Sunday, February 28, 2010

Confissões de quem não é santa

Às vezes tenho a sensação de que passo a vida me confessando. Será? Mas não é bem confissão, são relembranças que, graças à minha educação católica, sempre são acompanhadas de uma certa dose de culpa. Pois um dos ensinamentos de alguma catequista bem intencionada, mas fraca em psicologia, uma lição que ecoa até hoje em meus ouvidos é a de que "não sou nenhuma santa". E como já sofri por causa disso! Pois juro a vocês, meus quase 17 leitores, que houve um tempo em que eu queria mesmo ser santa! Lia aquelas vidas de santas que, numa certa época, eram publicadas com mais regularidade que bestsellers, e me derramava em lágrimas, almejando ser tão boa e desprendida como aquelas jovens, ou aquelas não tão jovens, que depois de pecar à grande, se arrependiam e santificavam. A culpa deve ter sido da maluca de minha mãe que fez a promessa de me vestir de Santa Teresinha durante não sei quantos anos. Pelo menos de um ano tenho certeza: tenho um retrato para provar isso. E até que estou bonitinha, pois eu era lourinha e sorridente, é fácil achar uma criança lourinha e sorridente bonitinha. Na foto (eu devia estar com uns 4 ou 5 anos) devem ter me recomendado seriedade, pois estou fazendo um visível esforço para não sorrir. Se algum dia eu voltar a mexer em fotos, prometo que escaneio e coloco na internet, e não é por mim, é pela perfeição da roupa que eu usei. Era mesmo uma roupa "oficial", só que em tamanho infantil. Tinha tudo perfeitinho como nas vestimentas das antigas freiras. E era feito daquela fazenda quente dos ternos de antigamente. Acho que lã. Mas não sei. Só sei que tive meu momento Macondo (muitos anos depois…) ao virar uma esquina em Roma e descobrir lojas e mais lojas vendendo batinas e roupas religiosas. Incrível, ainda vou voltar lá e comprar uma roupa de santa outra vez! A rua tinha um nome engraçado, tipo rua do Triplo Burro, e aí fiquei lembrando de minha vida de Santa Teresinha.
Volto às culpas, perdão pela digressão (olha aí!, juro que foi sem querer!). Pois bem, na minha casa acreditavam na educação pela censura ("Vovó, tirei 9,5 na prova!" "Como?! 9,5?! Se tivesse estudado direito tinha tirado 10!") Daí que, mesmo quando estava certa, a única certeza que tinha era a de estar fazendo algo errado.  Quando passei em segundo lugar no Vestibular, ao invés de comemorar, minha mãe disse: Está vendo? Sempre tem alguém melhor que você…  E tem mesmo, e a Cecília, minha amiga querida até hoje, tirou o primeiro lugar muito merecidamente. Devo à Cecília muitos dos melhores momentos que passei na Faculdade. Ela era uma espécie de mãe de todos nós. Acho que ela já estava com uns 50 anos quando fez o Vestibular. Ela era professora aposentada do Sion, tinha (tem) quatro filhos que estavam na Universidade, morava (mora ainda) num apartamento que tinha quintal e boteco de beira da estrada, o Bar Roco (já não sei mais se ela ainda pode usar o espaço, o edifício precisou criar cercas de segurança). No verão, ela montava uma piscina inflável no quintal e a gente virava criança (na verdade, éramos crianças). Havia uma química boa entre nós, os membros do grupo, hoje desfalcado pela morte do André, justo o mais novinho de todos. Saudades, meu querido.  Foi Cecília quem me diagnosticou: "A Lúcia sofre de carência lúdica!" É que era tão bom ter parceiros de brincadeiras! A gente jogava MANIA, ou DICIONÁRIO (adoro jogos de palavras). Acho que também jogávamos BATALHA NAVAL. E mais um outro jogo de cartas que se chamava CRAPEAU (???) Uma espécie de buraco em que se podia mexer no jogo do outro, já não lembro mais. E, na casa dela, havia diferentes jogos de tabuleiro, de damas a War. Tinha épocas em que chegávamos lá e havia uma mesa desmontável onde algum quebra cabeças de  umas 18 mil peças estava sendo montado por toda a família e os amigos. A gente chegava, conversava, ia até o tabuleiro colocava duas ou três peças, ou conseguia montar um pedaço isolado que ficava esperando até que o quadro crescesse mais. Me lembro de um que foi montado e depois o grupo se dividiu, uns queriam que as peças fossem coladas e transformadas num quadro, outros queriam desmontar tudo e começar de novo. Acho que o segundo grupo venceu, pois não me lembro de nenhum quadro. 
Bem, nessa época eu já não queria mais saber de ser santa. Já estava até casada e, nos quatro anos de duração do curso de Letras, tive dois bebês, terminando o curso com três. Sim, porque já tinha uma filha ao entrar para a Faculdade. Precoce, não? Nada santa. Graças a Deus!

Saturday, February 27, 2010

A fada de chapéu

Estou de molho em casa, com uma dessas viroses de final de verão, mas hoje, como estava me sentindo um pouco melhor e como já não aguentava mais olhar para minha aparência desgrenhada, fui ao cabeleireiro. No caminho cruzei com uma fada de chapéu de palha rosa. Era uma menina, de uns quatro anos, vestida de fada, com asa e varinha de condão, mas com um chapeuzinho redondo de palha, totalmente incongruente, absolutamente encantador. Ela ia caminhando feliz, risonha, voltando-se para os pais e outros adultos que a acompanhavam, numa espécie de ballet que admitia rodopios, meias voltas, corridinhas e paradas. Eu ia numa direção oposta à dela, nossos caminhos se cruzaram e tenho a certeza de que nem ela nem a família me notou, a mim, disfarçada na normalidade de roupas sem surpresas. Como eu não notei os outros transeuntes pelos quais passei antes, tampouco aqueles pelos quais passei depois. Mas a figurinha da fada de chapéu, com seu rosa tão vivo e vibrante contrastando com os pastéis dos véus e os brilhos iridescentes  de suas asas me acompanhou até em casa e agora me obriga a escrever, para que não me esqueça mais dela. Me deu vontade de escrever um conto de fadas, quem sabe?
O que não tenho nenhuma vontade de comentar é a história do manifesto. Como disse ao meu mano André, todo manifesto é bobo, ao mesmo tempo que todo manifesto é útil. Mas não vou discutir nada disso aqui. Igualzinho ao manifesto que recebi por imeio sobre a candidatura da Dilma Rousseff. Acho que está no FB. Mas que as fotos são hilárias, isso são. Confiram.

Wednesday, February 24, 2010

Imagens e fotos

Percebo que vou desenvolvendo umas manias esquisitas, que talvez sejam coisa hereditária. Minha bisavó, por exemplo, detestava tirar fotografias. Os poucos instantâneos que temos dela são inúteis, porque ela ou colocou a mão em frente ao rosto, ou virou de costas, ou abaixou o rosto. Sou uma péssima fisionomista, daí que não me peçam para descrevê-la. Ela era muito branquinha, pele de porcelana, macia. Não sei que idade tinha, mas ela me parecia bem velha. Ainda mais naquela época em que as plásticas e os preenchimentos não existiam, e as pessoas precisavam ostentar suas rugas, Mas não me lembro de rugas no seu rosto, e sim de uma papada, que dava a ela um ar empertigado e meio ofendido já que, talvez para tentar minimizar o apêndice, ela andava sempre com o queixo elevado, e muito empertigada. Ou talvez fosse apenas uma questão de boa educação. Minha bisavó não se "atirava nas cadeiras", como me acusavam de fazer. Ela se sentava com as costas eretas, as pernas juntas, e ficava longos períodos calada. Estava um pouco surda, e era difícil falar com ela. Uma vez assisti uma conversa entre ela e uma outra avó, a vó Beá. Uma dizia: – Hoje está fazendo calor. A outra respondia: – Há tempos que não vejo o professor. A primeira retrucava: – Acho que é a umidade. A outra dizia: Acho que está ensinando na universidade… Bem, não me lembro exatamente o que elas disseram, mas me lembro de que ficaram conversando por rimas, falando sozinhas, mas muito simpáticas e sorridentes, duas senhoras que tinham vivido na Belle Epoque, e que lamentavam seus paraísos perdidos. Minha bisavó chamava-se Maria Cândida, mas se dizia Dona Mary. E nunca me permitiu chamá-la de bivovó. Tinha que tratá-la de Dona Mary, como todo o mundo. E ela não gostava de abraços nem de beijos. Acho que, quando ela olhava para mim, me via como um sinal da decadência de sua família. Eu era uma menina bobona e mal-educada, para os parâmetros dela. Pelo menos essa é a impressão que fiquei.
 De vez em quando ela me levava para uma "estação de águas". Uma das mais antigas lembranças que tenho é a de uma ida a Caxambu, de avião. Toda a família no avião, Dona Mary instalada em uma poltrona e, quando o avião finalmente levantou voo, a senhora tão compenetrada começou a gritar de medo e só parou quando o avião voltou a pousar. Me lembro de meu avô tentando fazer que ela se calasse, sugerindo que ela fechasse os olhos, e brigando comigo por abrir a cortininha e deixar que a visão das nuvens a atemorizasse ainda mais. Resultado, tivemos que voltar para o Rio pela superfície. E nunca mais fomos a Caxambu de avião, até porque depois acabaram os voos para lá.
Numa outra vez, fizemos uma viagem de trem, meu avó, Dona Mary e eu. Ao chegarmos a nosso destino, o vagão em que estávamos ficou fora da plataforma, e não sei porque, precisamos descer no meio do campo. Meu avô pulou do vagão, me ajudou a saltar e aí começou a comédia: Ele pegou a mãe que, assustada, começou a gritar e tapou os olhos dele com as mãos. Vovô ficou cambaleando, sem saber para onde ir, com os olhos tapados. Eu fui puxando os dois, me sentindo como uma personagem de uma fábula. Tinha medo de que o trem começasse a andar e eles ainda estivessem ali ao lado. Vovô carregando a mãe nas costas, meio desnorteado, e eu puxando os dois pela aba do terno de linho. Hoje imagino a aflição de meu avô, sem saber onde pisar, cuidando da mãe e da neta, às cegas.
Meu avô era o meu querido, meu herói, meu ídolo. Moreno, forte, bonito, era um homem carinhoso e bom. Ele me contava histórias, milhares de histórias, todas inventadas por ele. Eram as histórias do caxinguelê (bichinho mais esperto da floresta) ou as histórias do Zumbizão e do Zumbizinho (ele e eu). Foi ele quem me ensinou a amar o Centro da Cidade.  Eu ia com ele para a Câmara, ali, ao lado do Amarelinho, e me sentia o máximo. Passeávamos pelas ruas cheias do que, na minha opinião, eram palácios. Andávamos em elevadores antigos, de portas manuais, e conversávamos com os ascensoristas, e com garçons, sempre tão delicados, e sempre bem informados. Na hora do lanche, íamos ao Amarelinho onde o amigo do vovô, o Xavantes, tomava um copo de leite gelado com sal. Nunca tive coragem de experimentar. Devia ser horrível. Vovô me levava ao dentista, no largo da Carioca. Depois ( e acho que por isso meus dentes nunca prestaram) íamos comemorar na Colombo, ou na Cavé, ou na Manon. Para onde íamos, havia sempre um amigo do vovô por perto. Na ABI, assistíamos a filmes maravilhosos. Minha iniciação ao cinema japonês  foi ali. Vi um filme que me deixou impressionadíssima, em que um lobo comia um bebê recém nascido. Foi minha revisão da história de Chapeuzinho Vermelho. Os lobos comiam mesmo as criancinhas e depois não havia caçador que desse jeito no assunto. Na Câmara, vovô tinha amigos de nomes esquisitos: Honestaldo de Pennaforte (eu fazia questão do H no nome dele),  o supracitado Xavantes, Lígia Lessabá (Lessa Bastos). O poeta Jorge de Lima, para mim, era um pintor. Vovô tinha um quadro dele, que ficou para minha tia. E frequentava o sítio que ele tinha em Piabetá. Foi lá que nasceu minha madrinha Mara, com o nome mais popular de Maria da Penha. Ela deve ter inspirado a famosa música que diz "ela só pensa em namorar". Toda as vezes que me arrumava para sair, era uma tragédia. Alguma peça essencial de vestuário ficava faltando, ou ela calçava meus sapatos nos pés trocados, alguma coisa no gênero. E acho que na época ela namorava algum fotógrafo, pois tinha muitas fotos 3x4 que ia tirar com ela. Depois perdi o gosto pelas fotos. Meu avô, avesso que era a todas as maquininhas, nunca teve uma máquina fotográfica. Também não teve automóvel e a nossa TV, enorme, "faixa preta da GE", só era ligada pela vovó, que gostava de assistir um programa chamado Os intocáveis, e outro chamado Perry Mason. Vovô nem lâmpada trocava. Ele chamava o porteiro. Minha avó é que fazia todos os pequenos consertos elétricos, trocava os fusíveis, a resistência dos ferros, as tomadas das geladeiras e dos aspiradores de pó. E ela era a dona de nossa vitrola, onde escutei incontáveis historinhas que vinham nos disquinhos coloridos que até hoje amo. Minha primeira grande "possessão" foi uma vitrolinha portátil, que só abandonei depois de casada, quando meu marido, que adorava todos esses brinquedos tecnológicos decretou que ela distorcia os sons. Chega de saudade. Imagens e fotos do passado, como diria o poeta, doem muito.

Monday, February 22, 2010

Volta à escola


É hoje o dia…, diz a canção. E os brasileiros, entre sábios e brincalhões, avisam: hoje é o primeiro dia útil de 2010. Tenho uma grande implicância com essa coisa de dia útil. Se alguns dias são úteis supõe-se que os que não são úteis são inúteis. E como podemos chamar algum dia de inútil? Nestes dias, vivemos. São os dias em que encontramos os amigos, em que vamos ao cinema, em que nos estiramos ao sol. São dias de passear na praia, de dormir até mais tarde, de macarronada com a família. Ou dias de futebol, de cabeleireiro, de brincar com as crianças. São dias em que podemos mergulhar na leitura, sem interrupções. Dias de ficar olhando pela janela, invejando o ânimo de quem se aventura pelas ruas, seja para encontrar um amor, seja para dançar nos blocos, ou para ir à Igreja. Aí me lembro de Manoel de Barros, penso em sua arte da inutilidade, a poesia. O bom da poesia é que ela existe assim, sem compromisso. Não é útil, e, por isso mesmo, é a mais necessária das artes. Pois é nesses dias inúteis, nessas artes inúteis, nas ações inúteis que realmente encontramos o essencial. Um gesto de carinho, por exemplo, precisa de ser inútil, pois, se anexarmos alguma utilidade a ele, o carinho se embolora instantaneamente, se modifica e pode até virar agressão. Quem recebe um carinho porque o outro pensa que, nos acarinhando, há de conseguir alguma coisa, se sente degradado, não é não?
Quem nos roubou a vida? Pois poucos são os que ainda sabem fazer essas pausas e olhar para as coisas com desprendimento. Quem nos ensinou essa coisa de que "tempo é dinheiro"? Tempo é vida, é só o que temos. Mas fomos aprendendo a "fatiá-lo", dividindo-o em dia e noite, em horas, minutos, segundos, décimos de segundo, milésimos, até ficarmos com nada, esquecendo de que é possível regular nossos momentos pelas sensações e lembranças. 
Estamos de volta à escola. Vamos para lá para reaprendermos as coisas que a utilidade nos retira. Se a escola pode ser apenas um adestramento para a utilidade, ela também é a porta que nos liberta para nos reencontrarmos com a vida. A escola nos ensina, meninos travessos que somos, a desmontar o relógio para descobrir o tempo. Ela nos revela a utilidade para nos mostrar que tudo isso só importa se soubermos que o segredo da utilidade está em contemplá-la a partir da inutilidade essencial. 
Filosofei tanto, hein? Não era essa a intenção. 
Só queria postar alguma coisa absolutamente inútil…

Wednesday, February 17, 2010

Sem fantasia.


 Descobriram que o rei Tut morreu de malária. E que tinha lábio leporino. Que seus pais eram irmãos. Que estava com a perna quebrada e que devido a uma doença os ossos de seu pé esquerdo estavam sendo destruídos, o que o obrigava a andar de bengala. 
Descobriram que o nariz de Dona Cleópatra não teve nada a ver com a passagem da República
Romana a Império Romano. E que o amor de Cleópatra por Marco Antônio foi uma lenda, na verdade eles brigavam muito e Cleópatra, que já não aguentava mais o amante presunçoso, deixou-o no meio da batalha naval e veio brincar o carnaval no Rio.
O Egito, conforme estou lendo agora num livro simplesmente a-pai-xo-nan-te, As núpcias de Cadmo e Harmonia, foi o local de nascimento de quase todas as versões mitológicas. Acompanhando os raciocínios de Roberto Calasso a gente vai tendo arrepios de prazer, percebendo as verdades por baixo das fantasias. E, se algumas destróem nossos sonhos, como as descobertas sobre o Tutancâmon, essas descobertas nos fazem amadurecer e crescer. E nos dão o prazer do conhecimento, que é viciante.
Ontem fui assistir um filme que me deixou eletrizada do início ao fim: Educação. Pelamordedeus, não percam! Um filmaço. Uma história simples, real, na qual a fantasia desempenha um papel contrastante com a realidade (não é sempre assim?) e onde percebemos que nossos mitos, mesmo quando nos enganam e poderiam nos destruir, quando depurados pelo conhecimento são caminhos para a superação. Adorei o filme, os atores, me apaixonei, torci, e, embora desde o início soubesse que aquilo não ia dar certo, em momento nenhum deixei de curtir cada pedacinho da história. Todos os detalhes do filme me agradaram: do cenário ao vestuário, dos atores à trilha sonora, dos diálogos aos silêncios. As imagens falam por si mesmas, contam uma história ao lado da história. Por exemplo, o carro parado esperando que a mãe com as duas crianças atravessem a rua tem um significado na história, que vai sendo construída através dessas impressões visuais. 
Ou então, pequenos advérbios "– Ainda gosto dos pre-rafaelitas", por exemplo, resumem toda uma história. 
Há muito tempo não me entusiasmo tanto assim com um filme. Quero ir de novo, é como um livro que a gente tem prazer em reler, pois sabe que vai encontrar mais coisas que deixamos passar da primeira vez. E, o mais extraordinário, é que nos apaixonamos por todos os personagens, sem exceção, perdoamos seus erros, gostamos deles em suas imperfeições e desonestidades, compreendendo sua humanidade.
Não sei o nome de nenhum dos atores, exceto Emma Thompson, que faz um bico. E sei o nome do roteirista, Nick Hornby, um dos escritores mais interessantes da atualidade, que apesar de estar  ganhando uma nota preta com seus livros e roteiros, continua professor de adolescentes e faz parte de uma banda de rock alternativa. Mas todos estão ótimos, e merecem ser destacados. Mas julguem por si mesmos.

Sunday, February 14, 2010

Blocos e mais blocos

Um Carnaval a mais, sob o sol, e a vida dando voltas… Aqui onde estou, na minha torre, escuto a cantoria mais ou menos afinada, e o barulho das vozes de tantas pessoas que não se cansam de rodar pela cidade, em demonstrações genuínas ou não de alegria. Será que gosto de Carnaval? Certamente que gosto de alegria, e me emociona escutar o pessoal cantando. Certamente que não gosto de calor e de aperto. E detesto a "troca de fluidos corporais" a que somos obrigados quando entramos num bloco e passamos por pessoas suadas que, ao esbarrar em nós, deixam um pouco de si e levam um pouco de nós. Só de pensar já faço careta. Mas o que adoro mesmo é me fantasiar. Qualquer florzinha no cabelo, qualquer brilho de lantejoula me fascina. Ano que vem, já me prometi: vou sair de Colombina – uma fantasia delicada, antiguinha, romântica, como posso resistir? Por enquanto uso arquinhos de cabelo e viro Dona Cleópatra, ou prendo uma flor vermelha nos cabelos e fico parecendo Doña Carmen. Estimulada pelas amigas muito mais entendidas em Carnaval do que eu, vou ao Sassaricando, ao Boitatá, ao Boi Tolo, sou rodeada pelo Sapucapeto e pelo Azeitona, pelo Areias, pelos blocos sem nome que ficam aqui na Dias Ferreira, alimentados pelos vendedores de cerveja, e adereçados pelos camelôs de arquinhos e máscaras. A fantasia mais comum que tenho visto é a de "alegoria" – umas misturas malucas que unem vestes de Nero a perucas rastafaris, ou perneiras romanas a máscaras beijoqueiras, que ao invés de cobrirem os olhos, cobrem as bocas das pessoas. As mulheres são mais certinhas: muitas Noivas, muitas mesmo. Muitas Trepadeiras, algumas Havaianas, Enfermeiras, Policiais. As princesas também saem de seus castelos e cruzam as ruas ao lado de Avatares (suponho que sejam, já que estão todos pintados de azul). Melindrosas balançam suas franjas ao lado de Gatas e de Onças. Muita gente se fantasia de bicho: hoje, ao meu lado, uma Galinha esquecia os cacarejos e cantava entusiasmada o rancho das pastorinhas. Ontem foi o dia do desfile do Império Serrano, e lá estava eu fantasiada de escrava acorrentada, exibindo uma gaforinha que mais parecia uma Marge Simpson tropical. Meio metro de peruca e uma cangalha prateada. Pelo menos não era das mais quentes. Meu gás já acabou há muito tempo, mas as amigas não me deixam desistir. Haja produção! Vou seguindo os blocos, mas sempre pela sombra, sorrindo com o riso dos outros, cantando pedaços de sambas e marchas, arriscando um ou outro passo de samba, quando o espaço permite. Ainda me convidam para mais um baile, para mais um bloco, mas o que gosto mesmo é de chegar em casa e ver o livro que me espera sobre a cama. Vou tomar mais um banho e mergulhar na leitura.

Saturday, February 06, 2010

Carnaval

Nos tempos em que estudava literatura medieval, li muita coisa engraçada. O pessoal da época, sempre lembrado pela religiosidade e guerras, já se amarrava numa comédia, e havia muita gente boa praticando o gênero. Um dos livros engraçados e inteligentes era o Libro de Buen Amor.  O bom amor, como é entendido pelos cristãos, é o amor a Deus. A pretexto de estimular o tal do bom amor, o espertinho do arcipreste de Hita, a quem atribuem a autoria da história, vai revelando quais os "maus amores" que devemos evitar. Claro que aí vai se sucedendo uma série de situações que deixaria as pornochanchadas para trás. Para citar uma delas, o narrador pretende se afastar do mundo e virar um ermitão. Nas montanhas encontra uma "pastora" que, isolada, há muito tempo não vê um homem por aquelas alturas. Apiedada do estado de fraqueza do narrador ela o alimenta e aquece para, logo em seguida, usá-lo como objeto sexual. O que começa por deleitá-lo, mas depois o deixa exausto, esgotado, e ele tenta fugir e essas são as cenas mais hilárias de todas. Pois hoje, tentando escapar dos blocos que tomaram o Leblon, me senti vivendo uma dessas histórias medievais. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Quando se acaba de tomar um banho e passar perfume, colocar uma roupinha levinha e descontraída, existe coisa pior do que encontrar um bloco cheio de gente suada e bebendo cerveja? E todos com espírito de confraternização? Foi o que me aconteceu hoje, quando ia encontrar com a família para almoçar. Incauta, cruzei com o tal do Imaginou? Então amassa! Por conta de não conseguir nem imaginar, dei longas voltas até chegar a meu destino, e ainda agradeci aos céus por estar a pé, pois de carro teria ficado presa por horas no trânsito. Depois, esquecida da emoções do almoço, peguei uma carona para voltar para casa. Achei que a Dias Ferreira já estava liberada, mas, qual o quê! Ao virar a esquina descobri que a rua estava tomada por um bloco que parece ter estacionado para sempre aqui ao lado de casa. Não sei o nome, mas é o bloco com os músicos mais desafinados da história do Carnaval. Os caras do cavaquinho estão tocando sempre a mesma coisa, não importa o que o pessoal do bloco cante e o ritmo que a bateria imprima às canções. Eles tocam como se tivessem aprendido a tocar fazendo acompanhamento para karaokê. Sabe aquelas frases musicais que não combinam com nada nem dão ideia do que está sendo tocado? Ficam naquele barulho apressadinho do cavaquinho, e deixam a todos zonzos. Muito chato isso. Leio Marques Rabelo e descanso com Lillian Hellman. Dois livros de memórias, tão diferentes como suco de uva e água. Como homem e mulher. Como faca e garfo. Mas cada qual com seu valor e utilidade. E combinando em minha cabeça, me mostrando um mundo desaparecido, que teve seus encantos e seus horrores. O bloco dos desafinados me dá a deixa para terminar, com a linda música do Gonzaguinha, que eles vão assassinando sem piedade: Viver e não ter a vergonha de ser feliz! A vida é bonita, concordo com o compositor. Só que às vezes cansa…

Sunday, January 31, 2010

Desconstruções

O Veríssimo quer acabar com meus sonhos! Primeiro ele desconstrói a imagem do George Clooney, que anda habitando 9 entre 10 fantasias femininas. Tão bonito, quase uma unanimidade, resolvo procurar sua imagem no Google, este nosso novo Oráculo de Delfos, a quem consultamos toda hora, e encontro este retrato:Me vejo obrigada a concordar – nem a perfeição é perfeita todo o tempo… 

Hoje o Veríssimo fala do Roberto Calasso e de seu perfil aristocrático, de sua obra extraordinária e, lá vou eu, curiosa, consultar o Google. Surpresa! Ele é realmente charmoso. Mas… pera lá… aqui tem mais uma outra foto e… Ora vejam só o trabalho do tempo! Lá se vai a perfeição ampulheta abaixo!



Oh, céus! 
E aí? Como ficam as pessoas sonhadoras, que não apreciam o gênero tatuado do belo de Avatar, Sam Worthington?
Proponho o Mia Couto, embora lhe falte um tantinho de queixo e a barba esteja embranquecendo com muita rapidez. Mas, que fazer? Ele, pelo menos, é simpático, não tem voz de pato e sabe contar ótimas histórias.  E, com toda minha autoridade de fã, proíbo o Veríssimo de falar dele! 
Deixo vocês aqui com o retrato do Mia, e saio na esperança de encontrar a obra completa do Calasso na Argumento. Por que, a bem da verdade, chega uma época em que as histórias que um homem tem para contar valem muito mais que a beleza que ele tem para mostrar. E me consolo tentando acreditar que isso valha para as mulheres também.
                             


                       

Friday, January 29, 2010

Cartas de amor

Acho que chegou a hora de corrigir o poeta: nem todas as cartas de amor são ridículas. Acabo de voltar de uma linda peça: Tomo suas mãos nas minhas. Baseada nas cartas de amor trocadas entre Tchekov e Olga Knipper, a peça flui e encanta, emociona e deixa a platéia num estado de maravilhamento tal que todos relutam em abandonar o teatro. Está ali no Teatro Leblon, e cheguei a ela pela indicação de uma amiga querida, a Susana Fuentes, também escritora. Obrigada, Susana! Esta semana está me trazendo tantas coisas boas… fico com pena que ela já está chegando ao fim.
Mais coisas boas? Terminei um conto hoje e fiquei satisfeita com o resultado. Minha grande dificuldade, ao terminar meus textos é que meu primeiro leitor já não está a meu lado. Sou uma Sherazade sem sultão. Fico, então, perturbando as amigas com a minha ansiedade, querendo que leiam para tentar descobrir suas reações. Acho que elas gostaram. 
Ontem fui assistir Restos, com o Antônio Fagundes. É uma peça do Neil Labute, que está muito na moda aqui no Rio. No momento são três as peças dele que estão em cartaz. Restos, A gorda e mais uma cujo título esqueci, algo como Aquelas mulheres, sei lá. Só que a que assisti não é bem uma peça, e sim um monólogo, e eu tenho a maior implicância com monólogos. Mas esta não foi das piores. Uma das melhores coisas da peça é o cenário, maravilhoso. Simples, lindo, elegante e eficaz. O título original é Wrecks, uma palavra difícil de traduzir. Pode ser um acidente de carro (e o nome do personagem é Ed Carr). Pode ser um naufrágio, um destroço, uma ruína. Restos não tem a mesma força semântica, mas não compromete. Como as peças de Labute têm todas uma espécie de "virada", que surpreende e causa estranhamento, não dá aqui para comentar o texto sob pena de ser acusada de desmancha prazeres. De qualquer forma, acho que a virada pela qual ele optou nesta peça meio que "destroça" a construção amorosa que esse viúvo, no velório de sua amada, tenta erguer. De qualquer forma, o melhor da peça ocorre depois que ela acaba: o Fagundes volta ao palco para um batepapo informal com a platéia. Nesta conversa ele se revela mais agradável que durante a encenação. E a peça até cresce com os comentários e algumas explicações.
Acho que ainda não contei que também assisti a uma comédia, "Velha é a mãe". Representada pela Louise Cardoso e Ana Baird, é bastante divertida, mas não é nenhuma Brastemp. Acho que a última vez que vi a Louise Cardoso representando ela fazia o papel de uma cachorra, da raça poodle, numa comédia muito boa. E olha que era um monólogo! Mas era um texto tão inteligente, e a atriz é tão boa, que merece  ser relembrada. O nome da peça era o nome da cadela, acho que era Silvia, mas não tenho certeza. Eu e minha memória evanescente… E meus livros rebeldes, que desaparecem de vista e não me deixam terminar a leitura. Aquele que estava lendo, O andar do bêbado, se escondeu em algum canto. Preciso encontrá-lo. Como ele sumiu, vou voltar aos meus deveres de resenhista: Marques Rebelo me espera.  Então, lá vou eu para a cama, com boa companhia!

Wednesday, January 27, 2010

Era no tempo do Ruy

Fui assistir ao depoimento do Ruy Castro no MIS. Aquele MIS escondidinho da Praça 15, ou, para ser mais precisa, da Praça Marechal Âncora. Esse Museu da Imagem e do Som que eu sempre quis visitar e que nunca visitei. Agora quero ir para lá todos os dias, e tenho pena que ele vá se mudar para um prédio tão cheio de rampas e vidraças na Av. Atlântica. Será que isso não vai prejudicar os arquivos? Deteriorar as fitas e imagens gravadas com a maresia que já ameaça o acervo ali na Praça Quinze? Mas isso é questão para outra hora. Agora quero apenas comentar do prazer que senti durante as 5 (cinco) horas do depoimento. Uma ótima tarde, uma tarde feliz, ouvindo coisas interessantes ditas com humor e graça. Acompanhei o Ruy na sua rememoração clara de episódios da infância. Escutei, a princípio, com alguma incredulidade, a história de sua auto-alfabetização. Depois fui acompanhando as histórias das músicas, dos estudos, dos primeiros tempos de jornalismo. Ruy, com sua prodigiosa memória, foi me fazendo lembrar de episódios de minha própria vida, já que ele morou em Portugal por três anos, assim como eu. Entendi, assim, a sensação que ele descreveu como "estar enterrado vivo". Assim como ele, eu não tenho nada contra Portugal, pelo contrário, aprendi a amar o país através das histórias de minha avó, e depois, ao me casar com um português (que sempre me corrigia dizendo: açoriano), descobri os encantos da terra e da história portuguesa. Ruy, mais velho e mais dinâmico que eu, talvez tenha se ressentido mais com o clima político. Eu, apaixonada e sonhadora, me refugiava da opressiva sensação de aprisionamento vivendo em cenários de livros de Eça, de Camilo, de Camões. Olhava e via em tudo o que lá não estava, tal como me havia ensinado Fernando Pessoa. Entre poetas e romancistas, entre peças de Gil Vicente e de autores contemporâneos, encenadas com uma intensidade que me era desconhecida, teci um país casulo onde os dias eram sempre de sol (embora frios) e as contrariedades eram poucas, a mais marcante sendo a falta de Coca-Cola, bebida que na época me encantava e que hoje já não suporto. 
Voltando ao depoimento do Ruy, ele me encantou pela inteligente sinceridade. Sem fugir dos fracassos, ele soube minimizá-los: quem hoje se importa com sua reprovação no Colégio Militar, ou seu fracasso no vestibular? Comparei a segurança dele com a minha insegurança, incapaz que era de me rebelar com notas baixas: Era aprovada em tudo, ansiosa, passando até em exames de Latim, que nunca tinha visto antes, ao qual sacrifiquei um verão inteiro inalando os vapores de hipogloss que uma harpia de Laranjeiras exalava enquanto tentava me incutir desinências e declinações. Se tivesse feito o vestibular para Direito teria passado, não tenho dúvidas, e teria sido uma estudante medíocre e infeliz. Mas minha vida foi dando guinadas, e a vida do Ruy também foi dando suas voltas. Hoje à tarde, contadas por ele, as reminiscências foram todas boas, bem escolhidas. Quando ele começou a falar de sua obra, ficaram ainda mais animadas e resplandecentes, os acasos brilhando como jóias que, engastadas na coroa de sua prosa, a tornassem mais especial. Escutei e aprendi, pois ele não esconde suas técnicas. E ri muito, com ele, com as coisas que ele soube contar com graça. E me emocionei, suspeitando das grandes emoções que ele há de ter sentido, vencendo as doenças e nos entregando mais uma vida cujo sentido ele soube sempre ressaltar. Nelson Rodrigues, Garrincha, Carmem Miranda, os diversos personagens de Ipanema e da Bossa Nova, minha sensação é que estavam ali na sala, escutando seu biógrafo e sorrindo, enquanto Ruy Castro imitava suas vozes, revelava suas estratégias de aproximação, suas horas de pesquisa.
No fim, a sensação que fiquei foi a de ter feito um novo amigo de infância, tal foi a cumplicidade do depoente com a platéia. O próximo a fazer um depoimento será João Bosco. Acho que gostaria de presenciar este também.

Wednesday, January 20, 2010

Sumiço

Combinações perigosas: chuva e sapato de salto alto.
Prá começar, por que é que uso sapato de salto alto? Já sou bem alta, para os padrões brasileiros. Tenho 1,70 cm. Se bem que sou capaz de já ter começado a encolher, com os problemas de postura que o computador me dá e a força da gravidade, que me deseja, para sempre, na horizontal. Bem, em algum ponto entre 1,70 e 1,68, minha cabeça de vento se encanta com essas coisinhas lindinhas que usamos não para proteger os pés, mas para nos encantarmos ao olharmos para nossos próprios pés. Imaginem o desgosto do pavão, com sua bela plumagem e os pés tão feiosos! Foi de tanto escutar minha mãe repetir isso que fiquei com mania de sapatos, acho. Mas não sou das piores. Compro sapatos porque não suporto aqueles que me machucam os pés. E os meus calçados têm o dom de, após algum tempo de uso, passarem a me machucar. Este não machucava. Uma sandália amarela, de tirinhas, despretensiosa, mas, por ser baratinha, com um salto de plástico. Esses saltinhos não combinam comigo. Estava em casa, na minha varanda micra, jantando com as amigas. A chuva começou a apertar e tivemos que nos deslocar. Neste vai e vem para retirar as coisas da varanda, pisei no chão molhado com o saltinho assassino, escorreguei e bati com a mão. Nada sério, mas os dedinhos, ao mexer, provocavam dor. Fiquei com a mão imobilizada uma semana. Agora só ponho a atadura à noite, ou caso comece a sentir dor. O que vale é que já tinha terminado a resenha do Rascunho, e não me atrasei. Em compensação, o conto  que estava escrevendo, está pela metade. Mas dediquei-me à ardua tarefa de ler um livro daqueles "científicos", que me fascinam, embora eu não entenda nada. Estou curtindo O andar do bêbado. Na hora que leio acho que entendo tudo, mas os números são tantos, a lógica tão rigorosa, que meus neurônios  optam pela aleatoriedade com desconhecimento de causa, e se põem a fazer sinapses ao acaso. Ou a desligar algumas. Mas curto mesmo assim. E algum saber aleatório há de ficar…

Thursday, January 14, 2010

D. Zilda Arns

Nesta semana li uma crônica da Marta Medeiros, falando sobre pessoas que, quando se vão, deixam atrás de si um mundo melhor. Dona Zilda, sem dúvida, foi uma dessas pessoas. A vida dela afetou milhares de outras: crianças sobreviveram graças a ela, outros aprenderam a ser solidários graças a ela, o mundo ficou um pouquinho melhor graças a ela. 
Temos escalas diferentes, Dona Zilda, não fosse sua morte, era escala de prêmio Nobel. Vidas preciosas, que, mesmo sem os holofotes das câmeras de TV e dos flashes dos papparazzi (será que tem tantas consoantes assim?), são as mais iluminadas.  Outras pessoas, em escalas mais humildes, também deixam um mundo melhor para seus sobreviventes: incluo aí os professores. Tão desvalorizados em nossa sociedade, tão mal-pagos, eles são pessoas que nos abrem portas maravilhosas, as portas do conhecimento. Já não lembro mais da professora que me ensinou a ler, mas ela me deu um dom maravilhoso. Mas outras se sucederam e solidificaram essa fonte de prazeres e conhecimento que eu e meus colegas recebemos. Nosso mundo é melhor graças a essas professoras (e professores). As palavras amigas que nos oferecem em horas de desânimo, também tornam nosso mundo um pouco melhor. A banhista que, ao chegar nas ilhas paradisíacas de Angra, percorre a praia juntando o lixo que a inconsciência de outros despeja no mar, também torna nosso mundo um pouco melhor. São essas pequenas ações que precisamos admirar e imitar. São as grandes iniciativas modestas, como a de Dona Zilda, que precisamos noticiar e incentivar, se não der para imitar. É uma enorme perda que o mundo sofre com esta morte. Nossa maior homenagem a ela será não deixar que seus esforços para melhorar o mundo sejam soterrados pelos escombros éticos entre os quais vivemos.

Wednesday, January 13, 2010

A tentação dos clichês

Hoje no jornal uma coisa chamou minha atenção: um profissional que usou um clichê, apesar de reconhecer que se tratava de uma frase feita: o "calor senegalês". Nunca estive no Senegal para saber se lá é mesmo quente assim, para merecer o monopólio do calor. Desculpo-o, pensando que, suando tanto, é capaz de o jornalista ter derretido suas idéias. No caldo meio pegajoso que virou sua massa encefálica, sobraram algumas frases feitas, encalombadas, que, em desespero de causa, ele usou. Nos dias quentes assim, fico sempre com uma musiquinha martelando meu pensamento: Mas que calô, ooô, ooô! Espero que, inadvertidamente, não comece a cantá-la em voz alta, levando os encalorados companheiros de cidade ao alcance de minha voz à loucura.
O caso é que fiqui pensando nos clichês, e como eles invadem nossa vida cotidiana e nos prendem em seus tentáculos, piores e mais venenosos do que a medusa que anda atacando lá pela Austrália (onde o clichê talvez seja "a Brazilian heat"). Vejam só: pior do que a mania de gerúndio é o meloso "um beijo no seu coração". Deus nos livre e guarde! Que invasão! Muito pior do que o fantástico beijo invasivo de Deus em Adão, sua língua entrando pela boca e pela garganta de sua criatura, violando-a sem piedade! Está no Caim, livro imperdível.
Bem, preciso sair agora, mas antes faço aqui uma oração, para que os deuses da gramática e da literatura não me deixem cair na tentação de comentar o calor senegalês, não me deixem fazer carinhos no coração de ninguém, muito menos melosos beijos, que possam provocar uma parada cardíaca. Peço a eles que depurem minha linguagem destas crostas pesadas que usamos por pura preguiça mental e a deixe bela e essencial como um amanhecer. 
Pois era sobre isso que queria escrever, sobre a beleza do nascimento do dia, que testemunhei, e que me fez acreditar que, com tamanha beleza, esse dia só poderia trazer coisas boas. Infelizmente esta crença só durou até a primeira olhada no jornal – o dia trouxe a tragédia do terremoto no Haiti. E agora as nuvens já recobrem o céu, e ameaçam com mais tragédias em Angra, no Rio, por toda a parte. Talvez só nos sobrem mesmo os clichês, para as tempestades arrasadoras, as catástrofes climáticas, os calores insuportáveis. 
Um bom dia para todos, ameno e temperado, com brisa suave e acontecimentos ordinários.

Saturday, January 09, 2010

Falta de assunto/Falta de tempo


Nossa falta de assunto é inversamente proporcional à nossa falta de tempo. Quanto mais atarefada e sem tempo estou, mais tenho assunto. Se tenho muito tempo, geralmente tenho pouco assunto. Não que deixe de escrever, mas escrevo sobre a mesma coisa, as mesmas divagações, aqueles "pensamentos moscas" zumbindo em volta do mesmo velho sonho. Neste início de ano, tenho andado com o tempo escasso, e, por conseguinte, ando fazendo muitas coisas. Nem todas são interessantíssimas, mas todas mereceriam blogs, caso eu tivesse mais tempo.  Ando numa maratona gastronômica, evidente em minha própria figura. Mas é um tal de almoçar-jantar-lanchar, que nem sei. Outro dia foi um super lauto almoço no Mr. Lam. Rachel Jardim, Ernane e Natércia como acompanhantes, um dia lindo, um papo ótimo, drinks que merecem uma verdadeira "ode ao barman"! Muito comportada, pois estava dirigindo, eu não pude tomar tudo o que queria, mas meu quinhão foi inesquecível. Imaginem uma gema de ovo. Aquele formato redondinho, um líquido contido por uma película fina, num mistério perfeito. Esqueçam o amarelo e pensem num vermelho vivo, de apetitosas romãs. Ou numa cor de polpa de caju, de cor indefinida, leitosa, entre o tom das nuvens do entardecer e o clarão da lua cheia de verão. Essa "gema", servida sobre uma colher de porcelana, é o seu drink. Você leva a colher à boca, deixa a gema deslizar para o topo de sua língua e depois pressiona a forma em sua boca, transformando-a em sabor, surpreendendo-se com a metamorfose, entregando-se à invasão do líquido desejado mas inesperado! Hummmm! Sim, lembra outras coisas, e é quase tão bom quanto!

                                                                          

Tuesday, January 05, 2010

Dia de Reis


Hoje é dia 6 de janeiro,  dia de Reis, Epifania. Aí em cima, não sei por que, está aparecendo a data de ontem. Mistérios…Ontem foi a Twelfth Night, e eu comemorei com amigos, entre livros e histórias, essa noite em que o mundo se inverte e nos diverte. 
Márcio, em seu site Imagem Semanal, já fez uma bela compilação de quadros famosos da visita dos reis ao menino Deus (Socorro, não consigo encontrar nos posts, o que foi que eu fiz, meu Deus?). Por conta disso, andei pesquisando o que queriam dizer os presentes levados. O incenso, por exemplo, é símbolo da oração, e representa o lado divino de Cristo. O ouro, símbolo do poder material, representa o lado, digamos, político de Cristo. A mirra, com seu poder curativo, representa o lado humano de Jesus.. Que Baltazar, Melquior e Gaspar nos cubram a todos com suas dádivas, que nos tragam saúde, reconhecimento e prosperidade.
Essa imagem, acompanhada de um versinho, me foi enviada pela Zezé,  E eu a coloco aqui, como um bom augúrio para todos os meus queridos leitores e amigos!
"Ó di casa, ó di fora
Qui hora tão excelente
É o glorioso santo Reis
Qui é vem do Oriente


Ó de casa, ó de casa
Alegra esse moradô
Que o glorioso santo Reis
Na sua porta chegô"


Uma bruxa de Compostela

Recebi esta linda foto de minha amiga Carmen, que é uma fada de Compostela. As bolboretas (em galego é assim mesmo) é que também são conhecidas como bruxas por lá, e esta é uma das mais  belas que já vi. Resultado: roubei-a e postei-a. 
Por falar em Compostela, um amigo meu, que nunca vejo, mas nem por isso é menos querido, lançou um livro falando de sua peregrinação a Santiago de Compostela. Não comprei ainda, pois já ganhei um exemplar, que ainda não recebi. Mas já vi o livro à venda na Argumento. Procurem, o título exato eu não sei, mas o autor é Luís Paulo Viveiros de Castro. Não é místico, embora o Luís Paulo tenha resolvido cultivar uma barba de profeta, e dizem que é muito engraçado. Sei que o autor é fã de Vieira, filho de uma grande professora de História e de Literatura, é um livro que nasce sob uma boa estrela.
Já que estou recomendando livros e falando em galegos, quem tiver a chance procure Manuel Rivas. O livro que tenho dele é Que me queres, amor?, de 1995, premiadíssimo , e que, em 2006, estava em sua 14ª edição. Já deve andar na 20ª, pelo menos.
Um de seus contos chama-se "A leiteira de Vermeer", e o outro, que virou filme, é justamente "A lingua das bolboretas". Ler em galego é uma experiência e tanto. Estamos lendo a nossa língua, mas com uma graça toda própria, como uma freira que, por baixo do hábito, mostrasse o colorido de uma fantasia de arlequim. Gosto da sensação de arrepio quando encontro a palavra "unha", por exemplo, que não é a nossa unha, mas uma. Gosto da economia de "s", do uso do "x", das terminações suaves em ión, da inserção de letras inesperadas que nos remetem a outras palavras e ao sonho (ou deveria dizer soño?) de cadaquén.
Fico aqui divagando e meu tempo livre se esgota. Antes de terminar, compartilho com vocês a alegria que tive ontem. Sempre que leio um livro que me agrada, me apresso em emprestá-lo, para que outros tenham o mesmo prazer que eu. Como tinha lido o Caim e o Milamor, emprestei a duas amigas e elas ontem me saudaram alegres com a leitura. Uma está quase terminando o Caim, e adorou, como eu. A outra está tão entusiasmada com o Milamor, da Lívia Garcia Rosa, que leu em voz alta os trechos com que mais se identificara. Minha alegria se ampliou, pois os livros são tesouros que são criados para serem compartilhados. E quanto mais a gente compartilha, mais se sente rica!
Para terminar, minha opinião sobre a ótima conversa entre Edney, Luciana Villas Boas e Marcelo Moutinho, sobre ibuques (e-books). Eu acho que os ibuques são ótimos e práticos, mas têm (por enquanto) um pecado: a gente não pode emprestar nossos livros. Não dá para transferir um arquivo do meu ibuque para o ibuque de outra pessoa. O dia que pudermos fazer isso, os ibuques passarão a ser populares e queridos. E discordo da Luciana, quando ela diz que a versão eletrônica deve vir depois, como os livros de bolso. Acho que primeiro devem sair os ibuques, baratinhos, a gente faz o download e vê se gosta. Se não gostou, tudo bem, também não doeu muito no bolso. Mas, se gostou, aí a gente já vai largando e comprando logo o livro objeto, aquele que nos acompanhará, para sempre, nas lembranças e peculiaridades de cores, cheiros, ilustrações, etc.
E, obviamente, livros escolares e revistas semanais deveriam ser obrigatoriamente em versões eletrônicas, pois economizaremos muitos hectares de mata se assim o fizermos. Mas livros de histórias infantis nunca deveriam sair em versões eletrônicas. Bem, esta é minha opinião, de usuária, de leitora e de candidata a "mulher-livro" no futuro.
Vou trabalhar!

Monday, January 04, 2010

Bravo!

Tenho de ir preparar minha aulinha, mas não resisto a contar a diversão que tive ontem com as três Bravo que comprei: Os 100 livros imperdíveis da Literatura Brasileira; Os 100 livros imperdíveis da Literatura Mundial e Os 100 filmes imperdíveis. Eu e Natércia fomos conferir o que nos faltava e fico envergonhada de dizer que me faltaram mais livros na Literatura Brasileira que na Mundial. Mesmo assim, acho que estou no topo da lista de boa leitora. O que me consola é que, se não vou conseguir ler todos os livros do mundo, vou dar conta dos imperdíveis, pois me faltam muito poucos. Na mundial São menos de 5. Na brasileira, uns 15. Acho que vou corrigir isso esse ano. Mas tenho uma reclamação: alguns dos livros que EU considero imperdíveis não estavam lá. Mas tudo bem, estes já estão lidos, e depois faço uma lista para vocês conferirem. Por exemplo: a Cartuxa de Parma. Não é possível abrir mão da Sanseverina e do Conde Mosca! Mas vou ao trabalho. Depois escrevo.
Quanto aos filmes, vi a maioria, e o que não vi acho que só se conseguir um amigo cinéfilo para conseguir ver. São coisas muuito antigas (como os filmes envelhecem rápido, não? – Muito mais rápido que os livros).

Saturday, January 02, 2010

Faltou contar…

… que fiquei encantada com as "festas" na praia do Leblon. Sem muito movimento, mas com muita gente se concentrando em alguns locais da praia. Aqui junto ao posto 12, por exemplo, havia uma festa do Tio Sam, boteco ali da esquina de Gal. Urquiza, onde o João Ubaldo assina ponto. Mais alguns metros para os lados da Bartolomeu Mitre, outra festa, com dança e cercadinho, vigiado por um cara na entrada. E muitas outras festas, cito só as duas que me pareceram as mais organizadas. As pessoas comiam e dançavam nestas festas. Entre umas e outras, algumas recordações dos velhos tempos de Copacabana: Velas e oferendas. Aqui em frente, um barquinho para Iemanjá estava colocado na areia, esperando (acho eu), a maré subir. Próximo a ele, uma garrafa de champagne, aberta. Também próximo, os vestígios de velas vermelhas, completamente derretidas. Comprei umas flores no calçadão e resolvi jogá-las na água: acabei molhando minha roupa, mas a água do mar estava quentinha e gostosa, foi muito bom e divertido. Acho que gosto é disso mesmo, nada de festas, de música alta, de expectativas, brindes e obrigações – apenas o bem-estar de uma linda noite de Lua (blue moon, a segunda lua cheia do mês), a roupa confortável, "boa de brincar", os sorrisos trocados com estranhos, a alegria das festas em que eu não queria estar. Gosto de meu "lugar na platéia", já que não sou atriz de monólogos e já não tenho mais coadjuvante. Assisto, da minha laje, os fogos. Mergulho no mar que me acolhe convidativo e misterioso, e me deixo levar pela fantasia do reencontro.
No dia seguinte, me espanto e sofro com as notícias de Angra, onde passei anos e anos tão felizes. Amo cada centímetro daquela baía, cada grão daquelas areias. Já pernoitei no barco, em frente ao Bananal, me sentindo abrigada e segura naquela enseada tão linda. Já perambulei pelas ruas da cidade feiosa, que vi melhorar com a passagem do tempo, mas que cada vez ostentava mais casas pelas suas encostas. Já mergulhei naquelas águas, sempre medrosa, mas me sentindo segura e tranquila porque ia de mãos dadas com o meu amor que, suavemente, ia me levando para cima das rochas e das plantas, me apontando os peixes, até que eu, atemorizada, não suportasse mais e fizesse ele me levar de volta para onde o fundo fosse de areia. Já cruzei aquela baía em dias de sol ou de chuva, em barcos maiores ou menores, navegando no breu da noite, tentando enxergar com os olhos da intuição, já que os reais não perfuravam a escuridão. Já diluí minhas lágrimas nas águas mornas e transparentes, já soltei gritos de emoção ao olhar as belezas que as enseadas revelavam. Uma das minhas mais belas recordações foi a nossa entrada "triunfal" no Mamanguá, a lancha escoltada por um cardume de golfinhos que iam indicando o caminho a seguir, enquanto o ar, embalsamado com o cheiro do mato, nos inebriava.
Essa tragédia me entristece sobremaneira, e desejo, aqui, que todos os que foram atingidos por ela, encontrem a paz e o consolo das boas lembranças.

Feliz Blog Novo!

Graças ao Guido, que me enviou links e lições para aprender a inserir fotos no blog, consegui aprender uma
outra coisa: colocar um vídeo, daqueles que é só clicar, bonitinho. Aqui vai, então, um vídeo feito
para o Linha de Sombra, combinando duas histórias, O ovo e Faxina. Guido, me desculpe, mas meu cérebro
é teimoso e obstinado – só aprende assim, aleatoriamente. Hoje se distraiu com o vídeo. Talvez amanhã
eu aprenda a foto. Mas vou tentar pelo passo a passo de seu imeio, já que impliquei com a voz do homem
ensinando a postar a foto.

Thursday, December 31, 2009

Um ano dourado 2010! Janela aberta para a felicidade 2010!


Minha amiga Fafá (que não é de Belém) acaba de me mandar esta mensagem, dizendo que este é o mantra para o novo ano. Compartilho com vocês, pois quero mais é estar "feliz entre os felizes". Vamos abrir nossas janelas e deixar a felicidade entrar, combinado? Na verdade, vou é abrir as portas para a felicidade, pois não quero que ela entre na minha vida pela janela, tadinha, com risco de se machucar, ou perigando ser confundida com um assaltante. Abro a porta e a janela, ela que entre, e traga sua comitiva. A gente sempre encontra lugar para mais um, quando as visitas são queridas.
Guido me mandou a foto acima. Só consegui postá-la neste tamanho, e a cor da letra mudou sozinha, ou por causa dela, sei lá. Esses mistérios cibernéticos são variados, e eu sou muito preguiçosa para decifrá-los. Sem falar que gostei da cor. Gosto de azul. Mas queria ampliar um pouco a foto que ele, amigo virtual, mas nem por isso menos atento, me mandou com a certeza de que eu gostaria. Gostei mesmo, é mais um "auto-retrato" para minha galeria! Obrigada, Guido. Seus comentários são sempre benvindos, fico feliz por merecer sua amizade.

Dizem que a cor do ano é verde, cor de Vênus, que vai reger o novo ano. O horóscopo do Globo manda-me vestir "verde elétrico", mas não tenho noção de que cor seja essa. O horóscopo chinês diz que o ano será do Tigre, mas que só vai começar no dia 14 de fevereiro. A tradição manda comer lentilhas. Outros mandam comer uvas. Uns mandam pular sete ondas. Outras dizem que é essencial comer 12 uvas, em cima de uma cadeira, num pé só, fazendo seus pedidos para o Ano Novo – Gente, se eu for fazer isso só poderei pedir para não quebrar uma perna! Não devemos comer aves na ceia, pois as ditas "ciscam para trás", o melhor é comer porco, que "fuça para frente". Em Portugal, ninguém passa bem o ano se não comer bacalhau. Devemos usar amarelo para que o dinheiro não falte no novo ano. Faz bem comer romã. Outros dizem que faz bem comer tâmaras.  Junte a isso a repetição do mantra e já começamos o ano exaustos, de tanto cumprir obrigações!

Lembrei de como trocar a cor da letra, mas me entusiasmei e resolvi colocar cada parágrafo numa. Este aqui é para lembrar os reveillons do passado, quando a praia era um enorme terreiro de macumba, e os batuques começavam cedo. Um monte de ônibus  chegava com dias de antecedência, e as pessoas ficavam ali, dormindo e comendo  à volta do veículo estacionado na praia. De onde viriam? Acho que de Minas, de cidades do interior, todos querendo prestar suas homenagens religiosas. Talvez por isso mesmo São Pedro fosse mais camarada, e não mandasse chuva na noite de 31. A gente se admirava com o "loteamento da praia", toda dividida em terreiros, a areia aplainada, folhas de palmeiras e coqueiros delimitando áreas, e uma profusão de velas, todas enfiadas em buraquinhos na areia que impediam que a brisa do mar apagasse as chamas alegrinhas e dançantes. E todo o mundo dançava. Dançavam os "santos" dançavam as pessoas que perambulavam entre os terreiros, dançavam os devotos que levavam barcos cheios de oferendas, dançavam as mulheres que jogavam flores no mar, e paravam um instante para ver se as ondas levavam suas ofertas ou se as traziam de volta. Se íamos passear na praia, levávamos "passes", quiséssemos ou não. Eu não gostava nada daquilo, aquelas pessoas estranhas cheirando a cachaça e me baforando com a fumaça de charutos, mas não tinha como escapar: era uma menina lourinha e bem educada, funcionava como uma espécie de ímã. E meu avô achava que aquilo era de muito bom augúrio. 

(Este parágrafo era para ser amarelo, mas ia ficar ilegível, mas pensem nele como amarelo, por favor)As simpatias para ganhar dinheiro só me foram ensinadas muito mais tarde. Minha avó, o que queria, era que a casa e a mesa fossem sempre fartas, por isso devíamos passar a meia-noite com comida sobre a mesa.  Até hoje deixo uma garrafa de vinho e alguma coisa comestível sobre a minha, por causa disso. Depois aprendi que devíamos enfeitar a casa com trigo. Tudo bem, os arranjos ficam bonitos mesmo. E me ensinaram a simpatia dos Reis Magos, para guardar na carteira. À medida que vamos ficando mais velhos, vamos ficando mais e mais "soterrados" de tradições e crenças. Chega num ponto que, ou abandonamos tudo, ou precisamos de duas noites para celebrar o reveillon, pois numa só não conseguimos terminar.

Já usei o vermelho, então fico com essa cor de rosa puxadinha para o lilás, a fim de falar sobre as coisas do coração. Houve uma época em que isso me interessava muito. Queria o vermelho da paixão, e o rosa do amor. Era uma dificuldade me vestir para a ocasião. Branco, pois era (ainda é) o costume. Uma peça de roupa precisava ser amarela ($$$$) outra vermelha (paixão), outra rosa (amor verdadeiro)… No ano em que me vesti de azul e branco, no entanto, foi o que me achei mais feliz. Estava de bem comigo, passei o reveillon de bikini e kanga, à beira da piscina, em Angra. Não me preocupei com as cores, e foi o ano em que tudo deu certo, vejam só. Em 05/06 passei a noite de preto. Achei que ia deixar todo mundo chocado, mas, como estava num hotel cheio de estrangeiros, havia incontáveis outras pessoas também de preto. Foi bom ter ido viajar, não ofendi ninguém com meus trajes.

Volto ao pretinho de sempre, a melhor cor para a escrita. Desejo a todos muitas felicidades, em tecnicolor. Escolham vocês a cor que quiserem, repitam os mantras que julgarem melhor, festejem, recolham-se, escolham a praia ou a montanha, fiquem com a família ou saiam com os amigos. Que o ano nos traga a todos bons livros. Que os dias de 2010 nos encontrem cheios de entusiasmo. Que as noites de 2010 sejam em boa companhia. Que as razões para comemorar sejam muitas. Que a grana seja abundante e que as dívidas sejam poucas. E que ninguém tenha indigestão.