Wednesday, April 30, 2008

Louis XIV

Desconfio que o afamado Rei-Sol andou por aqui pelo Rio ontem e disse sua famosa frase: "Depois de mim, o dilúvio." Ontem tivemos sol, um dia dourado, lindo. Hoje o dilúvio chegou, e levou nossa paisagem carioca. Não se vê o mar, não se vêem as montanhas, as ruas estão alagadas, a chuva se despeja com força. Lembro do livro do Hatoum, que acabei de ler: Órfãos do Eldorado. Na palestra que ele fez aqui na Travessa, ele disse que se inspirou num ensaio de Viveiros de Castro, A inconstância da alma selvagem, e penso que esta inconstância pode ser devida ao clima. Imaginem esses índios, que vão dormir numa tarde de verão e acordam num dia de inverno. Claro que eles têm que ter uma alma inconstante, protéica, capaz de se adaptar e de sobreviver no inesperado. Na verdade, acho que alma é uma coisa inconstante por definição. Como é a representação que fazem dela? Uma névoa, uma fumacinha -- portanto, uma coisa fugaz, que se desfaz com a brisa, e se reconstitui mais adiante sob outra forma, com um novo desenho, como um novo sonho. Mas não era disso que eu queria falar. Queria comentar os comentários que recebi dos amigos -- do Dante, da Eugênia e da Bela. Eugênia e Bela, solidárias, me oferecem conforto. E me fazem pensar que passamos nossa vida correndo atrás de prazos e de tarefas mas que no fundo, a gente gosta mesmo disso. No dia que os prazos se dilatam, que as tarefas acabam, vem uma sensação de vazio horrível. Uma opressão. Comparável apenas ao que se pode sentir se, como no comentário do Dante, se desconectar o tubo de ar embaixo d'água. Digo isso porque minha primeira reação, ao iniciar o mergulho, foi de pavor. Mal enfiei a cabeça dentro d'água, comecei a sufocar e achei que não iria realizar o mergulho que tinha tanta vontade de fazer. Fora d'água, os aparelhos eram uma fantasia. Dentro, eram meus pulmões. O instinto falou mais alto do que o sonho, do que o desejo e eu percebi como a gente reage frente à possibilidade da morte: com um grande desconforto. Não é medo, é um desconforto que nos impediria, uma vez o tubo desconectado, de nos deixarmos levar pela corrente sem nos debatermos angustiados. Há de haver algum meio de morrer que seja assim, suave, apenas a perda da consciência e a dissolução na paisagem. Mas afogado não é. Ânimo! Esta é a única vida que temos, vamos vivê-la da melhor maneira que conseguirmos.

Sunday, April 27, 2008

Heróica!

Não, não se trata aqui da famosa sinfonia de Beethoven. Heróica sou eu, que resisto ao sol deste domingo e fico em casa, sozinha, tentando colocar um pouco de ordem na casa e fazer um pouco de trabalho atrasado...
Descubro que um dos inconvenientes de viver sozinha é que a gente não precisa arrumar a casa quando não tem vontade e que depois, quando tem, a desarrumação é maior que qualquer vontade...
Descubro que a gente se acostuma com a solidão e não se importa mais quando o telefone não toca...
Resisto, porém.
Volto aos livros espalhados por toda a parte, procuro realizar um pouco de trabalho e estruturar meu tempo.

Friday, April 25, 2008

Aprendiz de sereia

Imaginem uma ilha de lindos contornos, a quatro graus sul do Equador, habitada por pássaros e peixes, rodeada de águas tépidas e transparentes... Foi lá onde fui fazer meu treinamento para sereia. Noites de lua cheia e de muitas estrelas pareciam anunciar os céus azuis e o sol equatorial, intenso e inclemente. Netuno, porém, tinha outros planos. Chamou seu filho Éolo, guardião dos ventos, e cobriu a ilha com um manto de nuvens, lavou-a com chuvas fortes e impediu que minha dermatologista ficasse rica. Salvei minha pele, e me diverti na mesma. O clima não atrapalhou as belezas que estavam, em sua maioria, no fundo do mar. Nem tão ao fundo, ali mesmo na beira da praia, as tartarugas e arraias, os peixes coloridos e curiosos nadavam e nos convidavam para entrar nas águas morninhas, salgadas e incrivelmente transparentes. Passeamos de barco, de buggy, nadamos no raso, nadamos no fundo, nadamos embaixo d'água, e nadamos em terra, lavados pela chuva e pela lama. Encontramos lagartos enormes e pequenas lagartixas, admiramos pássaros que voavam para deleitar nossos olhos com seu balé, e outros que se escondiam nas ramagens para cantar a sinfonia da ilha. Os pontos altos foram tantos que mais parecem um planalto: tudo que fizemos nos pareceu especial. O passeio de barco pelo mar de dentro, acompanhado por golfinhos brincalhões e exibidos; o incrível rugido de leão numa caverna invadida pelas ondas; boiar de acquaplana, as pranchinhas de acrílico transparente, puxadas atrás do barco por um longo caminho -- atividade que não só diverte os olhos mas que ainda propicia uma excelente hidromassagem. A lista não termina aqui. Os mergulhos com snorkel nas praias, cada uma revelando um atrativo diferente; a fila para mergulhar na Atalaia, um aquário de pouca profundidade e de infinitos peixes; a peregrinação a todos os mirantes da ilha, cada qual revelando uma paisagem mais bela; a onipresença do morro do Pico, visível de todos os pontos da ilha, mas desenhando-se de forma diferente a cada ponto de observação. Guardei para o final nossa tarde de scuba-diving, que nos exigiu coragem mas nos premiou com êxtase. Fomos a treze metros de profundidade, nadamos no meio dos cardumes dos peixes encantadores, olhamos a moreia entocada, que parecia nos ameaçar abrindo e fechando a boca, sua maneira de respirar. Vimos polvos, tartarugas, arraias de dois tipos diferentes, peixes diminutos, peixes enormes, um deles chegou até a beijar minha boca, talvez pensando que eu fosse uma sereia encantada... Para minha tristeza, não sou. Tive que subir de volta ao barco, e no dia seguinte só meu lábio inchado provava que o beijo não tinha sido um sonho. Um último passeio, nas esculturas ao ar livre em frente ao museu dos tubarões, me permitiu tirar um retrato com cauda de sereia. Fiquei com esse consolo.

Friday, April 18, 2008

véspera de viagem

Estou de partida, em menos de seis horas saio rumo a Fernando de Noronha. Há muito não ficava tão animada com uma viagem. Bem, confesso que também me animei para ir a Passo Fundo, em agosto do ano passado. E que este ano também estou entusiasmada com a Flip. Gosto destas viagens com destinos "literários", pois sei que vou encontrar a "minha turma", gente que ama as mesmas coisas que eu. Fernando de Noronha é diferente: é encantamento, uma promessa de um mundo de belezas quase intocadas, de encontros com peixes fantásticos, com um mar ainda límpido, placentário. Acho que vou adorar tudo.
Deixo vocês aguardando notícias, pois não vou levar computador nem celular. Cinco dias desligada de tudo, com alguns livros para ler, e um conto para terminar. É um bom programa, não acham?
Então, até a volta. Vou fazer minha mala, pois até agora só separei os livros e o chapéu. Borbulhas para todos!

Wednesday, April 16, 2008

Conversa de táxi

Não há uma vez que se entre num táxi que o motorista não tente começar uma conversa. Eu sempre converso, pois imagino como não deve ser passar o dia todo calado, principalmente quando se tem todas aquelas horas no trânsito dedicadas à reflexão. Assim sendo, já escutei excelentes idéias para diminuir os engarrafamentos, recebi numerosas receitas de repelentes naturais, já escutei grandes discursos contra o governo, alguns poucos em defesa do governo, e, por minha vez, já contei algumas histórias, invariavelmente ligadas a ruas cujos nomes são de escritores. Uma delas começou quando o motorista me perguntou se podia entrar na Paula Barreto e eu o corrigi:
--Paulo.
Ele logo quis saber se eu tinha certeza, pois já que era ele quem passava sempre por ali, tinha uma espécie de "superioridade", direitos de uso-capião quanto ao nome. E me explicava:
--É Mena Barreto e Paula Barreto.
Geralmente não insisto, afinal, as placas de rua têm uma espécie de vida própria, independente de seus homenageados. Mas, desta vez, decidi lutar pelo meu querido João do Rio, e afirmei minha certeza, e ainda o brindei com o pseudônimo e mais algumas informações adicionais. Vencido, ele capitulou:
--É...pode ser...
Chegamos. Na esquina, a placa não me desmentia, e eu, educadamente, não tripudei. Apenas sorri e separei o dinheiro. Paguei, dispensei o troco, e já fechava a porta quando ele disse:
-- Sã e salva, na Paula Barreto.
Dei de ombros, pensando que o Paulo talvez ficasse mais contente sendo Paula, e imaginando o que o João não escreveria sobre isso.

Saturday, April 12, 2008

Conversa de bar

Sexta-feira à noite, depois de uma semana carregada, muitos afazeres, muita dor de cabeça, corpo e mente cansados --- salvei-me com um convite para papear num bar. Até chopp tomei, acreditem se puderem. Tomei um chopp pequenininho, escurinho, cheio de espuma, parecendo um capucino: não foi mal. Tanto não foi que repeti. Meu projeto de "menina má" vai se consolidando. Já os outros projetos mais sérios vão se atropelando, se embolando, enquanto os livros se multiplicam à minha volta. Mas adorei o papo, escutei boas histórias, relembrei coisas, ri bastante, falei dos livros que estou lendo, soube de coisas boas que estão acontecendo pela cidade, comentamos o delicioso Carnaval do Recife... Foi uma noite adorável e queria agradecer aqui aos amigos que a compartilharam comigo. Mil idéias surgiram, para projetos e histórias, que talvez um dia se concretizem. Como faz bem uma pausa assim. E como é bom ter amigos. Obrigada, gente.

Wednesday, April 09, 2008

Que atraso!

Hoje percebi que não tinha visto ainda os comentários das últimas postagens. Parabéns, Vera Helena! Desculpe o atraso. Não tinha lido os comentários de Eugênia e de Guido, nem agradecido minha nova leitora, a Bela. Ultimamente (ou seria sempre?) parece que o tempo me escapa, estou sempre atrasada, sempre com a sensação de que deixei de fazer alguma coisa. Olho à minha volta e vejo os livros que se multiplicaram e já invadiram minha mesa de jantar, lembro-me de Cortázar, com a Casa tomada. Lógico que os livros não são essa ameaça autoritária, pelo contrário, são amigos, mas amigos exigentes, que reclamam: Leia-nos ou te devoramos, venha para nosso mundo de fantasia, esqueça as tuas dores e chore as nossas, abdique dos teus prazeres e viva os nossos...E eu cedo, entrego a eles os meus dias, meus devaneios. Carrego-os em meus braços, acomodando sempre mais um. Mesmo quando me fazem sofrer, como os livros de Coetzee, eu os acolho, e eles vivem em meus pensamentos. Não admira que não encontre tempo para ir ao médico, para ir ao dentista, para ir ao cinema, para sair com amigos. Nem minhas lições de piano tenho feito direito, e logo agora, quando já estou tocando alguma notinhas de Beethoven e outras de Brahms. Ah, queria tanto fazê-las soar lindamente, mas me atrapalho, me confundo, tenho medo de desanimar meu professor. Tenho que praticar todos os acordes (aliás, quem foi que outro dia disse no jornal que estava gostando mais de acordes que de mulher? Foi um músico desses conhecidos.) mas na hora de combiná-los com a melodia, não consigo. Mas continuarei. No fim do ano convido a todos para uma audição, nem que seja no You Tube.
Ah, esqueci de avisar que Histórias Possíveis está de volta. Não deixem de conferir as nossas historinhas!

Sunday, April 06, 2008

Prêmio SESC

Meu querido editor, o renomado Sr. Pereira, acaba de me avisar que, este mês, saio como "garota propaganda do prêmio SESC" no jornal Racunho que vai para as bancas amanhã. Espero não afugentar os candidatos.
Quando o SESC nos pediu para fazer fotos para essa chamada, o meu "irmão em SESC", o André de Leones, fez uma contra-proposta: um calendário de nus, com o Cremasco na capa. Achei que os ares de Paranaguá e as saudades de casa haviam avariado para sempre os miolos do rapaz, mas, depois, no decorrer da semana, fui assistir a um filme, Irina Palm, que me fez perceber que há gosto para tudo. E, se os homens podem fazer fila para transar com um buraquinho na parede, é porque somos muito mais complexos do que penso.
Aliás, estou lendo muitas coisas ao mesmo tempo que estão me fazendo pensar e refletir muito sobre solidão e sexo, e leitura. Hoje li As avós, de Doris Lessing e Desonra, do Coetzee. Duas amigas que dormem com os filhos uma da outra (essa triangulação aponta para outra coisa, eu sei), mas uma das passagens que me tocou foi quando um dos filhos, na cama com essa mulher mais velha, se recusa a aceitar a pele flácida de seus braços e lhe diz que ela não pode envelhecer com ele. Em Desonra, o professor universitário, pai de uma lésbica, ao falar da amante com a filha sente a luxúria percorrendo seu corpo --- o problema é que ele está sentado na cama da filha, que acabou de ser estuprada por três homens violentos e bárbaros. --- Na verdade, não é só isso que provoca o leitor: é o fato de que ele compara o corpo da amante com o da filha, e que inúmeras vezes ele fala da carne jovem, do corpo de carnes duras, da sensação corporal que o levou a apreciar tanto seu interlúdio amoroso com a jovem estudante.
Vou ter que ruminar muito essas histórias, para entender o que é que as tornaram tão desagradáveis para mim. Acho Coetzee um autor totalmente desagradável -- uma pessoa inconveniente, que insiste em temas que a sociedade prefere silenciar. Até aí tudo bem, isso é instigante, chamar-nos a refletir sobre as facetas escondidas, colocar o holofote sobre as coisas reprimidas de nossas vidas. O problema é que ele não sugere soluções nem caminhos. Na verdade, ele bloqueia as estradas e as soluções que possamos encontrar, e zomba de nós. Nos desmascara e segue indiferente e amoral, iconoclasta.
Barrocamente eu diria que Coetzee é um autor que amo detestar...
Voltando à Doris Lessing, ela é uma chata, que escreve bem. Lá nos EUA ela tem um grande fã clube, mas aposto que os leitores dela nunca aceitarão os livros de Coetzee, e vice-versa. Porque ela não quer fazer ninguém pensar, ou melhor, ela quer que pensem que é muito liberal, mas ela só conta situações, não há nenhuma reflexão. Seus personagens são tão verdadeiros quanto "as garotas-propaganda" de cerveja, de sorrisos, de remédios para emagrecer. New age. A vida dos semi-deuses.
Fiquemos com o Quixote, amigos: ele zomba dos leitores, mas é ele quem chama a atenção de que a aventura da literatura está na leitura, mais do que na escrita.

Tuesday, April 01, 2008

mentiras e verdades

Hoje é o dia da mentira, e vou inventar algumas, viver outras, escutar, reproduzir, emendar...como faço todos os dias do ano. Nossas vidas estão permeadas pelas mentiras, umas mentirinhas suaves, que alcolchoam nossas palavras mais rudes, nossos sentimentos mais mesquinhos. No entanto, me considero uma pessoa sincera. Sou sincera na minha paixão por literatura, sincera nas minhas amizades, sincera nos meus desencantos. Sou medrosa, tenho muito receio de me ferir, não fisicamente, receio ferir sentimentos e ter os meus dilacerados. Fico, então, me protegendo atrás de silêncios, de ausências, de palavras caladas. Muitas vezes estou desesperada, sangrando por dentro, mas faço uma carinha risonha, um sorrisinho simpático e vou à luta, pois sei que nada cansa mais aos outros do que a infelicidade estampada nos rostos dos outros. Deixo esse meu eu ferido emboladinho debaixo da cama, numa trouxinha, num lugar bem escuro e seguro. Para a rua vai a mulher capaz de rir de si mesma, que não reclama das desatenções, que é divertida e não exige nada de ninguém. Só me assusto quando vou olhar aquele embrulhinho debaixo da cama e percebo que está crescendo...
Outro dia disse a um amigo que ele não devia confiar em ninguém com mais de trinta anos (alguém lembra da música?) principalmente se for, como eu, ficcionista. Acho que ele me levou a sério, mesmo eu tendo dito que não confiasse ... ah, essa minha literatura!
Deixo vocês aqui com a dúvida: o que há de verdade no que digo? O que há de verdade no que escutamos? Em quem confiar num mundo sem certezas?
Estamos começando o Quixote, em meu grupo das segundas -- um grande prazer. Este livro que tem dado de beber a tantos leitores, que espanta ainda hoje pela inteligência de sua ambigüidade. Adoro essa armação para a narrativa, a desautoria, e o igualar leitura com loucura. Todo leitor é um Quixote, pois o cavaleiro da Triste Figura é, antes de mais nada, um leitor.
Termino com uma frase de Dostoievski:
"Em Dom Quixote a verdade é salva por uma mentira."
Faz pensar, né?

Sunday, March 30, 2008

outra semana

Pois é. A vida não parou e chegamos em outra semana, sem que eu tivesse tempo para falar de uma coisa que me escapou na segunda passada. Era a segunda do anjo, me diz o calendário (Lunedi dell'Angelo), e eu desconhecia esta gracinha de dia. Alguém aí sabia disso? Uma vez fui surpreendida com o Boxing Day, na Inglaterra. Fui passar o Natal lá sem saber que a tradição havia instituído um feriado acho que da época vitoriana. Os criados, depois de passarem o Natal trabalhando nas casas das famílias mais abastadas, recebiam esse dia de folga, ganhavam seus presentes (provavelmente de segunda-mão: os brinquedos e roupas velhas para desocupar espaço nos armários, com certeza), colocavam-nos em caixas (boxes) e saíam pelas ruas carregando-as. Provavelmente a pé, pois os trens param de circular nesse dia, todas as lojas fecham, estar na Inglaterra neste dia só é bom se você estiver a fim de fazer retiro espiritual. Eu estava em Cobham-Surrey, com um carro onde não cabia toda a minha família, sem nada para fazer, nem comida tínhamos. O que nos salvou foi uma loja de conveniência num posto de gasolina, numa auto-estrada que nos levou a nenhum lugar, pois não aguentamos por muito tempo a falta de espaço.
Este Lunedi dell'Angelo, imagino que fosse, na Itália, o dia de devolver as asinhas angelicais usadas nas procissões de Páscoa. Uma nova procissão pelas ruas, desta vez sem a ordenação e solenidade das procissões santas. Asas de todas as cores se misturando, parando para tomar um sorvete, se já houvesse sol bastante, ou um último chocolate quente antes da primavera começar a aquecer. E, por cima das asinhas, chapéus de palha, com laços e flores, estalando de novos.
Ângelo quer dizer mensageiro. Talvez seja outra a razão deste dia.Talvez os anjos do senhor, ainda estonteados com os acontecimentos do fim de semana anterior, se tenham organizado numa passeata, informando a todos os mortais que a última chance havia sido dada. Agora as coisas, se não tomassem jeito, já não seriam mais responsabilidade do andar de cima...
Devaneios. Devaneios. O trabalho se acumula e eu, apática, devaneio. Meu corpo se rebela, me sinto adoecer. Olho para a folhinha, e sei que depois de amanhã vou ter que mudar a página, mudar o mês. Não quero seguir em frente, mas o sol continua sua marcha, indiferente.
Procuro, no meio dos papéis, uma anotação que tinha feito sobre os zumbis -- descubro que esses mortos-vivos tinham um sentido utilitário: eram chamados de volta à vida para realizar tarefas que ninguém queria realizar, escravizados até após a morte. Perdi. Sobra a lembrança do que li, e a sensação de que..., enfim, acho que estou ficando gripada.

Monday, March 24, 2008

A vida não pára

Os dias se sucedem, com regularidade. Não importa o atentado em Persépolis ou a tragédia pessoal. O sol se levanta, um pouco mais para a direita ou para a esquerda, conforme a época do ano, e se põe, como uma peça de engrenagem. Saudades do tempo em que o carro do sol era levado por um deus grego, tão próximo de seus fiéis. Era assim que ele "emprestava a chave do carro" para o filho mimado, ou se demorava, a fim de namorar um pouquinho. E havia sempre o perigo de que aquele deus, temperamental como todos os deuses, resolvesse que não cumpriria sua tarefa, ou que sua carruagem quebrasse, ou que um de seus corcéis machucasse uma pata... Os seres humanos deviam estar sempre atentos, e agradecidos.
É, mas isso acabou. Na Bíblia conta-se um único caso de sol parado: no antigo testamento, aquele Deus belicoso resolveu mandar o sol parar para que seu general pudesse ganhar a batalha (Foi Josué, o general?). Nem mesmo a morte de seu único filho mereceu outra parada do sol. Mas nós, humanos, inconformados com a morte, tentamos fazer esse milagre de todos os modos, criando mundos de palavras que nos eternizem ou eternizem algum momento de nossas vidas ou de nossas fantasias. Eu me deleito com as leituras de autores que são capazes, com seus versos ou suas frases, de recriar um mundo que já passou. Estamos terminando A cidade e as serras, de Eça de Queiroz. Meu grupo está adorando a leitura, curtindo os personagens, rindo muito com o humor um pouco grosseiro do Eça. Eu, que já li este romance tantas vezes, ainda me encanto, como da primeira vez. Só que agora saboreio as coisas com mais detalhes, encontro prazeres que não tinha descoberto antes. Uma das coisas que me tem agradado muito nesta leitura é revisitar o mundo de Proust com olhos que, sem dúvida, seriam mais próximos dos meus, se eu tivesse a chance de viver naquele tempo. Rio um riso duplo, pois leio ali nas páginas "tudo o que lá não está", para citar outro de meus portugueses adorados.
A semana recomeça. Tivemos a paixão e a páscoa, hoje banalizada, afogada em chocolate. Tivemos aniversários e mortes, mesmo na festa da ressurreição. Eu continuo acordando cedo, dormindo em frente a TV, caminhando de um cômodo a outro até pousar na frente do computador e dar um pouco de vazão a todos os devaneios -- gosto desse nome pois ele me lembra como os pensamentos são vãos.
Então, ao trabalho. O sol continua sua volta, enviando neutrinos que nos transpassem. Os cientistas um dia descobrirão a função desses neutrinos em nossas vidas, mas nada mudará. Talvez as modas. Talvez nossa imagem nos espelhos. Talvez a vida na Terra se acabe antes que esse conhecimento chegue. Mas o sol, indiferente, vai continuar seu caminho, e continuar se pondo, para o encanto de muitos, nas encostas dos Dois Irmãos.

Friday, March 21, 2008

Nomes de amigos

Divagações -- sempre que tenho muitas coisas importantes para fazer parece que meu cérebro entra em curto-circuito e fico divagando, adiando a hora do trabalho. Assim é que me sento aqui e, ao invés de tratar de todas as urgências resolvo escrever sobre o nome de meus amigos. Mas é que muitos têm nomes interessantes -- Um tem nome de navegante, de desbravador de mundos exóticos. Outro tem nome de personagem de Dante. Outro tem nome de ave. Outro é homônimo de um autor famoso. Outro tem nome de rua. E por aí vai. As amigas não. Várias são minhas xarás, convivo com muitas Lúcias e Anas Lúcias e Lúcias Marias ou Marias Lúcias. Uma única Vera Lúcia. As Marias são legião. São poucas as amigas com nomes mais exóticos. Conheci uma Betise, que graças a Deus não era francesa, e não deve ter sofrido por causa de seu nome. Tenho amigas que evocam mitos e lendas em seus nomes, outras que evocam as musas famosas de poetas antigos. Tenho amigas de nomes bíblicos. Tenho amigas que são genuínas estrelas. Conheço, apenas conheço, uma fada -- mas como ser amiga de uma fada? E tenho uma vaga amizade com uma que tem nome de heroína da pátria, ou de rua em Ipanema. Conheci uma cujo nome era sobrenome: "Neiva". Muitas são rainhas no nome. Outra é bem nascida e o proclama em seu nome. Outra tem nome de companhia de engenharia... Todo esse parágrafo para dizer que costumo sonhar ao lembrar de cada um dos amigos e amigas, mesmo aqueles que já não são tão amigos, aqueles que pensam que já saíram de minhas lembranças. Relembro e tomo seus nomes entre os dedos de minha imaginação, examinando-os e fazendo-os brilhar como um prisma encantador. Às vezes me pergunto o quanto me deixo fascinar pelos nomes deles, e se isso influencia o meu gostar. Talvez. Sei que não posso deixar de sonhar com Veneza quando lembro de um. Que sinto o cheiro do mar quando falo com outro. Que recito versos baixinho quando telefono para uma. Que cubro (metaforicamente) a cabeça, ao encontrar com outra.
E agora volto ao trabalho e às obrigações, com todo um séquito de amigos relembrados e muito amados.

Wednesday, March 19, 2008

Dias santos

Escrevi um post altamente confessional e apaguei tudo. Acho que esta época, com a obrigação cristã de confessar e de comungar, me fez baixar um pouco a guarda. Depois lembrei que minhas memórias não teriam interesse para ninguém, apaguei sem dó nem piedade minha reflexão sobre os dogmas da Igreja e agora estou aqui, só para lembrar dos santos da ocasião: São Patrício, no dia 17 e, hoje, São José. Há uma linda música, que costumava escutar na voz de Nana Mouskouri, acho que se chama Josef. Era cantada em francês, e falava do homem bom e compreensivo que São José foi. Não faz muito tempo, foi agora no Natal passado, que vi uma peça infantil onde se cantava essa música. Então, meu bom José, proteja-nos a todos. Um bom pai que nos guie, um marido que nos compreenda e ampare, se os homens soubessem o bem que isso faz, todos se esforçariam mais um pouco.
No Rascunho desse mês, saiu publicado um conto de minha amiga Eugênia. Está lá no site do jornal, na seção Dom Casmurro. Ela escreve sobre Hermíone, filha de Helena de Tróia. Leiam, leiam!
E Marcelo me avisa, no seu blog Pentimento, sobre a Copa de Literatura: uma disputa de livros tão díspares quanto Rakushisha e Lugares que não conheço e Filho eterno. Li os três, e acho que vocês também deviam lê-los.
Aproveitem o feriado e coloquem as leituras em dia. É o que vou tentar fazer.

Sunday, March 16, 2008

Esqueci...

Tinha um título para começar a escrever. Desde ontem tinha escolhido um título para esta postagem, mas, como não tive tempo de escrever, como a vida se desenrolou seguindo outro traçado, esqueci. Porém o esquecimento nunca é inteiramente ruim -- Uma amiga, a Mira, sempre dizia que a função primordial da memória era esquecer -- se não fôssemos capazes de esquecer, não seríamos capazes de aprender. Pode parecer um paradoxo, mas a Mira era médica e sabia o que dizia. Precisamos dar lugar a novos "arquivos" e, se não esquecemos o que é supérfluo, não teremos lugar para o importante. Na verdade, esquecer é diferente de apagar. Apagar por completo, nunca apagamos. Mudamos de "gaveta", os nossos arquivos. Ou, seja, tiramos aquela lembrança da gaveta que usamos toda hora e a colocamos numa gaveta emperrada, que quase nunca abrimos, pois está trancada a chave. Assim podemos explicar doenças como a de Alzheimer, em que os pacientes trancam as gavetas das lembranças necessárias e abrem as do passado, abrem até aquelas cujas chaves ficavam no inconsciente... Já não se reconhecem os filhos, mas os pais, há tanto tempo mortos. Os impulsos reprimidos, os desejos recalcados se liberam mas as palavras mais sofisticadas se escondem, as noções de matemática se emperram e os números são olhados como ilustrações nada criativas, que se repetem na sua monotonia de formas finitas...
Divago. Ia contar que comecei a ler o Coetzee, apesar de ter tantas outras obrigações mais urgentes. Quem me conhece sabe que sempre fui assim: caio facilmente em tentações, e depois me torturo com prazos e tarefas que nunca deixo de cumprir, pois fui criada pela mais exigente de todas as mulheres: minha avó "vitoriana". Deve ser algum gene do inglês que foi o seu avô. Um inglês engenheiro, que veio construir estradas de ferro -- ou seriam minas? -- e que engendrou uma única filha, que por sua vez engendrou minha avó. Minha vó, de pele tão branca que parecia biscuit, mas tão macia que parecia feita de algodão, e de espírito tão rijo que parecia de ferro! Contrario as psicologias e afirmo, com todas as letras, que meu super-ego não tem uma representação masculina: meu super-ego é uma avó zangada, de sobrolho fechado, que me impede de deixar de fazer o que tenho que fazer. E, como ela já se manifestou aqui nestas palavras, também tomou conta de minha vontade, então largo tudo para cumprir meus deveres. Quando ela cochilar, eu volto.

Friday, March 14, 2008

aulas

Sexta-feira, dia de aula de piano e eu aqui, ao invés de estar martelando o pobre do teclado musical, faço escalas literárias aqui no blog.
É que ontem foi a "primeira aula de literatura da aluna Lúcia de Andrade"... Voltei a estudar, lá vou eu de novo... vocês sabem, aquela música do Chico. Mas não me senti tola, pelo contrário. Me senti bem, onde gosto de estar, com pessoas que amam o mesmo que eu, sentindo como se, após uma longa viagem, estivesse de volta à terra natal. É bem verdade que já não lembro de tudo, que esqueci alguns detalhes: nomes de ruas, lugares interessantes, ou seja, autores e teorias que costumava visitar com freqüência e de quem, depois de tantos anos de separação, já mal distingo as feições. Mas não importa. Folheio esse álbum de velhos retratos e vou reconhecendo os "parentes", e recebo a notícia do nascimento de outros. Foi assim que me falaram de Coetzee, com tanto entusiasmo, que tenho que refrear meus impulsos de ir para a primeira livraria e mergulhar logo na leitura de seus romances. Sossego, então, volto para o piano, e depois, só então, livraria, pois o fim-de-semana se promete chuvoso, propício a leituras.
Rio, baixinho, pensando -- se fosse ensolarado, também seria propício à leitura: quantas vezes já falei de meu prazer em ir ler na praia? Em casa, com chuva; na praia, com sol; no café, em dias nublados; outra vez em casa, nas lembranças dos dias de neve...Ler é bom quando se está sozinha, ou ao lado da pessoa amada. Quando se está triste ou quando estamos felizes. Tranqüiliza-nos quando temos medo, e nos incentiva quando desanimamos. Ler é muito bom, mesmo. E escrever também...

Tuesday, March 11, 2008

Duas leituras

Na revista Discutindo literatura: Ano 3, número 16, está publicada uma entrevista com o Mia Couto. Sim, muitas das coisas ali publicadas não são novidades, pois falam da influência de Guimarães Rosa no seu estilo, e sobre a política e sobre "literatura africana", coisas já faladas antes. E, talvez, até mesmo o que me assustou na entrevista já tenha assustado outros leitores de Mia Couto. Talvez ele já tenha dito isto antes, confiram:
"Uma coisa é aquilo que eu faço como profissão, que é a biologia, que me ocupa nove, dez horas por dia, e outra coisa é aquilo que faço porque acontece quase como uma doença que me ocorre, que me assalta. Não quero manter essa relação integral com a escrita. Não quero ser um escritor. Não sou daqueles escritores que dizem que se deixar de escrever, deixa de respirar, de viver. O que é vital para mim é ter uma relação criativa com as coisas, com os outros e posso fazer isso com várias outras coisas além da literatura."
Oh, céus! Entendo, compreendo e aplaudo, ao mesmo tempo que me assusto, me revolto, me indigno. Um dos melhores escritores em língua portuguesa dizendo que não quer ser um escritor! Como? Eu sei, a palavra escritor aí adquire outra conotação, mais para ofício que para aptidão, mas com que indiferença ele afirma que pode estabelecer uma relação criativa com as coisas sem ser através da literatura... Pode não, Mia. Pois aí você vai se transformar na pereira que quer frutificar em laranja... Não é este o teu destino!
Por falar em talento, a outra leitura é do primeiro romance do Flávio Izhaki, De cabeça baixa. Rio de Janeiro: Guarda-chuva, 2008.
Já falei aqui no romance, no trailer em que o próprio Flávio aparece de cabeça baixa, mas agora transcrevo aqui uma frase, pois acabo de ler o romance e quero compartilhar as delícias do cuidado com o texto e as imagens.
"Andar por aquelas ruas era como abrir arquivos de lembranças no cérebro. Um banco de concreto, uma história; uma esquina, um assalto que vira quando criança; um poste, duas mãos entrelaçadas que precisaram se separar por segundos, a sua mão e a de Luana."
Elegante e sucinto, em duas pinceladas conta-se uma história e acendem-se as dores das lembranças. O livro é muito bem escrito, e ousa escrever-se e ler-se ao mesmo tempo, num virtuosismo implacavelmente irônico.
Dia 25 de março, lançamento na Argumento. Todo mundo lá!

Monday, March 10, 2008

Medo de voar

Esse conto era para o Histórias Possíveis, mas entramos de recesso, por conta da mudança e da viagem do André. Só que o conto está pronto, e desejoso de ser lido. Então aqui vai ele, para vocês, sem medo.

Medo de voar

Lúcia Bettencourt

A curva jogou-a de encontro à janela do ônibus e ela estremeceu, olhando para a rua lá embaixo. O viaduto nunca lhe parecera tão alto.

O motorista continuava acelerando, aos arrancos, o motor ganindo, os freios rangendo a cada pisadela que impedia que o veículo se precipitasse sobre outros, igualmente impacientes, também disputando os espaços com agressividade.

Foi com alívio que viu a parada chegar e saltou do ônibus com pressa, antes mesmo de seu destino. Ainda era cedo, tinha tempo, podia andar, sentindo-se presa ao solo, sem a ameaça dos abismos e da velocidade. Atravessou a praça, esquivando-se entre as pessoas que hesitavam entre apressar-se para os empregos ou usufruir por mais alguns momentos a luz do sol, o frescor da manhã.

Todos ali, em suas roupas simples, dirigiam-se a trabalhos em cubículos fechados, em salas mal ventiladas. Poucos eram os felizardos que se encaminhavam para escritórios refrigerados. A maioria era como ela, trabalhando em antigos sobrados adaptados em oficinas, em depósitos, em pensões baratas, que enchiam o ar com seus odores de comida frita em óleo requentado, ou com seus cheiros químicos de solda, de desinfetante, de produtos vencidos.

Deu uma última olhada na praça mal cuidada. Uma flor raquítica resistia bravamente à poeira e ao calor. Flores e borboletas eram seus desenhos prediletos. Na fábrica de bijuterias onde trabalhava, escolhia sempre as miçangas e as contas mais coloridas, combinando-as de acordo com as lembranças de seus livros infantis. Borboletas de asas abertas, com desenhos repetidos de um lado e de outro, como imagens no espelho. Flores com sua simetria simples, pétalas que se repetiam iguais, como seus dias.

Subindo a escada de madeira, os rangidos embalavam seus pensamentos. Um dia, ela havia prometido ao pai, um dia ela teria o seu próprio jardim. Um dia , as flores que ela mesma semeasse seriam tão belas que atrairiam as borboletas, os besouros, os pássaros. O seu jardim seria uma festa de flores, pássaros e insetos voando, pousando apenas quando quisessem um novo alento para voar ainda mais alto.

Abriu a porta carregando um resto de sorriso no rosto sonhador. O patrão já estava curvado sobre a mesa, arames, fechos, instrumentos reluzindo sobre a mesa escura e manchada. O cheiro de poeira e química invadiu suas narinas e ela espirrou. Os colegas resmungaram suas saudações, se acomodando. O mais velho já enfiava as contas num fio longo, longo como o tempo. Uma mulher se dirigiu ao banheiro, encardido, no fundo da sala, e fechou a porta com estrondo.

No silêncio que se seguiu ela escutou um zumbido. Era uma borboleta, pequenina e ínfima, quase sem cor. Agoniada, ela se debatia contra a vidraça empoeirada. Suas asas não tinham desenhos, era uma simples borboleta amarela, desbotada e infeliz. Seu desejo era escapar-se dali e voar. Sair do sobrado sufocante e aventurar-se, à procura de uma flor, que poderia ser humilde e esquálida como ela, mas que seria seu destino.

Vencendo o medo de altura, Fabiana se aproximou da janela. Estava no quinto andar. Dois lances abaixo, o toldo mofado da pensão diminuía a sensação de altura que a deixava imobilizada sempre que chegava próximo a uma janela. Somente a piedade que sentia pela borboleta descorada é que a levou até a janela emperrada e a colocou de pé, braços abertos, forçando madeiras e vidraças, como se estivesse pronta para voar.

Escutou o ruído do maçarico sendo aceso. O trabalho começava mais cedo naquela manhã, pois ainda não eram oito horas. A vidraça cedeu e a borboleta lançou-se no ar, sem titubear. Fabiana sentiu-se enternizar naquela postura. Os braços abertos acima da cabeça, esticados como os de uma mergulhadora, o corpo projetando-se para a frente. Ela não entendia como estava no ar, fora do sobrado, voando. À sua frente, a borboleta fazia acrobacias, demonstrando perícia e habilidade. Seus olhos se abriam, desmesurados, para o espaço. Quis soltar um grito, mas a voz ficou presa na garganta, e pelos seus lábios só saiu um gemido, como nos pesadelos. Mesmo que tivesse gritado, ninguém a escutaria, os sons abafados pelo barulho de uma explosão, e pelo crepitar do fogo que queimava, indiferente, madeira e carne, plástico e vida.

Ficou ainda um instante sobre o toldo que interrompera sua queda. Aos poucos ligou o som do maçarico, o barulho da explosão, seu vôo, e a borboleta. Uma chuva de fuligem começava a cair. Fabiana se levantou, arrastou-se como pode até escapar dali. Na rua, seu rosto sujo molhou-se de lágrimas. Foi abraçada por estranhos, beijada por conhecidos. Alguém lhe ofereceu um pouco d’água num copo de plástico tão fino que tinha dificuldade em manter sua forma de copo. Ela tomou-o nas mãos e foi para o meio da praça. Despejou-o no canteiro, ao redor da flor, visitando-a como uma borboleta às avessas.

Nunca mais teria medo de voar.

Igrejas, tintas e devaneios

Fui à Igreja do Carmo, antiga Igreja da Sé, para assistir a missa em meio aos dourados e esplendores. Muitas vezes fui àquela Igreja, bem como às outras ali da Rua Primeiro de Março. Muitas vezes escutei os sinos que tocavam, pontuais, músicas inteiras, perturbadas pelo acelerar dos ônibus e lotações, pelas buzinas dos carros, pelos gritos dos camelôs. Entrava, sentava nos bancos quase sempre vazios, orava ou não, me benzia com água benta quando havia, contemplava com olhos maravilhados ou tristonhos as belezas e os descuidos. O tempo foi destruindo as belezas, os vidros se partiram, as pinturas descascaram, as luzes se apagaram. As Igrejas decaíram, talvez porque tenham feito a célebre opção pelos pobres. Um equívoco: Igreja nunca foi coisa de pobre -- o cristianismo pode ser que sim, mas a Igreja, entidade política, não pode ser abrigo de mendigos e entidade puramente social. Imaginem uma Suécia que resolvesse fazer a opção pelos pobres: logo seria invadida por imigrantes legais e não tão legais, esvairia suas riquezas distribuindo-as entre as desesperadas mãos dos mais necessitados, e, em pouco tempo, estaria encabeçando a lista dos países subdesenvolvidos...
Igreja é coisa de rico, que pode pagar para os artistas comporem músicas, esculpirem imagens, pintarem telas e tetos, encontrar os artesãos para cobrir com folhas de ouro os entalhes de madeira e transformar o terrestre em divino, ou seja, o possível em impossível. Entrar numa Igreja deve provocar duas reações: a do rico deve ser a admiração e o desejo urgente de associar seu nome a uma nova maravilha nem que para isso tenha que se separar de seus preciosos milhões; a do pobre deve ser de tal encantamento que passem a encarar seus males como secundários. Quando o pobre vai à Igreja imbuído de sentido prático -- para comer, se abrigar da chuva ou raspar um pouco das folhinhas de ouro para pagar uma consulta médica, aí começa a revolução e o declínio daquela beleza.
Mas, o que eu ia mesmo falar era outra coisa: antes de ir à Igreja, li o jornal, e nele encontrei um anúncio de uma tinta corporal, feita com chocolate. É a segunda vez que me deparo com essa tinta. A primeira vez foi em Londres, pilhas e pilhas arrumadas na entrada da Harrod's, banhadas pela luz que deixava aquela tentação dupla ainda mais apetecível. Não comprei. E, lógico, me arrependi de ter deixado toda aquela maravilha para uma pessoa mais ousada e livre que eu desfrutar. Agora também não vou comprar, por mero desinteresse. Mas não deixo de pensar na arte corporal, muito mais suave que a agressiva tatuagem, que poderá alegrar os compradores da tinta. Conclamo os escritores e os artistas plásticos a não deixarem passar esta oportunidade. Talvez seja esta a chance de criar sua obra-prima. Experimentem. Renovem suas catedrais...

Saturday, March 08, 2008

Passou

Não sei se isso que vou contar corresponde à realidade. Pelo menos, era como eu a percebia na época. Quando era bem criancinha, daquelas que ralavam o joelho e choravam, minha mãe tinha o péssimo costume de, ao invés de tratar do meu joelho, me chamar e dar um beijinho para passar. Ora, quem já ralou o joelho sabe que a dor não vai embora assim, mas quem ama sabe que é capaz de qualquer coisa para não desagradar o ser amado. Naquela época, o fruto de meu encantamento era minha mãe: linda, bem vestida, alegre e sempre distante. Quando ela me chamava, me dava um beijinho, e perguntava:--Já passou?, com um sorriso encantador, eu, que ainda me retorcia em dor, engolia o choro e abraçando-a, dizia que tinha passado. Como é que eu poderia decepcionar minha mãe? Como é que eu poderia revelar a ela que, como anestésico, seus beijos não tinham nenhum valor? Hoje eu sei que nem todo analgésico é para o corpo. Existem aqueles para a alma. Então aqui estou para dizer para a Flora e para o Amauri, engolindo minhas lágrimas:
--Já passou. Obrigada.

Friday, March 07, 2008

Tire o seu sorriso do caminho....

Eu quero passar com a minha dor...
O dia hoje é difícil, dificílimo.
Já foi o dia mais feliz do ano, eu costumava acordar entusiasmada, querendo ser a primeira a dar os parabéns ao meu amor. E ria, sem entender a contrariedade dele, tão relutante em envelhecer. E ele nunca chegou a envelhecer. Quando ele se foi, mantinha ainda um jeito de garoto, os cabelos intatos, e fazia planos para o futuro.
Mas outras pessoas sorriem em meu caminho, uma delas é o Flávio, que está lançando seu primeiro romance. Vejam em:www.decabecabaixa.wordpress.com
Um trailer de livro, vejam só que bacana. Vejam o trailer e comprem o livro!