Friday, August 06, 2010

Texto do JALLA

A pedidos, aqui fica publicado o texto que li hoje no JALLA, sobre Mário de Andrade. E a indicação do blog absolutamente andradiano, do meu amigo Cesar Cardoso é Patavinas cesarcar.blogspot.com Indo lá vocês verão que o espírito de Mário continua vivo no César.
Agora o texto. E bye-bye, pois vou à Flip!
Mais uma última coisa: peço perdão pela bibliografia incompleta… depois trato disso.

Ensaiando e provando o gosto do outro

Lúcia Bettencourt – Universidade Federal Fluminense (UFF)

No capítulo IV do livro de sua autoria, Mundialização e cultura (1994), Renato Ortiz começa por citar a pequena parábola de Enzensberger, falando da estranheza do executivo alemão enviado à China, e do seu alívio ao chegar a Hong Kong, sentindo-se outra vez em casa. Isso ocorreu antes de 1985, época em que a China ainda era um território fechado às influências do mundo globalizado. O executivo em questão não sabia falar chinês, e seus hospedeiros desconheciam sua língua, ou mesmo o inglês e o francês. Não havia automóveis em que ele pudesse circular e o quarto de hotel, modesto, em que estava hospedado, era forçosamente compartilhado com outro viajante qualquer. Mas, ao chegar a Hong Kong, lugar tão longínquo quanto o que acabara de deixar — e tecnicamente parte do mesmo país —, o executivo se sente outra vez à vontade, “sente-se em casa”, como ressalta Ortiz.

Esse reconhecimento se deve ao fato de que o viajante volta a se encontrar entre “coisas de sua vida prosaica” (ORTIZ, 1994, p. 107). Esses objetos, porém, não são alemães, nem americanos, nem de uma ou de outra origem geográfica. Essas “coisas” pertencem “ao anonimato de uma civilização que minou as raízes geográficas dos homens e das coisas” (ORTIZ, 1994, p.108). Estamos vivendo em meio ao que o autor chama de uma cultura internacional popular onde os objetos se criam a partir da união de pedaços oriundos de diversas regiões aleatórias do planeta. Um carro popular vendido no Brasil pode ter sido projetado na Itália, e, mesmo montado no Brasil, seus vidros podem ter vindo do Chile, os assentos da Bolívia, o carburador da França e o seu motor do México. E, no entanto, este carro pode ostentar a marca Made in Brasil, tal qual uma novela da Globo, com cenários italianos, atores portugueses, produção peruana, montagem argentina! Não há como precisar sua origem. Os objetos e criações estão voltados para o “mercado”, que interliga regiões e transforma as relações de trabalho em escala mundial. O fenômeno em questão desterritorializa não apenas os produtos como a própria arte, que perde suas fronteiras geográficas e temporais.

Na sua constante busca de expressão, artistas, arquitetos e escritores, ao se rebelarem contra a massificação e a padronização de formas estéticas, procuram no passado os elementos que lhes pareçam mais próprios à pureza de seus conceitos. Buscando em aspectos da tradição européia e ou das culturas autóctones elementos para enriquecer suas produções, as releituras dos traços oferecidos pelo passado nos fazem, hoje, estranhamente contemporâneos a este. Globalizamos tempo e espaço, e cultuamos a simultaneidade. Com isso, desenraizamos as referências culturais para ficarmos apenas com o produto, que deixa de ser valorizado pelo seu “hic et nunc” e passa a ser estimado como simulacro “perfeito”.

Refletir sobre mundialização de cultura é, necessariamente, questionar o valor de uma cultura nacional. Embora alguns autores acreditem que uma cultura mundializada seja impossível, já que se trataria de uma “cultura sem memória”, pode-se, não obstante, pensar numa “memória permeada pelo consumo”, numa “memória cibernética” e numa “memória internacional popular”. Esse tipo de memória reconhece que, no interior da sociedade de consumo se reconhecem referências culturais mundializadas. Com uma base de dados construída a partir das lembranças desterritorializadas que nos permitem reconhecer, em qualquer parte do mundo, as referências a Avatar e a Humphrey Bogart,; que tornam a Escrava Isaura reconhecível na Rússia; que nos capacitam a entender citações a Greta Garbo num filme de Almodóvar; e a aceitar como África, ou Oceania, ou o mundo de Guerra nas Estrelas, os simulacros oferecidos nos parques da Disney, nossas fronteiras se tornam cada vez mais abstratas e universais.

Em literatura, a pós-modernidade aceitou como usual o uso de “intertextualidade”. Reconhecendo que os textos são sempre construídos a partir de outros textos anteriores, encara-se a literatura segundo os ensinamentos de Borges, com sua Biblioteca de Babel. Ali onde todos os livros estão contidos, tudo o que vier a ser escrito terá de ser, necessariamente, uma combinação de elementos pré-existentes dentro do universo da Biblioteca. Portanto, abre-se a porta para textos que não são necessariamente os textos canônicos, uma vez que na Biblioteca de Babel, Dante convive com o rap, e as histórias em quadrinho convivem com o discurso político demagógico. E um enriquece o outro, pois os livros (bem como as obras de arte) dialogam com as manifestações da cultura de mercado. Citar uma propaganda de cerveja, que não foi exibida na TV aqui no Brasil, mas que está disponível na internet, não só é possível, como inteligível. Reconhecer na tela modernista o paradigma clássico não é mais tarefa de pesquisador, e sim brincadeira de videogame.

Essas práticas que nos parecem essencialmente pós-modernas, em verdade vêm-se repetindo desde muito tempo. Em 1928 aparece a primeira edição do livro de Mário de Andrade, Macunaíma. Nesta obra, o herói sem caráter, cheio de ambiguidades, parido por uma índia, nascido com pele negra, branqueando-se através de um mito é um viajante por terras do Brasil e da América Latina. Livro-saga que canibaliza outros textos, colocando-os em diálogo com os romances brasileiros anteriores a si mesmo, ele prefere ser rapsódia, e assim assumir seu caráter musical, oral e popular. Deste modo, em diferentes movimentos, vamos percorrendo os caminhos e descaminhos do Brasil e da América Latina. Inspirado, como admite, pela leitura de Vom Roraima zum Orinoco, de Koch-Grünberg, Mário de Andrade ignora as fronteiras tradicionais do país e incorpora as lendas das diversas regiões do continente. E ignora os parâmetros do romance para incorporar diferentes formas de expressão.

Macunaíma, uma espécie de "Ulisses crioulo", carrega consigo um séquito. Seus dois irmãos, um negro e um índio são mais do que irmãos, são partes de sua identidade. Só assim se explica o completo domínio que o "mano mais novo" exerce sobre os outros dois "manos". Sua primeira viagem é uma viagem de exploração das terras americanas. Para empreendê-la ele necessita deixar sua consciência resguardada na Ilha de Marapatá. Depois viaja pelos mitos brasileiros e hispano-americanos, demonstrando uma afinidade maior do que a geralmente admitida entre as duas tradições. Em seguida, abandona seus domínios e se aproxima de uma civilização que não reconhece como sua, mas da qual imediatamente, ou quase, se apropria. Neste novo cenário ele se enfrenta com um gigante meio europeu meio hispano-americano que deseja comê-lo seja literalmente, seja em sentido metafórico.

A obra se revela um livro único: breve, alegre, variado e eruditamente entremeado de críticas. Em Macunaíma -- considerado como a expressão novelística das proposições do "Manifesto Antropófago" de Oswald de Andrade -- saboreamos uma excelente "refeição literária", que consiste em pratos rústicos e de sabores definidos na simplicidade do folclore, em pratos mais pesados e de elaboração intrincada pela retórica; que finaliza com delicadezas de sobremesas de sabor decadentista ou com o caráter agridoce de frutos tropicais nas modinhas e aforismos, e deixa no ar um aroma a cafezinho, servido por uma burguesia insegura, com medo de se sujar na graxa das máquinas das primeiras fábricas brasileiras.

No final de sua vida, Mário de Andrade oferece a seus leitores ainda mais uma substanciosa refeição. Seu último projeto literário foi uma série de crônicas publicadas sob o titulo de "O Banquete" na Folha da Manhã. Esta série foi interrompida por sua morte, e cerca de 30 anos depois foram publicadas no seu conjunto, num livro compilado e prefaciado por Jorge Coli e Luiz Carlos da Silva Dantas, mantendo o titulo original da série. Este conjunto de crônicas que o autor pretendia organizar em livro é uma meditação sobre as possibilidades da música -- por metonímia , da arte -- numa sociedade marcada por contradições. Mentira, a "simpática cidadinha da Alta Paulista", é um microcosmos que concentra características peculiares a um pais colonizado. Ressente-se de vários problemas, um dos quais, talvez o maior deles, seja sua relação com a tradição artístico cultural, cujo modelo importado satisfaz ao anseio de inserção dos "mentirosos" numa tradição cultural por eles admirada, mas que também os exclui, pois não tem espaço para aceitar o folclórico e pitoresco quando digeridos e transformados em novas propostas.

O Banquete não pode ser considerado um romance. O conjunto de crônicas viria a dar, eventualmente, um diálogo de características filosóficas, que trataria não apenas da estética, mas da ética artística. A compilação das crônicas efetivamente publicadas e dos projetos das que se seguiriam, nos permite ver a abrangência pretendida por seu autor. Infelizmente, a morte o surpreendeu a meio do caminho:

Redisponho assuntos do “Banquete”. Passo a manhã toda reestudando com meia angústia as notas e fichas. Com o desenvolvimento, à medida que escrevia os artigos, embora tivesse um sumário geral, tudo ficou caótico e superlotado. Só consegui de mais eficiente esta manhã fixar 5 assuntos gerais, pra 5 capítulos . Sinto que com a ebulição de tanta leitura, podia, neste momento, fixar o sumário do capitulo Salada, mas me sinto fatigado. Deixo pra amanhã.

Com essa entrada em seu diário no dia 18 de fevereiro de 1945, Mário de Andrade refere-se à mencionada série de artigos que vinha publicando na coluna de sua responsabilidade do Mundo Musical. Sete dias depois a morte o surpreendeu e seu projeto quedou-se incompleto. Tal como dele temos noticia, O Banquete ressente-se de todos os males de uma obra inacabada. "Caótico" e "superlotado" nas palavras do próprio autor, é, entretanto, uma obra que merece respeito pelas importantes reflexões crítico-estéticas nela veiculadas. O titulo escolhido traz à memória o famoso diálogo socrático, e não é possível ignorar as ressonâncias do texto grego existentes na obra andradina. Se as reflexões de Mário não se pretendem um pastiche do filósofo e se os temas propostos diferem, ainda assim é licito procurar os pontos em comum entre as duas obras. É o próprio Mário, em cartas a Guilherme de Figueiredo, quem nos autoriza a aproximação ao texto grego. Num primeiro momento, no final da carta datada de 10-II-44, Mário informa seu amigo quanto ao projeto que trazia em mente e rejeita a aproximação:

Creio que vou fazer um "Banquete" musical, que se chamará decerto, "O Almoço" pra não imaginarem que estou querendo concorrer com o de Platão e demais banquetes antigos. Mas é um jeito bom de ter vários rodapés encadeados e não andar na angústia de cavar assuntos, acho que vou fazer. Será um almoço de domingo com cinco personagens, o compositor Janjão, o politiqueiro Felix de Cima, a milionária que ainda não tem nome, a cantora Siomara Ponga e um moço estudante de direito, não sei, meio surrealista, que diz as verdades, talvez nordestino, mas que está me saindo bastante simpático. Janjão será o personagem "dramático". Os outros três esculhambativos. E o moço será a mocidade. Mas não sei ainda, tá tudo muito vago. E não vai ser nada de trabalho, coisa para encher rodapé, descuidadamente. (ALG, p. 88)

Vemos que o que se iniciara como um modesto projeto, e cujo título devia passar a ser almoço para evitar comparações com uma tradição de diálogos filosóficos, se assume, mais tarde, como projeto de seriedade, merecedor do nome em questão visto tratar-se de obra "de combate". Em 6 de agosto Mário já se refere ao projeto como algo que vai dar em livro e que é “escrita clara e definitivamente participante desse nosso mundo escuro, e mesmo obra de combate”. É no próprio O Banquete que Mário esclarece o que seja uma "obra de combate", obras que "maltratam, excitam o espectador e o põem de pé". Para construí-la, são necessárias as técnicas do inacabado:

Toda obra de circunstância, principalmente a de combate, não só permite mas exige as técnicas mais violentas e dinâmicas do inacabado. O acabado é dogmático e impositivo. O inacabado é convidativo e insinuante. É dinâmico, enfim. Arma o nosso braço (BQT, p. 62)

O nome banquete, com suas alusões semânticas ao ato de ingerir, está também ligado ao importante movimento do modernismo brasileiro: a antropofagia. Preocupados em proclamar a independência da arte brasileira no ano em que se comemoravam os 100 anos da independência política do pais, o grupo de jovens que organizou, em São Paulo, a Semana de Arte Moderna não cessou aí suas movimentações. Continuando um processo cada vez mais abrangente, em 1928, Oswald de Andrade publica o "Manifesto Antropófago" e se propõe a reconhecer um processo de mão dupla na arte brasileira. As influências estrangeiras propunham-se inegáveis e até mesmo desejáveis num mundo que se fazia cada vez menor.

Acompanhando as idéias de Oswald de Andrade, os modernistas procuram pensar os processos de criação dos artistas brasileiros e tentam encontrar seus caminhos próprios, nacionais. Mário de Andrade percebe que o regionalismo exótico e pitoresco era um recurso imposto de fora para dentro, que era necessário repensar. A arte brasileira -- e toda a arte americana, por extensão -- sobreviveria e floresceria, pensava Mário, de acordo com a antropofagia, desde que houvesse uma digestão de tudo aquilo que ela cobiçasse como seu. Uma escola européia, uma idéia filosófica, um comportamento aborígene, tudo cabia nas produções novas, desde que “comidos”, digeridos. Isso porque seria impossível apagar os anos de educação burguesa e os séculos de influência do pensamento artístico (e também filosófico, cientifico e político) ocidental.

A literatura, dessa maneira, pode ser representada como um grande banquete, onde as iguarias se multiplicam e o “gosto” literário da nova arte permite a escolha entre pratos tradicionalmente apetecíveis e pratos tabus que se totemizam conforme a pregação do "Manifesto Antropófago". Nada mais apropriado, na hora de reavaliar esse pensamento de sua juventude, que Mário de Andrade resolva fazê-lo num banquete, tão antropofágico quanto platônico.

O Banquete de Mário de Andrade deseja fazer uma reflexão séria sobre a arte de sua escolha -- a música -- e a sociedade de seu tempo. Praticando o que propõe, tal como Sócrates em seu banquete, Mário assume a critica. Melhor ainda, Mário preocupa-se em definir uma critica que funcione como instigação ao processo de "parturição no belo". As tradições devem necessariamente se relativizar de acordo com os valores sócio-temporais. E, para que a arte possa florescer, será preciso abandonar conceitos “puros” e assumir as diferenças, as heterogeneidades. Incorporar, aceitar, mesclar, açambarcar, colecionar, fazer simulacros é o caminho que ele aponta na já remota primeira metade do século XX.

Segundo Silviano Santiago, “a maior contribuição da América Latina para a cultura ocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidade e pureza” (SANTIAGO, 1978, p. 18). Rasgando os véus dos discursos imperialistas e das justificativas do Deus Mercado, Santiago chama a atenção para a necessidade de uma critica que compreenda que as influências são dinâmicas e que ocorrem a partir de qualquer vetor. Uma critica voltada apenas para o passado, para a origem, despreza o valor do presente e subestima a capacidade artística do futuro.

Nas refeições apresentadas, onde as personagens merendam e se digerem, debate-se a questão das influências. Entre as iguarias, o que se destacam são as transgressões cometidas. Longe de se interessar apenas “pela parte invisível do texto, pelas dívidas contraídas pelo escritor” (SANTIAGO, 1978, p. 28) os textos nos revelam que é preciso descondicionar o leitor e ensiná-lo a aceitar o jogo do texto — aquilo que nos faz desejar continuar como participantes do jogo, mas que nos permite, também, observar com olhos críticos as imposições a que a sociedade de consumo nos submete:

Entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e a agressão, entre a obediência e a rebelião, entre a assimilação e a expressão, — ali, nesse lugar aparentemente vazio, seu templo e seu lugar de clandestinidade, ali, se realiza o ritual antropófago da literatura latino americana. (SANTIAGO, 1978, p.28)

Com este brilhante final, Silviano Santiago revela o entrelugar do discurso latino americano, porém, o que testemunhamos hoje, é que esse “entrelugar” passou a pertencer não apenas aos países submetidos às influências econômicas das metrópoles, mas às próprias metrópoles.

Como aponta Lívia Reis, “a partir da década de 60, a cultura da América Latina assume a heterogeneidade de sua identidade e convive, de forma também heterogênea e complexa, com a globalização internacional” (REIS, 2009, p.103). Vivendo numa era de cada vez maior penetração midiática e de extrema instabilidade econômica, as novas necessidades das leis de mercado preferem apagar os traços “nacionais” para criar apenas uma nação, o “consumo”. Curvados a essa necessidade de precisar ser produto para ter valor, os escritores já não se angustiam mais com a legitimidade, mas com sua legibilidade ou palatabilidade. Nos caminhos da literatura encontramos, agora, textos que já não podemos mais reconhecer como brasileiros, somalis, ou franceses, nem sequer pela nacionalidade de seus autores. Os mais recentes ganhadores de prêmios Nobel e Goncourt nos revelam essa dificuldade de catalogação: Marie Ndiaye, John Coetzee, Le Clézio, a que nicho cultural pertencem? A que tradição se filiam? E qual o gênero em que escrevem?

Nos ensaios, gênero que volta à moda em nosso novo século, os autores podem se permitir uma voracidade maior. Nas obras romanescas dos autores citados encontramos trechos que, claramente, pertencem ao gênero ensaístico e que confundem os leitores que se inquietam, sem saber se estão lendo obras de ficção ou textos de estudo critico ou mesmo ensaios políticos, ou até denúncias. Mas, consumidores bem adestrados, nos submetemos ao estranhamento e embarcamos na leitura destas obras com uma aguda consciência de jogo, entregando-nos à possível “fruição”, se não nos é possível encontrar o mais fácil “prazer do texto” (BARTHES, 1987). Afinal, se não podemos passear pela África, podemos enganar nossa sede de aventura com um novo videogame ou com um simulacro de safári num parque Disney. O importante é estarmos antenados e capacitados a reconhecer que, vivendo num mundo cada vez mais globalizado, nosso entrelugar agora se situa no “não lugar “ (ORTIZ, 2006, p.105-106) das marcas e produtos, encruzilhada dos espaços e do tempo.

Referências:

ANDRADE, Mário. O banquete. (1974)

––––––. Contos Novos.(1947)

–––––––. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.(1928)

ANDRADE, Oswald. “Manifesto antropófago”.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1987. Col. Elos.

ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 2006. 7ª reimpressão.

REIS, Lívia. Conversas ao Sul. Niterói: EdUFF, 2009.

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. São Paulo: Perspectiva : Secretaria da

Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1978.

TROUCHE, André Luiz Gonçalves. America: história e ficção. Niterói: EdUFF, 2006.

VASCONCELOS, José. Ulises Criollo.

Tuesday, July 27, 2010

De Lua.

A casa se esvaziou e com ela a minha cabeça. Trabalhei, inspecionei, me emocionei e depois entrei numa espécie de limbo, como se a vida tivesse parado. Resultado, esqueci. Esqueci compromissos, esqueci o que tinha que fazer, esqueci onde coloquei os achados, esqueci de olhar, esqueci. Por isso não fui ao concerto, não fui ao lançamento, coisas que estavam marcadas na agenda. Por isso não escrevi no blog esta semana. Por isso fiz coisas inesperadas. Revi ballets, fui ao teatro, encontrei amigas que moram em outro país… Mas tudo me parece feito por uma outra pessoa, não pela Lúcia certinha que sou. Procuro me centrar, de novo. Me reencontrar. Me organizar.
Em primeiro lugar, dirijo-me logo à T.T., que tem sido assídua em suas leituras: Achei fotos nossas: você, papai e eu. Achei e já perdi de novo, guardadas que foram num cantinho de meu quarto de guardados. Mas em agosto, depois da Flip, pretendo arrumar tudo aquilo e aí te chamo para vermos as fotos juntas, sim?
Depois converso (virtualmente, como sempre) com os leitores. Como a T.T. tem lido posts antigos e comentado, sou obrigada a revisitá-los. Então me surpreendo, acho que a qualidade das coisas que postava era melhor antigamente. Agora tenho sido tão banal… falo de mim e das pequenas misérias cotidianas, coisas absolutamente sem graça. Peço desculpas a todos. Minha intenção é melhorar. Depois de hoje tentarei voltar a ser um pouco mais interessante. Vou procurar comentar as coisas que alimentam meu espírito e não as banalidades que preenchem meus dias.
Posso dar um exemplo: comentar a foto da lua cheia, estampada no jornal de hoje. Será que podemos acreditar na foto? Será que a lua apareceu assim enorme, espetadinha nas cruzes do alto das torres da igreja da Penha? Há muitos anos atrás, quando ainda lia fotonovelas (uma forma de arte que infelizmente desapareceu), li que nas Bahamas a lua aparecia muito maior que em qualquer outro lugar do planeta, e por isso lá era o lugar ideal para se passar Lua de Mel. Eu, que achava que a lua era um satélite bem comportado, me admirei com isso. Seria possível? Passei a prestar mais atenção na Lua, que se apresenta de maneira diferente no hemisfério Norte. E que tem belezas insuspeitadas em certas épocas do ano. Nosso inverno, sem dúvida, nos proporciona noites mais belas que as de verão. No casamento da Luíza, em Santa Teresa, assistimos ao nascimento da Lua, saindo com trajes de ouro de dentro das águas da baía de Guanabara, como uma esponja que tivesse crescido de tamanho ao absorver um pouco do mar. Depois, imperceptivelmente, ela foi secando, ficando cada vez mais prateada e brilhante, subindo aos céus, mas deixando, generosa, um rastro luminoso que fazia do mar uma estrada de luz. Foi uma cerimônia linda, de ficar na memória de todos. Todos? Quem sabe? Ficou na minha memória, mas talvez eu tenha sido a única a guardar alguma lembrança da Lua naquele dia. Outros lembrarão do sapato apertado, outras, da dança com o namorado. Um lembrará do gosto do beijo da amada, outro, do gosto dos canapés. Talvez eu tenha sido a única a desviar meus olhos do casal que jurava amor eterno enquanto durasse, para ver a Lua que desfilava sua mutável beleza.
Porque somos assim, nossa memória é pessoal e intransferível. Converso com amigas que têm irmãos e irmãs e que me contam que as memórias deles são desiguais, conflitantes, até. Eu não tenho nada disso. Ninguém para corroborar ou corrigir meu passado. Pais mortos, avós mortos, só me sobraram as fotos. Algumas se repetem, insistentes. Cinco ou mais cópias do mesmo instantâneo ou da mesma pose que alguém achou por bem mandar fazer. Um álbum de fotografias que pretende organizar o passado em ordem cronológica, mas que se perde com as fotos soltas que, aos poucos, foram subvertendo aquela organização. Fotos quase apagadas e fotos retocadas, que modificam e endurecem sorrisos espontâneos, ou suavizam caras amarradas.
Não devemos confiar nas imagens, que nos enganam já que desejamos ser enganados por elas. A Lua que não vi em minha Lua de Mel estará sempre presente nas minhas recordações, prateando meu passado. A Lua equilibrada nas torres da Igreja da Penha talvez reapareça em alguma história que eu conte, pois, mesmo duvidando de sua autenticidade, a beleza da foto me faz ficar refletindo sobre ela.
Tudo vai depender da memória, e essa, como todo mundo sabe, é tão inconstante como a Lua.

Saturday, July 17, 2010

Quatro anos?

Nossa! por conta de alguma bobagem que fiz por aqui, houve queixas de que os comentários não estavam sendo publicados. Tentei consertar, não sei se consegui. Mas, como tive que prestar atenção nos posts, percebi que iniciei este blog em novembro de 2006! Naquela época não entendia nada de blog e até hoje continuo entendendo praticamente o mesmo de antes. Desculpem os amigos. Vou ver se descubro um curso para blogueiros iniciantes, para ver se melhoro um pouco meu desempenho.
Acho que foi no ano passado que, em algum instante de iluminação, descobri um contador de visitas para colocar no blog. Pois já conto com mais de 17 mil visitas desde que marquei o contador. Obrigada a todos!
Em novembro, no aniversário do blog, vou ver se tenho alguma ideia genial para animar isso aqui. Festa virtual! Será que existe videoblog? Seria legal, não?

Lá se vão os dias…

Quando vejo que meu último post foi no dia 9 de julho, me assusto. Onde foram os dias? Tão ocupada ando que nem percebo que o tempo vai passando, sem se deter. No entanto, sinto como se tivesse caído num daqueles bolsões do passado: fotos, antigos documentos, retratos e lembranças. Quem era este aqui? Sabe que não sei? Fico na dúvida se seria um ou outro dos meus filhos, atordoada por revê-los tão pequenininhos, do tamanho de botões… Não sei como eles cresceram, se transformaram, e, no entanto, continuam os mesmos. E daí que nem prestei atenção nas datas: 9 de julho - festa argentina; 14 de julho - festa francesa (será que esse ano dançaram o cancan no forte Copacabana?); segunda seria meu aniversário de casamento; no dia seguinte é o aniversário de meu filho… E eu assim alheada a tudo, correndo para cima e para baixo, abrindo malas aqui, vendo apartamentos ali, desmontando definitivamente o palácio onde vivi minha vida de princesa muito amada, mas sem pena, sem dores, com a esperança de que a próxima habitante da casa seja tão feliz quanto eu.
Peço desculpa aos leitores e amigos, que porventura passem por aqui para dois dedos de prosa. Depois escrevo com mais vagar. Agora fico tentando me organizar no meio do vórtice e sucumbo.
Obrigada a todos os que têm chegado aqui e deixado mensagens. Tenho ficado feliz com suas palavras, encantada com suas visitas. Obrigada, T.T., pela paciência de percorrer estes escritos do passado. Um beijo virtual em cada um de vocês!

Friday, July 09, 2010

Em defesa dos contistas

Outro dia, um amigo se queixou de que sua Editora, respeitável e competente casa que há décadas defende sua posição de destaque entre suas irmãs, recusou seu último livro com o pretexto de que “conto não vende”. E pediram-lhe que escrevesse um romance, a ele, que sempre foi contista apreciado.

Algumas pessoas, respeitadas intelectualmente, têm a idéia errônea de que o “conto” é um gênero menor, uma espécie de treino para o romance. Isso talvez se deva ao fato de que o conto é a forma “natural” de transmissão das histórias, desde tempos imemoriais. É essa a forma que nutre nossa sede “literária” desde a infância (a nossa e a da humanidade). Os contos da carochinha, como se chamavam antigamente, os contos de fada, os contos morais, que educaram os príncipes do passado, e os contos que se aperfeiçoaram no século XIX com Maupassant e Tchekov, com o extraordinário Machado de Assis, com Poe, Hoffman e que chegaram ao século XX com a força de praticantes excepcionais como Clarice, Borges e Cortázar, e ainda O. Henry, Virginia Woolf , Kafka e outros tantos que valeria a pena mencionar. Se Clarice e Julio Cortazar, por exemplo, também escreveram romances, O. Henry e Borges, um dos escritores mais respeitados no mundo, fizeram sua fama com seus contos.

O romance é o gênero literário mais tardio, que floresceu no século XIX e que hoje tenta se reinventar. Existem mesmo casos curiosos de romances como Vidas Secas ou Memórias póstumas de Brás Cubas, considerados como romances desmontáveis, uma vez que seus episódios possuem autonomia e podem ser lidos separadamente.

A vida moderna, com suas numerosas solicitações tecnológicas é cada vez mais avara com o tempo. A leitura, atividade que, tradicionalmente, exigia concentração e vagar, se tornou uma prática diferente, nervosa, entrecortada. Os jornais e revistas já se aperceberam destas modificações e todos estão se modificando, diminuindo a extensão de seus artigos, copiando modelos surgidos na internet de notícias cada vez mais concisas, que informem instantaneamente. Muitas vezes, ao falar com amigos, eles se queixam de que tiveram de abandonar um romance por que, a cada vez que interrompiam a leitura, perdiam-se na história, e era preciso voltar atrás, tornando a tarefa interminável. Outros comentam que “agora só conseguem ler contos”. Uma jovem me disse: “Os contos têm a duração de meu trajeto no metrô”. Outra pessoa me confidenciou que já não consegue mais focar sua atenção numa narrativa longa, e que tudo o que consegue ler são contos.

Escrevendo isso, penso que até no cinema os contos estão em voga. Não falo em curtas, que se popularizam, mas em filmes de grande sucesso que são coletâneas de “contos visuais”, como Paris e Nova Iorque, eu te amo, ou o premiado Crash, onde vários contos, distantes no tempo e no espaço, se entrelaçam numa parábola da globalização.

Talvez seja hora de as editoras repensarem seus valores e de acordarem para a nova realidade. Os contos, forma natural de narrar, permeiam nossas vidas e todas as eras. Não saem de moda. Já o romance vai retornando à forma da novela: os capítulos cada vez mais curtos, episódicos e fechados, encadeando-se com outro episódio anunciado para, à feição de Sherazade, conseguir manter-se vivo. Ou, verdadeiro modelo de armar, construído com fragmentos de história que fazem de sua leitura uma espécie de jogo da memória.

A alegação de que “conto não vende” começa por pecar ao pretender jogar a obra no mercado. Produto vendável, fabricado para a “demanda”, o livro em que as editoras investem suas verbas de marketing são aqueles que não discutem a realidade, e sim reforçam uma ideologia que acabará por nos levar a uma nova forma de pensar. Seres visuais, forçados a viver sempre no presente, volátil, esse ser humano que em breve nos substituirá já não comprará mais romances, nem mesmo contos. Os livros desaparecerão, já que todos nós seremos apenas personagens desta ficção da qual o “Mercado”, todo poderoso, se alimenta.

Se as próprias casas destinadas à disseminação dos livros, argumentam que “conto não vende”, em breve terão que admitir que “romance não vende” e que caminhamos para um inferno sem livros.

Wednesday, July 07, 2010

Rapidinha

Antes de sair, para os compromissos sempre inadiáveis, paro por aqui para virar uma página. Estou num momento de mudanças: fins e começos. Um fim que se estende, há anos, e começos que hesito explorar. Seria o fim, final? Não. Fim de capítulo, talvez. Mas, aprendi com os livros que, mesmo depois de o tomo fechado, a história nunca termina. Penélopes, vamos rebordando nossa teia, incansáveis.
Começos? Retomada de sonhos, seria melhor dizer. Voltar a me dar o direito de mergulhar no mar, de conversar com amigos do passado… Será que ouso? Mas, numa resenha que fiz outro dia, falo dos perigos das "revisitações". Hesito.
Por isso venho aqui, para minha tábua de salvação, minha escrita. Escrevo estas palavras e me acalmo. Pronto, já posso sair. Lá fora, o sol brilha.

Saturday, July 03, 2010

A medida do homem


Comecei o dia hoje zapeando a TV e encontrei um Starte com a excelente Bianca Ramoneda e o genial Calatrava. Para quem não o conhece, ele é o arquiteto que vai fazer nosso "Museu do Amanhã", no Cais do Porto Revitalizado do Amanhã…
Conheço as obras dele por fotos, mas duas delas tive a oportunidade de ver pessoalmente: a Torre de Montjuic, em Barcelona (que não me impressionou muito) e a bela floresta de colunas que é a Estação do Oriente, em Lisboa. Nesta estação, infelizmente, não pude entrar, pois fui visitá-la antes da inauguração da Expo 98. Perdi a chance de visitar as obras de arte que abriga. Um dia, quem sabe?, tomo coragem, volto à Lisboa dos meus amores, e vejo tudo, tintim por tintim.
Mas voltando ao programa, Santiago de Calatrava é encantador. Fala bem, expõe suas ideias com simplicidade e modéstia, elogia Niemayer com efusão. Entre outras coisas, fala da relação da arquitetura com o homem. Diz que, depois da roupa, a arquitetura é aquilo que mais está próximo ao homem, e que depende de sua medida, tal como a roupa. Engraçado, pois, sem nunca ter estudado arquitetura, tive esta "revelação" numa de minhas visitas a Roma. Há alguns lugares de Roma que sempre "revisito", sendo o Panteão um deles. Sempre me impressionou aquele edifício gigantesco, rodeado por outras belezas em proporções mais próximas de nossa humanidade. Uma vez, sentada num café, conversando com o Guilherme, comentei que aquilo parecia revelar o espírito dos homens do Império. As construções imperiais, todas, possuem dimensões que parecem ter sido construídas para deuses, ou semideuses, e me parecia que os romanos da época deviam se sentir assim, maiores que a vida.
Agora, escrevendo isso, penso que eu mesma dou demonstração dessa relação. Minha casa com o Gui era grande, aberta, precisando ser assim para poder abrigar nossa imensa felicidade. Agora, sozinha, as dimensões de meu lar se reduziram, como a de uma flor que se fecha ao cair da tarde…
Volto mais uma vez ao Calatrava. Seu nome se origina em uma construção, o castelo de Qal'at Rabah (castelo na planície) construído há uns mil anos atrás. Depois de tomado, tornou-se propriedade dos Templários e, mais tarde, com a extinção da Ordem, serviu de sede a uma nova Ordem dos Cavaleiros de Calatrava. O castelo, ao longe, parece uma criação da natureza, uma montanha meio erodida pelos ventos. O arquiteto de hoje, fiel ao seu nome, constrói obras que chamam a atenção pela sua "organicidade", por sua inspiração nos elementos da natureza, na transcrição de uma engenharia do orgânico. Olhem as obras dele e vocês entenderão o que quero dizer. Rótulas, olhos que parecem piscar, pássaros no momento de alçar voo, florestas metamorfoseadas em catedrais de galhos. Tudo lindo, com ares absolutamente leves, e, com a precariedade do equilíbrio que mostra como nós, humanos, somos apenas um pequeno segundo de equilíbrio na instabilidade da vida.

Thursday, June 24, 2010

Explicação da insônia

Ando abatida. Tenho dormido pouco, sempre atarefada, confundindo horas. Começou com uma tristeza, da qual nem ia falar, mas hoje a Cora me estimulou. Minha primeira noite sem dormir foi a do malfadado incêndio, que me fez passar a noite literalmente em claro. Em claro, mas na mais profunda treva de ansiedade. A sensação de impotência é a pior coisa. Ou talvez seja a segunda pior coisa, pois o que mais me incomodava é que eu — em segurança, claro— não conseguia deixar de ver a beleza fascinante das chamas. Pois aquele clarão na noite era lindo e letal. Talvez mais lindo por que letal, vá-se lá entender a alma humana. Mas a angústia da destruição me provocava engulhos e lágrimas. Foi uma noite de "Crime e castigo". De raiva e fascínio. Resultado: os dias subsequentes vão se passando numa roda viva de trabalho e alheamento, do sono que ainda não recuperei. Pois se o fogo me tirou o sono, agora são as águas que me tiram a paz. Leio sobre as enchentes em Pernambuco e Alagoas e meu coração dói. Amo esses estados, onde tive a oportunidade de encontrar bons amigos e muito acolhimento. Ouço nomes tão ligados à literatura, e sofro. Terra de meus amigos, castigada desta maneira, as imagens me fazem sofrer. Quem quiser colaborar," O Corpo de Bombeiros oferece duas contas para doações em dinheiro: Banco do Brasil, agência 3557-2, conta corrente 5241-8, e na Caixa Econômica Federal, agência 2735, operação 006, conta 955/6.", me avisa a amiga Lícia Souza. Pensem em Graciliano e mandem suas contribuições. Pensem nas pessoas amáveis e generosas, que mesmo com pouco nos recebem entre sorrisos e carinhos, e mandem suas contribuições. Pensem em suas camas limpas e cheirosas, na água corrente em suas casas, no teto sem goteiras sobre suas cabeças e mandem suas contribuições. Não fiquem indiferentes, não se desumanizem!
Depois de todas essas coisas sérias, é impossível falar sobre a bobagem da Copa, que também me tira o sono. Desejo a vitória do Brasil, mas parece que o clima é de receio. Portugal, agora, virou um bicho-papão. O jogo, que poderia ser um amistoso, já que as duas seleções já se classificaram, virou um desafio. Cristiano Ronaldo vai ser o mais bonito em campo, uma vez que o Cacá vai estar longe do jogo — É essa a vitória. Mas, o que era pra ser um jogo entre irmãos, um jogo para reunir a família em torno de um bom bacalhau, trocando-se piadas de português pelas de brasileiro, virou um jogo para disputar saldo de gols, colocação, sei lá o que mais. Virou mais um dos jogos medíocres da copa, onde ninguém brilha, todos se apagam e se amesquinham. E ainda temos a ameaça do Maradona. Se a seleção argentina ganhar, ao invés de prêmio seremos castigados com uma nudez não requisitada! Quem quer ver o Maradona peladão, montado no obelisco da 9 de julho? Sinceramente, minha amiga Halime tem uma seleção que deixaria a todos muito mais contentes se algum prometesse aparecer nos trajes de festa de Adão. De vez em quando ela nos brinda, no FB, com fotos de lindos jogadores, daqui e dali. Vamos combinar, Mará. Se a Argentina vencer, pede para a Halime escolher quem tira a camisa suada e mostra a jabulani para a gente!
E VIVA SÃO JOÃO!!!!

Thursday, June 17, 2010

Passados.

Pois é. Passou. O dia dos namorados. O dia de Santo Antônio. O jogo do Brasil. Os jogos da Copa.
Tudo passou, em branco, pelo menos para mim. Mas, desde ontem, recomeço a sair de minha toca. Ontem foi o Bloomsday. Não que eu ligue para isso, Joyce não me fala ao coração. Dou, de vez em quando, umas bicadas enfastiadas no seu Ulisses. Curto os Dubliners. Mas me encanto mais com sua vida que com suas obras. Pai de uma Lucia, imagino sua relação com ela, volta e meia. Uma relação complicada, sem dúvida.
Mas saí de casa, e tanto que não dei conta de todos os compromissos adiados para "depois do prazo". Hoje já li, estou cozinhando, e vou ao Municipal. E, se roubo um tempinho das panelas para vir aqui escrever é em agradecimento à minha T.T., que me mandou palavras tão alegres comentando minha barraquinha. Saudades dos seus olhos verdes, colorindo a vida a seu redor! Irei, com prazer, tomar a limonada, como, uma vez, há tanto tempo, fui comer romã em seu jardim, lembra? Era minha primeira romã, anêmica (descobri depois), mas especial na sua qualidade de fruta colhida no pé. E acompanhada por canções francesas. Au clair de la lune, mon ami Pierrot … Quanto às pimentas, não sei. Mas não digo não.
Agora volto às panelas e às páginas do meu livrinho.

Saturday, June 12, 2010

O quê? Já é sábado?!


Pois é… de repente, uma semana toda se passou e eu nem sei onde foi que ela se meteu! Entre as páginas de dois trabalhos, atrasadíssimos, sem dúvida. Só hoje percebo que não saio de casa há um tempão! E, se saí na segunda, na quarta e na quinta, foi apenas como uma teleguiada, sem me dar conta do que estava fazendo. Segunda é meu dia de aula, dia de alegria! E, depois da viagem, foi um prazer reencontrar alunas e amigas, voltar a discutir a vida do Henrique VIII e tentar entender suas ações. Ele, por enquanto, resiste bem. Já reparamos como — nas devidas proporções — ele parece um homem moderno, na sua fúria de rolo compressor na hora dos divórcios e separações. Nenhuma de nós concorda com suas atitudes, mas, aos poucos, compreendemos um pouco seu absurdo desinteresse, depois de mais de 3 anos de ansioso namoro, pela Ana Bolena. Mas, cada vez mais admiramos a inteligência de suas mulheres. Ele não se casou com nenhuma boba. Talvez só a Catarina Howard merecesse esse nome, se é que mereceu. E todas elas, mal ou bem, reconheceram que ele também era um homem excepcional. Até agora, estávamos lendo sobre o jovem Harry, o mais belo príncipe da cristandade, o mais formidável. Agora vamos entrar no seu declínio e conhecer o gordo, doente, impotente, mas ainda extraordinário rei.
As outras duas rápidas saídas também foram verdadeiros voos de abelha: direta em direção ao mel, e de volta para a casa, sem me distrair. Fui ao grupo das proustianas, contar um pouco das impressões de viagem e escutar muito de Proust, de Rachel, de New York, por onde andou Mag e seu olhar crítico. Na quinta, um pouco mais de liberdade: lançamento da Paula Cajaty e assinatura de contrato de um novo livro onde estou colaborando. Mas revi amigos, conversei um pouquinho, me deu até vontade de continuar saindo e me divertindo!
Mas voltei. Meus companheiros mais constantes da semana foram ensaios, romances de Carpentier, mais ensaios, reflexões sobre a leitura e sobre os intercâmbios entre pessoas e livros. Mas também tive meus momentos de TV, olhos distraídos acompanhando jogos que não chegaram a me interessar.
As viagens, portanto, são coisas do passado. Vou ver se consigo colocar mais alguma foto no FB, vai depender de minha sorte, pois nem sempre o botão "compartilhar no facebook" aparece como opção. Para vocês, uma barraquinha "porta fortuna", com tantos limões e belas pimentas, uma das muitas que encontrei pelo caminho.

Sunday, June 06, 2010

Caminhos


Acordo hoje e me perco em indagações: onde estava eu no domingo passado? Sem o bendito caderninho, já me parece impossível lembrar do que fiz. Foram tantas as cidades, tantos os caminhos… Mas antes mesmo de ir verificar, consegui me lembrar — acordei em Brescia. Mas, como lembrei do caderninho, vou transcrever aqui alguns trechos:
"Se Paris vale uma missa, Brescia nos valeu uma espécie de réquiem. A cidade não nos foi mostrada, e viemos parar direto num hotel (aliás, muito bom) ao lado da estação. Infelizmente, de manhã, um roubo: Um casal de velhinhos teve sua bolsa roubada no restaurante do hotel. Ninguém percebeu. O restaurante cheio, com o nosso grupo e mais os jovens da sinfônica de Seoul, e alguém se apossa de uma bolsa de turista, onde há passaporte e $$$, calmamente, sem testemunhos, sem que ninguém se aperceba."
Se o início do dia não foi dos melhores, sua continuação foi melhorando. O ônibus nos levou a Sirmeone, no lago de Garda, o mais bonito de todos. Quando chegamos, já que íamos tomar um barco, a Lei de Murphy se manifestou mais uma vez, e, enquanto estivemos embarcados, choveu e fez frio. Mal atracamos o sol abriu. C'est la vie!
Sirmeone fica numa ilha, na ponta de uma península estreita e compridinha. Nesta ilha, um castelo e as lembranças romanas: oliveiras de mais de 700 anos e as Termas de Catulo, uma das maiores da antiguidade, aproveitando as fontes de águas quentes, uma das quais ainda alimenta o lago, e se revela em borbulhas que sobem, alegres, até a superfície.
Mais um trecho do caderninho:
"Pelas ruas, uma impressionante quantidade de gente e de carros luxuosos, vê-se que é um lugar de turismo elegante, mas também popular. Nas lojas, uma quantidade absurda de sorvetes, paninis e pizzas nos tira a fome. E, na saída, a descoberta da Termas Fonte Boiola."
O caderninho continua, falando da região e de sua produção agrícola, tudo informação prestada pelo Gian Luca, nosso guia que se dizia apenas acompanhante. E menção aos ciclistas, que estavam por toda a parte. Enquanto isso, o motorista, Simone, nos levava até Riva de Garda, no outro extremo do lago, próxima da Áustria e, por isso mesmo, cheia de tradições austríacas. Comemos uma comida típica alemã, a tal da carne salada, uma espécie de carpaccio com essa carne salgada, bem gostosinha.
Depois fomos para Verona, onde estava acontecendo o fim do Giro d'Italia. Impressionante a quantidade de público que compareceu à cidade para ver o vencedor do torneio de ciclismo mais importante do país.
Um último trecho do caderninho:
"Agora viajamos entre montanhas, acompanhando um rio que se faz prateado entre os vinhedos. Ele brinca, ora à direita, ora à esquerda da estrada. O sol se filtra por entre as névoas que cobrem as partes mais altas das montanhas e de suas escarpas. Continuamos, e as montanhas vão se afastando cada vez mais, até que são apenas sentinelas distantes, ostentando nos cimos um pouco de neve."
Em tempo, a foto é de Riva de Garda.

Thursday, June 03, 2010

A fotógrafa subiu no telhado


Enfim, em casa. Pretendia atualizar o blog pelo caminho, mas foi impossível. Num dos lugares em que pernoitei, o acesso à internet me sairia a 35 centavos de Euro por minuto… Impraticável!
Anotei tudo num caderninho de viagem, caneta e papel nunca sairão de moda, eu acho. Nem o livro de papel, dos quais trouxe mais uma leva para enlouquecer meu querido bibliotecário de Babel – mais um Guilherme a sofrer, tentando colocar ordem nos meus livros!
Agora vou tentar fazer das minhas gracinhas, ou seja, publicar as espetaculares fotos que, por mero acaso, consegui ir tirando pelo caminho. Com elas poderei ir re-contando a história da viagem. Nesta foto ao lado, escolhida aleatoriamente, está a lembrança de minha visita ao Duomo. No primeiro dia, tendo chegado já à tardinha, passeamos só pelo chão, sem nos aventurarmos nas alturas do Duomo. Percorremos as ruas que nos levaram do hotel (Cavour) até a galeria Vittorio Emanuelle. Lá, aconselhada por Barbara, a Bela, condessa de Milano, dei as usuais voltinhas com o calcanhar encaixado aonde, um dia, estavam representados os testículos do touro. Dizem que dá sorte, e eu não quis desperdiçar esta chance. Afinal, quem não precisa de sorte? No dia seguinte foi meu dia de andar nas nuvens: primeiro, subi ao telhado do Duomo, depois fui ao Teatro alla Scala. Mas já falei sobre meu encantamento com a  ópera, e não vou me repetir aqui. O que não falei foi sobre os passeios em Paris, minhas impressões sobre as exposições maravilhosas e sobre a cidade encantadora, sempre interessante e cheias de coisas para fazer. Mas deixo para depois. Como ontem dormi o dia inteiro, por causa do jet lag que me pegou de jeito, desta vez, hoje tenho que fazer tudo o que pretendia fazer ontem, ou seja, colocar a vida em dia. Até breve, então!

Thursday, May 27, 2010

Extase!

Como foi formidàvel a òpera ontem à noite! Daniel Barenboim regendo O ouro do Reno. Uma cenografia das mais espetaculares, com o palco inundado, cantores e bailarinos dentro d'agua, vozes lindissimas, efeitos espetaculares com pouquissimo material, uso sobretudo das luzes e de imagens projetadas. E o teatro, por dentro, é lindissimo, todo em veludo vermelho e dourados, seis andares de Loggias, ou camarotes, um camarote imperial grandioso para receber alguém tao grande quanto Napoleao, que mandou construir o Teatro. Flora e eu num camarote com tres alemaes, eu podia sentir a vibraçao deles com a beleza do libreto e da musica. Bem, com a musica eu ate concordo, quanto ao libreto terei que ficar na impressao, pois do meu lugar nao consegui ler as legendas. Quando terminou o espetaculo, que foi apresentado sem intervalo, o publico saiu em estado de graça, desconhecidos falando uns com os outros, compartilhando seus sentimentos pois era muita emoçao para sentirmos calados! Lindo! Emocionante! Com todos os pontos de exclamaçao que puder usar.

Wednesday, May 26, 2010

Paris é uma festa (ainda)

Sim, Hemmingway tinha razao, e o computador nao tem til. Mas Paris é uma festa em dias de sol, encantadores e coloridos. Tantas coisas para fazer em pouco tempo. Sò com relaçao a Proust havia duas exposiçoes! Uma no museu de letras e manuscritos, em St. Germain, e outra no Marmottan, um palàcio lindo na Porte de la Muette. Munch, Lucien Freud, Sainte Russie, Turner e Picasso, Crime et Chatiment (Crime e castigo) e muitas mais. Optei por Munch e por La Sainte Russie porque eram os museus que estavam abertos nos dias que pude ir. No domingo fui visitar a casa e os jardins de Monet, em Giverny. Nao podia ter escolhido um dia melhor. Assim que puder, publicarei algumas das fotos escandalosamente lindas que tirei, e de antemao peço desculpas, pois os jardins possuem um fundo musical de canto de passarinhos e também é acompanhado pelos mais variados perfumes de flores e isso nao se consegue reproduzir. Havia uma multidao, une foule, por toda a parte. Tanto em Giverny quanto em Paris, era bom parar e olhar o mundo se reunindo em paz e sorrisos. Além dos 4 museus, ainda fui ver uma peça de teatro. La maison de poupée, com a Audrey Tautou, nossa querida Amélie Poulain. Que continua fazendo carinhas de Amélie Poulain, mas que até consegue representar bem direitinho. O teatro de la Madeleine é que é muito lindo por dentro, mas mais apertado que os teatros brasileiros. Os joelhos ficam roçando na cadeira da frente, parecia que eu estava no teatro do Fashion Mall.
Foi tudo o que deu para fazer. Entre um programa e outro, livros, livros e mais livros! E um vestido e duas blusas, para me livrar do calor que ia me matando. A vontade era de andar de canga, mas nao dava... Ontem vim para Milano! Com as dicas da Barbara Càssara, estou fazendo os passeios mais lindos, me deliciando. Hoje vou ao Scala, que me surpreendeu por ser tao pequenino. Mais tarde vou ve-lo por dentro, depois conto. E, como nao tenho muito tempo aqui no computador do hotel, deixo para contar os detalhes depois, quando form me lembrando, no Brasil.

Thursday, May 20, 2010

Travel light

Será que algum dia viajei assim, "light", quase sem bagagem, sem expectativas, sem amarras? Essa é uma arte que às vezes domino. Uma roupa para sair à noite, dois pares de calça, algumas blusas, casaco, se esfriar – está pronta a mala! Mas, desta vez, errei a mão: fiz a mala cedo demais, e nos três dias em que ela ficou aberta a meu lado, fui colocando mais coisas de que fui lembrando: cachecol, luva, cintos, meias, bijoux, escova para o cabelo. E livros. E um caderno. E o computador. A máquina fotográfica. Os quinhentos carregadores a que nossa modernidade nos obriga. E as notícias das amigas, avisando que está frio. Ou que está quente, agora está parecendo verão! Resultado, saio daqui com a mala cheia, com casacos demais, com a sensação de que vou levando roupas demais para dias de menos. Mas agora não vou mexer mais na mala. Vou assim mesmo. E com uma malinha de mão, com uma muda de roupa, em caso de extravio de bagagem. Ah, que importa? Vou feliz!

Saturday, May 15, 2010

Descobertas de uma manhã de outono

Minha casa se desfaz: aparelhos que quebram, portas que não abrem, os vestígios do tempo… Mas faz tão pouco tempo que estou aqui! Talvez seja minha insistência nas coisas voláteis da modernidade, que aprendi a amar com o Gui.
Fui criada cultuando o passado. Em minha casa valorizávamos o tapete velho, o lustre antigo a poltrona usada. Aquele tinha sido o tinteiro do bisavô. Este era o castiçal da vovó. Minha casa parecia e ainda parece um museu, não de coisas valiosas, mas de pequenos objetos que talvez ainda guardem um pouco dos desaparecidos. Quando viemos para o Brasil, absolutamente sem dinheiro, "herdamos" os móveis velhos de tios e amigos. Não sei como conseguimos dar uma aparência de casa bonitinha e decorada com tantos retalhos díspares. O sofá de veludo vermelho gasto que herdamos de minha mãe milagrosamente combinava com as poltronas amarelas de com braços puídos, que ganhei da madrinha. Para disfarçar os buracos, fiz capinhas de crochê, com barbante, já que era o material mais barato. Essa era eu. Mas o Gui era apaixonado pela novidade. Ele estava sempre antenado com maquininhas, objetos que eu encarava com absoluta indiferença, enquanto ele se extasiava com sua modernidade. Aos poucos fui me convertendo: passei a apreciar, mesmo sem entender e sem me esforçar para aprender a usar todo o potencial das novas aparelhagens de som, dos controles remotos que controlavam tudo, menos minha capacidade de usá-los, até por que, quando eu finalmente conseguia dominar uma novidade, esta já havia se tornado obsoleta e estava na hora de trocá-la. Passei a achar muito natural trocarmos um computador que me parecia absolutamente maravilhoso, por um outro que me parecia hostil, mas que me garantiam ser muito melhor. Agora, sozinha, tendo que administrar as novidades, percebo que elas são efêmeras por natureza. A fechadura é o máximo, mas tem vida breve, assim como o telefone celular pelo qual tenho um verdadeiro encantamento, mas que me tenta com mais uma novidade que só posso obter se trocá-lo por um modelo mais moderno.
E cá estou eu às voltas com o Kindle (que já troquei duas vezes), com a TV, com o DVD, as máquinas que perdem seus fios e se tornam inúteis tão rapidamente.
E olho meu retrato, sendo abraçada pelo Guilherme e percebo que sou supérflua, sou quase imaterial nesta foto, que tanto me agrada. A solidez do Gui, de seu braço me envolvendo, de sua mão que parece segurar uma quimera, é isso que se destaca nesta foto, além dos sorrisos absolutamente felizes.
Essa é minha descoberta nesta manhã de outono. Minha fluidez. Não tenho "substância", por isso me apeguei a coisas do passado e depois me fascinei por modernidades. Mas, eu, mesma, qual seria a minha preferência? Agora, sozinha, o que escolheria? Acho que minha única escolha própria são os livros. Nem sequer os livros em si, mas as histórias contidas nestes livros. As quimeras.

Thursday, May 13, 2010

Perdi o Baudelaire

Tanto que eu quis publicar um texto que li, de Baudelaire falando sobre arte e fotografia, mas a incompetência cibernética me impediu. Agora não sei mais onde anda o Baudelaire. Por aí, pelo espaço. E eu perdi a vontade de falar sobre arte, perdi a vontade de falar do Baudelaire, estou meio blasée. Tem épocas que acho que o mundo conspira contra mim: Procuro uma revista no jornaleiro e não acho. Leio textos e não os compreendo. Vejo meus prazos se esgotarem, e não reajo. Sei lá. 
O vento lá fora canta, e isso me deixa inquieta. O vento agora me sussurra coisas que não consigo mais entender. Houve um tempo em que eu adorava os dias de vento. Em minha casa sem ar condicionado, qualquer corrente de ar era bem vinda. E eu adorava andar na rua nos dias ventosos, cabelos me chicoteando o rosto, e eu andando contra ou a favor do vento, as roupas se agitando e se enfunando a meu redor, como velas prontas a me levar para outros portos. Um dia, parti. Mas parti com destino, e no novo porto encontrei abrigo e âncora firme. Agora minhas velas estão rotas, perdi minha âncora, qualquer ventinho me faz rodopiar. E, por falar em rodopiar, me lembro de um outro dia de vento, distante no tempo, e eu, na janela, vendo as coisas mais disparatadas passarem em frente a ela: roupas, flores, brinquedos, papéis, sapatos, Tudo desfilando em frente ao sexto andar, subindo e descendo num balé sem coreografia, rodopiando loucamente por breves instantes, ameaçando cair e depois subindo, se elevando até andares ainda mais altos. Espantada, acompanhava com os olhos aquele espetáculo, sem me dar conta do perigo que representava. Mesas e cadeiras de plástico passaram voando, colchonetes, guarda-chuvas revirados, expondo seus esqueletos.  Quando se passou isso? Já não sei. As lembranças agora se misturam, se combinam, se perfeccionam em matéria de sonhos ainda não sonhados. Houve um dia de vento que testemunhei. Talvez Baudelaire tenha passado voando em frente aos meus olhos, naquela data. Talvez essa seja a data de seu desaparecimento. Talvez tenha sido aquele o dia em que o conheci. Hoje ele se foi, então, num vento muito mais brando. Mas não há como segurá-lo, as raízes não se fincam na areia das ampulhetas. Baudelaire, Drummond, Rimbaud, Bandeira, Verlaine, João Cabral, Anna Akmahtova, Paul Celan, Secchin, Adrienne Rich, magos de palavras que sopram pela minha vida e me inquietam, desfilando horrores e imprecisões, bisturis e lucidez… Olhando o turbilhão não percebo os perigos e me mantenho, fascinada, à janela, sonhando em criar asas.

Sunday, May 09, 2010

Dia das mães

Destesto dia em que a gente se sente na obrigação de ser feliz! Sempre impliquei com essas obrigações: estar apaixonado no dia dos namorados, se sentir livre no Carnaval, honrar pai e mãe nos dias respectivos, dar um exagero de presentes no Natal, achar que tudo vai mudar no Ano Novo, e por aí vai… O pior de tudo é que cada vez sinto mais patente essa tradução de amor e carinho em $$$$. Fulano ama tanto sua mãe que lhe dá um carro, mas Sicrana supera seu amor, pois lhe dá um apartamento. E o filho da mendiga? O quanto ele sofre e se sente inferiorizado porque ao invés de dar um conjunto estofado da casa Bahia só pode dar para sua mãe a bala que estava guardando há tanto tempo, e que já está até melada? Pois, para mim, tem mais valor o taxista que me trouxe ontem para a casa, que me confessou que gostaria muito de ir ver as acrobacias aéreas, mas não ia poder, pois era dia das Mães. "Prefiro ficar com ela", foi a frase despretensiosa que ouvi, de um homem jovem, bem apessoado, que não estava querendo impressionar ninguém e que, por delicadeza, talvez nem comente seu desejo de ver os aviõezinhos se arriscando enquanto riscam os ares. E aí eu penso: E estes pilotos, será que eles não têm mães? Qual a mãe que vê seu filho fazendo essas maluquices sem sentir as garras do temor em volta de seu coração? Me lembro da amiga que ganhou de presente, de seus filhos, o filme dos dois se atirando de Bungee-Jump. Ao invés de uma declaração de amor piegas e melosa dos filhos distantes, ela vê o que lhe parece uma tentativa de suicídio! Ficou mal, chorou, mas os filhos riram dela e a chamaram de boba. "Mamãe exagera", foi o que eles me disseram, quando os encontrei. O pior é que a gente se controla, amarra um sorriso, diz com voz um pouco trêmula "Meu filho, tome cuidado!". E fica tentando se convencer de que o importante é que nossos filhos vivam felizes; que nós não devemos impedi-los; que eles sabem o que estão fazendo e que mais vale uma vida bem vivida que a pusilanimidade.
Passamos a vida fingindo que está tudo bem, quando, na verdade, a vida é uma sucessão de perdas primordiais que vamos tentando preencher com nossos atos. Nascemos e somos, imediatamente, mutilados: cortam nosso cordão umbilical, até então nosso suprimento de tudo o que necessitávamos. Temos que começar a respirar, sugar, chorar, comunicar, exigir, lutar. E nossa testemunha, desde o início, é nossa mãe. E é por que ela se comove com nossa fragilidade, por que ela se esforça para nos compreender, porque traduz nossos vagidos, é por ela ser quem é que sobrevivemos. E aí, chega um dia, e a gente pensa que pode, com um anel de brilhante, agradecer o que ela fez por nós. Um abraço, beijos, um presente e logo partimos para nossa própria satisfação, para nossas obrigações, para longe… E nem guardamos na lembrança o rosto que, de ano para ano, se apaga um pouco mais…
Hoje estou muito argumentativa! Só estou solidária com aqueles filhos que, como o Chico Buarque, passam seu primeiro dia das mães de órfãos. Estes, acredito, devem estar refletindo no verdadeiro valor de suas mães. Liberados do presentinho, que depende de seus bolsos, podem pensar em suas mães com seus corações vulneráveis pela ferida recente.
Mãe, seu colo, seu silêncio, suas implicâncias, os instantes de prazer e alegria que passamos a seu lado e depois os instantes em que nos alegrávamos por não mais precisarmos de sua presença e ajuda. Mãe com seus ralhos e implicâncias, com suas impaciências e seus transbordamentos. Mãe.

Thursday, May 06, 2010

Tirado da Gazeta do Povo 05.05.10

Leitura sem piedade
Em meados da década, o antropólogo Felipe Lindoso – um dos virtuosos do mercado editorial brasileiro – publicou um estudo nanico, porém revolucionário, intitulado O Brasil pode se tornar um país de leitores? Deu o que falar. A pergunta, propositalmente com jeito de “e por falar nisso”, teve o efeito de um beliscão de mãe. Há muito se reza a ladainha de que só o ensino e a leitura podem salvar a nação do fogo do inferno. Virou um argumento messiânico. Mas ninguém tinha ousado duvidar da possibilidade de a gente dar um jeitinho de se salvar. Pois é. O risco existe e ao insinuá-lo Lindoso deixa o leitor com a mão no queixo. Ponto para ele. É dessa insegurança que o pesquisador tira proveito para chamar atenção sobre suas teses, tirando da boca do público a velha resposta pronta para as mazelas nacionais. E a mais importante de suas teses é que só se vai vencer a batalha do livro e da leitura com estratégias agressivas e certeiras, semelhante às dedicadas ao agronegócio ou ao setor de energia.

A tática de guerra é a seguinte. Sabe-se que os índices de leitura se movem, para cima, a cada vez que a economia aquece. Os êxitos do Plano Cruzado e do Real fizeram com que mais livros fossem retirados das prateleiras, para alegria geral da nação. Mas tolo o país que se fiúza apenas no sobe e desce do mercado para
avaliar seu desempenho de leitura. Seria o mesmo que dizer que o aumento nas vendas de barras de chocolate representa que as pessoas aprenderam mais sobre boa alimentação. Para ser um país de homens e mulheres com livros às mancheias é preciso articular três itens: os avanços na educação, a melhoria de renda e o tempo dedicado ao esporte de juntar letrinhas. Eis a questão. Tempo é prioridade, cultura, atividade humana. Não é um índice do IBGE. E fazer com que as pessoas dediquem algumas horas do seu dia ao silêncio da leitura implica dizer que essa prática é tão importante quanto pilotar iPods, ir ao cinema ou gozar das delícias urbanas, para citar algumas donatárias dos relógios contemporâneos.

É assunto complicado, mexe com a alma e a alma é o segredo do negócio. Daí a tentação de confundir bom desempenho com o sucesso dos livros da moda, a exemplo de O Código Da Vinci, de Dan Brown, ou com a saúde financeira das editoras cristãs, às voltas com a piedade e com autoajuda. A essa altura, alguém pode dizer que se volta ao ponto – é tudo uma questão de educação. E é. Não há nada mais educativo do que promover na sociedade a proliferação de agentes de leitura. Que eles sejam tantos quanto os garis, os agentes de saúde e os
professores da rede pública. E que agentes de leitura sejam inclusive esses todos. Caso existam, aos borbotões, esses operários da leitura vão se ocupar de ensinar a ler, a ter boa luz em casa e um lugar adequado para abrir o livro. Mais do que isso. Vão vigiar os currículos es colares, para que privilegiem a leitura. Pro moverão a leitura em voz alta – essa lição de antigamente, caída em desuso nas salas apinhadas das de alunos. Os agentes irão às ruas exigir programas de redução do preço dos livros.

De quebra, farão campanhas em favor do livro que mobilizarão mundos em fundos, tanto as que são feitas para evitar as DSTs, os acidentes de trânsito, a homofobia. Nos palanques, hão de pedir que as verbas de incentivo à cultura não privilegiem tanto os artistas esquecendo-se, sem piedade, dos seus consumidores. Parece um manual de utopia dos anos 60, editado para os anos 2000. E talvez o seja, porque este de fato é uma libido reprimida do Brasil – ser um país de leitores. Chega de lágrimas: é possível, se houver políticas continuadas, se superarmos a marca vergonhosa de 25% dos municípios, apenas, com bibliotecas. Se o livro se tornar importante. Do contrário, a resposta à pergunta de Lindoso será “não”. E não veremos país nenhum.

Thursday, April 29, 2010

Insisto, em Z

Z era a cidade que Percy Fawcett procurava no interior do Brasil. Como cheguei a Fawcett? Através de Callado e de sua reportagem O esqueleto na Lagoa Verde e também de minha amiga Kim que, ao vir visitar o Pantanal, trouxe o livro de Graham contando sobre o tresloucado Coronel. Um sonhador, Fawcett nem sequer coronel era. Corrigiu as injustiças do exército britânico promovendo-se no nome. Com uma natureza de "semideus", ele se embrenhou pelas matas brasileiras procurando uma cidade grandiosa a que chamava de Z. A cidade nunca apareceu e Fawcett desapareceu, talvez por tê-la encontrado numa outra dimensão. Muitos procuraram por ele e os ossos, encontrados na mata à beira de uma lagoa, dizem os ingleses que não são dele (Callado até reclama do fato de terem levado os ossos para serem examinados na Inglaterra). Se fossem, o mito se esfumaçaria, como o desejo de descobrir essas cidades perdidas se esfumaçou. Nas ironias da vida, quem descobriu uma magnífica cidade perdida foi um concorrente, Hiram Bingham, a quem se honra como descobridor de Machu Picchu. Quantas paixões e vaidades nestas expedições! E quantas paixões e vaidades nestas guerras de festas modernas, quando, na falta de cidades a serem descobertas, palácios são construídos para durarem apenas uma noite. E, no entanto, às vezes é possível fazer uma construção muito mais duradoura com um bolo cheiroso e brindes de guaraná. Ontem alguns amigos se reuniram para comemorar o aniversário do Edney Silvestre, e foi ele quem falou na magia de seus aniversários de menino pobre. Nossa festa não foi nada pobre. Generosos, os amigos lhe ofertaram bolo, docinhos, espumante e presentes. E cada qual lhe ofereceu o melhor sorriso, o abraço mais quente, o beijo mais delicado. Bolo e guaraná. Afeto e emoção. O que procuramos em Z, em Machu Picchu, em Shangrilá e Eldorado é esse momento em que bolo e guaraná nos foram oferecidos e que nós nos sentimos perfeitamente amados e queridos…

Tuesday, April 27, 2010

Eldorado

Eldorado era a cidade que exploradores procuravam no interior da Amazônia. Aliás, o rio Amazonas deve seu nome a um explorador (não me peçam nomes, há muito que os nomes que conhecia foram parar no arquivo morto do Alzheimer) que disse ter encontrado as descendentes da rainha Hipólita por aqui pelas margens do rio. Se considerarmos que os cavalos não existiam no Novo Mundo, e que deve ser muito difícil andar a cavalo no meio de uma floresta densa, levando, a toda hora, uma lambada de galho de árvore e um tropeção em alguma raiz, a gente logo ri dessa visão. O que será que a teria motivado? As Sereias avistadas por Colombo sei que foram as interpretações da solidão combinadas com a visão das gentis fêmeas de Manatee, o nosso Peixe Boi (que não é um peixe, e sim mamífero) enquanto exibiam suas tetas para os marinheiros. Na carta, Colombo diz que as Sereias de cara não tinham formosura, mas que seus corpos não eram de todo feios… (tenho uma amiga que, depois de um mês de dieta rigorosa, foi à feira e achou que umas sandálias penduradas em uma barraca eram apetitosas linguiças! Só ao chegar perto constatou o engano. Será que o Almirante descobriu seu engano?)
El Dorado era o nome do rei de uma cidade grandiosa escondida nas selvas. Conta a lenda que, todos os dias, esse rei postava-se nu e que seus súditos se encarregavam de soprar ouro em pó sobre seu corpo até que este ficasse totalmente dourado, daí seu nome. Ao final do dia, esse rei banhava-se no rio que por ali passava, deixando evidente que a abundância de ouro era tamanha que o metal podia ser desperdiçado. Isso inflamava a imaginação dos europeus, cujo interesse pelo ouro era maior que o bom senso. Junto a essa lenda, de riqueza, surgiu uma outra, de que a fonte da juventude estaria localizada nessa cidade. Ora, se existe uma coisa que faça o homem se separar de seu ouro, esta é a promessa de eterna juventude! Daí que as expedições se multiplicaram e muitos perderam a vida e a sanidade nestes descaminhos.
Mas, será que cessamos de procurar por esses mitos? Acho que não: No fim de semana, as fotos de Angelique Chartouny, no JB, me mostraram uma ardente expedicionária à fonte da juventude, que ela julga estar situada entre as mãos de um cirurgião plástico e as de um dermatologista. Com suas ampolas de botox e restylane, ela se unge, talvez a cada manhã, e constrói sua imagem congelada de mito. Nas festas feéricas (de fadas) seu sorriso imperturbável derrama-se por sobre os diamantes e esmeraldas, e ela brinda, com champagne, as outras súditas de seu reino de ouro e ilusão. Enquanto isso, nós, pobres mortais, com nossas rugas de espanto e perplexidade, vamos aos cinemas em 3D, ver outros tipos de delírio, histórias lisérgicas que apresentam heroínas cada vez menos humanas e mais deformadas.
Voltarei ao assunto.

Monday, April 26, 2010

Eldorado Vs. Z

Fui a um casamento que parecia um conto de fadas. Deslumbre, foi o que senti ao sair da banalidade da noite, no lado de fora, e entrar num céu estrelado cobrindo uma extraordinária disposição de flores, mesas, objetos, tudo surgido como se por artes de uma varinha de condão.
Quando foi que nos transformamos em especialistas em festas de sonho? Não faz muito tempo, a gente afastava os móveis da sala, preparava sanduiches de pão de forma que víamos sendo cortados, na hora, na padaria, numas maquininhas perigosas mas que deixavam as fatias fininhas e sem cascas. Todos colaboravam, uns enchiam bolas, outros enrolavam brigadeiros, alguém emprestava bandejas, os mais elegantes contratavam garçons, que ao fim da festa estavam caindo de bêbados, intoxicados de tantos "restinhos" surripiados.
Os dotes culinários de cada família eram exibidos orgulhosamente. Falava-se da torta de D. Fulana e do Bobó de Sicrana, e todos balançavam as cabeças, concordando e salivando, ou tímidamente oferecendo um comentário que dizia que o de Beltrana não ficava atrás. Um dia as coisas mudaram. Para fazer uma festa tínhamos que contratar buffês ou banqueteiras. Depois passamos a ter que alugar mesas, e contratar cerimoniais, que por sua vez contratam RP's e Valet's, seguranças particulares, vigilantes para os banheiros, etc. Para darmos uma festa precisamos virar empresas, ou capitulamos e vamos a uma casa de festa que se encarregará de todos os detalhes, desde que possamos pagar por eles. Dos cajuzinhos e brigadeiros, dos bem casados e beijinhos de coco, já só conhecemos a memória. Os doces, irreconhecíveis em seus disfarces de flores, de bonecos, de animais, de cartões de visita, de carrinhos, instrumentos musicais, xícaras, permanecem como enigmas a serem decifrados pelas bocas gulosas. Mordemos um retratinho do bebê e descobrimos que foi feito com um doce de abacaxi e gotas de chocolate. Cravamos os dentes num fradinho barrigudo e provamos um doce de banana recheado de ovos moles. As flores nos entregam, entre suas pétalas, doces de ovos sem ovos e bombons de nozes sem as mesmas, preocupados que estão, nossos anfitriões, em manter nossa saúde. Por isso mesmo, as frituras foram banidas dos coquetéis: barquetes de pepino recheados de ricota, canapés de aipo com passas e wraps de tomate seco desfilam, elegantes, entre as bandejas de mini comidinhas. Num copinho de cachaça nos dão um aperitivo de feijoada, enquanto que nos bares, que se multiplicam, nos afogam em mil sabores de caipirinhas feitas com vodka, sakê, tequila, vinho do porto ou seja lá o que mais inventarem.
Falei tanto que fiquei com saudade dos almoços em que serviam o velho e hoje desprestigiado "arroz de forno". Ninguém nem sabe mais o que é isso! Sei até de um caso (verídico) de que a empregada pediu as contas depois que a patroa lhe pediu para fazer um arroz de forno.
"Que absurdo! Contratam a gente pedindo trivial e depois querem que a gente faça desses pratos complicados! Se ela ainda quisesse um risoto, dava para fazer, mas um arroz de forno! É exploração!"
Mas o post já está muito longo. Depois volto ao assunto.

Friday, April 23, 2010

Transações imobiliárias

Escrevi um imeio agora a um amigo querido e, por caminhos e descaminhos de minha imaginação, fiquei pensando que poderia publicar um anúncio do gênero:" troco apartamento no Leblon por outro no Paraíso, com vista para o Rio". Missão cumprida no mundo, sem muito o que fazer por aqui, posso me mudar a qualquer momento, mas não quero perder minha cidade nem tão maravilhosa de vista. Vestida numa túnica confortável, com uma lira absolutamente inútil nas mãos, pois desisti de minhas lições musicais, eu me debruçaria para olhar o mar e as montanhas, abstraindo trânsito, sujeira, todos os desconfortos do Rio. Ajustaria a imagem para não ver a poluição avançando resoluta pelas águas do mar e dos rios embutidos que antes enfeitavam a cidade. Quando cansasse disso, iria para as aulas de voo, e me divertiria pegando correntes de ar, como surfistas pegam onda. Nos dias de chuva, para não molhar as asinhas, ficaria lá por cima e voejaria como mosca em volta dos santos filósofos, para ver se eles me deixariam ler um pouquinho. Depois, cansada de tanta eternidade, iria começar a me desfiar, como uma nuvem, cada vez mais transparente e tênue, até me misturar para sempre no azul do céu. Alguém tem um condomínio lá pelo alto?

Wednesday, April 21, 2010

Os passos perdidos

Qual será o animal que deixou esta pegada indo para o Student Center da University of Kentucky? Um Puma? Um Leão? Algum felino, com as garras recolhidas, gentil com os amigos, que foi me mostrando os caminhos a serem seguidos lá pela Universidade.
Já disse, e volto a repetir, que adorei o Campus e que a Conferência foi muito especial. Tudo me interessou, os trabalhos, as pessoas, os livros comentados, as novidades, as estratégias, a colaboração… Eu acordava de manhã com vontade de ir logo para lá, de chegar cedinho para conversar um pouquinho mais. E tanto entusiasmo foi bom, pois me permitiu escapar das "trapaças" que o transporte tentou fazer. Cada dia o ônibus me deixou num lugar diferente. O caso mais engraçado foi no segundo dia. O primeiro, como eu ignorava tudo, fui perguntando e cheguei no lugar certo. No segundo, achei que já era veterana. O ônibus parou num prédio estranho e todos saltaram e lá fui eu seguindo aquela turma, cujos rostos ainda não me eram familiares. Entramos num edifício e lá estava servido um lauto café da manhã, com frutas e bolinhos e café e outras delícias. E lá fui eu ficando por ali, todo mundo se servindo e eu atrás, uma caneca de café cheiroso numa das mãos, um prato de frutas na outra, sem conseguir encontrar ninguém da minha turma. E lá não encontraria mesmo, pois estava num café da manhã de outro encontro, da área médica. Disfarcei, terminei minha fatia de abacaxi, e fui carregando minha canequinha descartável em direção à porta, até que consegui deslizar para fora e me encaminhar para o lugar correto. Que mico, como diriam aqui. Lá contei para o pessoal, que achou muita graça, não sei se do meu embaraço ou da minha cara de pau. Bem, tentei colocar um albinho de fotos aqui, mas não consegui. Vou tentar fazê-lo no FB, mas só amanhã. Agora quero ler um pouco.

Monday, April 19, 2010

abraços de cá e de lá

Pois é. Ontem lá estava eu sob o sol (frio) de Kentucky. Hoje cá estou no sol (ameno) do Rio. Me despedi da cidade com um abraço. Free hugs, anunciava um casal na esquina em frente ao meu hotel, e pareciam pedir desculpas pela oferta de carinho. Eu estava na companhia de outra "panelista" — adoro essas nomenclaturas meio inusitadas — e abraçamos aqueles moradores de lá, e em nosso abraço estava o agradecimento por um fim de semana tão pleno, que se fechava numa nota gentil e carinhosa. Agora que chego em casa, encontro abraços virtuais, abraços da família, dos amigos. Coisa boa, começar assim esta semana, no dia de Santo Expedito, que mostra urgência em espalhar seus afetos pela cidade.
Assim que me organizar, colocarei as fotos da Conferência, muito mal tiradas com meu celular, e falarei de todas as boas lembranças que gaurdo de lá.
Mas agora, descanso um pouco. Mereço, andei tanto de avião!…

Saturday, April 17, 2010

Despedidas

Hoje foi o ultimo dia da conferencia e agora aqui estou eu, escrevendo num computador estranho, sem saber onde encontrar os acentos. Perdao. Deixei o Campus florido com saudade, mas a turma mais animadinha resolveu ir junta para tomar cocktails no "SkyBar", e, depois do cocktail, os remanescentes foram atras de um restaurante. As conversas ainda estao acontecendo, mas eu comecei a sentir muito frio, e resolvi voltar para o hotel. Um pouco arrependida, pois bem que gostaria de continuar na companhia do pessoal, tao simpatico, mas tambem contente de voltar e ter um tempinho para arrumar minhas coisas, e quem sabe ate escrever um pouco. Vou abreviar este post, dizendo que Kentucky agora tem um significado de alegria e de prazer para mim. Mas eu saoube isso desde que vi o Campus pela primeira vez. Afinal, a cor da Universidade e azul, minha cor favorita. Portanto, me despeco aqui com o grito de guerra do pessoal: SEE BLUE!

Thursday, April 15, 2010

Assistam, please

BOOK

Bom humor e tulipas em profusão

Depois de descansar, a vida sempre parece mais amena. Acordei de boa cara, cedinho, pois a conferência começava às 9h e eu nem sabia onde ficava a Universidade. Mas tudo correu bem: o dia estava lindo, e o Campus é deslumbrante! Fico com tanta inveja… As acomodações impecáveis, os jardins bem cuidados e os canteiros de tulipa gloriosamente floridos, se abrindo ao sol, me fazendo temer que amanhã eles já tenham começado a se desfolhar. E hoje de manhã todas estavam fechadas, em perfeitos ovinhos coloridos, equilibrados em cima de seus caules eretos, festivos. Na hora do almoço estavam todos já abertos, como bailarinas pousadas numa única perna, numa festa de saiotes tremelicando na brisa. 
As conferências estão acontecendo no décimo oitavo andar de um edifício bem no centro do Campus, o que nos permite uma vista deslumbrante. A cidade de Lexington ainda é pequena, mas já ostenta alguns poucos arranha-céus. A geografia da região é suave, ondulada como imagino que sejam os pampas. Campos muito verdes, cobertos pelo que eles chamam de blue grass, separados por cercas brancas. Os rios escavam seus leitos no terreno macio, e fazem desenhos caprichados de luz por entre o verde. As casas mais antigas, de tijolos vermelhos, ostentam lindos vitrais coloridos, parecem caixinhas de jóia. As ruas, desertas, de repente se enchem de carros saídos não sei de onde, e o trânsito se desenrola devagar, preguiçoso.
Na Universidade, são muitos os alunos, circulando em bandos agitados, talvez por conta do final de semestre (as aulas já terminam no mês que vem). Encontramos uma manifestação "artística" ou talvez "atlética"— uma chuva de bolinhas de gude despejadas sobre uma pequena multidão vestida de acordo com o calor do dia: shorts, sandálias e camisetas. No salão de almoço reservado aos participantes da conferência, muitos professores em seus tradicionais tweeds, comiam uma refeição simples, mas saborosa: presunto, vagem, batatas, frutas e tortas. Acabei preferindo a opção vegetariana, uma fritada de vegetais, que estava muito boa. E baldes de café, claro, pois há um Starbucks bem no Student Center! Sem filas! É o paraíso…
Falei um pouco e escutei muito. Incrível como descubro novos autores todas as vezes que venho aos EUA. E novos autores brasileiros, isso é que é de admirar. Novos para mim, é claro, que ainda não tinha lido nada de Fernando Bonassi nem de Miguel Jorge. E as discussões sobre antologias abriram novas perspectivas sobre as mesmas. Como temos o que ler a partir da própria biografia dos autores, das escolhas, dos períodos etc. Machado continua atraindo a atenção de todos, é um campeão! Ele e Clarice, que vai merecer toda uma sessão. E é uma delícia escutar todos os sotaques que falam um português ora europeu, ora brasileiro, ora despatriado, mas ainda com "sss" e "rrr" que denunciam terras de origem e saudades.
Fico sem saber se meu Callado despertou nos outros a mesma urgência que seus Bonassi e Jorge despertaram em mim. 
Outra surpresa: quando perguntei sobre o Kindle, não encontrei muito entusiasmo. Uma das professoras nem sabia o que era.  Mas, a mesma que desconhecia o aparato, mandava fazer PDF's dos textos para carregá-los em suas viagens, pois era muito mais prático… Acho que é uma questão de tempo. E, no entanto, foi com verdadeira volúpia que manusearam os livros de Callado que trouxe para mostrar. Livro é como vinil — quem é fã, é fiel.
Agora vou escrever um conto. Tenho que trabalhar, aproveitar meus tempinhos livres.

Wednesday, April 14, 2010

Kentucky sem fried chicken

Pois é. Cheguei. Um dia inteiro de viagem para chegar até aqui. Acordar cedo, fazer mala, ir para o aeroporto, esperar um voo, embarcar, voar, chegar em outro aeroporto, enorme, tomar trem para ir de um terminal a outro, esperar o outro voo, descobrir que seu voo está com overbooking, receber uma oferta de 400 dólares para tomar um voo para Cincinatti (Até que eu gostei da idéia,  mas onde é que fica Cincinatti?), embarcar, voar, chegar, tomar taxi, chegar no hotel e perceber que não há nada ao redor, que a cidade, aqui em downtown Lexington, parece abandonada. E, no entanto, as surpresas foram muitas. Ao chegar, descubro que caí na cidade da "concorrencia": a Lexmark é daqui e eu ainda me sinto vestindo a camiseta da Xerox. Mas depois pensei que as duas já andavam de noivado, são capazes de terem se casado e de agora serem uma coisa só. Eu é que estou por fora. Também vejo os campos e mais campos de "blue grass", e o enorme hipódromo, onde as corridas já começaram. Há retratos e posteres de cavalos por toda a parte, mas vi muito poucos animais e apenas lá de cima do avião. Por falar em avião, ao meu lado sentou-se um senhor, distinto, com um livro enorme, parecendo um tijolo: A vida de Einstein. O que será que esse homem tanto fez? A julgar pela grossura do livro, ele teve a vida mais intensa do que a do Rubinstein, com sua carreira internacional e suas várias amantes. Já no voo anterior, a senhora ao meu lado leu seu kindle a viagem inteira. E aí descubro uma das desvantagens do Kindle: o vizinho não consegue saber o que você está lendo. Ou será que isso é uma vantagem? Talvez para quem lê seja uma vantagem, mas os curiosos como eu ficam sem satisfação. E os autores perdem essa pequena propaganda de graça, que é seu livro sendo mostrado aos outros…
Estou cansadíssima, e vou para cama, descansar. Amanhã logo cedo começa a conferência e minha condução sai do hotel às 7:30. Depois conto as impressões do Campus.

Wednesday, April 07, 2010

Perdidona

Que dia é hoje?
Ja passei por tantas emoções, nervosismo, aeroportos, que estou perdida no tempo e no espaço. O pior de tudo é chegar ao destino e seu quarto de hotel não estar pronto: o que fazer? Aqui nesta terra não dá para sair a pé e dar uma voltinha. O hotel me convida a usar a piscina, mas como trocar de roupa? Não consigo abrir a mala, que está "em storage". Pensei em comprar um maiô, até cheguei a experimentar um na lojinha do hotel, mas os maiôs aqui são a coisa mais feia do mundo! Um calção e uma camiseta, uma coisa estranha, muito esquisita.  Comi sem vontade, só para ajudar o tempo a passar. Amarrei a cara, mas depois, pensei: por quê? Não adianta nada ficar emburrada, e é muito mais divertido ficar simplesmente feliz. Estou na dúvida se me deito no sofá do lobby e tiro uma soneca ou se vou tomar um café? O problema todo é o frio, pois o ar condicionado aqui nesta terra é sempre regulado por piguins na menopausa! Já está até começando a nevar ;-). Acho que vou tomar um chocolate quente para me aquecer e então dormir um pouquinho. Ou ler.

Tuesday, April 06, 2010

Coquetel no Aquário

Ontem fui à posse de D. Cleonice Berardinelli na Academia Brasileira de Letras. Inconsequentes e aventureiras, eu e mais duas amigas enfrentamos a chuva, a falta de táxi, todos os contra, para prestarmos nossa homenagem a uma extraordinária professora, que sempre admirei, embora não tenha sido aluna regular dela. Na platéia, meus professores: Marlene de Castro Correia, Margarida Alves Ferreira, Jorge Fernandes da Silveira, entre outros. E amigos, como o meu acadêmico favorito, o Secchin, de quem sou amiga há tanto tempo. As acadêmicas ostentavam o novo modelito do fardão, desenhado pelo Guilherme de Guimarães, que já teve criações mais felizes. Dona Cleo fez um lindo discurso, começando pelo verso de Claudio Manuel da Costa "Por que tão tarde?" Ela emocionou e impressionou a todos com sua voz forte e clara, sua disposição, seu ânimo. Creio que os 93 anos de D. Cleo não lhe pesam. O planeta Cleo tem outra gravidade!
Depois dos discursos e das emoções, o coquetel no aquário: as coberturas transparentes pareciam paredes de água e nós, iluminados e engalanados, exibíamos nossas escamas de festa num balé entre garçons e muita comida. Pois os convidados compareceram em número menor que o esperado, e nós tivemos um serviço ainda mais esplêndido do que esperávamos.
Hoje, olhando a TV, fico abismada de compreender o que enfrentamos. E os perigos que corremos. Só que agora, incorrigível, estou de malas prontas, esperando por um submarino que me leve ao aeroporto, pois estou de partida. Será que vamos? Conseguirei atravessar a cidade alagada e levantar voo?
Tudo dará certo, e eu escreverei, quando puder, já dos EUA. E até breve!

Saturday, April 03, 2010

Minhas amigas


Cris Nadruz, brincalhona, comentando um post meu disse que pensar cansa. Concordo. E ainda completo: cansa e nos trai. Houve um tempo, acredite quem quiser, que antes de beber o leite era necessário fervê-lo. Passei muitas manhãs de minha vida, me sentindo escravizada na frente de um fogão, aguardando o leite, impassível, que por sua vez, aguardava minha distração para se derramar por toda a parte. Eu ficava ali, concentrada na leiteira, tentando não pensar, apenas vigiar o leite, que demorava, aguardando seu momento exato. Bastava que meu pensamento se desviasse dele por um segundo, e já estava o leite derramado, queimado, grudado de uma maneira que depois exigia horas de esfregação. Mas, mesmo assim, aquele segundo de distração tinha valido a pena. Pensar é tudo de bom. Mesmo que exija sacrifícios sem fim. Pensar também pode nos livrar de broncas. Tive um chefe, Bill Maddox, que me ensinou muitas coisas. Uma delas foi quando ele me encontrou, um dia, distraída, pensando. Eu era tradutora, e estava com o texto aberto à minha frente, mas devia estar "viajando", sonhando com alguma coisa. Não vi meu chefe entrando e acho que até devo de ter me assustado quando ele me perguntou, em inglês, o que eu estava fazendo. Respondi, sem pestanejar, com a mais pura verdade: Pensando. Ele me sorriu e respondeu: "Esta é a única resposta que me deixa sem ação: pago a você para pensar. Espero que você esteja pensando no trabalho". Será que eu estava? Hoje sei que nossos pensamentos estão sempre ligados, vão formando uma teia que vira trama, que vira história, que vira livro, que vira vida… Tanto que agora, lembrando disso, lembro de minha entrevista com ele, minha primeira entrevista de emprego. Eu era tão novinha, estava tão assustada, e vestia um vestido amarelo clarinho que eu tinha acabado de ganhar no Natal. Era minha roupa mais bonita, embora não fosse, talvez, a mais adequada para ir procurar emprego. Já tinha falado com um cara do DP, que me levou ao chefão que queria checar meu inglês. Eu estava tão nervosa, mas fui falando, o Bill era um homenzarrão, muito simpático, e eu fui ficando mais à vontade até que ele me perguntou sobre meu "aikyw" Eu não fazia idéia do que ele estava falando, e fui respondendo meio evasiva, disse que não podia informar quanto a isso (até porque não imaginava o que fosse). Ele me ofereceu um cafezinho e eu aceitei, e continuamos a conversa e eu ia respondendo ao mesmo tempo que ia tentando descobrir o que era o tal do aikyw. Ele lamentava que no Brasil as pessoas desconhecessem o próprio aikyw, que nos EUA todos sabiam qual era o valor do seu, etc. , e eu de repente descobri que aikyw era QI, só que, em inglês, a ordem das letras era diferente. Mas não adiantava nada minha descoberta porque até hoje não sei do meu aikyw. Só que eu estava tão embevecida com a descoberta, satisfeita de mim, que peguei o cafezinho que me entregaram e, toda cheia de modos, de dedinhos delicados segurando a xícara com cuidado, segurando o pires com a mão esquerda, ao invés de levar o líquido até a boca, estaquei no meio e derramei o café no meu vestido. Claro que a entrevista se encerrou ali. Saí quase chorando, vestido todo manchado, achando que não era à toa que eu ignorava o valor do meu aikyw. Eu nem devia de ter isso! Cheguei em casa chorando, depois de ter atravessado a cidade num ônibus (o lugar era tão longe de minha casa!) Eles já tinham telefonado duas vezes para minha casa. Liguei, achando que queriam ter a certeza de que eu nunca mais apareceria por lá, mas foi o contrário. Eles me contrataram e traduzi todos os manuais de treinamento que Mr. Maddox queria adaptar do Jack-in-a Box para o Bob's. Foi a única vez que curti fazer tradução. Geralmente sofro muito, pensando nos tesouros escondidos em cada palavra, que não consigo ressaltar na tradução. Mas ali a linguagem era simples, o que eles queriam era motivar as pessoas a se comportarem pró ativamente. Tinha tido, uns tempos antes, uma campanha que dizia: Mexa-se, você pode mudar o mundo. E o manual dizia, a toda hora: Do it! Perguntei ao Bill se podia usar o mexa-se, e ele adorou!
Para terminar. Comecei com a foto da gata adormecida entre os livros, uma brincadeira com meus amigos de FB. Termino agora com esta estante meio maluca, deixo as conclusões para vocês!

Friday, April 02, 2010

Lições de amor (cont.)

Como ia dizendo, estou sempre ensinando que o amor é uma construção cultural. Será que estou caindo em contradição? Talvez não. Acho que desde sempre o amor foi uma coisa complicada para os seres humanos. Pois existe, estou convencida, um amor natural, que se aprende amando. E existem amores que são estabelecidos a partir do social, um amor susceptível a diversas influências do meio, da época, dos medos, das necessidades. O amor romântico, filho do amor cortês, que conhecemos hoje é bem diferente do amor que existia na Grécia e do qual nem posso falar, pois também não sei muito. Mas, se na Grécia o local do amor era no estômago, e hoje em dia o localizamos no coração, isso já basta para estabelecermos uma diferença primordial. O estômago é muito mais "víscera" que o coração. O coração, vital, sem dúvida nenhuma, é um órgão silencioso, que vai batendo dia e noite, e do qual só nos apercebemos quando alguma coisa está errada. O estômago é exigente, se faz presente pela fome, reclama dos excessos, se manifesta em sons inoportunos, se rebela e expele aquilo que não lhe cai bem. O estômago é uma preocupação cotidiana. Daí as complicações amorosas dos gregos. Se eles encafuavam as mulheres nos gineceus, se lhes recusavam o direito ao estudo e à filosofia, tiravam delas uma parte de sua humanidade. Não era de estranhar, portanto, que, na hora de amar, os homens procurassem os efebos. Ninguém, acho eu, sabe o que as mulheres procuravam. Aristófanes (que, a julgar pelas peças, olhava as mulheres com muita simpatia), mostra-nos mulheres inteligentes, que, apesar da reclusão, e da falta de "academicismo", eram tão sagazes e inteligentes quanto seus companheiros. Até mais! Vejam a peça Lisístrata, e o jeito como as mulheres "dão a volta" nos homens. E vejam como Xantipa põe a nu os ridículos de Sócrates na peça As nuvens. Mas, por favor, não me citem. Esses são só pensamentos desenvolvidos sem pesquisa nem comprovação. O melhor é ir procurar o livro do sociólogo/psicólogo italiano, que vem estudando o assunto há muito tempo. Me lembro de um amigo traduzindo o livro Enamoramento e amor. Galvão era professor da Escola Americana, e se apaixonou pelo livro. Ele, na época, estava numa enrolação amorosa, aqueles desencontros de que o amor é sempre tão pródigo. Primeiro, ela apaixonada, depois ele. Os dois nunca atingiram a simultaneidade. Mas não vou citar casos particulares. Borboleteio entre pensamentos e me lembro que esse livro o ajudou a sair da depressão do caso complicado. De repente, vale a pena ler as 200 "respostas" que nosso professor italiano nos oferece para o caso de paixão, amor e desejo (já carregaram o jornal, não tenho mais como conferir). E eu, em vez de estar aqui falando por falar, devia estar trabalhando. E é o que vou fazer agora, nesta tranquila Sexta-Feira da Paixão — mas, claro, preciso lembrar que paixão é sinônimo de sofrimento. E, no entanto, como desejamos esse tipo de sofrimento! Não é de admirar?

Lições de amor


O jornal me traz a propaganda de um livro de Francesco Alberoni, que se propõe a nos ensinar a amar. Eu me espanto: isso se ensina, assim, em livro? Pois sei que amor se ensina, mas de um jeito sutil, presente, cotidiano. O jeito "animal", sem racionalizações nem pensamentos (o mito já divorciava Eros e Psichê). O amor se ensina em sorrisos, em abraços, em olhares afetuosos. O amor se ensina na compreensão e no perdão. Se ensina nas lágrimas que derramamos por alguém e nas que são derramadas por nós. O amor se ensina num ombro que se oferece à nossa cabeça cansada e confusa. Num aperto de mão escondido. Num olhar que se ilumina à nossa entrada. Até os bichos são capazes de amar. Rabinhos abanando de felicidade, lambidas, sonecas entrelaçadas, o sofrimento paciente de um animal muito mais forte com um amiguinho menor e petulante que resolve testar seus limites.
E, no entanto, eu mesma repito, vezes sem conta, que o amor é uma construção intelectual. Como pode ser isso, oh mulher inconstante e confusa? Bem, tenho compromisso agora, mas depois volto a falar no assunto.

Thursday, April 01, 2010

Amizades

Como será que começam as amizades? O que faz clicar neurônios de um cérebro com outros de um cérebro distante? No decorrer da vida, fui encontrando pessoas e mais pessoas, mas algumas, quase que instantaneamente, identifiquei como "amigas". Não é que eu vá me entregando fácil, assim. Sou reservada, receosa, lenta. Mas há pessoas que, mal entro em contato, já percebo que um dia poderão ser minhas queridas amigas. Um brilho no olhar, uma palavra empregada com justeza, um gesto de delicadeza, são várias as metamorfoses dos "cavalinhos de Tróia" que arrasto para dentro de meu coração. Depois, troiana desconfiada, fico rondando em volta dele, esperando para ver o que vai sair dali. Às vezes nada. O Cavalinho seca e se desfaz em pó. Outras vezes, percebo a tempo que não se tratava de Cavalinho, mas de Quimera sedutora, porém, como toda quimera, sem mais valor que uma moeda falsa. Outras vezes, o Cavalinho se transforma num meigo Cavalo Marinho, silencioso e atento, embelezando minha vida, gestando idéias para compartilhar comigo. Fico feliz ao encontrar, nas minhas praias solitárias estes presentes de Posídon. Brancos e impetuosos, em movimento constante como as ondas que lhes deram origem; ou estáticos e medrosos como eu, observando o mundo em nosso redor, antes de se lançarem a galope nos prados da amizade; cansados e feridos, necessitando de pouso e de sombra; pôneis que galopam sem direção certa, pelo mero prazer de galopar, meu coração bate no compasso deles, e são eles que me mantêm viva. Obrigada, amigos e amigas! Os que já se revelaram e os que prometem, que fazem de minhas ruínas de Tróia um lugar onde ainda pode brotar a alegria.

Recriação

Acho que foi Marx quem disse que a história só se repete como farsa. E a criação? Esse diminuto Big Bang atrás do qual os cientistas andam sonhando, será que vai trazer alguma coisa de interessante? Comecei o dia com essa manchete, e agora vou terminando o dia, ou melhor, já iniciando um outro, escutando a TV gritar histórias de OVNIS. E, no dia 2, inicia-se o filme sobre Chico Xavier… Entra século e sai século e as profecias de Nostradamus continuam nos fascinando. A chuva cai lá fora e a gente se pergunta se nossos governantes contrataram a fundação Cacique Cobra Coral… Os jornais não deixam de publicar a coluna de horóscopos para que gente como eu possa saber o que esperar durante o dia, a semana, o mês.
Fico pensando aqui no que desejaria criar no meu big bang, se eu pudesse escolher. Tento lembrar do Gênesis, mas lá se vão anos que o li, e depois confundi tudo. Pois me lembrava de que "No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus e o Verbo era Deus". Só que depois me disseram que não é o Gênesis que começa assim. O Genesis diz que no princípio Deus criou o céu e a terra. Concreto e simples. Prefiro a história do Verbo, dessa criação pela Palavra, que é criadora e criatura. Adoro pensar na escrita como numa brincadeira de Lego. Vamos juntando pedacinhos de sons e de sonhos e criamos um mundo. Muitas vezes o tal do Verbo se torna mais concreto que a vida em si. Vejam o exemplo de Sheherazade. Sua vida é a palavra que ela é capaz de proferir: se ela se calasse, a vida terminaria. Imaginem, então, a surpresa dos cientistas se, ao lograrem o choque das partículas subatômicas, tudo o que obtivessem fosse apenas uma palavra, definitiva. Teriam eles a coragem de repeti-la? Mesmo sabendo que tudo o que obteriam seria um Eco?
Já vou misturando mitos, é melhor ir dormir. Vou tentar sonhar com o anjo da história, não de olhos e gesto aterrorizados, mas com a fisionomia serena de quem se dispõe a contar/criar.

Monday, March 29, 2010

tristemente pornográfico…

Tinha intenção de publicar aqui uma foto que recebi de um amigo, supostamente um "autorretrato do Eros Grau", candidato à ABL. Como dizem alguns amigos na América, God forbid! Não consegui, talvez porque meu blog tenha mais bom gosto que eu… Mas, já que estava com a cabeça pensando em bobagens, lembrei da cena de nudez do Alec Baldwin no filme Simplesmente complicado. Todo mundo morre de rir, embora nada seja mostrado. A nossa imaginação é mesmo fantástica, cria aquilo que não consegue ver, e se diverte com o que não vê. Coisas há, porém, que não conseguimos imaginar, e é preciso que nos mostrem com uma foto, um desenho, alguma prova visual. Este seria o caso da foto que não consegui publicar. Mas, como vocês não vão acreditar mesmo, nem adianta comentá-la. Ainda borboleteando em volta do assunto, nos tempos de colégio, nossas conversas profundas a respeito de namoros eram muitas. Nós, as sem namorado, escutávamos atentas às que namoravam, e mais que namoravam, "namoravam firme". Uma dessas, do alto de sua lourice e de seus dois anos de namoro nos ensinou que era muito fácil saber se o rapaz que habitava nossas fantasias era o nosso verdadeiro amor: bastava imaginá-lo nu, de botas. Se continuássemos sonhando com ele, aquele era o nosso príncipe. Achei que o conselho era muito bom, mas me faltava uma coisinha: eu nunca tinha visto um homem pelado. Não conseguia imaginar… Depois, o tempo foi passando, não precisei do artifício para saber se o Guilherme era o meu príncipe, pois nunca tive dúvidas disso. E, depois, preferi nunca imaginá-lo nesta terrível e reveladora indumentária. Só que um dia, muitos anos depois, fui ao cinema ver um filme muito bom com o Paul Newman (esqueci o nome do filme, é claro, sempre esqueço!). O filme era uma história verdadeira de um senador americano que se casou com uma prostituta de quem era amante. O senador era texano, e já velhote. E eis que, para ir para a cama com a amante, usava botas, daquelas botas todas desenhadas, de vaqueiro, pois só com botas conseguia "firmeza" (grip). Finalmente! Nu, de botas, definitivamente, nem o Paul Newman! E eu ria sem parar no cinema, ria de chamar a atenção, dessa minha piada pessoal, sem que ninguém entendesse o por quê de tanto riso. E fico por aqui, pensando num outro filme, que acabo de assistir. Ana Bolena. Um filme mudo, que comprei em DVD, sem nem saber que era mudo. Anunciado como uma superprodução, realmente, o filme tem qualidades incríveis, embora peque pela simplificação e pela transformação em mártir de Ana Bolena. Mas os cenários e as roupas são extraordinários. E como me delicio com aquele estilo de representação dos filmes mudos, com aquelas reviradas de olhos, os sorrisos mefistofélicos, o exagero expressivo. É bem verdade que o filme é uma das obras primas do expressionismo alemão. Passei mais de duas horas assistindo ao filme e pensando que, um dia, a gente vai olhar os filmes de hoje com o mesmo estranhamento que olha os filmes do passado. Como as imagens envelhecem! E, como diria o Drummond, como dóem!

Friday, March 26, 2010

Sumiço II

Não sou muito dada a sumiços, uma vez que adoro escrever. Este meu bloguinho é uma fonte de prazer, um lugar onde converso com amigos "de verdade" e "imaginários". Quando era menina, filha única, vivia criando minhas narrativas, onde interpretava personagens que criava. Não me lembro de muitas destas criações, que sempre variavam, só uma ou outra, como a "menina pastora". Tudo começou quando encontrei uma espécie de bengala (na verdade era um suporte de cabide de um armário). Eu tinha uma bola de encher, multicolorida, e passei a "pastoreá-la", com a bengalinha, pela casa. Ia para cima e para baixo, conduzindo minha ovelhinha, desviando-a dos móveis e paredes de minha casa, incentivando-a com gentis (nem tanto) toques de minha bengalinha, transformada em cajado. Minha avó aceitava estas minhas brincadeiras sem comentar. Minha empregada já estava convencida de que eu era maluca, e essa brincadeira foi a confirmação de seu diagnóstico. Ela foi uma das principais agentes para manter minha autoestima embaixo. Toda a vez que falava comigo, era de maneira a ressaltar alguma qualidade negativa que eu por ventura tivesse. Será que ela fazia isso na frente de meus avós? Sinceramente, não sei. Mas ela passava por mim e sussurrava um "doida", um "cara de lua", e me tratava meio aos trancos. Não acho que ela não gostasse de mim, ao contrário, acho que ela gostava sim. Mas eu era o membro mais frágil da família, e era em mim que ela descarregava suas frustrações e hostilidades. Só que na época eu não era capaz de entender isso, e cada "safanão", cada "porca", rosnado baixinho e com raiva, ficavam sangrando. Mas volto às minhas personagens. Eu lia muito, sempre adorei ler. Tive até um livrinho inglês, Candles For The Queen, que ganhei de uma amiga de vovó (na verdade, era uma muambeira, que vinha regularmente vender camisolas importadas e não sei mais o quê). Acho que, como ela nunca conseguiu freguesa que quisesse comprar o tal livrinho e percebeu que a neta da cliente vivia de livro na mão, resolveu agradar a cliente e se livrar do encalhe com o presente. Corri para o embrulho, que, pelo formato, já podia adivinhar que era um livro. Quando abri e não entendi, fiquei decepcionada, mas minha avó foi logo dizendo que eu estava aprendendo inglês e em breve seria capaz de ler a historinha. Olhei o livro todo e só reconheci a palavra queen. Mas o livro era ilustrado, e fui acompanhando a história. Descobri que candles eram velas. Pouco a pouco fui descobrindo o vocabulário, construindo a história da coroação da Rainha Elizabeth II (vejam como o livro era velhinho). A última aquisição foi um verbo, yelled, que pode ser traduzido como exclamaram. Por onde andará este livrinho? Guardei-o durante muito tempo, mas acho que minha mãe jogou-o fora, ou deu-o de presente. Quando fui estudar em Portugal, ela simplesmente deu tudo o que deixei para trás. Toda minha coleção do Príncipe Valente, todos os livros, discos e recortes dos Beatles, a coleção de histórias infantis que ganhei de prêmio de redação no ginásio – uma casinha de papelão com uma estante onde estavam uns dez livrinhos extraordinários como Tartarin de Tarascon, O Albergue do Anjo da Guarda, A menina das nuvens, e outros que já esqueci quais eram. Para terminar essas rememorações, claro que fui a Menina das Nuvens, claro que fui Narizinho (Tanto uma como outra compartilhavam meu nome). Daí que acabei com esse sonho de que, quando crescesse, queria ser personagem. Hoje entendo que, quando finalmente virar personagem, crescerei.

Friday, March 05, 2010

Vale a pena contar outras histórias


Esse vídeo foi "roubado" do blog da maravilhosa Adriana Lisboa. Assistam e prestem atenção nas histórias!

Sopa de letrinhas

Ontem tive minha primeira aula de hebraico! Estou orgulhosa por já conhecer o aleph (finalmente!), o shin e o sin, o mem e o mem sofit, o vav, o iod (iud), e as notações para a, é, ê e o. Um tracinho embaixo, ou um tezinho embaixo da letra equivale a "a". Dois pontinhos, deitados ou em pé, embaixo da letra equivalem a "ê". Três pontinhos, ou cinco pontinhos, debaixo da letra, "é". Um único pontinho, embaixo da letra, pode ser "i". Se estiver no alto, à esquerda, vira "o". Três pontinhos numa ladeirinha debaixo da letra, vira "u". Essas três últimas vogais podem ser representadas de outra maneira ( o iod, que é sempre i, e o vav, que quando tem pontinho em cima é "o" e com pontinho no meio à esquerda é "u". Ia me esquecendo de uma letrinha já aprendida, o tav (taf). Aprendi a escrever nome, quem, mãe, você no feminino, sol, lá, presente, seis, sexto, água, a preposição de, meu ou minha e dele, e mamãe. Pensando bem, já posso escrever shalom: shin com tracinho embaixo, lámed com o vau com pontinho em cima, mais o mem sofit. Não podemos esquecer que tudo isso é escrito da direita para a esquerda. Acho que ninguém entendeu nada, né? Mas eu aprendi a lição! Shalom a todos!

Tuesday, March 02, 2010

Terremotos

Me lembro (acho que me lembro) que no dia do terremoto do Haiti eu tinha acordado muito cedo e me deixado maravilhar pelo nascer do dia. E de ter pensado: num dia assim só podem acontecer coisas boas. Aí a televisão veio me contar as tragédias e me senti quase que ofendida com a "traição". 
Não me lembro se no dia do terremoto do Chile o dia estava bonito ou triste, mas me lembro da TV contando as tragédias e da presidente Bachelet falando na TV. Descartava o risco de tsunami no Chile, dizia que a situação era de catástrofe, mas que eles estavam preparados para enfrentá-la. Eu bem que indaguei aos meus botões (algo que aprendi a fazer com Machado) como alguém, mesmo que seja um país, pode estar preparado para uma catástrofe. Catástrofe é um termo saído do teatro grego que indica a reviravolta que traz o fim da tragédia, é o acontecimento principal, culminante da tragédia, o clímax. Se estamos falando de teatro grego, e as tragédias contavam as histórias dos heróis míticos, compreendo que toda a plateia estivesse preparada para a catástrofe. Quem se sentava nas arquibancadas dos anfiteatros estava careca ou cabeludo de saber que Ifigênia seria morta pelo pai, que Édipo mataria o pai e casaria com a mãe, que Fedra se apaixonaria por seu enteado, essas coisas. Mas acho que os gregos, freudianamente (não resisto!), estavam interessados em entender como é que se deve lidar com essas reviravoltas e as lições eram severas. Acho que os gregos da plateia queriam era saber como é que os protagonistas, surpreendidos (pois eles não sabiam) reagiam frente à catástrofe, para a qual eles nunca estavam preparados ( e depois a filosofia vai tentar sempre informar e preparar, mas sem grandes resultados – há sempre uma peça do quebracabeças que está faltando).
La Bachelet também não sabia, seu país não sabia que o tsunami chegaria, que os incêndios se ateariam, que o desespero levaria pessoas pacatas a saquear os supermercados, que o medo levaria outros a se armarem ameaçadores. Aposto que, a essas alturas, ela deve de estar contando o tempo para entregar a faixa presidencial.
Fui vítima indireta de um terremoto. Há muito tempo atrás um terremoto destruiu a bela cidade natal de meu marido. Na falta de internet, ficamos dias tentando falar ao telefone para saber da família dele. Muitas perdas materiais, mas estavam todos vivos. Ficamos tranquilizados de longe. Mas, quando finalmente nos encontramos outra vez, descobrimos que eles estavam mudados. A catástrofe os transformara inteiramente. Algo foi destruído no espírito de minha sogra. Algo desapareceu para sempre do olhar de meu sogro. Suspeitei, então, que as piores vítimas eram as que sobreviviam.
Nunca estive num terremoto, não sobrevivi a nenhum furacão, as enchentes que enfrentei foram amenas. Mas sou vítima de uma catástrofe pessoal. Meu terremoto ainda balança o chão sob meus pés, apesar do tempo que já se passou. Perdi minha "terra firma", piso sobre escombros e sobre um chão sem sustentação.  Estou vivendo no exílio…