Sunday, June 06, 2010

Caminhos


Acordo hoje e me perco em indagações: onde estava eu no domingo passado? Sem o bendito caderninho, já me parece impossível lembrar do que fiz. Foram tantas as cidades, tantos os caminhos… Mas antes mesmo de ir verificar, consegui me lembrar — acordei em Brescia. Mas, como lembrei do caderninho, vou transcrever aqui alguns trechos:
"Se Paris vale uma missa, Brescia nos valeu uma espécie de réquiem. A cidade não nos foi mostrada, e viemos parar direto num hotel (aliás, muito bom) ao lado da estação. Infelizmente, de manhã, um roubo: Um casal de velhinhos teve sua bolsa roubada no restaurante do hotel. Ninguém percebeu. O restaurante cheio, com o nosso grupo e mais os jovens da sinfônica de Seoul, e alguém se apossa de uma bolsa de turista, onde há passaporte e $$$, calmamente, sem testemunhos, sem que ninguém se aperceba."
Se o início do dia não foi dos melhores, sua continuação foi melhorando. O ônibus nos levou a Sirmeone, no lago de Garda, o mais bonito de todos. Quando chegamos, já que íamos tomar um barco, a Lei de Murphy se manifestou mais uma vez, e, enquanto estivemos embarcados, choveu e fez frio. Mal atracamos o sol abriu. C'est la vie!
Sirmeone fica numa ilha, na ponta de uma península estreita e compridinha. Nesta ilha, um castelo e as lembranças romanas: oliveiras de mais de 700 anos e as Termas de Catulo, uma das maiores da antiguidade, aproveitando as fontes de águas quentes, uma das quais ainda alimenta o lago, e se revela em borbulhas que sobem, alegres, até a superfície.
Mais um trecho do caderninho:
"Pelas ruas, uma impressionante quantidade de gente e de carros luxuosos, vê-se que é um lugar de turismo elegante, mas também popular. Nas lojas, uma quantidade absurda de sorvetes, paninis e pizzas nos tira a fome. E, na saída, a descoberta da Termas Fonte Boiola."
O caderninho continua, falando da região e de sua produção agrícola, tudo informação prestada pelo Gian Luca, nosso guia que se dizia apenas acompanhante. E menção aos ciclistas, que estavam por toda a parte. Enquanto isso, o motorista, Simone, nos levava até Riva de Garda, no outro extremo do lago, próxima da Áustria e, por isso mesmo, cheia de tradições austríacas. Comemos uma comida típica alemã, a tal da carne salada, uma espécie de carpaccio com essa carne salgada, bem gostosinha.
Depois fomos para Verona, onde estava acontecendo o fim do Giro d'Italia. Impressionante a quantidade de público que compareceu à cidade para ver o vencedor do torneio de ciclismo mais importante do país.
Um último trecho do caderninho:
"Agora viajamos entre montanhas, acompanhando um rio que se faz prateado entre os vinhedos. Ele brinca, ora à direita, ora à esquerda da estrada. O sol se filtra por entre as névoas que cobrem as partes mais altas das montanhas e de suas escarpas. Continuamos, e as montanhas vão se afastando cada vez mais, até que são apenas sentinelas distantes, ostentando nos cimos um pouco de neve."
Em tempo, a foto é de Riva de Garda.

Thursday, June 03, 2010

A fotógrafa subiu no telhado


Enfim, em casa. Pretendia atualizar o blog pelo caminho, mas foi impossível. Num dos lugares em que pernoitei, o acesso à internet me sairia a 35 centavos de Euro por minuto… Impraticável!
Anotei tudo num caderninho de viagem, caneta e papel nunca sairão de moda, eu acho. Nem o livro de papel, dos quais trouxe mais uma leva para enlouquecer meu querido bibliotecário de Babel – mais um Guilherme a sofrer, tentando colocar ordem nos meus livros!
Agora vou tentar fazer das minhas gracinhas, ou seja, publicar as espetaculares fotos que, por mero acaso, consegui ir tirando pelo caminho. Com elas poderei ir re-contando a história da viagem. Nesta foto ao lado, escolhida aleatoriamente, está a lembrança de minha visita ao Duomo. No primeiro dia, tendo chegado já à tardinha, passeamos só pelo chão, sem nos aventurarmos nas alturas do Duomo. Percorremos as ruas que nos levaram do hotel (Cavour) até a galeria Vittorio Emanuelle. Lá, aconselhada por Barbara, a Bela, condessa de Milano, dei as usuais voltinhas com o calcanhar encaixado aonde, um dia, estavam representados os testículos do touro. Dizem que dá sorte, e eu não quis desperdiçar esta chance. Afinal, quem não precisa de sorte? No dia seguinte foi meu dia de andar nas nuvens: primeiro, subi ao telhado do Duomo, depois fui ao Teatro alla Scala. Mas já falei sobre meu encantamento com a  ópera, e não vou me repetir aqui. O que não falei foi sobre os passeios em Paris, minhas impressões sobre as exposições maravilhosas e sobre a cidade encantadora, sempre interessante e cheias de coisas para fazer. Mas deixo para depois. Como ontem dormi o dia inteiro, por causa do jet lag que me pegou de jeito, desta vez, hoje tenho que fazer tudo o que pretendia fazer ontem, ou seja, colocar a vida em dia. Até breve, então!

Thursday, May 27, 2010

Extase!

Como foi formidàvel a òpera ontem à noite! Daniel Barenboim regendo O ouro do Reno. Uma cenografia das mais espetaculares, com o palco inundado, cantores e bailarinos dentro d'agua, vozes lindissimas, efeitos espetaculares com pouquissimo material, uso sobretudo das luzes e de imagens projetadas. E o teatro, por dentro, é lindissimo, todo em veludo vermelho e dourados, seis andares de Loggias, ou camarotes, um camarote imperial grandioso para receber alguém tao grande quanto Napoleao, que mandou construir o Teatro. Flora e eu num camarote com tres alemaes, eu podia sentir a vibraçao deles com a beleza do libreto e da musica. Bem, com a musica eu ate concordo, quanto ao libreto terei que ficar na impressao, pois do meu lugar nao consegui ler as legendas. Quando terminou o espetaculo, que foi apresentado sem intervalo, o publico saiu em estado de graça, desconhecidos falando uns com os outros, compartilhando seus sentimentos pois era muita emoçao para sentirmos calados! Lindo! Emocionante! Com todos os pontos de exclamaçao que puder usar.

Wednesday, May 26, 2010

Paris é uma festa (ainda)

Sim, Hemmingway tinha razao, e o computador nao tem til. Mas Paris é uma festa em dias de sol, encantadores e coloridos. Tantas coisas para fazer em pouco tempo. Sò com relaçao a Proust havia duas exposiçoes! Uma no museu de letras e manuscritos, em St. Germain, e outra no Marmottan, um palàcio lindo na Porte de la Muette. Munch, Lucien Freud, Sainte Russie, Turner e Picasso, Crime et Chatiment (Crime e castigo) e muitas mais. Optei por Munch e por La Sainte Russie porque eram os museus que estavam abertos nos dias que pude ir. No domingo fui visitar a casa e os jardins de Monet, em Giverny. Nao podia ter escolhido um dia melhor. Assim que puder, publicarei algumas das fotos escandalosamente lindas que tirei, e de antemao peço desculpas, pois os jardins possuem um fundo musical de canto de passarinhos e também é acompanhado pelos mais variados perfumes de flores e isso nao se consegue reproduzir. Havia uma multidao, une foule, por toda a parte. Tanto em Giverny quanto em Paris, era bom parar e olhar o mundo se reunindo em paz e sorrisos. Além dos 4 museus, ainda fui ver uma peça de teatro. La maison de poupée, com a Audrey Tautou, nossa querida Amélie Poulain. Que continua fazendo carinhas de Amélie Poulain, mas que até consegue representar bem direitinho. O teatro de la Madeleine é que é muito lindo por dentro, mas mais apertado que os teatros brasileiros. Os joelhos ficam roçando na cadeira da frente, parecia que eu estava no teatro do Fashion Mall.
Foi tudo o que deu para fazer. Entre um programa e outro, livros, livros e mais livros! E um vestido e duas blusas, para me livrar do calor que ia me matando. A vontade era de andar de canga, mas nao dava... Ontem vim para Milano! Com as dicas da Barbara Càssara, estou fazendo os passeios mais lindos, me deliciando. Hoje vou ao Scala, que me surpreendeu por ser tao pequenino. Mais tarde vou ve-lo por dentro, depois conto. E, como nao tenho muito tempo aqui no computador do hotel, deixo para contar os detalhes depois, quando form me lembrando, no Brasil.

Thursday, May 20, 2010

Travel light

Será que algum dia viajei assim, "light", quase sem bagagem, sem expectativas, sem amarras? Essa é uma arte que às vezes domino. Uma roupa para sair à noite, dois pares de calça, algumas blusas, casaco, se esfriar – está pronta a mala! Mas, desta vez, errei a mão: fiz a mala cedo demais, e nos três dias em que ela ficou aberta a meu lado, fui colocando mais coisas de que fui lembrando: cachecol, luva, cintos, meias, bijoux, escova para o cabelo. E livros. E um caderno. E o computador. A máquina fotográfica. Os quinhentos carregadores a que nossa modernidade nos obriga. E as notícias das amigas, avisando que está frio. Ou que está quente, agora está parecendo verão! Resultado, saio daqui com a mala cheia, com casacos demais, com a sensação de que vou levando roupas demais para dias de menos. Mas agora não vou mexer mais na mala. Vou assim mesmo. E com uma malinha de mão, com uma muda de roupa, em caso de extravio de bagagem. Ah, que importa? Vou feliz!

Saturday, May 15, 2010

Descobertas de uma manhã de outono

Minha casa se desfaz: aparelhos que quebram, portas que não abrem, os vestígios do tempo… Mas faz tão pouco tempo que estou aqui! Talvez seja minha insistência nas coisas voláteis da modernidade, que aprendi a amar com o Gui.
Fui criada cultuando o passado. Em minha casa valorizávamos o tapete velho, o lustre antigo a poltrona usada. Aquele tinha sido o tinteiro do bisavô. Este era o castiçal da vovó. Minha casa parecia e ainda parece um museu, não de coisas valiosas, mas de pequenos objetos que talvez ainda guardem um pouco dos desaparecidos. Quando viemos para o Brasil, absolutamente sem dinheiro, "herdamos" os móveis velhos de tios e amigos. Não sei como conseguimos dar uma aparência de casa bonitinha e decorada com tantos retalhos díspares. O sofá de veludo vermelho gasto que herdamos de minha mãe milagrosamente combinava com as poltronas amarelas de com braços puídos, que ganhei da madrinha. Para disfarçar os buracos, fiz capinhas de crochê, com barbante, já que era o material mais barato. Essa era eu. Mas o Gui era apaixonado pela novidade. Ele estava sempre antenado com maquininhas, objetos que eu encarava com absoluta indiferença, enquanto ele se extasiava com sua modernidade. Aos poucos fui me convertendo: passei a apreciar, mesmo sem entender e sem me esforçar para aprender a usar todo o potencial das novas aparelhagens de som, dos controles remotos que controlavam tudo, menos minha capacidade de usá-los, até por que, quando eu finalmente conseguia dominar uma novidade, esta já havia se tornado obsoleta e estava na hora de trocá-la. Passei a achar muito natural trocarmos um computador que me parecia absolutamente maravilhoso, por um outro que me parecia hostil, mas que me garantiam ser muito melhor. Agora, sozinha, tendo que administrar as novidades, percebo que elas são efêmeras por natureza. A fechadura é o máximo, mas tem vida breve, assim como o telefone celular pelo qual tenho um verdadeiro encantamento, mas que me tenta com mais uma novidade que só posso obter se trocá-lo por um modelo mais moderno.
E cá estou eu às voltas com o Kindle (que já troquei duas vezes), com a TV, com o DVD, as máquinas que perdem seus fios e se tornam inúteis tão rapidamente.
E olho meu retrato, sendo abraçada pelo Guilherme e percebo que sou supérflua, sou quase imaterial nesta foto, que tanto me agrada. A solidez do Gui, de seu braço me envolvendo, de sua mão que parece segurar uma quimera, é isso que se destaca nesta foto, além dos sorrisos absolutamente felizes.
Essa é minha descoberta nesta manhã de outono. Minha fluidez. Não tenho "substância", por isso me apeguei a coisas do passado e depois me fascinei por modernidades. Mas, eu, mesma, qual seria a minha preferência? Agora, sozinha, o que escolheria? Acho que minha única escolha própria são os livros. Nem sequer os livros em si, mas as histórias contidas nestes livros. As quimeras.

Thursday, May 13, 2010

Perdi o Baudelaire

Tanto que eu quis publicar um texto que li, de Baudelaire falando sobre arte e fotografia, mas a incompetência cibernética me impediu. Agora não sei mais onde anda o Baudelaire. Por aí, pelo espaço. E eu perdi a vontade de falar sobre arte, perdi a vontade de falar do Baudelaire, estou meio blasée. Tem épocas que acho que o mundo conspira contra mim: Procuro uma revista no jornaleiro e não acho. Leio textos e não os compreendo. Vejo meus prazos se esgotarem, e não reajo. Sei lá. 
O vento lá fora canta, e isso me deixa inquieta. O vento agora me sussurra coisas que não consigo mais entender. Houve um tempo em que eu adorava os dias de vento. Em minha casa sem ar condicionado, qualquer corrente de ar era bem vinda. E eu adorava andar na rua nos dias ventosos, cabelos me chicoteando o rosto, e eu andando contra ou a favor do vento, as roupas se agitando e se enfunando a meu redor, como velas prontas a me levar para outros portos. Um dia, parti. Mas parti com destino, e no novo porto encontrei abrigo e âncora firme. Agora minhas velas estão rotas, perdi minha âncora, qualquer ventinho me faz rodopiar. E, por falar em rodopiar, me lembro de um outro dia de vento, distante no tempo, e eu, na janela, vendo as coisas mais disparatadas passarem em frente a ela: roupas, flores, brinquedos, papéis, sapatos, Tudo desfilando em frente ao sexto andar, subindo e descendo num balé sem coreografia, rodopiando loucamente por breves instantes, ameaçando cair e depois subindo, se elevando até andares ainda mais altos. Espantada, acompanhava com os olhos aquele espetáculo, sem me dar conta do perigo que representava. Mesas e cadeiras de plástico passaram voando, colchonetes, guarda-chuvas revirados, expondo seus esqueletos.  Quando se passou isso? Já não sei. As lembranças agora se misturam, se combinam, se perfeccionam em matéria de sonhos ainda não sonhados. Houve um dia de vento que testemunhei. Talvez Baudelaire tenha passado voando em frente aos meus olhos, naquela data. Talvez essa seja a data de seu desaparecimento. Talvez tenha sido aquele o dia em que o conheci. Hoje ele se foi, então, num vento muito mais brando. Mas não há como segurá-lo, as raízes não se fincam na areia das ampulhetas. Baudelaire, Drummond, Rimbaud, Bandeira, Verlaine, João Cabral, Anna Akmahtova, Paul Celan, Secchin, Adrienne Rich, magos de palavras que sopram pela minha vida e me inquietam, desfilando horrores e imprecisões, bisturis e lucidez… Olhando o turbilhão não percebo os perigos e me mantenho, fascinada, à janela, sonhando em criar asas.

Sunday, May 09, 2010

Dia das mães

Destesto dia em que a gente se sente na obrigação de ser feliz! Sempre impliquei com essas obrigações: estar apaixonado no dia dos namorados, se sentir livre no Carnaval, honrar pai e mãe nos dias respectivos, dar um exagero de presentes no Natal, achar que tudo vai mudar no Ano Novo, e por aí vai… O pior de tudo é que cada vez sinto mais patente essa tradução de amor e carinho em $$$$. Fulano ama tanto sua mãe que lhe dá um carro, mas Sicrana supera seu amor, pois lhe dá um apartamento. E o filho da mendiga? O quanto ele sofre e se sente inferiorizado porque ao invés de dar um conjunto estofado da casa Bahia só pode dar para sua mãe a bala que estava guardando há tanto tempo, e que já está até melada? Pois, para mim, tem mais valor o taxista que me trouxe ontem para a casa, que me confessou que gostaria muito de ir ver as acrobacias aéreas, mas não ia poder, pois era dia das Mães. "Prefiro ficar com ela", foi a frase despretensiosa que ouvi, de um homem jovem, bem apessoado, que não estava querendo impressionar ninguém e que, por delicadeza, talvez nem comente seu desejo de ver os aviõezinhos se arriscando enquanto riscam os ares. E aí eu penso: E estes pilotos, será que eles não têm mães? Qual a mãe que vê seu filho fazendo essas maluquices sem sentir as garras do temor em volta de seu coração? Me lembro da amiga que ganhou de presente, de seus filhos, o filme dos dois se atirando de Bungee-Jump. Ao invés de uma declaração de amor piegas e melosa dos filhos distantes, ela vê o que lhe parece uma tentativa de suicídio! Ficou mal, chorou, mas os filhos riram dela e a chamaram de boba. "Mamãe exagera", foi o que eles me disseram, quando os encontrei. O pior é que a gente se controla, amarra um sorriso, diz com voz um pouco trêmula "Meu filho, tome cuidado!". E fica tentando se convencer de que o importante é que nossos filhos vivam felizes; que nós não devemos impedi-los; que eles sabem o que estão fazendo e que mais vale uma vida bem vivida que a pusilanimidade.
Passamos a vida fingindo que está tudo bem, quando, na verdade, a vida é uma sucessão de perdas primordiais que vamos tentando preencher com nossos atos. Nascemos e somos, imediatamente, mutilados: cortam nosso cordão umbilical, até então nosso suprimento de tudo o que necessitávamos. Temos que começar a respirar, sugar, chorar, comunicar, exigir, lutar. E nossa testemunha, desde o início, é nossa mãe. E é por que ela se comove com nossa fragilidade, por que ela se esforça para nos compreender, porque traduz nossos vagidos, é por ela ser quem é que sobrevivemos. E aí, chega um dia, e a gente pensa que pode, com um anel de brilhante, agradecer o que ela fez por nós. Um abraço, beijos, um presente e logo partimos para nossa própria satisfação, para nossas obrigações, para longe… E nem guardamos na lembrança o rosto que, de ano para ano, se apaga um pouco mais…
Hoje estou muito argumentativa! Só estou solidária com aqueles filhos que, como o Chico Buarque, passam seu primeiro dia das mães de órfãos. Estes, acredito, devem estar refletindo no verdadeiro valor de suas mães. Liberados do presentinho, que depende de seus bolsos, podem pensar em suas mães com seus corações vulneráveis pela ferida recente.
Mãe, seu colo, seu silêncio, suas implicâncias, os instantes de prazer e alegria que passamos a seu lado e depois os instantes em que nos alegrávamos por não mais precisarmos de sua presença e ajuda. Mãe com seus ralhos e implicâncias, com suas impaciências e seus transbordamentos. Mãe.

Thursday, May 06, 2010

Tirado da Gazeta do Povo 05.05.10

Leitura sem piedade
Em meados da década, o antropólogo Felipe Lindoso – um dos virtuosos do mercado editorial brasileiro – publicou um estudo nanico, porém revolucionário, intitulado O Brasil pode se tornar um país de leitores? Deu o que falar. A pergunta, propositalmente com jeito de “e por falar nisso”, teve o efeito de um beliscão de mãe. Há muito se reza a ladainha de que só o ensino e a leitura podem salvar a nação do fogo do inferno. Virou um argumento messiânico. Mas ninguém tinha ousado duvidar da possibilidade de a gente dar um jeitinho de se salvar. Pois é. O risco existe e ao insinuá-lo Lindoso deixa o leitor com a mão no queixo. Ponto para ele. É dessa insegurança que o pesquisador tira proveito para chamar atenção sobre suas teses, tirando da boca do público a velha resposta pronta para as mazelas nacionais. E a mais importante de suas teses é que só se vai vencer a batalha do livro e da leitura com estratégias agressivas e certeiras, semelhante às dedicadas ao agronegócio ou ao setor de energia.

A tática de guerra é a seguinte. Sabe-se que os índices de leitura se movem, para cima, a cada vez que a economia aquece. Os êxitos do Plano Cruzado e do Real fizeram com que mais livros fossem retirados das prateleiras, para alegria geral da nação. Mas tolo o país que se fiúza apenas no sobe e desce do mercado para
avaliar seu desempenho de leitura. Seria o mesmo que dizer que o aumento nas vendas de barras de chocolate representa que as pessoas aprenderam mais sobre boa alimentação. Para ser um país de homens e mulheres com livros às mancheias é preciso articular três itens: os avanços na educação, a melhoria de renda e o tempo dedicado ao esporte de juntar letrinhas. Eis a questão. Tempo é prioridade, cultura, atividade humana. Não é um índice do IBGE. E fazer com que as pessoas dediquem algumas horas do seu dia ao silêncio da leitura implica dizer que essa prática é tão importante quanto pilotar iPods, ir ao cinema ou gozar das delícias urbanas, para citar algumas donatárias dos relógios contemporâneos.

É assunto complicado, mexe com a alma e a alma é o segredo do negócio. Daí a tentação de confundir bom desempenho com o sucesso dos livros da moda, a exemplo de O Código Da Vinci, de Dan Brown, ou com a saúde financeira das editoras cristãs, às voltas com a piedade e com autoajuda. A essa altura, alguém pode dizer que se volta ao ponto – é tudo uma questão de educação. E é. Não há nada mais educativo do que promover na sociedade a proliferação de agentes de leitura. Que eles sejam tantos quanto os garis, os agentes de saúde e os
professores da rede pública. E que agentes de leitura sejam inclusive esses todos. Caso existam, aos borbotões, esses operários da leitura vão se ocupar de ensinar a ler, a ter boa luz em casa e um lugar adequado para abrir o livro. Mais do que isso. Vão vigiar os currículos es colares, para que privilegiem a leitura. Pro moverão a leitura em voz alta – essa lição de antigamente, caída em desuso nas salas apinhadas das de alunos. Os agentes irão às ruas exigir programas de redução do preço dos livros.

De quebra, farão campanhas em favor do livro que mobilizarão mundos em fundos, tanto as que são feitas para evitar as DSTs, os acidentes de trânsito, a homofobia. Nos palanques, hão de pedir que as verbas de incentivo à cultura não privilegiem tanto os artistas esquecendo-se, sem piedade, dos seus consumidores. Parece um manual de utopia dos anos 60, editado para os anos 2000. E talvez o seja, porque este de fato é uma libido reprimida do Brasil – ser um país de leitores. Chega de lágrimas: é possível, se houver políticas continuadas, se superarmos a marca vergonhosa de 25% dos municípios, apenas, com bibliotecas. Se o livro se tornar importante. Do contrário, a resposta à pergunta de Lindoso será “não”. E não veremos país nenhum.

Thursday, April 29, 2010

Insisto, em Z

Z era a cidade que Percy Fawcett procurava no interior do Brasil. Como cheguei a Fawcett? Através de Callado e de sua reportagem O esqueleto na Lagoa Verde e também de minha amiga Kim que, ao vir visitar o Pantanal, trouxe o livro de Graham contando sobre o tresloucado Coronel. Um sonhador, Fawcett nem sequer coronel era. Corrigiu as injustiças do exército britânico promovendo-se no nome. Com uma natureza de "semideus", ele se embrenhou pelas matas brasileiras procurando uma cidade grandiosa a que chamava de Z. A cidade nunca apareceu e Fawcett desapareceu, talvez por tê-la encontrado numa outra dimensão. Muitos procuraram por ele e os ossos, encontrados na mata à beira de uma lagoa, dizem os ingleses que não são dele (Callado até reclama do fato de terem levado os ossos para serem examinados na Inglaterra). Se fossem, o mito se esfumaçaria, como o desejo de descobrir essas cidades perdidas se esfumaçou. Nas ironias da vida, quem descobriu uma magnífica cidade perdida foi um concorrente, Hiram Bingham, a quem se honra como descobridor de Machu Picchu. Quantas paixões e vaidades nestas expedições! E quantas paixões e vaidades nestas guerras de festas modernas, quando, na falta de cidades a serem descobertas, palácios são construídos para durarem apenas uma noite. E, no entanto, às vezes é possível fazer uma construção muito mais duradoura com um bolo cheiroso e brindes de guaraná. Ontem alguns amigos se reuniram para comemorar o aniversário do Edney Silvestre, e foi ele quem falou na magia de seus aniversários de menino pobre. Nossa festa não foi nada pobre. Generosos, os amigos lhe ofertaram bolo, docinhos, espumante e presentes. E cada qual lhe ofereceu o melhor sorriso, o abraço mais quente, o beijo mais delicado. Bolo e guaraná. Afeto e emoção. O que procuramos em Z, em Machu Picchu, em Shangrilá e Eldorado é esse momento em que bolo e guaraná nos foram oferecidos e que nós nos sentimos perfeitamente amados e queridos…

Tuesday, April 27, 2010

Eldorado

Eldorado era a cidade que exploradores procuravam no interior da Amazônia. Aliás, o rio Amazonas deve seu nome a um explorador (não me peçam nomes, há muito que os nomes que conhecia foram parar no arquivo morto do Alzheimer) que disse ter encontrado as descendentes da rainha Hipólita por aqui pelas margens do rio. Se considerarmos que os cavalos não existiam no Novo Mundo, e que deve ser muito difícil andar a cavalo no meio de uma floresta densa, levando, a toda hora, uma lambada de galho de árvore e um tropeção em alguma raiz, a gente logo ri dessa visão. O que será que a teria motivado? As Sereias avistadas por Colombo sei que foram as interpretações da solidão combinadas com a visão das gentis fêmeas de Manatee, o nosso Peixe Boi (que não é um peixe, e sim mamífero) enquanto exibiam suas tetas para os marinheiros. Na carta, Colombo diz que as Sereias de cara não tinham formosura, mas que seus corpos não eram de todo feios… (tenho uma amiga que, depois de um mês de dieta rigorosa, foi à feira e achou que umas sandálias penduradas em uma barraca eram apetitosas linguiças! Só ao chegar perto constatou o engano. Será que o Almirante descobriu seu engano?)
El Dorado era o nome do rei de uma cidade grandiosa escondida nas selvas. Conta a lenda que, todos os dias, esse rei postava-se nu e que seus súditos se encarregavam de soprar ouro em pó sobre seu corpo até que este ficasse totalmente dourado, daí seu nome. Ao final do dia, esse rei banhava-se no rio que por ali passava, deixando evidente que a abundância de ouro era tamanha que o metal podia ser desperdiçado. Isso inflamava a imaginação dos europeus, cujo interesse pelo ouro era maior que o bom senso. Junto a essa lenda, de riqueza, surgiu uma outra, de que a fonte da juventude estaria localizada nessa cidade. Ora, se existe uma coisa que faça o homem se separar de seu ouro, esta é a promessa de eterna juventude! Daí que as expedições se multiplicaram e muitos perderam a vida e a sanidade nestes descaminhos.
Mas, será que cessamos de procurar por esses mitos? Acho que não: No fim de semana, as fotos de Angelique Chartouny, no JB, me mostraram uma ardente expedicionária à fonte da juventude, que ela julga estar situada entre as mãos de um cirurgião plástico e as de um dermatologista. Com suas ampolas de botox e restylane, ela se unge, talvez a cada manhã, e constrói sua imagem congelada de mito. Nas festas feéricas (de fadas) seu sorriso imperturbável derrama-se por sobre os diamantes e esmeraldas, e ela brinda, com champagne, as outras súditas de seu reino de ouro e ilusão. Enquanto isso, nós, pobres mortais, com nossas rugas de espanto e perplexidade, vamos aos cinemas em 3D, ver outros tipos de delírio, histórias lisérgicas que apresentam heroínas cada vez menos humanas e mais deformadas.
Voltarei ao assunto.

Monday, April 26, 2010

Eldorado Vs. Z

Fui a um casamento que parecia um conto de fadas. Deslumbre, foi o que senti ao sair da banalidade da noite, no lado de fora, e entrar num céu estrelado cobrindo uma extraordinária disposição de flores, mesas, objetos, tudo surgido como se por artes de uma varinha de condão.
Quando foi que nos transformamos em especialistas em festas de sonho? Não faz muito tempo, a gente afastava os móveis da sala, preparava sanduiches de pão de forma que víamos sendo cortados, na hora, na padaria, numas maquininhas perigosas mas que deixavam as fatias fininhas e sem cascas. Todos colaboravam, uns enchiam bolas, outros enrolavam brigadeiros, alguém emprestava bandejas, os mais elegantes contratavam garçons, que ao fim da festa estavam caindo de bêbados, intoxicados de tantos "restinhos" surripiados.
Os dotes culinários de cada família eram exibidos orgulhosamente. Falava-se da torta de D. Fulana e do Bobó de Sicrana, e todos balançavam as cabeças, concordando e salivando, ou tímidamente oferecendo um comentário que dizia que o de Beltrana não ficava atrás. Um dia as coisas mudaram. Para fazer uma festa tínhamos que contratar buffês ou banqueteiras. Depois passamos a ter que alugar mesas, e contratar cerimoniais, que por sua vez contratam RP's e Valet's, seguranças particulares, vigilantes para os banheiros, etc. Para darmos uma festa precisamos virar empresas, ou capitulamos e vamos a uma casa de festa que se encarregará de todos os detalhes, desde que possamos pagar por eles. Dos cajuzinhos e brigadeiros, dos bem casados e beijinhos de coco, já só conhecemos a memória. Os doces, irreconhecíveis em seus disfarces de flores, de bonecos, de animais, de cartões de visita, de carrinhos, instrumentos musicais, xícaras, permanecem como enigmas a serem decifrados pelas bocas gulosas. Mordemos um retratinho do bebê e descobrimos que foi feito com um doce de abacaxi e gotas de chocolate. Cravamos os dentes num fradinho barrigudo e provamos um doce de banana recheado de ovos moles. As flores nos entregam, entre suas pétalas, doces de ovos sem ovos e bombons de nozes sem as mesmas, preocupados que estão, nossos anfitriões, em manter nossa saúde. Por isso mesmo, as frituras foram banidas dos coquetéis: barquetes de pepino recheados de ricota, canapés de aipo com passas e wraps de tomate seco desfilam, elegantes, entre as bandejas de mini comidinhas. Num copinho de cachaça nos dão um aperitivo de feijoada, enquanto que nos bares, que se multiplicam, nos afogam em mil sabores de caipirinhas feitas com vodka, sakê, tequila, vinho do porto ou seja lá o que mais inventarem.
Falei tanto que fiquei com saudade dos almoços em que serviam o velho e hoje desprestigiado "arroz de forno". Ninguém nem sabe mais o que é isso! Sei até de um caso (verídico) de que a empregada pediu as contas depois que a patroa lhe pediu para fazer um arroz de forno.
"Que absurdo! Contratam a gente pedindo trivial e depois querem que a gente faça desses pratos complicados! Se ela ainda quisesse um risoto, dava para fazer, mas um arroz de forno! É exploração!"
Mas o post já está muito longo. Depois volto ao assunto.

Friday, April 23, 2010

Transações imobiliárias

Escrevi um imeio agora a um amigo querido e, por caminhos e descaminhos de minha imaginação, fiquei pensando que poderia publicar um anúncio do gênero:" troco apartamento no Leblon por outro no Paraíso, com vista para o Rio". Missão cumprida no mundo, sem muito o que fazer por aqui, posso me mudar a qualquer momento, mas não quero perder minha cidade nem tão maravilhosa de vista. Vestida numa túnica confortável, com uma lira absolutamente inútil nas mãos, pois desisti de minhas lições musicais, eu me debruçaria para olhar o mar e as montanhas, abstraindo trânsito, sujeira, todos os desconfortos do Rio. Ajustaria a imagem para não ver a poluição avançando resoluta pelas águas do mar e dos rios embutidos que antes enfeitavam a cidade. Quando cansasse disso, iria para as aulas de voo, e me divertiria pegando correntes de ar, como surfistas pegam onda. Nos dias de chuva, para não molhar as asinhas, ficaria lá por cima e voejaria como mosca em volta dos santos filósofos, para ver se eles me deixariam ler um pouquinho. Depois, cansada de tanta eternidade, iria começar a me desfiar, como uma nuvem, cada vez mais transparente e tênue, até me misturar para sempre no azul do céu. Alguém tem um condomínio lá pelo alto?

Wednesday, April 21, 2010

Os passos perdidos

Qual será o animal que deixou esta pegada indo para o Student Center da University of Kentucky? Um Puma? Um Leão? Algum felino, com as garras recolhidas, gentil com os amigos, que foi me mostrando os caminhos a serem seguidos lá pela Universidade.
Já disse, e volto a repetir, que adorei o Campus e que a Conferência foi muito especial. Tudo me interessou, os trabalhos, as pessoas, os livros comentados, as novidades, as estratégias, a colaboração… Eu acordava de manhã com vontade de ir logo para lá, de chegar cedinho para conversar um pouquinho mais. E tanto entusiasmo foi bom, pois me permitiu escapar das "trapaças" que o transporte tentou fazer. Cada dia o ônibus me deixou num lugar diferente. O caso mais engraçado foi no segundo dia. O primeiro, como eu ignorava tudo, fui perguntando e cheguei no lugar certo. No segundo, achei que já era veterana. O ônibus parou num prédio estranho e todos saltaram e lá fui eu seguindo aquela turma, cujos rostos ainda não me eram familiares. Entramos num edifício e lá estava servido um lauto café da manhã, com frutas e bolinhos e café e outras delícias. E lá fui eu ficando por ali, todo mundo se servindo e eu atrás, uma caneca de café cheiroso numa das mãos, um prato de frutas na outra, sem conseguir encontrar ninguém da minha turma. E lá não encontraria mesmo, pois estava num café da manhã de outro encontro, da área médica. Disfarcei, terminei minha fatia de abacaxi, e fui carregando minha canequinha descartável em direção à porta, até que consegui deslizar para fora e me encaminhar para o lugar correto. Que mico, como diriam aqui. Lá contei para o pessoal, que achou muita graça, não sei se do meu embaraço ou da minha cara de pau. Bem, tentei colocar um albinho de fotos aqui, mas não consegui. Vou tentar fazê-lo no FB, mas só amanhã. Agora quero ler um pouco.

Monday, April 19, 2010

abraços de cá e de lá

Pois é. Ontem lá estava eu sob o sol (frio) de Kentucky. Hoje cá estou no sol (ameno) do Rio. Me despedi da cidade com um abraço. Free hugs, anunciava um casal na esquina em frente ao meu hotel, e pareciam pedir desculpas pela oferta de carinho. Eu estava na companhia de outra "panelista" — adoro essas nomenclaturas meio inusitadas — e abraçamos aqueles moradores de lá, e em nosso abraço estava o agradecimento por um fim de semana tão pleno, que se fechava numa nota gentil e carinhosa. Agora que chego em casa, encontro abraços virtuais, abraços da família, dos amigos. Coisa boa, começar assim esta semana, no dia de Santo Expedito, que mostra urgência em espalhar seus afetos pela cidade.
Assim que me organizar, colocarei as fotos da Conferência, muito mal tiradas com meu celular, e falarei de todas as boas lembranças que gaurdo de lá.
Mas agora, descanso um pouco. Mereço, andei tanto de avião!…

Saturday, April 17, 2010

Despedidas

Hoje foi o ultimo dia da conferencia e agora aqui estou eu, escrevendo num computador estranho, sem saber onde encontrar os acentos. Perdao. Deixei o Campus florido com saudade, mas a turma mais animadinha resolveu ir junta para tomar cocktails no "SkyBar", e, depois do cocktail, os remanescentes foram atras de um restaurante. As conversas ainda estao acontecendo, mas eu comecei a sentir muito frio, e resolvi voltar para o hotel. Um pouco arrependida, pois bem que gostaria de continuar na companhia do pessoal, tao simpatico, mas tambem contente de voltar e ter um tempinho para arrumar minhas coisas, e quem sabe ate escrever um pouco. Vou abreviar este post, dizendo que Kentucky agora tem um significado de alegria e de prazer para mim. Mas eu saoube isso desde que vi o Campus pela primeira vez. Afinal, a cor da Universidade e azul, minha cor favorita. Portanto, me despeco aqui com o grito de guerra do pessoal: SEE BLUE!

Thursday, April 15, 2010

Assistam, please

BOOK

Bom humor e tulipas em profusão

Depois de descansar, a vida sempre parece mais amena. Acordei de boa cara, cedinho, pois a conferência começava às 9h e eu nem sabia onde ficava a Universidade. Mas tudo correu bem: o dia estava lindo, e o Campus é deslumbrante! Fico com tanta inveja… As acomodações impecáveis, os jardins bem cuidados e os canteiros de tulipa gloriosamente floridos, se abrindo ao sol, me fazendo temer que amanhã eles já tenham começado a se desfolhar. E hoje de manhã todas estavam fechadas, em perfeitos ovinhos coloridos, equilibrados em cima de seus caules eretos, festivos. Na hora do almoço estavam todos já abertos, como bailarinas pousadas numa única perna, numa festa de saiotes tremelicando na brisa. 
As conferências estão acontecendo no décimo oitavo andar de um edifício bem no centro do Campus, o que nos permite uma vista deslumbrante. A cidade de Lexington ainda é pequena, mas já ostenta alguns poucos arranha-céus. A geografia da região é suave, ondulada como imagino que sejam os pampas. Campos muito verdes, cobertos pelo que eles chamam de blue grass, separados por cercas brancas. Os rios escavam seus leitos no terreno macio, e fazem desenhos caprichados de luz por entre o verde. As casas mais antigas, de tijolos vermelhos, ostentam lindos vitrais coloridos, parecem caixinhas de jóia. As ruas, desertas, de repente se enchem de carros saídos não sei de onde, e o trânsito se desenrola devagar, preguiçoso.
Na Universidade, são muitos os alunos, circulando em bandos agitados, talvez por conta do final de semestre (as aulas já terminam no mês que vem). Encontramos uma manifestação "artística" ou talvez "atlética"— uma chuva de bolinhas de gude despejadas sobre uma pequena multidão vestida de acordo com o calor do dia: shorts, sandálias e camisetas. No salão de almoço reservado aos participantes da conferência, muitos professores em seus tradicionais tweeds, comiam uma refeição simples, mas saborosa: presunto, vagem, batatas, frutas e tortas. Acabei preferindo a opção vegetariana, uma fritada de vegetais, que estava muito boa. E baldes de café, claro, pois há um Starbucks bem no Student Center! Sem filas! É o paraíso…
Falei um pouco e escutei muito. Incrível como descubro novos autores todas as vezes que venho aos EUA. E novos autores brasileiros, isso é que é de admirar. Novos para mim, é claro, que ainda não tinha lido nada de Fernando Bonassi nem de Miguel Jorge. E as discussões sobre antologias abriram novas perspectivas sobre as mesmas. Como temos o que ler a partir da própria biografia dos autores, das escolhas, dos períodos etc. Machado continua atraindo a atenção de todos, é um campeão! Ele e Clarice, que vai merecer toda uma sessão. E é uma delícia escutar todos os sotaques que falam um português ora europeu, ora brasileiro, ora despatriado, mas ainda com "sss" e "rrr" que denunciam terras de origem e saudades.
Fico sem saber se meu Callado despertou nos outros a mesma urgência que seus Bonassi e Jorge despertaram em mim. 
Outra surpresa: quando perguntei sobre o Kindle, não encontrei muito entusiasmo. Uma das professoras nem sabia o que era.  Mas, a mesma que desconhecia o aparato, mandava fazer PDF's dos textos para carregá-los em suas viagens, pois era muito mais prático… Acho que é uma questão de tempo. E, no entanto, foi com verdadeira volúpia que manusearam os livros de Callado que trouxe para mostrar. Livro é como vinil — quem é fã, é fiel.
Agora vou escrever um conto. Tenho que trabalhar, aproveitar meus tempinhos livres.

Wednesday, April 14, 2010

Kentucky sem fried chicken

Pois é. Cheguei. Um dia inteiro de viagem para chegar até aqui. Acordar cedo, fazer mala, ir para o aeroporto, esperar um voo, embarcar, voar, chegar em outro aeroporto, enorme, tomar trem para ir de um terminal a outro, esperar o outro voo, descobrir que seu voo está com overbooking, receber uma oferta de 400 dólares para tomar um voo para Cincinatti (Até que eu gostei da idéia,  mas onde é que fica Cincinatti?), embarcar, voar, chegar, tomar taxi, chegar no hotel e perceber que não há nada ao redor, que a cidade, aqui em downtown Lexington, parece abandonada. E, no entanto, as surpresas foram muitas. Ao chegar, descubro que caí na cidade da "concorrencia": a Lexmark é daqui e eu ainda me sinto vestindo a camiseta da Xerox. Mas depois pensei que as duas já andavam de noivado, são capazes de terem se casado e de agora serem uma coisa só. Eu é que estou por fora. Também vejo os campos e mais campos de "blue grass", e o enorme hipódromo, onde as corridas já começaram. Há retratos e posteres de cavalos por toda a parte, mas vi muito poucos animais e apenas lá de cima do avião. Por falar em avião, ao meu lado sentou-se um senhor, distinto, com um livro enorme, parecendo um tijolo: A vida de Einstein. O que será que esse homem tanto fez? A julgar pela grossura do livro, ele teve a vida mais intensa do que a do Rubinstein, com sua carreira internacional e suas várias amantes. Já no voo anterior, a senhora ao meu lado leu seu kindle a viagem inteira. E aí descubro uma das desvantagens do Kindle: o vizinho não consegue saber o que você está lendo. Ou será que isso é uma vantagem? Talvez para quem lê seja uma vantagem, mas os curiosos como eu ficam sem satisfação. E os autores perdem essa pequena propaganda de graça, que é seu livro sendo mostrado aos outros…
Estou cansadíssima, e vou para cama, descansar. Amanhã logo cedo começa a conferência e minha condução sai do hotel às 7:30. Depois conto as impressões do Campus.

Wednesday, April 07, 2010

Perdidona

Que dia é hoje?
Ja passei por tantas emoções, nervosismo, aeroportos, que estou perdida no tempo e no espaço. O pior de tudo é chegar ao destino e seu quarto de hotel não estar pronto: o que fazer? Aqui nesta terra não dá para sair a pé e dar uma voltinha. O hotel me convida a usar a piscina, mas como trocar de roupa? Não consigo abrir a mala, que está "em storage". Pensei em comprar um maiô, até cheguei a experimentar um na lojinha do hotel, mas os maiôs aqui são a coisa mais feia do mundo! Um calção e uma camiseta, uma coisa estranha, muito esquisita.  Comi sem vontade, só para ajudar o tempo a passar. Amarrei a cara, mas depois, pensei: por quê? Não adianta nada ficar emburrada, e é muito mais divertido ficar simplesmente feliz. Estou na dúvida se me deito no sofá do lobby e tiro uma soneca ou se vou tomar um café? O problema todo é o frio, pois o ar condicionado aqui nesta terra é sempre regulado por piguins na menopausa! Já está até começando a nevar ;-). Acho que vou tomar um chocolate quente para me aquecer e então dormir um pouquinho. Ou ler.

Tuesday, April 06, 2010

Coquetel no Aquário

Ontem fui à posse de D. Cleonice Berardinelli na Academia Brasileira de Letras. Inconsequentes e aventureiras, eu e mais duas amigas enfrentamos a chuva, a falta de táxi, todos os contra, para prestarmos nossa homenagem a uma extraordinária professora, que sempre admirei, embora não tenha sido aluna regular dela. Na platéia, meus professores: Marlene de Castro Correia, Margarida Alves Ferreira, Jorge Fernandes da Silveira, entre outros. E amigos, como o meu acadêmico favorito, o Secchin, de quem sou amiga há tanto tempo. As acadêmicas ostentavam o novo modelito do fardão, desenhado pelo Guilherme de Guimarães, que já teve criações mais felizes. Dona Cleo fez um lindo discurso, começando pelo verso de Claudio Manuel da Costa "Por que tão tarde?" Ela emocionou e impressionou a todos com sua voz forte e clara, sua disposição, seu ânimo. Creio que os 93 anos de D. Cleo não lhe pesam. O planeta Cleo tem outra gravidade!
Depois dos discursos e das emoções, o coquetel no aquário: as coberturas transparentes pareciam paredes de água e nós, iluminados e engalanados, exibíamos nossas escamas de festa num balé entre garçons e muita comida. Pois os convidados compareceram em número menor que o esperado, e nós tivemos um serviço ainda mais esplêndido do que esperávamos.
Hoje, olhando a TV, fico abismada de compreender o que enfrentamos. E os perigos que corremos. Só que agora, incorrigível, estou de malas prontas, esperando por um submarino que me leve ao aeroporto, pois estou de partida. Será que vamos? Conseguirei atravessar a cidade alagada e levantar voo?
Tudo dará certo, e eu escreverei, quando puder, já dos EUA. E até breve!

Saturday, April 03, 2010

Minhas amigas


Cris Nadruz, brincalhona, comentando um post meu disse que pensar cansa. Concordo. E ainda completo: cansa e nos trai. Houve um tempo, acredite quem quiser, que antes de beber o leite era necessário fervê-lo. Passei muitas manhãs de minha vida, me sentindo escravizada na frente de um fogão, aguardando o leite, impassível, que por sua vez, aguardava minha distração para se derramar por toda a parte. Eu ficava ali, concentrada na leiteira, tentando não pensar, apenas vigiar o leite, que demorava, aguardando seu momento exato. Bastava que meu pensamento se desviasse dele por um segundo, e já estava o leite derramado, queimado, grudado de uma maneira que depois exigia horas de esfregação. Mas, mesmo assim, aquele segundo de distração tinha valido a pena. Pensar é tudo de bom. Mesmo que exija sacrifícios sem fim. Pensar também pode nos livrar de broncas. Tive um chefe, Bill Maddox, que me ensinou muitas coisas. Uma delas foi quando ele me encontrou, um dia, distraída, pensando. Eu era tradutora, e estava com o texto aberto à minha frente, mas devia estar "viajando", sonhando com alguma coisa. Não vi meu chefe entrando e acho que até devo de ter me assustado quando ele me perguntou, em inglês, o que eu estava fazendo. Respondi, sem pestanejar, com a mais pura verdade: Pensando. Ele me sorriu e respondeu: "Esta é a única resposta que me deixa sem ação: pago a você para pensar. Espero que você esteja pensando no trabalho". Será que eu estava? Hoje sei que nossos pensamentos estão sempre ligados, vão formando uma teia que vira trama, que vira história, que vira livro, que vira vida… Tanto que agora, lembrando disso, lembro de minha entrevista com ele, minha primeira entrevista de emprego. Eu era tão novinha, estava tão assustada, e vestia um vestido amarelo clarinho que eu tinha acabado de ganhar no Natal. Era minha roupa mais bonita, embora não fosse, talvez, a mais adequada para ir procurar emprego. Já tinha falado com um cara do DP, que me levou ao chefão que queria checar meu inglês. Eu estava tão nervosa, mas fui falando, o Bill era um homenzarrão, muito simpático, e eu fui ficando mais à vontade até que ele me perguntou sobre meu "aikyw" Eu não fazia idéia do que ele estava falando, e fui respondendo meio evasiva, disse que não podia informar quanto a isso (até porque não imaginava o que fosse). Ele me ofereceu um cafezinho e eu aceitei, e continuamos a conversa e eu ia respondendo ao mesmo tempo que ia tentando descobrir o que era o tal do aikyw. Ele lamentava que no Brasil as pessoas desconhecessem o próprio aikyw, que nos EUA todos sabiam qual era o valor do seu, etc. , e eu de repente descobri que aikyw era QI, só que, em inglês, a ordem das letras era diferente. Mas não adiantava nada minha descoberta porque até hoje não sei do meu aikyw. Só que eu estava tão embevecida com a descoberta, satisfeita de mim, que peguei o cafezinho que me entregaram e, toda cheia de modos, de dedinhos delicados segurando a xícara com cuidado, segurando o pires com a mão esquerda, ao invés de levar o líquido até a boca, estaquei no meio e derramei o café no meu vestido. Claro que a entrevista se encerrou ali. Saí quase chorando, vestido todo manchado, achando que não era à toa que eu ignorava o valor do meu aikyw. Eu nem devia de ter isso! Cheguei em casa chorando, depois de ter atravessado a cidade num ônibus (o lugar era tão longe de minha casa!) Eles já tinham telefonado duas vezes para minha casa. Liguei, achando que queriam ter a certeza de que eu nunca mais apareceria por lá, mas foi o contrário. Eles me contrataram e traduzi todos os manuais de treinamento que Mr. Maddox queria adaptar do Jack-in-a Box para o Bob's. Foi a única vez que curti fazer tradução. Geralmente sofro muito, pensando nos tesouros escondidos em cada palavra, que não consigo ressaltar na tradução. Mas ali a linguagem era simples, o que eles queriam era motivar as pessoas a se comportarem pró ativamente. Tinha tido, uns tempos antes, uma campanha que dizia: Mexa-se, você pode mudar o mundo. E o manual dizia, a toda hora: Do it! Perguntei ao Bill se podia usar o mexa-se, e ele adorou!
Para terminar. Comecei com a foto da gata adormecida entre os livros, uma brincadeira com meus amigos de FB. Termino agora com esta estante meio maluca, deixo as conclusões para vocês!

Friday, April 02, 2010

Lições de amor (cont.)

Como ia dizendo, estou sempre ensinando que o amor é uma construção cultural. Será que estou caindo em contradição? Talvez não. Acho que desde sempre o amor foi uma coisa complicada para os seres humanos. Pois existe, estou convencida, um amor natural, que se aprende amando. E existem amores que são estabelecidos a partir do social, um amor susceptível a diversas influências do meio, da época, dos medos, das necessidades. O amor romântico, filho do amor cortês, que conhecemos hoje é bem diferente do amor que existia na Grécia e do qual nem posso falar, pois também não sei muito. Mas, se na Grécia o local do amor era no estômago, e hoje em dia o localizamos no coração, isso já basta para estabelecermos uma diferença primordial. O estômago é muito mais "víscera" que o coração. O coração, vital, sem dúvida nenhuma, é um órgão silencioso, que vai batendo dia e noite, e do qual só nos apercebemos quando alguma coisa está errada. O estômago é exigente, se faz presente pela fome, reclama dos excessos, se manifesta em sons inoportunos, se rebela e expele aquilo que não lhe cai bem. O estômago é uma preocupação cotidiana. Daí as complicações amorosas dos gregos. Se eles encafuavam as mulheres nos gineceus, se lhes recusavam o direito ao estudo e à filosofia, tiravam delas uma parte de sua humanidade. Não era de estranhar, portanto, que, na hora de amar, os homens procurassem os efebos. Ninguém, acho eu, sabe o que as mulheres procuravam. Aristófanes (que, a julgar pelas peças, olhava as mulheres com muita simpatia), mostra-nos mulheres inteligentes, que, apesar da reclusão, e da falta de "academicismo", eram tão sagazes e inteligentes quanto seus companheiros. Até mais! Vejam a peça Lisístrata, e o jeito como as mulheres "dão a volta" nos homens. E vejam como Xantipa põe a nu os ridículos de Sócrates na peça As nuvens. Mas, por favor, não me citem. Esses são só pensamentos desenvolvidos sem pesquisa nem comprovação. O melhor é ir procurar o livro do sociólogo/psicólogo italiano, que vem estudando o assunto há muito tempo. Me lembro de um amigo traduzindo o livro Enamoramento e amor. Galvão era professor da Escola Americana, e se apaixonou pelo livro. Ele, na época, estava numa enrolação amorosa, aqueles desencontros de que o amor é sempre tão pródigo. Primeiro, ela apaixonada, depois ele. Os dois nunca atingiram a simultaneidade. Mas não vou citar casos particulares. Borboleteio entre pensamentos e me lembro que esse livro o ajudou a sair da depressão do caso complicado. De repente, vale a pena ler as 200 "respostas" que nosso professor italiano nos oferece para o caso de paixão, amor e desejo (já carregaram o jornal, não tenho mais como conferir). E eu, em vez de estar aqui falando por falar, devia estar trabalhando. E é o que vou fazer agora, nesta tranquila Sexta-Feira da Paixão — mas, claro, preciso lembrar que paixão é sinônimo de sofrimento. E, no entanto, como desejamos esse tipo de sofrimento! Não é de admirar?

Lições de amor


O jornal me traz a propaganda de um livro de Francesco Alberoni, que se propõe a nos ensinar a amar. Eu me espanto: isso se ensina, assim, em livro? Pois sei que amor se ensina, mas de um jeito sutil, presente, cotidiano. O jeito "animal", sem racionalizações nem pensamentos (o mito já divorciava Eros e Psichê). O amor se ensina em sorrisos, em abraços, em olhares afetuosos. O amor se ensina na compreensão e no perdão. Se ensina nas lágrimas que derramamos por alguém e nas que são derramadas por nós. O amor se ensina num ombro que se oferece à nossa cabeça cansada e confusa. Num aperto de mão escondido. Num olhar que se ilumina à nossa entrada. Até os bichos são capazes de amar. Rabinhos abanando de felicidade, lambidas, sonecas entrelaçadas, o sofrimento paciente de um animal muito mais forte com um amiguinho menor e petulante que resolve testar seus limites.
E, no entanto, eu mesma repito, vezes sem conta, que o amor é uma construção intelectual. Como pode ser isso, oh mulher inconstante e confusa? Bem, tenho compromisso agora, mas depois volto a falar no assunto.

Thursday, April 01, 2010

Amizades

Como será que começam as amizades? O que faz clicar neurônios de um cérebro com outros de um cérebro distante? No decorrer da vida, fui encontrando pessoas e mais pessoas, mas algumas, quase que instantaneamente, identifiquei como "amigas". Não é que eu vá me entregando fácil, assim. Sou reservada, receosa, lenta. Mas há pessoas que, mal entro em contato, já percebo que um dia poderão ser minhas queridas amigas. Um brilho no olhar, uma palavra empregada com justeza, um gesto de delicadeza, são várias as metamorfoses dos "cavalinhos de Tróia" que arrasto para dentro de meu coração. Depois, troiana desconfiada, fico rondando em volta dele, esperando para ver o que vai sair dali. Às vezes nada. O Cavalinho seca e se desfaz em pó. Outras vezes, percebo a tempo que não se tratava de Cavalinho, mas de Quimera sedutora, porém, como toda quimera, sem mais valor que uma moeda falsa. Outras vezes, o Cavalinho se transforma num meigo Cavalo Marinho, silencioso e atento, embelezando minha vida, gestando idéias para compartilhar comigo. Fico feliz ao encontrar, nas minhas praias solitárias estes presentes de Posídon. Brancos e impetuosos, em movimento constante como as ondas que lhes deram origem; ou estáticos e medrosos como eu, observando o mundo em nosso redor, antes de se lançarem a galope nos prados da amizade; cansados e feridos, necessitando de pouso e de sombra; pôneis que galopam sem direção certa, pelo mero prazer de galopar, meu coração bate no compasso deles, e são eles que me mantêm viva. Obrigada, amigos e amigas! Os que já se revelaram e os que prometem, que fazem de minhas ruínas de Tróia um lugar onde ainda pode brotar a alegria.

Recriação

Acho que foi Marx quem disse que a história só se repete como farsa. E a criação? Esse diminuto Big Bang atrás do qual os cientistas andam sonhando, será que vai trazer alguma coisa de interessante? Comecei o dia com essa manchete, e agora vou terminando o dia, ou melhor, já iniciando um outro, escutando a TV gritar histórias de OVNIS. E, no dia 2, inicia-se o filme sobre Chico Xavier… Entra século e sai século e as profecias de Nostradamus continuam nos fascinando. A chuva cai lá fora e a gente se pergunta se nossos governantes contrataram a fundação Cacique Cobra Coral… Os jornais não deixam de publicar a coluna de horóscopos para que gente como eu possa saber o que esperar durante o dia, a semana, o mês.
Fico pensando aqui no que desejaria criar no meu big bang, se eu pudesse escolher. Tento lembrar do Gênesis, mas lá se vão anos que o li, e depois confundi tudo. Pois me lembrava de que "No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus e o Verbo era Deus". Só que depois me disseram que não é o Gênesis que começa assim. O Genesis diz que no princípio Deus criou o céu e a terra. Concreto e simples. Prefiro a história do Verbo, dessa criação pela Palavra, que é criadora e criatura. Adoro pensar na escrita como numa brincadeira de Lego. Vamos juntando pedacinhos de sons e de sonhos e criamos um mundo. Muitas vezes o tal do Verbo se torna mais concreto que a vida em si. Vejam o exemplo de Sheherazade. Sua vida é a palavra que ela é capaz de proferir: se ela se calasse, a vida terminaria. Imaginem, então, a surpresa dos cientistas se, ao lograrem o choque das partículas subatômicas, tudo o que obtivessem fosse apenas uma palavra, definitiva. Teriam eles a coragem de repeti-la? Mesmo sabendo que tudo o que obteriam seria um Eco?
Já vou misturando mitos, é melhor ir dormir. Vou tentar sonhar com o anjo da história, não de olhos e gesto aterrorizados, mas com a fisionomia serena de quem se dispõe a contar/criar.

Monday, March 29, 2010

tristemente pornográfico…

Tinha intenção de publicar aqui uma foto que recebi de um amigo, supostamente um "autorretrato do Eros Grau", candidato à ABL. Como dizem alguns amigos na América, God forbid! Não consegui, talvez porque meu blog tenha mais bom gosto que eu… Mas, já que estava com a cabeça pensando em bobagens, lembrei da cena de nudez do Alec Baldwin no filme Simplesmente complicado. Todo mundo morre de rir, embora nada seja mostrado. A nossa imaginação é mesmo fantástica, cria aquilo que não consegue ver, e se diverte com o que não vê. Coisas há, porém, que não conseguimos imaginar, e é preciso que nos mostrem com uma foto, um desenho, alguma prova visual. Este seria o caso da foto que não consegui publicar. Mas, como vocês não vão acreditar mesmo, nem adianta comentá-la. Ainda borboleteando em volta do assunto, nos tempos de colégio, nossas conversas profundas a respeito de namoros eram muitas. Nós, as sem namorado, escutávamos atentas às que namoravam, e mais que namoravam, "namoravam firme". Uma dessas, do alto de sua lourice e de seus dois anos de namoro nos ensinou que era muito fácil saber se o rapaz que habitava nossas fantasias era o nosso verdadeiro amor: bastava imaginá-lo nu, de botas. Se continuássemos sonhando com ele, aquele era o nosso príncipe. Achei que o conselho era muito bom, mas me faltava uma coisinha: eu nunca tinha visto um homem pelado. Não conseguia imaginar… Depois, o tempo foi passando, não precisei do artifício para saber se o Guilherme era o meu príncipe, pois nunca tive dúvidas disso. E, depois, preferi nunca imaginá-lo nesta terrível e reveladora indumentária. Só que um dia, muitos anos depois, fui ao cinema ver um filme muito bom com o Paul Newman (esqueci o nome do filme, é claro, sempre esqueço!). O filme era uma história verdadeira de um senador americano que se casou com uma prostituta de quem era amante. O senador era texano, e já velhote. E eis que, para ir para a cama com a amante, usava botas, daquelas botas todas desenhadas, de vaqueiro, pois só com botas conseguia "firmeza" (grip). Finalmente! Nu, de botas, definitivamente, nem o Paul Newman! E eu ria sem parar no cinema, ria de chamar a atenção, dessa minha piada pessoal, sem que ninguém entendesse o por quê de tanto riso. E fico por aqui, pensando num outro filme, que acabo de assistir. Ana Bolena. Um filme mudo, que comprei em DVD, sem nem saber que era mudo. Anunciado como uma superprodução, realmente, o filme tem qualidades incríveis, embora peque pela simplificação e pela transformação em mártir de Ana Bolena. Mas os cenários e as roupas são extraordinários. E como me delicio com aquele estilo de representação dos filmes mudos, com aquelas reviradas de olhos, os sorrisos mefistofélicos, o exagero expressivo. É bem verdade que o filme é uma das obras primas do expressionismo alemão. Passei mais de duas horas assistindo ao filme e pensando que, um dia, a gente vai olhar os filmes de hoje com o mesmo estranhamento que olha os filmes do passado. Como as imagens envelhecem! E, como diria o Drummond, como dóem!

Friday, March 26, 2010

Sumiço II

Não sou muito dada a sumiços, uma vez que adoro escrever. Este meu bloguinho é uma fonte de prazer, um lugar onde converso com amigos "de verdade" e "imaginários". Quando era menina, filha única, vivia criando minhas narrativas, onde interpretava personagens que criava. Não me lembro de muitas destas criações, que sempre variavam, só uma ou outra, como a "menina pastora". Tudo começou quando encontrei uma espécie de bengala (na verdade era um suporte de cabide de um armário). Eu tinha uma bola de encher, multicolorida, e passei a "pastoreá-la", com a bengalinha, pela casa. Ia para cima e para baixo, conduzindo minha ovelhinha, desviando-a dos móveis e paredes de minha casa, incentivando-a com gentis (nem tanto) toques de minha bengalinha, transformada em cajado. Minha avó aceitava estas minhas brincadeiras sem comentar. Minha empregada já estava convencida de que eu era maluca, e essa brincadeira foi a confirmação de seu diagnóstico. Ela foi uma das principais agentes para manter minha autoestima embaixo. Toda a vez que falava comigo, era de maneira a ressaltar alguma qualidade negativa que eu por ventura tivesse. Será que ela fazia isso na frente de meus avós? Sinceramente, não sei. Mas ela passava por mim e sussurrava um "doida", um "cara de lua", e me tratava meio aos trancos. Não acho que ela não gostasse de mim, ao contrário, acho que ela gostava sim. Mas eu era o membro mais frágil da família, e era em mim que ela descarregava suas frustrações e hostilidades. Só que na época eu não era capaz de entender isso, e cada "safanão", cada "porca", rosnado baixinho e com raiva, ficavam sangrando. Mas volto às minhas personagens. Eu lia muito, sempre adorei ler. Tive até um livrinho inglês, Candles For The Queen, que ganhei de uma amiga de vovó (na verdade, era uma muambeira, que vinha regularmente vender camisolas importadas e não sei mais o quê). Acho que, como ela nunca conseguiu freguesa que quisesse comprar o tal livrinho e percebeu que a neta da cliente vivia de livro na mão, resolveu agradar a cliente e se livrar do encalhe com o presente. Corri para o embrulho, que, pelo formato, já podia adivinhar que era um livro. Quando abri e não entendi, fiquei decepcionada, mas minha avó foi logo dizendo que eu estava aprendendo inglês e em breve seria capaz de ler a historinha. Olhei o livro todo e só reconheci a palavra queen. Mas o livro era ilustrado, e fui acompanhando a história. Descobri que candles eram velas. Pouco a pouco fui descobrindo o vocabulário, construindo a história da coroação da Rainha Elizabeth II (vejam como o livro era velhinho). A última aquisição foi um verbo, yelled, que pode ser traduzido como exclamaram. Por onde andará este livrinho? Guardei-o durante muito tempo, mas acho que minha mãe jogou-o fora, ou deu-o de presente. Quando fui estudar em Portugal, ela simplesmente deu tudo o que deixei para trás. Toda minha coleção do Príncipe Valente, todos os livros, discos e recortes dos Beatles, a coleção de histórias infantis que ganhei de prêmio de redação no ginásio – uma casinha de papelão com uma estante onde estavam uns dez livrinhos extraordinários como Tartarin de Tarascon, O Albergue do Anjo da Guarda, A menina das nuvens, e outros que já esqueci quais eram. Para terminar essas rememorações, claro que fui a Menina das Nuvens, claro que fui Narizinho (Tanto uma como outra compartilhavam meu nome). Daí que acabei com esse sonho de que, quando crescesse, queria ser personagem. Hoje entendo que, quando finalmente virar personagem, crescerei.

Friday, March 05, 2010

Vale a pena contar outras histórias


Esse vídeo foi "roubado" do blog da maravilhosa Adriana Lisboa. Assistam e prestem atenção nas histórias!

Sopa de letrinhas

Ontem tive minha primeira aula de hebraico! Estou orgulhosa por já conhecer o aleph (finalmente!), o shin e o sin, o mem e o mem sofit, o vav, o iod (iud), e as notações para a, é, ê e o. Um tracinho embaixo, ou um tezinho embaixo da letra equivale a "a". Dois pontinhos, deitados ou em pé, embaixo da letra equivalem a "ê". Três pontinhos, ou cinco pontinhos, debaixo da letra, "é". Um único pontinho, embaixo da letra, pode ser "i". Se estiver no alto, à esquerda, vira "o". Três pontinhos numa ladeirinha debaixo da letra, vira "u". Essas três últimas vogais podem ser representadas de outra maneira ( o iod, que é sempre i, e o vav, que quando tem pontinho em cima é "o" e com pontinho no meio à esquerda é "u". Ia me esquecendo de uma letrinha já aprendida, o tav (taf). Aprendi a escrever nome, quem, mãe, você no feminino, sol, lá, presente, seis, sexto, água, a preposição de, meu ou minha e dele, e mamãe. Pensando bem, já posso escrever shalom: shin com tracinho embaixo, lámed com o vau com pontinho em cima, mais o mem sofit. Não podemos esquecer que tudo isso é escrito da direita para a esquerda. Acho que ninguém entendeu nada, né? Mas eu aprendi a lição! Shalom a todos!

Tuesday, March 02, 2010

Terremotos

Me lembro (acho que me lembro) que no dia do terremoto do Haiti eu tinha acordado muito cedo e me deixado maravilhar pelo nascer do dia. E de ter pensado: num dia assim só podem acontecer coisas boas. Aí a televisão veio me contar as tragédias e me senti quase que ofendida com a "traição". 
Não me lembro se no dia do terremoto do Chile o dia estava bonito ou triste, mas me lembro da TV contando as tragédias e da presidente Bachelet falando na TV. Descartava o risco de tsunami no Chile, dizia que a situação era de catástrofe, mas que eles estavam preparados para enfrentá-la. Eu bem que indaguei aos meus botões (algo que aprendi a fazer com Machado) como alguém, mesmo que seja um país, pode estar preparado para uma catástrofe. Catástrofe é um termo saído do teatro grego que indica a reviravolta que traz o fim da tragédia, é o acontecimento principal, culminante da tragédia, o clímax. Se estamos falando de teatro grego, e as tragédias contavam as histórias dos heróis míticos, compreendo que toda a plateia estivesse preparada para a catástrofe. Quem se sentava nas arquibancadas dos anfiteatros estava careca ou cabeludo de saber que Ifigênia seria morta pelo pai, que Édipo mataria o pai e casaria com a mãe, que Fedra se apaixonaria por seu enteado, essas coisas. Mas acho que os gregos, freudianamente (não resisto!), estavam interessados em entender como é que se deve lidar com essas reviravoltas e as lições eram severas. Acho que os gregos da plateia queriam era saber como é que os protagonistas, surpreendidos (pois eles não sabiam) reagiam frente à catástrofe, para a qual eles nunca estavam preparados ( e depois a filosofia vai tentar sempre informar e preparar, mas sem grandes resultados – há sempre uma peça do quebracabeças que está faltando).
La Bachelet também não sabia, seu país não sabia que o tsunami chegaria, que os incêndios se ateariam, que o desespero levaria pessoas pacatas a saquear os supermercados, que o medo levaria outros a se armarem ameaçadores. Aposto que, a essas alturas, ela deve de estar contando o tempo para entregar a faixa presidencial.
Fui vítima indireta de um terremoto. Há muito tempo atrás um terremoto destruiu a bela cidade natal de meu marido. Na falta de internet, ficamos dias tentando falar ao telefone para saber da família dele. Muitas perdas materiais, mas estavam todos vivos. Ficamos tranquilizados de longe. Mas, quando finalmente nos encontramos outra vez, descobrimos que eles estavam mudados. A catástrofe os transformara inteiramente. Algo foi destruído no espírito de minha sogra. Algo desapareceu para sempre do olhar de meu sogro. Suspeitei, então, que as piores vítimas eram as que sobreviviam.
Nunca estive num terremoto, não sobrevivi a nenhum furacão, as enchentes que enfrentei foram amenas. Mas sou vítima de uma catástrofe pessoal. Meu terremoto ainda balança o chão sob meus pés, apesar do tempo que já se passou. Perdi minha "terra firma", piso sobre escombros e sobre um chão sem sustentação.  Estou vivendo no exílio…

Sunday, February 28, 2010

Confissões de quem não é santa

Às vezes tenho a sensação de que passo a vida me confessando. Será? Mas não é bem confissão, são relembranças que, graças à minha educação católica, sempre são acompanhadas de uma certa dose de culpa. Pois um dos ensinamentos de alguma catequista bem intencionada, mas fraca em psicologia, uma lição que ecoa até hoje em meus ouvidos é a de que "não sou nenhuma santa". E como já sofri por causa disso! Pois juro a vocês, meus quase 17 leitores, que houve um tempo em que eu queria mesmo ser santa! Lia aquelas vidas de santas que, numa certa época, eram publicadas com mais regularidade que bestsellers, e me derramava em lágrimas, almejando ser tão boa e desprendida como aquelas jovens, ou aquelas não tão jovens, que depois de pecar à grande, se arrependiam e santificavam. A culpa deve ter sido da maluca de minha mãe que fez a promessa de me vestir de Santa Teresinha durante não sei quantos anos. Pelo menos de um ano tenho certeza: tenho um retrato para provar isso. E até que estou bonitinha, pois eu era lourinha e sorridente, é fácil achar uma criança lourinha e sorridente bonitinha. Na foto (eu devia estar com uns 4 ou 5 anos) devem ter me recomendado seriedade, pois estou fazendo um visível esforço para não sorrir. Se algum dia eu voltar a mexer em fotos, prometo que escaneio e coloco na internet, e não é por mim, é pela perfeição da roupa que eu usei. Era mesmo uma roupa "oficial", só que em tamanho infantil. Tinha tudo perfeitinho como nas vestimentas das antigas freiras. E era feito daquela fazenda quente dos ternos de antigamente. Acho que lã. Mas não sei. Só sei que tive meu momento Macondo (muitos anos depois…) ao virar uma esquina em Roma e descobrir lojas e mais lojas vendendo batinas e roupas religiosas. Incrível, ainda vou voltar lá e comprar uma roupa de santa outra vez! A rua tinha um nome engraçado, tipo rua do Triplo Burro, e aí fiquei lembrando de minha vida de Santa Teresinha.
Volto às culpas, perdão pela digressão (olha aí!, juro que foi sem querer!). Pois bem, na minha casa acreditavam na educação pela censura ("Vovó, tirei 9,5 na prova!" "Como?! 9,5?! Se tivesse estudado direito tinha tirado 10!") Daí que, mesmo quando estava certa, a única certeza que tinha era a de estar fazendo algo errado.  Quando passei em segundo lugar no Vestibular, ao invés de comemorar, minha mãe disse: Está vendo? Sempre tem alguém melhor que você…  E tem mesmo, e a Cecília, minha amiga querida até hoje, tirou o primeiro lugar muito merecidamente. Devo à Cecília muitos dos melhores momentos que passei na Faculdade. Ela era uma espécie de mãe de todos nós. Acho que ela já estava com uns 50 anos quando fez o Vestibular. Ela era professora aposentada do Sion, tinha (tem) quatro filhos que estavam na Universidade, morava (mora ainda) num apartamento que tinha quintal e boteco de beira da estrada, o Bar Roco (já não sei mais se ela ainda pode usar o espaço, o edifício precisou criar cercas de segurança). No verão, ela montava uma piscina inflável no quintal e a gente virava criança (na verdade, éramos crianças). Havia uma química boa entre nós, os membros do grupo, hoje desfalcado pela morte do André, justo o mais novinho de todos. Saudades, meu querido.  Foi Cecília quem me diagnosticou: "A Lúcia sofre de carência lúdica!" É que era tão bom ter parceiros de brincadeiras! A gente jogava MANIA, ou DICIONÁRIO (adoro jogos de palavras). Acho que também jogávamos BATALHA NAVAL. E mais um outro jogo de cartas que se chamava CRAPEAU (???) Uma espécie de buraco em que se podia mexer no jogo do outro, já não lembro mais. E, na casa dela, havia diferentes jogos de tabuleiro, de damas a War. Tinha épocas em que chegávamos lá e havia uma mesa desmontável onde algum quebra cabeças de  umas 18 mil peças estava sendo montado por toda a família e os amigos. A gente chegava, conversava, ia até o tabuleiro colocava duas ou três peças, ou conseguia montar um pedaço isolado que ficava esperando até que o quadro crescesse mais. Me lembro de um que foi montado e depois o grupo se dividiu, uns queriam que as peças fossem coladas e transformadas num quadro, outros queriam desmontar tudo e começar de novo. Acho que o segundo grupo venceu, pois não me lembro de nenhum quadro. 
Bem, nessa época eu já não queria mais saber de ser santa. Já estava até casada e, nos quatro anos de duração do curso de Letras, tive dois bebês, terminando o curso com três. Sim, porque já tinha uma filha ao entrar para a Faculdade. Precoce, não? Nada santa. Graças a Deus!

Saturday, February 27, 2010

A fada de chapéu

Estou de molho em casa, com uma dessas viroses de final de verão, mas hoje, como estava me sentindo um pouco melhor e como já não aguentava mais olhar para minha aparência desgrenhada, fui ao cabeleireiro. No caminho cruzei com uma fada de chapéu de palha rosa. Era uma menina, de uns quatro anos, vestida de fada, com asa e varinha de condão, mas com um chapeuzinho redondo de palha, totalmente incongruente, absolutamente encantador. Ela ia caminhando feliz, risonha, voltando-se para os pais e outros adultos que a acompanhavam, numa espécie de ballet que admitia rodopios, meias voltas, corridinhas e paradas. Eu ia numa direção oposta à dela, nossos caminhos se cruzaram e tenho a certeza de que nem ela nem a família me notou, a mim, disfarçada na normalidade de roupas sem surpresas. Como eu não notei os outros transeuntes pelos quais passei antes, tampouco aqueles pelos quais passei depois. Mas a figurinha da fada de chapéu, com seu rosa tão vivo e vibrante contrastando com os pastéis dos véus e os brilhos iridescentes  de suas asas me acompanhou até em casa e agora me obriga a escrever, para que não me esqueça mais dela. Me deu vontade de escrever um conto de fadas, quem sabe?
O que não tenho nenhuma vontade de comentar é a história do manifesto. Como disse ao meu mano André, todo manifesto é bobo, ao mesmo tempo que todo manifesto é útil. Mas não vou discutir nada disso aqui. Igualzinho ao manifesto que recebi por imeio sobre a candidatura da Dilma Rousseff. Acho que está no FB. Mas que as fotos são hilárias, isso são. Confiram.

Wednesday, February 24, 2010

Imagens e fotos

Percebo que vou desenvolvendo umas manias esquisitas, que talvez sejam coisa hereditária. Minha bisavó, por exemplo, detestava tirar fotografias. Os poucos instantâneos que temos dela são inúteis, porque ela ou colocou a mão em frente ao rosto, ou virou de costas, ou abaixou o rosto. Sou uma péssima fisionomista, daí que não me peçam para descrevê-la. Ela era muito branquinha, pele de porcelana, macia. Não sei que idade tinha, mas ela me parecia bem velha. Ainda mais naquela época em que as plásticas e os preenchimentos não existiam, e as pessoas precisavam ostentar suas rugas, Mas não me lembro de rugas no seu rosto, e sim de uma papada, que dava a ela um ar empertigado e meio ofendido já que, talvez para tentar minimizar o apêndice, ela andava sempre com o queixo elevado, e muito empertigada. Ou talvez fosse apenas uma questão de boa educação. Minha bisavó não se "atirava nas cadeiras", como me acusavam de fazer. Ela se sentava com as costas eretas, as pernas juntas, e ficava longos períodos calada. Estava um pouco surda, e era difícil falar com ela. Uma vez assisti uma conversa entre ela e uma outra avó, a vó Beá. Uma dizia: – Hoje está fazendo calor. A outra respondia: – Há tempos que não vejo o professor. A primeira retrucava: – Acho que é a umidade. A outra dizia: Acho que está ensinando na universidade… Bem, não me lembro exatamente o que elas disseram, mas me lembro de que ficaram conversando por rimas, falando sozinhas, mas muito simpáticas e sorridentes, duas senhoras que tinham vivido na Belle Epoque, e que lamentavam seus paraísos perdidos. Minha bisavó chamava-se Maria Cândida, mas se dizia Dona Mary. E nunca me permitiu chamá-la de bivovó. Tinha que tratá-la de Dona Mary, como todo o mundo. E ela não gostava de abraços nem de beijos. Acho que, quando ela olhava para mim, me via como um sinal da decadência de sua família. Eu era uma menina bobona e mal-educada, para os parâmetros dela. Pelo menos essa é a impressão que fiquei.
 De vez em quando ela me levava para uma "estação de águas". Uma das mais antigas lembranças que tenho é a de uma ida a Caxambu, de avião. Toda a família no avião, Dona Mary instalada em uma poltrona e, quando o avião finalmente levantou voo, a senhora tão compenetrada começou a gritar de medo e só parou quando o avião voltou a pousar. Me lembro de meu avô tentando fazer que ela se calasse, sugerindo que ela fechasse os olhos, e brigando comigo por abrir a cortininha e deixar que a visão das nuvens a atemorizasse ainda mais. Resultado, tivemos que voltar para o Rio pela superfície. E nunca mais fomos a Caxambu de avião, até porque depois acabaram os voos para lá.
Numa outra vez, fizemos uma viagem de trem, meu avó, Dona Mary e eu. Ao chegarmos a nosso destino, o vagão em que estávamos ficou fora da plataforma, e não sei porque, precisamos descer no meio do campo. Meu avô pulou do vagão, me ajudou a saltar e aí começou a comédia: Ele pegou a mãe que, assustada, começou a gritar e tapou os olhos dele com as mãos. Vovô ficou cambaleando, sem saber para onde ir, com os olhos tapados. Eu fui puxando os dois, me sentindo como uma personagem de uma fábula. Tinha medo de que o trem começasse a andar e eles ainda estivessem ali ao lado. Vovô carregando a mãe nas costas, meio desnorteado, e eu puxando os dois pela aba do terno de linho. Hoje imagino a aflição de meu avô, sem saber onde pisar, cuidando da mãe e da neta, às cegas.
Meu avô era o meu querido, meu herói, meu ídolo. Moreno, forte, bonito, era um homem carinhoso e bom. Ele me contava histórias, milhares de histórias, todas inventadas por ele. Eram as histórias do caxinguelê (bichinho mais esperto da floresta) ou as histórias do Zumbizão e do Zumbizinho (ele e eu). Foi ele quem me ensinou a amar o Centro da Cidade.  Eu ia com ele para a Câmara, ali, ao lado do Amarelinho, e me sentia o máximo. Passeávamos pelas ruas cheias do que, na minha opinião, eram palácios. Andávamos em elevadores antigos, de portas manuais, e conversávamos com os ascensoristas, e com garçons, sempre tão delicados, e sempre bem informados. Na hora do lanche, íamos ao Amarelinho onde o amigo do vovô, o Xavantes, tomava um copo de leite gelado com sal. Nunca tive coragem de experimentar. Devia ser horrível. Vovô me levava ao dentista, no largo da Carioca. Depois ( e acho que por isso meus dentes nunca prestaram) íamos comemorar na Colombo, ou na Cavé, ou na Manon. Para onde íamos, havia sempre um amigo do vovô por perto. Na ABI, assistíamos a filmes maravilhosos. Minha iniciação ao cinema japonês  foi ali. Vi um filme que me deixou impressionadíssima, em que um lobo comia um bebê recém nascido. Foi minha revisão da história de Chapeuzinho Vermelho. Os lobos comiam mesmo as criancinhas e depois não havia caçador que desse jeito no assunto. Na Câmara, vovô tinha amigos de nomes esquisitos: Honestaldo de Pennaforte (eu fazia questão do H no nome dele),  o supracitado Xavantes, Lígia Lessabá (Lessa Bastos). O poeta Jorge de Lima, para mim, era um pintor. Vovô tinha um quadro dele, que ficou para minha tia. E frequentava o sítio que ele tinha em Piabetá. Foi lá que nasceu minha madrinha Mara, com o nome mais popular de Maria da Penha. Ela deve ter inspirado a famosa música que diz "ela só pensa em namorar". Toda as vezes que me arrumava para sair, era uma tragédia. Alguma peça essencial de vestuário ficava faltando, ou ela calçava meus sapatos nos pés trocados, alguma coisa no gênero. E acho que na época ela namorava algum fotógrafo, pois tinha muitas fotos 3x4 que ia tirar com ela. Depois perdi o gosto pelas fotos. Meu avô, avesso que era a todas as maquininhas, nunca teve uma máquina fotográfica. Também não teve automóvel e a nossa TV, enorme, "faixa preta da GE", só era ligada pela vovó, que gostava de assistir um programa chamado Os intocáveis, e outro chamado Perry Mason. Vovô nem lâmpada trocava. Ele chamava o porteiro. Minha avó é que fazia todos os pequenos consertos elétricos, trocava os fusíveis, a resistência dos ferros, as tomadas das geladeiras e dos aspiradores de pó. E ela era a dona de nossa vitrola, onde escutei incontáveis historinhas que vinham nos disquinhos coloridos que até hoje amo. Minha primeira grande "possessão" foi uma vitrolinha portátil, que só abandonei depois de casada, quando meu marido, que adorava todos esses brinquedos tecnológicos decretou que ela distorcia os sons. Chega de saudade. Imagens e fotos do passado, como diria o poeta, doem muito.

Monday, February 22, 2010

Volta à escola


É hoje o dia…, diz a canção. E os brasileiros, entre sábios e brincalhões, avisam: hoje é o primeiro dia útil de 2010. Tenho uma grande implicância com essa coisa de dia útil. Se alguns dias são úteis supõe-se que os que não são úteis são inúteis. E como podemos chamar algum dia de inútil? Nestes dias, vivemos. São os dias em que encontramos os amigos, em que vamos ao cinema, em que nos estiramos ao sol. São dias de passear na praia, de dormir até mais tarde, de macarronada com a família. Ou dias de futebol, de cabeleireiro, de brincar com as crianças. São dias em que podemos mergulhar na leitura, sem interrupções. Dias de ficar olhando pela janela, invejando o ânimo de quem se aventura pelas ruas, seja para encontrar um amor, seja para dançar nos blocos, ou para ir à Igreja. Aí me lembro de Manoel de Barros, penso em sua arte da inutilidade, a poesia. O bom da poesia é que ela existe assim, sem compromisso. Não é útil, e, por isso mesmo, é a mais necessária das artes. Pois é nesses dias inúteis, nessas artes inúteis, nas ações inúteis que realmente encontramos o essencial. Um gesto de carinho, por exemplo, precisa de ser inútil, pois, se anexarmos alguma utilidade a ele, o carinho se embolora instantaneamente, se modifica e pode até virar agressão. Quem recebe um carinho porque o outro pensa que, nos acarinhando, há de conseguir alguma coisa, se sente degradado, não é não?
Quem nos roubou a vida? Pois poucos são os que ainda sabem fazer essas pausas e olhar para as coisas com desprendimento. Quem nos ensinou essa coisa de que "tempo é dinheiro"? Tempo é vida, é só o que temos. Mas fomos aprendendo a "fatiá-lo", dividindo-o em dia e noite, em horas, minutos, segundos, décimos de segundo, milésimos, até ficarmos com nada, esquecendo de que é possível regular nossos momentos pelas sensações e lembranças. 
Estamos de volta à escola. Vamos para lá para reaprendermos as coisas que a utilidade nos retira. Se a escola pode ser apenas um adestramento para a utilidade, ela também é a porta que nos liberta para nos reencontrarmos com a vida. A escola nos ensina, meninos travessos que somos, a desmontar o relógio para descobrir o tempo. Ela nos revela a utilidade para nos mostrar que tudo isso só importa se soubermos que o segredo da utilidade está em contemplá-la a partir da inutilidade essencial. 
Filosofei tanto, hein? Não era essa a intenção. 
Só queria postar alguma coisa absolutamente inútil…

Wednesday, February 17, 2010

Sem fantasia.


 Descobriram que o rei Tut morreu de malária. E que tinha lábio leporino. Que seus pais eram irmãos. Que estava com a perna quebrada e que devido a uma doença os ossos de seu pé esquerdo estavam sendo destruídos, o que o obrigava a andar de bengala. 
Descobriram que o nariz de Dona Cleópatra não teve nada a ver com a passagem da República
Romana a Império Romano. E que o amor de Cleópatra por Marco Antônio foi uma lenda, na verdade eles brigavam muito e Cleópatra, que já não aguentava mais o amante presunçoso, deixou-o no meio da batalha naval e veio brincar o carnaval no Rio.
O Egito, conforme estou lendo agora num livro simplesmente a-pai-xo-nan-te, As núpcias de Cadmo e Harmonia, foi o local de nascimento de quase todas as versões mitológicas. Acompanhando os raciocínios de Roberto Calasso a gente vai tendo arrepios de prazer, percebendo as verdades por baixo das fantasias. E, se algumas destróem nossos sonhos, como as descobertas sobre o Tutancâmon, essas descobertas nos fazem amadurecer e crescer. E nos dão o prazer do conhecimento, que é viciante.
Ontem fui assistir um filme que me deixou eletrizada do início ao fim: Educação. Pelamordedeus, não percam! Um filmaço. Uma história simples, real, na qual a fantasia desempenha um papel contrastante com a realidade (não é sempre assim?) e onde percebemos que nossos mitos, mesmo quando nos enganam e poderiam nos destruir, quando depurados pelo conhecimento são caminhos para a superação. Adorei o filme, os atores, me apaixonei, torci, e, embora desde o início soubesse que aquilo não ia dar certo, em momento nenhum deixei de curtir cada pedacinho da história. Todos os detalhes do filme me agradaram: do cenário ao vestuário, dos atores à trilha sonora, dos diálogos aos silêncios. As imagens falam por si mesmas, contam uma história ao lado da história. Por exemplo, o carro parado esperando que a mãe com as duas crianças atravessem a rua tem um significado na história, que vai sendo construída através dessas impressões visuais. 
Ou então, pequenos advérbios "– Ainda gosto dos pre-rafaelitas", por exemplo, resumem toda uma história. 
Há muito tempo não me entusiasmo tanto assim com um filme. Quero ir de novo, é como um livro que a gente tem prazer em reler, pois sabe que vai encontrar mais coisas que deixamos passar da primeira vez. E, o mais extraordinário, é que nos apaixonamos por todos os personagens, sem exceção, perdoamos seus erros, gostamos deles em suas imperfeições e desonestidades, compreendendo sua humanidade.
Não sei o nome de nenhum dos atores, exceto Emma Thompson, que faz um bico. E sei o nome do roteirista, Nick Hornby, um dos escritores mais interessantes da atualidade, que apesar de estar  ganhando uma nota preta com seus livros e roteiros, continua professor de adolescentes e faz parte de uma banda de rock alternativa. Mas todos estão ótimos, e merecem ser destacados. Mas julguem por si mesmos.

Sunday, February 14, 2010

Blocos e mais blocos

Um Carnaval a mais, sob o sol, e a vida dando voltas… Aqui onde estou, na minha torre, escuto a cantoria mais ou menos afinada, e o barulho das vozes de tantas pessoas que não se cansam de rodar pela cidade, em demonstrações genuínas ou não de alegria. Será que gosto de Carnaval? Certamente que gosto de alegria, e me emociona escutar o pessoal cantando. Certamente que não gosto de calor e de aperto. E detesto a "troca de fluidos corporais" a que somos obrigados quando entramos num bloco e passamos por pessoas suadas que, ao esbarrar em nós, deixam um pouco de si e levam um pouco de nós. Só de pensar já faço careta. Mas o que adoro mesmo é me fantasiar. Qualquer florzinha no cabelo, qualquer brilho de lantejoula me fascina. Ano que vem, já me prometi: vou sair de Colombina – uma fantasia delicada, antiguinha, romântica, como posso resistir? Por enquanto uso arquinhos de cabelo e viro Dona Cleópatra, ou prendo uma flor vermelha nos cabelos e fico parecendo Doña Carmen. Estimulada pelas amigas muito mais entendidas em Carnaval do que eu, vou ao Sassaricando, ao Boitatá, ao Boi Tolo, sou rodeada pelo Sapucapeto e pelo Azeitona, pelo Areias, pelos blocos sem nome que ficam aqui na Dias Ferreira, alimentados pelos vendedores de cerveja, e adereçados pelos camelôs de arquinhos e máscaras. A fantasia mais comum que tenho visto é a de "alegoria" – umas misturas malucas que unem vestes de Nero a perucas rastafaris, ou perneiras romanas a máscaras beijoqueiras, que ao invés de cobrirem os olhos, cobrem as bocas das pessoas. As mulheres são mais certinhas: muitas Noivas, muitas mesmo. Muitas Trepadeiras, algumas Havaianas, Enfermeiras, Policiais. As princesas também saem de seus castelos e cruzam as ruas ao lado de Avatares (suponho que sejam, já que estão todos pintados de azul). Melindrosas balançam suas franjas ao lado de Gatas e de Onças. Muita gente se fantasia de bicho: hoje, ao meu lado, uma Galinha esquecia os cacarejos e cantava entusiasmada o rancho das pastorinhas. Ontem foi o dia do desfile do Império Serrano, e lá estava eu fantasiada de escrava acorrentada, exibindo uma gaforinha que mais parecia uma Marge Simpson tropical. Meio metro de peruca e uma cangalha prateada. Pelo menos não era das mais quentes. Meu gás já acabou há muito tempo, mas as amigas não me deixam desistir. Haja produção! Vou seguindo os blocos, mas sempre pela sombra, sorrindo com o riso dos outros, cantando pedaços de sambas e marchas, arriscando um ou outro passo de samba, quando o espaço permite. Ainda me convidam para mais um baile, para mais um bloco, mas o que gosto mesmo é de chegar em casa e ver o livro que me espera sobre a cama. Vou tomar mais um banho e mergulhar na leitura.

Saturday, February 06, 2010

Carnaval

Nos tempos em que estudava literatura medieval, li muita coisa engraçada. O pessoal da época, sempre lembrado pela religiosidade e guerras, já se amarrava numa comédia, e havia muita gente boa praticando o gênero. Um dos livros engraçados e inteligentes era o Libro de Buen Amor.  O bom amor, como é entendido pelos cristãos, é o amor a Deus. A pretexto de estimular o tal do bom amor, o espertinho do arcipreste de Hita, a quem atribuem a autoria da história, vai revelando quais os "maus amores" que devemos evitar. Claro que aí vai se sucedendo uma série de situações que deixaria as pornochanchadas para trás. Para citar uma delas, o narrador pretende se afastar do mundo e virar um ermitão. Nas montanhas encontra uma "pastora" que, isolada, há muito tempo não vê um homem por aquelas alturas. Apiedada do estado de fraqueza do narrador ela o alimenta e aquece para, logo em seguida, usá-lo como objeto sexual. O que começa por deleitá-lo, mas depois o deixa exausto, esgotado, e ele tenta fugir e essas são as cenas mais hilárias de todas. Pois hoje, tentando escapar dos blocos que tomaram o Leblon, me senti vivendo uma dessas histórias medievais. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Quando se acaba de tomar um banho e passar perfume, colocar uma roupinha levinha e descontraída, existe coisa pior do que encontrar um bloco cheio de gente suada e bebendo cerveja? E todos com espírito de confraternização? Foi o que me aconteceu hoje, quando ia encontrar com a família para almoçar. Incauta, cruzei com o tal do Imaginou? Então amassa! Por conta de não conseguir nem imaginar, dei longas voltas até chegar a meu destino, e ainda agradeci aos céus por estar a pé, pois de carro teria ficado presa por horas no trânsito. Depois, esquecida da emoções do almoço, peguei uma carona para voltar para casa. Achei que a Dias Ferreira já estava liberada, mas, qual o quê! Ao virar a esquina descobri que a rua estava tomada por um bloco que parece ter estacionado para sempre aqui ao lado de casa. Não sei o nome, mas é o bloco com os músicos mais desafinados da história do Carnaval. Os caras do cavaquinho estão tocando sempre a mesma coisa, não importa o que o pessoal do bloco cante e o ritmo que a bateria imprima às canções. Eles tocam como se tivessem aprendido a tocar fazendo acompanhamento para karaokê. Sabe aquelas frases musicais que não combinam com nada nem dão ideia do que está sendo tocado? Ficam naquele barulho apressadinho do cavaquinho, e deixam a todos zonzos. Muito chato isso. Leio Marques Rabelo e descanso com Lillian Hellman. Dois livros de memórias, tão diferentes como suco de uva e água. Como homem e mulher. Como faca e garfo. Mas cada qual com seu valor e utilidade. E combinando em minha cabeça, me mostrando um mundo desaparecido, que teve seus encantos e seus horrores. O bloco dos desafinados me dá a deixa para terminar, com a linda música do Gonzaguinha, que eles vão assassinando sem piedade: Viver e não ter a vergonha de ser feliz! A vida é bonita, concordo com o compositor. Só que às vezes cansa…