanto em Giverny quanto em Paris, era bom parar e olhar o mundo se reunindo em paz e sorrisos. Além dos 4 museus, ainda fui ver uma peça de teatro. La maison de poupée, com a Audrey Tautou, nossa querida Amélie Poulain. Que continua fazendo carinhas de Amélie Poulain, mas que até consegue representar bem direitinho. O teatro de la Madeleine é que é muito lindo por dentro, mas mais apertado que os teatros brasileiros. Os joelhos ficam roçando na cadeira da frente, parecia que eu estava no teatro do Fashion Mall.
Foi tudo o que deu para fazer. Entre um programa e outro, livros, livros e mais livros! E um vestido e duas blusas, para me livrar do calor que ia me matando. A vontade era de andar de canga, mas nao dava... Ontem vim para Milano! Com as dicas da Barbara Càssara, estou fazendo os passeios mais lindos, me deliciando. Hoje vou ao Scala, que me surpreendeu por ser tao pequenino. Mais tarde vou ve-lo por dentro, depois conto. E, como nao tenho muito tempo aqui no computador do hotel, deixo para contar os detalhes depois, quando form me lembrando, no Brasil.

Thursday, May 20, 2010

Travel light

Será que algum dia viajei assim, "light", quase sem bagagem, sem expectativas, sem amarras? Essa é uma arte que às vezes domino. Uma roupa para sair à noite, dois pares de calça, algumas blusas, casaco, se esfriar – está pronta a mala! Mas, desta vez, errei a mão: fiz a mala cedo demais, e nos três dias em que ela ficou aberta a meu lado, fui colocando mais coisas de que fui lembrando: cachecol, luva, cintos, meias, bijoux, escova para o cabelo. E livros. E um caderno. E o computador. A máquina fotográfica. Os quinhentos carregadores a que nossa modernidade nos obriga. E as notícias das amigas, avisando que está frio. Ou que está quente, agora está parecendo verão! Resultado, saio daqui com a mala cheia, com casacos demais, com a sensação de que vou levando roupas demais para dias de menos. Mas agora não vou mexer mais na mala. Vou assim mesmo. E com uma malinha de mão, com uma muda de roupa, em caso de extravio de bagagem. Ah, que importa? Vou feliz!

Saturday, May 15, 2010

Descobertas de uma manhã de outono

Minha casa se desfaz: aparelhos que quebram, portas que não abrem, os vestígios do tempo… Mas faz tão pouco tempo que estou aqui! Talvez seja minha insistência nas coisas voláteis da modernidade, que aprendi a amar com o Gui.
Fui criada cultuando o passado. Em minha casa valorizávamos o tapete velho, o lustre antigo a poltrona usada. Aquele tinha sido o tinteiro do bisavô. Este era o castiçal da vovó. Minha casa parecia e ainda parece um museu, não de coisas valiosas, mas de pequenos objetos que talvez ainda guardem um pouco dos desaparecidos. Quando viemos para o Brasil, absolutamente sem dinheiro, "herdamos" os móveis velhos de tios e amigos. Não sei como conseguimos dar uma aparência de casa bonitinha e decorada com tantos retalhos díspares. O sofá de veludo vermelho gasto que herdamos de minha mãe milagrosamente combinava com as poltronas amarelas de com braços puídos, que ganhei da madrinha. Para disfarçar os buracos, fiz capinhas de crochê, com barbante, já que era o material mais barato. Essa era eu. Mas o Gui era apaixonado pela novidade. Ele estava sempre antenado com maquininhas, objetos que eu encarava com absoluta indiferença, enquanto ele se extasiava com sua modernidade. Aos poucos fui me convertendo: passei a apreciar, mesmo sem entender e sem me esforçar para aprender a usar todo o potencial das novas aparelhagens de som, dos controles remotos que controlavam tudo, menos minha capacidade de usá-los, até por que, quando eu finalmente conseguia dominar uma novidade, esta já havia se tornado obsoleta e estava na hora de trocá-la. Passei a achar muito natural trocarmos um computador que me parecia absolutamente maravilhoso, por um outro que me parecia hostil, mas que me garantiam ser muito melhor. Agora, sozinha, tendo que administrar as novidades, percebo que elas são efêmeras por natureza. A fechadura é o máximo, mas tem vida breve, assim como o telefone celular pelo qual tenho um verdadeiro encantamento, mas que me tenta com mais uma novidade que só posso obter se trocá-lo por um modelo mais moderno.
E cá estou eu às voltas com o Kindle (que já troquei duas vezes), com a TV, com o DVD, as máquinas que perdem seus fios e se tornam inúteis tão rapidamente.
E olho meu retrato, sendo abraçada pelo Guilherme e percebo que sou supérflua, sou quase imaterial nesta foto, que tanto me agrada. A solidez do Gui, de seu braço me envolvendo, de sua mão que parece segurar uma quimera, é isso que se destaca nesta foto, além dos sorrisos absolutamente felizes.
Essa é minha descoberta nesta manhã de outono. Minha fluidez. Não tenho "substância", por isso me apeguei a coisas do passado e depois me fascinei por modernidades. Mas, eu, mesma, qual seria a minha preferência? Agora, sozinha, o que escolheria? Acho que minha única escolha própria são os livros. Nem sequer os livros em si, mas as histórias contidas nestes livros. As quimeras.

Thursday, May 13, 2010

Perdi o Baudelaire

Tanto que eu quis publicar um texto que li, de Baudelaire falando sobre arte e fotografia, mas a incompetência cibernética me impediu. Agora não sei mais onde anda o Baudelaire. Por aí, pelo espaço. E eu perdi a vontade de falar sobre arte, perdi a vontade de falar do Baudelaire, estou meio blasée. Tem épocas que acho que o mundo conspira contra mim: Procuro uma revista no jornaleiro e não acho. Leio textos e não os compreendo. Vejo meus prazos se esgotarem, e não reajo. Sei lá. 
O vento lá fora canta, e isso me deixa inquieta. O vento agora me sussurra coisas que não consigo mais entender. Houve um tempo em que eu adorava os dias de vento. Em minha casa sem ar condicionado, qualquer corrente de ar era bem vinda. E eu adorava andar na rua nos dias ventosos, cabelos me chicoteando o rosto, e eu andando contra ou a favor do vento, as roupas se agitando e se enfunando a meu redor, como velas prontas a me levar para outros portos. Um dia, parti. Mas parti com destino, e no novo porto encontrei abrigo e âncora firme. Agora minhas velas estão rotas, perdi minha âncora, qualquer ventinho me faz rodopiar. E, por falar em rodopiar, me lembro de um outro dia de vento, distante no tempo, e eu, na janela, vendo as coisas mais disparatadas passarem em frente a ela: roupas, flores, brinquedos, papéis, sapatos, Tudo desfilando em frente ao sexto andar, subindo e descendo num balé sem coreografia, rodopiando loucamente por breves instantes, ameaçando cair e depois subindo, se elevando até andares ainda mais altos. Espantada, acompanhava com os olhos aquele espetáculo, sem me dar conta do perigo que representava. Mesas e cadeiras de plástico passaram voando, colchonetes, guarda-chuvas revirados, expondo seus esqueletos.  Quando se passou isso? Já não sei. As lembranças agora se misturam, se combinam, se perfeccionam em matéria de sonhos ainda não sonhados. Houve um dia de vento que testemunhei. Talvez Baudelaire tenha passado voando em frente aos meus olhos, naquela data. Talvez essa seja a data de seu desaparecimento. Talvez tenha sido aquele o dia em que o conheci. Hoje ele se foi, então, num vento muito mais brando. Mas não há como segurá-lo, as raízes não se fincam na areia das ampulhetas. Baudelaire, Drummond, Rimbaud, Bandeira, Verlaine, João Cabral, Anna Akmahtova, Paul Celan, Secchin, Adrienne Rich, magos de palavras que sopram pela minha vida e me inquietam, desfilando horrores e imprecisões, bisturis e lucidez… Olhando o turbilhão não percebo os perigos e me mantenho, fascinada, à janela, sonhando em criar asas.

Sunday, May 09, 2010

Dia das mães

Destesto dia em que a gente se sente na obrigação de ser feliz! Sempre impliquei com essas obrigações: estar apaixonado no dia dos namorados, se sentir livre no Carnaval, honrar pai e mãe nos dias respectivos, dar um exagero de presentes no Natal, achar que tudo vai mudar no Ano Novo, e por aí vai… O pior de tudo é que cada vez sinto mais patente essa tradução de amor e carinho em $$$$. Fulano ama tanto sua mãe que lhe dá um carro, mas Sicrana supera seu amor, pois lhe dá um apartamento. E o filho da mendiga? O quanto ele sofre e se sente inferiorizado porque ao invés de dar um conjunto estofado da casa Bahia só pode dar para sua mãe a bala que estava guardando há tanto tempo, e que já está até melada? Pois, para mim, tem mais valor o taxista que me trouxe ontem para a casa, que me confessou que gostaria muito de ir ver as acrobacias aéreas, mas não ia poder, pois era dia das Mães. "Prefiro ficar com ela", foi a frase despretensiosa que ouvi, de um homem jovem, bem apessoado, que não estava querendo impressionar ninguém e que, por delicadeza, talvez nem comente seu desejo de ver os aviõezinhos se arriscando enquanto riscam os ares. E aí eu penso: E estes pilotos, será que eles não têm mães? Qual a mãe que vê seu filho fazendo essas maluquices sem sentir as garras do temor em volta de seu coração? Me lembro da amiga que ganhou de presente, de seus filhos, o filme dos dois se atirando de Bungee-Jump. Ao invés de uma declaração de amor piegas e melosa dos filhos distantes, ela vê o que lhe parece uma tentativa de suicídio! Ficou mal, chorou, mas os filhos riram dela e a chamaram de boba. "Mamãe exagera", foi o que eles me disseram, quando os encontrei. O pior é que a gente se controla, amarra um sorriso, diz com voz um pouco trêmula "Meu filho, tome cuidado!". E fica tentando se convencer de que o importante é que nossos filhos vivam felizes; que nós não devemos impedi-los; que eles sabem o que estão fazendo e que mais vale uma vida bem vivida que a pusilanimidade.
Passamos a vida fingindo que está tudo bem, quando, na verdade, a vida é uma sucessão de perdas primordiais que vamos tentando preencher com nossos atos. Nascemos e somos, imediatamente, mutilados: cortam nosso cordão umbilical, até então nosso suprimento de tudo o que necessitávamos. Temos que começar a respirar, sugar, chorar, comunicar, exigir, lutar. E nossa testemunha, desde o início, é nossa mãe. E é por que ela se comove com nossa fragilidade, por que ela se esforça para nos compreender, porque traduz nossos vagidos, é por ela ser quem é que sobrevivemos. E aí, chega um dia, e a gente pensa que pode, com um anel de brilhante, agradecer o que ela fez por nós. Um abraço, beijos, um presente e logo partimos para nossa própria satisfação, para nossas obrigações, para longe… E nem guardamos na lembrança o rosto que, de ano para ano, se apaga um pouco mais…
Hoje estou muito argumentativa! Só estou solidária com aqueles filhos que, como o Chico Buarque, passam seu primeiro dia das mães de órfãos. Estes, acredito, devem estar refletindo no verdadeiro valor de suas mães. Liberados do presentinho, que depende de seus bolsos, podem pensar em suas mães com seus corações vulneráveis pela ferida recente.
Mãe, seu colo, seu silêncio, suas implicâncias, os instantes de prazer e alegria que passamos a seu lado e depois os instantes em que nos alegrávamos por não mais precisarmos de sua presença e ajuda. Mãe com seus ralhos e implicâncias, com suas impaciências e seus transbordamentos. Mãe.

Thursday, May 06, 2010

Tirado da Gazeta do Povo 05.05.10

Leitura sem piedade
Em meados da década, o antropólogo Felipe Lindoso – um dos virtuosos do mercado editorial brasileiro – publicou um estudo nanico, porém revolucionário, intitulado O Brasil pode se tornar um país de leitores? Deu o que falar. A pergunta, propositalmente com jeito de “e por falar nisso”, teve o efeito de um beliscão de mãe. Há muito se reza a ladainha de que só o ensino e a leitura podem salvar a nação do fogo do inferno. Virou um argumento messiânico. Mas ninguém tinha ousado duvidar da possibilidade de a gente dar um jeitinho de se salvar. Pois é. O risco existe e ao insinuá-lo Lindoso deixa o leitor com a mão no queixo. Ponto para ele. É dessa insegurança que o pesquisador tira proveito para chamar atenção sobre suas teses, tirando da boca do público a velha resposta pronta para as mazelas nacionais. E a mais importante de suas teses é que só se vai vencer a batalha do livro e da leitura com estratégias agressivas e certeiras, semelhante às dedicadas ao agronegócio ou ao setor de energia.

A tática de guerra é a seguinte. Sabe-se que os índices de leitura se movem, para cima, a cada vez que a economia aquece. Os êxitos do Plano Cruzado e do Real fizeram com que mais livros fossem retirados das prateleiras, para alegria geral da nação. Mas tolo o país que se fiúza apenas no sobe e desce do mercado para
avaliar seu desempenho de leitura. Seria o mesmo que dizer que o aumento nas vendas de barras de chocolate representa que as pessoas aprenderam mais sobre boa alimentação. Para ser um país de homens e mulheres com livros às mancheias é preciso articular três itens: os avanços na educação, a melhoria de renda e o tempo dedicado ao esporte de juntar letrinhas. Eis a questão. Tempo é prioridade, cultura, atividade humana. Não é um índice do IBGE. E fazer com que as pessoas dediquem algumas horas do seu dia ao silêncio da leitura implica dizer que essa prática é tão importante quanto pilotar iPods, ir ao cinema ou gozar das delícias urbanas, para citar algumas donatárias dos relógios contemporâneos.

É assunto complicado, mexe com a alma e a alma é o segredo do negócio. Daí a tentação de confundir bom desempenho com o sucesso dos livros da moda, a exemplo de O Código Da Vinci, de Dan Brown, ou com a saúde financeira das editoras cristãs, às voltas com a piedade e com autoajuda. A essa altura, alguém pode dizer que se volta ao ponto – é tudo uma questão de educação. E é. Não há nada mais educativo do que promover na sociedade a proliferação de agentes de leitura. Que eles sejam tantos quanto os garis, os agentes de saúde e os
professores da rede pública. E que agentes de leitura sejam inclusive esses todos. Caso existam, aos borbotões, esses operários da leitura vão se ocupar de ensinar a ler, a ter boa luz em casa e um lugar adequado para abrir o livro. Mais do que isso. Vão vigiar os currículos es colares, para que privilegiem a leitura. Pro moverão a leitura em voz alta – essa lição de antigamente, caída em desuso nas salas apinhadas das de alunos. Os agentes irão às ruas exigir programas de redução do preço dos livros.

De quebra, farão campanhas em favor do livro que mobilizarão mundos em fundos, tanto as que são feitas para evitar as DSTs, os acidentes de trânsito, a homofobia. Nos palanques, hão de pedir que as verbas de incentivo à cultura não privilegiem tanto os artistas esquecendo-se, sem piedade, dos seus consumidores. Parece um manual de utopia dos anos 60, editado para os anos 2000. E talvez o seja, porque este de fato é uma libido reprimida do Brasil – ser um país de leitores. Chega de lágrimas: é possível, se houver políticas continuadas, se superarmos a marca vergonhosa de 25% dos municípios, apenas, com bibliotecas. Se o livro se tornar importante. Do contrário, a resposta à pergunta de Lindoso será “não”. E não veremos país nenhum.

Thursday, April 29, 2010

Insisto, em Z

Z era a cidade que Percy Fawcett procurava no interior do Brasil. Como cheguei a Fawcett? Através de Callado e de sua reportagem O esqueleto na Lagoa Verde e também de minha amiga Kim que, ao vir visitar o Pantanal, trouxe o livro de Graham contando sobre o tresloucado Coronel. Um sonhador, Fawcett nem sequer coronel era. Corrigiu as injustiças do exército britânico promovendo-se no nome. Com uma natureza de "semideus", ele se embrenhou pelas matas brasileiras procurando uma cidade grandiosa a que chamava de Z. A cidade nunca apareceu e Fawcett desapareceu, talvez por tê-la encontrado numa outra dimensão. Muitos procuraram por ele e os ossos, encontrados na mata à beira de uma lagoa, dizem os ingleses que não são dele (Callado até reclama do fato de terem levado os ossos para serem examinados na Inglaterra). Se fossem, o mito se esfumaçaria, como o desejo de descobrir essas cidades perdidas se esfumaçou. Nas ironias da vida, quem descobriu uma magnífica cidade perdida foi um concorrente, Hiram Bingham, a quem se honra como descobridor de Machu Picchu. Quantas paixões e vaidades nestas expedições! E quantas paixões e vaidades nestas guerras de festas modernas, quando, na falta de cidades a serem descobertas, palácios são construídos para durarem apenas uma noite. E, no entanto, às vezes é possível fazer uma construção muito mais duradoura com um bolo cheiroso e brindes de guaraná. Ontem alguns amigos se reuniram para comemorar o aniversário do Edney Silvestre, e foi ele quem falou na magia de seus aniversários de menino pobre. Nossa festa não foi nada pobre. Generosos, os amigos lhe ofertaram bolo, docinhos, espumante e presentes. E cada qual lhe ofereceu o melhor sorriso, o abraço mais quente, o beijo mais delicado. Bolo e guaraná. Afeto e emoção. O que procuramos em Z, em Machu Picchu, em Shangrilá e Eldorado é esse momento em que bolo e guaraná nos foram oferecidos e que nós nos sentimos perfeitamente amados e queridos…

Tuesday, April 27, 2010

Eldorado

Eldorado era a cidade que exploradores procuravam no interior da Amazônia. Aliás, o rio Amazonas deve seu nome a um explorador (não me peçam nomes, há muito que os nomes que conhecia foram parar no arquivo morto do Alzheimer) que disse ter encontrado as descendentes da rainha Hipólita por aqui pelas margens do rio. Se considerarmos que os cavalos não existiam no Novo Mundo, e que deve ser muito difícil andar a cavalo no meio de uma floresta densa, levando, a toda hora, uma lambada de galho de árvore e um tropeção em alguma raiz, a gente logo ri dessa visão. O que será que a teria motivado? As Sereias avistadas por Colombo sei que foram as interpretações da solidão combinadas com a visão das gentis fêmeas de Manatee, o nosso Peixe Boi (que não é um peixe, e sim mamífero) enquanto exibiam suas tetas para os marinheiros. Na carta, Colombo diz que as Sereias de cara não tinham formosura, mas que seus corpos não eram de todo feios… (tenho uma amiga que, depois de um mês de dieta rigorosa, foi à feira e achou que umas sandálias penduradas em uma barraca eram apetitosas linguiças! Só ao chegar perto constatou o engano. Será que o Almirante descobriu seu engano?)
El Dorado era o nome do rei de uma cidade grandiosa escondida nas selvas. Conta a lenda que, todos os dias, esse rei postava-se nu e que seus súditos se encarregavam de soprar ouro em pó sobre seu corpo até que este ficasse totalmente dourado, daí seu nome. Ao final do dia, esse rei banhava-se no rio que por ali passava, deixando evidente que a abundância de ouro era tamanha que o metal podia ser desperdiçado. Isso inflamava a imaginação dos europeus, cujo interesse pelo ouro era maior que o bom senso. Junto a essa lenda, de riqueza, surgiu uma outra, de que a fonte da juventude estaria localizada nessa cidade. Ora, se existe uma coisa que faça o homem se separar de seu ouro, esta é a promessa de eterna juventude! Daí que as expedições se multiplicaram e muitos perderam a vida e a sanidade nestes descaminhos.
Mas, será que cessamos de procurar por esses mitos? Acho que não: No fim de semana, as fotos de Angelique Chartouny, no JB, me mostraram uma ardente expedicionária à fonte da juventude, que ela julga estar situada entre as mãos de um cirurgião plástico e as de um dermatologista. Com suas ampolas de botox e restylane, ela se unge, talvez a cada manhã, e constrói sua imagem congelada de mito. Nas festas feéricas (de fadas) seu sorriso imperturbável derrama-se por sobre os diamantes e esmeraldas, e ela brinda, com champagne, as outras súditas de seu reino de ouro e ilusão. Enquanto isso, nós, pobres mortais, com nossas rugas de espanto e perplexidade, vamos aos cinemas em 3D, ver outros tipos de delírio, histórias lisérgicas que apresentam heroínas cada vez menos humanas e mais deformadas.
Voltarei ao assunto.

Monday, April 26, 2010

Eldorado Vs. Z

Fui a um casamento que parecia um conto de fadas. Deslumbre, foi o que senti ao sair da banalidade da noite, no lado de fora, e entrar num céu estrelado cobrindo uma extraordinária disposição de flores, mesas, objetos, tudo surgido como se por artes de uma varinha de condão.
Quando foi que nos transformamos em especialistas em festas de sonho? Não faz muito tempo, a gente afastava os móveis da sala, preparava sanduiches de pão de forma que víamos sendo cortados, na hora, na padaria, numas maquininhas perigosas mas que deixavam as fatias fininhas e sem cascas. Todos colaboravam, uns enchiam bolas, outros enrolavam brigadeiros, alguém emprestava bandejas, os mais elegantes contratavam garçons, que ao fim da festa estavam caindo de bêbados, intoxicados de tantos "restinhos" surripiados.
Os dotes culinários de cada família eram exibidos orgulhosamente. Falava-se da torta de D. Fulana e do Bobó de Sicrana, e todos balançavam as cabeças, concordando e salivando, ou tímidamente oferecendo um comentário que dizia que o de Beltrana não ficava atrás. Um dia as coisas mudaram. Para fazer uma festa tínhamos que contratar buffês ou banqueteiras. Depois passamos a ter que alugar mesas, e contratar cerimoniais, que por sua vez contratam RP's e Valet's, seguranças particulares, vigilantes para os banheiros, etc. Para darmos uma festa precisamos virar empresas, ou capitulamos e vamos a uma casa de festa que se encarregará de todos os detalhes, desde que possamos pagar por eles. Dos cajuzinhos e brigadeiros, dos bem casados e beijinhos de coco, já só conhecemos a memória. Os doces, irreconhecíveis em seus disfarces de flores, de bonecos, de animais, de cartões de visita, de carrinhos, instrumentos musicais, xícaras, permanecem como enigmas a serem decifrados pelas bocas gulosas. Mordemos um retratinho do bebê e descobrimos que foi feito com um doce de abacaxi e gotas de chocolate. Cravamos os dentes num fradinho barrigudo e provamos um doce de banana recheado de ovos moles. As flores nos entregam, entre suas pétalas, doces de ovos sem ovos e bombons de nozes sem as mesmas, preocupados que estão, nossos anfitriões, em manter nossa saúde. Por isso mesmo, as frituras foram banidas dos coquetéis: barquetes de pepino recheados de ricota, canapés de aipo com passas e wraps de tomate seco desfilam, elegantes, entre as bandejas de mini comidinhas. Num copinho de cachaça nos dão um aperitivo de feijoada, enquanto que nos bares, que se multiplicam, nos afogam em mil sabores de caipirinhas feitas com vodka, sakê, tequila, vinho do porto ou seja lá o que mais inventarem.
Falei tanto que fiquei com saudade dos almoços em que serviam o velho e hoje desprestigiado "arroz de forno". Ninguém nem sabe mais o que é isso! Sei até de um caso (verídico) de que a empregada pediu as contas depois que a patroa lhe pediu para fazer um arroz de forno.
"Que absurdo! Contratam a gente pedindo trivial e depois querem que a gente faça desses pratos complicados! Se ela ainda quisesse um risoto, dava para fazer, mas um arroz de forno! É exploração!"
Mas o post já está muito longo. Depois volto ao assunto.

Friday, April 23, 2010

Transações imobiliárias

Escrevi um imeio agora a um amigo querido e, por caminhos e descaminhos de minha imaginação, fiquei pensando que poderia publicar um anúncio do gênero:" troco apartamento no Leblon por outro no Paraíso, com vista para o Rio". Missão cumprida no mundo, sem muito o que fazer por aqui, posso me mudar a qualquer momento, mas não quero perder minha cidade nem tão maravilhosa de vista. Vestida numa túnica confortável, com uma lira absolutamente inútil nas mãos, pois desisti de minhas lições musicais, eu me debruçaria para olhar o mar e as montanhas, abstraindo trânsito, sujeira, todos os desconfortos do Rio. Ajustaria a imagem para não ver a poluição avançando resoluta pelas águas do mar e dos rios embutidos que antes enfeitavam a cidade. Quando cansasse disso, iria para as aulas de voo, e me divertiria pegando correntes de ar, como surfistas pegam onda. Nos dias de chuva, para não molhar as asinhas, ficaria lá por cima e voejaria como mosca em volta dos santos filósofos, para ver se eles me deixariam ler um pouquinho. Depois, cansada de tanta eternidade, iria começar a me desfiar, como uma nuvem, cada vez mais transparente e tênue, até me misturar para sempre no azul do céu. Alguém tem um condomínio lá pelo alto?

Wednesday, April 21, 2010

Os passos perdidos

Qual será o animal que deixou esta pegada indo para o Student Center da University of Kentucky? Um Puma? Um Leão? Algum felino, com as garras recolhidas, gentil com os amigos, que foi me mostrando os caminhos a serem seguidos lá pela Universidade.
Já disse, e volto a repetir, que adorei o Campus e que a Conferência foi muito especial. Tudo me interessou, os trabalhos, as pessoas, os livros comentados, as novidades, as estratégias, a colaboração… Eu acordava de manhã com vontade de ir logo para lá, de chegar cedinho para conversar um pouquinho mais. E tanto entusiasmo foi bom, pois me permitiu escapar das "trapaças" que o transporte tentou fazer. Cada dia o ônibus me deixou num lugar diferente. O caso mais engraçado foi no segundo dia. O primeiro, como eu ignorava tudo, fui perguntando e cheguei no lugar certo. No segundo, achei que já era veterana. O ônibus parou num prédio estranho e todos saltaram e lá fui eu seguindo aquela turma, cujos rostos ainda não me eram familiares. Entramos num edifício e lá estava servido um lauto café da manhã, com frutas e bolinhos e café e outras delícias. E lá fui eu ficando por ali, todo mundo se servindo e eu atrás, uma caneca de café cheiroso numa das mãos, um prato de frutas na outra, sem conseguir encontrar ninguém da minha turma. E lá não encontraria mesmo, pois estava num café da manhã de outro encontro, da área médica. Disfarcei, terminei minha fatia de abacaxi, e fui carregando minha canequinha descartável em direção à porta, até que consegui deslizar para fora e me encaminhar para o lugar correto. Que mico, como diriam aqui. Lá contei para o pessoal, que achou muita graça, não sei se do meu embaraço ou da minha cara de pau. Bem, tentei colocar um albinho de fotos aqui, mas não consegui. Vou tentar fazê-lo no FB, mas só amanhã. Agora quero ler um pouco.

Monday, April 19, 2010

abraços de cá e de lá

Pois é. Ontem lá estava eu sob o sol (frio) de Kentucky. Hoje cá estou no sol (ameno) do Rio. Me despedi da cidade com um abraço. Free hugs, anunciava um casal na esquina em frente ao meu hotel, e pareciam pedir desculpas pela oferta de carinho. Eu estava na companhia de outra "panelista" — adoro essas nomenclaturas meio inusitadas — e abraçamos aqueles moradores de lá, e em nosso abraço estava o agradecimento por um fim de semana tão pleno, que se fechava numa nota gentil e carinhosa. Agora que chego em casa, encontro abraços virtuais, abraços da família, dos amigos. Coisa boa, começar assim esta semana, no dia de Santo Expedito, que mostra urgência em espalhar seus afetos pela cidade.
Assim que me organizar, colocarei as fotos da Conferência, muito mal tiradas com meu celular, e falarei de todas as boas lembranças que gaurdo de lá.
Mas agora, descanso um pouco. Mereço, andei tanto de avião!…

Saturday, April 17, 2010

Despedidas

Hoje foi o ultimo dia da conferencia e agora aqui estou eu, escrevendo num computador estranho, sem saber onde encontrar os acentos. Perdao. Deixei o Campus florido com saudade, mas a turma mais animadinha resolveu ir junta para tomar cocktails no "SkyBar", e, depois do cocktail, os remanescentes foram atras de um restaurante. As conversas ainda estao acontecendo, mas eu comecei a sentir muito frio, e resolvi voltar para o hotel. Um pouco arrependida, pois bem que gostaria de continuar na companhia do pessoal, tao simpatico, mas tambem contente de voltar e ter um tempinho para arrumar minhas coisas, e quem sabe ate escrever um pouco. Vou abreviar este post, dizendo que Kentucky agora tem um significado de alegria e de prazer para mim. Mas eu saoube isso desde que vi o Campus pela primeira vez. Afinal, a cor da Universidade e azul, minha cor favorita. Portanto, me despeco aqui com o grito de guerra do pessoal: SEE BLUE!

Thursday, April 15, 2010

Assistam, please

BOOK

Bom humor e tulipas em profusão

Depois de descansar, a vida sempre parece mais amena. Acordei de boa cara, cedinho, pois a conferência começava às 9h e eu nem sabia onde ficava a Universidade. Mas tudo correu bem: o dia estava lindo, e o Campus é deslumbrante! Fico com tanta inveja… As acomodações impecáveis, os jardins bem cuidados e os canteiros de tulipa gloriosamente floridos, se abrindo ao sol, me fazendo temer que amanhã eles já tenham começado a se desfolhar. E hoje de manhã todas estavam fechadas, em perfeitos ovinhos coloridos, equilibrados em cima de seus caules eretos, festivos. Na hora do almoço estavam todos já abertos, como bailarinas pousadas numa única perna, numa festa de saiotes tremelicando na brisa. 
As conferências estão acontecendo no décimo oitavo andar de um edifício bem no centro do Campus, o que nos permite uma vista deslumbrante. A cidade de Lexington ainda é pequena, mas já ostenta alguns poucos arranha-céus. A geografia da região é suave, ondulada como imagino que sejam os pampas. Campos muito verdes, cobertos pelo que eles chamam de blue grass, separados por cercas brancas. Os rios escavam seus leitos no terreno macio, e fazem desenhos caprichados de luz por entre o verde. As casas mais antigas, de tijolos vermelhos, ostentam lindos vitrais coloridos, parecem caixinhas de jóia. As ruas, desertas, de repente se enchem de carros saídos não sei de onde, e o trânsito se desenrola devagar, preguiçoso.
Na Universidade, são muitos os alunos, circulando em bandos agitados, talvez por conta do final de semestre (as aulas já terminam no mês que vem). Encontramos uma manifestação "artística" ou talvez "atlética"— uma chuva de bolinhas de gude despejadas sobre uma pequena multidão vestida de acordo com o calor do dia: shorts, sandálias e camisetas. No salão de almoço reservado aos participantes da conferência, muitos professores em seus tradicionais tweeds, comiam uma refeição simples, mas saborosa: presunto, vagem, batatas, frutas e tortas. Acabei preferindo a opção vegetariana, uma fritada de vegetais, que estava muito boa. E baldes de café, claro, pois há um Starbucks bem no Student Center! Sem filas! É o paraíso…
Falei um pouco e escutei muito. Incrível como descubro novos autores todas as vezes que venho aos EUA. E novos autores brasileiros, isso é que é de admirar. Novos para mim, é claro, que ainda não tinha lido nada de Fernando Bonassi nem de Miguel Jorge. E as discussões sobre antologias abriram novas perspectivas sobre as mesmas. Como temos o que ler a partir da própria biografia dos autores, das escolhas, dos períodos etc. Machado continua atraindo a atenção de todos, é um campeão! Ele e Clarice, que vai merecer toda uma sessão. E é uma delícia escutar todos os sotaques que falam um português ora europeu, ora brasileiro, ora despatriado, mas ainda com "sss" e "rrr" que denunciam terras de origem e saudades.
Fico sem saber se meu Callado despertou nos outros a mesma urgência que seus Bonassi e Jorge despertaram em mim. 
Outra surpresa: quando perguntei sobre o Kindle, não encontrei muito entusiasmo. Uma das professoras nem sabia o que era.  Mas, a mesma que desconhecia o aparato, mandava fazer PDF's dos textos para carregá-los em suas viagens, pois era muito mais prático… Acho que é uma questão de tempo. E, no entanto, foi com verdadeira volúpia que manusearam os livros de Callado que trouxe para mostrar. Livro é como vinil — quem é fã, é fiel.
Agora vou escrever um conto. Tenho que trabalhar, aproveitar meus tempinhos livres.

Wednesday, April 14, 2010

Kentucky sem fried chicken

Pois é. Cheguei. Um dia inteiro de viagem para chegar até aqui. Acordar cedo, fazer mala, ir para o aeroporto, esperar um voo, embarcar, voar, chegar em outro aeroporto, enorme, tomar trem para ir de um terminal a outro, esperar o outro voo, descobrir que seu voo está com overbooking, receber uma oferta de 400 dólares para tomar um voo para Cincinatti (Até que eu gostei da idéia,  mas onde é que fica Cincinatti?), embarcar, voar, chegar, tomar taxi, chegar no hotel e perceber que não há nada ao redor, que a cidade, aqui em downtown Lexington, parece abandonada. E, no entanto, as surpresas foram muitas. Ao chegar, descubro que caí na cidade da "concorrencia": a Lexmark é daqui e eu ainda me sinto vestindo a camiseta da Xerox. Mas depois pensei que as duas já andavam de noivado, são capazes de terem se casado e de agora serem uma coisa só. Eu é que estou por fora. Também vejo os campos e mais campos de "blue grass", e o enorme hipódromo, onde as corridas já começaram. Há retratos e posteres de cavalos por toda a parte, mas vi muito poucos animais e apenas lá de cima do avião. Por falar em avião, ao meu lado sentou-se um senhor, distinto, com um livro enorme, parecendo um tijolo: A vida de Einstein. O que será que esse homem tanto fez? A julgar pela grossura do livro, ele teve a vida mais intensa do que a do Rubinstein, com sua carreira internacional e suas várias amantes. Já no voo anterior, a senhora ao meu lado leu seu kindle a viagem inteira. E aí descubro uma das desvantagens do Kindle: o vizinho não consegue saber o que você está lendo. Ou será que isso é uma vantagem? Talvez para quem lê seja uma vantagem, mas os curiosos como eu ficam sem satisfação. E os autores perdem essa pequena propaganda de graça, que é seu livro sendo mostrado aos outros…
Estou cansadíssima, e vou para cama, descansar. Amanhã logo cedo começa a conferência e minha condução sai do hotel às 7:30. Depois conto as impressões do Campus.

Wednesday, April 07, 2010

Perdidona

Que dia é hoje?
Ja passei por tantas emoções, nervosismo, aeroportos, que estou perdida no tempo e no espaço. O pior de tudo é chegar ao destino e seu quarto de hotel não estar pronto: o que fazer? Aqui nesta terra não dá para sair a pé e dar uma voltinha. O hotel me convida a usar a piscina, mas como trocar de roupa? Não consigo abrir a mala, que está "em storage". Pensei em comprar um maiô, até cheguei a experimentar um na lojinha do hotel, mas os maiôs aqui são a coisa mais feia do mundo! Um calção e uma camiseta, uma coisa estranha, muito esquisita.  Comi sem vontade, só para ajudar o tempo a passar. Amarrei a cara, mas depois, pensei: por quê? Não adianta nada ficar emburrada, e é muito mais divertido ficar simplesmente feliz. Estou na dúvida se me deito no sofá do lobby e tiro uma soneca ou se vou tomar um café? O problema todo é o frio, pois o ar condicionado aqui nesta terra é sempre regulado por piguins na menopausa! Já está até começando a nevar ;-). Acho que vou tomar um chocolate quente para me aquecer e então dormir um pouquinho. Ou ler.

Tuesday, April 06, 2010

Coquetel no Aquário

Ontem fui à posse de D. Cleonice Berardinelli na Academia Brasileira de Letras. Inconsequentes e aventureiras, eu e mais duas amigas enfrentamos a chuva, a falta de táxi, todos os contra, para prestarmos nossa homenagem a uma extraordinária professora, que sempre admirei, embora não tenha sido aluna regular dela. Na platéia, meus professores: Marlene de Castro Correia, Margarida Alves Ferreira, Jorge Fernandes da Silveira, entre outros. E amigos, como o meu acadêmico favorito, o Secchin, de quem sou amiga há tanto tempo. As acadêmicas ostentavam o novo modelito do fardão, desenhado pelo Guilherme de Guimarães, que já teve criações mais felizes. Dona Cleo fez um lindo discurso, começando pelo verso de Claudio Manuel da Costa "Por que tão tarde?" Ela emocionou e impressionou a todos com sua voz forte e clara, sua disposição, seu ânimo. Creio que os 93 anos de D. Cleo não lhe pesam. O planeta Cleo tem outra gravidade!
Depois dos discursos e das emoções, o coquetel no aquário: as coberturas transparentes pareciam paredes de água e nós, iluminados e engalanados, exibíamos nossas escamas de festa num balé entre garçons e muita comida. Pois os convidados compareceram em número menor que o esperado, e nós tivemos um serviço ainda mais esplêndido do que esperávamos.
Hoje, olhando a TV, fico abismada de compreender o que enfrentamos. E os perigos que corremos. Só que agora, incorrigível, estou de malas prontas, esperando por um submarino que me leve ao aeroporto, pois estou de partida. Será que vamos? Conseguirei atravessar a cidade alagada e levantar voo?
Tudo dará certo, e eu escreverei, quando puder, já dos EUA. E até breve!

Saturday, April 03, 2010

Minhas amigas


Cris Nadruz, brincalhona, comentando um post meu disse que pensar cansa. Concordo. E ainda completo: cansa e nos trai. Houve um tempo, acredite quem quiser, que antes de beber o leite era necessário fervê-lo. Passei muitas manhãs de minha vida, me sentindo escravizada na frente de um fogão, aguardando o leite, impassível, que por sua vez, aguardava minha distração para se derramar por toda a parte. Eu ficava ali, concentrada na leiteira, tentando não pensar, apenas vigiar o leite, que demorava, aguardando seu momento exato. Bastava que meu pensamento se desviasse dele por um segundo, e já estava o leite derramado, queimado, grudado de uma maneira que depois exigia horas de esfregação. Mas, mesmo assim, aquele segundo de distração tinha valido a pena. Pensar é tudo de bom. Mesmo que exija sacrifícios sem fim. Pensar também pode nos livrar de broncas. Tive um chefe, Bill Maddox, que me ensinou muitas coisas. Uma delas foi quando ele me encontrou, um dia, distraída, pensando. Eu era tradutora, e estava com o texto aberto à minha frente, mas devia estar "viajando", sonhando com alguma coisa. Não vi meu chefe entrando e acho que até devo de ter me assustado quando ele me perguntou, em inglês, o que eu estava fazendo. Respondi, sem pestanejar, com a mais pura verdade: Pensando. Ele me sorriu e respondeu: "Esta é a única resposta que me deixa sem ação: pago a você para pensar. Espero que você esteja pensando no trabalho". Será que eu estava? Hoje sei que nossos pensamentos estão sempre ligados, vão formando uma teia que vira trama, que vira história, que vira livro, que vira vida… Tanto que agora, lembrando disso, lembro de minha entrevista com ele, minha primeira entrevista de emprego. Eu era tão novinha, estava tão assustada, e vestia um vestido amarelo clarinho que eu tinha acabado de ganhar no Natal. Era minha roupa mais bonita, embora não fosse, talvez, a mais adequada para ir procurar emprego. Já tinha falado com um cara do DP, que me levou ao chefão que queria checar meu inglês. Eu estava tão nervosa, mas fui falando, o Bill era um homenzarrão, muito simpático, e eu fui ficando mais à vontade até que ele me perguntou sobre meu "aikyw" Eu não fazia idéia do que ele estava falando, e fui respondendo meio evasiva, disse que não podia informar quanto a isso (até porque não imaginava o que fosse). Ele me ofereceu um cafezinho e eu aceitei, e continuamos a conversa e eu ia respondendo ao mesmo tempo que ia tentando descobrir o que era o tal do aikyw. Ele lamentava que no Brasil as pessoas desconhecessem o próprio aikyw, que nos EUA todos sabiam qual era o valor do seu, etc. , e eu de repente descobri que aikyw era QI, só que, em inglês, a ordem das letras era diferente. Mas não adiantava nada minha descoberta porque até hoje não sei do meu aikyw. Só que eu estava tão embevecida com a descoberta, satisfeita de mim, que peguei o cafezinho que me entregaram e, toda cheia de modos, de dedinhos delicados segurando a xícara com cuidado, segurando o pires com a mão esquerda, ao invés de levar o líquido até a boca, estaquei no meio e derramei o café no meu vestido. Claro que a entrevista se encerrou ali. Saí quase chorando, vestido todo manchado, achando que não era à toa que eu ignorava o valor do meu aikyw. Eu nem devia de ter isso! Cheguei em casa chorando, depois de ter atravessado a cidade num ônibus (o lugar era tão longe de minha casa!) Eles já tinham telefonado duas vezes para minha casa. Liguei, achando que queriam ter a certeza de que eu nunca mais apareceria por lá, mas foi o contrário. Eles me contrataram e traduzi todos os manuais de treinamento que Mr. Maddox queria adaptar do Jack-in-a Box para o Bob's. Foi a única vez que curti fazer tradução. Geralmente sofro muito, pensando nos tesouros escondidos em cada palavra, que não consigo ressaltar na tradução. Mas ali a linguagem era simples, o que eles queriam era motivar as pessoas a se comportarem pró ativamente. Tinha tido, uns tempos antes, uma campanha que dizia: Mexa-se, você pode mudar o mundo. E o manual dizia, a toda hora: Do it! Perguntei ao Bill se podia usar o mexa-se, e ele adorou!
Para terminar. Comecei com a foto da gata adormecida entre os livros, uma brincadeira com meus amigos de FB. Termino agora com esta estante meio maluca, deixo as conclusões para vocês!