Thursday, October 02, 2008

Umuarama

Hoje de manhã, quando a Mauriza estava vindo nos trazer até aqui, fiquei sabendo que Umuarama quer dizer: lugar quente onde os amigos se reúnem, e que a cidade se auto-intitula capital da amizade. Bem, só posso dizer que Umuarama deu uma refrescada para me receber. Já falei da chuva e dos trovões e, como esperava, o plano B da Gislaine funcionou perfeitamente e tivemos um evento sem susto, mas com muito menos público do que o aguardado. Culpa do tempo, que hoje, aqui em Campo Mourão, já desanuviou e está quentinho, com sol aberto. Dei uma passeada pelo centro da cidade, mas estou muito preguiçosa, nem tirei retrato. Há uma enorme igreja, com duas torres, numa grande praça; bastante comércio -- a cidade é grande e próspera--, e belas casas, alguns edifícios, tudo com boa aparência. Meu hotel, embora com Palace no nome, é xinfrim. Mas meu quarto tem ar condicionado e, à frente da janela, uma árvore hospeda um passarinho que deve ser lá de Umuarama -- ele está deliciado com a minha visita e já veio na minha janela um monte de vezes, cantar para mim.
Os jacarandás e as sapipucaias providenciaram um tapete de flores roxas e amarelas daqui até o SESC, para eu passar. No caminho, encontramos o XAXIXÃO : lanche é isso, o resto é sanduíche! Refiz toda a palestra (não consigo repetir todos os dias a mesma coisa), fui ao cabeleireiro, andei bastante, para descontar os últimos dias em que só tenho ficado sentada em carros, trens, aviões, aeroportos, e mais carros e saguões de hotel. Esse é o resumo de minhas atividades. Encontrei com a Daniela do SESC, lindinha, com duas covinhas enfeitando seu sorriso, e um enorme entusiasmo pela primeira feira de livros que ela está organizando. Tuso me pareceu tão bem, que achei que ela era veterana!
Mas, o que mais tem me encantado é a coleção de histórias de amor que tenho escutado. Coisa mais deliciosa, estar no meio de gente que ama e é amada! Olho para os sorrisos, os olhos sonhadores, escuto os suspiros e as histórias, e sinto um grande encantamento. Gislaine, e Mauriza, de histórias tão diferentes, mas igualmente felizes. Ana e Rúbia, uma de casamento marcado, a outra no primeiro mês de namoro. Bira, avô de pouquinho tempo, netinho recém -nascido na distante Maputo, reclamando dos braços vazios, mas com o coração transbordando! E eu falando da morte de Machado de Assis, informando a uns e outros que as últimas palavras de Machado foram (provavelmente) A vida é boa! Tenho que concordar com esse meu velho e querido mestre. Machado, meu querido Machado, engraçado, inteligente, instigante...Receio que não esteja fazendo jus a você! Queria tanto que todos os que me ouvissem saíssem de minhas palaestras com um desejo louco de te conhecer! É só o que desejo, não procuro glórias para mim, mas gostaria de facilitar o encontro das pessoas com a sua obra. Fico contando os enredos dos romances, provocando, seduzindo, fazendo meu papel de serpente às avessas, acreditando piamente que quem morde o fruto que ofereço encontra o caminho do paraíso. Mas nem todos mordem. Percebo, quando falo, que algumas pessoas nunca escutam as outras. Sinto minhas palavras escorrerem e cairem no chão, desaproveitadas. Mas, aí, olho em outra direção, e vejo que minhas frases estão sendo absorvidas como água de chuva.
E agora paro por aqui. Meu vizinho passarinho está de novo em frente à minha janela, me fazendo uma serenata de um dos galhos. Um coro de bentevis faz contracanto, mas fora de minhas vistas. Vou escutar meu concerto, e assistir o balé das folhas, animadas pelo vento que começa a soprar.

Wednesday, October 01, 2008

Ventos, raios e trovões

Umuarama, a terra dos ventos uivantes. O sol dos últimos dias transformou-se numa grande tempestade, que se anunciou com um trovão que mais parecia uma bomba explodindo. Nossa. A bela paisagem que eu podia descortinar da janela do hotel, o Caiuá, desapareceu, numa nuvem cinzenta. Até agora recebi a hospitalidade da Laíde, em Maringá, da Marina e do Bira, em Paranavaí e aqui fui recebida pela Gislaine. Gislaine vai casar no mês que vem, no dia 29 de novembro. Cheia de planos e de entusiasmo, ela vai vir nos buscar daqui a pouco, para nos levar à sede do SESC, que tem magníficas instalações aqui na cidade. Tenho a certeza de que, mesmo com toda essa chuva, tudo vai dar certo, pois poucas vezes encontrei uma pessoa tão "administradora"como ela. Sei que até a chuva vai obedecer a sua organização. O SESC de Maringá também é grande e bem instalado. Já o de Paranavaí é pequenino, e as atividades da feira do livro estão ocorrendo na Casa de Cultura. Lá fizemos nossa palestra/espetáculo num teatro com palco, iluminação, mesa de som, todos os trique-triques. É palestra espetáculo porque estou programada junto de duas atrizes, jovens e belas, que estão fazendo uma interpretação artística de Capitu e de O cortiço. Antes de mim apresenta-se a Ana Ferreira, uma Capitu com jeitinho de Ofélia e suas flores... Aí eu falo e terminamos com um balé-cortiço, interpretado pela Rubia Romani e seus slides.
O tema da feira de livros é Literatura e Tecnologia, e até que combinou bem esse nosso coquetel, improvisado, de aula e teatro.
Bem, agora vou me vestir, para ir ao encontro da platéia de Umuarama. Até amanhã.

Tuesday, September 30, 2008

Novidades

Estou de volta ao Brasil, mas ainda não ao Rio. Estou no belo Paraná, visitando cidades aqui no noroeste do estado. Passei por Curitiba, rapidamente, onde fazia frio, e fui para Maringá. Isso foi ontem, hoje já estou aqui em Paranavaí. Termino o périplo lá em Curitiba, onde serei recebida pelo editor do Jornal Rascunho, no Quintana, "restaurante cultural" que estou ansiosa para conhecer. Só pode ser legal, pois o cardápio, que recebo por e-mail, me faz ficar com água na boca. E os donos são simplesmente o máximo! Meus leitores do Paraná, por favor, apareçam no sábado às duas horas, para a leitura de contos de meu novo livro, sim? Não acham legal, este conceito de restaurante que alimenta o corpo e o espírito ao mesmo tempo?
Bem, fiz ontem uma palestra muito legal para o pessoal do SESC de Maringá. Foi uma conversa sobre Machado, e, como soube que muitas pessoas do EJA (educação de jovens e adultos) estariam presentes, resolvi procurar um texto de Machado que anda meio esquecido,mas que me encantava quando eu era pequena: Um apólogo. Quem lembra da história da discussão entre uma linha e uma agulha, para decidirem quem era mais importante? Foi lega, a reação das pessoas, que descobriram que Machado não era só aquele escritor importante das homenagens, mas um cara que podia escrever coisas simples, que falassem a todos os espíritos. Esse é o problema com os escritores de muita fama, as pessoas ficam achando que, como são grandes nomes, seus textos são difíceis e complicados. Nem sempre isso é verdade. Geralmente, trata-se do contrário, um texto simples, mas de muitos níveis de leitura, e sempre de portas abertas para acolher leitores que venham apenas para se distrair um pouco... e que sempre saem um pouco mais ricos.
Bem, hoje vou dar mais uma trabalhadinha no texto que vou apresentar de noite. Depois conto como foi a apalestra. Ah, a novidade é que os vídeos de Linha de sombra estão no YouTube.
Aqui estão os links, vocês podem ir até lá e votar, classificar, sei lá. E podem contar para os amigos irem lá, dar uma olhada. São os mesmos que vocês já viram aqui, mas assistam de novo, dêem sua opinião, tá bem? http://br.youtube.com/watch?v=nOEmw96dAiE
http://br.youtube.com/watch?v=pFYDodBEyZA
Ah, ia esquecendo: Hoje é dia de ano novo judeu. Então, feliz Rosh Hashaná! Também é Dia da Secretária! Felicidades e beijos a todas, as que conheço e que sempre ajudaram tanto o Guilherme, e todas as outras. E também é dia de Santa Terezinha, aquela freirinha das rosas, tão meiguinha, que desejava passar ao Céu fazendo o bem na Terra ...
Bem, a novidade é que estou escrevendo um romance. Por enquanto, chama-se "Mariana não vive mais aqui". Vai ter umas cartas de amor muito lindas (bem, eu acho) ou muito ridículas, como diria o Fernando Pessoa. Vai ter briga e ciúme entre mãe e filha. Vai ter um pouco de risos, um pouco de lágrimas, essas coisas... E, claro, vai ter um fundinho de literatura. Afinal, tudo o que escrevo, tem uma espécie de homenagem a textos amados que fui lendo pela vida afora.
Bem, agora vou trabalhar no texto da palestra.
Até amanhã, em Umuarama.

Saturday, September 27, 2008

Douce France

O Aznavour tem uma canção célebre que fala de como Veneza é triste. Eu gostaria de conhecer uma canção que dissesse como Paris é alegre. Em dias de sol, a cidade parece uma festa (Hemingway já disse isso), mas uma festa popular, onde todos saem para passear e sorriem, só pela beleza do dia. A cidade está linda, a Notre Dame, acho que pela primeira vez em minha vida, sem nenhum andaime, toda limpinha, bela, quase que juvenil. Os cavalos do Grand Palais, que foram removidos para limpeza e recolocados no mais brilhante dourado, voltaram à sua pátina verde, o que me alegrou. Estava tão acostumada com esse seu caráter, digamos, marinho, que seu disfarce solar me incomodava... Fui ao teatro, em Montmartre, assistir a uma peça histórica, sobre Mazarin: Le diable rouge. Adorei! Ah, um bom teatro, de verdade, com tudo a que se tem direito, desde cenário deslumbrante a figurino espetacular e, o mais imporante, atores impressionantes! Coisa boa! Na minha última noite, fui assistir a um concerto de cantos gregorianos na Notre Dame. A-do-rei! Várias canções e ainda um bônus: uma das cantigas de Santa Maria, do bom e querido Alfonso X, cantada em galego-português, falando sobre o compositor das canções, Adam de St. Victor. Era a historinha de uma das canções, que foi cantada a seguir, fechando a noite. Um encanto. Nas outras duas noites, nenhuma programação especial. A primeira foi uma noite de descanso, depois de uma longa e desconfortável viagem -- todas as vezes juro que será a última, mas, assim que desembarco, já começo a pensar na próxima, achando que Paris bem vale uma noite sem dormir... Na outra, visitas, trabalho, um pouquinho de cada. Valeu, pois estou com a agenda quase que tranquila.
Agora estou aqui na Langogne, participando de um aniversário que tem comemorações múltiplas: Já jantamos, já passeamos, já almoçamos, e ainda temos uma ceia, hoje à noite. Amanhã, uma maratona. Vou passar o dia viajando. Primeiro, dirijo minha linda e pequenina Fiat alugada, até Lyon. De lá tomo um TGV direto para o aeroporto. Aí tomo um avião para o Rio. Desembarco e tomo outro para Curitiba. Não, ainda não cheguei ao fim. Tomo um outro avião para Maringá e lá faço uma conferência, se conseguirem me manter acordada. Acho que vou ter que tomar umas injeções de cafeína. Na veia.
No dia seguinte, vou para outra cidade no Noroeste do estado, mas esqueci a ordem da viagem: Passo por Paranavaí, por Campo Mourão, por mais outras cujo nome não lembro agora. Termino em Curitiba, onde, no dia 4, farei uma leitura de contos e sessão de autógrafos no Quintana. Convido a todos os meus amigos de Curitiba, que desejarem me ver, para dar uma passada por lá. Venham, vou adorar dar um abraço apertado em todos.
Ah, quando tiver um pouco mais de calma, colocarei aqui as fotos do chateau onde as festas estão se passando.

Wednesday, September 17, 2008

Ela pisava nas flores distraída...

Quando vou para a UFF sempre escolho o caminho mais bonito, margeando nossas belas praias, atravessando o lindo parque do Flamengo, suspendendo-me para ver melhor as torres das igrejas do centro e depois atravessando a ponte e embebendo meus olhos no encantador cenário escolhido pelo Rio e Niterói para se alojarem. Nunca consigo decidir se é mais bonito ir ou voltar...
Essa época do ano, entrando na primavera, me deixa ainda mais deslumbrada, com os belos ipês (sim, acho que são ipês) que, com suas flores cor-de-rosa, formam nuvens que me lembram canções de um amor passado. Ontem, por causa da chuva, as árvores me prestaram uma homenagem diferente e cobriram meu caminho com um tapete de flores, e eu me senti a mais importante pessoa do mundo! Um tapete de flores, suavemente asperjidas à sua frente, que rainha receberá mais bela homenagem?
Meus olhos, bêbados de beleza e de lembranças, só protestam quando avistam o novo cartaz sobre a Rodrigues Alves: Cerveja e futebol?! Como transformaram assim aquele honesto X que serviu de estrela para minha família durante tantos anos? Primeiro o implodiram, marcando o início de sua derrocada. Depois isso: garrafinhas e bolas, que custamos a perceber que não se trata de uma nova campanha de cerveja, e sim da matriz da Xerox! Sic transit gloria mundi! Já que não dá para beber e dirigir, quem sabe dá para beber e trabalhar? Será essa a mensagem? E bola prá frente que atrás vem gente! Os marketeiros da companhia que me desculpem, mas detestei.
Melhor terminar este post pensando nas flores e nas torres do Mosteiro de São Bento. Atentas, elas me esperam no caminho de volta, para se certificarem de tudo correu bem na travessia. As árvores ondeiam seus galhos, numa bênção, e logo estou de novo no aterro. Desta vez é a multidão de pompons amarelos das acácias mimosas que se movimenta ao me ver passar, sorridentes como adolescentes em dia de festa. Mesmo sob chuva e frio meu coração consegue permanecer aquecido com esses agrados....

Sunday, September 14, 2008

O outro vídeo

Sei que nem tudo é perfeito, mas sempre podemos melhorar. Enquanto estivermos no jogo, o importante é a gente ir relevando as falhas e aproveitando as coisas boas. Nunca sabemos o bem ou o mal que um dia de chuva pode trazer, nem o que o fraco sopro de ar contido em poucas palavras pode trazer de destruição ou de emoção. Ai, palavras, que estranha potência a vossa, sois de vento, ides no vento ... Então escrevo-as, quem sabe assim elas percam suas arestas, e não firam, só acariciem... Enquanto isso, outros encenam o sofrimento de minhas histórias: Aqui vai o outro vídeo para vocês. Trata-se de uma breve encenação de pedaços de contos tirados de meu livro novo. No vídeo que postei anteriormente, os leitores poderão reconhecer pedaços de dois contos: "Depoimento" e "Ikebana", muito bem mesclados pelos meus amigos cineastas -- segundo minha opinião.
Neste vídeo os trechos foram retirados de "Faxina" e de "O ovo". Vejam o vídeo e indiquem o site aos amigos, por favor. Leiam o livro e recomendem aos amigos, por favor. Esse é o maior agrado que vocês podem me fazer. Obrigada.

Não posso mais esperar!

Estava aguardando um sinal verde de meus amigos cineastas, mas não aguento mais esperar para colocar à disposição de meus amigos de blog os trailers de Linha de Sombra. Sabe como é, filho novo, que nos obriga a mil cuidados, que provoca mil esperanças, que nos cansa e nos encanta...
Compartilhem comigo a emoção de assistir os vídeos (que divulgo aqui mesmo sem o sinal verde) e de se maravilharem com o talento da equipe que os realizou. Como uma pequena filmagem envolve gente! Desde a roteirista (Natália Klein) à diretora, ou produtora, (Debora Pessanha) -- me perco entre tantas funções e atribuições. Nos bastidores, uma multidão, mas só me lembro do nome de mais duas pessoas, o Rodrigo Brazão e a Juliana Bach. No entanto, conheci mais duas participantes da equipe e lamento muito essa minha memória cheia de furos. Imaginem: tem alguém com a câmera e mais alguém responsável pela iluminação. Alguém tem que fazer o casting, ou seja, a escolha do elenco, e ainda tem a música, a montagem, os cálculos, o transporte. Depois as pessoas me corrigem, quando digo que escrever é fácil... Fácil em termos de equipamento e técnica material, é claro. Um lápis e um papel, uma varinha e areia, e já está! Anchieta, segundo a tradição, escreveu o primeiro poema brasileiro nas areias de uma praia. Como dizem os italianos, si non è vero... Quer imagem mais linda que o primeiro poema de uma terra sendo escrito na própria terra?
Mas estou escrevendo demais, e nada de vídeo! Então, vamos às imagens, pois é uma delícia essa coisa de misturar a escrita e a imagem e a música, tudo aqui!

Saturday, September 13, 2008

Outro mimo

Ainda não tive a chance de comentar as outras coisas que fiz em SP. O casamento, sim, foi por isso que fui lá. Revi amigos, de outra vida e da minha vidinha atual. Fui ao teatro: na sexta fui ao Hamlet e mais uma vez me extasiei com o texto de Shakespeare. Quanta coisa boa, quanta qualidade! Pena que o diretor não tenha entendido o que estava dito. Vejam, há uma verdadeira lição de teatro, as indicações da direção, por assim dizer, naquele famoso trecho "Speak the speech, I pray you..." Hamlet ensina que há de dizer o texto sem gritarias nem grandiloquências, com simplicidade de cenário e de gestos, economia até de voz, elegância. Está tudo lá. E nada disso estava no palco. Desta vez o Aderbal se equivocou: ao invés de usar sua experiência e ensinar teatro aos jovens (e talentosos) atores, que se aventuravam com tanto destemor a representar a peça, resolveu "assinar" a montagem e só conseguiu "assassinar" Shakespeare. Sou da opinião que, sempre que se monta um espetáculo desses aqui no Brasil, é nossa obrigação assistir, para que atores e diretores se sintam estimulados a repetir o projeto e comece a se formar uma tradição. Por isso vou, e sempre aconselho todos a ir. Fui ver Marco Antônio e Cleópatra da Maria Padilha e não me incomodaram as falhas do espetáculo. Mas em Hamlet me incomodaram muito, pois poderia ter sido muito melhor. O talento do Wagner Moura é inegável. Ele não tem é técnica, sua voz não resiste aos longos trechos, mas ele sustenta seu texto e até brilha. Mas essa técnica só pode ser adquirida com a prática, e isso não existe. Mas o que não deve ser feito é criar mais obstáculos para a entrega do ator. Um guarda-roupa comprado na Osklen, que deixou Gertrudes deslumbrada, mais preocupada com seu sapato que com seu drama, e que fez o pobre Hamlet passar toda a peça com jeito de quem precisava uma troca de fralda -- isso poderia ser evitado. As corridas desnecessárias também não precisavam estar ali. O cenário pavoroso -- canteiro de obras do metrô -- não precisava existir. A câmera, enorme, atravancando os atores ---foi...mais ou menos. Se as imagens projetadas no telão tinham relevância e se tornaram um efeito cênico bacana, a câmera era grande demais, atrapalhava. A solução para o fantasma do pai foi ótima. Bom teatro, trabalhando bem o pacto de entendimento entre palco e platéia. A cena da morte de Ofélia também foi bonita, e ali as imagens da câmera foram especialmente belas e relevantes.
Resumindo: quero ver outra peça shakespeareana, e sugiro um Othelo, com o Lázaro Ramos no papel pricipal, e o Wagner ou o Selton como Iago. Acho que convenceriam... A Desdêmona acho que podia ser a Falabela, mesmo. Mas todos eles iam precisar de doses maciças de impostação de voz.
A outra peça que vi foi uma montagem para crianças do Doente Imaginário, do Moliere. Chama-se Dr. Dodói, e tem a ver com o grupo do Nereu, outro irmão em SESC.
No domingo ainda consegui encaixar uma visita ao MAM e apreciar a exposição do Duchamps.
Bem, é só isso. Meu corpo está cansado e precisa de ir para a cama.

Tuesday, September 09, 2008

Um mimo

Este título é tirado de meu dicionário particular. "Presente", no Recife, é "mimo", coisa muito mais carinhosa. Vejam só, a palavra usual se foca em quem dá, é uma maneira de mostrar o comparecimento à festa, de responder à lista de chamada dos amigos... Já o mimo pensa na pessoa que recebe, na alegria que ela vai ter ao receber, no gosto que o outro vai sentir. Muito mais legal, não acham? Então aqui vai o meu mimo para vocês, e eu agradeço ao Alcione Araújo, que foi quem primeiro me mandou essa preciosidade. Na verdade, esse vídeo tem muito a ver com o romance que ele acaba de lançar: Pássaros de vôo curto. Vejam que esse meu amigo tem nome de pássaro, mas só empreende altos vôos. Seu romance é quase uma epopéia, tratando de gente comum. Espero que vocês gostem tanto do vídeo como eu gostei.
Ah! aproveito para relembrar que meu livro já está nas livrarias. Vi em São Paulo e já vi no Rio, também. E o lançamento será no dia 22 de outubro, na Livraria da Travessa, no Leblon.

Monday, September 08, 2008

Guardanapinho

Mil coisas para fazer, mas não resisto a um bate-papo virtual. Essas minhas reflexões por escrito já me viciaram, vou mandar fazer um adesivo dizendo I dig my blog!
Fiz uma pausa para o almoço, e peguei um jornal antigo para ler enquanto comia. Descobri esta gracinha de termo: guardanapinho -- designação de beijinho assanhadinho no canto da boca de quem recebe. Achei muito expressivo, e me encantei com o termo. Gosto de palavras, estive pensando em fazer um dicionário pessoal, só de palavras que me agradam. Para beijo, então, já tenho duas entradas, essa do guardanapinho e o cheiro nordestino, que me encantou pela enorme intimidade que cria. Nossos beijinhos cariocas, sempre múltiplos, estalados no ar, são tão superficiais... Hoje de manhã, ao me despedir de meu filho -- que só ia para o trabalho -- fiz uma coisa que costumava fazer com eles e o pai deles, numa vida anterior: peguei sua mão, dei um beijo na palma e fiz que ele fechasse os dedos dizendo: guarda, guarda! E ele ficou, com o punho cerrado, me olhando e nós dois soubemos que esses beijos não foram e não serão desperdiçados, e que o amor existe e que é um jeito muito bom de começar a semana, esse!

Sunday, September 07, 2008

Casar e morrer em São Paulo

Não sou bairrista. Na verdade, sou fascinada por São Paulo, cidade rica, cheia de museus, de teatros que funcionam todos os dias da semana, de lojas que parecem museus, de parques e represas com repuxos. Mas, desta vez, estou em choque.
Não pelo casamento que fui, num lugar bonito, pois aqui no Rio temos nossas casas de festas lindas, e não ficamos devendo nada a ninguém. Em outros tempos fui a festas paulistas daquelas descritas pelas Revistas Caras e pela Veja -- Numa revista o deslumbre com o luxo, na outra o ultraje com esse mesmo luxo. Eu era a platéia que aquelas pessoas necessitavam, e estava bem contente com meu lugar excêntrico, usufruindo panis et circensis. Mesmo nestas festas continuava acreditando que os cariocas não devíamos nada a ninguém. Afinal, aqui também tinha festa dos Marinhos que, na falta de leões e tigres, colocavam os globais em belas coleiras para exibir aos convidados. E festas de banqueiros que exibiam duquesas e distribuíam pashminas, já que, em janeiro, a temperatura oficial da casa era a da França, para que os duques não derretessem ao serem transplantados para cá...
Mas agora acho que os paulistas realmente conseguiram me deixar, como diriam os americanos, flabbergasted, ou seja, completamente apalermada: Eles inauguraram a primeira casa de festa para mortos. Não estou brincando, deu na Folha. Ou talvez tenha sido no Estadão. Ou provavelmente nos dois jornais, pois uma notícia destas é realmente --- inédita e também inaudita!
Passo a citar:
"Com certeza vai voltar o glamour dos velórios. É a última festa do falecido, então porque não fazer uma despedida alegre?"
Quem disse isso foi a dona da casa de festas macabras, que trajava uma mortalha azul da Daslu. Segundo ela, era muito melhor ir para sua casa de festa do que para o Cemitério do Araçá, onde há ratos e os convidados nunca sabem se entraram no velório certo.
Gente, não estou inventando! A casa de festas funéreas tem quatro ambientes: São Paulo, Roma, Paris e New York. Neste último há uma saída para uma varanda com elevador, por onde passa "o caixão para que ninguém o veja." Donde se conclui que o morto é apenas um detalhe. E isso se confirma pela existência de "sala do teretetê, porque a pessoa não vai ficar o tempo todo em cima do falecido". Na opinião dos vivos, aliás, dos vivíssimos, "o morto ficará feliz de ver todo esse conforto". Pudera! Pois se, já que ninguém vai ficar em cima do falecido, para não incomodá-lo, faz parte do mobiliário uma TV de plasma, de muitas polegadas, onde o morto poderá rever os melhores momentos de sua própria vida, ou, se preferir, um show da Madona, ou até mesmo do Elvis, aquele que não morreu.
Com isso tudo, não há dúvidas que dona Milena "Mortícia" Romano "vai mudar o conceito de morte em SP, vai deixar o velório uma coisa fashion".
É isso aí, dona Funérea! Desejo que seus clientes morram logo. E acho que, se ao invés de distribuir "bem-velados", a senhora der uma tacinha de cicuta bem gelada aos seus convidados, sua casa de festas vai bombar!
Outra hora falo do Hamlet e do Dr. Dodói, as peças que assisti. Agora deixo vocês, morrendo de rir.

Friday, September 05, 2008

De ratos e homens

Aproveito o título do Steinbeck para comentar o post de meu amigo Guido. Proust nasceu em 1871, portanto sua mãe sofreu, durante a gravidez, essas inconveniências da guerra. Tanto que foi por isso que nosso querido escritor nasceu em Auteil, que na época era uma cidade satélite, não um bairro de Paris, como é agora. Para fugir da escassez em Paris, Mme Proust se refugiou na casa de um irmão de sua mãe. Só que Marcel sempre foi uma criança frágil e nervosa, e seus parentes diziam que o temperamento dele era consequência do clima de insegurança e perigo durante a gestação. Se este fosse mesmo o caso, nossa cidade devia ser uma habitada por pessoas frágeis e nervosas, pois estamos vivendo um clima de guerra civil há muitos anos. É que a gente vai perdendo a sensibilidade, e só se dá conta de como estamos assustados quando nos afastamos por um tempo daqui, e parece que relaxamos, nos humanizamos.
Adorei o versinho do Hugo. Mas, acho que meu favorito entre os versos de Hugo é O sonho de Booz (já não sei mais o nome direito) com uma das mais belas imagens da lua que já li. Só que, minha memória me trai, e eu já não posso citar o verso tão lindo. Leiam o poema, vale a pena procurar. É longo, descritivo, comovente. Victor Hugo nos seus melhores momentos. Eu, no entanto, sempre adorei seus romances, que li lá pelos onze ou doze , idade mesmo certa para ler 93, Os miseráveis, O corcunda de Notre Dame. Quando, depois, li O perfume, só lembrava das descrições do Pátio dos Milagres e de sua mistura de seres sub-humanos. Nesta época também li Dickens. David Copperfield, para ser mais precisa. Li mais de uma vez, esse livro, saboreando ora um ora outro personagem. Uriah Heep, Mr. Micawber, Dora... Ah, se eu tivesse um centavo pelas lágrimas que já derramei lendo... David Copperfield e Amor de Perdição devem ter sido os que mais me fizeram chorar.
Acabo de receber o presente de um escritor uruguaio que conheci outro dia, na Argumento: Diego Bracco. Ele me mandou seu romance, María de Sanabria, chefe de uma lendária expedição feminina que atravessou o Atlântico, saindo da Espanha e com destino ao Rio da Prata. Ai, a minha pilha de livros. Que loucura! Está cada dia maior. Mas vou ler, é só ter um pouco de calma. Amanhã parto para SP, para um casamento, e aproveito para ver Hamlet. No avião, escolherei um livro mais fininho. Desisti do Robbe-Grillet (muito século XVIII demais), terminei o Roth, mas tenho à minha espera Manguel, G. Bernardo, B de Carvalho, Franck, Plosk e agora Bracco e um inédito de André de Leones e outro de A. Tojal. Isso para não falar no Vieira, que está me contemplando sizudamente, com ares de reprovação pelo meu descuido. Tchau, vou ler. E fazer as malas.

Wednesday, September 03, 2008

Literatura e amizade

Vera Helena, leitora e amiga, em seu último comentário tocou num ponto que sempre chamou minha atenção. Quem convive comigo sabe que, volta e meia, falo sobre isso -- a intimidade que se estabelece entre leitor e autor. Quando lemos algumas obras, entramos em tal sintonia com as palavras lidas, com os sentimentos retratados, com as opiniões externadas que passamos a "amar" ou "odiar" o autor.
Tenho alguns autores que me "tocam" como se eu fosse um instrumento -- posso gemer profundamente como um violoncelo, assobiar alegre como uma flauta, ondear em êxtase como uma harpa, sei lá, uma orquestra toda (deixo meu amado piano de fora, pois cada vez me vejo mais incapaz de produzir belos sons no teclado, embora meu incansável professor ache que vou aprender a peça de Katchaturian que ele está me ensinando).
Voltando ao assunto em questão, às vezes fecho o livro e tenho vontade de telefonar para o autor, achando que ele, ou ela, é a única pessoa no mundo que me compreende. Claro que eu não faria isso, primeiro porque sou meio maluca e cada vez uso menos o telefone. Não ligo para ninguém, é uma dificuldade quando tenho que chamar um técnico para consertar uma máquina, ou pedir uma pizza para não morrer de fome. Adoro quando me ligam, principalmente quando é uma ligação para me contar uma coisa. Por exemplo, quando falto a uma reunião, A Rachel me liga para me contar seus comentários, e aí conta coisas, do dia, da semana, dos anos quarenta... podia ficar conversando com ela a tarde toda. Porque a minha loucura é a seguinte: nunca sei se a outra pessoa pode me atender naquele momento, ou se preferia estar vendo novela, ou comendo uma torta de chocolate, ou lendo um livro... Fico atemorizada de que, do outro lado da linha, meu interlocutor fique fazendo aquelas caras de "dai-me paciência, ó Deus, é aquela chata de novo!" para alguém que esteja com ela/ele e eu esteja interrompendo. Acho que sou a única desocupada e solitária que existe no mundo... Sou mais do que maluca.
Volto mais uma vez ao assunto -- imaginem, então, o que poderia acontecer se, por um milagre, eu terminasse de ler um trecho de Proust e, por alguma tecnologia, pressionasse algumas teclas e ele me atendesse do outro lado: já começaria com um problema, pois meu francês atroz iria chocar esse autor absolutamente apaixonado por sua língua natal. E eu aqui, com sotaque, com essa minha inabilidade para falar e minha voz que continua infantil apesar de a infância ter ficado há muitas primaveras atrás, dizendo a ele que tinha adorado o trecho da múmia.
Como? O quê? Quem está falando?
E eu explicando que ele não me conhecia, que era impossível ele me conhecer pois eu estava vivendo no século XXI. Eu não era memória involuntária, era o futuro involuntário dele...
Minha voz, desmaterializada, falando coisas incompreensíveis e ele, como no episódio das telefonistas, se concentrando tanto no som de minha voz que conseguiria ver o que as pessoas com quem eu cruzo na rua não vêem: meu eu verdadeiro, com suas dores, seus temores, suas alegrias...
Ele até se compadeceria de mim, mas como poderíamos estabelecer um contato maior? Homem de outro século, de um mundo já extinto, somente sua sensibilidade e suas palavras sobrevivendo numa teia sutil que se estende de cérebro a cérebro através das idades...
Tento de novo. Desligo Proust e ligo para Mia Couto -- vivo e lindo, desta vez sou atrapalhada pela timidez que o encantamento pela figura do homem provoca. Não importa que eu quisesse agradecer por sentir que ele compreende o que vai dentro de minha alma, e que me estenda a mão e me ofereça esperança mesmo nas páginas mais tristes. Desligo antes mesmo que ele atenda o telefone, e fico sem saber se ele diria "estáaa?"(ou "estou", ou "sim?"), como sei que os portugueses de Portugal costumam fazer ao atender o telefone. Seria diferente o hábito em Moçambique? Penso em ligar para uma mulher. A Inês Pedrosa, talvez. Não -- muito dinâmica, ela não combinaria com minhas hesitações. Só nas páginas dela é que encontro os caminhos que podem nos ligar, sua tenacidade, a linha reta de seu desejo enfrentando ausências e a morte.
Então desisto dos telefones e volto ao aconchego dos livros. Penso no título de um livro de contos do Ian McEwan -- Between sheets, e na sua ambiguidade: sheets podem ser folhas de papel, mas também podem ser lençóis -- um livro é como um leito aquecido, com lençóis macios e cheirosos, onde a gente se sente abraçar por um amante, onde nosso corpo se rasga para trazer ao mundo um novo ser, onde aguardamos que a febre passe, que a dor sossegue, que a morte chegue... Fico entre lençóis e folhas de papel...

Sunday, August 31, 2008

Recife dos meus amores!

Se existem dias perfeitos, eles são passados no Recife! Adoro essa cidade com seus mares de sereia, pois aquelas águas são da temperatura certa para criar sereias e outros seres encantadores em sua hibridez e sedução. E como são belas, as praias, que acho que os habitantes já nem se dão conta de sua beleza. Eu, com meus olhos cariocas, olhava o mar muito verde, leitoso, os recifes negros, a espuma das ondas brancas que ora formavam penachos, esguichos de fontes, ora se derramavam pelos degraus de rochas (ou corais, não sei) e pareciam imitar cachoeiras. Nas piscinas naturais, os peixes pequeninos se misturavam às crianças e a alguns adultos que, deitados na água morna, conversavam coisas preguiçosas e sonolentas, ou ficavam calados, contemplando o céu e as nuvens, abrindo e fechando os braços e pernas, num ballet do qual não tinham consciência. Eu, carioca, procurava as ondas, desafiando os cartazes que me prometiam tubarões. Pois os tubarões estavam de folga neste fim de semana, talvez afugentados pelas jangadas com propaganda eleitoral, ou pela música tocada pelos mercadores de MP3, numa orgia de canções agradecendo a Jesus, que os havia salvado de todos os males, menos o da pirataria.
O SESC continua seu trabalho ímpar, impressionante, e nestas horas eu fico feliz, e acredito que meu país tem jeito. Aquelas trinta pessoas que estavam na platéia, em busca de soluções para fazer as pessoas se interessarem por literatura, me encheram de esperança. O SESC de Santa Rita tem um espetacular "Laboratório de Autoria Ascenso Ferreira" -- e lá espero que germinem muitas sementes para a criação e a fruição da literatura. Quem frequenta esses ambientes criados pelo SESC só pode se sentir valorizado e estimulado. Não canso de elogiar, por exemplo, o fenomenal colégio que eles criaram aqui no Rio. Este projeto devia estar em todos os jornais e revistas do país, todos os olhos da nação deviam se voltar para lá, e todos nós devíamos estar torcendo para que essa iniciativa dê muito certo. Quem conhece as instalações, a equipe de professores e a dedicação de todos os envolvidos se encanta totalmente.
Mas não quero que pensem que elogio porque ganhei o prêmio SESC -- elogio porque, depois que ganhei o prêmio, é que fiquei conhecendo tudo o que eles fazem de bom. Eles precisavam de que os holofotes fossem voltados para suas iniciativas, para servirem de exemplo!
Agora que voltei, dei uma lida rápida nos comentários e agradeço com muito carinho, o carinho e a compreensão de meus leitores. E acolho com muita simpatia o Ivan, futuro pianista que vai tocar, em dueto comigo no Municipal -- a gente só não sabe é quando! Vera Helena, mesmo distante, suas palavras me deram aconchego e conforto. É bom ter amigos, mesmo virtuais. Um dia a gente se encontra.
E, por falar em encontros, encontrar os amigos de Recife foi muito bom! Fazer amigos em Recife também foi muito bom: terra de gente acolhedora e carinhosa, conheci, em Olinda, Izabela e Geruza, escritoras também. Conheci, finalmente, o Marcus Accioly, poeta de grande sensibilidade e muita erudição, mas de uma simplicidade e simpatia comoventes. Raimundo Carreiro, Marcelino Freire, também foram companheiros de conversa e boteco nestas festas literárias que agitaram a cidade. Marco Polo Guimarães, meu querido poeta das ruas do Recife, com seus versos cheios de luz e cores, foi pena que nossas atividades estivessem programadas para o mesmo horário. Mas foi bom trocar abraços e conhecer Angeli e Alana.
E que dizer da grande e tocante homenagem que Zezé e eu recebemos por parte de Breno Fittipaldi, que nos dedicou a peça encenada ontem? E da comenda que recebemos? Pois é, mais respeito pois agora sou COMENDADORA!
Fico por aqui. Voltar de viagem é sempre complicado, lidando com saudades e vazios...

Friday, August 29, 2008

Before sunrise

Antes do amanhecer, venho aqui me despedir, pelo fim de semana. Vou participar de uma palestra no SESC, em Recife. (Acho que é o de Santa Rita, escrevi em algum lugar e já não sei mais onde coloquei a anotação.)
Estou terminando de fazer a mala, que, desta vez, vai com os dez livrinhos que recebi, pois as livrarias de lá não vão receber a tempo. Bem, se alguém estiver me lendo aí no Recife, convido-o ou -a para ir até lá, no sábado, às 16 horas. André de Leones também vai estar lá, e a mediação vai ser feita pelo Marcos Accioly.
Deixo vocês com uma recomendação de leitura: A elegância do ouriço. Divertido e inteligente, é daqueles livros que a gente lê sem parar e ainda aprende coisas! Querem saber que mais estou lendo?Fantasma sai de cena, do Philip Roth e o último do Robbe-Grillet, XXXX-rated, que deve ferir a suscetibilidade de muita gente nestes tempos de sensibilidade aguçada pela pedofilia. Explico porque estou lendo dois ao mesmo tempo: Estava lendo um (Fantasma) mas esqueci em casa e, como não sei viver sem um livro na mão, e tinha um tempo enquanto esperava minha orientadora -- comprei o Robbe-Grillet e comecei a leitura. Não é muito a minha praia esse tipo de livro, mas é tão "clássico", tão "marquês de Sade", que despertou minha curiosidade. Foi o último livro que ele escreveu, e acho que já tinha passado dos 80, na época. O começo é intrigante, como se fosse uma alucinação de um moribundo. Essa pessoa que desperta numa espécie de cama de hospital, passa a ter visões, e essas visões são tão século XVIII, com a menina em poses estudadas e convencionais, como se fossem daquelas gravuras antigas. Não recomendo, esse cada um lerá se quiser. O Fantasma também não vou recomendar, embora eu goste muito do Roth. Mas também tem essa situação um pouco mórbida, com esse escritor já velho, sofrendo de incontinência urinária e de impotência após uma operação de próstata, se apaixonando por uma moça uns 50 anos mais nova... Vai ver que, ao chegar aos 80, os homens só se encantam pelas mulheres bem jovens, ou ainda impúberes, numa espécie de ansiedade para recuperar a juventude. Será que isso acontece com as mulheres também? Ou elas acreditam mais nos cremes e nas plásticas?

Tuesday, August 26, 2008

Chegou!

De saída para entregar o trabalho na UFF, volto atrás para compartilhar a alegria: chegou meu livro, prontinho, encapado, elogiado na quarta capa pelo Mussa, e examinado com carinho pelo Moutinho, nas suas orelhinhas verdes, da cor da esperança.
Ele deve estar chegando nas livrarias. Vocês já podem procurar por ele! Se folhearem com cuidado, vão encontrar meu coração ali dentro, todo remendado, mas batendo graças ao carinho de vocês!

Sunday, August 24, 2008

Feliz Aniversário

Semana de muita correria, mas tentando reservar tempo para os amigos. Assim sendo, consegui me encontrar com pessoas queridas, ir ao teatro duas vezes, ir ao encontro literário do Henrique Rodrigues para escutar o Marcelo Moutinho; ir ao CCBB para ver a exposição de Clarice com outra escritora, a Elomar Nascimento; bater papo na praia com Alcione Araujo; na Argumento com a Valéria Martins, seus filhos adoráveis e mais um escritor e historiador, o Diego; e ainda, jantar com minha filha; almoçar em família e comemorar o aniversário de 90 anos de uma amiga proustiana, a Maria Flora. Relembro assim um dos meus contos prediletos de Clarice, "Feliz aniversário", em que a velhinha se rebela contra aquela família toda cheia de segundas intenções, cujos membros esqueceram o que é o amor e a vida para lhes dar uma lição de irreverência. Estou aqui pensando num livro cuja resenha fiz recentemente, do Pierre Bayard, cujo título é mais ou menos Como falar de livros que não lemos, para corroborar o fato de que a minha leitura (feita há tanto tempo) já não me permite lembrar o enredo com clareza -- o que é mesmo que acontece em histórias todas passadas nos pensamentos das personagens? -- Cada leitura é única e pessoal, depende de nossa interpretação, de nossos sentimentos. Proust, um especialista sobre leitura, sabia que a circunstância em que lemos os livros influenciam sua leitura. Por exemplo, depois da morte do Guilherme (e, por incrível que pareça, quase três anos após o fato, ainda não consigo falar, ou pensar ou escrever estas três palavras juntas sem que meus olhos se encham de lágrimas) fiquei um tempão sem conseguir ler. Sei que tem gente que nem se importa com isso, mas, para mim, que sou movida a leitura, isso equivalia a estar morta também. Sem ler, não sou eu. E eu não lia nada. Nem jornal, nem revista, nem livros. Meus amigos me ofereciam livros, me mandavam artigos, e eu nada... Até que ganhei de uma das proustianas, o livro Fazes-me falta, da Inês Pedrosa. Esse livro rolou um tempo junto dos outros, mas o título mexia comigo e levei-o comigo para Trancoso onde a Helena, outra proustiana, tentava me fazer sobreviver aos horrores dos ritos de passagem de Natal e Ano Novo. Li o livro entre lágrimas e soluços, sentada sozinha no varandão do hotel, de tarde, enquanto Helena dormia sua sesta. Acho que sublinhei todas as frases do livro, como se fossem revelações. No entanto, nem lembro do que se tratava ali. Sei que a situação era oposta à minha, o homem sobrevive à mulher, e se correspondem, ela escreve de um lado, ele de outro. O que eles se diziam? Não sei. Só sei do título, fazes-me falta, que ecoava a única coisa que eu era capaz de pensar naqueles meses de tanta angústia e desespero. As pessoas dizem que as dores passam com o tempo, mas eu garanto que não passam. Proust me ensinou que não passam. Nós é que, sutilmente, sem nos apercebermos, deixamos de ser quem éramos, nos tornamos outras pessoas. A Lúcia amada pelo Guilherme deixou de existir. Sempre, porém, que alguma coisa dispara a lembrança involuntária, essa Lúcia ressurge por átimos de segundo, e a dor da perda a ataca sem piedade, esmaga-a, e ela então desaparece mais uma vez e deixa essa aqui, sem graça, escrevendo blogs, que se distanciam de seu objetivo principal, que é mostrar como Literatura e vida interagem, em festas de aniversário, em episódios do cotidiano, em "novas maneiras de ler".

Wednesday, August 20, 2008

De amor e de cinzas

Histórias de amor, o que será melhor? Lê-las ou escutá-las? Decerto vivê-las! Mas, quando isso não acontece, ler um bom romance ou escutar uma amiga ou amigo contando seus encantamentos funciona como uma espécie de bálsamo.
De todas as histórias de amor que li, qual seria a que mais me marcou? Me lembro, por exemplo, de ter chorado compulsivamente ao ler Amor de Perdição. No entanto, não lembro da história. Quais foram as tragédias que aconteceram? Foram tantas... Termina, se não me engano, com o rapaz morrendo numa viagem marítima e sendo jogado ao mar. Bem, de amores infelizes, foram muitas as histórias que li. A Dama das Camélias, por exemplo. Romeu e Julieta. Grande Sertão, Veredas. O Guarani. Iracema. Anna Karenina. Mme. Bovary.... E eu ansiando por finais felizes, que encontrei num Alencar mais ameno de A pata da gazela, Tronco do Ipê, Sonhos d'Ouro. E, claro, na Moreninha, de Macedo. Depois passei a não me interessar tanto pelos finais, mas sim pelas peripécias amorosas. Na Cartuxa de Parma, o heroísmo de Fabrizio del Dongo me fascinou até que, anos mais tarde, relendo, descobri a Sanseverina e o Conde Mosca! Porque eu gosto de reler livros. Volto às histórias como quem vai visitar amigos. Nem sempre isso dá certo, os livros se modificam, hoje já não tenho mais paciência para o Pequeno Príncipe, que li, apesar de nunca ter sido miss. Sei que os livros continuam os mesmos, e que quem muda sou eu, mas, como eu continuo sendo eu, digo que são eles os modificados, para não questionar minha identidade. Pois, admitindo minha mudança, tenho que perguntar: qual a Lúcia verdadeira, a de hoje ou a que leu e gostou do Pequeno Príncipe? E, além disso, alguns livros continuam me agradando até hoje: Memórias de um sargento de milícias, por exemplo, continua adorável. Os romances e contos de Machado, permanecem tão bons como quando os li pela primeira vez. Alguns dos romances de Eça ainda me deliciam. E os contos de Cortázar, ainda me ensinam coisas. Um romance que adorei apaixonadamente, quando o li pela primeira vez, Vento Forte, de Miguel Angel Asturias, tornou-se ilegível, anos mais tarde. Outros não tenho desejo de voltar a ler. Em alguns romances, me apaixonei pelos seus personagens masculinos. Em outros, me identifiquei com as heroínas. Depois descobri que quem eu queria ser, mesmo, era o autor, ou a autora. Às vezes terminava uma leitura e chorava, frustrada, achando que nunca ia escrever nada assim tão importante como o que acabara de ler. Não era inveja, era um sentimento de que minha vida é tão pequenina, que jamais poderia gerar algo grandioso. Depois percebi que não era isso o que importava. Os livros nos tocam pelas suas "verdades". Quando logramos atingir a seiva daquilo que nos faz humanos e iguais, sendo tão diferentes, encontramos nos leitores uma resposta através dos tempos. Assim, as histórias de Leonardo, passadas no tempo do rei, que vira Sargento de Milícias e consegue, finalmente, casar com sua Luizinha ainda nos fazem rir, e pensar, e nos surpreendem com suas observações.
Termino falando de cinzas, em dois livros que adorei ler: Os sinos da agonia e O nome da rosa. Hoje já não quero reler nem um nem outro, embora os tenha relido pelo menos três vezes cada um. Tenho medo de não gostar. Os dois falam da época da Inquisição, são bem construídos, inteligentes. Só que, muitos Códigos da Vinci depois, já não me deixo seduzir pela manipulação da arte de narrar, tenho medo de achar a "matéria de carpintaria" muito aparente. (O Autran Dourado, autor de os Sinos..., escreveu depois esta obra, explicando como tinha sido a construção de seu romance, e deu este título, matéria de carpintaria). Mas volto a isso outra hora. Agora já são horas de dormir...
Antes, porém, uma palavrinha a respeito do comentário do Amauri, que me diz estar num Spa chamado Dona Urraca. Quando estudei a história de Portugal, fui apresentada a uma dama com este nome. Ela e sua irmã, Dona Tareja, me assombraram: como é que princesas recebiam esses nomes tão pouco sonoros? O pior é que o marido de uma delas, querendo livrar-se da mulher, matou um urso, costurou-a dentro da pele do animal e soltou os cachorros atrás. Quanta barbaridade, não acham? Espero que este spa não tenha nada a ver com essa história! Aguardo notícias.

Monday, August 18, 2008

Praia e música cubana

Apesar de dever ficar legalmente "casada" com Coetzee e terminar meu trabalho, traí-o e me entreguei à leitura de outro romance. Quando terminei, tinha perdido/ganhado o sábado e, como já era domingo e o dia era de sol, acabei indo à praia. Afinal, todo mundo sabe que é pecado trabalhar aos domingos! Praia do Leblon, dia de sol, época de campanha política: a gente sabe que tudo pode acontecer... Mas nada ocorreu de especial. A água estava limpinha e numa temperatura razoável, mas muito agitada. Mesmo assim, tentei vários mergulhos, tropecei em crianças com pranchas, escapei por pouco de boladas que uns quatro ou cinco marmanjos sem noção resolveram chutar em rodinha bem na beira d'água, tomei um balde de mate com limão, de torneirinha (gosto de viver perigosamente) e cheguei em casa a tempo de tomar banho e me arrumar para o Cello Encounter das 8h. Filas e conversas inacreditáveis. Uma pessoa, que mal conheço, resolveu me contar de seu ''hidrocólon", mas vou poupar meus eventuais leitores. Eu sempre me admiro com os assuntos que puxam comigo. Já escutei descrições de tumores latejantes, de cirurgias plásticas atemorizantes, já ouvi os detalhes de operações financeiras que deixaram meu cérebro dormente. Já sorri incontáveis vezes com as mesmas piadas contadas pelas mesmas pessoas, embora a piada não tivesse graça nem na primeira vez que foi contada. E já tive que achar muito engraçada a história que eu havia contado numa festa anterior, quando a escutei, como coisa sua, contada pelo meu interlocutor, numa festa posterior. Antes, tinha os olhares cúmplices do Guilherme. A gente não trocava olhares irônicos, só se olhava, com amor, soprava um beijo e seguia em nossas órbitas, separadas, mas gravitando apaixonadamente em torno um do outro. Agora aqui estou eu, falando com esta máquina, talvez na triste esperança de que ele me possa ler...
Que ele leia então o final feliz de meu domingo: música boa, música pelo prazer da música, músicos numa "orgia" de entrega e admiração, se aplaudindo mutuamente, trocando instrumentos, fazendo duos, revelando seus "eus" antes da profissionalização, em despudorado exercício de paixão. E tudo isso grátis! Como não ser apaixonada pelo Rio? E pelo SESC?

Saturday, August 16, 2008

Quem é o fotógrafo dela?

Todas as manhãs o Globo se reparte em crimes e medalhas em meu hall de entrada. Eu folheio as páginas, quase sempre entediada, mas uma ou outra coisa chama minha atenção. Desta vez, foi o retrato da Marta Suplicy: duas imagens, a do cartaz da campanha política e a da política em campanha. Quem tirou aquele retrato da campanha? Quando? Ou aquilo se deve ao fotoshop?
Parabéns, dona Marta. Não contrate outro. O que ele fez foi melhor que a plástica.
Lembrei agora de uma outra obcecada por imagem: a Sissi. Minha amiga me contou a quem ela deve seu nome -- à Imperatriz! Uma menininha foi incumbida de entregar um ramo de rosas à bela esposa de Francisco José. Era a bisavó de minha amiga, que iniciou a tradição de dar, às primogênitas, o nome da Sissi. Olhando a bela Beth, julguei ver duas rosas daquelas entregues por sua bisavó, brilhando em sua face. Avalio a enorme impressão que a Sissi terá causado numa menininha na longínqua Alemanha, a ponto de, quase dois séculos mais tarde, reviver assim numa historinha contada com olhos brilhando e rubor no rosto aqui no Rio de Janeiro. Quantos nomes não são homenagens assim, sinceras e duradouras? Mesmo em minha família os nomes se repetem, homenageando antepassados. Eu devo meu nome ao meu tio avô, que o devia a seu pai, que por sua vez, o terá recebido em honra de algum parente, ou de amigo de seus pais, ou de alguma personagem de novela que estivesse sendo lida pela mãe. Nomes, finitos, que se tornam heranças quando as faces, retocadas ou não pelo fotoshop, já desapareceram.
Outra foto chamou minha atenção no Globo, a de um amigo, que acaba de publicar seu segundo romance, que estou lendo. Um painel de vidas pequenas que habitaram nosso país, mas que contam sua história mais verdadeira. Logo nas primeiras páginas, o que me chamou a atenção foram as belas descrições do Rio, descrições de quem é apaixonado pela cidade. Tenho, às vezes, inveja de quem não nasceu no Rio e pode sentir o deslumbramento da primeira chegada na cidade. Outro dia recebi uma coleção de slides feitas a partir das fotos de um fotógrafo alemão que veio ao Rio espionar e mandou a Alemanha às favas, apaixonado pela cidade e seus recantos. Cada um faz as declarações de amor que pode -- com palavras, com imagens, com gestos... Só não entendo como alguns fazem gestos de desamor que não são impedidos pelos cariocas mais fiéis. Como é que estamos sofrendo golpes constantes que destroem belezas, acabam com as vistas, destroçam vidas? Ia citar Shakespeare, mas esse post já está longo demais. Remeto vocês a Hamlet, ao velho "to be or not to be" -- e digo, com ele, que, se nos opusermos, faremos que o destino adverso cesse. E encerro, cantarolando a Marselhesa!