Wednesday, April 30, 2008
Louis XIV
Sunday, April 27, 2008
Heróica!
Descubro que um dos inconvenientes de viver sozinha é que a gente não precisa arrumar a casa quando não tem vontade e que depois, quando tem, a desarrumação é maior que qualquer vontade...
Descubro que a gente se acostuma com a solidão e não se importa mais quando o telefone não toca...
Resisto, porém.
Volto aos livros espalhados por toda a parte, procuro realizar um pouco de trabalho e estruturar meu tempo.
Friday, April 25, 2008
Aprendiz de sereia
Friday, April 18, 2008
véspera de viagem
Deixo vocês aguardando notícias, pois não vou levar computador nem celular. Cinco dias desligada de tudo, com alguns livros para ler, e um conto para terminar. É um bom programa, não acham?
Então, até a volta. Vou fazer minha mala, pois até agora só separei os livros e o chapéu. Borbulhas para todos!
Wednesday, April 16, 2008
Conversa de táxi
--Paulo.
Ele logo quis saber se eu tinha certeza, pois já que era ele quem passava sempre por ali, tinha uma espécie de "superioridade", direitos de uso-capião quanto ao nome. E me explicava:
--É Mena Barreto e Paula Barreto.
Geralmente não insisto, afinal, as placas de rua têm uma espécie de vida própria, independente de seus homenageados. Mas, desta vez, decidi lutar pelo meu querido João do Rio, e afirmei minha certeza, e ainda o brindei com o pseudônimo e mais algumas informações adicionais. Vencido, ele capitulou:
--É...pode ser...
Chegamos. Na esquina, a placa não me desmentia, e eu, educadamente, não tripudei. Apenas sorri e separei o dinheiro. Paguei, dispensei o troco, e já fechava a porta quando ele disse:
-- Sã e salva, na Paula Barreto.
Dei de ombros, pensando que o Paulo talvez ficasse mais contente sendo Paula, e imaginando o que o João não escreveria sobre isso.
Saturday, April 12, 2008
Conversa de bar
Wednesday, April 09, 2008
Que atraso!
Ah, esqueci de avisar que Histórias Possíveis está de volta. Não deixem de conferir as nossas historinhas!
Sunday, April 06, 2008
Prêmio SESC
Quando o SESC nos pediu para fazer fotos para essa chamada, o meu "irmão em SESC", o André de Leones, fez uma contra-proposta: um calendário de nus, com o Cremasco na capa. Achei que os ares de Paranaguá e as saudades de casa haviam avariado para sempre os miolos do rapaz, mas, depois, no decorrer da semana, fui assistir a um filme, Irina Palm, que me fez perceber que há gosto para tudo. E, se os homens podem fazer fila para transar com um buraquinho na parede, é porque somos muito mais complexos do que penso.
Aliás, estou lendo muitas coisas ao mesmo tempo que estão me fazendo pensar e refletir muito sobre solidão e sexo, e leitura. Hoje li As avós, de Doris Lessing e Desonra, do Coetzee. Duas amigas que dormem com os filhos uma da outra (essa triangulação aponta para outra coisa, eu sei), mas uma das passagens que me tocou foi quando um dos filhos, na cama com essa mulher mais velha, se recusa a aceitar a pele flácida de seus braços e lhe diz que ela não pode envelhecer com ele. Em Desonra, o professor universitário, pai de uma lésbica, ao falar da amante com a filha sente a luxúria percorrendo seu corpo --- o problema é que ele está sentado na cama da filha, que acabou de ser estuprada por três homens violentos e bárbaros. --- Na verdade, não é só isso que provoca o leitor: é o fato de que ele compara o corpo da amante com o da filha, e que inúmeras vezes ele fala da carne jovem, do corpo de carnes duras, da sensação corporal que o levou a apreciar tanto seu interlúdio amoroso com a jovem estudante.
Vou ter que ruminar muito essas histórias, para entender o que é que as tornaram tão desagradáveis para mim. Acho Coetzee um autor totalmente desagradável -- uma pessoa inconveniente, que insiste em temas que a sociedade prefere silenciar. Até aí tudo bem, isso é instigante, chamar-nos a refletir sobre as facetas escondidas, colocar o holofote sobre as coisas reprimidas de nossas vidas. O problema é que ele não sugere soluções nem caminhos. Na verdade, ele bloqueia as estradas e as soluções que possamos encontrar, e zomba de nós. Nos desmascara e segue indiferente e amoral, iconoclasta.
Barrocamente eu diria que Coetzee é um autor que amo detestar...
Voltando à Doris Lessing, ela é uma chata, que escreve bem. Lá nos EUA ela tem um grande fã clube, mas aposto que os leitores dela nunca aceitarão os livros de Coetzee, e vice-versa. Porque ela não quer fazer ninguém pensar, ou melhor, ela quer que pensem que é muito liberal, mas ela só conta situações, não há nenhuma reflexão. Seus personagens são tão verdadeiros quanto "as garotas-propaganda" de cerveja, de sorrisos, de remédios para emagrecer. New age. A vida dos semi-deuses.
Fiquemos com o Quixote, amigos: ele zomba dos leitores, mas é ele quem chama a atenção de que a aventura da literatura está na leitura, mais do que na escrita.
Tuesday, April 01, 2008
mentiras e verdades
Outro dia disse a um amigo que ele não devia confiar em ninguém com mais de trinta anos (alguém lembra da música?) principalmente se for, como eu, ficcionista. Acho que ele me levou a sério, mesmo eu tendo dito que não confiasse ... ah, essa minha literatura!
Deixo vocês aqui com a dúvida: o que há de verdade no que digo? O que há de verdade no que escutamos? Em quem confiar num mundo sem certezas?
Estamos começando o Quixote, em meu grupo das segundas -- um grande prazer. Este livro que tem dado de beber a tantos leitores, que espanta ainda hoje pela inteligência de sua ambigüidade. Adoro essa armação para a narrativa, a desautoria, e o igualar leitura com loucura. Todo leitor é um Quixote, pois o cavaleiro da Triste Figura é, antes de mais nada, um leitor.
Termino com uma frase de Dostoievski:
"Em Dom Quixote a verdade é salva por uma mentira."
Faz pensar, né?
Sunday, March 30, 2008
outra semana
Este Lunedi dell'Angelo, imagino que fosse, na Itália, o dia de devolver as asinhas angelicais usadas nas procissões de Páscoa. Uma nova procissão pelas ruas, desta vez sem a ordenação e solenidade das procissões santas. Asas de todas as cores se misturando, parando para tomar um sorvete, se já houvesse sol bastante, ou um último chocolate quente antes da primavera começar a aquecer. E, por cima das asinhas, chapéus de palha, com laços e flores, estalando de novos.
Ângelo quer dizer mensageiro. Talvez seja outra a razão deste dia.Talvez os anjos do senhor, ainda estonteados com os acontecimentos do fim de semana anterior, se tenham organizado numa passeata, informando a todos os mortais que a última chance havia sido dada. Agora as coisas, se não tomassem jeito, já não seriam mais responsabilidade do andar de cima...
Devaneios. Devaneios. O trabalho se acumula e eu, apática, devaneio. Meu corpo se rebela, me sinto adoecer. Olho para a folhinha, e sei que depois de amanhã vou ter que mudar a página, mudar o mês. Não quero seguir em frente, mas o sol continua sua marcha, indiferente.
Procuro, no meio dos papéis, uma anotação que tinha feito sobre os zumbis -- descubro que esses mortos-vivos tinham um sentido utilitário: eram chamados de volta à vida para realizar tarefas que ninguém queria realizar, escravizados até após a morte. Perdi. Sobra a lembrança do que li, e a sensação de que..., enfim, acho que estou ficando gripada.
Monday, March 24, 2008
A vida não pára
É, mas isso acabou. Na Bíblia conta-se um único caso de sol parado: no antigo testamento, aquele Deus belicoso resolveu mandar o sol parar para que seu general pudesse ganhar a batalha (Foi Josué, o general?). Nem mesmo a morte de seu único filho mereceu outra parada do sol. Mas nós, humanos, inconformados com a morte, tentamos fazer esse milagre de todos os modos, criando mundos de palavras que nos eternizem ou eternizem algum momento de nossas vidas ou de nossas fantasias. Eu me deleito com as leituras de autores que são capazes, com seus versos ou suas frases, de recriar um mundo que já passou. Estamos terminando A cidade e as serras, de Eça de Queiroz. Meu grupo está adorando a leitura, curtindo os personagens, rindo muito com o humor um pouco grosseiro do Eça. Eu, que já li este romance tantas vezes, ainda me encanto, como da primeira vez. Só que agora saboreio as coisas com mais detalhes, encontro prazeres que não tinha descoberto antes. Uma das coisas que me tem agradado muito nesta leitura é revisitar o mundo de Proust com olhos que, sem dúvida, seriam mais próximos dos meus, se eu tivesse a chance de viver naquele tempo. Rio um riso duplo, pois leio ali nas páginas "tudo o que lá não está", para citar outro de meus portugueses adorados.
A semana recomeça. Tivemos a paixão e a páscoa, hoje banalizada, afogada em chocolate. Tivemos aniversários e mortes, mesmo na festa da ressurreição. Eu continuo acordando cedo, dormindo em frente a TV, caminhando de um cômodo a outro até pousar na frente do computador e dar um pouco de vazão a todos os devaneios -- gosto desse nome pois ele me lembra como os pensamentos são vãos.
Então, ao trabalho. O sol continua sua volta, enviando neutrinos que nos transpassem. Os cientistas um dia descobrirão a função desses neutrinos em nossas vidas, mas nada mudará. Talvez as modas. Talvez nossa imagem nos espelhos. Talvez a vida na Terra se acabe antes que esse conhecimento chegue. Mas o sol, indiferente, vai continuar seu caminho, e continuar se pondo, para o encanto de muitos, nas encostas dos Dois Irmãos.
Friday, March 21, 2008
Nomes de amigos
E agora volto ao trabalho e às obrigações, com todo um séquito de amigos relembrados e muito amados.
Wednesday, March 19, 2008
Dias santos
No Rascunho desse mês, saiu publicado um conto de minha amiga Eugênia. Está lá no site do jornal, na seção Dom Casmurro. Ela escreve sobre Hermíone, filha de Helena de Tróia. Leiam, leiam!
E Marcelo me avisa, no seu blog Pentimento, sobre a Copa de Literatura: uma disputa de livros tão díspares quanto Rakushisha e Lugares que não conheço e Filho eterno. Li os três, e acho que vocês também deviam lê-los.
Aproveitem o feriado e coloquem as leituras em dia. É o que vou tentar fazer.
Sunday, March 16, 2008
Esqueci...
Divago. Ia contar que comecei a ler o Coetzee, apesar de ter tantas outras obrigações mais urgentes. Quem me conhece sabe que sempre fui assim: caio facilmente em tentações, e depois me torturo com prazos e tarefas que nunca deixo de cumprir, pois fui criada pela mais exigente de todas as mulheres: minha avó "vitoriana". Deve ser algum gene do inglês que foi o seu avô. Um inglês engenheiro, que veio construir estradas de ferro -- ou seriam minas? -- e que engendrou uma única filha, que por sua vez engendrou minha avó. Minha vó, de pele tão branca que parecia biscuit, mas tão macia que parecia feita de algodão, e de espírito tão rijo que parecia de ferro! Contrario as psicologias e afirmo, com todas as letras, que meu super-ego não tem uma representação masculina: meu super-ego é uma avó zangada, de sobrolho fechado, que me impede de deixar de fazer o que tenho que fazer. E, como ela já se manifestou aqui nestas palavras, também tomou conta de minha vontade, então largo tudo para cumprir meus deveres. Quando ela cochilar, eu volto.
Friday, March 14, 2008
aulas
É que ontem foi a "primeira aula de literatura da aluna Lúcia de Andrade"... Voltei a estudar, lá vou eu de novo... vocês sabem, aquela música do Chico. Mas não me senti tola, pelo contrário. Me senti bem, onde gosto de estar, com pessoas que amam o mesmo que eu, sentindo como se, após uma longa viagem, estivesse de volta à terra natal. É bem verdade que já não lembro de tudo, que esqueci alguns detalhes: nomes de ruas, lugares interessantes, ou seja, autores e teorias que costumava visitar com freqüência e de quem, depois de tantos anos de separação, já mal distingo as feições. Mas não importa. Folheio esse álbum de velhos retratos e vou reconhecendo os "parentes", e recebo a notícia do nascimento de outros. Foi assim que me falaram de Coetzee, com tanto entusiasmo, que tenho que refrear meus impulsos de ir para a primeira livraria e mergulhar logo na leitura de seus romances. Sossego, então, volto para o piano, e depois, só então, livraria, pois o fim-de-semana se promete chuvoso, propício a leituras.
Rio, baixinho, pensando -- se fosse ensolarado, também seria propício à leitura: quantas vezes já falei de meu prazer em ir ler na praia? Em casa, com chuva; na praia, com sol; no café, em dias nublados; outra vez em casa, nas lembranças dos dias de neve...Ler é bom quando se está sozinha, ou ao lado da pessoa amada. Quando se está triste ou quando estamos felizes. Tranqüiliza-nos quando temos medo, e nos incentiva quando desanimamos. Ler é muito bom, mesmo. E escrever também...
Tuesday, March 11, 2008
Duas leituras
"Uma coisa é aquilo que eu faço como profissão, que é a biologia, que me ocupa nove, dez horas por dia, e outra coisa é aquilo que faço porque acontece quase como uma doença que me ocorre, que me assalta. Não quero manter essa relação integral com a escrita. Não quero ser um escritor. Não sou daqueles escritores que dizem que se deixar de escrever, deixa de respirar, de viver. O que é vital para mim é ter uma relação criativa com as coisas, com os outros e posso fazer isso com várias outras coisas além da literatura."
Oh, céus! Entendo, compreendo e aplaudo, ao mesmo tempo que me assusto, me revolto, me indigno. Um dos melhores escritores em língua portuguesa dizendo que não quer ser um escritor! Como? Eu sei, a palavra escritor aí adquire outra conotação, mais para ofício que para aptidão, mas com que indiferença ele afirma que pode estabelecer uma relação criativa com as coisas sem ser através da literatura... Pode não, Mia. Pois aí você vai se transformar na pereira que quer frutificar em laranja... Não é este o teu destino!
Por falar em talento, a outra leitura é do primeiro romance do Flávio Izhaki, De cabeça baixa. Rio de Janeiro: Guarda-chuva, 2008.
Já falei aqui no romance, no trailer em que o próprio Flávio aparece de cabeça baixa, mas agora transcrevo aqui uma frase, pois acabo de ler o romance e quero compartilhar as delícias do cuidado com o texto e as imagens.
"Andar por aquelas ruas era como abrir arquivos de lembranças no cérebro. Um banco de concreto, uma história; uma esquina, um assalto que vira quando criança; um poste, duas mãos entrelaçadas que precisaram se separar por segundos, a sua mão e a de Luana."
Elegante e sucinto, em duas pinceladas conta-se uma história e acendem-se as dores das lembranças. O livro é muito bem escrito, e ousa escrever-se e ler-se ao mesmo tempo, num virtuosismo implacavelmente irônico.
Dia 25 de março, lançamento na Argumento. Todo mundo lá!
Monday, March 10, 2008
Medo de voar
Medo de voar
Lúcia Bettencourt
A curva jogou-a de encontro à janela do ônibus e ela estremeceu, olhando para a rua lá embaixo. O viaduto nunca lhe parecera tão alto.
O motorista continuava acelerando, aos arrancos, o motor ganindo, os freios rangendo a cada pisadela que impedia que o veículo se precipitasse sobre outros, igualmente impacientes, também disputando os espaços com agressividade.
Foi com alívio que viu a parada chegar e saltou do ônibus com pressa, antes mesmo de seu destino. Ainda era cedo, tinha tempo, podia andar, sentindo-se presa ao solo, sem a ameaça dos abismos e da velocidade. Atravessou a praça, esquivando-se entre as pessoas que hesitavam entre apressar-se para os empregos ou usufruir por mais alguns momentos a luz do sol, o frescor da manhã.
Todos ali, em suas roupas simples, dirigiam-se a trabalhos em cubículos fechados, em salas mal ventiladas. Poucos eram os felizardos que se encaminhavam para escritórios refrigerados. A maioria era como ela, trabalhando em antigos sobrados adaptados em oficinas, em depósitos, em pensões baratas, que enchiam o ar com seus odores de comida frita em óleo requentado, ou com seus cheiros químicos de solda, de desinfetante, de produtos vencidos.
Deu uma última olhada na praça mal cuidada. Uma flor raquítica resistia bravamente à poeira e ao calor. Flores e borboletas eram seus desenhos prediletos. Na fábrica de bijuterias onde trabalhava, escolhia sempre as miçangas e as contas mais coloridas, combinando-as de acordo com as lembranças de seus livros infantis. Borboletas de asas abertas, com desenhos repetidos de um lado e de outro, como imagens no espelho. Flores com sua simetria simples, pétalas que se repetiam iguais, como seus dias.
Subindo a escada de madeira, os rangidos embalavam seus pensamentos. Um dia, ela havia prometido ao pai, um dia ela teria o seu próprio jardim. Um dia , as flores que ela mesma semeasse seriam tão belas que atrairiam as borboletas, os besouros, os pássaros. O seu jardim seria uma festa de flores, pássaros e insetos voando, pousando apenas quando quisessem um novo alento para voar ainda mais alto.
Abriu a porta carregando um resto de sorriso no rosto sonhador. O patrão já estava curvado sobre a mesa, arames, fechos, instrumentos reluzindo sobre a mesa escura e manchada. O cheiro de poeira e química invadiu suas narinas e ela espirrou. Os colegas resmungaram suas saudações, se acomodando. O mais velho já enfiava as contas num fio longo, longo como o tempo. Uma mulher se dirigiu ao banheiro, encardido, no fundo da sala, e fechou a porta com estrondo.
No silêncio que se seguiu ela escutou um zumbido. Era uma borboleta, pequenina e ínfima, quase sem cor. Agoniada, ela se debatia contra a vidraça empoeirada. Suas asas não tinham desenhos, era uma simples borboleta amarela, desbotada e infeliz. Seu desejo era escapar-se dali e voar. Sair do sobrado sufocante e aventurar-se, à procura de uma flor, que poderia ser humilde e esquálida como ela, mas que seria seu destino.
Vencendo o medo de altura, Fabiana se aproximou da janela. Estava no quinto andar. Dois lances abaixo, o toldo mofado da pensão diminuía a sensação de altura que a deixava imobilizada sempre que chegava próximo a uma janela. Somente a piedade que sentia pela borboleta descorada é que a levou até a janela emperrada e a colocou de pé, braços abertos, forçando madeiras e vidraças, como se estivesse pronta para voar.
Escutou o ruído do maçarico sendo aceso. O trabalho começava mais cedo naquela manhã, pois ainda não eram oito horas. A vidraça cedeu e a borboleta lançou-se no ar, sem titubear. Fabiana sentiu-se enternizar naquela postura. Os braços abertos acima da cabeça, esticados como os de uma mergulhadora, o corpo projetando-se para a frente. Ela não entendia como estava no ar, fora do sobrado, voando. À sua frente, a borboleta fazia acrobacias, demonstrando perícia e habilidade. Seus olhos se abriam, desmesurados, para o espaço. Quis soltar um grito, mas a voz ficou presa na garganta, e pelos seus lábios só saiu um gemido, como nos pesadelos. Mesmo que tivesse gritado, ninguém a escutaria, os sons abafados pelo barulho de uma explosão, e pelo crepitar do fogo que queimava, indiferente, madeira e carne, plástico e vida.
Ficou ainda um instante sobre o toldo que interrompera sua queda. Aos poucos ligou o som do maçarico, o barulho da explosão, seu vôo, e a borboleta. Uma chuva de fuligem começava a cair. Fabiana se levantou, arrastou-se como pode até escapar dali. Na rua, seu rosto sujo molhou-se de lágrimas. Foi abraçada por estranhos, beijada por conhecidos. Alguém lhe ofereceu um pouco d’água num copo de plástico tão fino que tinha dificuldade em manter sua forma de copo. Ela tomou-o nas mãos e foi para o meio da praça. Despejou-o no canteiro, ao redor da flor, visitando-a como uma borboleta às avessas.
Nunca mais teria medo de voar.
Igrejas, tintas e devaneios
Igreja é coisa de rico, que pode pagar para os artistas comporem músicas, esculpirem imagens, pintarem telas e tetos, encontrar os artesãos para cobrir com folhas de ouro os entalhes de madeira e transformar o terrestre em divino, ou seja, o possível em impossível. Entrar numa Igreja deve provocar duas reações: a do rico deve ser a admiração e o desejo urgente de associar seu nome a uma nova maravilha nem que para isso tenha que se separar de seus preciosos milhões; a do pobre deve ser de tal encantamento que passem a encarar seus males como secundários. Quando o pobre vai à Igreja imbuído de sentido prático -- para comer, se abrigar da chuva ou raspar um pouco das folhinhas de ouro para pagar uma consulta médica, aí começa a revolução e o declínio daquela beleza.
Mas, o que eu ia mesmo falar era outra coisa: antes de ir à Igreja, li o jornal, e nele encontrei um anúncio de uma tinta corporal, feita com chocolate. É a segunda vez que me deparo com essa tinta. A primeira vez foi em Londres, pilhas e pilhas arrumadas na entrada da Harrod's, banhadas pela luz que deixava aquela tentação dupla ainda mais apetecível. Não comprei. E, lógico, me arrependi de ter deixado toda aquela maravilha para uma pessoa mais ousada e livre que eu desfrutar. Agora também não vou comprar, por mero desinteresse. Mas não deixo de pensar na arte corporal, muito mais suave que a agressiva tatuagem, que poderá alegrar os compradores da tinta. Conclamo os escritores e os artistas plásticos a não deixarem passar esta oportunidade. Talvez seja esta a chance de criar sua obra-prima. Experimentem. Renovem suas catedrais...
Saturday, March 08, 2008
Passou
--Já passou. Obrigada.
Friday, March 07, 2008
Tire o seu sorriso do caminho....
O dia hoje é difícil, dificílimo.
Já foi o dia mais feliz do ano, eu costumava acordar entusiasmada, querendo ser a primeira a dar os parabéns ao meu amor. E ria, sem entender a contrariedade dele, tão relutante em envelhecer. E ele nunca chegou a envelhecer. Quando ele se foi, mantinha ainda um jeito de garoto, os cabelos intatos, e fazia planos para o futuro.
Mas outras pessoas sorriem em meu caminho, uma delas é o Flávio, que está lançando seu primeiro romance. Vejam em:www.decabecabaixa.wordpress.com
Um trailer de livro, vejam só que bacana. Vejam o trailer e comprem o livro!