Wednesday, April 14, 2010

Kentucky sem fried chicken

Pois é. Cheguei. Um dia inteiro de viagem para chegar até aqui. Acordar cedo, fazer mala, ir para o aeroporto, esperar um voo, embarcar, voar, chegar em outro aeroporto, enorme, tomar trem para ir de um terminal a outro, esperar o outro voo, descobrir que seu voo está com overbooking, receber uma oferta de 400 dólares para tomar um voo para Cincinatti (Até que eu gostei da idéia,  mas onde é que fica Cincinatti?), embarcar, voar, chegar, tomar taxi, chegar no hotel e perceber que não há nada ao redor, que a cidade, aqui em downtown Lexington, parece abandonada. E, no entanto, as surpresas foram muitas. Ao chegar, descubro que caí na cidade da "concorrencia": a Lexmark é daqui e eu ainda me sinto vestindo a camiseta da Xerox. Mas depois pensei que as duas já andavam de noivado, são capazes de terem se casado e de agora serem uma coisa só. Eu é que estou por fora. Também vejo os campos e mais campos de "blue grass", e o enorme hipódromo, onde as corridas já começaram. Há retratos e posteres de cavalos por toda a parte, mas vi muito poucos animais e apenas lá de cima do avião. Por falar em avião, ao meu lado sentou-se um senhor, distinto, com um livro enorme, parecendo um tijolo: A vida de Einstein. O que será que esse homem tanto fez? A julgar pela grossura do livro, ele teve a vida mais intensa do que a do Rubinstein, com sua carreira internacional e suas várias amantes. Já no voo anterior, a senhora ao meu lado leu seu kindle a viagem inteira. E aí descubro uma das desvantagens do Kindle: o vizinho não consegue saber o que você está lendo. Ou será que isso é uma vantagem? Talvez para quem lê seja uma vantagem, mas os curiosos como eu ficam sem satisfação. E os autores perdem essa pequena propaganda de graça, que é seu livro sendo mostrado aos outros…
Estou cansadíssima, e vou para cama, descansar. Amanhã logo cedo começa a conferência e minha condução sai do hotel às 7:30. Depois conto as impressões do Campus.

Wednesday, April 07, 2010

Perdidona

Que dia é hoje?
Ja passei por tantas emoções, nervosismo, aeroportos, que estou perdida no tempo e no espaço. O pior de tudo é chegar ao destino e seu quarto de hotel não estar pronto: o que fazer? Aqui nesta terra não dá para sair a pé e dar uma voltinha. O hotel me convida a usar a piscina, mas como trocar de roupa? Não consigo abrir a mala, que está "em storage". Pensei em comprar um maiô, até cheguei a experimentar um na lojinha do hotel, mas os maiôs aqui são a coisa mais feia do mundo! Um calção e uma camiseta, uma coisa estranha, muito esquisita.  Comi sem vontade, só para ajudar o tempo a passar. Amarrei a cara, mas depois, pensei: por quê? Não adianta nada ficar emburrada, e é muito mais divertido ficar simplesmente feliz. Estou na dúvida se me deito no sofá do lobby e tiro uma soneca ou se vou tomar um café? O problema todo é o frio, pois o ar condicionado aqui nesta terra é sempre regulado por piguins na menopausa! Já está até começando a nevar ;-). Acho que vou tomar um chocolate quente para me aquecer e então dormir um pouquinho. Ou ler.

Tuesday, April 06, 2010

Coquetel no Aquário

Ontem fui à posse de D. Cleonice Berardinelli na Academia Brasileira de Letras. Inconsequentes e aventureiras, eu e mais duas amigas enfrentamos a chuva, a falta de táxi, todos os contra, para prestarmos nossa homenagem a uma extraordinária professora, que sempre admirei, embora não tenha sido aluna regular dela. Na platéia, meus professores: Marlene de Castro Correia, Margarida Alves Ferreira, Jorge Fernandes da Silveira, entre outros. E amigos, como o meu acadêmico favorito, o Secchin, de quem sou amiga há tanto tempo. As acadêmicas ostentavam o novo modelito do fardão, desenhado pelo Guilherme de Guimarães, que já teve criações mais felizes. Dona Cleo fez um lindo discurso, começando pelo verso de Claudio Manuel da Costa "Por que tão tarde?" Ela emocionou e impressionou a todos com sua voz forte e clara, sua disposição, seu ânimo. Creio que os 93 anos de D. Cleo não lhe pesam. O planeta Cleo tem outra gravidade!
Depois dos discursos e das emoções, o coquetel no aquário: as coberturas transparentes pareciam paredes de água e nós, iluminados e engalanados, exibíamos nossas escamas de festa num balé entre garçons e muita comida. Pois os convidados compareceram em número menor que o esperado, e nós tivemos um serviço ainda mais esplêndido do que esperávamos.
Hoje, olhando a TV, fico abismada de compreender o que enfrentamos. E os perigos que corremos. Só que agora, incorrigível, estou de malas prontas, esperando por um submarino que me leve ao aeroporto, pois estou de partida. Será que vamos? Conseguirei atravessar a cidade alagada e levantar voo?
Tudo dará certo, e eu escreverei, quando puder, já dos EUA. E até breve!

Saturday, April 03, 2010

Minhas amigas


Cris Nadruz, brincalhona, comentando um post meu disse que pensar cansa. Concordo. E ainda completo: cansa e nos trai. Houve um tempo, acredite quem quiser, que antes de beber o leite era necessário fervê-lo. Passei muitas manhãs de minha vida, me sentindo escravizada na frente de um fogão, aguardando o leite, impassível, que por sua vez, aguardava minha distração para se derramar por toda a parte. Eu ficava ali, concentrada na leiteira, tentando não pensar, apenas vigiar o leite, que demorava, aguardando seu momento exato. Bastava que meu pensamento se desviasse dele por um segundo, e já estava o leite derramado, queimado, grudado de uma maneira que depois exigia horas de esfregação. Mas, mesmo assim, aquele segundo de distração tinha valido a pena. Pensar é tudo de bom. Mesmo que exija sacrifícios sem fim. Pensar também pode nos livrar de broncas. Tive um chefe, Bill Maddox, que me ensinou muitas coisas. Uma delas foi quando ele me encontrou, um dia, distraída, pensando. Eu era tradutora, e estava com o texto aberto à minha frente, mas devia estar "viajando", sonhando com alguma coisa. Não vi meu chefe entrando e acho que até devo de ter me assustado quando ele me perguntou, em inglês, o que eu estava fazendo. Respondi, sem pestanejar, com a mais pura verdade: Pensando. Ele me sorriu e respondeu: "Esta é a única resposta que me deixa sem ação: pago a você para pensar. Espero que você esteja pensando no trabalho". Será que eu estava? Hoje sei que nossos pensamentos estão sempre ligados, vão formando uma teia que vira trama, que vira história, que vira livro, que vira vida… Tanto que agora, lembrando disso, lembro de minha entrevista com ele, minha primeira entrevista de emprego. Eu era tão novinha, estava tão assustada, e vestia um vestido amarelo clarinho que eu tinha acabado de ganhar no Natal. Era minha roupa mais bonita, embora não fosse, talvez, a mais adequada para ir procurar emprego. Já tinha falado com um cara do DP, que me levou ao chefão que queria checar meu inglês. Eu estava tão nervosa, mas fui falando, o Bill era um homenzarrão, muito simpático, e eu fui ficando mais à vontade até que ele me perguntou sobre meu "aikyw" Eu não fazia idéia do que ele estava falando, e fui respondendo meio evasiva, disse que não podia informar quanto a isso (até porque não imaginava o que fosse). Ele me ofereceu um cafezinho e eu aceitei, e continuamos a conversa e eu ia respondendo ao mesmo tempo que ia tentando descobrir o que era o tal do aikyw. Ele lamentava que no Brasil as pessoas desconhecessem o próprio aikyw, que nos EUA todos sabiam qual era o valor do seu, etc. , e eu de repente descobri que aikyw era QI, só que, em inglês, a ordem das letras era diferente. Mas não adiantava nada minha descoberta porque até hoje não sei do meu aikyw. Só que eu estava tão embevecida com a descoberta, satisfeita de mim, que peguei o cafezinho que me entregaram e, toda cheia de modos, de dedinhos delicados segurando a xícara com cuidado, segurando o pires com a mão esquerda, ao invés de levar o líquido até a boca, estaquei no meio e derramei o café no meu vestido. Claro que a entrevista se encerrou ali. Saí quase chorando, vestido todo manchado, achando que não era à toa que eu ignorava o valor do meu aikyw. Eu nem devia de ter isso! Cheguei em casa chorando, depois de ter atravessado a cidade num ônibus (o lugar era tão longe de minha casa!) Eles já tinham telefonado duas vezes para minha casa. Liguei, achando que queriam ter a certeza de que eu nunca mais apareceria por lá, mas foi o contrário. Eles me contrataram e traduzi todos os manuais de treinamento que Mr. Maddox queria adaptar do Jack-in-a Box para o Bob's. Foi a única vez que curti fazer tradução. Geralmente sofro muito, pensando nos tesouros escondidos em cada palavra, que não consigo ressaltar na tradução. Mas ali a linguagem era simples, o que eles queriam era motivar as pessoas a se comportarem pró ativamente. Tinha tido, uns tempos antes, uma campanha que dizia: Mexa-se, você pode mudar o mundo. E o manual dizia, a toda hora: Do it! Perguntei ao Bill se podia usar o mexa-se, e ele adorou!
Para terminar. Comecei com a foto da gata adormecida entre os livros, uma brincadeira com meus amigos de FB. Termino agora com esta estante meio maluca, deixo as conclusões para vocês!

Friday, April 02, 2010

Lições de amor (cont.)

Como ia dizendo, estou sempre ensinando que o amor é uma construção cultural. Será que estou caindo em contradição? Talvez não. Acho que desde sempre o amor foi uma coisa complicada para os seres humanos. Pois existe, estou convencida, um amor natural, que se aprende amando. E existem amores que são estabelecidos a partir do social, um amor susceptível a diversas influências do meio, da época, dos medos, das necessidades. O amor romântico, filho do amor cortês, que conhecemos hoje é bem diferente do amor que existia na Grécia e do qual nem posso falar, pois também não sei muito. Mas, se na Grécia o local do amor era no estômago, e hoje em dia o localizamos no coração, isso já basta para estabelecermos uma diferença primordial. O estômago é muito mais "víscera" que o coração. O coração, vital, sem dúvida nenhuma, é um órgão silencioso, que vai batendo dia e noite, e do qual só nos apercebemos quando alguma coisa está errada. O estômago é exigente, se faz presente pela fome, reclama dos excessos, se manifesta em sons inoportunos, se rebela e expele aquilo que não lhe cai bem. O estômago é uma preocupação cotidiana. Daí as complicações amorosas dos gregos. Se eles encafuavam as mulheres nos gineceus, se lhes recusavam o direito ao estudo e à filosofia, tiravam delas uma parte de sua humanidade. Não era de estranhar, portanto, que, na hora de amar, os homens procurassem os efebos. Ninguém, acho eu, sabe o que as mulheres procuravam. Aristófanes (que, a julgar pelas peças, olhava as mulheres com muita simpatia), mostra-nos mulheres inteligentes, que, apesar da reclusão, e da falta de "academicismo", eram tão sagazes e inteligentes quanto seus companheiros. Até mais! Vejam a peça Lisístrata, e o jeito como as mulheres "dão a volta" nos homens. E vejam como Xantipa põe a nu os ridículos de Sócrates na peça As nuvens. Mas, por favor, não me citem. Esses são só pensamentos desenvolvidos sem pesquisa nem comprovação. O melhor é ir procurar o livro do sociólogo/psicólogo italiano, que vem estudando o assunto há muito tempo. Me lembro de um amigo traduzindo o livro Enamoramento e amor. Galvão era professor da Escola Americana, e se apaixonou pelo livro. Ele, na época, estava numa enrolação amorosa, aqueles desencontros de que o amor é sempre tão pródigo. Primeiro, ela apaixonada, depois ele. Os dois nunca atingiram a simultaneidade. Mas não vou citar casos particulares. Borboleteio entre pensamentos e me lembro que esse livro o ajudou a sair da depressão do caso complicado. De repente, vale a pena ler as 200 "respostas" que nosso professor italiano nos oferece para o caso de paixão, amor e desejo (já carregaram o jornal, não tenho mais como conferir). E eu, em vez de estar aqui falando por falar, devia estar trabalhando. E é o que vou fazer agora, nesta tranquila Sexta-Feira da Paixão — mas, claro, preciso lembrar que paixão é sinônimo de sofrimento. E, no entanto, como desejamos esse tipo de sofrimento! Não é de admirar?

Lições de amor


O jornal me traz a propaganda de um livro de Francesco Alberoni, que se propõe a nos ensinar a amar. Eu me espanto: isso se ensina, assim, em livro? Pois sei que amor se ensina, mas de um jeito sutil, presente, cotidiano. O jeito "animal", sem racionalizações nem pensamentos (o mito já divorciava Eros e Psichê). O amor se ensina em sorrisos, em abraços, em olhares afetuosos. O amor se ensina na compreensão e no perdão. Se ensina nas lágrimas que derramamos por alguém e nas que são derramadas por nós. O amor se ensina num ombro que se oferece à nossa cabeça cansada e confusa. Num aperto de mão escondido. Num olhar que se ilumina à nossa entrada. Até os bichos são capazes de amar. Rabinhos abanando de felicidade, lambidas, sonecas entrelaçadas, o sofrimento paciente de um animal muito mais forte com um amiguinho menor e petulante que resolve testar seus limites.
E, no entanto, eu mesma repito, vezes sem conta, que o amor é uma construção intelectual. Como pode ser isso, oh mulher inconstante e confusa? Bem, tenho compromisso agora, mas depois volto a falar no assunto.

Thursday, April 01, 2010

Amizades

Como será que começam as amizades? O que faz clicar neurônios de um cérebro com outros de um cérebro distante? No decorrer da vida, fui encontrando pessoas e mais pessoas, mas algumas, quase que instantaneamente, identifiquei como "amigas". Não é que eu vá me entregando fácil, assim. Sou reservada, receosa, lenta. Mas há pessoas que, mal entro em contato, já percebo que um dia poderão ser minhas queridas amigas. Um brilho no olhar, uma palavra empregada com justeza, um gesto de delicadeza, são várias as metamorfoses dos "cavalinhos de Tróia" que arrasto para dentro de meu coração. Depois, troiana desconfiada, fico rondando em volta dele, esperando para ver o que vai sair dali. Às vezes nada. O Cavalinho seca e se desfaz em pó. Outras vezes, percebo a tempo que não se tratava de Cavalinho, mas de Quimera sedutora, porém, como toda quimera, sem mais valor que uma moeda falsa. Outras vezes, o Cavalinho se transforma num meigo Cavalo Marinho, silencioso e atento, embelezando minha vida, gestando idéias para compartilhar comigo. Fico feliz ao encontrar, nas minhas praias solitárias estes presentes de Posídon. Brancos e impetuosos, em movimento constante como as ondas que lhes deram origem; ou estáticos e medrosos como eu, observando o mundo em nosso redor, antes de se lançarem a galope nos prados da amizade; cansados e feridos, necessitando de pouso e de sombra; pôneis que galopam sem direção certa, pelo mero prazer de galopar, meu coração bate no compasso deles, e são eles que me mantêm viva. Obrigada, amigos e amigas! Os que já se revelaram e os que prometem, que fazem de minhas ruínas de Tróia um lugar onde ainda pode brotar a alegria.

Recriação

Acho que foi Marx quem disse que a história só se repete como farsa. E a criação? Esse diminuto Big Bang atrás do qual os cientistas andam sonhando, será que vai trazer alguma coisa de interessante? Comecei o dia com essa manchete, e agora vou terminando o dia, ou melhor, já iniciando um outro, escutando a TV gritar histórias de OVNIS. E, no dia 2, inicia-se o filme sobre Chico Xavier… Entra século e sai século e as profecias de Nostradamus continuam nos fascinando. A chuva cai lá fora e a gente se pergunta se nossos governantes contrataram a fundação Cacique Cobra Coral… Os jornais não deixam de publicar a coluna de horóscopos para que gente como eu possa saber o que esperar durante o dia, a semana, o mês.
Fico pensando aqui no que desejaria criar no meu big bang, se eu pudesse escolher. Tento lembrar do Gênesis, mas lá se vão anos que o li, e depois confundi tudo. Pois me lembrava de que "No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus e o Verbo era Deus". Só que depois me disseram que não é o Gênesis que começa assim. O Genesis diz que no princípio Deus criou o céu e a terra. Concreto e simples. Prefiro a história do Verbo, dessa criação pela Palavra, que é criadora e criatura. Adoro pensar na escrita como numa brincadeira de Lego. Vamos juntando pedacinhos de sons e de sonhos e criamos um mundo. Muitas vezes o tal do Verbo se torna mais concreto que a vida em si. Vejam o exemplo de Sheherazade. Sua vida é a palavra que ela é capaz de proferir: se ela se calasse, a vida terminaria. Imaginem, então, a surpresa dos cientistas se, ao lograrem o choque das partículas subatômicas, tudo o que obtivessem fosse apenas uma palavra, definitiva. Teriam eles a coragem de repeti-la? Mesmo sabendo que tudo o que obteriam seria um Eco?
Já vou misturando mitos, é melhor ir dormir. Vou tentar sonhar com o anjo da história, não de olhos e gesto aterrorizados, mas com a fisionomia serena de quem se dispõe a contar/criar.

Monday, March 29, 2010

tristemente pornográfico…

Tinha intenção de publicar aqui uma foto que recebi de um amigo, supostamente um "autorretrato do Eros Grau", candidato à ABL. Como dizem alguns amigos na América, God forbid! Não consegui, talvez porque meu blog tenha mais bom gosto que eu… Mas, já que estava com a cabeça pensando em bobagens, lembrei da cena de nudez do Alec Baldwin no filme Simplesmente complicado. Todo mundo morre de rir, embora nada seja mostrado. A nossa imaginação é mesmo fantástica, cria aquilo que não consegue ver, e se diverte com o que não vê. Coisas há, porém, que não conseguimos imaginar, e é preciso que nos mostrem com uma foto, um desenho, alguma prova visual. Este seria o caso da foto que não consegui publicar. Mas, como vocês não vão acreditar mesmo, nem adianta comentá-la. Ainda borboleteando em volta do assunto, nos tempos de colégio, nossas conversas profundas a respeito de namoros eram muitas. Nós, as sem namorado, escutávamos atentas às que namoravam, e mais que namoravam, "namoravam firme". Uma dessas, do alto de sua lourice e de seus dois anos de namoro nos ensinou que era muito fácil saber se o rapaz que habitava nossas fantasias era o nosso verdadeiro amor: bastava imaginá-lo nu, de botas. Se continuássemos sonhando com ele, aquele era o nosso príncipe. Achei que o conselho era muito bom, mas me faltava uma coisinha: eu nunca tinha visto um homem pelado. Não conseguia imaginar… Depois, o tempo foi passando, não precisei do artifício para saber se o Guilherme era o meu príncipe, pois nunca tive dúvidas disso. E, depois, preferi nunca imaginá-lo nesta terrível e reveladora indumentária. Só que um dia, muitos anos depois, fui ao cinema ver um filme muito bom com o Paul Newman (esqueci o nome do filme, é claro, sempre esqueço!). O filme era uma história verdadeira de um senador americano que se casou com uma prostituta de quem era amante. O senador era texano, e já velhote. E eis que, para ir para a cama com a amante, usava botas, daquelas botas todas desenhadas, de vaqueiro, pois só com botas conseguia "firmeza" (grip). Finalmente! Nu, de botas, definitivamente, nem o Paul Newman! E eu ria sem parar no cinema, ria de chamar a atenção, dessa minha piada pessoal, sem que ninguém entendesse o por quê de tanto riso. E fico por aqui, pensando num outro filme, que acabo de assistir. Ana Bolena. Um filme mudo, que comprei em DVD, sem nem saber que era mudo. Anunciado como uma superprodução, realmente, o filme tem qualidades incríveis, embora peque pela simplificação e pela transformação em mártir de Ana Bolena. Mas os cenários e as roupas são extraordinários. E como me delicio com aquele estilo de representação dos filmes mudos, com aquelas reviradas de olhos, os sorrisos mefistofélicos, o exagero expressivo. É bem verdade que o filme é uma das obras primas do expressionismo alemão. Passei mais de duas horas assistindo ao filme e pensando que, um dia, a gente vai olhar os filmes de hoje com o mesmo estranhamento que olha os filmes do passado. Como as imagens envelhecem! E, como diria o Drummond, como dóem!

Friday, March 26, 2010

Sumiço II

Não sou muito dada a sumiços, uma vez que adoro escrever. Este meu bloguinho é uma fonte de prazer, um lugar onde converso com amigos "de verdade" e "imaginários". Quando era menina, filha única, vivia criando minhas narrativas, onde interpretava personagens que criava. Não me lembro de muitas destas criações, que sempre variavam, só uma ou outra, como a "menina pastora". Tudo começou quando encontrei uma espécie de bengala (na verdade era um suporte de cabide de um armário). Eu tinha uma bola de encher, multicolorida, e passei a "pastoreá-la", com a bengalinha, pela casa. Ia para cima e para baixo, conduzindo minha ovelhinha, desviando-a dos móveis e paredes de minha casa, incentivando-a com gentis (nem tanto) toques de minha bengalinha, transformada em cajado. Minha avó aceitava estas minhas brincadeiras sem comentar. Minha empregada já estava convencida de que eu era maluca, e essa brincadeira foi a confirmação de seu diagnóstico. Ela foi uma das principais agentes para manter minha autoestima embaixo. Toda a vez que falava comigo, era de maneira a ressaltar alguma qualidade negativa que eu por ventura tivesse. Será que ela fazia isso na frente de meus avós? Sinceramente, não sei. Mas ela passava por mim e sussurrava um "doida", um "cara de lua", e me tratava meio aos trancos. Não acho que ela não gostasse de mim, ao contrário, acho que ela gostava sim. Mas eu era o membro mais frágil da família, e era em mim que ela descarregava suas frustrações e hostilidades. Só que na época eu não era capaz de entender isso, e cada "safanão", cada "porca", rosnado baixinho e com raiva, ficavam sangrando. Mas volto às minhas personagens. Eu lia muito, sempre adorei ler. Tive até um livrinho inglês, Candles For The Queen, que ganhei de uma amiga de vovó (na verdade, era uma muambeira, que vinha regularmente vender camisolas importadas e não sei mais o quê). Acho que, como ela nunca conseguiu freguesa que quisesse comprar o tal livrinho e percebeu que a neta da cliente vivia de livro na mão, resolveu agradar a cliente e se livrar do encalhe com o presente. Corri para o embrulho, que, pelo formato, já podia adivinhar que era um livro. Quando abri e não entendi, fiquei decepcionada, mas minha avó foi logo dizendo que eu estava aprendendo inglês e em breve seria capaz de ler a historinha. Olhei o livro todo e só reconheci a palavra queen. Mas o livro era ilustrado, e fui acompanhando a história. Descobri que candles eram velas. Pouco a pouco fui descobrindo o vocabulário, construindo a história da coroação da Rainha Elizabeth II (vejam como o livro era velhinho). A última aquisição foi um verbo, yelled, que pode ser traduzido como exclamaram. Por onde andará este livrinho? Guardei-o durante muito tempo, mas acho que minha mãe jogou-o fora, ou deu-o de presente. Quando fui estudar em Portugal, ela simplesmente deu tudo o que deixei para trás. Toda minha coleção do Príncipe Valente, todos os livros, discos e recortes dos Beatles, a coleção de histórias infantis que ganhei de prêmio de redação no ginásio – uma casinha de papelão com uma estante onde estavam uns dez livrinhos extraordinários como Tartarin de Tarascon, O Albergue do Anjo da Guarda, A menina das nuvens, e outros que já esqueci quais eram. Para terminar essas rememorações, claro que fui a Menina das Nuvens, claro que fui Narizinho (Tanto uma como outra compartilhavam meu nome). Daí que acabei com esse sonho de que, quando crescesse, queria ser personagem. Hoje entendo que, quando finalmente virar personagem, crescerei.

Friday, March 05, 2010

Vale a pena contar outras histórias


Esse vídeo foi "roubado" do blog da maravilhosa Adriana Lisboa. Assistam e prestem atenção nas histórias!

Sopa de letrinhas

Ontem tive minha primeira aula de hebraico! Estou orgulhosa por já conhecer o aleph (finalmente!), o shin e o sin, o mem e o mem sofit, o vav, o iod (iud), e as notações para a, é, ê e o. Um tracinho embaixo, ou um tezinho embaixo da letra equivale a "a". Dois pontinhos, deitados ou em pé, embaixo da letra equivalem a "ê". Três pontinhos, ou cinco pontinhos, debaixo da letra, "é". Um único pontinho, embaixo da letra, pode ser "i". Se estiver no alto, à esquerda, vira "o". Três pontinhos numa ladeirinha debaixo da letra, vira "u". Essas três últimas vogais podem ser representadas de outra maneira ( o iod, que é sempre i, e o vav, que quando tem pontinho em cima é "o" e com pontinho no meio à esquerda é "u". Ia me esquecendo de uma letrinha já aprendida, o tav (taf). Aprendi a escrever nome, quem, mãe, você no feminino, sol, lá, presente, seis, sexto, água, a preposição de, meu ou minha e dele, e mamãe. Pensando bem, já posso escrever shalom: shin com tracinho embaixo, lámed com o vau com pontinho em cima, mais o mem sofit. Não podemos esquecer que tudo isso é escrito da direita para a esquerda. Acho que ninguém entendeu nada, né? Mas eu aprendi a lição! Shalom a todos!

Tuesday, March 02, 2010

Terremotos

Me lembro (acho que me lembro) que no dia do terremoto do Haiti eu tinha acordado muito cedo e me deixado maravilhar pelo nascer do dia. E de ter pensado: num dia assim só podem acontecer coisas boas. Aí a televisão veio me contar as tragédias e me senti quase que ofendida com a "traição". 
Não me lembro se no dia do terremoto do Chile o dia estava bonito ou triste, mas me lembro da TV contando as tragédias e da presidente Bachelet falando na TV. Descartava o risco de tsunami no Chile, dizia que a situação era de catástrofe, mas que eles estavam preparados para enfrentá-la. Eu bem que indaguei aos meus botões (algo que aprendi a fazer com Machado) como alguém, mesmo que seja um país, pode estar preparado para uma catástrofe. Catástrofe é um termo saído do teatro grego que indica a reviravolta que traz o fim da tragédia, é o acontecimento principal, culminante da tragédia, o clímax. Se estamos falando de teatro grego, e as tragédias contavam as histórias dos heróis míticos, compreendo que toda a plateia estivesse preparada para a catástrofe. Quem se sentava nas arquibancadas dos anfiteatros estava careca ou cabeludo de saber que Ifigênia seria morta pelo pai, que Édipo mataria o pai e casaria com a mãe, que Fedra se apaixonaria por seu enteado, essas coisas. Mas acho que os gregos, freudianamente (não resisto!), estavam interessados em entender como é que se deve lidar com essas reviravoltas e as lições eram severas. Acho que os gregos da plateia queriam era saber como é que os protagonistas, surpreendidos (pois eles não sabiam) reagiam frente à catástrofe, para a qual eles nunca estavam preparados ( e depois a filosofia vai tentar sempre informar e preparar, mas sem grandes resultados – há sempre uma peça do quebracabeças que está faltando).
La Bachelet também não sabia, seu país não sabia que o tsunami chegaria, que os incêndios se ateariam, que o desespero levaria pessoas pacatas a saquear os supermercados, que o medo levaria outros a se armarem ameaçadores. Aposto que, a essas alturas, ela deve de estar contando o tempo para entregar a faixa presidencial.
Fui vítima indireta de um terremoto. Há muito tempo atrás um terremoto destruiu a bela cidade natal de meu marido. Na falta de internet, ficamos dias tentando falar ao telefone para saber da família dele. Muitas perdas materiais, mas estavam todos vivos. Ficamos tranquilizados de longe. Mas, quando finalmente nos encontramos outra vez, descobrimos que eles estavam mudados. A catástrofe os transformara inteiramente. Algo foi destruído no espírito de minha sogra. Algo desapareceu para sempre do olhar de meu sogro. Suspeitei, então, que as piores vítimas eram as que sobreviviam.
Nunca estive num terremoto, não sobrevivi a nenhum furacão, as enchentes que enfrentei foram amenas. Mas sou vítima de uma catástrofe pessoal. Meu terremoto ainda balança o chão sob meus pés, apesar do tempo que já se passou. Perdi minha "terra firma", piso sobre escombros e sobre um chão sem sustentação.  Estou vivendo no exílio…

Sunday, February 28, 2010

Confissões de quem não é santa

Às vezes tenho a sensação de que passo a vida me confessando. Será? Mas não é bem confissão, são relembranças que, graças à minha educação católica, sempre são acompanhadas de uma certa dose de culpa. Pois um dos ensinamentos de alguma catequista bem intencionada, mas fraca em psicologia, uma lição que ecoa até hoje em meus ouvidos é a de que "não sou nenhuma santa". E como já sofri por causa disso! Pois juro a vocês, meus quase 17 leitores, que houve um tempo em que eu queria mesmo ser santa! Lia aquelas vidas de santas que, numa certa época, eram publicadas com mais regularidade que bestsellers, e me derramava em lágrimas, almejando ser tão boa e desprendida como aquelas jovens, ou aquelas não tão jovens, que depois de pecar à grande, se arrependiam e santificavam. A culpa deve ter sido da maluca de minha mãe que fez a promessa de me vestir de Santa Teresinha durante não sei quantos anos. Pelo menos de um ano tenho certeza: tenho um retrato para provar isso. E até que estou bonitinha, pois eu era lourinha e sorridente, é fácil achar uma criança lourinha e sorridente bonitinha. Na foto (eu devia estar com uns 4 ou 5 anos) devem ter me recomendado seriedade, pois estou fazendo um visível esforço para não sorrir. Se algum dia eu voltar a mexer em fotos, prometo que escaneio e coloco na internet, e não é por mim, é pela perfeição da roupa que eu usei. Era mesmo uma roupa "oficial", só que em tamanho infantil. Tinha tudo perfeitinho como nas vestimentas das antigas freiras. E era feito daquela fazenda quente dos ternos de antigamente. Acho que lã. Mas não sei. Só sei que tive meu momento Macondo (muitos anos depois…) ao virar uma esquina em Roma e descobrir lojas e mais lojas vendendo batinas e roupas religiosas. Incrível, ainda vou voltar lá e comprar uma roupa de santa outra vez! A rua tinha um nome engraçado, tipo rua do Triplo Burro, e aí fiquei lembrando de minha vida de Santa Teresinha.
Volto às culpas, perdão pela digressão (olha aí!, juro que foi sem querer!). Pois bem, na minha casa acreditavam na educação pela censura ("Vovó, tirei 9,5 na prova!" "Como?! 9,5?! Se tivesse estudado direito tinha tirado 10!") Daí que, mesmo quando estava certa, a única certeza que tinha era a de estar fazendo algo errado.  Quando passei em segundo lugar no Vestibular, ao invés de comemorar, minha mãe disse: Está vendo? Sempre tem alguém melhor que você…  E tem mesmo, e a Cecília, minha amiga querida até hoje, tirou o primeiro lugar muito merecidamente. Devo à Cecília muitos dos melhores momentos que passei na Faculdade. Ela era uma espécie de mãe de todos nós. Acho que ela já estava com uns 50 anos quando fez o Vestibular. Ela era professora aposentada do Sion, tinha (tem) quatro filhos que estavam na Universidade, morava (mora ainda) num apartamento que tinha quintal e boteco de beira da estrada, o Bar Roco (já não sei mais se ela ainda pode usar o espaço, o edifício precisou criar cercas de segurança). No verão, ela montava uma piscina inflável no quintal e a gente virava criança (na verdade, éramos crianças). Havia uma química boa entre nós, os membros do grupo, hoje desfalcado pela morte do André, justo o mais novinho de todos. Saudades, meu querido.  Foi Cecília quem me diagnosticou: "A Lúcia sofre de carência lúdica!" É que era tão bom ter parceiros de brincadeiras! A gente jogava MANIA, ou DICIONÁRIO (adoro jogos de palavras). Acho que também jogávamos BATALHA NAVAL. E mais um outro jogo de cartas que se chamava CRAPEAU (???) Uma espécie de buraco em que se podia mexer no jogo do outro, já não lembro mais. E, na casa dela, havia diferentes jogos de tabuleiro, de damas a War. Tinha épocas em que chegávamos lá e havia uma mesa desmontável onde algum quebra cabeças de  umas 18 mil peças estava sendo montado por toda a família e os amigos. A gente chegava, conversava, ia até o tabuleiro colocava duas ou três peças, ou conseguia montar um pedaço isolado que ficava esperando até que o quadro crescesse mais. Me lembro de um que foi montado e depois o grupo se dividiu, uns queriam que as peças fossem coladas e transformadas num quadro, outros queriam desmontar tudo e começar de novo. Acho que o segundo grupo venceu, pois não me lembro de nenhum quadro. 
Bem, nessa época eu já não queria mais saber de ser santa. Já estava até casada e, nos quatro anos de duração do curso de Letras, tive dois bebês, terminando o curso com três. Sim, porque já tinha uma filha ao entrar para a Faculdade. Precoce, não? Nada santa. Graças a Deus!

Saturday, February 27, 2010

A fada de chapéu

Estou de molho em casa, com uma dessas viroses de final de verão, mas hoje, como estava me sentindo um pouco melhor e como já não aguentava mais olhar para minha aparência desgrenhada, fui ao cabeleireiro. No caminho cruzei com uma fada de chapéu de palha rosa. Era uma menina, de uns quatro anos, vestida de fada, com asa e varinha de condão, mas com um chapeuzinho redondo de palha, totalmente incongruente, absolutamente encantador. Ela ia caminhando feliz, risonha, voltando-se para os pais e outros adultos que a acompanhavam, numa espécie de ballet que admitia rodopios, meias voltas, corridinhas e paradas. Eu ia numa direção oposta à dela, nossos caminhos se cruzaram e tenho a certeza de que nem ela nem a família me notou, a mim, disfarçada na normalidade de roupas sem surpresas. Como eu não notei os outros transeuntes pelos quais passei antes, tampouco aqueles pelos quais passei depois. Mas a figurinha da fada de chapéu, com seu rosa tão vivo e vibrante contrastando com os pastéis dos véus e os brilhos iridescentes  de suas asas me acompanhou até em casa e agora me obriga a escrever, para que não me esqueça mais dela. Me deu vontade de escrever um conto de fadas, quem sabe?
O que não tenho nenhuma vontade de comentar é a história do manifesto. Como disse ao meu mano André, todo manifesto é bobo, ao mesmo tempo que todo manifesto é útil. Mas não vou discutir nada disso aqui. Igualzinho ao manifesto que recebi por imeio sobre a candidatura da Dilma Rousseff. Acho que está no FB. Mas que as fotos são hilárias, isso são. Confiram.

Wednesday, February 24, 2010

Imagens e fotos

Percebo que vou desenvolvendo umas manias esquisitas, que talvez sejam coisa hereditária. Minha bisavó, por exemplo, detestava tirar fotografias. Os poucos instantâneos que temos dela são inúteis, porque ela ou colocou a mão em frente ao rosto, ou virou de costas, ou abaixou o rosto. Sou uma péssima fisionomista, daí que não me peçam para descrevê-la. Ela era muito branquinha, pele de porcelana, macia. Não sei que idade tinha, mas ela me parecia bem velha. Ainda mais naquela época em que as plásticas e os preenchimentos não existiam, e as pessoas precisavam ostentar suas rugas, Mas não me lembro de rugas no seu rosto, e sim de uma papada, que dava a ela um ar empertigado e meio ofendido já que, talvez para tentar minimizar o apêndice, ela andava sempre com o queixo elevado, e muito empertigada. Ou talvez fosse apenas uma questão de boa educação. Minha bisavó não se "atirava nas cadeiras", como me acusavam de fazer. Ela se sentava com as costas eretas, as pernas juntas, e ficava longos períodos calada. Estava um pouco surda, e era difícil falar com ela. Uma vez assisti uma conversa entre ela e uma outra avó, a vó Beá. Uma dizia: – Hoje está fazendo calor. A outra respondia: – Há tempos que não vejo o professor. A primeira retrucava: – Acho que é a umidade. A outra dizia: Acho que está ensinando na universidade… Bem, não me lembro exatamente o que elas disseram, mas me lembro de que ficaram conversando por rimas, falando sozinhas, mas muito simpáticas e sorridentes, duas senhoras que tinham vivido na Belle Epoque, e que lamentavam seus paraísos perdidos. Minha bisavó chamava-se Maria Cândida, mas se dizia Dona Mary. E nunca me permitiu chamá-la de bivovó. Tinha que tratá-la de Dona Mary, como todo o mundo. E ela não gostava de abraços nem de beijos. Acho que, quando ela olhava para mim, me via como um sinal da decadência de sua família. Eu era uma menina bobona e mal-educada, para os parâmetros dela. Pelo menos essa é a impressão que fiquei.
 De vez em quando ela me levava para uma "estação de águas". Uma das mais antigas lembranças que tenho é a de uma ida a Caxambu, de avião. Toda a família no avião, Dona Mary instalada em uma poltrona e, quando o avião finalmente levantou voo, a senhora tão compenetrada começou a gritar de medo e só parou quando o avião voltou a pousar. Me lembro de meu avô tentando fazer que ela se calasse, sugerindo que ela fechasse os olhos, e brigando comigo por abrir a cortininha e deixar que a visão das nuvens a atemorizasse ainda mais. Resultado, tivemos que voltar para o Rio pela superfície. E nunca mais fomos a Caxambu de avião, até porque depois acabaram os voos para lá.
Numa outra vez, fizemos uma viagem de trem, meu avó, Dona Mary e eu. Ao chegarmos a nosso destino, o vagão em que estávamos ficou fora da plataforma, e não sei porque, precisamos descer no meio do campo. Meu avô pulou do vagão, me ajudou a saltar e aí começou a comédia: Ele pegou a mãe que, assustada, começou a gritar e tapou os olhos dele com as mãos. Vovô ficou cambaleando, sem saber para onde ir, com os olhos tapados. Eu fui puxando os dois, me sentindo como uma personagem de uma fábula. Tinha medo de que o trem começasse a andar e eles ainda estivessem ali ao lado. Vovô carregando a mãe nas costas, meio desnorteado, e eu puxando os dois pela aba do terno de linho. Hoje imagino a aflição de meu avô, sem saber onde pisar, cuidando da mãe e da neta, às cegas.
Meu avô era o meu querido, meu herói, meu ídolo. Moreno, forte, bonito, era um homem carinhoso e bom. Ele me contava histórias, milhares de histórias, todas inventadas por ele. Eram as histórias do caxinguelê (bichinho mais esperto da floresta) ou as histórias do Zumbizão e do Zumbizinho (ele e eu). Foi ele quem me ensinou a amar o Centro da Cidade.  Eu ia com ele para a Câmara, ali, ao lado do Amarelinho, e me sentia o máximo. Passeávamos pelas ruas cheias do que, na minha opinião, eram palácios. Andávamos em elevadores antigos, de portas manuais, e conversávamos com os ascensoristas, e com garçons, sempre tão delicados, e sempre bem informados. Na hora do lanche, íamos ao Amarelinho onde o amigo do vovô, o Xavantes, tomava um copo de leite gelado com sal. Nunca tive coragem de experimentar. Devia ser horrível. Vovô me levava ao dentista, no largo da Carioca. Depois ( e acho que por isso meus dentes nunca prestaram) íamos comemorar na Colombo, ou na Cavé, ou na Manon. Para onde íamos, havia sempre um amigo do vovô por perto. Na ABI, assistíamos a filmes maravilhosos. Minha iniciação ao cinema japonês  foi ali. Vi um filme que me deixou impressionadíssima, em que um lobo comia um bebê recém nascido. Foi minha revisão da história de Chapeuzinho Vermelho. Os lobos comiam mesmo as criancinhas e depois não havia caçador que desse jeito no assunto. Na Câmara, vovô tinha amigos de nomes esquisitos: Honestaldo de Pennaforte (eu fazia questão do H no nome dele),  o supracitado Xavantes, Lígia Lessabá (Lessa Bastos). O poeta Jorge de Lima, para mim, era um pintor. Vovô tinha um quadro dele, que ficou para minha tia. E frequentava o sítio que ele tinha em Piabetá. Foi lá que nasceu minha madrinha Mara, com o nome mais popular de Maria da Penha. Ela deve ter inspirado a famosa música que diz "ela só pensa em namorar". Toda as vezes que me arrumava para sair, era uma tragédia. Alguma peça essencial de vestuário ficava faltando, ou ela calçava meus sapatos nos pés trocados, alguma coisa no gênero. E acho que na época ela namorava algum fotógrafo, pois tinha muitas fotos 3x4 que ia tirar com ela. Depois perdi o gosto pelas fotos. Meu avô, avesso que era a todas as maquininhas, nunca teve uma máquina fotográfica. Também não teve automóvel e a nossa TV, enorme, "faixa preta da GE", só era ligada pela vovó, que gostava de assistir um programa chamado Os intocáveis, e outro chamado Perry Mason. Vovô nem lâmpada trocava. Ele chamava o porteiro. Minha avó é que fazia todos os pequenos consertos elétricos, trocava os fusíveis, a resistência dos ferros, as tomadas das geladeiras e dos aspiradores de pó. E ela era a dona de nossa vitrola, onde escutei incontáveis historinhas que vinham nos disquinhos coloridos que até hoje amo. Minha primeira grande "possessão" foi uma vitrolinha portátil, que só abandonei depois de casada, quando meu marido, que adorava todos esses brinquedos tecnológicos decretou que ela distorcia os sons. Chega de saudade. Imagens e fotos do passado, como diria o poeta, doem muito.

Monday, February 22, 2010

Volta à escola


É hoje o dia…, diz a canção. E os brasileiros, entre sábios e brincalhões, avisam: hoje é o primeiro dia útil de 2010. Tenho uma grande implicância com essa coisa de dia útil. Se alguns dias são úteis supõe-se que os que não são úteis são inúteis. E como podemos chamar algum dia de inútil? Nestes dias, vivemos. São os dias em que encontramos os amigos, em que vamos ao cinema, em que nos estiramos ao sol. São dias de passear na praia, de dormir até mais tarde, de macarronada com a família. Ou dias de futebol, de cabeleireiro, de brincar com as crianças. São dias em que podemos mergulhar na leitura, sem interrupções. Dias de ficar olhando pela janela, invejando o ânimo de quem se aventura pelas ruas, seja para encontrar um amor, seja para dançar nos blocos, ou para ir à Igreja. Aí me lembro de Manoel de Barros, penso em sua arte da inutilidade, a poesia. O bom da poesia é que ela existe assim, sem compromisso. Não é útil, e, por isso mesmo, é a mais necessária das artes. Pois é nesses dias inúteis, nessas artes inúteis, nas ações inúteis que realmente encontramos o essencial. Um gesto de carinho, por exemplo, precisa de ser inútil, pois, se anexarmos alguma utilidade a ele, o carinho se embolora instantaneamente, se modifica e pode até virar agressão. Quem recebe um carinho porque o outro pensa que, nos acarinhando, há de conseguir alguma coisa, se sente degradado, não é não?
Quem nos roubou a vida? Pois poucos são os que ainda sabem fazer essas pausas e olhar para as coisas com desprendimento. Quem nos ensinou essa coisa de que "tempo é dinheiro"? Tempo é vida, é só o que temos. Mas fomos aprendendo a "fatiá-lo", dividindo-o em dia e noite, em horas, minutos, segundos, décimos de segundo, milésimos, até ficarmos com nada, esquecendo de que é possível regular nossos momentos pelas sensações e lembranças. 
Estamos de volta à escola. Vamos para lá para reaprendermos as coisas que a utilidade nos retira. Se a escola pode ser apenas um adestramento para a utilidade, ela também é a porta que nos liberta para nos reencontrarmos com a vida. A escola nos ensina, meninos travessos que somos, a desmontar o relógio para descobrir o tempo. Ela nos revela a utilidade para nos mostrar que tudo isso só importa se soubermos que o segredo da utilidade está em contemplá-la a partir da inutilidade essencial. 
Filosofei tanto, hein? Não era essa a intenção. 
Só queria postar alguma coisa absolutamente inútil…

Wednesday, February 17, 2010

Sem fantasia.


 Descobriram que o rei Tut morreu de malária. E que tinha lábio leporino. Que seus pais eram irmãos. Que estava com a perna quebrada e que devido a uma doença os ossos de seu pé esquerdo estavam sendo destruídos, o que o obrigava a andar de bengala. 
Descobriram que o nariz de Dona Cleópatra não teve nada a ver com a passagem da República
Romana a Império Romano. E que o amor de Cleópatra por Marco Antônio foi uma lenda, na verdade eles brigavam muito e Cleópatra, que já não aguentava mais o amante presunçoso, deixou-o no meio da batalha naval e veio brincar o carnaval no Rio.
O Egito, conforme estou lendo agora num livro simplesmente a-pai-xo-nan-te, As núpcias de Cadmo e Harmonia, foi o local de nascimento de quase todas as versões mitológicas. Acompanhando os raciocínios de Roberto Calasso a gente vai tendo arrepios de prazer, percebendo as verdades por baixo das fantasias. E, se algumas destróem nossos sonhos, como as descobertas sobre o Tutancâmon, essas descobertas nos fazem amadurecer e crescer. E nos dão o prazer do conhecimento, que é viciante.
Ontem fui assistir um filme que me deixou eletrizada do início ao fim: Educação. Pelamordedeus, não percam! Um filmaço. Uma história simples, real, na qual a fantasia desempenha um papel contrastante com a realidade (não é sempre assim?) e onde percebemos que nossos mitos, mesmo quando nos enganam e poderiam nos destruir, quando depurados pelo conhecimento são caminhos para a superação. Adorei o filme, os atores, me apaixonei, torci, e, embora desde o início soubesse que aquilo não ia dar certo, em momento nenhum deixei de curtir cada pedacinho da história. Todos os detalhes do filme me agradaram: do cenário ao vestuário, dos atores à trilha sonora, dos diálogos aos silêncios. As imagens falam por si mesmas, contam uma história ao lado da história. Por exemplo, o carro parado esperando que a mãe com as duas crianças atravessem a rua tem um significado na história, que vai sendo construída através dessas impressões visuais. 
Ou então, pequenos advérbios "– Ainda gosto dos pre-rafaelitas", por exemplo, resumem toda uma história. 
Há muito tempo não me entusiasmo tanto assim com um filme. Quero ir de novo, é como um livro que a gente tem prazer em reler, pois sabe que vai encontrar mais coisas que deixamos passar da primeira vez. E, o mais extraordinário, é que nos apaixonamos por todos os personagens, sem exceção, perdoamos seus erros, gostamos deles em suas imperfeições e desonestidades, compreendendo sua humanidade.
Não sei o nome de nenhum dos atores, exceto Emma Thompson, que faz um bico. E sei o nome do roteirista, Nick Hornby, um dos escritores mais interessantes da atualidade, que apesar de estar  ganhando uma nota preta com seus livros e roteiros, continua professor de adolescentes e faz parte de uma banda de rock alternativa. Mas todos estão ótimos, e merecem ser destacados. Mas julguem por si mesmos.

Sunday, February 14, 2010

Blocos e mais blocos

Um Carnaval a mais, sob o sol, e a vida dando voltas… Aqui onde estou, na minha torre, escuto a cantoria mais ou menos afinada, e o barulho das vozes de tantas pessoas que não se cansam de rodar pela cidade, em demonstrações genuínas ou não de alegria. Será que gosto de Carnaval? Certamente que gosto de alegria, e me emociona escutar o pessoal cantando. Certamente que não gosto de calor e de aperto. E detesto a "troca de fluidos corporais" a que somos obrigados quando entramos num bloco e passamos por pessoas suadas que, ao esbarrar em nós, deixam um pouco de si e levam um pouco de nós. Só de pensar já faço careta. Mas o que adoro mesmo é me fantasiar. Qualquer florzinha no cabelo, qualquer brilho de lantejoula me fascina. Ano que vem, já me prometi: vou sair de Colombina – uma fantasia delicada, antiguinha, romântica, como posso resistir? Por enquanto uso arquinhos de cabelo e viro Dona Cleópatra, ou prendo uma flor vermelha nos cabelos e fico parecendo Doña Carmen. Estimulada pelas amigas muito mais entendidas em Carnaval do que eu, vou ao Sassaricando, ao Boitatá, ao Boi Tolo, sou rodeada pelo Sapucapeto e pelo Azeitona, pelo Areias, pelos blocos sem nome que ficam aqui na Dias Ferreira, alimentados pelos vendedores de cerveja, e adereçados pelos camelôs de arquinhos e máscaras. A fantasia mais comum que tenho visto é a de "alegoria" – umas misturas malucas que unem vestes de Nero a perucas rastafaris, ou perneiras romanas a máscaras beijoqueiras, que ao invés de cobrirem os olhos, cobrem as bocas das pessoas. As mulheres são mais certinhas: muitas Noivas, muitas mesmo. Muitas Trepadeiras, algumas Havaianas, Enfermeiras, Policiais. As princesas também saem de seus castelos e cruzam as ruas ao lado de Avatares (suponho que sejam, já que estão todos pintados de azul). Melindrosas balançam suas franjas ao lado de Gatas e de Onças. Muita gente se fantasia de bicho: hoje, ao meu lado, uma Galinha esquecia os cacarejos e cantava entusiasmada o rancho das pastorinhas. Ontem foi o dia do desfile do Império Serrano, e lá estava eu fantasiada de escrava acorrentada, exibindo uma gaforinha que mais parecia uma Marge Simpson tropical. Meio metro de peruca e uma cangalha prateada. Pelo menos não era das mais quentes. Meu gás já acabou há muito tempo, mas as amigas não me deixam desistir. Haja produção! Vou seguindo os blocos, mas sempre pela sombra, sorrindo com o riso dos outros, cantando pedaços de sambas e marchas, arriscando um ou outro passo de samba, quando o espaço permite. Ainda me convidam para mais um baile, para mais um bloco, mas o que gosto mesmo é de chegar em casa e ver o livro que me espera sobre a cama. Vou tomar mais um banho e mergulhar na leitura.

Saturday, February 06, 2010

Carnaval

Nos tempos em que estudava literatura medieval, li muita coisa engraçada. O pessoal da época, sempre lembrado pela religiosidade e guerras, já se amarrava numa comédia, e havia muita gente boa praticando o gênero. Um dos livros engraçados e inteligentes era o Libro de Buen Amor.  O bom amor, como é entendido pelos cristãos, é o amor a Deus. A pretexto de estimular o tal do bom amor, o espertinho do arcipreste de Hita, a quem atribuem a autoria da história, vai revelando quais os "maus amores" que devemos evitar. Claro que aí vai se sucedendo uma série de situações que deixaria as pornochanchadas para trás. Para citar uma delas, o narrador pretende se afastar do mundo e virar um ermitão. Nas montanhas encontra uma "pastora" que, isolada, há muito tempo não vê um homem por aquelas alturas. Apiedada do estado de fraqueza do narrador ela o alimenta e aquece para, logo em seguida, usá-lo como objeto sexual. O que começa por deleitá-lo, mas depois o deixa exausto, esgotado, e ele tenta fugir e essas são as cenas mais hilárias de todas. Pois hoje, tentando escapar dos blocos que tomaram o Leblon, me senti vivendo uma dessas histórias medievais. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Quando se acaba de tomar um banho e passar perfume, colocar uma roupinha levinha e descontraída, existe coisa pior do que encontrar um bloco cheio de gente suada e bebendo cerveja? E todos com espírito de confraternização? Foi o que me aconteceu hoje, quando ia encontrar com a família para almoçar. Incauta, cruzei com o tal do Imaginou? Então amassa! Por conta de não conseguir nem imaginar, dei longas voltas até chegar a meu destino, e ainda agradeci aos céus por estar a pé, pois de carro teria ficado presa por horas no trânsito. Depois, esquecida da emoções do almoço, peguei uma carona para voltar para casa. Achei que a Dias Ferreira já estava liberada, mas, qual o quê! Ao virar a esquina descobri que a rua estava tomada por um bloco que parece ter estacionado para sempre aqui ao lado de casa. Não sei o nome, mas é o bloco com os músicos mais desafinados da história do Carnaval. Os caras do cavaquinho estão tocando sempre a mesma coisa, não importa o que o pessoal do bloco cante e o ritmo que a bateria imprima às canções. Eles tocam como se tivessem aprendido a tocar fazendo acompanhamento para karaokê. Sabe aquelas frases musicais que não combinam com nada nem dão ideia do que está sendo tocado? Ficam naquele barulho apressadinho do cavaquinho, e deixam a todos zonzos. Muito chato isso. Leio Marques Rabelo e descanso com Lillian Hellman. Dois livros de memórias, tão diferentes como suco de uva e água. Como homem e mulher. Como faca e garfo. Mas cada qual com seu valor e utilidade. E combinando em minha cabeça, me mostrando um mundo desaparecido, que teve seus encantos e seus horrores. O bloco dos desafinados me dá a deixa para terminar, com a linda música do Gonzaguinha, que eles vão assassinando sem piedade: Viver e não ter a vergonha de ser feliz! A vida é bonita, concordo com o compositor. Só que às vezes cansa…