Sunday, November 29, 2009

Vento forte

Li, há muitos anos, um romance que me apaixonou, Vento forte, acho que do Astúrias. Fiquei tão encantada, com um sentimento de embriaguês, de intoxicação, contaminação, não sei bem explicar. Só sei que alguns livros que lia me provocavam essa sensação, e a certeza de que eu queria escrever e provocar esse sentimento nos outros. Há pouco tempo tentei reler esse livro. Não consegui sair das primeiras páginas. O que se passou com o livro, ou comigo?  
Quando tinha uns 15 anos, adorava sair nas horas que o vento estava soprando forte. Ia caminhando a favor do vento, meio que carregada por ele, quase que voando, ou caminhava contra o vento, num esforço do mármore que deseja ser esculpido, e pouco a pouco sentia que aquilo que me sobrava, que não me era essencial, ia se separando de mim, e me deixava precisa, como um verso. Hoje me escondo. O que me separa daquela jovem? Daquele livro? De mim mesma?
Esta madrugada ventou muito. Eu estava acordada, olhos abertos na escuridão, escutando os uivos do vento e pressentindo os tumultos que ele provocava. O vento bateu em minha janela, assobiou, cantou me chamando, mas não atendi. Fiquei covardemente enrolada nos lençóis vermelhos de minha cama, sangue derramado inutilmente.  De manhã, os sinais da batalha perdida: vasos derrubados, a cortina da sala pendurada do lado de fora da janela, papéis esparsos. No seu despeito de amante desprezado, o vento só partiu depois de mostrar um pouco de sua fúria. Como todo amante, a ternura que outrora nos uniu impediu que ele provocasse danos mais extensos. Mas me sinto ferida e frágil. Minha alma, tal como o mar, está cinzenta, turvada. Confusa, mal consigo funcionar. Trato de colocar a casa em ordem, lentamente. Os planos que tinha para esta manhã ficaram relegados para outra ocasião. Nada de Primavera dos Livros, recolho-me, encolho-me. Em meus olhos, uma ameaça de chuva. Sim, tenho vontade de chorar, mas não choro. Me nego à vida.

Mudando, como o vento, uma pequenina observação. Meu blog é feioso, eu sei, mas o da Julie Powell também é. Isso me anima.

Saturday, November 28, 2009

Agora, Brasil.

Estávamos no quase. Uma palavra que pode ser altamente decepcionante, ou extremamente instigante. Este quase da história do Mia é comparável ao "entrelugar", ao gatilho da ficção.  Mas imaginem a cena entre dois namorados:
 –Gostou, amor?
–Quase…
Não sejam maldosos, o cenário que imaginei é a saída do cinema. Os dois pombinhos tinham ido assistir o filme que mais se discute atualmente: Lula, o filho do Brasil. 
Não vi o filme, por isso não posso dar minha opinião. Mas posso deixar aqui a opinião de leitora das críticas –abundantes– do filme. Quem se destaca ali é dona Lindu, aquela que nasceu analfabeta, lembram? Interpretada pela Glória Pires, virou unanimidade. Todos gostam dela. Daí que lembrei de uma campanha eleitoral dos nossos manos portugueses, e faço uma paródia: "Dona Lindu ao poder, já que o filho dela já lá está!"… É isso aí: é quase engraçado.

Antes de colocar o ponto final, agradeço ao encorajamento do Ernane e do Márcio. Obrigada a vocês dois, obrigada a todos vocês que me lêem, aos que me deixam mensagens. As suas palavras me dão forças e alimento.

África e Brasil

Ontem fui à Travessa (quando é que não vou à Travessa, ou à Argumento? – fica meio estranha essa crase na frente de palavra feminina, mas subentendam "livraria") Bem, mas fui lá para escutar dois escritores a quem muito aprecio: Mia Couto e Agualusa. Antes de falar qualquer coisa, divago sobre os nomes portugueses: como são especiais! Morei em Portugal por alguns anos e lá aprendi, com meu marido, a gostar de hockey. Pois o goleiro do time chamava-se Ramalhete. Não é o máximo? Tenho um amigo cujo nome de família é Telhado. Há um jogador de futebol chamado Pato. Dentre os escritores os nomes também continuam esta tradição: Mesmo aqueles que nos parecem comuns devido ao costume, como Eça e Pessoa, não têm nada de comuns. Alguém conhece outro Eça? E algum Pessoa mais ironicamente multidão que o poeta? E o que dizer do Saramago? Do Luandino? E dos ditos Mia e Agualusa? Impressionante, não? 
Voltando a meu ponto de partida, fiquei encantada com o bate-papo dos dois. Desta vez a estrela era Agualusa, que lançava um livro: Barroco tropical. Eu não ia comprar, pois pensei que era um estudo sobre o barroco e não quero estudar mais nada, mas aí descobri que era um romance. Acabei comprando, claro. Gosto do Agualusa desde muito tempo, quando li O vendedor de passados. Depois tive uma crise de ciúmes, quando li um conto dele chamado "O inferno de Borges". É que na época  eu ainda não tinha publicado minha secretária, e ficava com medo de "gastarem" meu Borges. Ontem achei graca na veemência com que ele defendeu sua Osga, contra as comuns Lagartixas. Talvez por estar ao lado de um biólogo, ele fizesse tanta questão das singularidades de sua criatura. Agora vou ter que descobrir quais as diferenças entre osga e lagartixa, que ele afirma serem tão diferentes quanto ele e Mia Couto, embora todos os confundam. 
Mas, é claro, aquilo que eu queria ouvir, não me faltou: histórias. Mia conta histórias como ninguém, ele quase que fala em parábolas, e suas histórias são absolutamente encantadoras. Dou um exemplo: a história da cobra que invadiu uma repartição pública e que, além de matar algumas pessoas, ainda cantava o hino nacional durante a noite. Numa terra em que ninguém sabe a letra completa do hino, a cobra não errava nem sequer uma concordância… Pois acaba que um biólogo, chamado para resolver a situação, vê a cobra ser morta e atesta que era uma cobra comum e que não tinha nada de especial. E mostra o cadáver da cobra para os populares, com a pergunta: E então, é esta a cobra? Ao que a resposta do povo foi: Quase…
Há sempre um quase que liga nossa realidade a um mundo muito mais interessante que o nosso. Este quase, esta pitada que nos falta no real, é o que se pode encontrar nos livros do Mia. 
Deixo para falar do Brasil no próximo post, pois agora tenho que atender à porta.
Até breve.

Friday, November 27, 2009

I could've blogged all night…

Fui no Vale Open Air, assistir Julie/Julia, ou o contrário, sei lá. Gracinha de história (e eu sou fã da Nora Ephrom e seus filmes mulherzinha) e uma ótima atriz (Meryl Streep) me fizeram ficar sonhando em ser descoberta através do meu bloguinho… Bah! Até parece que os filmes mostram o caminho das pedras. Mas uma sensação é verdadeira: a de que a gente escreve para um vazio, que não existem leitores do outro lado. A gente sabe que alguns amigos nos lêem, mas é só. Imaginar que outros leitores desconhecidos venham a descobrir o nosso blog – é muito pensamento positivo. Mas, o que aconteceu depois, foi o show de frevo que foi sen-sa-ci-o-nal!
Pena que não houvesse muito público, mas foi difícil deixar de ensaiar uns passinhos de frevo  e impossível não lembrar de meus amigos do Recife. Meu coração vai pairar por sobre a cidade esta noite, subir e descer as ladeiras de Olinda, sem acelerar seu ritmo para não descompassar as cirandas e as outras danças arretadas. Saudades de meus queridos amigos de lá. Fico aqui mandando cheiros, profundos, para todo o povo do Recife. Cantarolando as modinhas alegres, ecoando as risadas gostosas, e lembrando de "Grace Kelly", ou seria outro o nome do carrinho branquinho que me levava para cima e para baixo, em labirintos que não consegui desvendar?
Para quem ainda não foi visitar a edição comemorativa dos dois anos de Histórias Possíveis, aqui vai o endereço, para facilitar. Está parecendo "almanaque do Mickey", cheio de histórias, muito legal. Dê uma passadinha em: historias possíveis

Tuesday, November 24, 2009

Um aviário…

Bem, hoje estive com o grupo da UFF, o Nação/Narração. Na volta, viemos falando abobrinhas, mas abobrinhas sérias, muito literárias. Comecei contando a dita história da galinha, que muito me impressionou e comentamos como galinha é coisa literária: Clarice e João Cabral, Guimarães Rosa, mais barroco, optando pelo peru, garanto que se pesquisarmos encontraremos um galinheiro completo cacarejando nas estantes. É que, se pensarmos bem, galinha é mesmo um bicho que parece feito para servir de assunto – uma ave que não voa, cujo canto não passa de um cacarejo, que passa a vida ciscando o chão, que divide um galo com não sei quantas outras galinhas, e que ainda põe ovo e dá canja… E são feiosas, pouco inteligentes, mas têm os filhotes mais lindinhos. Quem é que não se encanta com os pintinhos amarelinhos, aqueles que eram vendidos na feira e que, nos tempos de Clarice, eram levados para casa para servir de brinquedo a criancinhas que se transformavam, graças às avezinhas, em aprendizes de sádicos? As galinhas emprestam seu nome para mulheres assanhadas, embora, em sua aparência, lembrem senhoras mães de família, gorduchas e protetoras.  Hoje povoam os sonhos de qualquer pepsi, peladas, untuosas, fazendo pole dancing nas grelhas de padaria. 
Há uns 15 anos atrás, encontrei uma mulher que tinha, em seu apartamento, um galo de estimação. Encontrei-a na sala de espera de um veterinário, levando seu galo numa coleira. Tratava-se de um galo garnizé, ela me explicou, por isso ele era pequenininho. Perguntei-lhe se o galo não cantava, e ela me garantiu que cantava, que todas as manhãs ele saudava o nascer do sol em alto e bom som. Perguntei-lhe o que é que os vizinhos achavam dessa cantoria, e ela ofendeu-se, mas respondeu a verdade, que eles não gostavam, mas ela não estava nem aí para o que os vizinhos pensavam. Nessa época eu nunca tinha sido acordada pelo cantar dos galos, mas já conhecia o poema de João Cabral, que adoro. Fiquei solidária com a mulher e com seu galo puxado pela coleira, imaginando os esforços dele para tecer uma manhã em meio aos ruídos da cidade.
O tempo passou e fui para Tiradentes, fora de estação. No hotel, só eu e Guilherme, num quarto gelado e escuro como breu. E, no meio daquela escuridão, os galos começaram a cantar. O sol estava longe de nascer, mas os galos começaram com sua melodia rouca, soltando seu grito enferrujado. Nós dois acordamos, friorentos, sem entender o que era aquilo. Os galos insistiam. Primeiro era só um, que repetia seu refrão. Pouco a pouco ele foi persuadindo outros a soltarem seus cantos. Cada qual tinha sua voz, mas todas eram roucas. Uns soavam bem ao longe, outros pareciam próximos, vizinhos de porta. Tampávamos os ouvidos, cobríamos a cabeça com nossos travesseiros, mas os galos e seus cantos penetravam todas as barreiras, nos tiravam o sono. Comecei a recitar os versos de Cabral, os poucos pedaços que sei do poema Tecendo a manhã. Um galo sozinho não tece uma manhã, ele precisará de outros galos que cruzem os fios de sol de seus cantos… até que a manhã, teia, tecido, se eleve, luz balão. Tudo truncado, eu sei, nunca decoro nada certo. Por fim, estávamos apaziguados, sorrindo no escuro e vendo nossa manhã se entretecendo em nossos risos, uma manhã que se iluminava dentro de nós, como um sonho, trazida pela voz rouca do tear dos galos. E, para que todos possam conhecer ou lembrar do poema de João Cabral, copio ele abaixo, em sua beleza. Muito mais do que uma manhã, trata-se de uma utopia. 

Um galo sozinho não tece uma manhã: 

ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele 
e o lance a outro; de um outro galo 
que apanhe o grito de um galo antes 
e o lance a outro; e de outros galos 
que com muitos outros galos se cruzem 
os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, 
se vá tecendo, entre todos os galos.


2


E se encorpando em tela, entre todos, 
se erguendo tenda, onde entrem todos, 
se entretendendo para todos, no toldo 
(a manhã) que plana livre de armação. 
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo 
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 


Antes de me despedir, me deslumbro pensando na incrível paciência do Guilherme. Ele adorava dormir, mas casou-se com uma maluca que sempre achou que dormir é perder tempo. Para mim, esse acordar no meio da madrugada para ficar recitando poesia era (e ainda é) um verdadeiro deleite. Para ele, só pode ter sido sinal de muito amor. Então fico aqui, repetindo os versos e repassando lembranças que, entretecidas, se elevam e me levam de volta aos fios de sol de seus braços: meu casulo, meu ninho.

Galinha abnegada

É impressionante como o jornal alimenta minha mente com bobagens importantíssimas! Acabo de ler a notícia (de 50 anos atrás, é bem verdade) de uma galinha de Catanduva que pôs um ovo de 250 gramas. Eles não mencionam tamanho, mas suponho que um ovo de 250 gr. seja alentado. Principalmente porque o recorde mundial anterior estava em 150 gramas. Pobre galinha! Ninguém comenta se a pobre ave sobreviveu a esse esforço que lhe garantiu pelo menos duas manchetes em 5o anos. O que será que aconteceu a essa galinha? Será que, seguindo o destino inexorável das galinhas, acabou num suculento prato de canja? Imagino seu dono, sorvendo o líquido com lágrimas nos olhos, pensando na omelete de um só ovo que ela lhe proporcionava todas as manhãs… 
O que desejo mesmo é inspiração para um conto de Natal, que preciso escrever. Na verdade, já escrevi dois, mas ambos tão tristes que nem tenho coragem de mandar para o editor. Procuro inspirações para um terceiro, alguma coisa alegre e brejeira como o do ano passado. Só que este ano, com os apagões, minha escrita está sombria, tenebrosa. 
À parte esta inspiração, ainda preciso terminar meu conto sobre Dante. Que Inferno! Comecei um que estava saindo tão lindinho, tipo uma carta de amor. Só que fui ler algumas coisas sobre a vida do poeta e descobri que provavelmente sua mulher não o acompanhou no exílio. Droga! Comecei outro, também lindinho, um delírio oscilando entre Gema e Bice, mas precisei parar e agora não encontro mais aquela voz… E, no meio do caminho, uma idéia aqui, outra ali, uma resenha feita, outra por começar, uma proposição de palestra, sonhos de viagem…
Volto à galinha: creio que deveria ficar no choco, esperando esse ovo de Colombo, mas a possibilidade me amedronta e fujo dos deveres. Assim sendo, programo coisas imediatas para fazer, como ir assistir aos filmes e shows do Valeopenair, escutar Mia Couto, ir a espetáculos de ballet e a sessões de vídeo com amigos.  Abnegação comigo não! E penso no dia de Ação de Graças (Thanksgiving) que cai depois de amanhã, penso em dezembro que já começa na semana que vem… Outro ano termina. Menos um.

Sunday, November 22, 2009

Palavras horribilis

Existem algumas palavras verdadeiramente horríveis em português. Vejam, por exemplo, a palavra "meditabunda"; ou, outro exemplo, a palavra "putativa". Numa frase, digamos:
A mãe putativa estava meditabunda, a gente nem consegue entender o que está dito, tanto que as palavras nos provocam o riso ou a repugnância. Há coisas que não consigo pedir num restaurante por considerar altamente impróprias.  Um espaguete a putanesca, não é estranho? Ou aquele outro prato ainda mais inapropriado: punheta de bacalhau… Tenho vergonha até de dizer em voz alta o nome dos pratos. E, não sei se por sugestão ou por verdadeira ojeriza, não gosto nem de um nem de outro. Também não gosto de penne alla arrabiata. Nem mesmo na versão nacional, goela de pato. Penne ou goela de pato, não sou eu que vou pedir uma coisa dessas para mim. Mudando de idioma, há, em Paris e na Bélgica, um prato muito apreciado e, portanto, sempre apregoado nas tabuletas de restaurantes "Mules frites". Abrasileirando (eu sei que são mexilhões com fritas) mas sempre me dá a impressão de que iria pedir mula frita, se acaso eu optasse pelo prato. O que me faz lembrar um almoço para o qual me convidaram, numa praia nos EUA, num restaurante especializado em mariscos. Eu sou meio esquisita com comida, mas sou bem educada e tento disfarçar meu desprazer com esses tais de frutos do mar. Os anfitriões, orgulhosíssimos, nos oferecendo a especialidade do lugar, uma espécie de clam (vieiras?) absolutamente indecorosas, pareciam vulvas (e é daí mesmo que vem o nome). Não sei se a gente merece o céu por esse tipo de sacrifício, mas tive presença de espírito e pretextei uma alergia. Escapei. Mas até hoje me lembro da insólita situação de ver aquela profusão de vulvas sendo sorvidas à mesa, por pessoas seriíssimas, educadíssimas, e muito formais. Pior que isso, só um outro marisco, português, chamado Percebes. Parece um dedo negro, como se fosse de uma pata de réptil, com uma unha também negra na ponta. Me arrepio só de pensar nesta degustação insólita. Outra comida das mais estranhas é a tal de lichia. Parece um globo ocular, uma coisa aflitiva. Porém, se me servem a lichia já cortadinha e sem os caroços, adoro! E se for em forma de caipisakê de lichia, tal como é feito no Sawasdee, restaurante que adoro, entro em êxtase! 
Cada idéia, que me vem à cabeça!… Isso tudo é por preguiça de ir à praia: calor demais, companhia de menos, fico aqui no ar condicionado, escrevendo bobagens, lembrando de besteiras. E imaginando viagens. Estou quase me convencendo a ir para o Egito e a Jordânia. Uma vontade louca! Quem sabe não embarco nessa?

Tuesday, November 17, 2009

Bitches and diamonds are forever!

Tenho andado preguiçosa, escrevendo pouco, e os amigos começam a reclamar (bom sinal!) Hoje aproveito a dica do Guido, com sua historinha da Madona (vejam o comentário ao post anterior) para dar dois dedinhos de prosa. 
Começo por uma auto-gozação: uma amiga, que me conhece, superficialmente, há muitos anos, me disse que sempre fui "construtora de sentido". Fiquei saboreando a frase, até descobrir o famoso sentido. Acho que ela quis dizer que eu sempre fui dada a invencionices. Pois quem conhece meu cotidiano parco deve estranhar tanto assunto como eu arranjo. Minha vida é pequena, já disse que vivo pequenininho, mas penso grande. As coisas que eu faço podem parecer desinteressantíssimas para os outros: Um cineminha, uma palestra, idas sem conta a livrarias (um verdadeiro vício), uma caminhada na praia. Viagens, todas as que posso. Muitas horas na frente de um computador, que, na maioria das vezes se escoam em partidas intermináveis de paciência. Pouca TV, leitura, sempre. Não saio muito, mas gosto de sair. Não convivo muito, mas gosto de conviver. Não falo muito, pois gosto de escutar. E, no entanto, estou sempre com algum pensamento pronto para compartilhar. Quando é que penso assim? Não sei. Talvez enquanto jogo paciência. E, então, começo a contar meu fim de semana, por exemplo, e me empolgo. Falo de um livro que li e meus olhos brilham (é o que me dizem), comento uma notícia de jornal com muita paixão. Dou aulas com entusiasmo, tenho coisas pessoais para dizer, ao invés de repetir opiniões, pura e simplesmente. Isso é o que me dizem. Pois eu até me surpreendo por fazer tanto esforço para pensar o que outros andam pensando também. E estou convencida de que, se me entusiasmo, é graças às sementes que os livros plantam em minha sensibilidade: quem pode ler Ana Karenina sem se entusiasmar com a força descritiva de Tolstói? Meu grupinho de leitura está terminando o romance. Mais umas duas aulas, no máximo três, e teremos terminado de ler o livro, que vai nos deixar saudades. Minha proposta de continuação foi um livro de história "As seis mulheres de Henrique VIII" da Antonia Fraser. Bem, dei muitas opções, e elas votaram neste livro. Vai ser minha primeira leitura "não-literária" com elas, e acho que vou gostar da experiência. Pois agora, ao invés de comentar o texto, vamos comentar o contexto. Mas, talvez seja a grande oportunidade de mostrar para elas (e para mim mesma) as diferenças de estratégia de "construção de sentido". Voltamos, então, ao título do post – bitches and diamonds are forever. Enquanto alguns privilegiam os fatos concretos (os diamantes) outros realçam os modos de ser (as pestes). Na união destas duas percepções é que se consegue ter uma idéia de como era uma época anterior à nossa (ou como será uma época vindoura, no caso, por exemplo, de um romance como 1984, que hoje nos parece quase que profético.) Tomara que a leitura deste novo livro seja tão proveitosa quanto as outras já foram.

Tuesday, November 10, 2009

Deveres cumpridos

Aos poucos vou-me organizando, desbastando o mar de tarefas que me ameaça (ainda, ainda!) impiedoso. Tenho sido heróica, acordando cedo, me disciplinando, e até me divertindo um pouco no meio de tudo isso. Pós-moderna, me sinto multifuncional, fragmentada: vou à praia com texto acadêmico, enfrento a "canícula", como diz o Alvaro Costa e Silva, escutando palestras verdadeiramente deliciosas numa biblioteca tranquilinha em Botafogo. Caminho pela areia, molhando os pés nas águas tépidas e razoavelmente limpas do Leblon. Fujo para tomar um sorvete, com uma xerox de artigo para ler. Invento histórias (possíveis ou não), começo os contos e os abandono, dizendo –Depois! E nem me assusto com a possibilidade de o depois nunca chegar. Se acaso não chegar, não será problema meu, convenço-me. Amanhã tenho SESC. Depois de amanhã também. Vou fazer uma coisa que me agrada: ler um de meus contos em voz alta. Acho isso muito gratificante. No princípio não gostava, ficava meio envergonhada, achava que estava sendo "exibida", como diria minha avó, tão furiosamente mineira e vitoriana, desconfiada de todo tipo de "se mostração", coisa que menina bem educada não fazia. Finalmente me dou conta de que não preciso ser tão rígida comigo mesma. Assim sendo, vou feliz falar com o pessoal do SESC, a quem tanto respeito em seu trabalho pelo Brasil afora, quase que um sacerdócio. E me comovo nos eventos que ficam pequenininhos em dias de sol como os do fim de semana passado, quando o Paixão de Ler, tão legal, estava acontecendo. Pequenininhos mas verdadeiros, intensos, belos. Adorei os dois dias que pude assistir. Vibrei, ri muito (escritor quase sempre sabe ser engraçado), descobri coisas. De quebra, ainda assisti a um lindo Ballet: Dom Quixote. Um encanto a transposição do texto para o movimento. E que movimentos! Uma companhia de ballet para ninguém botar defeito. Viva o corpo brasileiro, que sabe os segredos do ritmo e a beleza dos gestos! E palmas também para os figurinos, tão bonitos. O único senão é o local onde o ballet estava sendo encenado – Como aquele Vivo Rio é feioso e desorganizado! Na saída, sempre um tumulto. Faltam táxis, falta praticidade no vallet, falta paciência. 
Para terminar, só para deixar vocês impressionados, ontem a Madona veio me visitar. Com seus batedores, trazendo Jesus a tiracolo (ela é muito chic, tem um personnal god), ela veio para minha esquininha, alimentar seu corpo sarado e dar de comer aos olhos esfomeados dos curiosos. Mas, Leblon é Leblon. Nem com todos os batedores ela conseguiu atrair mais gente do que a que costuma se aglomerar na frente do restaurante à espera de lugar. Alguns fotógrafos, alguns cachorros curiosos, que contemplavam o movimento com atenção, e um trânsito um pouco mais lento que o costume. Nada que fosse fora do comum. Fechar o trânsito mesmo só no dia do incêndio, bem aqui em frente, que exigiu exibição de perícia por parte do operador da escada magirus. Isso foi na semana passada, ainda na época das chuvas, e numa era pré Madona.
E agora, que jea coloquei o papo em dia, volto ao trabalho, encompridando os olhos para o mar, e avaliando a possibilidade de adiantar as leituras da tese na praia. Será que dá?

Thursday, November 05, 2009

Da necessidade de boa redação

Tentaram me aplicar um golpe, ontem. Bem aqui, na Rainha Guilhermina, um homem e uma mulher acharam que podiam, com sua história mal-redigida, me levar no bico. A atuação estava bem feita, o casting era estupendo, mas o texto deixou a desejar. Muito. Overdose de clichês. Por isso dizem que menos é mais. Eu conto. Não sei se está escrito no meu rosto que sou louca por histórias, talvez esteja. E, como eu vivo repetindo, tenho o coração mole, escuto as aflições dos pobres de rua, mesmo quando finjo que não vejo. Ontem um carinha me abordou, perguntando um endereço de uma loja de roupas. Eu não sabia, e já ia continuando a andar quando a outra artista se aproximou. Uma mulher falante, de roupa de ginástica, toda decidida, parecendo tentar ajudar ao cara, ao mesmo tempo conversando comigo todo o tempo. Ele se fazia de ignorante, perdido na cidade grande, ingênuo. Ela era toda urbana, bem de vida, generosa e de boa educação. Resumindo o longo golpe, que só foi esboçado, mas não foi concretizado, o suposto comerciante queria ficar com o prêmio da Mega Sena que o tal caseiro de "políticos lá de Brasília", tinha recebido, no valor de mais de 4 milhões de reais. Ele queria me dar cem mil reais se eu o ajudasse, mas eu disse que não cobro por ajuda, mas que queria escrever a história dele… Aí eles perceberam que eu não estava acreditando, e ele disse que queria desistir de ir até a Caixa e que ia voltar para sua Teresópolis e buscar sua mãe, tão analfabeta quanto ele. A mulher tentou continuar comigo, e eu, muito educada, falei para ela que infelizmente não podia ficar e que tinha compromisso, percebendo que ela estava dando cobertura para que o homem sumisse de vista. Ela tinha carro, e ficaria mais fácil desaparecer. Esse golpe é velho, mas eles nunca chegaram a me propor nada (além de o homem querer me dar cem mil e querer beijar minhas mãos, imagine!) e eu vou ter que imaginar um pouco mais a história que vou contar, claro. Como não sou "con-artist" – é assim que chamam os golpistas em inglês, e com razão, pois são verdadeiros atores  – não imagino bem o objetivo deles. Me sequestrar? Me propor comprar o bilhete premiado pelo valor que eu tivesse no banco?  Descobrir meus dados para depois virem me assaltar? Depois escolho. Acho que, para fins de conto, dá mais caldo um sequestro, claro.  Mas depois isso me entristeceu demais! Pois o que eu gostaria mesmo é que a história fosse outra. Que alguém tivesse parado para ajudar uma pessoa que parecia necessitada e descobrisse que o outro era, na verdade, um afortunado. O que eu gostaria era de ter participado de um milagre de alegria, e não de mais uma dessas pequenas misérias humanas. 
Para terminar, revelo como descobri, logo de cara, que se tratava de um golpe: o uso dos clichês. Tudo o que o homem falava estava sobrecarregado de vícios de má-redação, mas não havia erros gramaticais. Um analfabeto que não errava o português mas que não sabia o nome de "táxi", falando nos "carrinhos amarelinhos que podem me levar de volta para minha mãezinha", e em guardar seu dinheiro "debaixo do colchão", e ser capaz de dizer 35 mil "reais", com plural corretíssimo e usando reais, ao invés de "conto" (ou mesmo contos, seria mais fácil de engolir), são pequenas incoerências que sinalizaram, para mim, que aquilo se tratava de um texto de um mau escritor. Nunca se deve explicitar muito as marcas, isso é dramaturgia exagerada de comédia, de caricatura. Para dramas realistas, aconselho menos exageros. Tentem assistir um pouco menos de Fallabela, pois ele pode ser bom, mas morreria de fome como golpista. Dou os conselhos, mas espero que os dois não estejam me lendo!

Tuesday, November 03, 2009

O fantasma do Chacrinha


Não sou grande fã de TV, e não assistia o Chacrinha. Só que fui ver o filme e me lembrei por que não via o programa: era cruel. Se hoje me emociono com aqueles aspirantes a cantores, imagine quando era pequenina, com o coração ainda mais mole do que é agora… 
O que me impressionou é que o Chacrinha tinha um bordão: o programa que acaba quando termina. E fico pensando na verdade que isso é. Ninguém parece ter melhorado de vida graças ao programa. Os desdentados continuam desdentados, os desafinados continuam desafinados, as chacretes viraram cozinheiras ou faxineiras já que perderam o rebolado. Os gagos continuam gagos. E os bobos estão cada vez mais bobos. O programa terminou e os participantes estão todos acabados. Triste isso.  
Para levantar o astral, uma foto (troféu abacaxi?) que tirei no lançamento do livro do Edney Silvestre.  Grande sucesso. Mil amigos, dois dedinhos de papo, depois a ansiedade de defender o projeto amanhã me atacou e tive de vir para casa. Melhor assim: vou aproveitar para ler o livro, cuja leitura do trecho feita pelo Tiago (Thiago?) Lacerda não assisti. Aproveitei para me despedir da Tatiana, que parte para a Fliporto e em seguida para o Porto, ou seria Lisboa? Ou para a Gafeira? Para algum lugar na Corte, como disse a Luciana. Bons ventos a levem e depois a tragam de volta, sã e salva. 

Saturday, October 31, 2009

Blog de amigo

Vez por outra coloco aqui no texto o nome de um blog que acompanho, mas que não consigo acrescentar na listinha do lado porque esqueci como é que se faz isso. Hoje falo do blog do Marcio e da Brenda
A-DO-RO!
Márcio há tempos que mandava as imagens para os amigos, e agora, mais recentemente, junto com a Brenda, formaram um blog sempre interessante, sempre de bom gosto. A Brenda tem uma galeria ali no Horto, que ainda não visitei (Que vergonha!) mas que muito recomendo, pois sei que só pode ser legal. Há coisas assim, você não precisa ver para crer, nem para amar, pois já sabe, de antemão, que foi criada na mesma sintonia em que você funciona. 
Escritores, por exemplo, alguns posso comprar mesmo sem folhear o livro, pois sei que vou gostar. Posso até estar cansada de seu estilo mais particular, ou mais difícil, mas. ao começar a ler, o texto estabelece uma ligação comigo em profundidade, em simpatia, em humanidade.
Agora peço um socorro ao meu amigo Guido: você por acaso se lembra de um artigo interessantíssimo que você me mandou, sobre leitura? Aquele que falava dos novos modos de leitura e como hoje nosso cérebro está desenvolvendo novas sinapses que mudaram nosso relacionamento com o texto? O artigo era longo, e em inglês, e eu adorei e não paro de falar nele com todos os meus amigos, mas quero mandar para eles e não sei onde foi que o guardei. Será que você podia me mandar de novo? E, caso você me mande aqui pelo blog, já vou avisando a todos os leitores que saibam inglês que vocês pre-ci-sam lê-lo. É excelente, e muito esclarecedor, importante para quem escreve e para quem publica, pois descreve um passo da evolução humana. Há gente que discute o termo evolução,  e eu aceito esse questionamento. Muitas vezes não progredimos, mas mudamos, pura e simplesmente. E até pioramos, eu acho.
Essa nova maneira de ler acontece, e não sei aonde vai nos levar, e é bom chamar a atenção sobre isso e compreender nossas novas aptidões e possibilidades.
Hoje vou gazetear e fugir para ir ao cinema. Preciso ler, preciso trabalhar, mas estou morrendo de dor de garganta, então vou ser boazinha comigo mesma e me dar um prazerzinho. Os pequenos prazeres possíveis, como disse num cartãozinho para minha queridíssima aniversariante de outubro, Stella.  Como já disse aqui antes, sou muito feliz por ter os amigos que tenho, tão especiais!

Friday, October 30, 2009

Detesto imeio edificante!

Não sei quem acha que gosto de receber daqueles imeios que supostamente nos "inspiram" e nos dão motivação. Na verdade, aquelas imagens de pobres sorridentes e abnegados, ou aquelas frases mal escritas me deixam irritada. Será que meus amigos me conhecem tão pouco? Vivo dizendo que não gosto de livro de auto-ajuda, que não leio Paulo Coelho e que não gostei de Perdas e ganhos, ou seja lá qual é o nome daquele livro chato da Lia Luft. Gosto, com muita moderação, de imagens belas, ou de arte, ou de gente. Rio com piadas, mesmo aquelas requentadas, que já recebi muitas vezes. Acho graça em coisas mordazes, um pouco ácidas, pois, como sou de temperamento mansinho e doce, necessito de uma dose de crueldade para me equilibrar. E, graças a essa necessidade é que achei muita graça no filme do Tarantino. Incensado como uma obra prima, ele aguçou minha curiosidade e, como a ocasião faz – não o ladrão– mas a espectadora, outro dia passei na porta do cinema e entrei, e assisti e, sim, gostei. Na verdade, adorei o vilão do Tarantino, um alemão poliglota, educado, refinado. Aliás, todos os alemães eram assim, civilizados. Só o Hitler dele é que continuou estereotipado. Em compensação, os americanos, chefiados pelo Brad Pitt, eram o cúmulo da rusticidade, da barbaridade, em todos os sentidos, até no sentido original do termo: "barbarophonoi". Era assim que os gregos classificavam os Outros, gente que usava uma linguagem que doía em seus ouvidos habituados à musicalidade do seu idioma. E era assim que o Brad Pitt soava, com um sotaque atroz, mesmo para ouvidos americanos. Com eles não havia retórica, não havia sutileza. Eram iguais a robots, programados para uma ação, uma única ação que desempenhavam com eficiência mecânica. E, sintomaticamente, o que o chefe desses autômatos não podia suportar era a falta de rótulo nos outros. Daí a marca. Só assim ele saberia quem era o inimigo, e poderia continuar atacando. Gente, será que o Tarantino é mesmo assim tão esperto? Mas, e isso é certo, ele entende de narrativa, e de cinema. Conta bem suas histórias, mesmo aquelas que não me agradam. Viva o filme, que devia ter sido traduzido com o erro , pois o erro é fundamental. Sei lá, Bastardos Ingrórios, teria sido mais fiel que a pomposidade sem comentário de Bastardos Inglórios. Mas, de tudo, o que mais me fez sentir aquela fagulhinha de felicidade que a gente tem face a algumas coisas que se sobressaem e nos surpreendem, foi a tranquilidade dele em mudar a História em história, assinando o texto. Isso era uma coisa que Hollywood sempre fez, mas dentro de um limite para não acordar a descrença no espectador.  Mudavam tudo, de acordo com a interpretação de quem estava narrando, mas mantinham a moldura que sustentava a verossimilhança. Mas, no filme tarantinesco, Hitler morre no atentado, e com esse detalhe tudo se subverte. Temos que reavaliar a guerra, a bomba, todo o resto. Ou apenas rompemos nosso vínculo com a história, e vemos a narrativa como texto a ser analisado, a ser entendido com a inteligência e não com a crença. Valeu, cara! Me edifiquei muito mais com essa tarde no cinema do que lendo a comovente mensagem de que, enquanto eu me queixo de dor na perna, tem gente sem perna que está jogando futebol… Minha única queixa é quanto à qualidade do meu cérebro, mas, segundo esses imeios, eu devia me dar por satisfeita, pois tem muita gente sem cérebro convencida de que pode ajudar os outros a pensar…
 Vixe! Tou braba, hoje. Deve ser coisa do signo de Escorpião, que está nos regendo.

Tuesday, October 27, 2009

Vampiros

Passei a noite assistindo a um programa sobre vampiros. Claro que hoje, por falta de uma boa noite de sono, me sinto sem energia, uma legítima vítima dos vampiros noturnos… O que mais me impressionou (tirando os detalhes nojentos de larvas e líquidos) foi o bispo inglês que hoje ainda acredita em vampiros. Lá estava ele, dando entrevistas, com suas suíças enormes, lembrando da vítima que havia salvo nos anos 60 ou 70, sei lá. Ela aparece, ainda novinha, ao lado do namorado, um cabeludo charmoso. Não mostram a moça hoje em dia, mas fiquei com a certeza de que a verdadeira vítima do vampiro não foi ela, e sim o namorado. O rapaz virou um velho mirrado, de cara chupada. A cabeleira continuou comprida, mas ficou ralinha e grisalha, começando no meio do cocoruto, fazendo seu rosto ainda mais comprido, mais desolado. Enquanto isso, o bispo ficou com cara de personagem de Dickens. Mais encorpado, demodé, bizarro. E a moça? Não apareceu. Mas eles garantem que ela foi salva. Ninguém mais apareceu para morder seu pescoço durante a noite, nem para deixá-la amanhecer exausta, com olheiras e corpo lânguido. Coitada. Será que ela foi mesmo salva ou apenas se transformou numa inglesa de meia idade, perdeu sua flexibilidade, os seus olhos escuros e líquidos, e agora ostenta um respeitável e horroroso chapéu, esconde o olhar atrás das grossas lentes dos óculos, e firma seu corpo sólido sobre sapatos abotinados, sensatos? Tenho pena dela e da saudade que deve sentir de suas noites de violentos combates contra o "mal"…
Depois fico pensando em Bram Stocker e em Mary Shelley. Suas criaturas tão poderosas ignoram seus criadores e vivem por aí, em filmes e historinhas bobocas, em documentários, em reinterpretações. Ninguém fala sobre os dois autores. Muita gente nem sabe que foram invenções. Já outros personagens criaram seus autores. Ulisses engendrou Homero, o Quixote presenteou Cervantes com uma provável biografia… 
Enquanto isso, bocejo, me espreguiço, e lembro do conselho que a especialista em concursos públicos nos deu esta manhã: caminhe para oxigenar o cérebro. Será que vou? Nada! Vou ler os artigos que selecionei para me preparar para a defesa de meu projeto. Duby, ou Norberto Elias, ou Labriola, ou … 
Fui!

Monday, October 26, 2009

Tempos escolares

Às voltas com comemorações escolares, lá fui eu ao YouTube, mais uma vez. Adoro esse tal de YouTube. Como não uso mais a aparelhagem de som desde a morte do Gui, é assim que escuto alguma música, e que consigo enlouquecer os vizinhos, repetindo-as mais de dez vezes, quando estou "in the mood".
Desta vez fui procurar as letras das canções que ouvi: Father and Son, do ex-Cat Stevens, que virou muçulmano e mudou de nome para Yussuf alguma coisa. Eu não sabia disso, ou, se sabia, já tinha esquecido. Aliás, eu nem sabia direito quem era o Cat Stevens, eu com minha mania de não prestar atenção na autoria, só na obra. A música eu já tinha ouvido, depois parei de ouvir, e, agora, escutei uma semana seguida, em ensaios e performances. A velha discussão entre experiência e acomodação, e juventude e aventura. O pai quer que o filho fique na mediocridade, não quer dar a ele a permissão para se aventurar e mudar. O que o Cat Yussuf não entende é que mudança com permissão não é nada. Não implica em desafio, portanto, não confere vitória. Ou talvez entenda, mas não muito bem, daí a canção se arrastar nesta baladinha repetitiva tararã, tararã, tararã. Nada muda. Mas, ao fim e ao cabo, nada muda mesmo. A gente pensa que sim, mas as mudanças são apenas aparentes, só revelam os mecanismos por baixo dos vernizes idealizadores. De um modo ou de outro a gente acaba settling down, e, no dia seguinte, os sonhos mudaram mas o sujeito permaneceu no mesmo lugar, só alguns quilos mais gordo ou mais magro. Mas, num determinado momento, é bom mesmo avisar aos pais, que podem ter se esquecido, que os filhos precisam partir. They have to go away.
Outra musiquinha foi "Se a gente grande soubesse", do Billy Blanco, e talvez do Jobim, não entendi direito os créditos. Uma palavra mansa faz milagres, diz a canção. E as crianças aprendem a dizer não com os pais, avisa. Num dia em que as manchetes tristes dos jornais falam da luta de um pai contra o vício do crack de seu filho, que, drogado, matou a namorada, me questiono se a educação pode ser uma coisa suave e permissiva. Acho bom o NÃO. Acho boa a frustração, pois a vida também tem dessas coisas e a gente não pode ficar achando que protege o filho de tudo com carinho. Eu cresci assim, no meio da delicadeza, e fiquei sem carapaça que me protejesse. São Piaget e Santa Montessori que me perdoem, mas é muito mais difícil construir essas carapaças mais tarde na vida. Toda hora desanimo. Mas o SIM também é uma maravilha. Ter alguém que sirva de wind beneath your wings, que lhe permita alçar voo e alcançar o céu. Só que, sem o NÃO, ficamos sem consciência crítica, e achamos que sempre merecemos o paraíso, daí que as pessoas vão baixando os padrões, até chegar nessa nossa falta de tudo, com todos se achando no direito de tomar o que é dos outros…
Para terminar, lembrei de uma que não escutei, mas que amei quando era garota: To Sir with love. Tá nesse endereço aqui
Se eu fosse mais espertinha, ao invés do link colocaria aqui o vídeo, mas … Vou me dar um tapinha nas costas e dizer a mim mesma que sou um prodígio, autodidata em gracinhas cibernéticas, usuária de i-phone, YouTube, GPS e que isso tudo está muito bom e que eu não preciso aprender a baixar os sons para o ipod que nunca consegui usar, com a desculpa de que odeio os tais de head phones. Mas odeio mesmo, e se quisesse muito escutar música já teria aprendido, pelo menos aquele básico que me permite ser funcional e medíocre nas gracinhas que uso.

Sunday, October 25, 2009

Literatura e internet

Ontem fui a uma palestra no EDEM, colégio em Laranjeiras, organizada pelo Miguel Conde e da qual participaram o Cesar, o Henrique e o Marcelo. Todos são meus amigos e me sinto orgulhosa disso. O César é dos tempos da UFRJ, Henrique, Marcelo e Miguel são mais recentes, mas nem por isso menos queridos. 
Esse tema tem andado presente nos corações e mentes das pessoas que conheço: Na universidade, viraram tema de aula, assunto de pesquisa. Nas conversas de bar, são referências. Na minha vida, percebo aos poucos, são uma presença, cada vez mais constante. Uso a internet há muito tempo, pois entrei em contato com ela lá em Yale. Não era essa coisa assim tão fácil, mas já facilitava a vida e a pesquisa. Agora, vejo nos jornais e escuto nas reclamações de amigos, ficou tão fácil que se tornou uma ameaça, pois o plágio se difunde. Essa noção de plágio surge tardiamente. Só quando a arte passa a ser mercadoria é que se defende a propriedade. E, mesmo com a valorização da "assinatura", no princípio a cópia –plágio sem intenção de lucro – era um instrumento de ensino. As crianças copiavam. Os artistas copiavam. Os músicos copiavam. Era uma maneira de aprender e também de disseminar e de homenagear os autores.
Mas saio de meu assunto.  A relação Literatura e internet tem sido, basicamente, interpretada como literatura feita em blogs ou copiada em blogs. Já reparei que escritores mais famosos e mais estabelecidos usam essa publicação virtual como uma maneira de se safarem da penosa súplica por ajuda para publicação. Os conferencistas X, Y, Z ao receberem as avalanches de poemas e textos que ainda não encontraram editor, se saem com essa: "Hoje em dia o melhor meio para se começar a publicar é postando as obras na internet." Mas, e isso parece ser uma regra, mal o autor iniciante consegue ser publicado, ele para de publicar seus textos na rede, cioso de sua obra. Eu sou uma autora meio híbrida. Tenho livros-objetos e livros-virtuais. E ainda tenho livros na gaveta (metáfora para arquivos de computador, pois já não escrevo mais em papel há muitos anos). Os livros na gaveta são de poemas. Os livros objetos são de contos. Os virtuais também, mas, de um modo geral, são mais humorísticos, ou, pelo menos, acho que trabalho com mais humor quando escrevo para Histórias Possíveis. Mesmo que seja humor negro e cruel. No meio de tudo isso ainda tenho "livros em andamento", contos e romance, ensaios acadêmicos, tudo isso que consome meus dias e meus pensamentos.
No blog, converso. E converso, quase sempre, sobre literatura, arte, e minhas reflexões. No Facebook e no Twitter, tento me manter ligada aos amigos que se espalham pelo mundo. Confesso, no entanto, que estes dois são mais negligenciados, ficando sempre em último lugar na minha lista de prioridades. 
Esse post já está muito longo. Volto ao assunto outra hora. Agora vou "viver de verdade", ver gente de carne e osso, conviver.

Monday, October 19, 2009

Despedidas

Meu fim de semana foi de frio e chuva. Tanto frio que mal nos animamos a sair do hotel (horrorozinho) em que ficamos. A cidade me chamava, com seus encantos. A dois passos do Central Park, nao consegui ir ate la passear, pois minha amiga nao resistiria. Tambem nao fui mais a nenhum museu, acabei indo para o indefectivel Macy's, onde comprei um casaco que agasalhasse, pois os meus so tapeavam. Para escapar do frio, cinema, a dois quarteiroes do hotel (Coco antes de Chanel). E, para merecer o paraiso, o purgatorio da espera na loja da Apple, que nao consertou meu computador. Para desenfastiar, Rockfeller Center e todos os turistas do mundo. Ficar olhando os patinadores no gelo e sempre divertido. Agora, aqui do aeroporto, contemplo um lindo amanhecer. Hoje a chuva parou e as temperaturas devem subir. Deixamos NY em toda sua beleza e seducao. Desculpem a falta de acentos e etc. Obrigada pelos comentarios, que sempre me estimulam. No Rio escrevo mais.

Friday, October 16, 2009

Cecília e Nova Iorque

Cecília Meireles era linda. As suas fotos, os desenhos de sua face longa e aristocrática, seus olhos verdes de gata, tudo me encanta. Seus poemas também. Gosto deles, da sonoridade de seus versos, dos temas abordados. Me orgulho de seu trabalho onde posso detectar tenacidade, perseverança, dedicação. Mas, neste Congresso, descobri um lado seu que não gosto: seu lado de educadora. Não me levem a mal: acho muita dedicação de sua parte a criação de bibliotecas infantis, e também gosto de seus livros para criança. O que não aguento são as idéias "quadradinhas", formais, "bem comportadas". Imaginem que ela não gostava dos personagens de Lobato, achava-os crianças malcriadas. Fiquei ofendida, quando descobri isto. Acho que cresci influenciada pela irreverência libertária da Emília. Não me identificava com a Narizinho, que, no entanto, era minha xará. Achava que ela era meio boboca. Mas a Emília! A senhora Marquesa de Rabicó, que nunca deu bola para aquele marido que lhe arranjaram, e cujo affair com o Visconde de Sabugosa sempre me impressionou, era meu ídolo. Um de meus primeiros sonhos impossíveis foi esse de ser boneca.
O dia de ontem foi chuvoso e frio. Muito chuvoso e muito frio. Não deu para passear, embora eu tivesse que voltar para o hotel a pé desde lá da BEA, pois não consegui táxi. De noite, fomos a um musical: South Pacific. Antigo, sim, mas seu principal personagem masculino era interpretado por um brasileiro, Paulo Szot, um barítono maravilhoso, que também tem uma bela figura. Gostei. Sobretudo, gostei do teatro, que faz parte do Lincoln Center (Vivian something, esqueci o nome), e que é tão bem construído que a gente quase que se sente dentro do palco. Moderno e bem confortável, dá gosto ir lá.
Hoje foi o último dia do Congresso, que, aliás, pode ser assistido no YouTube. Eu ainda não vi, mas é porque meu computador está no conserto, e estou usando um emprestado, só quando dá… Por isso mesmo termino por aqui, pois tenho que devolver este computador a seu dono. E deixo para falar outra hora na Neue Galeria, onde fui hoje pela manhã, ver os expressionistas, na exposição de Klimt a Klee. Adoro esse pequenino museu, uma casa na esquina da 86 com Quinta Avenida, e sua coleção deslumbrante de Schiele, de Klimt, de Kokotscha. O dia esteve frio, mas quase não choveu. E eu passeei, depois do fim da conferência, em Times Square, para saudar as luzes de NY. Depois conto mais.

Thursday, October 15, 2009

Isamu Nogushi- Water Stone

Volto à pedra. Essa escultura realmente me fascina, e não sei porque não aprendi de cor o nome de seu criador. Mas me lembro que esta sua escultura foi uma de suas últimas obras, talvez tenha sido a derradeira, mesmo. Ele já estava velhinho quando fez essa maravilha. Ontem falei da pedra principal, mas deixei de lado os seixos rolados onde ela repousa. E disse que ela feita de granito, em minha ignorância geológica. Na verdade, ela é feita de basalto, aquela pedrinha preta das calçadas do Rio. Um de seus lados conserva a aparência exterior, aquela carinha de pedra comum, dessas que a gente encontra pela natureza.
Mas quero falar de gente e de suas falas. Uma das coisas que mais me surpreende no meio acadêmico americano é a sua capacidade de pesquisa. Sendo assim, não é de estranhar que muitas vezes algumas escritoras brasileiras sejam mais populares aqui que no Brasil. Creio que seja o caso de Nísia Floresta, uma escritora feminista do século XIX. Nunca tinha ouvido falar de Nísia no Brasil, embora pelo menos uma professora brasileira, de Minas Gerais tenha uma extensa obra sobre ela. Aqui descubro que ela fascina, e com muita razão, as imaginações de muita gente, e que é estudada seriamente até na Inglaterra. Seus livros foram sucesso na França, onde ela morou, e mereceram várias edições. Ela é natural do Rio Grande do Norte, fundou um colégio no Rio de Janeiro, escreveu em jornais, fez comícios pró-abolição, mas seu trabalho de educadora foi duramente criticado no Brasil. Que se há de fazer?
Ontem o dia do Congresso foi dedicado a ela, mas antes de começarem as palestras, a convidada de honra, Ana Maria Machado, fez uma magnífica conferência. Ela é brilhante, firme, segura de si, mas muito simpática, extraordinariamente afável e acolhedora.
No meio do dia, uma sessão com tradutores. O legendário Gregory Rabassa lá estava, falou sobre suas traduções, contou algumas piadas e emocionou a platéia.
Agora preciso terminar a conversa. Vou me preparar para o dia de hoje, dedicado à Cecília Meireles. Quando puder, conto mais.

Manhattan

Cheguei a Manhattan bem no dia de Colombo, e fui recebida com uma parada muito chocha na Quinta Avenida. Não sei se estava desanimada porque já era o final da programação, ou se era mesmo assim sem graça e solene como o desfile dos floats que assisti em Nova Orleans. Esse tal desfile de Carnaval era uma chatura. Não sei como as pessoas ficam aguardando pela chegada dos carros alegóricos sem samba, nem mesmo um bom grupo de jazz. Alguns homens de blazer e colares, algumas louras disfarçadas de sereias, algumas flores douradas enfeitando tudo, carros exageradamente grandes e pesados, desfilando lentamente, sonolentamente, esta é a lembrança que guardei. De noite, as ruas apinhadas de bêbados e bêbadas, os mesmos homens de blazer, que haviam desfilado de manhã nos carros alegóricos, apenas com seus narizes mais vermelhos por causa da bebida, aparecendo nas sacadas e jogando colares para as louras de peitos descobertos, molhados de cerveja, balouçantes... Isso lá em Nova Orleans. Aqui em Nova Iorque, senhores solenes em pé nos carros, com estadartes das sociedades "colombianas", acenando para famílias desatentas e para turistas desinteressados. Mas o desfile não empanou o brilho e beleza da cidade. O sol frio brincando entre as nuvens provocava desenhos nas vidraças dos prédios, ou sombras nas fachadas elaboradas dos prédios mais antigos. Atravessei a parada e mergulhei no cubo de cristal da loja da Apple, para consertar meu computador. Quando saí de lá o dia já tinha acabado. Só me restava jantar e descansar. No dia seguinte, o sol se abriu, glorioso. Depois de fazer uma caminhada pela Quinta Avenida (estou pertinho dela), fui ao Metropolitan para ver os Vermeer. Preciso dizer o quanto eu adoro este Museu? Eles sabem o que fazem, e a exposição, apesar de pequena, era interessantíssima. Adorei ver os quadros que foram contextualizados entre outros quadros da época, entre outros quadros da mesma temática, e aprendi coisas que nem suspeitava. Minha "Françoise", pois sempre penso estar vendo a personagem de Proust no quadro de Vermeer, me fascinou com sua calma e suas sutilezas, todas explicadas e colocadas em primeiro plano.
Mais uma vez fui visitar minha "pedra do sono", a escultura de um japonês cujo nome sempre me esqueço, e que é uma das minhas favoritas. O nome da escultura não é esse, eu é que lhe dou esse nome. Imaginem um cubo de granito, quase perfeito, com uma excavação na parte superior, coberto por água que dá a impressão de estar absolutamente parada, mas que corre e cai, sem que vejamos seu movimento. Sabemos que a água escorre porque escutamos o rumor que ela faz, mas não podemos perceber seu movimento. Minha impressão é a de que poderia me sentar em frente a ela para sempre, me deixar ficar ali fascinada por aquela calma aparente, por aquela pedra viva, linda em sua simplicidade, absolutamente complexa em sua invisível dinâmica.
Para terminar a visita, uma chegada no terraço para ver Maelstrom, uma escultura de um raio que ocupa todo o espaço do terraço. À volta, as copas das árvores, ainda não totalmente amareladas. Mais ao longe, o perfil dos prédios, sentinelas zelosas do parque e do museu. Quanta beleza dá para carregar em nossos corações? Tinha vontade de fechar os olhos para não deixar meu encantamento se desfazer, ao olhar para outras coisas. Agora que estou aqui escrevendo, me lembrei da história que contam de Proust, absorto na contemplação de uma flor, tentando guardar sua imagem para depois usá-la em seu texto. Quem me dera a intensidade daquele olhar! O meu, vadio e indisciplinado, logo logo estava se deliciando com detalhes de caixinhas de rapé, frascos de perfume, leques franceses. E meu corpo, rebelde, exigia descanso.
Hoje foi o primeiro dia do Congresso do qual estou participando. No caminho para a NY Film Academy, onde foi a abertura, a cidade foi revelando recantos que eu ainda não conhecia, ou ponde em evidência prédios que amo, pelo seu valor simbólico ou por seu traçado elegante. O desenho arquitetônico maciço e sólido das construções mais antigas parece ainda mais concreto ao se contrapor à leveza dos prédios mais novos, que abusam das transparências e de espaços vazios. Mas já escrevi demais, a hora se adianta e amanhã tenho um dia cheio. Se conseguir amanhã escrevo mais, contando os detalhes do Congresso.