Sunday, September 11, 2011

FLIMAR






Acabou-se o que era doce. Vim para cá, Marechal Deodoro, no estado de Alagoas, no dia 7 de setembro. Quem me conhece sabe de meus amores por essa terra deslumbrante. Alagoas tem praias lindas, algumas das mais lindas do mundo. E eu só conheço um pouquinho daqui. Esta foi a quarta vez que vim para cá, e não consigo ir além da praia do Gunga e das falésias que são ali próximas. A primeira vez que visitei Maceió foi com a Helena, que tem amigos por aqui. Depois vim pelo SESC duas vezes e, desta vez, vim pela FLIMAR. Pena que não tive chance de ficar aqui no computador, alimentando esse blog. Tenho tantas coisas para contar! Conheci pessoas maravilhosas, realmente encantadoras. Reencontrei pessoas fantásticas, que adoro, desde tanto tempo (5 anos, já!). Encontrei outros escritores, alguns que ainda não conhecia, outros com quem não tinha tido ainda o prazer de conversar melhor, embora já houvesse uma simpatia e alguma relação de amizade. Estreitar laços, aproveitar abraços carinhosos, conseguir a fã mais fofa da FLIMAR, a Maria, filha do Flávio Carneiro. Foi uma experiência muito gratificante, cheia de alegrias.
A programação da FLIMAR foi variada, com gente boa dando boas palestras. Por enquanto, contentem-se com as fotos das belezas locais, do bichinho preguiça e da sereia da praia.

Thursday, August 25, 2011

Mamutes e jararacas

Reabilitaram as jararacas, cujo veneno virou remédio. Remédio para pressão, remédio para o cérebro, remédio para a gente pensar melhor. Já estava na Bíblia, como diria Nostradamus. Ou ele não diria, mas um leitor do profeta em questão poderia interpretar a serpente do gênesis como uma jararaca que estivesse protegendo o cérebro tão pouco usado de Adão e Eva. Em que os dois se ocupavam, no paraíso? Em dar nome aos bois, é o que diz a Bíblia. Adão ( e eu assumo que Eva também desse seus palpites) tinha como incumbência nomear todos os animais e vegetais. Toda a criação! Haja imaginação. Não admira que alguns nomes tenham saído feios. Mais que feios, horríveis. Querem um exemplo? Xenartros e suas zigapófises. Bem, esse seria um Adão helênico. Tentemos outros: carduça, deputado. Esse adão brasileiro, depois de inventar girassol, borboleta, cascata, papagaio, inventou mijo, rubicundo, catarro, súcubo. Gastou sua imaginação. E, sentindo preguiça, foi criando uns nomes adaptados, tipo "pé de mesa", "braço de cadeira", "cravo de defunto". Aliás, defunto é outra dessas palavras feias. Outras saíram bem legais. Abracadabra, por exemplo. Ao ouvi-la, a gente já espera alguma proeza, pois ser capaz de dizer abracadabra sem trocar nenhuma sílaba já é um prodígio. Em compensação estupro é uma dessas palavras que não precisavam ter sido inventadas. E que são reinventadas a cada vez que são faladas. Tente dizer estuprada num meio de frase, assim meio corrido. Vai sair diferente. E estupefaciente?! É mesmo um golpe que precisa de uma boa jararaca para ser corrigido! Jararaca, cascavel, jiboia, coral, as cobras possuem nomes sonoros como trinados, que aguardavam a reabilitação das peçonhentas (argh!)
Mamute era uma boa palavra. Pesada, sólida como o animal que designou, impunha-se numa frase. Infelizmente fizeram um filme terrível com esse nome, e o estragaram. Agora, ao ouví-la, vou me lembrar do Depardieu, de suas toneladas de nariz, de seus centímetros de braços, de seu rosto suarento e de seus cabelos ensebados (ugh!). Outro dia vi no facebook uma campanha de salvação de palavras. Quais as palavras que você salvaria? Acho que a pessoa estava se propondo a salvar "inconsútil". Eu poderia ficar com balangandã, mas talvez preferisse azul, ou luar, ou rio. Talvez essa última, com sua plurissemia (aiii!) que deixaria minha palavra ora verbo, ora topônimo, ora acidente geográfico. E a imagem de um rio azulado pelo luar se revesa com a do Rio banhado de luar azul… E, ao fundo, uma jararaca se desenrosca preguiçosa, à feição de um rio entre folhagens.

Sunday, August 21, 2011

Melancolia

Escolhi o sábado chuvoso para ver o filme do Lars von Trier. Fui assim meio de pé atrás, receando ficar deprimida, mas o filme não permitiu: lindo, interessante, com imagens e situações inesperadas, sem melodrama, mas com tantos detalhes saborosos!… Para mencionar apenas um, a figura deliciosa do organizador de festas que não quer olhar a noiva e cobre o rosto. Como no velho truque das caixas chinesas (estudei isso na Faculdade de Letras…) uma história repete a outra: um astro rebelde atrapalhando a festa. E ninguém quer ver.
Mesmo na escuridão, na depressão, nos desentendimentos, tudo o que fica é a beleza. Uma beleza nada piegas, mas sempre incompleta. Sem clichês, sem baboseiras, sem lágrimas desnecessárias, com uma boa dose de agressividade e uma excelente dose de silêncio. Com contundência. Saí de lá com a luz de Melancolia brilhando no meu horizonte e me dando vontade de viver num mundo assim. Assim como, ameaçado? Bem, ameaçado nosso mundo está, claro. Mas num mundo em que ainda encontramos pessoas que sabem o valor da vida. Mesmo que em extinção. E que sejam humanos até o último nanossegundo! Um filme que precisa ser visto e depois digerido, comentado e apreciado.
A semana foi de muita correria, de ida a São João de Meriti e de encontro com almas boas, íntegras, corajosas, cheias de esperança. Adorei. E espero que Sant'Anna e São Joaquim sejam felizes para sempre, mesmo que só no palco, sob a direção de Abílio Ramos. E que os poetas que conheci mantenham sua sensibilidade, sua integridade e sua força.
Visitei, pela primeira vez, a minha editora, Record, em suas incrivelmente simples instalações. Livros por toda a parte, fiquei com a impressão de que as divisórias são feitas por livros, e nada mais. Enchi meus olhos com uma coleção de Jabutis para ninguém botar defeito. O troféu não é lá uma beleza, nem brilha mais do que as estrelas. É pequenino, escurinho, quase uma muiraquitã. Mas segurar um, sopesá-lo, ler o que estava escrito em cada pedestal, me deixou com o que os americanos chamam de "longing". Não sei bem como traduzir: anseio, desejo? Admiração desejosa? O fato é que, de todos os prêmios literários no Brasil, o Jabuti é o que mais me encanta, pois tem aquela coisa modernista de "clã do jabuti", de sobrevivência na adversidade, que é a marca do herói totêmico de nossa nacionalidade. Viva o jabuti! Nosso heroi, esperto e desajeitado, meio lento, mas capaz de colar seus caquinhos e seguir em frente. Começo a entender minha identificação com ele…
E me lembro do poema de Drummond, que sempre me comove até às lágrimas, Elefante:

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos moveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,caio

no meu vasto engenho

como um simples papel

A cola se dissolve

e todo seu conteúdo

de perdão, de carícia

de pluma, de algodão,

jorra sobre o tapete

qual mito desmontado.


Amanhã recomeço.

Saturday, August 13, 2011

Cada qual com a madeleine que lhe aprouver…

Leitores de Proust sabem que a madeleine, aquele bolinho em forma de concha e gosto meio alaranjado, é a chave para as "memórias involuntárias", que a Clarice e outros escritores conhecem como "epifanias". Pois o Bloch hoje fala do seu chaveiro de jabulani como uma madeleine, e lá embarca ele num texto sobre roupas, mordidas de cachorro, Botafogo e Proust. E ainda consegue encaixar mais uma ou outra lembrança e uma e outra homenagem à sua ilustríssima família – isso para não mencionar o grande modelo de correção contra o qual se mede: Dapieve. Eita! Parabéns, seu Bloch, assim não precisa mesmo contar caracteres, você já chegou lá, nas merecidas férias!
Escrevo hoje numa reconciliação com o Prosa e Verso: fiquei de bom humor com a comédia da vida intelectual em quadrinhos. O leão de chácara perguntando se o cara tem carterinha de pedante é muito bom. Mas continuar e exigir que ele pague dois ingressos, um para ele, outro para o Ego, é tirada de gênio! E as outras tirinhas também são legais, como têm sido legais as pequenas vinhetas do Gatão de Meia Idade (no Segundo Caderno), falando dos presentes. Numa o Gatão oferece à sua gata, um livro de Proust. Ela agradece, dizendo: Que bom, a letra é bem grande! Noutro ele a presenteia com um disco (foi o que ele disse) de Chopin, e ela: "Dá para dançar? Adoro dançar!" Não preciso mais fazer assinatura dos paulistas! Mantenho minha esperança.
Mas a leitura continua, e me assusto: A matemática da ficção?! Contar histórias por meio de sucessões de máximas, silogismos e figuras geométricas?! A ficção como um objeto estranho "com o qual não saibamos muito bem o que fazer"?! Bem, se é matemática, talvez possamos acertar contas… Quem tem lucro?
Mas o Prosa fala sobre Versos, mesmo que seja à margem. Nas cartas, Vitor, que se apresenta como tradutor da UFRJ, concorda com PH Britto que afirma que no Brasil existem 300 leitores de poesia. Acho que não precisamos entrar na matemática da poesia, pois a ordem de grandeza é mesmo pequena em termos dos nossos 200 milhões de brasileiros… Na outra página, a chamada para uma exposição poética: TeKnósPoiÉsis – Poéticas do oral ao digital: uma experiência para todos os sentidos. Tudo junto e misturado, assim como seus patrocinadores. Fico curiosa, acho que vou acabar indo, mas desta vez telefono primeiro para evitar o barraco do Mia Couto. O evento foi muito procurado, mas a platéia era só de convidados. Os cidadãos do Rio, que financiam a Biblioteca Pública de Botafogo, são cidadãos de segunda classe perante os convidados da Cia das Letras… seria essa a lição? Espero que não. Hoje estou com um espírito muito magnânimo!
Mas aí a última reportagem me faz estremecer: O futuro do ensino de Literatura no país está prestes a sofrer um golpe?! E logo do desmoralizado ENEM(a)?! Resigno-me a embarcar nas estatísticas. Não tem jeito, para quem gosta de ler, a matemática está virando coisa fundamental. Cito:
"Poesia e letra de canção somadas comparecem em 42% das questões; romance, medíocres 12%; conto, apenas 3%; em contraste, histórias em quadrinhos têm gordos 19%".
Cito de novo:
"Drummond é quem mais aparece, 19 vezes; em seguida vem Machado de Assis e Bandeira, 7; depois, nenhum autor aparece mais de 5 vezes. Graciliano Ramos e João Cabral aparecem 3 vezes cada, menos do que Jim Davis (do Garfield) e Bob Thaves (da tira Frank e Ernest), com 4 vezes cada"…
Acho que é mesmo hora de mudar para os domínios da Matemática. Para mim, é um pouco tarde, mas aconselho aos novos escritores que sigam o exemplo do escritor português, e que usem suas letras para fazerem fórmulas algébricas. Misturando isso com uma tinta oriental, turca, árabe ou mesmo um certo ar africano, o sucesso de vocês estará garantido. Pelo menos até a próxima semana.

Friday, August 12, 2011

O drama da idade

Recebi de uma amiga, L, um email com muitos desenhos engraçados mostrando que o tempo passa para todos, até para os personagens de desenho. Vejam, Piupiu fez 60 anos esta semana, e lá aparecia ele sentadinho em seu poleiro, todo enrugadinho. A Barbie com 50, perdeu suas formas e se deliciava com bombons e TV. O Superman exibia seu barrigão de 72, o Thor e o Hulk, aos 48 anos, parecem aqueles coroas que, inconformados com a idade, se vestem como adolescentes. Batman e Robin aos 70, continuam juntos, só que o Robin, careca e encurvado, empurra a cadeira de rodas do Batman. A Mulher Maravilha, já quase aos 70, insiste no maiô, mas já não sidera mais ninguém, nem mesmo o cachorrinho que ela domina com seu chicote. O Spiderman, com mais de 50, envelheceu mal, e está preso ao soro, muito doente. São brincadeirinhas, e a gente ri, mas se inquieta um pouco. Principalmente quando junta isso à notícia da recuperação de Sininho, a hipopótamo que perdeu a mãe que estava com 53 anos. Segundo informava o jornal, a mãe foi sacrificada na sexta passada pois estava muito velha, já passara dos 48, média de vida dos hipos, e cheia de doenças: artrite, problemas respiratórios, úlcera sei lá o que mais. E a Sininho, com 10 anos, entrou em depressão e deixou de comer. A tratadora, entrevistada, disse que ela já tinha voltado a se alimentar, e que ia se recuperar, que era o processo de luto normal. Fiquei pensando que ninguém acha errado sacrificar um animal que sofre, mas todos se levantam contra a eutanásia. Por que será que os humanos estão condenados ao sofrimento? Por que libertamos apenas os animais? Quero ser "posta para dormir" caso as mazelas cheguem a me incapacitar!
Para terminar filosofando mais um pouco sobre idade, falo sobre Rosa, a peça que assisti ontem, e que não é propriamente sobre a velhice, mas sobre a memória. A memória de uma mulher judia, que se confunde com a história de seu povo. Rosa está de luto, mas um luto muito maior do que se possa pensar a princípio, pois está de luto pela humanidade perdida. É um monólogo muito bem sustentado pela atriz, que vai revelando as perdas sucessivas que não a abatem. Em sua trajetória, desamor e perdas, paixão e sobrevivência, Deus e a vida são avaliados com uma dose de humor, resignação, e encantadora vontade de acomodação. "Por outro lado", o que a sustentou e ao seu povo até então, periga de transformar-se num lado mais sombrio e ressentido, de acerto de contas infrutífero. Muito boa peça. E triste, embora seja engraçada. Como diria Rosa, é o "por outro lado"…

Thursday, August 11, 2011

Tempos de minha avó

Saio com a família e o papo é amor. Amor físico, que ontem foi tabu, coisa proibida, e hoje é discutido abertamente nas mesas de restaurantes. Fico escutando, descobrindo novas tecnologias que me fazem rir, graças à maneira que são descritas. Mas hoje, ao sentar aqui para escrever, o que me vem à lembrança são as histórias de minha avó.
Vovó era uma espécie de "terrorista" do sexo, suas conversas eram todas voltadas ao grande perigo de praticá-lo antes do casamento. Era uma história atrás da outra contando dramas familiares solucionados, às vezes, por um bom coquetel de guaraná com formicida. Claro que já existia a pílula anticoncepcional, mas essa ainda não tinha carimbado o passaporte no imaginário da minha avó. E o caso da virgem que engravidara do cunhado, "um sujeito porco, que deixava as toalhas sujas no banheiro!…" era comentado com algumas variações. A porca poderia ser a mulher ou a empregada. Na versão da minha avó, a virgem era sempre uma vítima.
Sua grande aversão era pelas "assanhadas" ou "sirigaitas". Essas eram um horror! Uma sirigaita dessas, apesar da mãe tão cuidadosa, que a acompanhava em todos os lugares, conseguiu "namorar" e engravidar na fila do leite! Era no tempo da guerra, acho eu, quando havia fila para tudo. A mãe devia mandar a filha para a fila bem cedinho, e lá ela encontrou um leiteiro ou outro cliente madrugador e tomou outro tipo de leite.
E haviam histórias terríveis, de moças que se enfaixavam todas para que não se descobrisse que estavam grávidas, e quando os filhos nasciam, estavam deformados porque não tinham podido se desenvolver. Ou histórias engraçadas de mulheres, respeitáveis e respeitosas que, quando grávidas, "enjoavam" do marido e só lhes apeteciam os maridos das vizinhas… Essas eram perdoadas. Afinal, enjoos de gravidez eram coisas que minha avó respeitava.
Uma história atrás da outra, mas agora, relembrando-as, vejo que em nenhuma delas era o sexo o vilão. Não tinha percebido isso, mas seu problema era a gravidez. Já na palestra de ontem, no SESC Tijuca, um dos participantes me contou de seus grupos na Igreja, e dos conselhos do padre: "quando sentirem os sintomas da atração, vocês devem se afastar e rezar até ficarem calmos!" Meu aluno comentou: "nós, com 14 ou 15 anos, se seguíssemos o conselho do padre não pararíamos de rezar!"
Bem, aí a gente fica pensando que, se todos os problemas do mundo fossem a sexualidade dos jovens, estaríamos no paraíso terrestre. O problema começou foi com Deus, ciumento, que não pode admitir aqueles dois adolescentes saudáveis e lindos fazendo aquilo que seus hormônios aconselhavam. Expulsar os dois por conta disso? Uma pequena mordida na maçã?! Mas se é uma maçã gostosa, sumarenta e doce, por que não?
Sábios são os americanos: an apple a day keeps the doctor away. Uma maçã por dia, sem culpas e sem desculpas pode ser o melhor remédio.

Monday, August 08, 2011

Sem prosa nem verso

Desapontamento: espero toda a semana pelo suplemento literário do Globo e, quando ele chega, tudo vem dedicado à cidade. Cadê meus livros? Será que vou ter que assinar jornal de São Paulo? Ôrra, meu!
Desapontamento II: Mia querido Couto fala hoje às 15:30h na Biblioteca de Botafogo. Por que justo no dia e na hora de minha aula? Será que vou ter que brigar com a Cia das Letras?
Desabafos à parte, não vejo razão para brigar com a Cia, que me proporcionou uma beleza de palestra no sábado passado. Alex Ross falando sobre Chacona, comemorando os 25 anos da editora. Ela vai trazer um time de gente boa, e finaliza com o Amos Oz… Acho que por isso tem ventado tanto aqui no Brasil, para anunciar a chegada do Mágico de Oz. Não, não precisam rir, a piada é mesmo boba, mas me permite uma transição de assunto, ao gosto de Machado, embora sem o mesmo talento. Passo para o vento, do vento ao frio, do frio ao nevoeiro, que pode perturbar a aviação mas que torna minha linda cidade misteriosa e desejável como Salomé. Que prazer andar pela praia e ir acompanhando o desvelamento preguiçoso das montanhas! E olhar o mar impetuoso com suas ondas, cercado pelas placas cautelosas : Cuidado, correnteza.
Fico querendo me transformar num barquinho de papel e me deixar flutuar até ver onde essa correnteza pode me levar… Na falta de coragem de mergulhar nas ondas (que devem estar geladas) flutuo nas ondas do pensamento e vejo a imagem do barquinho retirada do filme Persuasion. Adorei. Assisti encantada com umas coisas disparatadas, que não sei por que chamaram a minha atenção: Atores e atrizes fora dos padrões de glamour, mas dentro do espírito da época de Jane Austen – Sem maquiagem, sem tratamento de uniformização dos dentes, sem branqueamento exagerado.
Homens e mulheres suam, suas peles brilham, a gente quase que surpreende um cheiro de suor ao entrar nas casas junto com as câmeras. Os homens fascinam. Sei que ela descreve o universo feminino como ninguém, mas talvez por isso os homens – tão desejados – sejam extremamente fascinantes. Mesmo os que a gente, à primeira vista descartaria como horrorozinhos, logo se mostram encantadores seja pela sensibilidade, seja pelo aprumo com que envergam suas fardas. E que fardas! Dei por mim imaginando como seria difícil resistir àqueles maravilhosos oficiais de marinha, chegados vencedores das guerras napoleônicas, ricos com o botim de guerra, auto estima elevadíssima pela vitória, e estatura ampliada pelo chapéu. Numa das cenas, em que o grupo passeia pelo molhe e é mostrado em silhueta, era quase que um friso grego, não de meros mortais, mas de centauros. Bem, foi assim que os vi: altos, altíssimos, com suas crinas ao vento…
A história? Sim, sempre legal, um mecanismo de compensação de Miss Austen, que amou e foi amada através de suas personagens. Vingou-se das irmãs comedoras de doces, vingou-se das manipuladoras, zombou com simpatia das mães e tias faladeiras e preocupadas apenas com o casamento das herdeiras. Na sua bem educada compostura e na capacidade de observação e reflexão, as mulheres em segundo plano são premiadas em sua constância e equilíbrio. Viva Jane Austen! Estou quase acreditando que o amor acontece desse jeito, e que não se trata de um furacão que nos arrebata para Oz. Nem de um nevoeiro que torna a noite mais fria e que nos embriaga com seu cheiro de maresia… Embora noites assim possam ser ideiais para o amor!

Tuesday, August 02, 2011

Agosto já chegou

Nos tempos romanos, agosto era o mês mais prestigiado do ano: mês de Augusto, que surripiou um dia do meu pequeno fevereiro, pois não podia ficar com menos dias que o mês de Júlio César, que o antecede. É o mês do signo de Leão, mês do Sol e das honras – isso tudo lá no hemisfério norte–. Aqui é o mês do inverno, da volta às aulas e dos ventos. Também é conhecido como o mês de cachorro louco e mês do desgosto. Esse desgosto, que é uma rima e não uma explicação, talvez se deva ao suicídio de Getúlio, que já foi tão importante e hoje poucos sabem quem foi. (Triste o povo que não conhece seu passado, já disse algum filósofo, com outras palavras.)
Como é época de ventos, também é época de soltar pipa, e esses pedaços coloridos de sonhos sempre me encantaram muito. Hoje já quase não se vê alguém soltando pipa na zona sul. Mas domingo, passando pelo centro da cidade, lá estavam cerca de uma dúzia de pessoas se divertindo e mostrando sua perícia. Lindo! Sugiro um show de pipas, para a abertura dos jogos que se aproximam.
Mês de cachorro louco? Não sei por quê. Mas a loucura dos cachorros deve de estar contaminando os políticos do mundo afora, todos eles enlouquecidos disputando um osso do Estado. Não gosto de falar de política, mas olho com apreensão a derrocada dos EUA. Obama não tem coragem de persistir com seu blefe, pois me parece ser um homem de bem, interessado no país. Seus adversários são jogadores profissionais, e a eles só importa a vitória, mesmo que, vencendo, eles destruam o saloon. E observo com tristeza ainda maior o nosso próprio país, onde todo mês é mês de corrupção, onde todo órgão parece já estar sofrendo com a metástase deste câncer…
O mês é de frio (pouco) e de liquidações (muitas). De encontrar os amigos nas salas de aula, de tratar de estudar pois o ano já-já acaba. Imaginem, já entramos no segundo semestre!
Agosto é mês dos pais, mês de muitos aniversários, portanto, mês de muitas festas. Nada de começar dietas em agosto. Setembro já vem, e aí sim podemos experimentar aquelas dietas da lua, da sopa, do leite, do tipo sanguíneo, seja lá qual for a que estiver prometendo um verão com menos gordura.
Ainda dá tempo de tomar mais uma tacinha de vinho! Se esfriar mais um pouco, quem sabe um fondue na Casa da Suíça, ou um cozido farto, fumegante? Hmmmm, que delícia! Aproveitemos o augusto mês de agosto!

Sunday, July 31, 2011

Dia de quê?!

Do orgasmo!
Da pequena morte francesa. Do Big Bang, para alguns. Do vai chegando já passou, para outros. De plus, encore! Do fake: soque o travesseiro e grite, aconselha o jornal de hoje. Mas, os homens gostam de variedade, portanto, aconselham a alternar: grite e só então soque o travesseiro. Eu sugiro simultaneidade: grite enquanto soca o travesseiro. E me postarei à escuta, e ouvirei uma sinfonia orgasmática sacudindo o ar da cidade, do país inteiro. Ou será que o dia do Orgasmo é Mundial? Nesse caso o próprio planeta vai girar mais acelerado, impulsionado pelas ondas sonoras dos gritos e sussurros.
Imaginem só os chineses, tão obedientes, cumprindo a determinação. Mais de um bilhão (quantos serão eles agora? Dois bilhões?), mesmo que, pudicamente, abafem seus gritos, os gemidos uníssonos podem provocar ventos de mais de 100 km por hora. Que se encontram com os ventos causados pelos indianos, – mais um bilhão? –, que não me parecem precisarem ser estimulados a gozar. Afinal, foram eles que escreveram o Kama Sutra, não foram? Talvez aquelas posições complicadas sejam maneiras de evitar os gritos. Experimente se concentrar em plantar bananeira, abrir as pernas, suspender o yoni, alongar o yogi, e ainda gritar? Tudo se desequilibra! Não admira que os deuses hindus sejam azuis: com tanto malabarismo, se esquecem de respirar!…
Mas, supondo que os gritos chineses sejam seguidos pelos indianos, já provocamos um tufão capaz de fazer a Terra sair da rota. Vou parar de me preocupar, no entanto. Acho que aqui no Leblon o dia não "pegou" tudo está silencioso e calmo…
Talvez seja porque as pessoas estejam petrificadas como o sorriso do Brejvik (é assim o nome do coiso?). Mona Lisa? Dever cumprido? Quem sabe Botox? Viro a página e encontro mais um motivo de suspensão de tesão - um filme que se pretende interessante mas que é doentio. E que não merecia todo o estardalhaço que estão fazendo ao redor dele. Deixá-lo morrer no silêncio, no esquecimento, essa teria sido a melhor punição. Os gregos, que sabiam das coisas, quando o crime era muito ruim mesmo, ao invés de condenarem à morte, mandavam para o ostracismo. Ou, como diria meu avô, "Vai morrer longe!" Exílio, abandono, perda de lugar social, isso antigamente era feito fora dos muros da cidade. Agora é mesmo nas ruas, à vista de todos. Quantas pessoas não abandonamos à própria sorte (ou falta de), e passamos por elas sem ver, sem escutar, sem nos preocuparmos?
Talvez por isso, nessa manhã calma, só o que escuto sejam os sinos longínquos e o canto do bentevi. E motores de aviões que hoje já podem circular pelos ares cariocas.
Nas revistas, nenhum consolo. Apenas a frase do psicanalista, atestando que a dor do abandono é sempre proporcional à intensidade do afeto investido…Se nunca houve afeto, a gente se redime, né?
Será?
Talvez, no momento do orgasmo, células afetuosas se procurem e seja este o grande prazer de toda a coisa. Talvez seja melhor estabelecer o dia do Afeto, um pequeno gesto de boa vontade, um mínimo de compreensão, um olhar que se ilumine ao ver o rosto de um Outro. Afeição, pura e simples. Sem precisar de socos nem de gritos.

Tuesday, July 26, 2011

Que luxo!

Todo dia um tempinho para escrever, isso é um luxo!
Obrigada pela informação sobre o dia do escritor, amiga! Vejam nos comentários, por favor.
Hoje fui ao dentista, e, como sempre, fiquei ouvindo sua conversa, me informando. Foi lá que soube que as pessoas que foram assistir ao show da Amy Winehouse aqui no Rio e a viram bebendo, a cada gole, aplaudiam-na, incentivando sua persistência no vício.
Fico achando isso uma maldade: aplaudir a auto-destruição do outro é ter uma atitude mesquinha e sacana (desculpem o termo).
Passei o dia na rua, correndo para cá e para lá, e pensei numa porção de coisas para escrever aqui. Só que esqueci de tudo.
No final do dia, tomei um taxi, cujo motorista, ao contrário de mim, sabia de tu-do! Ele tinha um telefone desses que pegam televisão e estava assistindo o jornal, numa tela tamanho 3X4. E comentava desde a morte da Amy até a falência dos EUA, e ligava com o que tinha escutado na Voz do Brasil, e sempre pontuava com um:"eu não disse?"
O trânsito estava engarrafado e ele me deu uma aula de economia, outra de psicologia, mais uma outra de relações internacionais… Finalmente chegamos a nosso destino, e eu estava infinitamente mais sábia.
E aí fui conversar bobagens com uma amiga, feliz, feliz! É tão bom não saber de tudo… E ainda esquecer o que se soube um dia…

Monday, July 25, 2011

Dia do Escritor!


Parabéns para mim, nesta data querida…
Não sei por que, mas hoje é dia do Escritor. Aceito e comemoro, mas espero que alguém mais sabido que eu me conte o porquê do dia 25 de julho. O que teria acontecido nesta data?
Ontem, no Municipal, um dos Prazeres, o que é maestro da Orquestra da Petrobrás, falou de Prokofiev e de sua morte no mesmo dia da morte de Stalin. E acrescentou: Ele foi enterrado sem flores, pois todas tinham sido compradas para o enterro do ditador. (Bem, acho que ele não disse ditador.) Mas aquilo me deu uma pena enorme. Como se ele tivesse sido usurpado de um direito que era dele, o de ser enterrado com flores. Mas tem gente que não quer flores.
Não vou ficar falando disso aqui, flores ou não no enterro. Mas vou contar o que fiz nesta minha última ida à França. Visitei o túmulo de Rimbaud, em Charleville-Mezières, e também o túmulo de Proust, em Paris, no Père Lachaise. Acho que já até escrevi sobre isso. O túmulo de Rimbaud é de mármore branco e tem uma cruz e um pedido: Rezem por ele. É gêmeo do túmulo de sua irmã, e ficam os dois dentro de um cercadinho, como se estivessem prendendo a alma do poeta, para que ela não saia mais de lá. Em frente, do outro lado do caminho, tem um banco de jardim e fiquei sentada um pouco ali, pensando na incongruência daquele túmulo. E com uma outra preocupação: onde estará enterrada a pena amputada de Rimbaud. Quem assistiu Tomates verdes fritos aprendeu que partes grandes da anatomia humana, quando amputadas, precisam ser enterradas em cemitérios. Mas talvez possam ser doadas para estudos, acho eu. O que teria acontecido com a perna do poeta?
O túmulo de Proust fica meio fora de caminho, todo em mármore negro, seu nome em dourado escrito na campa. E nas laterais, o nome de seus pais, também enterrados ali. E, do outro lado, o de seu irmão e cunhada. Puxa, será que precisava amontoar toda a família no mesmo lugar? Que ele tenha ficado no mesmo túmulo dos pais, tudo bem. Ele ia gostar disso. Mas acho que seu irmão e sua cunhada não tinham ideia de como Marcel era importante para a história literária. Teria sido mais discreto deixarem o irmão brilhando sozinho.
Para terminar falando de flores: No túmulo de Rimbaud, nada. No de Marcel, recados manchados de chuva, e hediondas flores de plástico num vasinho. Uma maluquete passou por lá, leu o recado manchado, não gostou, e jogou-o no lixo. Resmungou algumas coisas para mim e foi-se embora. Não entendi nada. Mas fui até uma loja e comprei umas orquídeas. Queria Catleias, mas não havia. Comprei Wandas brancas e deixei lá sobre o túmulo. Para Rimbaud, levei um arranjo, com uma borboleta. Asas para ele voar. Espero que o tenham levado para longe.

Sunday, July 24, 2011

Boquitas pintadas

Adoro esse romance de Puig. Na verdade, adoro Puig, que cheguei a conhecer nas aulas da Bela Josef, outra que já partiu. Acumulo perdas pela vida afora. Na faculdade, são muitas. Além desses dois, tenho saudades do André Trouche, nosso querido Andrezinho, da Samira, e de outras pessoas que, embora estando vivas, nunca mais vi. Agora, recentemente, estive com o queridíssimo Jorge, que nos apresentou Fiamma, a difícil poeta:
A madeira tem os seus sinais
rumor demais…
Guardei esses versos de memória, mas guardo pouca coisa de memória, só me ficam as sensações de beleza e encantamento.
Por exemplo, tive uma professora, a Socorro, da qual gostava muito. Hoje nem sei que matéria ela ensinava. FundIber? O que seria isso? Tive outra, Maria Arminda, que passou por minha vida um único semestre, mas me deixou um presente para a vida toda: Marcel Proust. Tive uma professora, chatinha, tentando me ensinar complemento nominal. Era de uma sofisticação bizantina, o argumento dela. Mas ensurdeci e continuei sabendo apenas o que o Ivan Alves, o extraordinário professor do cursinho, me ensinou. Aprendi direitinho com ele. E com o Manuel Maurício, mefistofélico, incrivelmente provocador. Eu o adorava. Assim como adorava a Marlene e suas aulas sobre Drummond, a quem, por sua vez, ela adorava. Parecia o próprio poema: Lucinha adorava Marlene que adorava Drummond que estava namorando sei lá quem, o que me deixou chocadíssima o dia que descobri. Era como pegar meu avô em flagrante de adultério! Sofri com isso. Depois perdoei. E mais depois ainda, entendi. Juventude é muito radical e moralista.
Mas chega de divagações. O romance de Puig foi me arrastando por memórias desalinhavadas, quase que me afogando. Volto a ele para dizer que minha teoria da cor do baton e da palidez das ideias só deve ser aplicada nos palcos iluminados da vida. Sempre que alguém se postar num palco e tudo o que se notar for a cor do baton, é sinal de que as ideias são anêmicas, transparentes, minguadas… Na nossa humana experiência, no dia a dia, no cotidiano fugaz, um baton vermelho tem muito a contribuir com nossa realização. Minha querida Helena, a musa dos 90, não sai sem um batonzinho. E insiste para que eu o use, também.
Hoje de manhã, quando saí para caminhar, não passei baton, não. Mas devia de estar com a boca mais vermelha que o costume, pois fui notada. Primeiro uma gracinha – e só os homens que achamos feios e inapelavelmente sem graça soltam gracinhas… Depois olhares. Fiquei meio encucada. Achei que estava com alguma coisa estranha na roupa, ou no rosto. Mas me olhei no espelho e estava normal. Deve ter sido o casaco, fechado até em cima, que me protegia do frio. Depois que abri o casaco, ninguém mais me olhou. Amanhã irei de baton. Vermelhíssimo!

Saturday, July 23, 2011

Quase um mês!

Nossa, quase um mês de abandono de Blog. Será que isso dá demissão por justa causa?
Please, não me demitam! Quero continuar postando minhas historinhas, meus comentários sobre meu cotidiano pequenino e ter, assim, a impressão de que tudo se amplia, que minhas fronteiras não estão aqui no menor quartinho de minha casa, onde coloquei meu escritório.
Neste último mês viajei muito. Fui para a FLIP, assistir o meu ídolo, Antônio Cândido, falar – e muito bem– de outro ídolo: Oswald de Andrade. Foi a Flip Antropofágica, e eu não podia perdê-la, com essa comunhão temática com a tese que defendi no dia 18. O Banquete: uma degustação de textos e imagens.
Em minha cabeça cheguei mesmo a escrever alguns posts, um para defender minha nova e sensacional descoberta: quanto mais forte a cor do baton, mais pálidas são as ideias. Só que isso já passou, ninguém lembra mais de nada que se passou na Flip, só que o mãe quer procriar com o Chico Buarque (ou seria com o Caetano?) E eu embarco numa ficção científica que reescreve músicas: "E agora me pergunto com que útero que eu vou abrigar o espermatozóide que você me confiou"…
Bem, estou de volta. Pouco a pouco desenferrujarei dedos e ideias. Quero voltar a escrever minhas histórias, que me dão tanta alegria.
E, para quem possa estar curioso, sim, a tese foi aprovada! Doutourei-me. Coisa mais esquisita, esse verbo!

Tuesday, June 28, 2011

92 primaveras

Chavão, chavões!… Só que no caso da Helena os chavões ganham uma realidade que os justificam. Ela fez aniversário no domingo passado e ontem fiz um chazinho, com bolo e outras guloseimas para aquecer a tarde fria. Ela chegou no seu manteau vermelho (ainda existem "manteaus", com perdão do mau plural) e foi ela quem nos deu presente.
Reproduzo aqui o verso que ela trouxe para nos ensinar a como viver numa perene primavera:

Pour faire le portrait d'un oiseau

Peidre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger…
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre des longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
La vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom
dans un coin du tableau.

Jacques Prévert

Decididamente, Helena pode assinar o retrato do pássaro que é sua alma.

Monday, June 27, 2011

Violência e paixão

Estou abusando dos títulos de filmes aqui no blog. Mas é uma espécie de homenagem que presto. O filme do Woody Allen me agradou, mas foi num nível superficial, num nível de reencontro com amigos numa festa. A gente fica feliz de ter encontrado com eles, mas o papo não é profundo, não existe uma verdadeira satisfação intelectual. Mas é tão bom, que a gente fica querendo ir outra vez à festa, para começar tudo de novo. Portanto, assumo que gostei do Minuit e que quero voltar a vê-lo mais uma vez e que, depois, sempre que o reencontrar por acaso numa tv da vida terei prazer em assisti-lo. E por isso escrevi um conto (está no Histórias Possíveis) chamado Paris, meio dia. Também é um passeio carinhoso, cheio de saudades recentes.
Violência e paixão, do Visconti, é um daqueles filmes que nos atropelam e nos deixam estonteados na beira da estrada, sem sabermos bem o que nos nocauteou. Visconti tem uma característica encantadora: seu detalhismo. A gente pode reassistir seus filmes vezes sem conta, e decidir: hoje vou prestar atenção na trilha sonora, ou no vestuário, ou nos cenários, ou nos diálogos, ou na iluminação, ou… Seja lá o aspecto que escolhermos, vamos ter muito para digerir, e pensar, e nos encantar. Meu favorito de todos os tempos é O Leopardo, onde tudo é perfeito. Me contaram que, dentro das gavetas das cômodas do palácio, Visconti tinha guardado roupas de época que sua produção penou para encontrar. Eram não apenas vestidos e fraques e uniformes verdadeiros, mas roupa de cama, bordada e brasonada, rendas, toalhas de mesa, roupas de baixo, tudo como se o palácio estivesse habitado. Um dos produtores, exasperado com as buscas, desabafou: Para que isso? Afinal, quem vai saber o que está dentro das gavetas? Elas não vão ser abertas! E o Visconti, impávido: Eu saberei!
Ele sabia e nós é que lucramos. A gente quase que pode sentir o fedor do corpo em decomposição, perturbando a reza daqueles nobres em sua hora de angústia. É preciso que tudo mude para continuar a mesma coisa (essa é minha paráfrase), a frase com que Salinas instrui Tancredi é de um cinismo e de uma sabedoria inesgotável. A gente quase que pode escrever um tratado a partir daí.
Este Violência e paixão tem uma outra proposta. Tem um encantamento e uma doçura que tornam a violência ainda mais contundente. Tem essa coisa indefinível que não consigo nunca exprimir bem o bastante, que é o olhar meio alheado do intelectual, que olha de fora mas deseja o que vê, e não percebe que faz parte daquilo tudo. Ele se julga alheio e não percebe que é uma das partes fundamentais do jogo do poder. Acha que sua mente e seu julgamento estético, ou sua racionalização e imparcialidade o protegem. Ledo engano! Ele está envolvido até o âmago, e é cúmplice de tudo. Mesmo quando se retira.
Ao contrário do Il gattopardo, os cenários não são naturalistas: Cada vez que a janela se abre a paisagem mostrada é exagerada, os detalhes barrocos se transformam em monstruosidades góticas e diminuem as dimensões humanas – joguetes. A cópia restaurada, segundo o anúncio do jornal, "resgata a música da iluminação" - frase de efeito meio boba, em minha modesta opinião, mas que serviu para que eu tentasse observar algo sobre a mesma. Confesso que não tenho sensibilidade para tanto. Olho mais o andamento lento da câmera, que contempla amorosamente rostos e corpos, mas passeia rápida e fugazmente sobre os livros e obras de arte colecionadas pelo protagonista. Percebo a proximidade com que ela passeia dentro dos aposentos do professor, e sua distância teatral no belíssimo apartamento moderno e claríssimo da duquesa. Escuto as explosões, repetidas e realçadas, e perco os acordes das músicas clássicas, perturbadas pelas canções modernas. Invejo roupas, tão lindas, meu Deus! Me admiro com os olhares, límpidos ou amorosos, ou absolutamente terríveis. Sinto o gosto do sangue derramado…
Não sou crítica de cinema, mas adoro assistir coisas boas. Esse é um dos filmes mais lindos de Visconti. Tão lindo que não consegui assistir outro durante todo o fim de semana prolongado. Sinceramente, não dá para rever Minuit depois desse. Ontem à noite, dei uma olhada num do telecine, A missão. Belo. Mas parei de me interessar ainda no início. Ainda preciso de tempo para voltar a ver outros filmes…

Monday, June 13, 2011

Minuit à Paris

Não vou falar do filme, vou falar dessa minha passagem para o último dia, e minha ansiedade em determinar o que fazer nas últimas horinhas. Bem, de manhã, vou precisar arrumar os livros. Sim, os livros, pois vim com uma malinha de mão de roupas e volto com a mesma malinha de mão de roupas. Em compensação, tenho um saco daqueles enormes cheios de livros. E de um jogo de cama, pois assim poderei "dormir em Paris" quando desejar. Espertinha, né? Meu quarto vai ficar lindo, muito parisiense! Vou borrifar o ar com um cheirinho de lavanda e pronto! Sonharei que estou em Paris. No entanto, já contei e já repeti que não sonho. Eu sei, sonho, mas não lembro, portanto é como se não sonhasse.
Depois, já decidi: Vou passear pela Île St. Louis e pelos Champs Elysées. Ainda não consegui passar pelo Rond Point, para checar as flores! Depois volto para pegar as malas e vou para o aeroporto. O voo sai tarde, acho que 11:20 da noite. Vou ter que jantar no próprio aeroporto. Se eu tivesse um remédio para dormir, eu tomaria, para ver se consigo dormir. Mas não tenho. Vamos ver se consigo descansar um pouco. Sinceramente, prefiro os voos diurnos. Leio, vejo filmes, converso, escrevo e, ao chegar em casa, posso ir dormir numa posição confortável, deitada, banhada, cheirosa e vestida com roupa de dormir. Um luxo!
Bem, agora que já decidi, vou ver se consigo dormir.
A gente volta a se falar no Brasil.

E viva Santo Antônio!

Esqueci de comemorar o santo, que de tão poderoso virou o "santo casamenteiro"! Mas, como diz minha querida amiga Cris Nadruz, bom mesmo é São Gonçalo do Amarante, que não arranja marido e sim…amante.

E lá se vão os dias…

Os dias passam, mas a chuva não. Ela vai, mas volta e, quando cai, é gelada. Não tem jeito, o verão em Paris é muito frio, mesmo! Nisso os dias vão passando. Ir a museus, desistir de ir a museus por causa das filas extraordinárias, caminhar pelo Marais e ver o incessante vai e vem de pessoas, ficar sem coragem de passear pelos Champs Elysées, imaginando "la foule", passear pela beira do Sena, passar e repassar pela Tour Eiffel, que acaba se tornando um objeto de reflexão. Quando a gente se aproxima dela, suas proporções impressionam, as torções impressionam, as fundações enormes nos obrigam a pensar: como é que construíram isso pensando que seria provisória? A ideia desses homens do passado era diferente da nossa, ou o tempo era diferente do nosso, de outra qualidade, mais denso. Estou como Clarice, sem saber como dizer as coisas, tateando. Ontem, passei em frente à Trinité. Enorme, com sua torre central, escadarias, jardins, estátuas, nichos, decorações, e, surpreendentemente construída em 1860 - o que a faz muito nova em comparação com as outras igrejas de Paris. As dimensões impressionantes a aproximam da Torre, que foi construída unas décadas depois. Mas essa é a época da Paris que nos impressiona: Haussmann, derrubando tudo e abrindo largas avenidas e boulevares, nos lugares das antigas muralhas. Napoleão, com seus arcos de triunfo e os obeliscos trazidos de "souvenir" do Egito. Acho que mais de metade das ruas de Paris (é um chute exagerado) tem nomes de batalhas: Iéna, Marengo, Austerlitz, sei lá que mais. Ou de generais, os herois do tempo de Napoleão. O Champs de Mars, com sua Escola Militar, enorme, rodeada de praças e de bistrots ( dos oficiais, da escola, da batalha etc). Paris se sustenta entre a luta e a fé. Existe a Sorbonne, é verdade, que nasceu católica. Mas a Sorbonne não tem a monumentalidade dessas outras construções, está imprensada entre as ruelas do passado medieval, vestígios da mais antiga Paris, quase que ainda de Lutèce. Esta parte de Paris, labirintica, é parecida com Roma. E aí a gente vê um contraste: a monumentalidade em Roma está na antiguidade, na Roma Imperial. Aqui a monumentalidade também se deve ao Império, só que este ocorreu no século XIX. Não que não houvesse construções magníficas e monumentais em outra época, claro. Notre Dame, o Louvre, outras igrejas e palacetes, mas elas não possuem uma perspectiva, um espaço que convide o povo a se admirar delas. Só Versailles, que não está em Paris, no entanto. E o Louvre, que ganhou sua perspectiva a partir do eixo dos Arcos triunfais.
Bem, seja nos parques, seja nas ruelas, Paris e Roma nos encantam e surpreendem, e nos fazem pensar nos caminhos e desvios da História.

Friday, June 10, 2011

Frio e chuva

Frio e chuva não tornam Paris menos apetecível. Esta é uma dessas cidades que o gris torna mais atraente, mais definida. As ruas, molhadas, ganham um brilho de aço, cortante, e os instantes de sol (afinal, o verão já está aí, batendo à porta) fazem as pessoas levantarem seus rostos, de olhos fechados, se entregando, amorosos, às promessas de bom tempo. As árvores sacodem gotas geladas sobre os passantes, os garçons entram e saem com suas cadeiras, a cada mudança de tempo. Os turistas, em hordas, invadem as lojas de quinquilharias, ou desfilam seus hediondos ponchos de plástico por entre os monumentos da cidade. Aproveitei para ir ao cinema, mais uma vez. Fui ver o documentário do Wim Wenders sobre Pina Bausch. Que linda homenagem! Que pessoa interessante ela foi, e que companhia excepcional ela criou. Deve ter sido uma experiência muito intensa trabalhar com ela, que nunca dizia aos outros o que fazer. Num dos depoimentos, a dançarina fala isso, e depois diz: Ela só dizia que eu precisava continuar tentando! E conclui: e assim eu continuei tentando, sem saber para onde estava indo, nem se estava indo na direção certa. Bem, devia estar indo. Afinal, ela continuou com a Pina por mais de 20 anos. Isso é uma outra coisa que chama a atenção: os bailarinos passaram a vida juntos. Uma delas nasceu praticamente no palco, filha de dois deles. Quando ela fala, diz: Não sei o que é a vida sem a Pina. Outra diz: Por 22 anos Pina sentou-se naquela mesa e me olhou atentamente. Ela me conhece mais do que os meus pais.
Como se fosse uma força da natureza, Pina usava terra e água em seus espetáculos. Às vezes o resultado era lírico, forte e vital. Às vezes era violento, muito violento. E os objetos que ela usava poderiam se transformar ora em obstáculos ora em ferramentas para a liberdade. Outra coisa, eram as repetições, os mesmos gestos se repetindo obsessivamente, como se estivessem criando uma linguagem nova, ou num outro extremo, como se estivessem aprisionando as pessoas.
Bem, agora vou ler. O hotel em que estou hospedada está sendo reformado e o cheiro de tinta me deixa inquieta, impaciente. Vou ver se a leitura me distrai.

Thursday, June 09, 2011

Paris, encore

Ontem escrevi um post, publiquei fotos, e, de repente, Zut! Tudo sumiu. Seria um sonho? Agora não tenho tempo para escrever, nem para colocar as fotos de novo. As máquinas estão se rebelando contra mim: meu telefone celular há dias que resolveu parar de funcionar. E agora?Hoje chove e faz muito frio em Paris. Mas o hotel está em reforma e prefiro a chuva e o frio ao cheiro de tinta. Vou passear, e mais tarde, quando voltar ao hotel, vejo se consigo escrever mais um pouco.
Au revoir!

Tuesday, June 07, 2011

Recantos


Alguns recantos escondidos de Paris me deixam encantada. A gente vê uma porta aberta e encontra um pátio, ou uma escada curvando-se suavemente para ambientes que a gente não conhece, mas que sonha que são magníficos.
No meu primeiro dia em Paris, tirei a foto desta escada. Um pátio, que levava a uma lojinha de curiosidades, já não me lembro bem de que era a loja, mas tinha a ver com cozinha… Desculpem. logo à esquerda esta escada, cuja suavidade dos degraus e da sua curva nos convidam a subir. Ao fundo do pátio, uma árvore carregadinha de nêsperas, e, embaixo da árvore, uma estátua de bronze de um viado. Tirei foto de tudo, mas o blog não aguenta tanta imagem. Fiquei com a da escada, que nos eleva.
No dia seguinte, lá fui eu flanar perto da Notre Dame. Tinha até escolhido uma imagem dela, de um ângulo mais inusitado. Mas acabei optando por um poço abandonado ao lado da igreja de Saint Julien Le Pauvre..
Repito: ao lado de St. Julien Le Pauvre. Mesmo abandonado, um poço ainda é uma promessa de água, para nos dar vida e sustento. Fiquei com estas simbologias tão positivas e imagens que adorei.
Gosto destas lembranças assim, só minhas. Vou pela cidade, lembrando: aqui recebi um telefonema de uma amiga, que não sabia que eu estava viajando, aqui senti pena de uma mendiga cujo cheiro forte me impediu de examinar o mapa do ônibus. Ali sentei para descansar, e fiquei conversando com o Gui sobre o que se come no paraíso. E por aí vai. Beber água numa determinada fonte, marcar com alguém para se encontrar num determinado lugar, preferir um determinado cinema a outro, são essas pequenas coisas que fazem das cidades e dos lugares alheios, recantos cheios de lembrança. Criamos uma geografia sentimental que se superpõe aos mapas e gps. A gente sabe ir a tal lugar porque passa por uma árvore que sempre está florida nesta época do ano. E come em tal restaurante porque era ali que seu amor gostava de comer uma sobremesa especial. E dá a volta no quarteirão só para ver um portãozinho de ferro batido que você acha lindo. Por isso volto a Paris, e cada vez que volto entesouro mais coisas que farão da Paris de todos, uma Paris toda minha, especial.

Sunday, June 05, 2011

Flanando em Paris

Uma viagem não planejada a Paris me fez chegar à cidade completamente sem ideia do que fazer. Mas, entre comprar os tickets e chegar aqui, dediquei todo meu tempo a outras coisas urgentes que me exigiam atenção, e só comecei a aproveitar a viagem no aeroporto. Houve um tempo (já contei isso) Que os aeroportos me deixavam nervosa e brigona. Agora aprendi que são nosso óbulo de Caronte. Temos que pagar para chegar à outra vida.
Essa minha outra vida daqui está sendo muito boa. Paris e Leblon nos convidam a andar. Dá prazer ver e rever as mesmas lojas, sorrir para os mesmos garçons que nos trazem delícias sempre renovadas. Ficamos na dúvida entre um e outro restaurante dos já conhecidos, mas aí aparece uma amiga e nos leva a um outro em que nunca fomos antes, e adoramos. Hoje almocei no Tea Caddy, em frente a uma igreja lindinha, antiguinha e simples, e que agora é ortodoxa, a de Saint Julien Le Pauvre. (Será que existe um Saint Julien Le Riche? ) Pertinho ali da Rue Galande, onde existe um cineminha que é uma graça: o bilheteiro é faz tudo: vende os bilhetes, recebe os ingressos, faz a pipoca (mentira, aqui não tem disso, graças a Deus!), mas é ele quem projeta o filme. E depois faz a limpeza da sala. E a gente espera na rua, com toda a calma. Depois é só andar um quarteirão a atravessar a ponte para a Notre Dame. Passei por lá hoje, mas nem ousei entrar. As filas eram quilométricas.
Fui assistir à missa em St. Nicolas, uma missa cantada, com órgão maravilhoso, coral e orquestra, e ainda direito a barraquinhas, vendendo desde livros a guloseimas.
Depois me deixei tentar por teatros que exibem, há mais de 50 anos (sei lá, não sou muito boa em matemática) as peças de Ionesco. Aliás, vi um cartaz com Einstein falando que não devemos reclamar de nossos problemas com matemática; os dele são (eram) muito maiores que os nossos.
Il pleut. Depois de um ótimo dia, de repente os trovões e agora a chuva. Mas estou de partida. Espero que no meu destino o tempo esteja bom.
Vou fazer as malas.

Tuesday, May 31, 2011

Assiduidade

Ando feliz, com esse tempinho que arranjei para escrever, de manhã… Colocar em palavras alguns pensamentos desconexos, olhar para o mar, ler o jornal. Talvez não seja uma vida plena, mas me satisfaz.
Ontem, na aula, estava comentado que procuro sair cada vez menos. Gosto, sim, de sair, mas talvez isso seja alguma coisa genética. Na minha família havia muitas reclusas. Parentas que não saíam mais de casa, não sei por quê. Outras que passavam dias inteiros trancadas em seus quartos. Outras que, além de não sair, não falavam com ninguém. Nossa, parece uma família de depressivas irrecuperáveis, mas não era bem assim. Eram pessoas alegres, sorridentes. Pode ser que uma ou outra estivesse deprimida, mas não pareciam. Talvez a que não falasse com ninguém não estivesse lá muito satisfeita. Ou talvez ela não falasse só comigo, uma criança, por falta de assunto. Como, do alto de seus oitenta e tal, ela podia falar com uma pirralha mimada de 6 ou 7? E depois, como, aos 90, ela ia entender as mudanças de humor de uma adolescente?
Uma vez, muitos anos depois disso, conheci uma senhora linda, não estou brincando, elegante, fina, com 95 anos. Estava morando nos EUA e fui a um chá na casa de uma amiga inglesa, cujos chás nunca mais vou esquecer. Chá inglês, com sanduíches de pepino, tudo tão perfeitamente inglês! Mas, volto ao assunto, chegou uma amiga da inglesa com sua mãe, de 95 anos, que parecia mais nova do que a filha. Se bobear, parecia mais nova do que eu, que tinha idade de ser filha da filha. Fiquei fascinada, rodeando em volta dela , doida para saber o seu segredo. Muito digna, ela me disse que tinha feito "o tratamento" com a Dra. Aslan. Isso era uma coisa de que eu já tinha ouvido falar, diziam que o Roberto Marinho também tinha feito, essas coisas de milionários que iam para a Romênia e nunca mais envelheciam. Eu fiquei deslumbrada, achei que era uma maravilha, e que ela devia estar contentíssima por chegar aos 95 daquela maneira, saudável, linda, e ia continuando no meu entusiasmo sem limites quando ela me interrompeu, me olhando bem nos olhos, com o olhar mais triste que já vi, e disse: Não há nada mais triste. Não tenho mais nenhuma amiga, todas já morreram. Estou condenada a ser amiga das amigas de minha filha e… Ela não precisou terminar. Estava claro como água.
Ia agora falar sobre uma porção de baboseiras, sobre educação e vida interior, mas não era disso que se tratava. Ela reclamava de solidão.
Termino com uma nota alegre. Tenho uma outra amiga, agora, que está chegando, daqui a alguns dias, aos 92. Essa é minha amiga, companheira de viagens, alegre e cheia de planos, nada solitária. Ela sempre diz: sei conviver muito bem comigo mesma. Será esse o segredo? Aprender a conviver com si mesma – gostar da própria companhia, e não esperar dos outros um entretenimento que nem sempre eles podem nos dar. Fazer amigos de diversas idades, continuar acreditando em ideais, fazer planos para o futuro que ainda existe sim, embora o Jabor hoje esteja falando de um eterno presente. Sai dessa, amigo! O amanhã vem trazendo viagens e surpresas. E boas notícias. A Alemanha decidiu acabar com todas as suas usinas nucleares. Existe futuro e existe esperança!

Monday, May 30, 2011

Angelina e eu

Abro o Facebook e vejo uma mensagem me aguardando: Angelina Jolie faz anos no dia 4 de junho! De onde será que esse FB tirou a ideia de que tenho algum interesse em Angelina Jolie?! Nem sequer compartilhamos o mesmo signo de horóscopo… Muito menos os lábios. Nem a silhueta. Mas, já que o FB faz questão de me avisar, aqui fica minha mensagem de parabéns para ela. Imagino a bela abrindo o seu Facebook e descobrindo uma mensagem falando do meu aniversário. Seus olhos verdes, espantados, fixarão meu nome, tentando lembrar se algum dia ela conheceu alguém no exótico Brasil. Sua boca, inchada, se fechará num biquinho que vai deixar o Brad enciumado: "Para quem você está fazendo biquinho no computador?" – ele perguntará, fazendo sua cara de bastardo inglório. Ela vai dizer, com toda a propriedade: "Para ninguém!"
E eu, inocentemente, serei o pivô de uma rusga que, espero, termine em beijos e reconciliação.
Desculpe, Angelina. Nunca foi minha intenção me intrometer entre você e o Brad. A culpa é do Facebook, que, por alguma misteriosa razão, resolveu nos unir.
Para que estas mensagens aleatórias? Só para estimular minha curiosidade e ver quem mais nasceu neste dia. Pasmem: Adib Jatene, Antônio Ermírio de Moraes e Hugo Carvana! E então? Esses ao menos são brasileiros, por que é que não me avisaram deles? Na história, encontro Philippa de Inglaterra, nos idos de 1394. E também o duque de Lorraine. Será que foi ele quem inventou a quiche? Rei George III. Acho que era o maluquete. Algum escritor? Em 1907 nasceu Patience Strong, poeta e jornalista inglês. Que nome! E nem assim tinha ouvido falar dele antes… Ah! Cesar Bolanos, em 1931. Mas não é o escritor, que se chama Roberto. Este é um compositor.
Volto para a Angelina. Pelo menos esta tenho a sensação de conhecer. Sei como é o seu rosto, sei com quem está casada, perdi a conta de quantos filhos tem, mas sei que são muitos. Não lhe vão faltar parabéns no dia de seu aniversário. Espero que a data seja muito feliz. Nem vou me preocupar em mandar um cartão.
Mas, já agora, aproveito para dar parabéns para a Katia Gerlach! Que você e todos os seus companheiros de data tenham um lindo aniversário, que muitas felicidades venham amenizar seu novo ano, saúde, paz e alegria! Meu abraço, querida! E viva o dia 4 de junho.

Sunday, May 29, 2011

Frio no Rio

Meus amigos estão todos comentando: que frio é esse? Concordo, está frio, mas gosto tanto… Tiro casacos e cachecóis do armário, ponho as botas, redescubro o prazer de uma taça de vinho… E como tem vinhos bons agora no Brasil! Qualquer vinho em taça, num bom restaurante, é saboroso e agradável. E eu, agora, que descobri que sei alguns nomes de uva, finjo conhecimento e pergunto: Você teria algum Malbec? Ou Carmenère? E me sinto muito chique.
Mas, voltando ao frio: aproveito a temperatura e a chuva para ficar em casa. Leio, escrevo, faço resenhas… Me angustio, nervosa, ao ver que me distraí e marquei duas coisas no mesmo dia. E agora? Volto aos livros, aos escritos. De repente, me dou conta de que estamos no fim do mês. Coisa chata, tenho que pagar contas, perder tempo digitando aqueles números intermináveis dos boletos. Socorro! A pilha de livros, ao meu lado, é enorme. Não posso guardar ainda os livros da tese. Nem os de Rimbaud. E tem aqueles que quero mandar aos amigos. Humm, aqui faz falta uma lareira. Bem, seria agradável sentar à beira do fogo, bebericando um vinho e lendo… Na verdade, não seria, não: sou alérgica, o fogo me faz mal. Nunca me dei bem com lareiras, embora ache-as lindas.
Alguém me propõe "fondue". Não, obrigada. Minha comidinha de inverno é sopa. Adoro. Volta e meia vou a Argumento tomar uma sopa de cebola, ou uma de abóbora. Outras vezes, vou até o Garcia e tomo uma de couve-flor. Delícia. Ou faço em casa boas sopas de legumes, caldos verdes, canjas, sopas de ervilha. Sei fazer boas sopas.
Nesta época do ano há uma outra coisa que adoro: festas juninas. São as minhas preferidas! Aquelas iguarias à base de milho me deixam com água na boca. O próprio milho cozido já é uma comida dos deuses. Quentinho, salgadinho, que delícia. Bolo de aipim, pamonha, churrasquinho, paçoca. Tem gente que aprecia o quentão. Para mim, é muito forte. Mas aceito um vinho quentinho, com canela. Não sei como se prepara, quem fazia era minha amiga Gabi, alemã, que preparava essa bebida tão cheirosa e reconfortante. Ai, que saudades de Angra! As festas de casamento na roça, as pescarias, a quadrilha que nunca aprendi a dançar. Minha avó ensinava simpatias: a da casca da laranja, a da clara do ovo, a dos papeizinhos na água. Nunca funcionaram! Gostava mais do correio amoroso, pois sempre recebia uma declaração de amor. E sempre enviava uma, marcada com um beijo de uma boca pintada de vermelho forte, cor da paixão.
Me admiro de lembrar: um dia meu coração já bateu apaixonado. Todo meu corpo vibrou, na antecipação de um abraço. E agora, que fim levou aquele corpo vivo, meu sangue agitado, meu coração? Há de ter caído na fogueira.
Agora sou apenas uma estrelinha, brilhando friorenta, sorrindo com as lembranças. Mas não vou lá, não vou lá, não vou lá… Tenho medo!

Thursday, May 26, 2011

Um coração imóvel

Ontem fui ao lançamento do lindíssimo livro da Rosa Strausz, O herói imóvel. Ilustrado pelo meu querido amigo Rui de Oliveira, só podia mesmo ser lindíssimo. Mas, o livro me tocou por causa de sua história triste: a morte de um pai, narrada por seu filho. Um pai que soube, antes de morrer, deixar ao filho uma lição de esperança.
Nas ilustrações, toda a poesia dos olhos medievais do Rui, o que transformou a história da luta contra a doença em maravilhosas cenas de contos heroicos.
Imagino uma outra história, de uma princesa cujo coração fica imóvel, levado por um cavaleiro que partiu para um outro país. O Cavaleiro e a Princesa se amavam, e, quando ele precisou partir, a Princesa colocou seu coração numa caixa de madeira, com fechos de ouro, entre algumas flores e escondeu-o entre os pertences do Cavaleiro. Para que não desconfiassem que seu coração já não estava mais dentro de seu peito, e para que não vissem sua cicatriz, a Princesa colocou dentro do peito um relógio, que marcava o tempo em que eles estavam separados, e passou a usar véus que a escondiam e transformavam… Bem, é uma história triste, e sem esperança, ao contrário da contada pela Rosa, que optou pela vida. E por hoje vou ficando aqui.

Tuesday, May 24, 2011

Uma sociedade sem regras

Já há dias que ando engasgada com isso, tudo o que leio (superficialmente, pois não tenho tido tempo para muita coisa) nos jornais me mostra que estamos vivendo numa espécie de limbo onde não se admitem mais regras para nada.
As leis viraram "facultativas", as normas são ignoradas, as regras gramaticais são meras sugestões… Onde é que vamos parar? Será que todos se esqueceram que, para que uma sociedade exista, são precisas as regras? Pode parecer "careta", mas é necessário parar para refletir: estamos tão liberais, tão descolados, que nosso próximo passo só pode ser a aniquilação.
Não temos uma "lei", ou seja lá o que se chame, para o problema do desmatamento; resultado: cada vez se derrubam mais árvores. Não temos uma "lei" para o uso de conduções públicas: no metrô, as portas se abrem e uma verdadeira parede humana nos impede de sair do vagão, uma vez que não se respeitam as leis da lógica que ensinam que é preciso deixar um espaço para quem quer sair na estação; nos bancos, os desenhos de sentido da fila no chão são interpretados como uma mera decoração, e a fila impede o acesso a outros serviços. Na grámatica, as regras de concordância viraram discriminação: o professor que corrige está discriminando o aluno menos favorecido… Ora bolotas!
Criamos regras para podermos viver em sociedade. A gente convenciona que é preciso parar nos sinais vermelhos, então, para evitar acidentes e engarrafamentos, devemos obedecer essa convenção. Mas aí começa nossa indisciplina: justificamo-nos falando que é perigoso parar no sinal, que nossa velocidade nos impediu de parar no semáforo que mudou de repente, inventamos mil razões para não parar. O sinal fica vermelho, mas o carro avança, pois já é a segunda vez que ele abriu e fechou e o distinto motorista não conseguiu passar. Ele não entende que isso só acontece porque algum espertinho resolveu romper a regra e que se todos insistirmos nisso vai chegar o dia em que ninguém vai a canto nenhum. Pois, por exemplo, o ônibus que diz que vai para o Castelo, pode resolver naquele dia, ir para o Recreio. Afinal, é muito chato fazer sempre o mesmo trajeto. E os carros, cansados de andar na rua, podem optar por passar pelas calçadas e provocar mortes em série. E o governador eleito para o Rio de Janeiro pode preferir ir governar São Paulo e entrar em disputa com o que foi eleito para lá, estabelecendo um governo paralelo. E o redator do jornal pode decidir que não gosta mais da palavra vida, e substituí-la por salada, e o editor pode fazer como o Visconde de Sabugosa e surripiar o "ão", acabando assim com nosso fracote não (Caetano, finalmente será obedecido já que ficará proibido proibir).
Precisamos de regras e de leis, se quisermos continuar vivendo em sociedade. Precisamos das regras de etiqueta, de nos cumprimentarmos com gentileza, de aceitarmos a ideia de que nossos direitos terminam quando os dos outros começam. Não posso forçar que meus vizinhos tenham que escutar FUNK toda vez que me der na telha escutá-lo. Nem devo furar fila, nem jogar papel no chão. O lixo deve ser colocado no lixo, e não na jardineira do edifício. Não podemos estacionar em fila dupla, pois impedimos a passagem na rua, que é pública. Quando algum governante manda plantar uma mudinha de planta que achamos bonitinha, é para deixá-la ficar no canteiro, e não para arrancá-la e levá-la para nosso sítio. E quando o próximo nos irritar, não é para estapeá-lo sem piedade, é preciso ter a humildade de ver quem é que está mesmo errado, se somos nós com nossa buzina ou se o carro da frente pifou e precisa de reboque. Vamos combinar? Se até para jogar cartas é preciso aceitar as regras, por que é que não podemos ver que elas beneficiam a todos? Mas, se alguma regra for boba, ou exagerada, se os costumes mudaram, se as necessidades são outras, podemos aprimorar o que está falho e melhorar nossa convivência. É sempre possível nos divertir na companhia dos outros, e o trabalho em conjunto é sempre mais leve...
Agora que desabafei, estou me sentindo igualzinha… Devo estar com um cartaz de CRI-CRI colado na testa. No entanto, gosto que meus amigos saibam que vou chegar na hora marcada, que vou cumprir os prazos, que não vou levá-los em casa dirigindo pela contramão, essas coisinhas básicas.

Saturday, May 14, 2011

TESE

Eis que chego aos últimos detalhes da minha tese. Uma reunião com a orientadora, levando o projeto que deveria estar completo mas que tem problemas na bibliografia. Céus, será que eu não podia ter prestado mais atenção na hora de fazer as citações?! E agora? Vou ter que procurar páginas, datas, reler, esmiuçar, catar… Será que ainda consigo?
Isso tudo se minha orientadora não mandar mudar alguma coisa. Mas esta parte não me desencoraja, é o aperfeiçoamento, a sintonia fina. O chato é esse trabalho para o qual minha atenção nunca esteve equipada, as ordenações, os detalhes de formatação...
Bem, neste fim de semana, continuo em casa, trabalhando. Desculpem o sumiço, mas não dava para sentar ao computador e fazer outra coisa que não fosse tese…
Penso em amigos meus que escreveram, prolixos, 500, 600 páginas. Sou contista até na hora da tese, percebo. Reduzo, corto, e chego a meras 160. Está de bom tamanho, acho eu. Mas, vamos ver o que pensa a minha orientadora. É dela a palavra final.

Saturday, April 30, 2011

Na manhã seguinte

Os sinos já não tocam,
na manhã seguinte.
Os sinais da festa se espalham
pelo chão.
Restos.
Nenhuma trombeta,
nenhum casamento real,
só a vida real.
Real?
Abro os olhos e vejo o céu.
Algumas nuvens se anunciam,
O sol, esquentando, não decide
se acaba com elas com um sopro
ou se deixa que, como gatos,
elas passeiem e adormeçam
em recantos improváveis.
Lá longe
outros olhos bem abertos
piscam ofuscados
com as luzes e as jóias.
O encanto dura até o beijo
de um príncipe.
Aqui meus olhos
procuram notícias de ontem.
A morte da filha do poeta
me assombra.
Aqui, tão perto?
Por quê? O que apagou
teu sorriso?
Sonho ou pesadelo
a vida…
Observamos,
contamos,
elaboramos.
Na manhã seguinte
o sol, indiferente,
não lembra mais
aquilo que testemunhou.
Ele segue,
ou persegue
uma nova promessa
de (in)felicidade.

Sunday, April 24, 2011

Páscoa em NY

A chuva tem me acompanhado nesta viagem, mas nem posso reclamar, pois, vez ou outra, ela fica com dó de mim e se recolhe. E aí volto a experimentar o encanto que é a primavera. Flores que brotam de um dia para outro, tulipas com suas corolas rosas, roxas, vermelhas, os daffodils (cujo nome não aprendo nunca em português), crocuses (outro que nunca sei o que é), narcisos, com seu perfume forte, jacintos, procurando sua imagem no espelho… E as árvores, floridíssimas, nuvens brancas, rosas de todos os tons, belas magnólias, outras árvores brancas, em pequenos ramalhetes, profusões de cores e belezas. Desta vez as flores tardaram a aparecer, mas hoje, domingo de Páscoa, elas estavam por toda a parte. Nas árvores bordejando as ruas, nos vasos de plantas, nos canteiros dos prédios, nos jardins da cidade, nos chapéus da Easter Parade, nas vitrines das lojas, nas próprias lojas de flores.
O sol abriu e todo o mundo saiu para se mostrar, em belas roupas, chapéus extravagantes, criações exclusivas ou massificadas, misturando-se aos protestos contra a homofobia. Durante horas nos divertimos, minha anfitriã, sua filha e eu, olhando cachorros vestidos como gente, gente vestida como flor, flores se agigantando em chapéus que se pretendiam jardins, pontes, cidades inteiras… Aqui e ali coelhos de Páscoa. Aqui e ali, deusas Floras. Aqui e ali figuras do passado, elegantes, distintas, tão elegantes e distintas que pareciam os convidados do casamento real que está por acontecer. No meio de tudo, músicos, marionetes, acrobatas. O ar se enchendo com o cheiro dos cachorros-quentes e dos pretzels. Um policial, a caráter, parecia fazer parte do desfile.
De bom humor, as pessoas desfilavam, paravam, sorriam para fotos. Finalmente, os jardins do Rockfeller Center, com seus coelhos em topiária, suas flores, convidando a um instante de descanso e a mais algumas fotos. Afinal, tudo estava tão bonitinho…
Numa rua lateral, uma senhora exibia suas belíssimas pernas envoltas em meias arrastão. Suponho que ela tenha sido corista da Broadway, quando nova… Duas irmãs, com presumíveis oitenta anos, exibiam elegantes chapéus, sentadas num banco do Central Park, descansando.
No zoológico, os bichos, encalorados, deitavam-se e olhavam a fauna humana que vinha visitá-los, exibindo cores inusitadas e roupas fora do comum. Algumas famílias judaicas circulavam de jaula em jaula, com suas roupas diferentes e seus cachos emoldurando os rostos avermelhados de calor. Um dos homens mais velhos, enorme de gordo, tão gordo que até a parte de cima de sua nuca era gorda, usava, ao invés de calças compridas, calções e meias, e uma espécie de bata de cetim. Sua cabeça estava toda raspada, com exceção dos dois cachos, também gordos, que ladeavam sua face. Era impossível deixar de notá-lo no meio dos outros.
No fim da tarde, a chuva veio dispersar a parada. Já em casa, escutei o temporal caindo, satisfeita de estar bem abrigada, e recordando o dia de ontem, passado com muita chuva, mas dentro de um teatro da Broadway, me divertindo com a Família Addams. NY é muito bom!


Saturday, April 23, 2011

Mais histórias de Chicago

No dia seguinte, fez sol. Um dia lindo, e fomos visitar o Art Institut. Destaques? A linda janela de Chagall, claro, que eu estava doida para ver. Os impressionistas, os Van Gogh, os arlequins de Cézanne e Picasso, lado a lado, e a instalação de Jitish Kallat, Public Notice 3, com as palavras de Vivekananda, em 11 de setembro de 1883, um discurso feito contra o fanatismo religioso. O mais estranho? A exposição de fotos de Peter Fischli e David Weiss, com salsichões e frios. Dejà vu? A expo Kings, Queens and Courtiers, embora, graças à leitura do Meu nome é vermelho, do Pamuk, os manuscritos iluminados tenham adquirido outro interesse para mim. Sempre gostei deles, mas desta vez tentava reconhecer estilos e detalhes, embora as iluminuras pertencessem a uma outra tradição.
Resumindo? Uma manhã de sonho! Além do mais, como o dia estava lindo e o frio (muito) era amenizado pelo sol, deu para ir caminhando e olhando os prédios, cada qual mais lindo. Rapidinho chegamos ao Millennium Park, e nos extasiamos. Ao chegar ao Bean, um feijãozão espelhado que reflete a arquitetura ao seu redor e faz dos passantes parte da obra, nos divertimos, procurando as melhores imagens. Vale mencionar também as fontes, que captam as imagens dos passantes, projetam-nas e fazem da boca de seus retratos a saída do esguicho.
Depois do museu, uma passadinha no Palmer House, arranha céu que abrigou a ourivesaria do Mr. Peacock (pavão). Muito orgulhosamente o Sr. Pavão mandou fazer uns portões com o dito pássaro, e esses portões estão avaliados em milhares de dólares. Hoje em dia o edifício é um Hotel e o Lobby, grandioso, o faz parecer um palácio, com sua decoração meio híbrida, com elementos decô, reminiscências de palácios rococó, uma grande orgia de mais de um milhão de dólares (valor da restauração). Depois? Visita ao escritor João Almino, que é também embaixador, e que está em Chicago. Demos sorte, pois ele estava de partida para a Itália, onde vai fazer uma série de palestras relacionadas a seus livros. João Almino foi absolutamente encantador. Terminamos o dia com um jantar com Susan Harris, editora de Words Without Borders, que é um dínamo, cheia de vitalidade e de ideias. Ela já tem planos para as revistas que vão sair em 2014! E, apesar de todo esse planejamento, ela se mantém muito alerta e aberta às mudanças, pois o mundo vive nos surpreendendo.
Sexta feira amanheceu chuvosa, fria, enevoada. Mas nós tínhamos sido chamadas para o show da Oprah, e lá fomos nós, debaixo de chuva e de frio, para o Harpo Studio. Lá chegando, assinamos um papel que nos comprometia a não revelar nada sobre o show, e que, uma vez assinado, dava a ela o direito de nossa imagem "para sempre" For ever, and ever. Lembrei-me do corvo: Quote the Raven: Never more… Lembrei-me de Fausto. Estaria eu vendendo minha alma ao diabo? E numa sexta-feira santa? Será que estou cometendo um ato ilegal falando sobre isso aqui? Então, vou parando, antes que seja tarde. Aliás, consta, que o Obama não consegue fechar a prisão de Guantánamo porque metade dos prisioneiros de lá é composta por membros da audiência da O. que não respeitaram a cláusula de No Disclosure. Então me calo.

Wednesday, April 20, 2011

Walking on air!

Passei por toda a cidade, num ónibus double decker que quase nos matou de tanto frio. Chicago, disse-nos o guia, é um nome indígena que significa cebolas fedorentas. Na beira do lago Michigan, as cebolas silvestres brotavam e quando chegava o verão, com a humidade e o calor, elas apodreciam e deixavam o ar mal-cheiroso. Mesmo assim, um caçador de peles francês, não se intimidou com o cheiro (afinal, eles têm uns queijos que devem cheirar pior que as cebolas) e aqui montou sua cabana de caça, que era abundante. Esta é a origem da cidade, que depois se transformou na maior cidade de poloneses fora da Polônia. O que será que eles viram aqui? Acho que a oportunidade de trabalharem no Meat Packing Business, que florescia por aqui. Era tanta a matança que o rio Chicago era vermelho e completamente atulhado de carcassas e de gordura, que estava poluindo o lago. Para evitar isso, eles reverteram o curso do rio. Fizeram umas comportas, cavaram o leito tornando-o mais baixo que o lago, et voilà! O rio, agora, ao invés de desaguar no lago, corre para o sul e, através de canais, vai acabar juntando-se ao rio Mississipi, e, portanto, suas águas acabam indo parar no Golfo do México.
Apesar de ventar muito por aqui, a cidade tem seu apelido de Windy City por causa de seus políticos, faladores, que pleiteavam pela localização da World Fair aqui na cidade, concorrendo com outras duas cidades do NE dos EUA. Falaram tanto que acabaram conseguindo que a feira fosse realizada aqui e fizeram do menosprezo de um jornalista novaiorquino, que disse que a cidade era "windy", ou seja, vazia, retórica, o seu próprio slogan: Venham para a Windy City e confiram a World Fair. Bem, estou simplificando tudo porque já está tarde e eu estou cansada, mas preciso contar ainda que o incêndio de Chicago começou na Zona Sul da cidade, que era onde moravam os ricos. No lado norte, moravam os pobres que se juntaram todos na margem norte do rio para apreciar de camarote os ricos se dando mal. Acontece que o vento estava soprando para o norte, e o rio que, supunha-se, ia impedir que o fogo se alastrasse para o lado dos pobres, estava atulhado de carcassas e gordura, acabou pegando fogo. The river is on fire! foi o grito de pavor dos pobres que acabaram sendo as maiores vítimas do incêndio. No lado sul os prejuízos foram pequenos e muita coisa se conservou. No lado norte, apenas duas construções se salvaram, a torre da água e a estação de tratamento. E um grande pedaço da parte norte acabou virando aterro do lago, e criando um novo bairro. Acho que a Torre Hancock está nessa parte aterrada. Se não está, está mesmo ao lado. Não subimos na Hancock porque eu estava determinada a andar no assoalho de vidro lá no 103º andar. Muito alto. Mas lá fui eu, andar no ar. Morri de medo, mas fingi que nem era comigo. Entrei no caixote de vidro dando marcha a ré, quase sem olhar para baixo. Mas depois olhei. E tenho fotos para provar.
Boa noite a todos, vou descansar.

Chicago

Cheguei ontem, debaixo de chuva e nevoeiro e o vento que dá nome à cidade. Primeira impressão? Chicago foi construída numa tentativa de alcançar o céu. Altos e e-nor-mes, os prédios minimizam tudo a seu redor, assim, refleteindo, vejo que o rio à beira do qual fica o meu hotel é muito largo, senão teria sido reduzido a dar a impressão de riacho. Edifícios enormes, avenidas larguíssimas, requerem, sem dúvida, muitos carros para percorre-las. Daí minha segunda impressão: os edifícios garagem que exibem seus carros numa aflitiva ameaça de que todos estão prestes a despencar. Estes edifícios, redondos, não possuem paredes externas e os carros estacionam mesmo na beirada. Deve ser preciso ter nervos de aço para manobrá-los e deixá-los ali, à mercê do vento encanado e da chuva ou eventual neve. Entendo agora a alegria do pessoal de Milwaukee, falando das garagens aquecidas… E lembro ainda da minha alegria ao subir uma escada rolante de lá e descobrir que o corrimão era aquecido. Vibrei de alegria e conforto. Bem, hoje vou aproveitar o dia sem chuva para passear e ver a famosa arquitetura da "cidade ventosa" (fica muito feia essa tradução de windy city). Mas está muito frio, e vou me aquecer no Museu de Artes e no Aquário. São esses os planos, depois conto se dá certo. Só mais uma coisinha para mostrar o gigantismo da cidade: meu hotel ocupa três quarteirões, interligados por passagens subterrâneas e aéreas. Estou na ala oeste, imaginem. Ainda bem que tem entrada separada!

Tuesday, April 19, 2011

Gaivotas

Cada cidade tem sua música e a que me embala aqui em Milwaukee é a dos gritos das gaivotas. Acordo com elas me chamando, voando em frente à minha janela (as minhas janelas, o quarto é tão grande que tem duas!). Preguiçosa, friorenta, abro as cortinas, pego o computador e volto para a cama, quentinha…Mas hoje tenho pouco tempo, daqui a pouco vêm me buscar: café da manhã, mais um passeio pela cidade, pelo menos até a Universidade Marquette, e depois, estação de trem, rumo a Chicago. Venho só para contar a vocês que meus encontros com os estudantes de UWM foi muito legal. Primeiramente fui ao "bate-papo", onde alunos em geral e um ou dois professores de português se reúnem para conversar e praticar o idioma. Muitos são alunos de espanhol, que sentem que o bate-papo é uma maneira de aprenderem sem a obrigação das leituras e dos deveres de casa. Três visitaram o Brasil e se encantaram: Salvador, Florianópolis e Rio, três destinos diferentes, mas igualmente encantadores, segundo eles me garantiram Depois, na sala de aula de português, um encontro com leitores que trabalharam meu conto em sala de aula. Mas o conto tinha sido lido em tradução e a "aula" foi em inglês. Finalmente, no adorável Greene Hall, uma antiga biblioteca que agora é uma espécie de sala de conferências, com uma lareira de uns quatro metros de largura, a primeira leitura em inglês de Borges's Secretary! Ensaiei ontem de manhã, e consegui ler sem me atrapalhar muito. E vi que as pessoas gostaram da história, o que me deixou muito satisfeita. As perguntas, depois, me deixaram um pouco nervosa, mas acho que consegui não parecer uma completa idiota, embora eu saiba muito bem que sou muito melhor escrevendo que falando. Mas deu para o gasto. E depois fomos jantar num elegante e excelente restaurante, ao lado do Calatrava, à beira do lago-mar, que ontem exibia suas ondas. Lauren me contou que no inverno elas congelam, à meio caminho. Impressionante.
Bye, bye, então. Vou fazer as malas. Espero ter internet em Chicago e voltar a contar minha viagem. Acho que vão postar fotos no FB. Eu só posso passar as minhas para o computador quando voltar para o Rio, pois esqueci o adaptador.

Monday, April 18, 2011

Neve!

Acreditem, ontem fez um dia lindo, sol aberto, nem uma nuvem no céu como vocês vão poder ver nas minhas fotos, depois que eu voltar para o Rio. Hoje está tudo branquinho de neve. Queria sair para brincar, mas não trouxe minha botas, bu-huu! Está nevando intensamente. Flocos pequenos, pesados, devem estar virando flurries, que não sei como traduzir. Flurries é uma espécie de neve molhada, que logo se desfaz e custa a acumular. Mas o chão e os telhados estão cobertos de neve, o que significa que ela começou a cair já faz algum tempo, durante a noite, sob a forma normal e agora que o sol saiu, a temperatura está subindo e transformando os flocos em flurries.
Bem, chega de meteorologia! Meu amigo me disse que quando veio para cá, estranhou as conversas ao princípio, pois sempre começavam com o mesmo assunto: "o inverno ainda não chegou" e depois mudaram para "o inverno vai demorar a passar". Agora ele compreende. E até mesmo eu compreendo, saudada com neve em pleno dia 18 de abril!
Ontem fui ao museu, lindo, me deu a impressão de entrar num pterodátilo em repouso, de asas fechadas (pois o vento não permitiu que elas se abrissem). A obra de Calatrava tem uma certa ambiguidade, pois nunca decidimos se estamos numa coisa "viva" ou se estamos, por exemplo, num barco. Numa floresta ou numa catedral. A beleza e a leveza de suas construções são indescritíveis, aquelas toneladas de concreto, ferro, aço e sei lá mais o que, se elevam como se flutuassem no ar. E parecem estar apenas pousadas sobre a terra, impermanentes, prestes a alçar voo. Dentro de suas construções, quem habita é a luz. Em forma direta ou indireta, ela ocupa os espaços, desenha seus caprichos, dona absoluta de todo o interior. Talvez por isso a crítica que li numa revista local: é um museu que não abre espaço para a arte. Aparentemente, a sala de exposição foi uma intervenção de um arquiteto local. Assim como o café e outros espaços "utilitários". Confesso que, ao entrar, só tive olhos para a beleza do museu. Mas não me furtei de examinar o grandioso móbile de Calder, nem a belíssima e coloridíssima peça de vidro de Dale Chihuly (American, b. 1941)
Isola di San Giacomo in Palude Chandelier II, 2000
Blown glass
103 x 86 in. (261.62 x 218.44 cm)
Gift of Suzy B. Ettinger in memory of Sanford J. Ettinger M2001.125
Creio que as obras, para serem expostas ali naquele espaço monumental, precisam de ter dimensões especiais.
Enquanto escrevia, a neve acabou e agora cai uma chuvinha miúda e gelada, que me dá arrepios só de olhar… As ruas já não têm mais sinal de neve, mas os telhados ainda estão brancos (meu quarto fica no décimo andar numa cidade com poucos arranha-ceus)
A exposição de Frank Lloy Wright é linda. Maquetes, desenhos, peças de mobília, alguns vitrais, até tapetes, tudo isso entre fotos e filmes. Vemos sua genialidade, sua incrível capacidade de trabalho, sua evolução para um futurismo desenfreado, sua capacidade de transformar o pesado Art Deco em espaços leves e, sobretudo, habitáveis. As casas mostradas em filmes são todas acolhedoras, apesar de a arquitetura estar presente em todos os detalhes. Vemos como ela ultrapassa os limites dos prédios e incorpora a natureza, seja modificando-a em jardins planejados ou trazendo-a para dentro da casa, não só em imagens, mas em alguns casos, em sons. E julgamos perceber nele alguns traços que desabrocharão em Niemeyer e no próprio Calatrava.
Depois de andar por ali fui visitar o acervo do museu e uma das obras, o quarto do infinito (Stanley Landsman Walk in infinity chamber) me fez sentir uma astronauta. Mas tirei foto de algumas outra obras intrigantes. Depois mostro e conto minhas impressões.
O dia depois foi uma série de passeios de carro, conversas, uma agradável festinha na casa de meus anfitriões, muitas, muitas risadas, uma alegria só. Claro que passei numa livraria e, depois de resistir bravamente e não comprar The three Weismann from Westport (que pretendo encontrar em audiobook), acabei sucumbindo à tentação e comprando um livro Literary Tatoos. Eu e meus fetiches…
Me despeço aqui, por hoje, fazendo uma pequena menção ao Kafka da Colonia penal, a quem pretendi homenagear com minha compra. E agora vou praticar a leitura de Borges's Secretary, para não fazer feio hoje à tarde!
See you!

Saturday, April 16, 2011

Milwaukee

Olá, amigos. Estou de volta ao blog. Andei sumida porque estava preparando as palestras e as viagens e tratando dessa coisa chamada vida real. Estive nos últimos dias em Kentucky, na cidade de Lexington, onde fica a conferência de línguas estrangeiras. Fiquei sabendo que aqui o pessoal conhece essa conferência como um M.L.A. sem inglês. A gente encontra com pessoas de todo o país, troca ideias e ouve muitas coisas interessantes, descobre autores e se informa de pesquisas e, também, infelizmente, fica sabendo de problemas para os professores de português, e em geral. A crise e a ganância andam ameaçando departamentos por aqui, mas o pessoal tem muita garra e sempre consegue resistir. Hoje, por exemplo, no cafezinho, conversei com uma professora de italiano que está há anos tentando conseguir um "major" (não é patente de exército, é tipo conseguir que italiano se torne um curso que dê diploma na universidade dela). Ela ainda não conseguiu, mas lá estava ela, numa fria manhã de sábado, procurando amigos, assistindo palestras e "lutando", quando podia ter ficado mais um tempo na cama quentinha. Ela estava lá e lamentava que nem sequer uma aula de história do renascimento (italiano ou não) estivesse sendo dada no departamento de História. Espero, sinceramente, que ela consiga sucesso.
Assim como espero que as pessoas, que estão preocupadas com o ensino à distância, que as universidades gulosamente estão adotando, na tentativa de conseguirem mais dinheiro, demonstrem aos departamentos financeiros que esta deve ser apenas mais uma opção, e não uma substituição. E como espero que a aluna de pós graduação, que compareceu à conferência rebocando seu bebezinho, veja seus esforços coroados e seus trabalhos devidamente apreciados.
Mas agora estou em Milwaukee, e doida para conhecer a cidade, que tem um deslumbrante museu construído por Calatrava ( e quem acompanha o meu blog sabe que sou fã dele!) Vou colocar mais umas meias, luvas, suéteres e casacos para sair nesta fria primavera de Milwaukee, que ainda parece adormecida, sem produzir flores nem folhas, escondendo-se do vento que faz o museu recolher suas asas (sim, ele tem asas, como um pássaro!) Juro que vou tirar fotos e que colocarei aqui, para serem vistas. E mando a todos meus abraços e minhas saudades, e as promessas de que vou escrever amanhã também.